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Léo Taxil - A Bíblia Divertida Dando as citações textuais da Sagrada Escritura e reproduzindo todas as refutações opostas por Voltaire, Fréret, lorde Bolingbroke, Toland & outros críticos. Edição completa de 1903-1904
Índice Sobre Léo TaxilLéo Taxil é o pseudônimo de Marie Joseph Gabriel Antoine Jogand-Pagès (Marselha, 21 de março de 1854 – Sceaux, 31 de março de 1907), jornalista e escritor francês que ficou célebre por sua sátira anticlerical e por uma das mistificações mais audaciosas do século XIX. O pseudônimo vinha de Léonidas, um antepassado materno, e de Taxiles, o rei indiano aliado de Alexandre, o Grande. O pai, comerciante de ferragens católico e monarquista, pretendia fazer dele um rato de sacristia e o mandou estudar com os Irmãos Maristas e com os jesuítas. Aos catorze anos, sob a influência de La Lanterne, o jornal clandestino de Henri Rochefort, o menino rompeu com a religião e tentou fugir para se juntar a Rochefort no exílio, em Bruxelas. O pai mandou interná-lo por dois meses na Colônia Penitenciária de Mettray, um reformatório para jovens delinquentes, onde, segundo suas próprias palavras, jurou ódio eterno à religião. O mistificador revelou-se cedo. Em 1873, sob o estado de sítio, cartas de pescadores que tinham escapado por pouco de tubarões esvaziaram as praias de Marselha, e o general que comandava a praça mandou cem homens armados num rebocador caçar os tubarões. Não encontraram nenhum. Os pescadores não existiam, e todas as cartas eram da mesma mão, mas o autor nunca foi descoberto. Só em 1897 Taxil revelou que as escrevera ele mesmo, aos dezenove anos, para se vingar do general, que tinha fechado seu jornal, La Marotte. Alguns anos depois, em Genebra, para onde fugira a fim de escapar a condenações por delitos de imprensa, anunciou, segundo ele próprio contou, uma cidade romana submersa no lago Lemano: vieram turistas de toda a Europa, e um arqueólogo polonês afirmou ter reconhecido uma praça e os restos de uma estátua equestre. Em 1878, estabeleceu-se em Paris, onde fundou a editora Librairie anti-cléricale e os jornais L’Anti-Clérical e La République anti-cléricale. Em 1879, compareceu perante o tribunal do júri do Sena por seu folheto À bas la calotte!, acusado de ultraje a uma religião reconhecida pelo Estado e de ultraje aos bons costumes, e foi absolvido. Em 1881, entrou para uma loja maçônica, que o excluiu antes do fim do ano, sem que ele tivesse passado do primeiro grau, o de aprendiz. Em La Bible amusante (1882), cerca de 400 páginas ilustradas por Frid’Rick, e na sua obra irmã dedicada ao Novo Testamento, La Vie de Jésus, recontou a Bíblia com pesada ironia, apontando o que considerava suas contradições, erros e absurdos. Outras obras pintavam os chefes da Igreja como libertinos à maneira do marquês de Sade. A empresa não durou: em 1884, a Librairie faliu, e os relatórios policiais desse ano o descrevem na miséria. Em 20 de abril de 1884, o papa Leão XIII publicou a encíclica Humanum Genus, que dividia o gênero humano entre o reino de Deus e o reino de Satanás, cujos partidários se uniam, “liderados ou auxiliados” pela maçonaria. Aos bispos, o papa prescrevia em primeiro lugar: “arrancar a máscara da Maçonaria, e deixar que ela seja vista como realmente é”. Taxil respondeu ao apelo. Em julho de 1885, publicou na sua própria République anti-cléricale uma carta em que renegava todos os seus escritos contra a religião, e a Liga Anticlerical, que ele ajudara a fundar, o expulsou como traidor. Depois de um retiro com os jesuítas e de uma confissão geral, foi reintegrado na Igreja, e em 1887 Leão XIII o recebeu em audiência privada. O convertido voltou sua pena contra a maçonaria, com a mesma veemência e os mesmos métodos. Seus primeiros livros antimaçônicos misturavam autênticos rituais com invenções que faziam do Grande Arquiteto do Universo o diabo em pessoa. Vendiam bem: em 1889, comprou um castelo em Sévignacq, no Béarn. De 1892 a 1895, em 240 fascículos assinados “Dr. Bataille” e redigidos com o médico de bordo Charles Hacks, Le Diable au XIXe siècle (O Diabo no século XIX) pretendeu desmascarar o “paladismo”, uma maçonaria luciferiana inventada por Taxil, e a sua suma sacerdotisa Diana Vaughan, igualmente imaginária. Em suas páginas, numa sessão espírita em Londres, uma mesa transformou-se em crocodilo alado e pôs-se a tocar piano; Sophie Walder, a rival de Diana, atravessava as paredes, e a sua serpente lhe escrevia profecias nas costas com a ponta da cauda; a própria Diana viajava de planeta em planeta e era noiva do demônio Asmodeu. Em 1895, Taxil lançou uma revista em nome dela. Após três números, a revista anunciou a sua conversão: ela deixara escapar uma palavra de admiração por Joana d’Arc, cujo nome pusera os demônios em fuga. As suas Mémoires d’une ex-palladiste vieram em seguida, em fascículos. Roma mostrou-se benevolente: o cardeal Parocchi transmitiu a Diana uma bênção muito especial do papa, e em 1896 a revista jesuíta Civiltà Cattolica abençoou “a nobre Diana Vaughan”. A dúvida, porém, crescia. O bispo de Charleston, na Carolina do Sul, onde Taxil situara a sede do paladismo, foi a Roma assegurar ao papa que os maçons da sua cidade eram gente honrada e que o seu templo não abrigava nenhuma estátua de Satanás. Leão XIII enviou a sua bênção ao primeiro congresso antimaçônico internacional, reunido em Trento em setembro de 1896 diante de trinta e seis bispos, onde Taxil foi aclamado. Mas foi em Trento que as dúvidas vieram a público: céticos exigiram a certidão de nascimento de Diana e o atestado do sacerdote que recebera a sua abjuração, e o congresso nomeou uma comissão encarregada de apurar se ela existia. Em janeiro de 1897, a comissão não encontrou prova nem a favor nem contra, e Pierre Lautier, destacado advogado católico que afirmara ter almoçado com ela, admitiu que talvez tivesse sido enganado. Taxil prometeu enfim apresentá-la numa conferência, na segunda-feira de Páscoa, 19 de abril de 1897, na Sociedade de Geografia, em Paris. A noite começou com o sorteio de uma máquina de escrever oferecida por “Miss Diana Vaughan”. Depois, diante de jornalistas, sacerdotes, livres-pensadores, maçons e dois delegados da nunciatura, Taxil falou durante duas horas. Agradeceu aos bispos e à imprensa católica a colaboração na sua mistificação suprema, a sua própria conversão, leu as cartas elogiosas vindas de Roma e anunciou que Diana Vaughan e o paladismo também eram mistificações, parte de uma peça pregada ao longo de doze anos para pôr a nu a credulidade da Igreja católica romana. Quem lhe emprestara o nome, segundo ele, era uma datilógrafa, representante na Europa de uma casa americana de máquinas de escrever, que se divertira muito em se corresponder com bispos e cardeais. Os tubarões e a cidade submersa, disse ele, tinham sido o começo de uma longa carreira. Na sua confissão geral, lembrou, ele se acusara de um assassinato imaginário; agora confessava um infanticídio: o paladismo estava morto, e o seu pai acabava de matá-lo. Entre os presentes, uns riram, outros assobiaram; um sacerdote que subira numa cadeira para replicar foi vaiado. Taxil tivera a precaução de mandar reter bengalas e guarda-chuvas na entrada; mesmo assim, o tumulto degenerou em pugilato, e a polícia teve de escoltá-lo até um café vizinho. O jornal Le Frondeur publicou na íntegra a sua conferência com o título Douze ans sous la bannière de l’Église (Doze anos sob a bandeira da Igreja). Roma nada respondeu; nenhuma sentença era necessária, pois o apóstata público estava excomungado de pleno direito. A fúria veio da imprensa católica, que o celebrara durante doze anos e agora o denunciava como vigarista. Nada disso perturbou Taxil. A partir de 1897, La Bible amusante, que ele renegara em 1885, voltou a ser posta à venda, aumentada para cerca de 814 páginas com 400 ilustrações numeradas de Frid’Rick; a edição completa de 1903-1904 começava com a sua carta aberta ao papa Leão XIII e trazia, como anunciava a capa, as citações textuais da Sagrada Escritura com as refutações de Voltaire, Fréret, lorde Bolingbroke, Toland e outros críticos. Divorciou-se e casou-se de novo, e em 1899 trocou Paris por Sceaux, onde um relatório policial de 1902 o mostra vivendo confortavelmente. Continuou a escrever sob outros nomes: romances licenciosos sob o de Prosper Manin e, a partir de 1904, manuais de economia doméstica sob o de Jeanne Savarin, entre eles um guia contra as fraudes alimentares. Nos seus últimos anos, trabalhou como revisor numa tipografia. Em 1906, uma revista americana citou as suas confissões: ele tornara os seus relatos sobre os maçons tão grotescos que pensava que todos perceberiam a brincadeira, mas quanto mais mentia para mostrar que mentia, mais acreditavam nele. Morreu em Sceaux em 31 de março de 1907. O caso Taxil tornou-se o símbolo da credulidade que pusera a nu, e no entanto as ficções paladistas ainda são às vezes citadas como fatos na literatura sobre conspirações e maçonaria. La Bible amusante encontrou o seu público mais amplo na União Soviética, onde foi traduzida já em 1925; a edição de Moscou de 1962 teve, sozinha, uma tiragem de 450.000 exemplares, e o livro foi reeditado em 1965 e 1976, e em Minsk em 1988. Umberto Eco fez de Taxil e de Diana Vaughan personagens do seu romance O cemitério de Praga (2010). A presente edição, com as suas 400 ilustrações, mostra também que o livro sobreviveu ao seu autor. Entre os seus escritos anticlericais: À bas la calotte! (Abaixo o clero!) (1879) Les Soutanes grotesques (As batinas grotescas) (1879) La Chasse aux corbeaux (A caça aos corvos, isto é, aos padres) (1879) Le Fils du jésuite (O filho do jesuíta) (1879) Les Bêtises sacrées (As asneiras sagradas) (1880) Les Friponneries religieuses (As trapaçarias religiosas) (1880) Plus de cafards! (Chega de santarrões!) (1880) Calotte et calotins (Clero e padralhada) (1880-1882) Les Borgia (Os Bórgia) (1881) Les Amours secrètes de Pie IX (Os amores secretos de Pio IX) (1881) Les Pornographes sacrés (Os pornógrafos sagrados) (1882) La Bible amusante (A Bíblia Divertida) (1882) — primeira edição, cerca de 400 páginas Un Pape femelle (Um papa fêmea) (1882) L’Empoisonneur Léon XIII (O envenenador Leão XIII) (1883) Pie IX devant l’Histoire (Pio IX perante a História) (1883) La Vie de Jésus (A vida de Jesus) (1884) La Prostitution contemporaine (A prostituição contemporânea) (1884) Les Maîtresses du Pape (As amantes do papa) (1884) La Vie de Veuillot immaculé (A vida do imaculado Veuillot) (1884) La Bible amusante (A Bíblia Divertida) (1904) — edição completa, cerca de 814 páginas Os 400 desenhos de Frid’Rick provêm da primeira edição de 1882 (Paris, Librairie anti-cléricale), onde estão impressos em tamanho maior (140 × 110 mm) e cada um traz apenas um título e algumas linhas de texto. O texto foi traduzido da edição completa de 1903-1904 (Paris, Librairie P. Fort), que imprime os mesmos desenhos em tamanho menor (102 × 80 mm). Taxil citava sobretudo a Bíblia de Jean-Frédéric Ostervald (1744), cujas palavras alterava de vez em quando para obter um efeito cômico; em outras passagens seguia a tradução que Voltaire dá em La Bible enfin expliquée (1776). O capítulo Sobre esta edição, no fim do livro, explica como esta edição apresenta o texto de Taxil, as citações da Bíblia, as notas do editor e os números de página de 1904, e traz as fontes deste capítulo.
O capítulo Sobre esta edição, no fim do livro, explica como esta edição apresenta o texto de Taxil, as citações da Bíblia, as notas do editor e os números de página de 1904, e traz as fontes deste capítulo. Dedicatória ao Santo Padre Infalível
Santíssimo Padre, Dizem que não estais contente, desde 19 de abril deste ano, o vigésimo do vosso glorioso pontificado. O desenlace inesperado da minha alegre mistificação vos pôs, ao que asseguram, em grande cólera, como um simples père Duchesne (alusão a “Le Père Duchesne”, jornal da Revolução cujo personagem-título era célebre por suas cóleras desbocadas; “a grande cólera do Père Duchesne” encabeçava número após número); pois saber que se foi mistificado durante doze anos por um livre-pensador cético é coisa eminentemente desagradável, quando se é o representante do Espírito Santo, quando se é direta e permanentemente inspirado pelo divino pombo (fr. “le divin pigeon”: assim Taxil chama o Espírito Santo, que a arte cristã representa como pomba; o “pigeon” é o pombo comum, não a “colombe” das imagens sacras); mas saber que essa posição ridícula é conhecida do mundo inteiro, eis o cúmulo do desagrado, eis o que melindra em grau supremo. Ó meu papa, que telha (fr. “quelle tuile”, locução familiar: que desgraça repentina; a telha cai do telhado sem avisar) para o dogma da vossa infalibilidade!... Um farsante (fr. “fumiste”, literalmente “fumista”, o operário que instala e limpa fogões e chaminés, de “fumée”, fumaça; num vaudeville de 1840, “La Famille du fumiste”, um fumista enriquecido mistifica todo mundo repetindo “c’est une farce de fumiste”, “é uma peça de fumista”, e desde então a palavra designa também o brincalhão que engana as pessoas sem perder a seriedade; Taxil dá esse nome a si mesmo e aos autores da Bíblia) de Marselha regalou-se com a vossa venerável cabeça (fr. “se payer la tête de quelqu’un”, locução familiar: divertir-se à custa de alguém); horror! — E tomara as suas medidas para que a sua farsa (fr. “fumisterie”: mistificação sustentada com a maior seriedade do mundo; originalmente, o ofício do fumista) terminasse explodindo como uma bomba, com um estrondo retumbante na imprensa dos dois hemisférios; maldição! (o grito do vilão de melodrama: Taxil encena a cólera do papa, não a sua) Joaquim, meu velho Joaquim (Leão XIII chamava-se Gioacchino Pecci, Joachim em francês, Joaquim em português: Taxil chama o papa pelo nome de batismo, como a um velho camarada; mais adiante, Rochefort designa-o pelo sobrenome, com o “le nommé”, “o chamado”, dos autos de polícia), compreendo a vossa santa ira. Parece-me ver a vossa careta, ao lerdes aquele divertido artigo em que Henri Rochefort resumiu tão bem a situação: «Esse santíssimo padre, que recebeu o farsante em audiência particular, não pode negar ter estado mancomunado com ele; do contrário, a sua infalibilidade, da qual fez um dogma, ficaria imediatamente reduzida a pó. Uma vez que não percebeu a peça que o seu visitante se dispunha a pregar-lhe, que é feito dessa luz do alto sobre a qual repousa, aos olhos dos caducos do catolicismo, todo o poder dos sucessores de São Pedro? Léo Taxil caçoou dele, mas ele próprio caçoava de nós; e se o primeiro, durante doze anos, fez engolir as suas patranhas (fr. “blagues”: a “blague” é uma história inventada e contada com a maior seriedade do mundo) aos bispos, o segundo nos faz tragar as suas há doze séculos. Ou o chamado Pecci não é mais infalível do que vós ou eu, e só lhe resta apresentar, sem demora, a sua demissão de representante de um deus que ele não representa em coisa alguma; Ou, sendo infalível, constituiu-se sócio de um patranheiro de quem se servia para arrancar o dinheiro dos adversários da maçonaria; caso em que só restaria encarregar os gendarmes de ir prendê-lo no seu palácio, por abuso de confiança e subtração fraudulenta.» Três vezes ai! meu velho Joaquim, eis o dilema que um ilustre panfletário vos pôs, no meio dos bravos da galeria. E de Paris a Nova York, de Londres a Montevidéu, a imprensa universal repetiu o dilema; e por toda parte ressoaram os aplausos, por toda parte se riu às gargalhadas da vossa confusão, de toda parte os narizes compridos (fr. “les pieds de nez”, locução: o gesto zombeteiro do polegar encostado no nariz, com os dedos abertos, como se o nariz tivesse um pé de comprimento) se esboçaram, zombeteiros, na direção da vossa tríplice coroa. E vos perguntáveis, ó décimo terceiro dos benditos (fr. “sacrés”, sagrados e, antes de um nome, como aqui, praga corrente que quer dizer “malditos”; “bendito” faz em português esse mesmo duplo ofício, e numa só palavra Taxil chama os treze papas Leão santos e malditos ao mesmo tempo) Leões, se aquilo não seria um pesadelo!... Pesadelo, nenhum. Estáveis bem acordado, e a formidável gargalhada que sacudiu o globo era a irritante realidade. Santíssimo Padre, devo-vos uma consolação. A onda da impiedade engrossa todos os dias; é uma verdadeira maré que sobe, sobe sem cessar. Na querida França, que é a filha primogênita da Igreja, o ensino foi laicizado há já muitos anos; de tal sorte que as novas gerações que se criam nas escolas do Estado não conhecem a primeira palavra da História Sagrada. Em várias ocasiões, constatei, com uma dor indizível, que certos jovens ignoram as edificantes aventuras de Abraão, Isaque, Jacó, José, Moisés, Josué, Gideão, Sansão, Samuel, Boaz, Saul, Davi, Salomão, Elias, Eliseu, Jonas, Ezequiel, Ester, Tobias, Judite, Daniel, etc., etc. Desses nomes célebres e venerados, têm quando muito uma vaga ideia. À pergunta que um digno sacerdote fez há pouco: «Conheceis os Macabeus?» responderam: «Muito pouco; só fui duas vezes ver a Morgue.» (“os Macabeus” — fr. “les Macchabées”; em gíria, um “macchabée” é também um cadáver: o jovem pensou que o sacerdote lhe falava dos mortos expostos na Morgue de Paris, então aberta ao público) Semelhante estado de coisas é desolador. Aonde iremos parar, justo céu, se o conhecimento dos piedosos episódios da Bíblia se perder, se os escritos inspirados outrora pelo divino pombo caírem no esquecimento?... É tempo de reagir, Santíssimo Padre. Por isso empreendo uma nova edição das Sagradas Escrituras. Não omitirei nada, e procurarei tornar esta leitura o mais atraente possível. Haveis de ver. Na minha próxima viagem a Roma, solicitarei da vossa augusta mão mais uma bênção especial, para juntar à minha preciosa coleção. Se, contudo, confiando em mim, vos dignardes enviar-me essa bênção de primeira escolha sem esperar a minha visita — Santíssimo Padre, não vos acanheis (fr. “ne vous gênez pas”, locução, literalmente “não vos incomodeis”; diz-se com ironia a quem toma liberdades, e aqui é um convite atrevido ao papa). A alegria de vos ter mistificado em nada diminui o meu zelo pela difusão das grandes verdades eternas, que são a base da religião sublime de que sois o pontífice soberano. Não digo que a minha Bíblia Divertida contribua muito para fortalecer a fé; mas terá, não obstante, uma vantagem incontestável: penetrando entre as vítimas do Estado laicizador, fazendo-se ler por aqueles que agora ignoram ou só conhecem vagamente todas essas belas coisas, revelar-lhes-á o que é necessário crer para ter o direito de se dizer filho da Igreja Católica, Apostólica e Romana. Se, depois disso, alguns quiserem admitir que é possível a um homem viver três dias no ventre de uma baleia, sem falar dos outros milagres bíblicos, dever-me-eis, meu velho Joaquim, calorosos agradecimentos por vos ter granjeado recrutas inesperados. Então, sem rancor quanto à minha mistificação, não é?... Este livro vos terá consolado, e voltaremos a ser bons amigos, como antes de 19 de abril. Vamos, não te faças rogado, Leão (fr. “ne te fais pas prier, Léon”: nesta última linha Taxil deixa o “vous” com que tratou o papa em toda a dedicatória e passa ao “tu”, como com um velho amigo). Manda-me um pequeno adiantamento de bênção, na volta do correio. Paris, 20 de junho de 1897 - Léo Taxil. [1] CAPÍTULO 1
Ora, sabei, pois, o que o espírito de Deus ditou a Moisés, pretenso autor sagrado, a quem é atribuído o Gênesis, primeiro livro da Sagrada Escritura; e constatareis, a cada instante, que o espírito de Deus, a menos que seja de uma ignorância crassa, é farsante, essencialmente farsante, mais farsante que o inventor da grã-mestra paladista Diana Vaughan (isto é, o próprio Taxil: o paladismo, maçonaria luciferiana, e a sua grã-mestra eram mistificação dele, desvendada em 19 de abril de 1897; o espírito de Deus é, pois, mais farsante do que ele). Deus é desde toda a eternidade; mas, no começo dos tempos, estava sozinho no nada. Coisa alguma existia, salvo ele, que se chamava então Elohim, nome hebraico com que o designa o primeiro versículo da Bíblia; e esse nome é um plural, o que é bem singular para um cavalheiro completamente sozinho. Pois bem, Elohim — que é também Jeová, Sabaote, Adonai, como veremos mais adiante — Elohim entediava-se (ou entediavam-se) a seis francos por cabeça (fr. “s’embêter à six francs par tête”, locução familiar: entediar-se ao extremo; dito por brincadeira, como se o tédio tivesse custado caro) no meio do seu caos; «tohu-bohu» (palavra que o francês tomou do hebraico “tohu wa-bohu” de Gênesis 1:2, “sem forma e vazia”: uma confusão informe) é o termo bíblico, tohu-bohu que significa de cabeça para baixo.
1. O caos. Sendo a eternidade desmedidamente longa, mestre Elohim entediou-se durante bilhões e bilhões de séculos. Por fim, teve uma ideia: sendo Deus, isto é, todo-poderoso, julgou que entediar-se sempre sem fazer nada seria o cúmulo da asneira (fr. “le comble de la bêtise”: jogo de palavras, pois “s’embêter”, entediar-se, é formado sobre “bête”, besta, tolo, como “bêtise”, asneira), e resolveu criar. Poderia ter criado tudo de uma só vez. Pois bem, não; mais valia não ter pressa, pareceu-lhe. E fez o céu e a terra, ou, melhor dizendo, a matéria apareceu sob o simples esforço da sua vontade; uma matéria informe, vazia, [2] confusa, ainda tohu-bohu, e cheia de umidade. «E o vento de Deus corria sobre as águas» (textual); o leitor não é obrigado a compreender. Para não cometer gafes, era necessário, antes de tudo, ver claro; donde se tem o direito de concluir que, durante os mil bilhões de séculos precedentes, esse pobre papai Bom Deus (fr. “papa Bon Dieu”, o nome que Taxil dá a Jeová: um pai bonachão com quem se fala familiarmente, não o Deus dos teólogos; “papai”, porque “papa” seria em português o Papa) estava na mais completa obscuridade. [3] Felizmente, nunca bateu com o nariz em parte alguma, visto que não havia absolutamente nada. «— Haja luz!» ordenou o Eterno. «E houve luz.» Que luz era essa? A Bíblia não o diz; limita-se a informar-nos isto: «Deus viu que a luz era boa». Ficou satisfeito com ela, por conseguinte. O seu primeiro cuidado foi então «separar a luz das trevas»; [4] de novo, inútil procurar compreender. «E Deus chamou à luz, Dia; e às trevas, Noite». — «Assim foi a tarde, assim foi a manhã.» Tal foi o primeiro dia da criação.
2. Criação da luz. Depois disso, papai Bom Deus ocupou-se em criar... adivinhai o quê... a expansão, ou, se preferis, o espaço. Por pouco que se queira refletir nisso, é claro que o espaço existia desde sempre, mesmo supondo uma época em que não estivesse mobiliado de nenhuma estrela, de nenhum planeta. Não obstante, a expansão foi criada depois da luz, embora «criada» seja aqui um termo impróprio. A Bíblia, muito atrapalhada no seu primeiro capítulo, ensinou-nos, como acabamos de ver, que no início da criação Elohim fez o céu e a terra em tohu-bohu, com matéria informe e massas de águas confusas sobre as quais corria o vento de Deus; e eis como o livro sagrado explica essa segunda operação, a formação da expansão: «Deus criou a expansão e separou as águas que estão acima da expansão das que estão abaixo da expansão; e assim foi.» (Gênesis 1:7) Alguns comentadores dizem que se trata da atmosfera. Em todo caso, lê-se no versículo 8: «E Deus chamou à expansão, Céus. Assim foi a tarde, assim foi a manhã; foi o segundo dia.» (“a expansão” — fr. “l’étendue”, a palavra da Bíblia de Ostervald, que é também a da Almeida, onde as Bíblias católicas dizem “firmamento”. O hebraico “rāqîaʿ” é uma lâmina batida a martelo, como o metal: um céu ao mesmo tempo estendido e sólido. As Bíblias católicas conservaram a solidez; a de Ostervald, como a Almeida, só a extensão, e é sobre essa extensão que recai a piada de Taxil.) Seja como for, resulta disto que o Espírito Santo contou ao autor uma soberba patranha e abusou da sua ingenuidade. Essa história de águas acima e de águas abaixo é a reprodução de um erro grosseiro dos povos primitivos. Com efeito, todos os antigos acreditavam que os céus eram algo de sólido, de firme — donde o nome de «firmamento» — e até os imaginavam de cristal, visto que a luz passava através deles; e a opinião era que acima dessa placa sólida, desse firmamento, havia um imenso reservatório de água. Hoje sabemos que a chuva é a água atraída, bombeada pelo sol, transformada em vapores, em nuvens, e que depois torna a cair sobre a terra; mas outrora se acreditava que a chuva vinha do grande reservatório superior; supunha-se que havia espécies de janelas que se abriam e se fechavam na placa do firmamento e produziam assim as chuvas. E essa opinião, que agora nos faz rir, esteve em voga durante muitíssimo tempo; é o parecer de Orígenes, de Santo Agostinho, de [5] São Cirilo, de Santo Ambrósio e de um número considerável de doutores dos primeiros séculos do catolicismo. O farsante Espírito Santo zombava deles.
3. Criação da atmosfera. Enfim, passemos. Papai Bom Deus empregou o terceiro dia num trabalho cujos resultados são mais apreciáveis que os dos dias precedentes. Baixou os olhos para as águas de baixo, e disse consigo que seria útil reuni-las, de modo a fazer aparecer partes secas, isto é, continentes. Então, as águas, muito obedientes à sua vontade, reuniram-se à parte, em profundezas que se cavaram para o seu ajuntamento; em contrapartida, formaram-se alturas, eriçando de montanhas a superfície da matéria sólida, enquanto o líquido rolava em ondas lentas ou precipitadas para os novos abismos. «E Deus chamou ao seco, Terra; chamou também ao ajuntamento das águas, Mares. E Deus viu que isso era bom.»
4. Criação dos continentes e dos mares. É de notar que papai Bom Deus ficava, as mais das vezes, contente com a sua tarefa. — Nome de um cachimbo! (fr. “Nom d’une pipe !”, praga: é “Nom de Dieu !”, “Nome de Deus!”, com um cachimbo posto onde estava Deus, para não blasfemar) devia dizer consigo, que mexilhão (fr. “moule”, palavra familiar: um tolo sem caráter, mole como o molusco) eu fui, por não ter criado isso mais cedo! Naquele dia, ficou tão satisfeito com os seus continentes e os seus mares, que quis fazer mais alguma coisa antes do cair da noite. «Lance a terra o seu rebento, disse ele, a saber, erva que dê semente, e árvores frutíferas que deem fruto, cada uma segundo a sua espécie, que tenham em si mesmas a sua semente sobre a terra. E assim foi.» (Gênesis 1:11)
5. Criação das árvores e das plantas. Nunca se admirará bastante essa delicada atenção do Criador. Impossível ser mais cheio de precauções do que ele. Com efeito, pergunta-se o que seria a terra, se Deus a tivesse plantado de árvores frutíferas que dessem, cada uma, frutos diferentes dos da sua espécie. Agradeçamos ao paternal Elohim por não nos ter dado damasqueiros que produzissem laranjas, laranjeiras que produzissem maçãs, macieiras que produzissem groselhas, etc.; ninguém mais se orientaria. Ah! sim, agradeçamos a Deus; que bom papai previdente!... Depois que a terra lhe obedeceu e os damasqueiros cresceram dando damascos, Deus, mais uma vez, «viu que isso era bom. Assim foi a tarde, assim foi a manhã; foi o terceiro dia». Mas eis aqui outra história! Três dias já [6] tinham decorrido com tarde e manhã, graças à luz criada desde o início: só que, o que é bizarro, essa luz que desaparecia no fim do dia para dar lugar às trevas da noite, essa luz iluminava o mundo nascente sem ter foco algum; nem mais sol do que no fundo de uma mina de hulha. Essa comicidade merece uma citação textual da Bíblia: «14. Depois, disse Deus: Haja luminares [7] na expansão dos céus, para separar a noite do dia, e que sirvam de sinais, e para as estações, e para os dias, e para os anos; 15. E que sejam para luminares na expansão dos céus, a fim de luzir sobre a terra; e assim foi. 16. Fez, pois, Deus dois grandes luminares: o luminar maior, para dominar sobre o dia, e o menor, para dominar sobre a noite; fez também as estrelas. 17. [8] E Deus os pôs na expansão dos céus, para luzir sobre a terra: 18. E para dominar sobre o dia e sobre a noite, e para separar a luz das trevas; e Deus viu que isso era bom. 19. Assim foi a tarde, assim foi a manhã; foi o quarto dia.»
6. Criação dos astros. Nenhum quiproquó, não é? trata-se mesmo do sol e da lua. Por conseguinte, segundo o Espírito Santo, a criação do sol veio quatro dias depois da criação da luz! Ora, o Espírito Santo sabe tudo, evidentemente; do contrário, não seria o Espírito Santo, mas um simples imbecil. Cada vez que a ciência faz uma descoberta, o Espírito Santo deve rir no seu bico de pombo (fr. “rire dans son bec de pigeon”, da locução “rire dans sa barbe”, rir na sua barba: rir por dentro, às escondidas; Taxil põe o bico do pombo no lugar da barba) e murmurar consigo mesmo: Eu sei isso desde toda a eternidade; esses pobres pigmeus de homens esfalfam-se para saber o que é! Mas então, por que o Espírito Santo ditou também a Moisés essa colossal asneira, a propósito da luz e do sol?... Que farsante, decididamente!... Com efeito, até Ole Rømer, astrônomo de Copenhague, que viveu no século dezessete (1644-1710), acreditou-se que o sol não produz a luz, mas que a luz existe no espaço e que o sol só serve para a «empurrar»; essa falsa concepção física foi um erro do próprio Descartes. A ciência deve a Rømer a demonstração dessa importante verdade, diretamente contrária ao enunciado da Bíblia, isto é: a luz que ilumina o nosso mundo emana do sol e a sua propagação não é instantânea. O grande astrônomo dinamarquês chegou mesmo a determinar exatamente a velocidade da luz solar; estabeleceu, e isto está mil vezes provado hoje, que essa luz leva oito minutos e dezoito segundos para nos chegar do astro que é o seu foco, ou seja, uma velocidade de 308.000 quilômetros por segundo. Sabe-se que Rømer foi levado a essa grande descoberta pela observação dos eclipses dos satélites de Júpiter, planeta que faz parte do nosso sistema solar. Rømer estava então na França, e apressou-se a anunciar a sua descoberta à Academia (Ver a História da Academia, sessão de 22 de novembro de 1675.) [9] Pode-se dizer ainda, com Voltaire: «Se Deus tivesse primeiro espalhado a luz pelos ares para ser em seguida empurrada pelo sol, e para iluminar o mundo, ela não podia ser empurrada, nem iluminar, nem ser separada das trevas, nem fazer um dia da tarde à manhã, antes que o sol existisse; essa teoria é contrária a toda física, e a toda razão.» Moisés, muito ignorante em astronomia, deixou-se, pois, lograr pelo Espírito Santo; porque o divino pombo sabia, no tempo em que foi escrito o Gênesis, o que Rømer havia de descobrir em 1675. Note-se também a pouca importância que têm as estrelas na criação segundo a Bíblia. Os «dois grandes luminares» são o sol e a lua; a lua! que não passa de um satélite do nosso planeta terrestre! O ignorante Gênesis está bem longe de suspeitar que lua, terra, e mesmo sol, são muito pouca coisa no universo; que o nosso brilhante sol, astro central do mundo que habitamos, é uma modesta estrela, uma das inumeráveis estrelas que compõem a Via Láctea. O autor sagrado só vê a terra e refere tudo à terra, ínfimo planeta que, na realidade, gira em torno de uma estrela de sétima grandeza; e essa estrela-sol, o mísero escritor a faz depender, astronomicamente, do seu planeta! Ah! o infortunado Moisés ficaria boquiaberto, se ressuscitasse em nossos dias. Imagino que cara ele faria (fr. “quelle tête il ferait”, locução, literalmente “que cabeça ele faria”), se, vindo instruir-se em qualquer observatório da Europa ou da América, soubesse, por exemplo, o que é Sírius, estrela de primeira grandeza: Sírius, a mais bela e a mais brilhante das estrelas do céu, para a qual o Espírito Santo se descuidou de lhe chamar a atenção; Sírius, cuja luz leva perto de vinte e dois anos para nos chegar, sendo a sua distância à terra de 52.174.000 milhões de léguas, ou seja, 1.373.000 vezes a distância do sol à terra. Que diria o pobre Moisés, no dia em que lhe revelassem a importância prodigiosa, no universo, dos outros mundos solares de que nem sequer suspeitou? Suponde o professor ensinando simplesmente isto a Moisés, segundo Humboldt: — Embora colocados a tão grande distância, Sírius e o nosso sol pertencem à mesma camada de estrelas, isolada nos espaços celestes, uma ilha de estrelas no universo; e essa ilha de mundos e de sóis, de forma achatada, [10] lenticular, tem no seu eixo maior oitocentas vezes a distância de Sírius à terra; e, contudo, não passa de uma pequena camada, extremamente delgada, se a compararmos com as grandes camadas, espessas e profundas, e incomparavelmente mais ricas em estrelas e em sóis, que a rodeiam. — Moisés, que de bom grado acreditou que a terra é o centro do universo criado por Deus, ficaria louco com isso. Voltemos à criação segundo a Bíblia: «20. [11] Depois, disse Deus: Produzam as águas em toda a abundância animais que se movam e que tenham vida; e voem as aves sobre a terra, para a expansão dos céus. 21. Criou, pois, Deus os grandes peixes, e todos os animais viventes e que se movem, que as águas produziram em toda a abundância, segundo a sua espécie, e toda ave que tem asas, segundo a sua espécie; e Deus viu que isso era bom. 22. [12] E Deus os abençoou, dizendo: Crescei e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e multipliquem-se as aves sobre a terra. 23. Assim foi a tarde, assim foi a manhã; foi o quinto dia. 24. Depois, disse Deus: Produza a terra animais viventes segundo a sua espécie; os animais domésticos, os répteis e as bestas da terra, segundo a sua espécie; e assim foi. 25. Fez, pois, Deus as bestas da terra segundo a sua espécie, os animais domésticos segundo a sua espécie, e os répteis da terra segundo a sua espécie; e Deus viu que isso era bom.»
7. Criação dos animais. Decerto, tudo isso era bom, e mestre Elohim, que tem mãos, esfregava-as com satisfação. Mas havia coisa ainda melhor para criar. — Nenhum destes animais se parece comigo, e é pena! pensou ele. Contudo, tenho uma bela cara, o ouvido fino, o olho vivo, o nariz espirituoso, e bons dentes! Bem poderia criar um espelho, no qual me contemplaria; porém mais vale, creio eu, contemplar-me olhando para o meu semelhante... Vamos, está dito; é absolutamente preciso que haja na terra um animal que tenha a minha cara. Enquanto papai Bom Deus fazia consigo esse raciocínio, é de presumir que diversos macacos, de criação recente, vieram cabriolar em volta dele. — Têm alguma coisa de mim, deve ter dito consigo; mas enfim não é isso. A quase totalidade dessas espécies é ornada de uma cauda, e eu não tenho cauda. Quanto aos que são desprovidos desse apêndice caudal... não, também não é isso!... E os macacos faziam caretas e continuavam a executar as suas miríficas cabriolas. Então, papai Bom Deus pegou um bloco de terra úmida e o «amassou». — Depois disso, vinde, pois, sustentar que Deus é um puro espírito e não tem mãos! — A Bíblia diz também que Deus, tendo formado o homem, «lhe soprou nas narinas uma respiração de vida». Eis, pois, o primeiro homem amassado, depois animado à força de perdigotos. Foi assim que «o homem foi feito em alma vivente». (Gênesis 2:7)
8. Criação do homem. Há uma passagem, pouco clara, do primeiro capítulo [13] do Gênesis, o versículo 27, que levou alguns comentadores ocultistas a crer que, de início, o homem tinha sido criado hermafrodita, mas que Deus depois mudara de parecer. Com efeito, só no fim do segundo capítulo se fala da criação da mulher; ora, 25 versículos mais acima, a Bíblia diz com todas as letras: «Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; criou-o macho e fêmea à imagem de Deus (fr. “il le créa mâle et femelle”: a Bíblia de Ostervald traz “il le créa à l’image de Dieu ; il les créa mâle et femelle”, como o hebraico, que passa de “o” a “os”: os tradutores nada alteraram; o singular é de Voltaire, “il le fit mâle et femelle”).» Este versículo, traduzido literalmente do texto hebraico, é que deu origem à lenda do Deus Andrógino, muito acreditada nas diversas escolas ocultistas; e, por outro lado, sendo este versículo muito embaraçoso, os tradutores cristãos sempre tiveram o cuidado de alterá-lo. Não obstante, seria um erro dar importância demais a essa fantasia bíblica; muitas outras passagens são ainda menos compreensíveis! Vejamos, em vez disso, o que é geralmente admitido. Logo que formou o homem, papai Bom Deus constituiu-o rei da criação. Fê-lo imediatamente passar em revista todos os animais. «Porque o Eterno Deus formara todas as bestas da terra e todas as aves dos céus; depois, fizera-as vir a Adão, para que visse como as nomearia, e para que o nome que Adão desse a todo animal vivente fosse o seu nome.»
9. O homem passa em revista os animais. Bem se imagina esse desfile; Buffon, sem dúvida, é que teria gostado muito de estar no lugar de Adão! «Encherás a terra e a sujeitarás, fora dito a Adão; dominarás sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre toda besta que se move sobre a terra.» Como rei da criação, o homem nem sempre leva a melhor, quando tem de se haver com um leão, com um tigre, com um urso, com um crocodilo; eis o que se pode responder. E não só os animais ferozes nos devoram; mas também a humanidade é vítima de mil insetos desagradáveis, pulgas, percevejos, escorpiões, sem falar dos jesuítas e outras baratas (fr. “cafards”: as baratas e também os falsos devotos, os santarrões; Taxil visa estes).
10. O homem, rei da criação. Além disso, Deus, que tinha criado os animais ferozes que saboreiam o bife humano, ordenou ao homem que fosse vegetariano. «Eis que te dei toda erva que dá semente e que está sobre toda a terra, e toda árvore que tem em si fruto de árvore que dá semente; o que te será para alimento.» Finalmente, estando tudo terminado — ou quase — ao anoitecer [14] do sexto dia, papai Bom Deus, feliz e cada vez mais satisfeito com a sua obra, e talvez ligeiramente cansado, inventou a sesta e deu ao homem o exemplo do descanso descansando ele mesmo, no sétimo dia, como um bom e gordo rentista (fr. “rentier”: quem vive das suas rendas sem trabalhar; o burguês cômico da época) que sente a necessidade de não fazer mais nada. (Gênesis 2:2)
11. O Senhor descansa. «Ora, o Eterno Deus plantara um jardim no Éden, do lado do Oriente, e pusera ali o homem que formara... E um rio saía do Éden, para regar o jardim, e [15] se dividia em quatro rios. O nome do primeiro é Pisom; é o que corre em redor de toda a terra de Havilá, onde se acha ouro; e o ouro dessa terra é bom; ali também se acha o bdélio e a pedra de ônix. O nome do segundo rio é Giom; é o que corre em redor de toda a terra de Cuxe. O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre na terra dos assírios. E o quarto rio é o Eufrates.» (Gênesis 2:8, 10-14) [16] Entrando nesses pormenores, o autor do Gênesis quis dar uma ideia aproximada da localização do maravilhoso Éden. Mas teria feito muito melhor em não dizer nada; porque é impossível deixar-se apanhar mais tolamente em flagrante delito de gasconada (fr. “gasconnade”: fanfarronada, pela fama de fanfarrões que tinham os gascões). Com efeito, todos os comentadores concordam em reconhecer que o Pisom é o Fásis, chamado mais tarde Araxes, rio da Mingrélia, que tem a sua nascente num dos ramos mais inacessíveis do Cáucaso, e, se há nessa região ouro e ônix, em contrapartida ninguém jamais pôde descobrir o que se devia entender por bdélio. Além disso, não pode haver nenhum erro a respeito do terceiro e do quarto rios, o Tigre e o Eufrates; donde resulta claramente que, segundo o Gênesis, a localização do paraíso terrestre teria sido na Ásia, na região do maciço do Ararate, na Armênia, embora (primeiro disparate do autor sagrado) Araxes, Tigre e Eufrates, mesmo tendo as nascentes relativamente vizinhas, as tenham perfeitamente distintas. O Araxes, longe de derivar de outro rio, sai do vulcão Bingol-Dagh, de onde corre para o mar Cáspio. Quanto ao Tigre e ao Eufrates, não só não provêm de um mesmo rio, mas, ao contrário, juntam-se em Korna, para formar o Chat-el-Arab e lançar-se no golfo Pérsico. A respeito do segundo rio, chamado Giom pelo Gênesis, o disparate do autor sagrado é fantástico. «É, diz ele, o rio da terra de Cuxe.» Ora, segundo a versão dos Setenta e mesmo a Vulgata, a terra de Cuxe (filho de Cam e pai de Ninrode) não é outra senão a Etiópia; por conseguinte, esse Giom é o Nilo, que corre, não na Ásia, mas na África, e precisamente no sentido oposto ao do Araxes, do Tigre e do Eufrates, pois a direção geral do curso do grande rio africano é do sul para o norte. Se colocarmos a nascente do Nilo no Vitória-Nianza, como se admite para não remontar mais acima, há, pois, no mínimo mil e oitocentas (o texto de 1904 traz “dix-huits cents”) léguas de distância entre as nascentes do primeiro e do segundo rios que, segundo o Gênesis, regavam o mesmo jardim do Éden! É verdade que os outros dois só têm as nascentes a sessenta léguas uma da outra; o que já é [17] bonito para um jardim. Além disso, é um jardim esse imenso território eriçado de picos dos mais escarpados, formado por uma das regiões mais impraticáveis do globo?... Por fim, terceiro disparate, e a este se poderia chamar: o disparate da ponta da orelha (fr. “la bévue du bout de l’oreille”, neologismo: o erro que trai o seu autor; de “montrer le bout de l’oreille”, “mostrar a ponta da orelha”, trair-se, como o asno de La Fontaine que, na pele do leão, se denuncia pela orelha). Os sacerdotes, como se sabe, afirmam que a obra de Moisés é o Pentateuco, isto é, os cinco primeiros livros da Bíblia: o Gênesis, o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio. Mas os sábios tiveram a impiedade de fazer pesquisas, e a opinião geral deles é que esses livros foram fabricados por Esdras, na volta do cativeiro de Babilônia, no decorrer do quinto século antes de Cristo, ao passo que Moisés, supondo que tenha existido e admitindo por um instante como autênticas as datas que lhe dizem respeito, vivia mil anos antes: nascimento na terra de Gósen, no Egito, em 1571 antes da nossa era, e morte na Arábia, no monte Nebo, em 1451. Bossuet indignou-se com os trabalhos de Hobbes, de Spinoza e de Richard Simon contra a autenticidade das obras de Moisés; dizer que Esdras é o verdadeiro autor do Pentateuco é blasfemar, segundo o fogoso bispo: «Que se pode objetar, exclama ele (Discurso sobre a História universal), a uma tradição de três mil anos, sustentada pelas suas próprias forças e pela sequência das coisas? Nada de coerente, nada de concreto, nada de importante!» Que isso não desagrade a Bossuet (fr. “N’en déplaise à Bossuet”, locução: com o perdão de Bossuet; fórmula polida que se diz logo antes de contradizer alguém), o versículo 14 do capítulo 2 do Gênesis, entre outros exemplos, dá uma prova clamorosa do embuste literário e religioso, e demonstra, claro como dois e dois são quatro, que o dito Gênesis não pode ter sido escrito por Moisés. Diz-se nesse versículo: «O nome do terceiro rio é Tigre; é o que corre na terra dos assírios (fr. “au pays des Assyriens”: as quatro palavras que Taxil conta; a Bíblia de Ostervald diz “vers l’Orient de l’Assyrie”, e a Almeida “para a banda do oriente da Assíria”).» (Gênesis 2:14) Aí está com todas as letras. Alguns tradutores substituíram as quatro últimas palavras por: «para o Oriente da Assíria»; mas isso não muda nada. A questão é esta: Moisés, morto em 1451 antes de Cristo, não podia empregar as expressões Assíria, assírios, pela simples razão de que o império assírio, que se estendia ao mesmo tempo sobre Nínive e Babilônia e que durou até o oitavo século antes da nossa era, começou a existir por volta de 1300, [18] quando muito. Os testemunhos de Heródoto e do caldeu Beroso estão de acordo nesse ponto e foram confirmados pelos monumentos. As importantes descobertas realizadas desde o começo do nosso século na história dos povos do antigo Oriente, com a ajuda das inscrições em caracteres hieroglíficos e cuneiformes, já não permitem hoje, nem mesmo nos livros mais elementares, reeditar [19] as burradas bíblicas a respeito dessa primeira parte dos anais do gênero humano. Os resultados obtidos pelos Champollion, pelos de Rougé, pelos de Saulcy, pelos Mariette, pelos Oppert, pelos Rawlinson, pelos Lepsius, pelos Brugsch, etc., iluminam a história antiga com uma luz bem mais segura do que as tradições coligidas pelo farsante Esdras. Está estabelecido que o fundador do império assírio foi um príncipe chamado nos monumentos Ninippaloukin, o qual [20] vivia cento e cinquenta anos depois de Moisés. Além disso, a região que foi chamada Assíria era designada, no tempo de Moisés, pelo nome de império dos Rotenu, como consta dos monumentos egípcios, mencionados por Oppert e outros sábios; vemos, com efeito, em diversas inscrições egípcias, que os reis da décima oitava dinastia do Egito, contemporâneos de Moisés, levaram as suas armas à Babilônia e cobraram tributos dos Rotenu, que dominavam na Mesopotâmia, na própria terra do Tigre e do Eufrates. Portanto, se Moisés fosse o verdadeiro autor do Gênesis, teria escrito: «o Tigre, rio que corre na terra dos Rotenu.» É verdade que os tonsurados sempre poderão responder-nos: — O verdadeiro autor do Gênesis não é nem Esdras nem Moisés; é o Espírito Santo! Por conseguinte, ainda que a Bíblia mencionasse até São Petersburgo e Nova York, isso não nos deveria parecer ilógico e não poderia de modo algum surpreender-nos. Inclinemo-nos, pois, e retomemos a sequência do sagrado relato, com um riso alegre; porque este edificante Gênesis não carece verdadeiramente de jovialidade. Se o leitor quiser, vamos transportar-nos em pensamento a esse maravilhoso jardim do Éden, onde quatro grandes rios provindos de uma só fonte rolam as suas águas. Parece-nos ver Adão, passeando pela sua propriedade e entregando-se às doçuras do far-niente. Eis qual poderia ser o seu monólogo: «— Eu sou o homem, e tenho por nome Adão; o que quer dizer, ao que parece, «terra vermelha», visto que fui fabricado com argila, como uma louça de barro comum... Qual é a minha idade?... Nasci há cinco dias; mas, segundo um velho provérbio, tem-se a idade que se aparenta. E eis por que posso dizer que na realidade nasci com a idade de vinte e oito anos, com todos os meus dentes... Não; não com todos os meus dentes... Faltam-me ainda os dentes do siso... Muito bem constituído, hein?... Pois claro! (fr. “Dame !”, exclamação: resto de uma antiga praga, “Notre-Dame !”, Nossa Senhora, ou, segundo Littré, “dame Dieu”, Senhor Deus; no tempo de Taxil já não se sentia como praga) como poderia eu não ser um belo indivíduo, já que, salvo a idade e a barba, sou a fiel cópia do senhor Jeová, o ser mais pasmosamente (fr. “épatamment”, palavra familiar, de “épater”, literalmente “quebrar a pata”, derrubar: deixar pasmado) chique que existe no universo?... Vede-me [21] esta saúde, estes braços robustos, estes jarretes de aço, nervos para revender, e, com isso, a tez fresca... Nem o menor reumatismo... Digo bolas (fr. “zut”, exclamação familiar: enfado ou recusa; dizê-la às doenças é zombar delas) para as doenças... Nem sequer tenho de temer a varíola; papai Bom Deus fabricou-me todo vacinado... Por isso, como eu me engulo (fr. “ce que je me gobe”, locução de gíria: como me acho admirável; “gober” é engolir de uma vez, sem mastigar)!... e não estou errado... Deixo a vida correr doce (fr. “je me la coule douce”, locução familiar: vivo sem preocupações), nesta morada encantadora... nada de porteiro... nem sequer um criado... Eis uma vida feliz!... Vou, venho, colho frutos, todos suculentos, e empanturro-me deles à minha danada fantasia, desafiando sem perigo a diarreia... Não sinto nenhum cansaço, por mais longos que sejam os meus passeios, quando me deito na relva, é para meu agrado... Outro dia, o amável senhor Jeová ofereceu-me uma distração, de que guardarei por toda a vida a alegre lembrança... Todos os animais da criação passaram diante de mim: «O nome que deres a cada animal vivente será o seu nome», disse-me o velho Padre Eterno... Como atenção, foi gentil, isso!... É inaudito o que desfilou de animais!... Eu nunca teria acreditado que houvesse tantos seres vivos... Não fiquei embaraçado para lhes fazer a minha distribuição de nomes; pois a língua que falo sem dificuldade, e sem nunca ter ido à escola, é uma língua de uma riqueza extraordinária, de uma abundância de termos de que é impossível fazer ideia... Assim, sem precisar procurar, eu conhecia instantaneamente tudo o que é próprio de cada animal, só de olhar para ele, e com uma só palavra exprimia todas as propriedades de cada espécie, de modo que cada nome dado por mim é ao mesmo tempo uma definição completa e perfeita... Tomemos, por exemplo, o animal que mais tarde se chamará equus em latim, cheval em francês, horse em inglês, etc. Pois bem, pespeguei-lhe um nome que exprime esse quadrúpede com as suas crinas, a sua cauda, o seu pescoço, a sua velocidade, a sua força... E a ave que, nos séculos futuros, se chamará bulbo em latim (a palavra latina é “bubo”), hibou em francês, owl em inglês, etc., todos esses nomes vindouros não valerão o que eu imaginei e que caracteriza a noturna ave de rapina, com os seus dois penachos móveis na fronte, o seu bico curto e adunco, a sua grossa cabeça de grandes olhos redondos rodeados de um círculo completo de [22] penas rijas, as suas patas todas guarnecidas de penas até as unhas, bem como os seus costumes ariscos e selvagens, o seu grito monótono e lúgubre, o seu horror à luz... E assim por diante, para todos os animais viventes... Ah! é sem igual, a língua que falo, e como é triste pensar que um dia ela estará inteiramente e para sempre perdida!... Este pensamento é o meu único desgosto... Repilamo-lo bem depressa, e não tenhamos preocupação nenhuma. [23] Oh! essa revista geral de todos os animais viventes, eis o que foi soberbo... Ainda assim, soberbo não diz tudo; porque tivemos uma parte drolática no programa da festa: foi a chegada dos peixes... Pensai só! este jardim está em pleno continente, nada de praias marinhas, somente rios, isto é, água doce... Então, vedes a careta que faziam os peixes do mar, subindo o Tigre e o Eufrates para virem até mim; eles [24] já não estavam na sua água salgada habitual, e isso os amolava!... De verdade, era de se torcer de riso... E os grandes cetáceos, esses é que estavam apertados!... Felizmente, para aquele dia e a título excepcional, papai Bom Deus alargou os rios do meu jardim; senão as diversas espécies de baleias nunca teriam podido passar... Assim que eu lhes dava o seu nome, era de vê-las virar para trás e precipitar-se, a grandes golpes de barbatanas, para regressar o mais depressa possível ao seu Oceano... Ainda rio disso!... Haverá talvez pessoas que não acreditarão nesta história... Os ímpios negarão que focas do polo Norte tenham podido vir até a Armênia, às águas superiores do Tigre e do Eufrates, e isso num só dia de viagem, descendo todo o Atlântico e dando a volta completa à África; dirão que esses interessantes mamíferos marinhos, hóspedes do oceano Glacial, não puderam mudar de elemento sem morrer disso... Eh! que importa a crítica!... Palavra de honra, eu vi aqui, neste jardim do Éden, nessa ocasião, focas e baleias, e acrescento que as focas, todas contentes por terem recebido de mim um nome, agradeceram-me dizendo: papai! mamãe!... Os espíritos minuciosos objetarão: «E os peixes dos lagos, por onde vieram?...» Querem aludir ao lavaret (nome francês de um corégono, peixe branco dos lagos alpinos; a “féra” é o corégono do Lemano), esse delicioso peixe do lago do Bourget, de que os habitantes de Aix-les-Bains falam como de uma glória?... E a féra, que vive exclusivamente no lago Lemano, que morre logo que é posta noutra água, mesmo doce, que nem sequer pode viver no Ródano, aquém ou além do Lemano?... Saiba-se, pois: o lavaret e a féra tiveram uma permissão especial de Deus; esses dois peixes lacustres vieram, por via aérea, fazer-me uma visita no Éden... E pronto! anátema aos descrentes que não se contentarem com esta explicação!... E depois, pelo sangue de azul (fr. “palsambleu”, praga: “par le sang de Dieu”, pelo sangue de Deus, com “bleu”, azul, posto no lugar de “Dieu”, para jurar sem nomear Deus)! é muita bondade minha discutir essas coisas... Tanto pior para quem não acreditar em mim, quando afirmo que vi todos os animais viventes, vertebrados, anelados, moluscos, e zoófitos!... Não há um só inseto a que eu não tenha dado um nome... Mas o que mais me deixou estupefato foi um grande verme branco, comprido, chato, que saiu muito [25] de mansinho de mim mesmo, um verme feio que os naturalistas futuros chamarão tênia ou solitária do homem, e que não se parece com a tênia dos porcos nem com a tênia dos carneiros; esse grande diabo de verme humano, logo ao sair, fez-me uma profunda reverência; dei-lhe um nome; após o que, tornou a esgueirar-se para dentro de mim pelo meu ânus e retomou domicílio no meu indivíduo... Se falo disso, é para nada omitir; porque eu não me sabia habitado. Fora isso, o meu inquilino não me incomoda de modo nenhum... Nada perturba esta vida de cocanha (fr. “vie de cocagne”, locução: vida de abundância e ociosidade, do “pays de cocagne”, o país da Cocanha, terra imaginária onde tudo vem sem trabalho) que levo há cinco dias...» Adão mira-se na onda límpida da fonte, nascente dos quatro grandes rios; depois, avistando um gramado, estende-se nele molemente. — Ah! como é bom viver assim! murmura ele. Mas eis que ele boceja... espreguiça-se... um langor desconhecido apodera-se gradualmente dele... Eis uma novidade, ora essa!... Não sente, no entanto, nenhum cansaço... Que significa isso?... Não entende nada disso. Sofre a misteriosa influência, irresistível. As suas pálpebras fecham-se. Adão dorme. É o primeiro sono do homem.
12. Primeiro sono do homem. Ora, enquanto Adão ronca como um pião da Alemanha (fr. “ronfle comme une toupie d’Allemagne”, locução: ronca muito alto; o pião da Alemanha era um pião oco, com um furo, que ronca ao girar), papai Bom Deus desce à terra. Primeiro, detém bastante longamente o olhar no adormecido. — Realmente, trabalho bem, quando me ponho a isso! diz ele com satisfação. O rapagão é rijamente construído; jurar-se-ia que sou eu... quando eu tinha alguns bilhões de séculos a menos. Abaixando-se, belisca-lhe a polpa da panturrilha. A essa divina facécia, Adão responde com um ronco ainda mais sonoro do que os precedentes. — Perfeito! continua mestre Elohim; não precisarei de insensibilizador para assegurar o sucesso dos meus talentos de cirurgião... Vejo que o sono que mandei ao meu jovem Adão querido era dos mais bem acondicionados; podiam disparar o canhão ao lado dele, que ele não despertaria... Agora, trata-se de me pôr à obra; pois vim aqui para uma operação de primeira ordem... Enquanto ninguém [26] me ouve, bem posso fazer uma confissão: percebi esta manhã que há momentos em que sou um tanto bocó. Assim, onde tinha eu a cabeça, quando criei o homem sem companheira?... Dei a cada animal uma fêmea; pelo menos, há poucas exceções a essa regra. A solitária (fr. “ver solitaire”, literalmente “verme solitário”: o nome corrente da tênia em francês), eu a criei hermafrodita, e isso se compreende, visto que, se ela andasse em casal pelos intestinos onde mora, já não seria uma solitária... Mas o homem não é uma tênia, nome de um cachimbo!... [27] É preciso, pois, que eu lhe fabrique uma companheira, e decidi fazê-la para ele com a carne dele... Papai Bom Deus deu voltas um momento em torno de Adão; apalpava-o, enquanto emitia em voz alta as suas reflexões. — Consultei o Pombo sobre esse assunto, continuou ele, e fiz bem, pois ele é mais esperto do que eu... A minha primeira ideia tinha sido cortar um calo do querido Adão e amassar com ele uma mulherzinha... O Pombo não me aprovou; pensou [28] que um calo seria reles demais e que os ímpios poderiam encontrar nisso pretexto para dizer que a mulher é de baixa extração... A conclusão é que é com uma costela que vou fabricar a segunda criatura humana... Vamos! é o momento, é o instante; sejamos rápido e hábil como um dentista que está na sua vigésima milésima operação. E, dizendo isto, papai Bom Deus «arrancou de Adão uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar.» (Gênesis 2:21) «E o Eterno Deus construiu em mulher a costela que tinha tirado de Adão.» (Gênesis 2:22)
13. Criação da mulher. Ouço o grito do homem, que desperta de um salto: — Ai! ai!... Oh! lá lá!... Acabam de me tirar um dos meus bifes! E a sua surpresa ao ver a linda boneca viva: — Qu’é qu’é isso? (fr. “Qué qu’c’est qu’ça ?”: é “Qu’est-ce que c’est que ça ?” na pronúncia descuidada de Paris) — Isso? é a tua mulher, e eu a apresento a ti, responde Jeová... Ousa dizer que não te dou aqui um agradável presente!... — O fato é que ela é bonitinha... — É de comer com os olhos... Felizardo que tu és! (fr. “Veinard, va !”, exclamação: “veinard” vem de “veine”, o veio de minério, e daí a sorte; o “va !”, literalmente “vai!”, só dá ênfase)... E sem sogra!... Podes gabar-te de ter toda a sorte, meu rapaz. A Bíblia conta que Adão exclamou: «Desta vez, esta é osso dos meus ossos e carne da minha carne. Será chamada varoa (fr. “hommesse”: a palavra da Bíblia de Ostervald, um feminino tirado de “homme”, homem, como a Almeida tira “varoa” de “varão”; o texto hebraico faz o mesmo, “ishshah” de “ish”), porque foi tomada do varão. Pelo que o homem deixará o seu pai e a sua mãe, e se juntará à sua mulher, e serão assim uma mesma carne.» (Gênesis 2:23-24) Inútil comentar esta exclamação de Adão, recém-casado. Ah! em que termos galantes são postas essas coisas (fr. “qu’en termes galants ces choses-là sont mises”, dito: com que elegância se dizem estas coisas; verso de “Le Misanthrope”, de Molière, com que Philinte elogia um mau soneto)?... Quanto à costela tirada, convém lembrar que, segundo a opinião de Santo Agostinho, Deus não a restituiu a Adão. Por conseguinte, Adão viveu assim com uma costela a menos. «Era aparentemente uma das suas costelas falsas, fez notar Voltaire; pois a falta de uma das costelas principais teria sido perigosa demais.» O Gênesis nos diz ainda (Gênesis 2:25): «E Adão e a sua mulher estavam ambos nus, e não tinham vergonha disso.» Os piedosos comentadores afirmam que essa nudez [29] sem vergonha alguma é uma prova da inocência dos nossos primeiros pais; se tivessem permanecido sempre no pensamento de que não há nenhuma impudicícia em passear completamente nu, teria sido a marca de uma perseverante perfeição. Em virtude desse raciocínio bíblico, poderíamos, pois, considerar que vivem no estado de perfeição as tribos selvagens que não usam vestimenta nenhuma, e ainda as há: não obstante, por ocasião do descobrimento da América, os fanáticos católicos espanhóis massacraram em massa tribos indígenas que viviam em bela inocência, e os sacerdotes abençoavam os massacradores. Por outro lado, observou-se que foi o frio que fez inventar as roupas; pois os povos nus são os que vivem nas regiões mais quentes. Além disso, quando todo mundo está nu, ninguém tem vergonha de o estar: só se cora por vaidade; teme-se mostrar uma deformidade que os outros não têm. Cheguemos ao grande caso, à espantosa aventura que pôs fim, ai! à felicidade de Adão e da sua esposa. «O Eterno Deus tinha feito brotar da terra toda árvore desejável à vista e que dá fruto bom para comer; e tinha posto a árvore da vida no meio do jardim do Éden, e a árvore da ciência do bem e do mal.» (Gênesis 2:9) «O Eterno Deus tinha falado ao homem com mandamento, dizendo-lhe: Comerás livremente de toda árvore do jardim. Todavia, quanto à árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no mesmo dia em que dela comeres, morrerás de morte muito certamente.» (Gênesis 2:16-17)
14. O fruto proibido. Convém fazer notar, antes de tudo, que, a pretexto de resumir a Bíblia, os sacerdotes redigiram para uso dos fiéis certos pequenos manuais com o título de História Sagrada, nos quais têm o cuidado de passar em silêncio as passagens da divina Escritura que os incomodam demais. Assim, em geral, só se fala aos fiéis da famosa árvore da ciência do bem e do mal; veremos daqui a pouco por que os sacerdotes não sopram palavra da árvore da vida, perfeitamente distinta da outra árvore; reproduziremos o versículo 22 do capítulo 3, que é sempre omitido nos livros dados aos ingênuos devotos. Por ora, ocupemo-nos somente da árvore [30] cujo fruto causou a queda do homem. Lembremos que o imperador Juliano, o Filósofo, cuja memória é tão execrada pela gente de igreja, entregou-se, a respeito dessa maravilhosa árvore, a algumas observações cheias de bom senso. Parece-nos, escreveu ele, que o senhor Deus deveria, pelo contrário, ter ordenado ao homem, sua criatura, que comesse muito dessa árvore da ciência do bem e do mal; que não só Deus lhe tinha dado uma cabeça pensante que era forçosamente preciso [31] instruir, mas que era ainda mais indispensável fazê-lo conhecer o bem e o mal, para que cumprisse os seus deveres; que a proibição era tirânica e absurda; que era cem vezes pior do que se lhe tivessem feito um estômago para impedi-lo de comer. Outra reflexão que não se pode deixar de fazer é que o ponto de partida da historieta prova que o senhor Jeová tinha uma segunda intenção e que estava [32] bem contente de que o homem pecasse. Em suma, Adão teria tido o direito de lhe dizer: — Meu paizinho Elohim, se não me engano, o bem é o que é moralmente bom, o que vos agrada, e o mal, em contrapartida, é o que é mau, o que vos desagrada... É isso mesmo? — Perfeitamente, meu filhinho, teria respondido o Criador. — Por conseguinte, teria continuado Adão, deixai-me aprender em que consiste o mal, a fim de que eu o evite; ou então, por que ter posto aqui esta árvore, se não devo tocar nela?... São os padres (fr. “curés”: o sacerdote de uma paróquia, aquele que o povo encontra) que se encarregam da réplica, no lugar e em vez do seu esquisito Bom Deus. — Deus, dizem eles, impunha uma prova à humanidade nascente; queria ver se Adão lhe obedeceria, quando só lhe pedia uma única e muito pequena privação. Mas é fácil replicar à réplica. Segundo os próprios padres, Deus conhece o futuro: portanto, tinha previsto o que ia acontecer; e, como nada se faz sem a sua vontade, sabia perfeitamente que o homem comeria do fruto da árvore em questão. Queria, pois, a queda dos nossos primeiros pais, disso não há dúvida nenhuma. Aliás, todo o resto da história se volta contra o senhor Jeová. Vejamos como as coisas se passaram, segundo o capítulo 3 do Gênesis: «1. Ora, a serpente era a mais astuta de todos os animais da terra que o Eterno Deus tinha feito; e disse à mulher: Como! Deus teria dito: Não comereis de toda árvore do jardim? 2. E a mulher respondeu à serpente: Comemos do fruto das árvores do jardim; 3. Mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Não comereis dele e não tocareis nele, para que não morrais.
15. Eva tentada pela serpente. 4. Então a serpente disse à mulher: Não morrereis de modo nenhum; 5. Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, os vossos olhos serão abertos, e sereis como os deuses, conhecendo o bem e o mal. 6. [33] Viu, pois, a mulher que o fruto desta árvore era bom para comer e de aspecto agradável, e que esta árvore era desejável para dar ciência; e tomou do seu fruto e comeu; e deu também ao seu marido, arrastando-o consigo; e ele comeu.»
16. Desobediência de Adão e Eva. O que impressiona antes de tudo, neste relato, é que o discurso da serpente, a sua conversa com a mulher, o próprio fato de falar, de se exprimir na mesma língua que os nossos primeiros pais, não é dado pelo autor sagrado como uma coisa sobrenatural, miraculosa, nem como uma alegoria. É mesmo a própria serpente que o Gênesis apresenta; é esse réptil, no papel de animal cheio de malícia e de astúcia, que se faz o tentador da mulher, com uma facilidade de elocução que um papagaio lhe invejaria. A serpente foi posta em cena tão pessoalmente que, desde então, os padres, achando inverossímil o episódio assim contado, julgaram necessário fazer-lhe uma correção que muda tudo, mas que está em contradição com o texto inteiro deste capítulo da Bíblia. Segundo os corretores, tão espertalhões quanto piedosos, foi o diabo que teria tomado a forma da serpente e que, por meio desse subterfúgio, teria tentado Madame Adão; tal é a maneira como os sacerdotes arranjaram a coisa, tal é o seu ensinamento de hoje. Esse arranjo é uma verdadeira falsificação do Gênesis. Em primeiro lugar, nem uma palavra do texto sagrado se presta a tal interpretação. Em segundo lugar, entre os diversos autores dos livros que compõem a Bíblia, há dois ao todo que mencionaram o diabo: o autor do livro de Jó, segundo o qual o diabo discute um belo dia com Deus, no céu: e o autor do livro de Tobias, que cita um certo demônio Asmodeu, apaixonado por uma tal Sara, de quem estrangula sucessivamente sete maridos. Ora, esses dois livros vêm bem no fim da Bíblia, e nem nestes nem nos outros se fala do Lúcifer-Satanás que os católicos fazem intervir a todo propósito, para apimentar o interesse das suas lendas. Em parte alguma se encontra essa aventura, apesar de tão conhecida, de Lúcifer revoltando-se contra Deus e vencido pelo arcanjo Miguel. Isso, como tudo o que se refere ao diabo, foi inventado mais tarde, não [34] só muito tempo depois de Moisés, mas até posteriormente a Esdras. Por outro lado, certos alegres comentadores, na realidade filósofos céticos, divertiram-se em transformar em macieira, de um simbolismo um tanto brejeiro, a famosa árvore da ciência do bem e do mal; e supuseram que esse episódio significa, com palavras veladas, que Madame Adão, ignorando o amor, recebeu a primeira lição de um diabo [35] sedutor, metamorfoseado em serpente para a ocasião... Mas, mesmo rindo desse gracejo, que é uma interpretação que bem vale outra, é preciso pô-lo no mesmo cesto que a falsificação de texto imaginada pelos padres. Devemos tomar a Bíblia tal como ela é, quando queremos examiná-la seriamente: assim, na historieta de que nos ocupamos neste momento, é mesmo o animal chamado serpente que está em causa, e não um diabo [36] qualquer, já que os judeus não tinham diabos na sua mitologia antes da época em que foram escritos os livros de Jó e de Tobias; e quanto aos subentendidos amorosos, atribuídos gratuitamente à serpente tentadora, é evidente que é impossível descobri-los no texto do Gênesis, quando o temos diante dos olhos. É realmente a serpente sozinha, pessoalmente, que está em causa; pois o autor sagrado vê esse animal com os olhos de todos os seus contemporâneos das diversas religiões. A serpente, na antiguidade, passava, com efeito, por ser um animal muito astuto, muito inteligente e cheio de malícia. Vários povos africanos a adoravam. Por outro lado, o caso dessa serpente que fala, caso de que o Gênesis não faz um milagre, é comum à literatura oriental; todas as mitologias nascidas na Ásia estão cheias de animais falantes; entre os caldeus, o peixe Oannes tirava cada dia a cabeça para fora das águas do Eufrates, e, durante horas inteiras, pregava ao povo acorrido às margens, dando bons conselhos, ensinando ao mesmo tempo a poesia e a agricultura. Esses tempos em que os animais tinham a palavra estão bem distantes; mas nenhuma religião do Oriente teve o monopólio disso. Portanto, a serpente bíblica falou, sem precisar ser habitada por um diabinho. Aliás, nessa ocasião, a serpente foi menos astuta do que parece. As patranhas da Sagrada Escritura são de uma ingenuidade extraordinária e rebentam de contradições. Assim, perguntou-se o que a serpente queria dizer com: «Sereis como os deuses.» Essa expressão, que afirma a pluralidade dos deuses, não se encontra só nessa passagem do Gênesis; veremos mais adiante que o senhor Jeová, falando ele mesmo, não se considera o único Deus. Os comentadores católicos, embaraçados por essa frase da serpente, alegaram que por os deuses o réptil terá querido dizer os anjos. Responderam-lhes que uma serpente não podia conhecer os anjos; mas, pela mesma razão, não podia conhecer os deuses. Ingenuidade, contradição, galimatias; a Bíblia é bem isso. Não, não tão astuta assim, essa serpente!... Os seus conselhos eram muito (o texto de 1904 traz “forts incomplets”) incompletos. Uma serpente verdadeiramente esperta teria dito à mulher: — Come do fruto proibido, primeiro, e depois, [37] logo em seguida, não deixes de comer do fruto da árvore da vida, que, aliás, te é permitido. E Jeová, não foi ele a causa primeira da tentação? Por que tinha dado a palavra à serpente? Sem esse dom, esta nunca teria podido fazer-se compreender pela mulher. A Bíblia não nos dá a conhecer a conversa no decurso da qual Madame Adão convenceu o marido a comer com ela do fruto proibido. Felizmente, é fácil preencher essa lacuna do autor sagrado. Vemos a primeira mulher, cuja curiosidade foi espicaçada pela serpente, aproximar-se da árvore da ciência que está no meio do jardim, junto da árvore da vida. Ela a considera longamente, não sem ter algumas hesitações. — Não é bonita, bonita, diz ela, essa serpente (em francês “serpent” é masculino: Eva fala de um galanteador, o diabo sedutor dos comentadores, a quem a gravura 15 dá cabeça de homem, em contraste com o velho Jeová) que acaba de me falar ainda há pouco; mas é, por minha fé, muito distinta de maneiras, e tem uma linguagem encantadora... O conselho que ela me deu parece-me bom de seguir; pois, na verdade, é muito aborrecido não saber nada... Somos, Adão e eu, como peruas (fr. “comme des dindes”, locução: como tolas crédulas; o peru, trazido da América, as Índias de então, recebeu o nome de “poule d’Inde”, galinha da Índia, e o ar tolo da ave fez de “dinde” a palavra para a mulher crédula), e poderíamos ser como deuses!... E depois, é tentador, este fruto... Não há nenhum mais bonito em todo o pomar... Contudo, se a serpente me tivesse contado uma peta (fr. “craque”, palavra familiar: mentira de fanfarrão; de “craquer”, estalar, que também queria dizer gabar-se, mentir), isso é que não seria alegre!... A vida é tão agradável!... Morder este fruto, tenho grande vontade disso; mas, se o resultado da minha gulodice tiver de ser morrer?... Nada divertido, isso... Ela dá voltas em torno da árvore; a serpente, escondida atrás de uma moita, segue de longe todos os seus movimentos. — Não, não é possível que morramos por tão pouca coisa... Foi o pai Jeová quem nos montou um barco (fr. “monter un bateau à quelqu’un”, locução: enganar alguém com uma história inventada)!... Primeiro, pensando bem, acho-lhe um ar de cordel (fr. “l’air ficelle”, locução de gíria: o ar de um sabido que conhece todas as manhas; “ficelle” dizia-se do homem astuto), a esse velho barbaças... ao passo que a serpente... em boa hora (fr. “à la bonne heure”, exclamação: isso sim!; aprovação, muitas vezes irônica)... a sua cabecinha, mimosa, tem não sei que expressão bonachona, com uns olhos faiscantes de espírito... Depois, é de uma lógica impressionante, o que ela me disse... O pai Jeová tem todo o interesse em que continuemos ignorantes das belas coisas que são privilégio dos deuses... A ameaça dele, isso deve ser para nos meter a tremedeira (fr. “ficher le trac”: o “trac” era o medo súbito do ator antes de entrar em cena, e qualquer medo repentino; a locução original era “foutre le trac”, mas “foutre” tinha também o sentido chulo do ato sexual, e para evitá-lo Taxil escreveu “ficher”), pronto... Ele não quer que saibamos tudo isto e tudo aquilo... Oh! [38] os velhos! são todos iguais... uns espertalhões... uns contadores de asneiras... Não se pode confiar neles... Ela puxa um dos bancos do jardim para junto da árvore, sobe nele e colhe um dos frutos. — Digamos que é uma maçã, já que a Bíblia não é explícita sobre esse ponto e que, aliás, pouco importa chamar esse fruto assim ou de outro modo. — Ela contempla a maçã, passando a língua pelos lábios. A serpente, que tudo viu, ergue-se sobre [39] a cauda, atrás da moita, e dança uma alegre quadrilha. Madame Adão aproxima a maçã da boca. — A propósito, como é que isso se come, esse fruto?... Devo descascá-lo ou mordê-lo assim mesmo?... Basta (fr. “Baste !”, exclamação antiga: do italiano “basta”, chega!, que importa!)! de um jeito ou de outro, deve ser bom... Ela hesita ainda um pouco. — Saber tudo ou não saber nada, que alternativa!... Quando brincamos de esconde-esconde, Adão e eu, está bem [40] ou está mal?... Cruel enigma!... É preciso tosquiar os nossos carneiros para fazer bem? ou comete-se o mal em não lhes deixar a lã nas costas?... É de perder a cabeça... E Adão, que mete a todo momento os dedos no nariz, isso tá bem ou tá mal?... Verdade verdadeira, não é viver, ignorar essas coisas!... Decidindo-se de vez, ela dá uma enérgica dentada na maçã. — Sapristi (praga francesa: “sacristi” deformado, que por sua vez deforma “sacré”, sagrado; assim se praguejava sem blasfemar)! como é bom!... Nova dentada, mais enérgica ainda. — Nome de lá! (fr. “Nom d’ed’là !”, praga: é “Nom de Dieu !”, “nome de Deus!”, na boca do povo, com “là” posto no lugar de “Dieu”, para não nomear Deus) como é bom!... Que gosto delicioso!... Ah! o velho gatuno, que me tinha proibido esta guloseima!... Ela se deita no banco, estende-se nele e parece saborear ainda melhor o fruto. Adão, chegando, falando sozinho: — Para passar o tempo, acabo de pescar no Tigre uns peixinhos para fritar... mas, como sou vegetariano, atirei, logo que pescados, os meus peixinhos no Eufrates... Ele avista a esposa. — Hein! varoa, o que é que estás mordiscando aí? Madame Adão, sentando-se de um pulo: Oh! não ralhes comigo!... É um fruto... da árvore... tu bem sabes... de uma das duas árvores do meio do jardim... — Estou vendo, fichtre (praga francesa: “foutre”, a palavra chula para o ato sexual, abrandada segundo o modelo de “ficher”, o seu substituto atenuado)!... É precisamente o fruto da árvore em que nos é proibido tocar... Ora essa! estás louca, minha mulherzinha?... E então, e o aviso do outro?... — O pai Jeová?... o impedidor de dançar em roda (fr. “l’empêcheur de danser en rond”, locução: o desmancha-prazeres)?... Falemos dele, ah! sim!... Regalou-se com a nossa cabeça nos grandes preços (fr. “dans les grands prix”, locução de gíria: completamente, no mais alto grau), o velho macaco!... — Que é que me cantas aí (fr. “Qu’est-ce que tu me chantes là ?”, locução familiar: que disparates me contas?)?... — A ameaça de morte dele... tu te lembras, não é?.. — Com certeza!... Dá-me frio nas costas. — Oh! lá lá! meu olho! (fr. “mon œil !”, exclamação: não acredito em nada disso; diz-se baixando a pálpebra com o dedo)... A ameaça dele, meu caro, era um truque (fr. “truc”, palavra familiar: um ardil, ou o artifício escondido de um efeito de teatro)... — Ora vamos, tu bates Jeannot (fr. “battre Jeannot”, expressão: provavelmente desatinar, como “battre la campagne”; os dicionários não a registram; Jeannot, diminutivo de Jean, João, é o bobo das farsas de feira), tu perdes a bola (fr. “perdre la boule”, locução: perder o juízo; a bola é aqui a cabeça)?... — Um truque, é o que te digo... A prova é que já sei montes de coisas, desde que mordi a maçã... — Sabes o que está bem e o que está mal?... Sabes [41] o que se deve fazer e o que não se deve fazer?... Sabes o como e o porquê de tudo e de tudo?... — Sim, isso está começando, meu cachorrinho verde (fr. “mon petit chien-vert”, nome de gíria: apelido carinhoso que na época se dava às mulheres sustentadas por amantes; Eva adula Adão com ele)... Olha, já sei quantos grãos de sal é preciso pôr num ovo. — Não é possível! — Sei por que os galos fecham os olhos quando cantam... — Tu me pasmas!... E por que as rãs não têm cauda, sabes? — Acabo de aprendê-lo neste mesmo instante... — Dize-o, para me instruir... — É porque isso as incomodaria para se sentarem. — Ah! bah!... Tu me derrubas... — Mais do que isso... Pois bem, eu sei, tenho certeza, estás ouvindo bem, tenho certeza de que és um homenzinho comportado como uma imagem e de que não me fizeste uma só infidelidade... Adão está aparvalhado. — Mil petardos! que ciência ela tem de repente, a minha mulher!... É verdade, apesar de tudo, que nunca lhe fiz uma infidelidade... Saprelotte de saprelotte! (praga francesa, dobrada para dar ênfase: “sapre” é “sacré”, sagrado, e a terminação desvia “Dieu”, Deus, como “bleu”, azul, em “sacrebleu”, para não pronunciar o nome santo) é prodigioso!... E se eu te fizesse uma infidelidade, isso estaria mal ou isso estaria bem?... — Estaria mal, meu senhor!... muito mal!... Ela o atrai para junto de si, no bi da ponta do banco. (fr. “sur le bi du bout du banc”, do título de uma canção de café-concerto de 1886: na pontinha do banco, e assim, com uma piscadela, sentados bem juntos; “bi” nada quer dizer e só faz eco a “bout”, a ponta) — De mais a mais, Adão do meu coração, só de ti depende te tornares instruído como eu, tão depressa e a tão pouco custo... Morde a maçã... Ela lhe estende a maçã. — A mim também isso me dá vontade, minha mulherzinha bem-amada; mas de que nos servirá sermos sábios como acadêmicos, se morrermos disso hoje mesmo... Porque, enfim, é preciso fazer um raciocínio: morrer daqui a mil anos, em último caso, me seria indiferente; mas quebrar o cachimbo (fr. “casser ma pipe”, locução familiar: morrer) hoje mesmo, não, isso seria besta como tudo... Madame Adão encolhe os ombros. — Não pareces acreditar nisso, minha mimosa... Mas eu sei bem o que ele me disse, o velho papai Bom Deus; foi comigo mesmo que ele falou, e te garanto que foi categórico... [42] Permite que eu te repita textualmente as palavras dele: «Quanto à árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no mesmo dia em que dela comeres, morrerás de morte muito certamente»... Não há que regatear (fr. “barguigner”, palavra antiga: regatear, hesitar), vês; eu cá tenho amor à minha pele, se tu não tens à tua... — Adão, Adão, tu me fazes rir... Acaso estou morta, dize? — [43] Não, estás bem viva... Só que o dia ainda não acabou; cuidado com a bomba!.. — Oh! como os homens são teimosos!... Podes gabar-te de ter obstinação de sobra, meu caro!... É uma loucura o tempo que levas para compreender que a velha navalha (fr. “le vieux rasoir”, palavra de gíria: o velho maçante; “rasoir”, a navalha de barbear, dizia-se de quem aborrece de morte) caçoou de nós... Olha, acabas de citar os acadêmicos... — Sim; e depois? — [44] Os acadêmicos... são poços de ciência, esses aí? — Evidentemente. — Pois bem, é por serem poços de ciência que os acadêmicos são imortais (os membros da Academia Francesa são tradicionalmente chamados “les Immortels”)... Adão fica perturbado com o argumento. A esposa se faz dengosa. — Enfim, nem que seja só para me agradar, morde a maçã, meu homenzinho querido... Quando a tiveres provado depois de mim, seremos os dois como os deuses... — Como os deuses?... — Não procures compreender... Foi a serpente que o disse... Adão, resoluto: — Já que foi a serpente que o disse!... Dá, dá a maçã... Morde a maçã com avidez. Dois minutos se passam em silêncio; podia-se ouvir voar um panamista. (fr. “on entendrait voler un panamiste”: jogo com “on entendrait voler une mouche”, “podia-se ouvir voar uma mosca”, dito de um silêncio completo; “voler” quer dizer ao mesmo tempo “voar” e “roubar”, e os panamistas, os políticos e financistas comprometidos no escândalo do Panamá, em 1892, tinham roubado) De repente, Adão solta um grito; é a ciência que lhe chega. — Ventre de são Cinzento! (fr. “Ventre-saint-gris !”, praga: a favorita do rei Henrique IV; em “ventre-Dieu”, ventre de Deus, um santo que nunca existiu, “saint-gris”, toma o lugar de Deus, e assim a praga deixa de ser blasfêmia) exclama ele, estamos nus como vermes!... Que limpeza! (fr. “c’est du propre !”, exclamação, literalmente “é do limpo”: que vergonha; diz-se por ironia)... — Umbigo do papa! diz por sua vez a mulher, nem sequer tenho ligas!... É indecente!... — E nós que temos de ir esta noite ao baile dos orangotangos!... Impossível apresentar-nos em sociedade com um traje tão descuidado!... — Depressa, depressa, temos de nos vestir!... «E os olhos de ambos se abriram; e, conhecendo que estavam nus, coseram juntas folhas de figueira e fizeram delas cintas para si.» (Gênesis 3:7)
17. Adão e Eva têm consciência da sua nudez. Notai bem que o primeiro traje humano não foi de folhas de parreira (em francês, como em português, a folha que cobre o sexo das estátuas nuas é a de parreira: Taxil corrige o lugar-comum com o versículo que acaba de citar); a glória da invenção da videira estava reservada ao patriarca Noé. Uma vez assim vestidos, os dois esposos se olham. — Não estamos muito mal neste atavio, diz o marido. — A mim, a folha de figueira me assenta maravilhosamente, diz a mulher... Estas roupas talvez estejam um pouco empoeiradas; não foram batidas desde a temporada passada... Dá-me uma escovadela, Adão... [45] O contentamento deles não havia de ser de longa duração. «Então ouviram, ao vento do dia que sopra depois do meio-dia, a voz do Eterno Deus, que passeava (sic) no jardim. E Adão e sua mulher esconderam-se da face do Eterno Deus, entre as árvores do jardim.» (Gênesis 3:8)
18. Adão e Eva se escondem ao chamado de Deus. Este Jeová, constata-se mais uma vez aqui, é realmente e verdadeiramente um deus corpóreo: passeia, fala; nós o vimos amassar e soprar. O Gênesis apresenta, pois, o seu Deus à moda de todas as outras mitologias. Os diversos povos da antiguidade não tiveram, com efeito, outra ideia da divindade; Platão passa por ser o primeiro que fez Deus de uma substância mais ou menos etérea, que não era de todo corpo. Os críticos perguntam sob que forma Deus se mostrava a Adão, e mais tarde a Caim, aos patriarcas, aos profetas, a todos aqueles a quem falou por sua própria boca. Os tonsurados respondem que ele tinha forma humana, e que não podia dar-se a conhecer de outro modo, tendo criado o homem à sua imagem. Replica-se que a religião israelita se parece então singularmente, nesse ponto essencial, com todas as religiões que os sacerdotes católicos estigmatizam com o nome de paganismo; os antigos romanos, que tinham adotado as crenças dos antigos gregos, também só concebiam a divindade sob um aspecto humano. Essa observação leva a acrescentar: em vez de ter sido Deus quem fez o homem à sua semelhança, não teria sido, pelo contrário, o homem quem imaginou Deus à sua própria imagem? Mas não insistamos; porque alojar tal opinião nos miolos é votar-se às chamas do inferno. Lembremos somente esta maliciosa reflexão de um filósofo: se os gatos tivessem fabricado deuses para si, os teriam feito correr atrás dos ratos. Pormenores como os do passeio de Deus no jardim do Éden mostram peremptoriamente que não se trata de modo algum de uma alegoria mística; todo o relato do autor sagrado está no estilo de uma história verdadeira. «9. E o Eterno Deus chamou a Adão, e lhe disse: Adão, onde estás?» Estava lastimoso e confuso, messire Adão (título francês antigo: dava-se a um cavaleiro ou a um senhor, e soa aqui como uma cortesia zombeteira), e a sua mulher também não se sentia nada à vontade. Tentam esquivar-se, escondem-se; mas, eu te dou disso (fr. “je t’en fiche”, exclamação familiar: nada disso, nem pensar; diz-se como uma oferta zombeteira)! como escapar ao olhar divino [46] que paira sobre tudo?... Em vão se esforçam os infelizes por esconder a sua pessoa aos olhares do Altíssimo; atrás deles, por toda parte, ressoa o terrível chamado do Senhor, que fala como amo poderoso, severo, e se prepara para punir o seu servidor, o seu escravo, que lhe desobedeceu. Não há meio de sair desse mau passo; estão apanhados; vão ter de confessar a falta cometida. Encabulados, balbuciarão más desculpas. «10. [47] Adão respondeu: Senhor, ouvi a tua voz no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.» Ei-los, pois, diante do patrão, diante desse Deus que conhece o futuro, que tinha previsto o acidente da serpente e da maçã, e que se zanga como se não tivesse suspeitado de nada, como se o que acaba de acontecer não se tivesse produzido por sua onipotente vontade. Adão e sua mulher não pensam [48] nisso na sua perturbação; vão falar a linguagem dos escolares apanhados em falta: — M’sieu (fr. “monsieur”, senhor, na pronúncia desleixada), não fui eu que comecei; foi ela! — M’sieu, não faço mais, de tão pesarosa que estou... Ah! não, com certeza, não recomeço, podeis me crer!... «11. E Deus disse a Adão: Quem te ensinou que estavas nu? Deves ter comido daquilo que eu te havia proibido de comer. 12. E Adão respondeu: A mulher que me deste para estar comigo deu-me do fruto da árvore, e eu comi dele. 13. E Deus disse à mulher: Por que fizeste isso? E a mulher respondeu: A serpente me enganou, e eu comi do fruto.» Agora, mestre Elohim vai distribuir as punições. Procede por ordem, e aquele que foi o primeiro culpado é que pagará (fr. “écoper”, palavra de gíria: tirar a água de dentro de um barco, a tarefa mais molhada de bordo, e daí, provavelmente, ser quem recebe o castigo) primeiro. Atenção! «14. Então o Eterno Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás entre todos os animais e bestas da terra; andarás sobre o teu ventre daqui em diante, e te alimentarás de terra todos os dias da tua vida. 15. E porei inimizades entre ti e a mulher, entre os teus filhos e os filhos da mulher; eles procurarão esmagar-te a cabeça, e tu procurarás mordê-los no calcanhar.»
19. Deus repreende Adão e Eva pelo seu pecado. Esse castigo infligido à serpente prova, sem réplica possível, que os padres são uns patranheiros quando, com a sua mania de enfiar o diabo em toda parte, atribuem a tentação da mulher ao demônio que naquele dia tomara emprestada a forma do réptil, a esse Lúcifer-Satanás cujas pretensas revolta e derrota não se encontram inscritas em nenhum dos livros da Bíblia. Se Satanás fosse o culpado, Deus evidentemente lhe teria ordenado que regressasse incontinenti ao seu domicílio infernal e lhe teria outorgado um suplemento de suplício na morada das trevas. Ora, a punição da tentação atinge, única e exclusivamente, a serpente enquanto animal e besta da terra. Segundo o versículo 14 do capítulo 3, é de crer que essa dadora de conselhos pérfidos era, até então, um animal provido de patas; e é bem a ela que Deus cortou [49] naquele dia as patas, pois que a condenou a rastejar dali em diante — castigo que seria dos mais injustos, se esse animal não tivesse tido nada a ver com o caso. — Suponde que o abade Garnier (Théodore Garnier, sacerdote, jornalista e agitador católico parisiense, fundador da Union nationale e adversário de Taxil, cuja mistificação denunciou) se disfarce, numa bela manhã, de homem honesto, que tome o traje e se caracterize de papai Ruel (Xavier Ruel, fundador do Bazar de l’Hôtel de Ville, a grande loja parisiense, e vereador de Paris, célebre pelas suas obras de beneficência; em francês chama-se familiarmente “papa” a um velho conhecido de todos), que é um filantropo, e que depois vá, sob esse nome, cometer vigarices; que aconteceria quando ele fosse enfim engaiolado, desmascarado e levado ao tribunal correcional (fr. “correctionnelle”, abreviação de “tribunal correctionnel”, o tribunal francês que julga os delitos menores)? o tribunal condenaria à multa e à prisão o bom papai Ruel? Não, decerto! pronunciaria a sua sentença contra o verdadeiro vigarista, aplicaria o seu julgamento ao tal Garnier, é claro. Os tonsurados farão bem, pois, em renunciar ao seu conto azul (fr. “conte bleu”, locução: história inverossímil, o que em português é uma “história da carochinha”; alusão aos livrinhos de capa azul da “Bibliothèque bleue”) de Lúcifer tentador da primeira mulher; essa patranha não para em pé. Ou então, visto o texto sagrado, se quiserem mantê-la mesmo assim, é preciso dizer que o diabo foi mais esperto que o senhor Jeová, e que este, completamente amolecido (fr. “ramolli”, palavra familiar: dito do homem cujo cérebro amoleceu, que perdeu o juízo), só viu a serpente em todo esse caso, não avistou a menor ponta de chifre de Lúcifer, e privou de patas a inocente serpente. Meu velho Leão XIII, livra-te desta! Para dizer a verdade, de qualquer ponto de vista que se encare esse extravagante episódio, é preciso reconhecer que o farsante Espírito Santo zombou mais uma vez do piedoso autor que escrevia sob o seu ditado. Se é verdade que os filhos da mulher, os humanos, têm uma aversão geral pelas serpentes, se é verdade que em caso de encontro uns procuram de bastante bom grado esmagar a cabeça destas, que por seu lado se defendem ou atacam procurando morder aqueles no pé ou na perna, em contrapartida há uma pena pronunciada por Deus contra as serpentes, que elas nunca sofreram: as serpentes não se alimentam de terra, nunca, nunca jamais. Essa sentença, portanto, foi eludida, a não ser que Jeová tenha declarado a lei Bérenger (a lei de 1891 que introduziu no direito penal francês o “sursis”, a suspensão condicional da pena) aplicável nesse ponto; caso em que a Bíblia se esqueceu de mencionar essa suspensão indefinida. Mas, para saborear a mistificação do Espírito Santo em toda a sua alegre zombaria para com os crédulos devotos, é preciso considerar a extensão imensa do castigo infligido à serpente. Qual era exatamente o ofídio tentador? A [50] Bíblia não o especifica; mas pouco importa: é evidente que não podia ser ao mesmo tempo uma víbora e uma cobra-d’água, ou uma boa e um crótalo; as espécies de ofídios que vivem no nosso globo são muito numerosas. Admitamos que tenha sido a cobra-d’água que provocou ao pecado Madame Adão; admitamos até, se assim se quiser, que o castigo da cobra-d’água seja razoável estendendo-se à posteridade dessa espécie, e que todas as cobras-d’água do futuro sejam logicamente [51] privadas de patas para expiar a falta daquela do Éden... Ora bem, se a mulher não tivesse conseguido arrastar o homem na sua desobediência, só ela teria sido punida, não é verdade?... Pois bem, pobres serpentes! só a cobra-d’água foi culpada; mas eis que, do mesmo golpe, a áspide, a naja, a cascavel, a cerasta, o licranço, a víbora, o píton, a cobra-capelo, o rouleau, o élaps, o erpéton, o bothrops, o ferro-de-lança, o atropos, o hipnale, o rhodostoma, o humbroni, [52] o búngaro, o psammophis, o eunecto comedor-de-ratos, o oxirropo, a jiboia, o moluro, e a sua posteridade, perderam as patas e rastejam para sempre, apesar da sua incontestável inocência!... «16. Deus disse em seguida à mulher: Multiplicarei as tuas misérias e as tuas gravidezes; e darás à luz com dor; e estarás sob o domínio do teu marido.» Por unanimidade, os comentadores são de opinião que as penas dessa sentença visam não só Madame Adão, mas todas as mulheres até o fim do mundo. Sem nos determos no que esse sistema tem de injusto ou no que denota de um Deus razoavelmente maluco (fr. “loufoc”, que se escreve habitualmente “loufoque”, palavra de gíria: “fou”, louco, disfarçado em largonji, gíria parisiense que joga para o fim a primeira letra da palavra e põe um l no seu lugar — “fou” dá “louf” — e depois acrescenta a terminação que soa melhor, donde “loufoc”; a gíria chama-se “largonji” pelo que faz com “jargon”), observaremos primeiro que, se a primeira mulher tivesse sabido resistir às seduções da serpente, não teria dado à luz com dor. Antes daquele dia, portanto, ela era feita de um modo inteiramente diferente do que foi no seu primeiro parto. Por conseguinte, num segundo, isto é, no próprio instante em que pronunciou o seu decreto, Deus transtornou de alto a baixo o organismo da mulher. Como se vê, quando o dedo de Deus se mete nisso, opera coisas espantosas. Em segundo lugar, é bom observar que, apesar dessa onipotência, Jeová não conseguiu tornar gerais as penas que decretou contra o sexo feminino: por um lado, há muitas mulheres que dão à luz sem dor; por outro lado, as que usam as calças no seu lar, as que levam o marido pela ponta do nariz, em vez de estarem sob o seu domínio, essas são legião em todas as classes da sociedade. «17. Depois, Deus disse a Adão: Visto que escutaste a voz da tua mulher, e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido de comer, a terra será maldita por causa de ti, e dela comerás com trabalho todos os dias da tua vida. 18. E a terra te produzirá espinhos e cardos; e comerás a erva dos campos. 19. E comerás o teu pão com o suor da tua fronte, até que tornes a essa terra de onde foste tomado; porque és pó, e em pó te tornarás.» Mesma observação que acima: o castigo de Adão deve atingir igualmente todos os homens; perfeita [53] unanimidade dos teólogos sobre a interpretação destes três versículos do Gênesis. O mais terrível da sentença é a condenação à morte. É verdade que o inefável Jeová esquece o que tinha decretado anteriormente, isto é, que em caso de papança (fr. “boulottage”, palavra familiar: de “boulotter”, comer) do fruto proibido o homem morreria de morte no próprio dia do delito (Gênesis 2:17). Essa falta de memória de papai Bom Deus valeu ao condenado um adiamento bastante considerável da execução; com efeito, a crer na Bíblia, Adão viveu ainda... novecentos e trinta anos (Gênesis 5:5). Mas, se Adão não tivesse comido a maçã, nunca teria morrido, e nós mesmos, todos, seríamos imortais. Pessoas curiosas perguntam: Então, que teriam feito os homens no dia em que a terra fosse insuficiente para contê-los? pois, como Adão e sua mulher tinham recebido desde a sua criação a faculdade de se multiplicar, teria chegado forçosamente um momento em que os seus filhos e os filhos dos seus filhos teriam povoado o nosso planeta de um modo exuberante. É evidente que esse problema é insolúvel. E então, Deus precisava, de certo modo, que Adão cometesse o pecado: a morte aparece assim como uma necessidade; mas Deus fazia questão de que o homem imaginasse ter toda a culpa, e por isso armou aos nossos primeiros pais a cilada da maçã e deu a palavra à serpente, que ele sabia capaz de tentação. Se Deus existe tal como a Bíblia o representa, é tanto assim, que a serpente ficou muda desde aquela época, embora a perda da palavra não figure entre as penas que lhe foram infligidas. Outra observação se apresenta por si mesma ao espírito, a respeito do pão que Adão e a sua posteridade foram condenados a comer à força de suores. É provável que não houvesse pão nos tempos primitivos e que os homens se alimentassem então como as tribos selvagens que ainda existem em nossos dias. Mas não sejamos implicantes por tão pouco, e admitamos que o senhor Jeová tenha falado por antecipação. Os judeus, para quem a Bíblia foi escrita, comiam, com efeito, pão. Ora, os tonsurados nos dizem que esse livro não foi escrito exclusivamente para os judeus e que é, em nome do Espírito Santo, a lei religiosa do mundo inteiro. Nesse caso, [54] somos forçados a reconhecer que só se come pão nos países onde o trigo cresce: os lapões, pastores de renas e pescadores de focas, e, em geral, todos os povos das latitudes polares, ignoram absolutamente a existência da farinha; em numerosas regiões das Índias, da América, da África central e meridional, vive-se de frutos e do produto da caça. Dirão que a palavra pão foi empregada por Deus em sentido figurado e que designa toda espécie de alimento? Pode-se [55] responder que o castigo também não é geral: se os operários mourejam para se alimentar, se todo aquele que vive do seu trabalho se vê assim atingido em consequência da falta de Adão, o mesmo não acontece com os desfrutadores da vida que nascem ricos, milionários por herança. E os gordos cônegos, então! esses, quando suam, é no verão, por causa da sua gordura; não é o seu trabalho que os faz regar de suores o seu pão de cada dia! [56] O versículo 18, em particular, é muito malévolo para com a espécie humana. Fora o pão, o homem está condenado a só comer a erva dos campos, como o gado; que lhe produzirá a terra? espinhos e cardos. O pombo nos impinge uma bela! Apesar de Deus, os homens comem outra coisa além de pão e erva. Perguntai a Lúculo. Ou então, por que Jeová não destrói, a golpes de raio, os restaurantes que se permitem pôr pratos de carne no seu cardápio? Inútil insistir. Cabe aqui dizer que Adão teria sido bem inspirado em mandar passear o pai Bom Deus (fr. “envoyer promener”, locução: despachar alguém de maus modos, como em português; Taxil toma-a ao pé da letra, pois Jeová gostava de passear em seu pomar), já que o passeio agrada a Jeová. Mas eis o que se passou depois de pronunciado o julgamento: «20. Então Adão chamou à sua mulher Eva, porque ela é a mãe de todos os viventes.» O querido homem ainda não tinha pensado em dar um nome à sua companheira; até então limitara-se a chamá-la de varoa, como se viu no versículo 23 do capítulo 2. O curioso é que o nome dado por Adão à sua esposa seja precisamente um nome hebraico; Hévah (a grafia que Taxil dá ao nome hebraico; a Bíblia de Almeida diz “Eva”, do hebraico “Havvá”, “vivente”) significa «a vida». Donde temos o direito de pôr este dilema ao autor do Gênesis: ou a língua dos nossos primeiros pais é o hebraico, e então, como essa língua não se perdeu, é preciso riscar a história da torre de Babel; ou Adão deu à sua mulher um nome tirado da famosa língua primitiva, hoje perdida, e então o autor sagrado cometeu um deslize. Num caso como no outro, o pombo inspirador zombou, mais uma vez, do escritor. Agora, vamos ver que Jeová não expulsou imediatamente Adão e Eva do paraíso terrestre, contrariamente à opinião corrente. Primeiro, papai Bom Deus, achando sumário demais aquele traje de folhas de figueira, improvisou-se alfaiate. «21. E o Eterno Deus fez a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu com elas.» Para a confecção dessas vestes, eis, pois, um massacre de bichos inocentes; o matadouro era inaugurado por Elohim em pessoa. Depois disso, como quereis que [57] os nossos primeiros pais não tenham pensado logo em utilizar para seu alimento a carne dos animais tão prestamente imolados e esfolados? Bolas para o regime de pão e erva! devem ter dito consigo mesmos. E o senhor Jeová bem teria deixado Adão e Eva viver e morrer no Éden, se, algum tempo depois de tê-los vestido, não tivesse pensado naquela mirífica árvore da vida, cujos frutos o homem e a mulher não tinham tido a ideia de morder. «22. E o Eterno Deus disse consigo: Eis que o homem se tornou como um de nós (sic); conhece o bem e o mal. Mas, agora, é preciso tomar cuidado para que não estenda também a mão para a árvore da vida, e lhe colha o fruto, e dele coma, e assim viva eternamente.» Tal é o versículo 22 que os tonsurados omitem, e por boa razão, nos seus resumos da Bíblia. Assim, está claro, isso: os nossos dois patetas Adão e Eva, a quem o fruto da árvore da vida não tinha sido proibido, negligenciaram-no tolamente; e se o homem e a mulher, enquanto Jeová estava ocupado em talhar os seus trajes de peles, tivessem tido a boa inspiração de se lançar sobre um desses frutos maravilhosos e de engoli-lo depressa, o velho juiz raivoso é que teria feito um nariz (fr. “aurait fait un nez”, locução: teria feito cara de despeito)!... Zás! a sua sentença tornava-se de repente inexequível. Não é mesmo engraçada, decididamente, a Santa Bíblia, logo que a lemos de perto?... Não só ele tem a vista turva (fr. “il a la berlue”, locução: vê o que não existe; a “berlue” é um ofuscamento passageiro da vista), esse Deus único que deixa escapar uma constatação da existência de vários deuses; mas ainda, ele, pretenso todo-poderoso, confessa, como um imbecil, a sua impotência para aplicar o seu decreto de condenação à morte. De quão pouco isso dependeu, vede só! Com presença de espírito, Adão e Eva se tornavam imortais, apesar do próprio Deus!!! E como o velho Jeová deve ter-se felicitado por se ter enfim lembrado dessa velhaca árvore da vida!... não, dizê-lo não é nada (fr. “ce n’est rien de le dire”, locução: é pouco dizer, a coisa vai muito além)... Com certeza ele tinha dado um nó no lenço. Se não fosse isso!... «23. E o Eterno Deus fez sair Adão do jardim do Éden, para que lavrasse a terra de que fora amassado. 24. Assim expulsou o homem; e então pôs um Querube [58] diante da entrada do jardim, com uma lâmina de espada de fogo, que se volvia de um lado para o outro para guardar o caminho da árvore da vida.»
20. Adão e Eva expulsos do paraíso terrestre. (a tabuleta do portão diz “Campagne à louer”, aluga-se casa de campo: o Paraíso está para alugar) Não há engano, não é?... O que mais preocupava mestre Elohim era mesmo essa malfadada árvore da vida. A preço nenhum Adão e Eva deviam poder voltar a ela. Mas também, que ideia danada tivera papai Bom Deus de criar essa árvore!... Vejamos: com o seu conhecimento do futuro, ele sabia [59] com toda a certeza que os nossos primeiros pais pecariam e que ele os condenaria à morte, a eles e a toda a raça humana; então, essa árvore da vida só podia ser para ele um estorvo; era tão simples não plantá-la!... Eis um bendito Jeová que não faria mal em se pôr no regime das duchas (fr. “au régime des douches”: as duchas frias eram o tratamento habitual dos manicômios da época); pensando bem, talvez os estabelecimentos de hidroterapia brilhem, no céu, pela ausência (fr. “briller par son absence”, locução: a mesma do português “brilhar pela ausência”), embora o começo do Gênesis nos tenha informado da existência de águas superiores, situadas [60] acima da expansão onde se movem os astros... E mais, essa ideia de imobilizar um Querube com espada flamejante à porta do Éden, isso é que é besta, oh! sim!... Com uma palavra, com um só esforço de vontade, Deus podia aniquilar a importuna árvore da vida, dali em diante sem razão de ser; e o Todo-Poderoso não pensou nisso!... Enfim, passe o Querube, sentinela sem guarita!... Esse Querube é um ordenança precioso, se a descoberta do Éden tentar algum novo Cristóvão Colombo. Vamos, precisa-se de um explorador de boa vontade. Entre os meus leitores, alguém quer se inscrever?... Já que papai Bom Deus se deu ao trabalho de mandar guardar a porta do Éden, já que chegou a tomar medidas defensivas para impedir para sempre a humanidade de entrar no caminho que leva à árvore da vida, é porque o paraíso terrestre e a maravilhosa árvore ainda existem em algum lugar. Se, explorando a região onde estão as nascentes do Tigre e do Eufrates, avistarmos numa estrada, diante de um portal, um Querube agitando uma lâmina de espada de fogo, não teremos dúvida nenhuma, poderemos dizer: Chegamos! é aqui! Cem mil francos de recompensa a quem encontrar o Querube! E, antes de mais nada, o que é exatamente esse paroquiano (fr. “paroissien”, palavra familiar: indivíduo, sujeito)?... «Querube» é a palavra que figura no texto hebraico do Gênesis. Essa palavra significa «um boi»; vem de charab, «lavrar». Com efeito, os hebreus tinham guardado numerosas lembranças da sua servidão no Egito, e copiaram bastante largamente os egípcios em muitos usos, até no que dizia respeito aos miúdos pormenores do culto; foi assim que esculpiram grosseiramente bois, dos quais fizeram espécies de esfinges, animais compostos, tais como os que puseram nos seus santuários. Essas figuras tinham duas faces, uma de homem, uma de boi, e asas, assim como pernas de homem e pés de boi. Hoje, os tonsurados mudaram tudo isso (eco de “Le Médecin malgré lui”, de Molière, em que o falso médico Sganarelle, que pôs o coração à direita e o fígado à esquerda, responde: “nous avons changé tout cela”, “mudamos tudo isso”): de Querube fizeram Querubim, e os Querubins do novo culto são jovens anjos bochechudos, mas sem corpo, que só têm uma cabeça de criança com duas asinhas; veem-se desses anjos cômicos em grande quantidade de quadros de igreja... É provável que o angélico porteiro do paraíso terrestre não corresponda a esta última descrição, e que seja, pelo contrário, [61] um Querube à moda hebraica, com cabeça de duas faces, uma delas de boi; o que permitirá ao nosso explorador reconhecê-lo de longe. Ou, se for um Querubim à moda católica, sem corpo nem mãos, ele há de segurar com os dentes a sua espada flamejante, e, desse modo também, não poderá passar despercebido. Mas eu me inclino pelo pipelet (palavra familiar francesa: porteiro; Pipelet é o porteiro de “Os Mistérios de Paris”, de Eugène Sue, e o seu nome passou a todos os do ofício) de cabeça meio humana, meio bovina. Avante, pois, em busca do Éden! aviso aos amadores!... Ainda que não consigamos entrar, a excursão será interessante; daremos, pelo menos, a volta ao jardim, e fixaremos o local nos mapas de geografia, que, sem isso, seriam sempre incompletos. Enquanto isso, vejamos agora o que fizeram Adão e Eva, uma vez fora do paraíso terrestre, e tendo o conhecimento integral do bem e do mal... incluindo o mal do mar (fr. “le mal de mer”, locução: o enjoo; “mal” é ao mesmo tempo o mal e a doença, e assim Taxil mete o enjoo na árvore da ciência do bem e do mal). CAPÍTULO 2
A Sagrada Escritura não abunda em pormenores biográficos a respeito dos primeiros homens. O quarto capítulo do Gênesis atalha as suposições dos comentadores joviais, que quiseram ver a obra de amor na história da maçã, colhida por Eva, a conselho da serpente, e comida em comum com Adão. Foi depois da expulsão do Éden que os nossos primeiros pais trataram de se dar uma posteridade. O texto da Bíblia é suficientemente explícito. «1. E Adão conheceu a Eva, sua mulher, a qual então concebeu e deu à luz Caim; e ela disse: Adquiri um homem pelo Eterno. 2. E deu à luz também a Abel, seu irmão. E Abel foi pastor, e Caim foi agricultor.» As pessoas que não aprofundaram o estudo da teologia e dos teólogos estão a mil léguas de suspeitar as extravagantes discussões que esse grave assunto da concepção do primeiro bebê humano suscitou entre [62] os comentadores judeus e cristãos. A despeito do texto acima, uns, que não o achavam ainda bastante claro e eram partidários, apesar de tudo, da obra de amor realizada no Éden, emitiram a opinião de que Eva, recém-criada, perdeu a virgindade, e de que a serpente aproveitou, para tentá-la, o momento em que Adão estava adormecido para descansar das suas fadigas conjugais. Os outros, tendo à frente São Jerônimo, que compôs a Vulgata traduzindo diretamente do hebraico, são de opinião que [63] o versículo 1 do capítulo 4 do Gênesis prova que Adão só pensou em conhecer Eva quando foram expulsos do paraíso. E as apreciações não ficaram por aí!... Os teólogos que adotaram a maneira de ver de São Jerônimo dividiram-se entre si, em virtude do belo raciocínio que segue: admitido que a consumação do casamento ocorreu depois da saída do Éden, não há motivo para que [64] tenha sido logo, ali, imediatamente; então, quando? em que momento preciso?... Quando se é teólogo, quer-se remexer em tudo; esses homens são de uma curiosidade inimaginável, sobretudo nessa espécie de questões. Houve, pois, gente que propalou que Adão adiou quinze anos e até trinta anos a operação decisiva. Outros levam a coisa ainda mais longe e sustentam gravemente que Adão e Eva, por uma resolução comum e para chorar o seu pecado, só romperam a sua continência ao cabo de... cem anos! Julgais que acabou?... Ah! quão pouco conheceis os teólogos! Alguns desencavaram uma tradição, em virtude da qual Adão teria ficado excomungado cento e cinquenta anos por ter comido do fruto proibido, e teria vivido durante esse tempo com uma mulher que, como ele, teria sido formada da terra e a quem chamam Lilia; acrescentam que ele gerou diabos pelo seu comércio com essa mulher, e que enfim desposou Eva, quando a sua excomunhão foi levantada, e que então gerou homens. É justo dizer que essa opinião não prevaleceu. Por fim, outros comentadores, qualificados igualmente de hereges e citados por Santo Epifânio, sustentaram que o diabo tivera trato com Eva como um marido com a sua mulher, e isso mesmo depois da saída do Éden, e que dela tivera Caim e Abel. Eis aí, pois, compensações: Adão deixa Eva para fazer diabos com outra mulher, e o diabo vai procurar Eva para fazer homens com ela. E a questão dos partos de Eva?... Os queridos teólogos encontraram nela também uma mina inesgotável de controvérsias. Mas isso nos levaria longe demais. Em último lugar, lembremos uma célebre e douta dissertação do alemão Reinhardt, em que se debate a questão de saber se Adão e Eva tinham ou não umbigo!... Tudo isso são asneiras, como diz o outro. Cheguemos ao que é sério, visto que o que é sério na Bíblia não deixa por isso de ser de morrer de rir. Assim, pois, Abel foi pastor, e Caim agricultor (Gênesis 4:2); e vamos ver em breve esse velho tocado do Jeová preferir Abel a Caim. Ora, peço-vos que reflitais nisso um segundo apenas: qual dos dois filhos de Adão, se vos apraz, tinha obedecido a Deus [65] na escolha da sua profissão? Foi Caim, por azul! (fr. “parbleu !”, praga: é claro!; é “par Dieu”, “por Deus”, com “bleu”, azul, posto no lugar de “Dieu”, Deus, para não o nomear; “morbleu” e “sacrebleu” são feitos do mesmo modo) já que o Eterno ordenara à humanidade que cultivasse a terra e se alimentasse exclusivamente do que os campos produzissem, salvo transformar o trigo em pão. Já Abel se faz pastor; se guardava e criava rebanhos de carneiros, evidentemente não era pelo prazer de vê-los pastar, enfiando pérolas (fr. “enfiler des perles”, locução: perder tempo com ninharias); era, na realidade, porque apreciava sobretudo o carneiro do ponto de vista do pernil e das costeletas, com que se regalava, coisa que se entende por si. Abel infringia, portanto, redondamente as expressas e recentes prescrições divinas; e foi ele o queridinho do senhor Jeová!... Decididamente, ó padres impagáveis, não é nos vossos tabernáculos que é preciso encerrar o vosso papai Bom Deus; é numa cela de Charenton. (o manicômio de Charenton, perto de Paris; em francês, seu nome passara a significar casa de loucos) «3. E aconteceu, ao cabo de algum tempo, que Caim ofereceu em oblação ao Eterno frutos da terra; 4. E que Abel também ofereceu dos primogênitos do seu rebanho, e da gordura deles. E o Eterno ficou contente com Abel e com os seus presentes; 5. Mas não ficou contente com Caim nem com os seus presentes. E Caim ficou irado, e abateu-se o seu semblante.»
21. Oferendas de Abel a Deus. Havia motivo para achá-la ruim (fr. “la trouver mauvaise”, locução familiar: não lhe achar graça nenhuma), com efeito. «6. E o Eterno disse a Caim: Por que estás em cólera, e por que está abatido o teu semblante? 7. Se fizeres bem, não será recebido? Mas, se não fizeres bem, a pena do pecado está à porta. Ora, os seus desejos se referem a ti; e ele estará sob o teu poder.»
22. Oferendas de Caim. A Bíblia não menciona nenhuma resposta de Caim a Deus. Confesso que, se eu estivesse no lugar dele, o galimatias incompreensível do versículo 7 me teria deixado completamente aturdido. Caim não era profeta. Do contrário, deixando de lado o galimatias supracitado, poderia ter respondido ao seu interlocutor: — Então são as oferendas de carnes que preferis, meu velho Jeová?... Pois bem, dais um exemplo que será seguido pelos sacrificadores pagãos... Tendes justamente os mesmos gostos que terão os ídolos, e esses gostos serão mais tarde declarados grosseiros e indignos da divindade... sabeis por quem?... pelos próprios sacerdotes do catolicismo. Mas Caim não respondeu coisa alguma. Esse homem, que tivera [66] tanto trabalho para levar a bom termo a cultura dos seus melões, que oferecia ao Senhor os seus cantalupos mais suculentos e que os via desprezados, esse homem compreendeu que Deus caçoava dele por cima do negócio (fr. “par-dessus le marché”, locução: além de tudo o mais, o que em português se diz “ainda por cima”), e ficou tão melindrado que perdeu por um momento a cabeça. Em vez de guardar rancor ao caprichoso e descortês Jeová, cometeu o erro de se voltar contra o seu irmão. «8. E Caim disse a seu irmão Abel: Saiamos para fora. E [67] quando estavam no campo, levantou-se Caim contra Abel, seu irmão, e o matou.»
23. Homicídio de Abel por Caim. A coisa não se arrastou, como se vê; Caim era um sujeito expedito. Convida o irmão a dar um pequeno passeio lá fora; arrasta-o para o campo, sob um pretexto qualquer, para procurarem juntos escaravelhos, por exemplo. Uma vez lá, depressa uma querela de alemão, a propósito de botas (fr. “une querelle d’allemand, à propos de bottes”, duas locuções: a “querela de alemão” é uma disputa procurada sem motivo, e “a propósito de botas” quer dizer a propósito de nada); depois, uma boa pancada de picareta na cabeça. Zás! pronto. E é [68] o querido de papai Bom Deus quem, na humanidade, estreia a morte. Depois disso, o que se passa na cachola (fr. “la caboche”, palavra familiar: a cabeça) de Caim? Fica aniquilado diante do espetáculo do seu crime?... De modo nenhum. Metamorfoseia-se subitamente em celerado empedernido, em caça de galés (fr. “gibier de bagne”, locução: homem que já pertence às galés, como a caça ao caçador; o “bagne”, sucessor das galés, era a prisão de trabalhos forçados). Não tem o menor remorso, e ele, há pouco tão abatido, vai mostrar-se insolente para com o senhor Jeová, que não lhe inspirará temor algum. «9. E o Eterno disse a Caim: Onde está Abel, teu irmão? E Caim lhe respondeu: Não sei nada disso; sou eu, porventura, o guardador de meu irmão?»
24. «Caim, que fizeste de teu irmão?» Parece que se vê o quadro: papai Bom Deus aparecendo no canto de uma nuvem e interpelando o homicida, e Caim que lhe manda algo como E a tua irmã? (fr. “Et ta sœur ?”, dito: não te metas no que não te diz respeito; réplica zombeteira de Paris) com a perfeita serenidade de um profissional do crime, que julga ter feito desaparecer todos os vestígios do assassinato e faz um nariz comprido aos gendarmes. Ora, Jeová não tinha perdido um pormenor do drama; o seu olho divino não falhou, desta vez. «10. E Deus disse: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra até mim.»
25. O sangue da vítima ergue-se contra o assassino. É claro que um castigo terrível vai punir tanta perversidade e tanto descaramento. Vejamos, pois, a continuação do discurso de Jeová: «11. Pelo que, agora, serás maldito até pela terra, que abriu a sua boca para receber da tua mão o sangue de teu irmão! 12. Quando lavrares a terra, ela não te renderá mais o seu fruto; e serás também vagabundo e fugitivo sobre toda a terra.» Eis Caim condenado à vagabundagem, a não ter nem fogo nem lugar (fr. “ni feu ni lieu”, locução: nem lar nem domicílio; em português se diz “sem eira nem beira”), a andar sempre sem poder parar em parte alguma, precursor do lendário judeu errante. Mas, se vai ser fugitivo sem repouso nem trégua, não será ao mesmo tempo lavrador, o que é uma profissão essencialmente sedentária; como se arranjaria ele para lavrar, ainda que em pura perda? — Se um acusado de vagabundagem prova ao tribunal que é lavrador, se demonstra que possui um campo e que o cultiva, a sua absolvição é certa; a acusação desmoronou, ele não é vagabundo. [69] Nisso, Caim toma um susto (fr. “frousse”, palavra de gíria: um medo extremo, muitas vezes irrefletido), um tal susto que perde de vista que a humanidade se compõe ao todo de três pessoas, seu pai, sua mãe e ele próprio, e imagina poder ser morto, por sua vez, pelos outros homens, que não existem. Bonito desarranjo cerebral, esse! Pois bem, isso está com todas as letras na Bíblia. «13. E Caim disse ao Eterno: A minha pena é maior do que posso suportar. 14. Eis que tu me expulsaste hoje de sobre esta terra, e me esconderei de diante da tua face, e serei vagabundo e fugitivo sobre toda a terra; então acontecerá que qualquer que me encontrar me matará.» Com isso, a ira do velho Jeová se acalma. Não perdoa a Caim a sua condenação à vagabundagem perpétua; mas, perdendo também ele o senso da situação, não quer que a pena seja agravada. Por isso toma Caim sob a sua proteção contra esses assassinos impossíveis. Se isso não é delírio, pergunto o que o será! «15. E o Eterno disse a Caim: Qualquer que matar a Caim será punido sete vezes em dobro. E Deus pôs uma marca em Caim, para que os que o encontrassem não o matassem.»
26. Caim é marcado com um sinal de reprovação. Espera-se ler agora algum relato da vagabundagem de Caim. Ah! isso é que não! Ninguém foi mais sedentário do que esse fugitivo. «16. Então saiu Caim de diante da face do Eterno, e veio habitar na terra de Node, ao oriente do Éden. 17. Ali, Caim conheceu a sua mulher, a qual concebeu e deu à luz Enoque; e ele edificou uma cidade, a que chamou Enoque, pelo nome de seu filho.» Ficamos sabendo assim que Caim se casou: o autor não diz com quem; mas corre da fonte (fr. “il coule de source”, locução: é evidente, é coisa natural) que Adão e Eva tiveram filhas, das quais a Bíblia se descuidou de falar, e que Caim desposou uma de suas irmãs. Não o acusaremos disso como de um crime; o incesto foi obrigatório nos primeiros tempos da humanidade. O que, isto sim, nos faz dar um pulo, tão grande é a nossa surpresa, é essa cidade fundada por Caim. Já é coisa forte, um vagabundo que edifica uma cidade; mas que operários tinha ele ao seu serviço? de que instrumentos se serviram para construir as casas? e onde, enfim, recrutou Caim cidadãos [70] para povoar a sua cidade de Enoque?... E o farsante Espírito Santo fez engolir essa boa história ao piedoso autor que ele inspirava!... Os versículos seguintes nos dão a descendência de Caim. Enoque gera Irade; Irade gera Meujael; Meujael gera Metusael. Desses personagens, só se sabe o nome. Metusael gera um certo Lameque, mais guloso em casamentos do que os seus nobres avós. O venerável Lameque é, [71] com efeito, o inventor da poligamia; regala-se com duas mulheres só para ele, o que prova que o artigo começava a deixar de ser raro. De sua mulher Ada teve dois filhos, chamados Jabal e Jubal, e de sua mulher Zilá teve um filho, Tubalcaim, e uma filha, Naamá. Parece que os filhos de Jabal preferiram o campo à cidade edificada pelo seu antepassado Caim; pois foram os primeiros na terra a habitar em tendas (Gênesis 4:20). Quanto [72] aos filhos de Jubal, a cidade agradava-lhes, pelo contrário, e foram os mais alegres da família; amavam a música. «Jubal foi pai de todos os que tocam violino e órgão.» (4:21) Já Tubalcaim foi o Vulcano bíblico: «forjava toda sorte de instrumentos de bronze e de ferro.» (Gênesis 4:22) O polígamo Lameque parece ter alojado no seu teto uma aranha (da locução familiar “avoir une araignée au plafond”: ser um pouco louco; o teto é a cabeça) de tamanho bastante respeitável; pois o Gênesis nos relata dele um speech que tem a qualidade de ser curto, mas que nenhum comentador jamais conseguiu compreender. «23. E Lameque disse um dia a Ada e a Zilá, suas mulheres: Mulheres de Lameque, escutai bem as minhas palavras. Matarei um homem, se for ferido; matarei até um jovem, se for pisado. 24. Porque, se Caim havia de ser vingado sete vezes em dobro, eu, Lameque, serei vingado setenta vezes sete vezes.» Esse discurso pasmou no mais alto grau Mesdames Ada e Zilá; ficaram, provavelmente, como petrificadas e não pediram a menor explicação. A Sagrada Escritura passa imediatamente à menção do nascimento de Sete, terceiro filho de Adão. «25. E Adão conheceu de novo a sua mulher, a qual deu à luz um filho e lhe chamou Sete; porque Deus, disse ela, me deu outro filho, em substituição de Abel, a quem Caim matou. «26. E a Sete nasceu um filho, e ele lhe chamou Enos. Então se começou a invocar o nome de Jeová.» O quinto capítulo do Gênesis é consagrado unicamente a dar a genealogia de Noé, descendente de Adão por Sete. O autor sagrado não se ocupa mais da descendência de Caim. Encontramos, pois, a ordem seguinte, em que só são nomeados os filhos mais velhos: Sete, Enos, Cainã, Maalalel, Jarede, Enoque, Metusalém, Lameque, Noé. Mas o mais curioso deste capítulo é a afirmação da extraordinária longevidade de todos esses patriarcas. Adão tinha cento e trinta anos quando teve Sete, e viveu mais oitocentos anos. Sete morreu aos novecentos e doze anos; Enos, aos novecentos e cinco anos; Cainã, aos novecentos e dez anos, etc. O que morreu mais jovem foi Lameque, pai de Noé; esse Lameque, que não se deve confundir com o polígamo tocado de que falamos há pouco, faleceu na septingentésima septuagésima sétima primavera da sua idade. [73] Enoque, filho de Jarede, foi mais esperto do que todos os outros; não morreu, simplesmente. «21. Enoque viveu sessenta e cinco anos, e gerou então Metusalém. 22. E Enoque, depois que gerou Metusalém, passeou com Deus (fr. “se promena avec Dieu”: a Bíblia de Ostervald traz “marcha avec Dieu”, “andou com Deus”; o passeio vem do versículo 24 de Voltaire, “Il se promena avec Dieu”, e Taxil leva-o também a este) durante trezentos anos; e gerou filhos e filhas. 23. Todo o tempo, pois, que Enoque viveu foi trezentos e sessenta e cinco anos. 24. Ora, Enoque, tendo assim passeado com Deus, não apareceu mais, porque Deus o levou.» (Gênesis, ch. 5)
27. Enoque, velho patriarca, é arrebatado ao céu. Este episódio é belo demais; qualquer comentário o desfloraria. Admiremos! Quanto a Metusalém, foi ele quem despendurou a taça (fr. “décrocher la timbale”, locução: ganhar o prêmio; nas feiras, a “timbale”, uma taça de metal, ficava pendurada no alto do pau de sebo, e ganhava-a quem subisse até ela) da longevidade. Tinha nervo, o velho; julgai vós mesmos. Viveu na continência até a idade de cento e oitenta e sete anos, feliz época em que se deu ao luxo de ter um pirralho (fr. “un moutard”, palavra familiar: uma criança pequena), e, depois do nascimento do pequeno Lameque II, achou meio de viver mais setecentos e oitenta e dois anos, dando até o fim provas da sua virilidade.
28. Metusalém é pai aos cento e oitenta e sete anos. «26. Metusalém, depois que gerou Lameque, viveu setecentos e oitenta e dois anos, gerando ainda filhos e filhas.» (Textual!) Total: novecentos e sessenta e nove anos. Desculpai o pouco!... (fr. “Excusez du peu !”, exclamação: diz-se por ironia diante do que é excessivo, como quem pede desculpa por ser tão pouco) As pessoas eram duras de matar (fr. “avoir la vie dure”, locução, literalmente “ter a vida dura”), naquele tempo. E o pai Noé?... «30. Lameque chamou a seu filho Noé, dizendo: Este nos aliviará da nossa obra e do trabalho das nossas mãos, sobre esta terra que o Eterno amaldiçoou... 33. E Noé tinha passado dos quinhentos anos, quando gerou Sem, Cam e Jafé.» Ter quinhentos anos, e só então pôr-se a bicar (fr. “becqueter”: familiarmente, também cobrir de beijinhos) a sua mulherzinha?... Mais vale tarde do que nunca!... Fez-se correr muita tinta a propósito da extraordinária longevidade dos patriarcas do Gênesis. Doutores católicos, sentindo quanto essas patranhas eram por demais difíceis de digerir, tentaram salvar do ridículo os relatos do Espírito Santo; avançaram que talvez fosse preciso entender por anos lunações, insinuando que naquela época [74] se contava provavelmente só por luas. Por essa conta, Metusalém teria morrido octogenário, eis tudo. Mas esses prestimosos comentadores foram asperamente repreendidos pelos exaltados que fazem questão desses milagres de longevidade dos primeiros homens. O cônego Rohrbacher, entre outros, na sua História universal da Igreja, declara que se trata mesmo de anos de doze meses, e cita, notadamente, o exemplo de Abraão, que, [75] segundo o Gênesis, «morreu numa feliz velhice, sendo muito idoso e farto de dias, tendo vivido cento e setenta e cinco anos» (Gênesis 25:7-8). Se fosse preciso contar por lunações, Abraão teria vivido, pois, apenas catorze anos e sete meses ao todo, diz Rohrbacher, e isso não concordaria com as expressões empregadas pelo autor sagrado. O mesmo teólogo, para provar que os anos indicados no Gênesis são verdadeiramente de doze meses, cita ainda vários [76] personagens de quem o texto divino dá a conhecer a idade no momento do nascimento do primogênito: Enos, Cainã, Maalalel geraram com a idade de noventa, de setenta, de sessenta e cinco anos; contando por lunações, diz Rohrbacher, seria preciso, pois, admitir que teriam tido filhos com a idade de sete anos e meio, de cinco anos e dez meses, de cinco anos e cinco meses! E Naor, que gerou aos vinte e nove anos, segundo o texto bíblico, pode-se crer razoavelmente, exclama o douto cônego, que isso quer dizer que tinha na realidade dois anos e cinco meses quando teve o seu primeiro filho?... Não, bom Rohrbacher, e quem está com a razão é o senhor: os anos de que fala o Gênesis são incontestavelmente de doze meses. Por isso, nada é mais divertido do que o caso do velho Noé, que esperou ter quinhentos anos bem contados para fazer zizi-panpan (locução jocosa francesa: fazer amor, dito com duas palavras de criança, “zizi”, o sexo pequenino, e “panpan”, o barulho das palmadas). CAPÍTULO 3
Eis-nos chegados a uma das passagens mais curiosas da Bíblia, uma daquelas cuja supressão nos manuais de história sagrada mostra melhor a sem-cerimônia (fr. “le sans-gêne”, literalmente “o sem-constrangimento”: o agir sem o escrúpulo que deteria outro) dos sacerdotes na sua arte de fabricar e remanejar os dogmas. Eis aí uns finórios que repisam (fr. “seriner”, da “serinette”, o pequeno realejo de manivela que repetia a mesma ária ao “serin”, o canário, até que o pássaro a soubesse) em todos os tons às suas ovelhas que a Bíblia é uma obra essencialmente divina, que foi escrita sob a inspiração direta do Espírito Santo, que tudo o que nela está escrito é a própria verdade, a verdade mais perfeita e mais pura, que é o livro venerável por excelência. Se, pois, os nossos tonsurados pensassem o que dizem, deveriam, cheios de respeito pela Bíblia, dá-la a conhecer integralmente aos devotos, não esconder um só dos seus versículos. Porque, em matéria de crença religiosa, é preciso aceitar um livro sagrado tal como é; ou, se dele for eliminada tal passagem, por estar em contradição com certos pontos de ciência teológica que foram declarados artigos de fé, o livro inteiro deve ser rejeitado, já não é sagrado, mas desprezível; [77] a mentira de um fato, no decurso de um capítulo, basta para destruir o renome de inspiração divina de toda a obra. Ora, os padres, logo que acabam de nomear Noé, abordam sem transição a história do dilúvio e dizem sucintamente que a corrupção dos homens provocou a ira de Deus e o levou a decidir esse afogamento geral, com a única exceção de uma família cujo chefe permanecera um justo. Isso não é a Bíblia!... Ela fala de outra coisa; diz, em quatro versículos, qual foi a causa primeira dessa corrupção dos homens. Senhores padres, não tendes o direito de passar em silêncio esse importante episódio da vossa Sagrada Escritura. Se hoje ele vos embaraça, tanto pior! bastava ao Espírito Santo não o ditar ao escritor do Pentateuco!... Certamente, a pílula é amarga; mas, como São Jerônimo e os Padres da Igreja a engoliram outrora, engoli-a, queridos tonsurados, por vossa vez. A pílula, que os teólogos católicos modernos se esforçam por cuspir fora sem ruído e da qual bem gostariam que não ficasse vestígio algum, compõe-se dos quatro primeiros versículos do sexto capítulo do Gênesis: «1. E aconteceu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra e geraram filhas; 2. Os anjos de Deus (literalmente: os filhos de Deus), vendo que as filhas dos homens eram formosas, vieram deitar-se com todas aquelas que mais lhes tinham agradado (fr. “vinrent coucher avec”: a Bíblia de Ostervald traz “en prirent pour leurs femmes”, “tomaram delas para suas mulheres”, e Voltaire “prirent pour eux”, “tomaram para si”; a cama é de Taxil, como “accouplés”, acasalados, no versículo 4, onde Ostervald diz “se furent joints”, se uniram). 3. Então, o Eterno disse: O meu espírito não permanecerá mais com os homens; porque, agora, eles se tornaram carnais demais (fr. “trop charnels”: a Bíblia de Ostervald traz “car aussi ne sont-ils que chair”, “porque também eles não são senão carne”, isto é, mortais, e Voltaire o mesmo; Taxil faz deles homens dados demais à carne, e volta a isso mais adiante). A sua vida, pois, já não passará de seis vezes vinte anos. 4. Naquele tempo havia gigantes sobre a terra, e isso depois que os anjos de Deus se acasalaram com as filhas dos homens e quando estas lhes deram filhos; esses filhos, assim nascidos, são esses homens poderosos, que desde sempre tiveram grande renome.» Embora o Gênesis não nos tenha contado a história da criação dos anjos, eis a segunda vez que nos fala desses seres sobrenaturais; a primeira menção é a do Querube, posto à porta do Éden. É, pois, útil dizer [78] algumas palavras sobre a crença nos anjos entre os judeus. Os cristãos, enxertando o seu culto na religião israelita, imaginaram artigos de fé dos quais não se encontra vestígio algum na Bíblia: foi assim que se fabricou inteiramente (fr. “de toutes pièces”, locução, literalmente “de todas as peças”), muito depois da época atribuída à vida de Jesus Cristo, a história da revolta de Satanás e da sua derrota pelo arcanjo São Miguel. Ora, como examinamos a Bíblia principalmente [79] do ponto de vista da crença católica, parece-nos útil tratar aqui dessa adição. Num tempo qualquer, pois, messire Jeová disse consigo que não bastava, a um Todo-Poderoso como ele, ter criado o céu e a terra. Já que povoava a terra, por que não povoaria também o céu? Tinha-se entediado no caos; entediava-se ainda mais, sozinho, no seu paraíso. Como podia fabricar do nada montões de objetos e [80] de seres animados, criara anjos cujo papel foi fazer-lhe agradável companhia. Depois disso, regalara-se com uma bela poltrona com o seu monograma, a fim de presidir condignamente a celeste assembleia. E, para distraí-lo, os anjos cantavam o tempo todo; na sua qualidade de seres sobrenaturais, eles não se cansam.
29. Jeová cria anjos para se distrair. Mas eis que o mais belo de todos os anjos, um rapagão a quem os tonsurados deram o nome de Lúcifer, cobiçou com o canto do olho o assento do Altíssimo e concebeu o sonho audacioso de tomar o lugar do seu criador como presidente do paraíso. A sua criminosa tentativa pareceu uma deliciosa peça a alguns anjos que achavam monótono o exercício do canto, e eles se associaram ao revoltoso, ao passo que a grande maioria se mostrou escandalizada no mais alto grau.
30. Lúcifer, anjo orgulhoso, quer tomar o lugar de Jeová. Então Miguel, anjo fiel, verdadeiro caniche quanto à dedicação, encarregou-se de fazer triunfar a causa de Deus aplicando a Lúcifer uma formidável sova. O anjo rebelde foi precipitado nos infernos, criados subitò em sua honra; os seus cúmplices despencaram para lá ao mesmo tempo; e o pai Jeová pôde recolocar o seu divino posterior na poltrona presidencial.
31. O anjo Miguel expulsa Lúcifer do paraíso. Tal é, sucintamente, a lenda de que os pastores católicos fizeram um dogma para o seu trêmulo rebanho; pois, no fundo, este episódio serve sobretudo para dar arrepios aos devotos e devotas. Tende cuidado, piedosas ovelhas! se não obedecerdes aos senhores sacerdotes, ireis juntar-vos aos anjos maus no mais fundo dos infernos. Na Bíblia hebraica, quando se fala dos diabos, isto é, em livros escritos incontestavelmente depois do cativeiro de Babilônia (mil anos depois da morte de Moisés, não o esqueçamos), o mais importante desses demônios é chamado Satanás; mas esses diabos são gênios maus, sem nenhuma outra explicação; não são de modo algum representados como revoltosos, expulsos do paraíso celeste e acorrentados num inferno de chamas. Assim, na lenda de Jó, o gênio mau Satanás passeia no céu, vai e vem por lá como se estivesse em sua casa, discute ali com Jeová. Vendo esses diabos dos últimos livros da Bíblia porem-se tão à vontade e não sofrerem suplício algum, os críticos fizeram notar que [81] era exatamente a crença dos caldeus, dos persas, cujos livros sagrados remontam a uma antiguidade mais alta que os dos judeus. Concluiu-se daí que os israelitas, durante o longo cativeiro de Babilônia, tinham acrescentado às suas crenças uma parte das dos povos com os quais tinham estado em contato. Aliás, o nome que os judeus adotaram então para designar o diabo principal trai o empréstimo feito à religião da Caldeia ou Babilônia; pois Satanás não é uma palavra hebraica, mas sim uma palavra caldeia, que significa «o ódio». Portanto, o Espírito Santo tinha ocultado ao povo de Deus não somente a história da revolta de certo número de anjos, mas até o verdadeiro nome do diabo principal, visto que este nunca é chamado Lúcifer na Bíblia. Foram os cristãos que descobriram tudo isso. Todavia, os Padres da Igreja quiseram a todo custo encontrar uma menção de Lúcifer no Antigo Testamento; e, para isso, recorreram a um subterfúgio que engana bastante habilmente as ovelhas que acreditam na palavra deles e só leem da Bíblia aquilo que lhes deixam ler. Esse subterfúgio espertalhão merece ser desmascarado, e peço ao leitor que me perdoe uma pequena digressão necessária. Nas profecias de Isaías, no capítulo 14, versículo 12, dizem os tonsurados, fala-se de Lúcifer sob esse mesmo nome, e eles citam o começo do versículo, mas falsificando-o por meio da tradução latina de São Jerônimo, chamada a Vulgata. Eis a passagem em questão. Neste capítulo 14, Isaías, como bom judeu furioso por terem os babilônios mantido por muito tempo a sua nação em cativeiro, exala a sua patriótica cólera e anuncia ao rei de Babilônia que o seu reino sofrerá também a decadência e será arruinado de alto a baixo. «O Eterno, exclama Isaías, terá piedade de Jacó e ainda escolherá a Israel; e restabelecerá os israelitas na sua terra... Israel, tu zombarás então do rei de Babilônia, e dirás: Como repousa o tirano? Como repousa esta cidade que era toda de ouro? O Eterno quebrou o bastão dos maus e a vara dos dominadores... [82] Ele fará levantar dos seus assentos todos os principais da terra, todos os reis das nações. — Todos tomarão a palavra e dirão ao rei de Babilônia: Também tu foste enfraquecido como nós! foste feito semelhante a nós! — Fizeram descer a tua magnificência ao sepulcro, com o ruído dos teus instrumentos; estás deitado sobre um leito de vermes, e os bichos te cobrem» (versículos 9-10-11). «12. Como caíste do céu, ó Hélel, astro que [83] te levantavas pela manhã? Tu que calcavas as nações, foste abatido até a terra. 13. Tu dizias no teu coração: Subirei até os céus, elevarei o meu trono acima das estrelas do Deus forte; estarei assentado no monte da assembleia, ao lado do Aquilão...» «E todavia fizeram-te descer ao sepulcro, ao fundo da cova. — Os que te virem te olharão, dizendo: Não é este aquele homem que fazia tremer a terra e que [84] abalava os reinos, que reduziu o mundo a deserto, que destruiu as cidades e não restituiu a liberdade aos seus prisioneiros? — Todos os reis das nações, todos quantos são, morreram com glória, cada um no seu palácio. — Mas tu foste lançado longe do teu sepulcro, como um tronco podre, como uma veste de gente morta, traspassada à espada, que desceu por entre as pedras a uma cova, e como um corpo morto calcado aos pés.» É preciso realmente um topete (fr. “un toupet”, palavra familiar: a mecha de cabelo sobre a testa e, como em português, o atrevimento) de padreco (fr. “ratichon”, palavra de gíria antiga, formada sobre “rat”, rato, com uma terminação depreciativa) para afirmar que Isaías falava de Lúcifer-Satanás neste capítulo 14. Trata-se mesmo do rei de Babilônia; esse transbordamento de cólera, essa onda de ameaças, tudo isso é endereçado ao rei de Babilônia, unicamente, exclusivamente. Agora, como operou São Jerônimo a falsificação do texto?... Embaraçado pela versão grega dos Setenta, Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim, e, aproveitando o fato de Isaías comparar de passagem o rei de Babilônia à estrela da manhã, chamada Hélel (aurora) entre os judeus e Lúcifer (porta-luz) entre os romanos, escreveu assim a primeira parte do versículo 12: «Quomodo cecidisti de cœlo, LUCIFER, qui mane oriebaris? Como caíste do céu, Lúcifer, tu que te levantavas pela manhã.» E os nossos tonsurados, adotando essa tradução inexata, guardando-se bem de dizer às suas ovelhas que o texto original hebraico traz Hélel (transcrição de Taxil do hebraico הֵילֵל, “o brilhante”: a estrela da manhã) e que se trata do rei de Babilônia comparado ao astro Vênus, estrela da manhã, os nossos tonsurados, tendo o cuidado de não pôr o resto do capítulo diante dos olhos dos papalvos (fr. “les gogos”, palavra familiar, de Gogo, o crédulo da peça “Robert Macaire”, de 1834) de quem embolsam o santo farnel (fr. “saint-frusquin”, palavra familiar: tudo o que se possui; “frusquin”, palavra de gíria, designava as roupas, depois os haveres, e o uso corrente lhe antepôs “saint”, santo, como em “saint-crépin”, as ferramentas do sapateiro, de São Crispim), exclamam, com ares de triunfo: — A queda de Lúcifer é mencionada na Bíblia! Isaías falou dela! Como descaramento, é forte... Ora, neste mesmo capítulo, no versículo 28, Isaías diz que pronunciou a sua profecia no ano em que morreu o rei Acaz, ou seja, em 723 antes de Cristo. Mesmo supondo que Isaías não tenha escrito a sua profecia depois dos fatos, é forçoso reconhecer que o autor fala no futuro, desde a primeira linha até a última. Se, pois, essa queda do céu se aplicasse a Lúcifer-Satanás, ela teria ocorrido depois da morte do rei Acaz! E os sacerdotes católicos dizem noutra parte que foi esse mesmo Lúcifer, tornado diabo, que tentou [85] Eva sob a forma da serpente! Que salada de contradições!... Vamos, eis mais uma patranha católica a riscar de uma vez por todas. Desta digressão, que importava fazer, o leitor reterá a prova definitiva da ausência total da lenda de Lúcifer revoltoso e vencido, nos livros sagrados dos judeus. Voltamos, pois, aos anjos do capítulo 6 do Gênesis, e vamos recorrer a fontes, igualmente muito sagradas, das quais colheremos mais pormenores sobre o concubinato desses bons anjos com as belas filhas dos homens. Os manuais de história sagrada, para uso dos simples fiéis, não fazem nenhuma alusão, é claro, à aventura revelada pelos quatro versículos que reproduzi há pouco; mas esses quatro versículos não são cortados das edições bíblicas reservadas aos padres. Isto não é tudo: os tonsurados têm um outro livro só para eles, um livro que cercam de grande veneração, sem divulgá-lo, e que se chama o Livro de Enoque. Enoque, não o esquecestes, é esse patriarca de trezentos e sessenta e cinco anos, por quem Jeová se enrabichou e que ele arrebatou ao céu, não em forma de alma, mas em carne e osso, como Júpiter arrebatou Ganimedes, por quem ele também se enrabichara. Ora, segundo uma tradição, Enoque escreveu um livro, que não levou consigo para o paraíso, felizmente; legou-o a seu filho Metusalém, e Noé, diz-se, pôs na arca o precioso manuscrito. Todavia, o livro de Enoque esteve muito tempo perdido. Diz-se que existia — não se sabe onde, ora essa! — no tempo dos apóstolos. A prova que dão disso está no Novo Testamento. Ali, a epístola de São Judas se exprime assim, nos versículos 14-15: «Deles também (os ímpios) profetizou Enoque, sétimo desde Adão, nestes termos: Eis que o Senhor vem com os seus milhares de santos, para exercer o juízo contra todos, e para convencer todos os ímpios de todas as suas obras de impiedade.» Já que São Judas citou uma passagem deste livro, é porque o conhecia, por azul! E, durante vários séculos, os teólogos se perguntavam: Que foi feito do livro de Enoque? [86] Por fim, um viajante bastante célebre, o escocês James Bruce, descobriu na Abissínia o famoso livro; para dizer a verdade, foi numa versão etíope que ele pôs a mão, pois é pouco provável que Enoque tenha escrito as suas belas histórias na língua de Menelik (Menelik II, imperador da Etiópia de 1889 a 1913, célebre na Europa desde a sua vitória sobre os italianos em Adua, em 1896)... Vede um pouco, afinal, como é útil ter uma providência, quando se é teólogo! Escrito por Enoque na língua de antes da torre de Babel, esse livro maravilhoso tivera a sorte, embora [87] a língua primitiva se tivesse perdido bruscamente, de encontrar um tradutor hebreu; depois, essa tradução hebraica, conhecida dos apóstolos e dos primeiros Padres da Igreja, tinha desaparecido como uma noz-moscada (fr. “disparu comme une muscade”, locução: sumido sem deixar rastro; a “muscade” é aqui a bolinha que o prestidigitador faz desaparecer debaixo dos seus copos). Crac! um escocês descobre, por volta do fim do século dezoito, uma versão etíope completa entre os antepassados de Menelik. Obrigado, divina providência! O nosso Bruce levou o seu achado à biblioteca bodleiana de Oxford; alegria imensa dos teólogos; novas [88] traduções, das quais a primeira (1838) foi impressa em inglês e teve por autor Mons. Richard Laurence, arcebispo de Cashel, na Irlanda. O livro de Enoque está dividido em onze seções. Na seção 2 conta-se a história dos amores dos anjos com as filhas dos homens. «Tendo crescido prodigiosamente o número dos homens, tiveram eles filhas muito belas. Ora, os mais brilhantes dos anjos enamoraram-se delas, e foram arrastados, por esse fato, a muitos erros. Animaram-se entre si, e disseram uns aos outros: Vamos à terra, e escolhamos para nós mulheres dentre as mais belas filhas dos homens. Então, Semiazas, que Deus criara príncipe dos anjos mais brilhantes, lhes disse: Tal projeto é excelente; mas temo que não ouseis pô-lo em execução e que eu fique sendo o único de todos nós a fazer filhos às belas filhas dos homens (Taxil segue o fragmento de Enoque que Voltaire cita no artigo “Anjo” do seu Dicionário filosófico, onde Semiaxas teme “que je ne demeure seul chargé du crime”, “ficar eu sozinho com o peso do crime”; Taxil acrescenta os filhos, e o elogio do projeto). Todos responderam: Façamos juramento de executar o nosso projeto, e votemo-nos ao anátema se faltarmos a ele. Uniram-se, pois, por juramento e fizeram imprecações. Eram em número de duzentos, de início. Era o tempo em que vivia Jarede (pai de Enoque). Partiram juntos, desceram do céu, e vieram sobre a montanha Hermonim, ou monte dos juramentos. E eis os nomes dos vinte principais dentre eles: Semiazas, Atarcuph, Araciel, Chobabiel, Horammame, Ramiel, Sampsich, Zaciel, Balciel, Azalcel, Pharmarus, Amariel, Anagemas, Thausaël, Samiel, Sarinas, Eumiel, Tyriel, Jumiel, Sariel. Eles e os outros, e outros ainda, tomaram mulheres no ano mil cento e setenta da criação do mundo. Desse comércio nasceram os gigantes, etc., etc.»
32. Os anjos descem à terra. Vê-se que não se trata de modo algum de uma revolta contra Deus: os mais brilhantes dos anjos, tendo à sua frente o príncipe Semiazas, que não é nem Lúcifer nem Satanás, vão em passeio de recreio à terra, eis tudo. É verdade que, como o seu exemplo foi seguido por um grande número, Jeová, vendo-se abandonado, começou a resmungar; [89] contudo, levou muito tempo para se zangar de todo, e sobre a causa da grande cólera definitiva o livro de Enoque e o Gênesis não estão inteiramente de acordo. Cabe aqui dizer: Há magia por baixo disso (fr. “Il y a de la magie là-dessous”: a locução é “il y a quelque chose là-dessous”, literalmente “há alguma coisa por baixo disso”, isto é, algo se esconde; Taxil põe a magia no lugar da “alguma coisa”, e aqui trata-se de magia de verdade). Ides ver. Segundo o Gênesis: em consequência das relações dos anjos com as belas humanas, os homens tornaram-se carnais demais. Um teólogo poderia tratar a questão. Com efeito, diria ele, se as belas filhas tomaram gosto pela aventura e se mostraram insaciáveis, os anjos estiveram em condições de satisfazê-las, e isso deve ter excitado a emulação dos simples homens, seus rivais. Mas que podia isso importar a papai Bom Deus? responderemos nós; não tinha ele recomendado à humanidade que crescesse e se multiplicasse?... O livro de Enoque não apresenta os fatos sob o mesmo aspecto. Os anjos, tornados papais, interessaram-se pelos seus filhos e foram, para os gigantes, professores fora do comum. Não somente lhes ensinaram a lavrar as joias e as pedrarias (sic); mas ainda os instruíram na magia, a arte de ler o futuro nos astros. Além disso, iniciaram as suas concubinas nos grandes mistérios. Compreende-se o que se seguiu: as senhoritas amantes dos anjos e os seus bastardos gigantes foram logo superiores aos outros homens; quantas farsas se podem armar aos seus contemporâneos, quando se é mágico!... «A terra queixou-se e ressoou com gritos de dor.» Comovidos com as dores da terra, os quatro anjos da harmonia pediram a Deus que pusesse termo a esses males. Nesse ínterim, o sr. Azazel (fr. “le sieur”, título: o “senhor” formal dos documentos oficiais e dos tribunais, que Taxil dá por zombaria aos homens da Bíblia, como dá “Mme” às suas mulheres), um dos anjos que se deitavam com as filhas dos homens, tinha procurado briga com Semiazas, tinha-lhe pespegado uma sova e tinha tomado o seu lugar como chefe dos passeantes na terra. Deus enviou o anjo Rafael a combater o anjo Azazel, e o nosso Azazel, vencido, foi encerrado por Rafael numa caverna, no deserto de Dodoël. Além disso, Deus achou necessário o dilúvio: para impedir os gigantes de continuarem os seus exercícios de magia, ia afogar todo o mundo, inclusive os simples homens que sofriam com os feiticeiros. Quanto aos anjos, que tinham ido levar na terra uma vida de paus de cadeira (fr. “une vie de bâtons de chaise”, locução: uma vida desregrada; os “bâtons” seriam os varais da cadeirinha, sem cessar erguidos, pousados e retirados, embora a origem não seja certa), eles [90] voltariam ao céu e deveriam ficar bem comportados daí em diante.
33. Jeová é abandonado. Desde essa época, provavelmente, os anjos são seres assexuados: o pai Jeová, para se garantir contra novas escapadas, deve tê-los obrigado a depositar a sua caução, como fazem os paxás com todo cavalheiro que pleiteia um emprego no seu serralho. Os padres fazem, pois, muito mal em suprimir este episódio [91] nos seus manuais de história sagrada; ao menos se saberia por que os anjos são eunucos! Será preciso acrescentar que o pobre coitado do anjo Azazel, esquecido na caverna onde Rafael o trancara, foi afogado, naturalmente, na inundação universal?... Derramemos uma lágrima sobre a sua triste sorte. Ide, pois, dizer, depois disso, que não é providencial que o livro de Enoque tenha sido reencontrado!... Em suma, ele não tinha [92] embaraçado os primeiros cristãos, visto que São Judas o cita expressamente: vários Padres da Igreja também não deixaram de falar dele como de um livro muito conhecido: Orígenes, a quem São Jerônimo chamava o mestre das Igrejas, invocou a sua autoridade; Tertuliano tributa grande veneração a essa obra no seu Tratado sobre o paganismo. Portanto, o livro de Enoque foi tido em honra no catolicismo até o quarto século. Mais tarde, refletindo que ele consolidava os quatro incômodos primeiros versículos do capítulo 6 do Gênesis, os sacerdotes o fizeram desaparecer; mas alguns fragmentos puderam ser conservados e foram citados por Scaliger, Semler e Fabricius. Enfim, é preciso agradecer ao arcebispo Laurence, que traduziu a versão etíope trazida por James Bruce. Vendo a ideia que os judeus faziam dos anjos, constatamos que os católicos mudaram hoje tudo isso, e no entanto declaram que a nação israelita era o povo de Deus e adotaram como divinamente inspirados os seus livros religiosos. Assim os judeus classificavam os anjos numa hierarquia de dez graus: 1. os Kadoschim, ou santíssimos; Mas o papa Gregório I foi de parecer que se repartissem os anjos de modo inteiramente diferente, e desde então tem-se a divisão seguinte, três hierarquias de três coros cada uma: primeira hierarquia, composta dos Serafins, dos Querubins e dos Tronos; segunda hierarquia, composta das Dominações, das Virtudes e das Potestades; terceira hierarquia, composta dos Principados, dos Arcanjos e dos simples Anjos. Por aí se vê quão grande é o poder de um papa; ter o direito de regular as fileiras do céu não é uma bagatela!... Os sacerdotes católicos afirmaram, pois, às suas bentas ovelhas que os judeus não entendiam nada dos seus livros santos, não compreendiam a sua religião. Pensai um pouco! esses imbecis judeus nunca tinham adivinhado que o seu Isaías, [93] apostrofando o rei de Babilônia, seu inimigo, e predizendo-lhe que viria um dia em que o seu poderio seria destruído, quisera falar, não da futura queda desse rei, mas na realidade da antiga revolta de Lúcifer contra Deus e do seu trambolhão e transformação em Satanás. Era preciso que os rabinos tivessem o espírito tapado (fr. “l’esprit bouché”, locução: o espírito obtuso, que nada entende) para não terem sabido ler entre as linhas!... E, dizem os tonsurados, há muitas outras coisas ainda que os israelitas não suspeitaram na sua Bíblia. Por exemplo, a Trindade. Tentai fazer compreender a um judeu que ele adora um deus em três pessoas; perdereis o vosso tempo, ele vos rirá no nariz (fr. “rire au nez de quelqu’un”, locução: rir de alguém abertamente, na sua cara). Responder-vos-á que, se papai Bom Deus fosse triplo, o teria dito a Moisés, aos patriarcas, aos profetas. Com a Bíblia na mão, sustentar-vos-á que nem uma palavra ali alude a essa trindade, aliás incompreensível, e que, pelo contrário, de uma ponta à outra, a Sagrada Escritura atesta a personalidade de Jeová como essencialmente una e indivisível. Diante dessa falta de perspicácia, o teólogo católico sorri de piedade, encolhe os ombros. Os dois primeiros versículos do Gênesis bastam-lhe para demonstrar que a trindade divina existiu desde sempre, de tão claro que é! Cita triunfalmente esses dois primeiros versículos: «1. No começo, Elohim fez o céu e a terra; 2. E a terra era tohu-bohu, as trevas estavam sobre a face do abismo, e o vento de Deus corria sobre as águas.» Tal é a tradução literal do texto hebraico, com a conservação das palavras Elohim e tohu-bohu que foram adotadas em outras línguas. Não vedes Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo aí dentro?... Com efeito, à primeira vista, mal se percebem; mas tomai um binóculo, e ides distinguir muito bem a Trindade. O nosso binóculo, se o permitis, será o raciocínio de Santo Agostinho no seu belo livro De cantico novo, capítulo 7. Nada é mais convincente que esse raciocínio do bispo de Hipona; a Igreja e todos os seus teólogos o proclamam de uma limpidez de cristal de rocha. «No começo», que é o começo [94] dos tempos ou das coisas, equivale a «no princípio (fr. “dans le principe”: “principe”, como o português “princípio” e o latim “principium”, é ao mesmo tempo o começo e o fundamento; nesse duplo sentido se apoia Santo Agostinho)». Ora, que é o princípio, senão o Verbo, isto é, Deus Filho?... Desejais provas? Ei-las. Abri o Apocalipse de São João, no capítulo 3; o próprio Cristo se chama «o princípio da criatura de Deus» (versículo 14). Abri agora o Evangelho do mesmo João, no capítulo 8. «Interrogado pelos judeus, que lhe perguntavam: Quem sois vós? Eu sou o princípio, respondeu Jesus» (versículo 25). [95] Por conseguinte, o primeiro versículo do Gênesis deve ler-se assim: «Em Deus Filho, que é o princípio, Deus Pai fez o céu e a terra.» Não estais de todo satisfeito?... Acabais de ver as duas primeiras pessoas da Trindade; mas não distinguis ainda a terceira. Um pouco de paciência; retomai o binóculo de Santo Agostinho. A terceira pessoa, Deus Espírito Santo, está no versículo 2, lá adiante, no fim. [96] «O vento de Deus corria sobre as águas...» Este ventinho não vos diz nada?... Em latim, o vento, o sopro, é spiritus, e o espírito é também spiritus; logo, o vento de Deus não é outro senão o espírito de Deus, isto é, Deus Espírito Santo. Por isso, a verdadeira tradução do texto hebraico é esta: «Em Deus Filho, princípio de todas as coisas, Deus Pai fez o céu e a terra; e a terra era tohu-bohu, as trevas estavam sobre a face do abismo, e Deus Espírito Santo corria sobre as águas.» Desta vez, pronto... E pensar que os judeus nunca puderam ver isso nos dois primeiros versículos do Gênesis!... Tal cegueira é verdadeiramente extraordinária. Quanto a mim, caros leitores, reconhecereis que tirei proveito dos meus doze anos passados em vossa intenção sob a bandeira da Igreja. Aprendi as belas coisas da teologia, e eis que vo-las faço saborear. Admirai, pois, comigo esse Deus Espírito Santo, que, na época do tohu-bohu, empregava todo o seu tempo em correr sobre as águas. Onde qu’está a minha espingarda? (fr. “Oùs qu’est mon fusil ?”, exclamação: o grito do caçador que avista caça, em pronúncia descuidada, por “Où est mon fusil ?”)... E a reflexão final que se impõe: o Espírito Santo não é um pombo, então?... É um pato (fr. “canard”: a ave, já que corre sobre as águas, e também a notícia falsa)!!! CAPÍTULO 4
Parco em pormenores sobre as faltas cometidas pelos descendentes de Adão desde o concubinato dos anjos, o Gênesis nos diz simplesmente: «O Eterno Deus viu que a maldade dos homens se tornara muito grande sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos do seu coração não era senão mal em todo o tempo.» (Gênesis 6:5) Digamo-lo claramente: os descendentes de Adão deviam negligenciar as suas orações da manhã e da noite; pois não há nada como isso para melindrar Monsieur Deus. De mais a mais, qualquer padre vo-lo ensinará, se o ignorais: quem esquece as suas orações está no declive de todos os crimes. «6. [97] Arrependeu-se Deus de haver feito o homem sobre a terra, e teve disso um grande desprazer em seu coração. 7. E disse: Exterminarei da face da terra o homem que formei, desde o homem até ao gado, e todos os animais, até aos que rastejam, e até mesmo às aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito.» O arrependimento de um deus, eis o que não é comum. A dor de mestre Jeová era das mais vivas, já que lhe transtornou os miolos, a ponto de fazê-lo decretar o extermínio dos animais, que, por sua parte, não tinham pecado. A crítica poderá dizer também que o mais simples, para Deus, visto que é todo-poderoso, teria sido mudar o coração dos homens; mas ele preferiu afogá-los, como se vai ver — o que não é muito paternal. «8. Mas Noé achou graça diante do Eterno.» Era «um homem justo e cheio de integridade em seu tempo» (Gênesis 6:9); papai Bom Deus veio fazer-lhe uma visita, para avisá-lo da catástrofe que planejava e dar-lhe o meio de escapar dela. «E disse Deus a Noé: o fim de toda carne é vindo perante mim; porque a terra está cheia das iniquidades da sua face, e eu os destruirei com a terra. — Faze para ti uma arca de madeira de gofer; farás esta arca em compartimentos, e a untarás de betume por dentro e por fora. — E assim a farás: terá trezentos côvados de comprimento, cinquenta de largura, e trinta de altura. — Darás luz à arca; farás a sua cumeeira de um côvado de altura; porás uma porta no lado; e a farás com um andar baixo, um segundo e um terceiro.
34. Projeto de um dilúvio e de uma arca. — E eis que farei cair um dilúvio de águas sobre a terra, para destruir toda carne que tem fôlego de vida em si debaixo dos céus; e tudo o que está sobre a terra expirará. — Mas estabelecerei a minha aliança contigo; e entrarás na arca, tu, teus filhos, tua mulher, e as mulheres de teus filhos contigo. — E de tudo o que tem vida dentre toda carne, farás entrar dois de cada espécie na arca, para os conservar em vida contigo; a saber, o macho e a fêmea; — das aves, segundo a sua espécie; das bestas, segundo a sua espécie; e de todos os répteis, segundo a sua espécie. — Toma também contigo de todo alimento que se come, e faze dele a tua provisão, [98] a fim de que sirva para o teu alimento e para o dos animais. — E Noé fez todas as coisas que Deus lhe havia ordenado; assim as fez.» (Gênesis 6:13-22) A construção da arca durou cem anos. Jeová não tinha dito a Noé que avisasse os outros homens do que ia acontecer; tem-se, pois, o direito de presumir que o patriarca e a sua família guardaram o segredo. As pessoas ficavam pasmadas ao ver Noé construir em pleno campo [99] esse imenso navio, com trezentos côvados de comprimento, o que dá cerca de cento e cinquenta metros, isto é, o comprimento de um dos nossos grandes paquetes do correio da China (os grandes paquetes franceses das Messageries Maritimes, que faziam a linha de Marselha ao Extremo Oriente); mas esses formidáveis paquetes têm quinze metros de largura, ao passo que a arca teve vinte e cinco. Os outros homens tomavam o velho Noé por louco e zombavam dele à porfia; mas o patriarca deixava-se troçar, sem franzir a sobrancelha, e com isso só ficava mais ativo na sua tarefa.
35. Noé constrói a sua arca. — [100] Rirá bem quem rir por último, murmurava ele na sua barba. Os cem anos empregados em construir a arca não parecerão um número exagerado, se pensarmos em tudo o que a Bíblia passa em silêncio, mas que foi, não obstante, de absoluta necessidade para se conformar às ordens de Deus. Assim, os três filhos de Noé tiveram, evidentemente, de fazer longas viagens às terras mais longínquas do mundo, a fim de trazerem de lá os animais que não viviam na sua região. Como se tratava também de não serem devorados, uma vez na arca, pelos leões, pelos tigres, pelos aligátores e outros bichos terríveis, tiveram de aprender (com os gigantes, provavelmente) o ofício de domador. Foi preciso fabricar conservas de carne para os inumeráveis carnívoros. Convém também observar que essa madeira de gofer, de que a arca foi feita, devia ser a melhor das madeiras. Se hoje alguém se lembrasse de levar cem anos para construir um navio, não há madeira, por mais dura que se possa sonhar, que não estivesse podre antes do acabamento da nau; a popa se esmigalharia de vetustez quando se chegasse a trabalhar na proa, e seria sempre preciso recomeçar, como com a faca de Jeannot (fr. “le couteau de Jeannot”, dito: aquilo que conserva o nome embora todas as suas peças sejam novas), que é eterna, porque lhe trocam alternadamente a lâmina e o cabo. Ninguém pôde dizer ao certo o que era essa famosa madeira de gofer; nunca mais foi possível encontrá-la em parte alguma desde o dilúvio, e é bem lamentável. Quando o navio salvador ficou acabado, o Eterno disse a Noé: «Entra, tu e toda a tua casa, na arca; porque te vi justo diante de mim neste tempo.» (Gênesis 7:1) A continuação do discurso divino prova que mestre Jeová tinha esquecido as suas primeiras prescrições; tinha recomendado ao patriarca que só levasse consigo um casal de cada espécie de animais. No último momento, papai Bom Deus mudou um tanto o programa. «Tomarás, disse ele a Noé, de todas as bestas limpas sete de cada espécie; mas das bestas que não são limpas, um casal somente, o macho e a fêmea.» (Gênesis 7:2)
36. Noé faz entrar na arca um casal de animais de cada espécie. A Bíblia não acrescenta que Deus tenha explicado a Noé as suas distinções; mas isso é provável. Aliás, o Levítico, [101] outro livro atribuído a Moisés, indica (Levítico 11) o que os hebreus entendiam por animais puros ou bestas limpas e animais impuros ou bestas que não são limpas. Entre os quadrúpedes, os puros são os que têm a unha dividida, o pé fendido, e que ruminam: o camelo, o coelho, a lebre, que ruminam, mas que não têm a unha dividida, são animais impuros; o porco, que tem a unha dividida e o pé fendido, mas que não rumina, é igualmente animal impuro. Entre as aves, Jeová declarou impuros a águia, o quebrantosso, o falcão, o abutre, o milhafre, o corvo, o mocho, o cuco, o gavião, a coruja, o mergulhão, o bufo, o cisne, o corvo-marinho, o pelicano, a cegonha, a garça, a poupa e o morcego. Por fim, foram declarados animais impuros a doninha, o camundongo, a tartaruga, o ouriço-cacheiro, o crocodilo, o lagarto, a lesma e a toupeira. Todos os outros bichos são animais puros. Além disso, papai Bom Deus anunciou a Noé que a pequena festa diluviana começaria dali a sete dias. O patriarca teve, pois, de aprender às pressas a sua história natural, para saber se devia embarcar consigo duas ou sete girafas, dois ou sete elefantes, dois ou sete rinocerontes, dois ou sete hipopótamos, etc. «E aconteceu que ao sétimo dia as águas do dilúvio caíram sobre a terra. — No ano seiscentos da vida de Noé, no segundo mês, no décimo sétimo dia do mês, naquele dia todas as fontes do grande abismo foram rompidas, e as comportas dos céus foram abertas.» (Gênesis 7:10-11) Por aí se constata que o Espírito Santo persistia em fazer crer na existência de um imenso reservatório de águas superiores, que se esvaziava de certo modo por meio de eclusas.
37. As eclusas do céu são abertas. «E a chuva caiu sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites. — Naquele mesmo dia, Noé, Sem, Cam e Jafé, filhos de Noé, entraram na arca, com a mulher de Noé, e as três mulheres de seus filhos com eles; — eles, e todas as bestas segundo a sua espécie, e todos os animais domésticos segundo a sua espécie, e todos os répteis que rastejam sobre a terra segundo a sua espécie, e todo passarinho que tem asas, de qualquer sorte que seja.» (Gênesis 7:12-14) Que arca! que arca!... Somando [102] os diversos períodos indicados na continuação deste capítulo e no capítulo seguinte, verifica-se que Noé, a sua família e os animais salvos ficaram na arca durante 393 dias ao todo. Os teólogos não nos dizem como oito pessoas puderam bastar durante um ano inteiro para dar de comer e de beber a todos esses animais, e para despejar os seus excrementos. É preciso pensar também na reprodução de todos esses bichos, de raças muito prolíficas!... Que espaço era preciso! [103] que imensas provisões de toda natureza! que tarefa para Noé, a sua mulher, os seus filhos e as suas noras!
38. A pomba. Inquietação dos habitantes da arca. O próprio Deus se tinha encarregado de fechar a porta da arca (Gênesis 7:16). Quando a nau se pôs a flutuar, «as águas se reforçaram e cresceram muito sobre a terra; e todas as mais altas montanhas que estavam debaixo de todos os céus foram cobertas; as águas se elevaram quinze côvados mais alto» (Gênesis 7:17-20). É impossível fazer uma ideia exata [104] dessa massa de água, mesmo quando se sabe que a maior profundidade marinha conhecida é a fossa do Tuscarora, no Oceano Pacífico (ilhas Curilas), 8.606 metros de profundidade, e que a mais alta montanha do globo, o Gaurisankar, do Himalaia, tem o seu cume a 8.840 metros acima do nível do mar!... E o Gaurisankar foi ultrapassado em quinze côvados pelo nível da inundação universal!... Chamarei, de passagem, a atenção do leitor para a desagradável surpresa que o dilúvio fez sentir aos peixes: no início, certamente devem ter passado um mau quarto de hora por efeito da mistura das águas doces e salgadas; mas, provavelmente, habituaram-se, e Deus lhes concedeu uma proteção especial, para impedi-los de perecer. Mas «toda carne que se movia sobre a terra expirou, tanto das aves como do gado, das bestas e de todos os répteis que se arrastam sobre a terra, e todos os homens. — Todas as coisas que estavam sobre o seco, e que tinham respiração em suas narinas, morreram. — Foi, pois, exterminado tudo o que subsistia sobre a terra, desde os homens até às bestas, até aos répteis, e até às aves dos céus. Permaneceu vivo somente Noé, e tudo o que estava com ele na arca. — E as águas se mantiveram sobre a terra durante cento e cinquenta dias.» (Gênesis 7:21-24) Contudo, há um fim para tudo. «Ora, o Eterno lembrou-se de Noé e de todos os animais que estavam com ele na arca. E então Deus fez soprar o seu vento (fr. “Dieu fit souffler son vent”: a Bíblia de Ostervald traz “Dieu fit passer un vent”, “Deus fez passar um vento”, e a Bíblia católica de Sacy “fit souffler un vent”, “fez soprar um vento”; o “seu” vento é de Taxil, que mais adiante faz dele o Espírito Santo) sobre a terra, e as águas se detiveram. — Porque as nascentes do abismo e as comportas dos céus tinham sido fechadas, e a chuva dos céus tinha sido retida. — E as águas se retiravam cada vez mais de sobre a terra; e ao cabo dos cento e cinquenta dias diminuíram. — E no décimo sétimo dia do sétimo mês, a arca se deteve no cume do monte Ararate (fr. “au sommet du mont Ararat”: a Bíblia de Ostervald traz “sur les montagnes d’Ararat”, “sobre os montes de Ararate”, e depois “les sommets des montagnes”, “os cumes dos montes”; o cume e as “outras” montanhas são de Taxil, e dão-lhe o milagre que ele aponta logo adiante). — E as águas iam diminuindo cada vez mais, até ao décimo mês; e no primeiro dia do décimo mês os cumes das outras montanhas se mostraram.» (Gênesis 8:1-5)
39. A arca se detém no cume do monte Ararate. É inaudito quantos milagres são mencionados nestas poucas linhas! Primeiro, temos grande prazer em renovar [105] conhecimento com esse amável vento de Deus que não tivera ocupação nenhuma desde a cessação do caos. No começo, ele correu longamente sobre as águas no tohu-bohu, e Santo Agostinho e os teólogos católicos nos ensinaram que esse vento corredor era simplesmente (fr. “tout bêtement”, locução familiar, literalmente “muito tolamente”) Deus Espírito Santo. Ora, agora, para secar as águas do dilúvio, eis que Jeová, isto é, Deus Pai, solta o dito Espírito Santo, que se torna soprador (fr. “souffleur”: o que sopra e também, no teatro, o ponto, que sopra aos atores as suas falas; umas linhas adiante o Espírito Santo “entra em cena”); pois aqui a expressão do texto hebraico, «o vento de Deus», reaparece idêntica à do versículo 2 do capítulo 1; entra, portanto, indubitavelmente em cena o divino pombo (ou o divino pato, como quiserdes), que assume a tarefa de dessecar a universal inundação. Era preciso, aliás, que um dos personagens da Trindade se metesse nisso: jamais um vento qualquer teria podido vencer tal imensidade de águas. Como o nível do dilúvio ultrapassava em quinze côvados as mais altas montanhas da terra, calculou-se que essa acumulação de águas equivalia a mais de doze oceanos um sobre o outro e que a décima segunda zona diluviana era, por conseguinte, por si só, vinte e quatro vezes maior que as águas reunidas de todos os mares que cercam hoje os dois continentes. Por isso se pode considerar o milagre do dilúvio como o mais extraordinário dos milagres que Deus realizou, já que, depois de ter criado todos esses oceanos novos, o que já era uma proeza inimaginável, ele os aniquilou em seguida só fazendo soprar o seu vento. Eis um pombo que tem fôlego (fr. “a du souffle”, locução: tem resistência, como em português; e é jogo de palavras, pois este pombo é o vento de Deus, que Jeová acaba de “soltar”, e “lâcher un vent”, soltar um vento, é também soltar uma ventosidade)!... Outro milagre, que não poderia passar despercebido: no décimo sétimo dia do sétimo mês, a arca de Noé se deteve no cume do Ararate, cuja altitude é de 5.156 metros; e as montanhas que são mais altas que o Ararate, tais como o Gaurisankar, já nomeado (8.840 metros), o Dapsang (8.615 metros), o Nanda Devi (7.813 metros), o Aconcágua (6.970 metros), o Chimborazo (6.254 metros), o Kilimanjaro (6.000 metros), o Cotopaxi (5.970 metros), etc., etc., só mostraram os seus cumes dez semanas depois, ou seja, no primeiro dia do décimo mês. Isso também, como milagre, é pasmoso! A própria virgem de Lourdes não opera milagres desse calibre. O relato bíblico do fim do dilúvio comporta, além disso, [106] uma história de corvo e de pomba que não oferece um interesse muito palpitante. Noé soltou, primeiro, «um corvo que saiu, indo e voltando, até que as águas se secassem». Depois, enviou «uma pomba que, não achando onde assentar a planta do seu pé, tornou a ele para a arca»; mas soltou-a de novo ao cabo de sete dias, e, desta vez, quando ela voltou, «segurava no seu bico um ramo de oliveira; Noé conheceu assim que as águas [107] se tinham retirado de sobre a terra.» O patriarca tinha então seiscentos e um anos. Deus falou-lhe para lhe fazer saber que chegara o momento de sair. A saída de todos os animais operou-se em boa ordem. Além disso, é de presumir, embora a Bíblia não o diga, que a água salgada se separou da água doce (novo milagre!), a fim de que os rios, os lagos, os mares e as ribeiras pudessem recompor-se distintos como antes; e [108] todos os peixes voltaram então às diversas ondas que convinham à sua natureza. «E Noé edificou um altar ao Eterno, e tomou de toda besta limpa e de toda ave limpa, e ofereceu holocaustos sobre o altar. — E o Eterno cheirou um odor que o aplacou, e disse em seu coração: Não amaldiçoarei mais a terra, por causa dos homens; porque a imaginação do coração dos homens é má desde a sua mocidade; e não destruirei mais tudo o que vive, como fiz.» (Gênesis 8:20-21) Nisso, papai Bom Deus administrou a Noé e a seus filhos uma bênção de primeira classe e deu-lhes a permissão de se nutrirem doravante de outros alimentos além do pão e das ervas. «E Deus abençoou Noé e seus filhos, e disse-lhes: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra. — E todas as bestas da terra, todas as aves dos céus, com tudo o que se move sobre a terra, e todos os peixes do mar, vos temerão e vos recearão; são entregues em vossas mãos. — Tudo o que se move e que tem vida será o vosso alimento, assim como a erva verde. — Todavia, não comereis carne com a sua alma, a qual é o sangue. — Com efeito, requererei o sangue das vossas almas da mão das bestas que vos tiverem comido; e até requererei a alma do homem da mão do homem, seu irmão. — Todo aquele que derramar o sangue humano terá o seu sangue derramado; porque o homem é feito à imagem de Deus.» (Gênesis 9:1-6) Do que precede resulta que os animais têm uma alma, no dizer do Espírito Santo, e que a alma reside no sangue. Vê-se também que o senhor Jeová tem horror ao homicídio; mas, como o Deus da Bíblia tem muitas vezes a vista turva, nós o veremos mais adiante impelir os israelitas aos massacres e achar que o seu povo querido nunca derrama bastante sangue humano. Como papai Bom Deus assumia o compromisso de não afogar mais a humanidade, era necessária uma assinatura para esse pacto; a assinatura divina foi o arco-íris, inaugurado naquele dia. «Porei o meu arco nas nuvens, disse o Eterno, e ele será o sinal da minha aliança entre mim e a terra. — E, quando acontecer que eu haja coberto de nuvens a terra, então [109] o arco aparecerá nas nuvens. — Assim, vendo-o, eu me lembrarei do meu pacto entre mim, Deus, e vós, entre mim e todo animal vivente em carne sobre a terra.» (Gênesis 9:13-15)
40. Inauguração do arco-íris. A precaução era boa, pois papai Bom Deus desconfiava das suas frequentes faltas de memória. Note-se, além disso, que o texto sagrado não diz: O meu arco que está nas nuvens será doravante o sinal da minha aliança; mas: Porei o meu arco nas nuvens; o que dá a entender muito claramente que antes não tinha havido arco-íris algum. Ora, como o arco-íris só se forma pelas refrações e reflexões dos raios do sol nas gotas de chuva, segue-se que, durante os séculos decorridos entre a criação de Adão e o dilúvio, a rega pluvial nunca se produziu; as árvores e as plantas cresceram, pois, sozinhas, ou então o suor da fronte dos homens lhes bastava, ou ainda o vagabundo Caim, que edificava cidades, organizou em todo o globo companhias de rega artificial. A história do dilúvio completa-se com dois episódios interessantes: a embriaguez de Noé e a torre de Babel. «Noé, que era lavrador, foi o primeiro que plantou a vinha. — E, tendo bebido do vinho, embriagou-se, e estendeu-se todo nu, no meio da sua tenda. — E Cam, pai de Canaã, tendo visto a nudez de seu pai, saiu e contou-o a seus dois irmãos. — Então Sem e Jafé tomaram uma capa, e, andando de costas, cobriram o sexo de seu pai, e os seus rostos estavam virados para trás, de maneira que não viram a nudez de seu pai.» (Gênesis 9:20-23)
41. Noé planta a vinha e inventa o vinho. Assim, Sem e Jafé portaram-se respeitosamente, como bons filhos compadecidos da embriaguez do senhor seu papai; Cam, pelo contrário, agira como um grosseirão. Uma maldição não podia tardar; mas ides ver quem a recebeu.
42. Embriaguez do patriarca Noé. (o cartaz diz “Loi contre l’ivresse”, lei contra a embriaguez: a lei francesa de 1873, que devia ser afixada em todos os cafés, e o primeiro bêbado jaz embaixo dela) «Noé, tendo despertado depois do seu vinho, soube da zombaria de seu filho Cam. — Pelo que disse: Maldito seja Canaã; será o escravo dos escravos de seus irmãos! — Disse mais: Bendito seja o Eterno, Deus de Sem, e seja Canaã seu escravo! — Atraia Deus com brandura a Jafé, e seja Canaã seu escravo!» (Gênesis 9:24-27)
43. Cam e Canaã são amaldiçoados. E eis como foi amaldiçoado o jovem Canaã, que de modo algum zombara de seu avô. Mal é [110] possível crer que Noé tivesse acabado de dormir o seu vinho (fr. “cuver son vin”, locução, literalmente “deixar o seu vinho fermentar na cuba”), quando pronunciou a sua sentença; mas ela foi, não obstante, confirmada pelo senhor Jeová. Com efeito, os teólogos concordam em reconhecer que Noé atribuiu a Ásia a Sem, a Europa a Jafé e a África a Cam; Canaã e Cam tornaram-se negros, e eles e a sua raça foram assim desprezados. Como puderam os três filhos de Noé, embora nascidos de um mesmo pai e de uma mesma mãe, ser [111] os chefes de três raças diferentes? Seria perder tempo procurar compreendê-lo. É preciso, pois, curvar-se e admitir que de Sem descende a raça asiática de pele amarela; de Jafé, a raça europeia de pele branca; e de Cam e Canaã, a raça africana de pele negra. Mas os peles-vermelhas da América, de quem descendem eles? O Espírito Santo esqueceu-se de dizê-lo ao escritor do Gênesis; ou então a raça acobreada não teve pai. Milagre e mistério.
44. Os efeitos de uma maldição. (a lata diz “Cirage Marcerou”, graxa Marcerou, uma marca de Paris: a maldição de Noé torna Cam e Canaã negros com graxa de sapato) [112] O capítulo 10 traz a genealogia de Jafé, de Sem e de Cam, e dá a conhecer as primeiras cidades edificadas. De todos os nomes citados, o mais conhecido é o de Ninrode, que foi «um poderoso caçador diante do Eterno».
45. Ninrode. «Então toda a terra tinha uma mesma linguagem e uma mesma fala. — Mas aconteceu que, partindo os homens do Oriente, acharam uma campina na terra de Sinar, onde habitaram. — E disseram entre si: Eia, façamos tijolos e cozamo-los ao fogo; e tiveram tijolos em lugar de pedras, e betume em lugar de argamassa. — E disseram mais: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade, assim como uma torre cujo cume chegue até aos céus, e adquiramos para nós um grande renome antes de nos dispersarmos por toda a terra.
46. Construção da torre de Babel. — Então o Eterno desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam. — E disse: Eis que são um só povo, e todos têm uma mesma linguagem, e começam a trabalhar; e agora nada os impedirá de executar o que projetaram. — Vinde, pois, desçamos, e confundamos ali a sua linguagem, para que nenhum deles compreenda mais o que lhe disser o seu vizinho. — Assim o Eterno os dispersou dali por toda a terra, e cessaram de edificar a cidade. — Pelo que o seu nome foi chamado Babel.» (Gênesis 11:1-9)
47. A confusão das línguas. São Jerônimo, no seu comentário sobre Isaías, diz que a torre de Babel já tinha quatro mil passos de altura quando Jeová decretou a interrupção das obras, e Voltaire observa que isso daria vinte mil pés, ou seja, dez vezes mais elevação que a grande pirâmide do Egito, a qual tem 142 metros de altura. Ora, as pirâmides subsistiram, e não resta vestígio algum dessa prodigiosa empresa da torre de Babel, que o Gênesis situa por volta do centésimo décimo sétimo ano depois do dilúvio. Para uma altura de mil e quatrocentos metros, que ainda não era o cimo, foi necessária uma base de uma extensão formidável; como pôde essa imensa massa de alvenaria, tão compacta e tão sólida, desaparecer? Só se pode supor um passe de escamoteação divino, que o autor sagrado se descuidou de mencionar. De outro ponto de vista: se a população do gênero humano tivesse seguido a ordem de progressão que segue [113] hoje, não teria havido nem homens bastantes nem tempo bastante para inventar todas as artes necessárias cujo uso uma obra tão colossal exigia. É preciso, pois, considerar essa aventura como um prodígio. Um prodígio não menor é a formação súbita de tantas línguas. Os comentadores, diz Voltaire, investigaram que línguas-mães nasceram de repente dessa dispersão dos povos; mas nunca prestaram atenção a nenhuma das línguas antigas que se falam desde o Indo até o Japão. Seria curioso contar o número das diferentes linguagens que se falam hoje na superfície do globo. Há mais de trezentas no que conhecemos da América, e mais de três mil no que conhecemos do nosso continente. Cada província chinesa tem o seu idioma; o povo de Pequim entende com muita dificuldade o povo de Cantão, e o indiano das costas do Malabar não compreende de modo algum o indiano de Benares. De resto, toda a terra ignorou o prodígio da torre de Babel; só foi conhecido dos escritores hebreus. O que domina tudo, aliás, o que provoca no mais alto grau a estupefação, é constatar que os grandes fatos históricos, relatados pela Bíblia a respeito das origens da humanidade, são totalmente ignorados por todos os povos. Compreende-se que os gregos, os romanos, os egípcios, os caldeus, os persas, os hindus, os chineses não tenham tido conhecimento dos feitos e gestos de um Gideão, de um Sansão ou de qualquer outro herói simplesmente israelita; mas que os nomes de Adão e de Noé sejam desconhecidos entre essas nações, isso já é outra coisa. Já que o dilúvio do Gênesis destruiu tudo e que Noé foi o restaurador do gênero humano, a genealogia desse patriarca deveria ser a única tida em honra entre os historiadores de todas as nações. Como é que os nomes de Adão e Eva, de Caim e Abel, de Enoque e Metusalém, de Lameque, Noé, Sem, Cam e Jafé não foram inscritos em todos os pergaminhos logo que se soube escrever, em vez de figurarem unicamente nos livros dos judeus, nação ínfima? Quando os sobreviventes da arca se espalharam pelas diversas regiões e deram origem a todos os povos, esqueceram, pois, até [114] os nomes dos nossos primeiros pais! O cultivo da vinha nem sequer conseguiu preservar Noé do esquecimento geral, já que em grande número de nações Baco foi celebrado como inventor do vinho. Quanto ao dilúvio, os críticos veem nele um dos cataclismos naturais das primeiras idades do mundo, e afirmam que houve vários cataclismos regionais desse gênero; pois os gregos têm o dilúvio de Deucalião, que não se parece com [115] o de Noé; os egípcios têm a submersão da ilha Atlântida, diferente também do dilúvio judeu; entre os caldeus, a grande catástrofe é a inundação do Ponto Euxino, com um salvamento efetuado pelo rei Xisutro. Se o dilúvio tivesse sido universal, ousam dizer os críticos, o nome de Noé teria sido universal também, e os nomes de Deucalião e do rei Xisutro é que não se encontrariam em parte alguma. E nada é mais extraordinário do que Hesíodo e Homero, que falam de tudo, [116] não terem dito uma palavra de Adão e de Noé, um, pai do gênero humano, o outro, tronco de todas as raças. É preciso confessar que semelhante reticência não tem exemplo; pois não se pode, decentemente, acusar o divino pombo de ter levado a farsa a ponto de dar ao primeiro homem e ao salvador da espécie humana afogada nomes de pura fantasia, desprovidos de toda autenticidade. CAPÍTULO 5
Recorde-se que Jeová tinha determinado que a vida dos homens já não passaria de seis vezes vinte anos (Gênesis 6:3). Apesar desse decreto, Sem obstinou-se em viver seiscentos anos (11:11); Arfaxade, quatrocentos e trinta e oito anos (11:13); Salá, quatrocentos e trinta e três anos (11:15); Éber, quatrocentos e sessenta e quatro anos (11:17); Pelegue e Reú, cada um duzentos e trinta e nove anos (11:19-21); Serugue, duzentos e trinta anos (11:23); Naor, cento e quarenta e oito anos (11:25); Tera, duzentos e cinco anos (Gênesis 11:32). Esses oito descendentes de Sem levam-nos a Abraão, que ia desempenhar um papel considerável na lenda do povo judeu. O Gênesis não diz por que papai Bom Deus se enrabichou por esse Abraão, chamado primeiro Abrão, filho de Tera. Vivia numa terra chamada Harã, quando Jeová apareceu diante dele numa bela manhã e lhe ordenou bruscamente, mas amigavelmente, que fizesse as malas. «O Eterno disse a Abrão: Sai da tua terra e da tua parentela, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei. — Far-te-ei vir a ser uma grande nação; abençoar-te-ei, magnificarei o teu nome, e tu serás bênção. — Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem, e todas as famílias da terra serão benditas em ti.» (Gênesis 12:1-3)
48. Abraão procura a terra de Canaã. Abrão, então com setenta e cinco anos, não pediu explicação alguma, converteu em dinheiro os bens que tinha adquirido, e [117] pôs-se em viagem, sem saber ao certo aonde ia, levando consigo sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló e a mulher deste, Edite (nome que a tradição rabínica dá à mulher de Ló; o Gênesis não a nomeia), e alguns criados. A caravana teve primeiro de percorrer duzentas léguas à procura da terra de Canaã, que Deus fazia questão de mostrar a Abrão, a fim de brindá-lo com uma profecia; prometeu-lhe, com efeito, que aquele território pertenceria um dia à sua posteridade. Os nossos viajantes caminhavam, caminhavam sempre, através de planícies arenosas onde não existia vegetação alguma. Para reanimar a sua fé e a sua coragem, o patriarca nômade erguia um altar no deserto e rogava ao Altíssimo que o fizesse chegar quanto antes ao seu destino; pois essa longa excursão gastava-lhe demasiado a planta dos pés, bem como a toda a sua família.
49. Sacrifício de Abraão no deserto. Depois de ter atravessado a terra de Canaã, as de Betel e de Ai, a caravana avançou para o sul; enfim, chegaram ao Egito. «E, estando Abrão para entrar no Egito, disse a Sarai, sua mulher: Eis que sei que és uma mulher formosa; — e, quando os egípcios te tiverem visto, matar-me-ão e guardar-te-ão. — Dize, pois, peço-te, que és minha irmã, para que eu seja bem tratado por causa de ti e para que a minha alma viva por causa da tua graça. — Aconteceu, pois, logo que Abrão chegou ao Egito, que os egípcios viram que aquela mulher era mui formosa. — Os principais da corte do Faraó também a viram, e, diante do rei, fizeram o elogio da sua formosura; e ela foi arrebatada para o palácio do Faraó; — o qual fez bem a Abrão por causa dela; de sorte que ele obteve ovelhas, bois, jumentos, servos, servas, jumentas e camelos.» (Gênesis 12:11-16)
50. Abraão apresenta a sua mulher ao rei do Egito. Essa aventura é edificante. A Sagrada Escritura não tem uma palavra de reprovação para o Alphonse patriarcal (palavra de gíria francesa: o homem sustentado por uma mulher, o rufião; nome de homem feito palavra, já registrado por Delvau em 1866 e popularizado por “Monsieur Alphonse”, comédia de Dumas filho encenada em 1873, cujo herói vive do dinheiro da amante). Alguns comentadores censuraram severamente a conduta de Abraão; mas Santo Agostinho defendeu-a no seu livro contra a mentira. Notemos, de passagem, que Sarai tinha então sessenta e cinco anos; nem a idade nem as fadigas da longa viagem através do deserto conseguiram diminuir a sua beleza; é maravilhoso! Mais tarde, quando ela tiver noventa anos, nós a veremos [118] arrebatada de novo por outro rei, e sempre por causa da sua beleza. O Faraó regalava-se, pois, com a soberba velha e não julgava de modo algum cornear um marido. Patatrás! o olho de Deus avistou o que se passava no serralho egípcio. «Então o Eterno feriu com grandes pragas o Faraó e a gente da sua casa, por causa de Sarai. — O Faraó chamou, pois, a Abrão e disse-lhe: Por que agiste assim? por que [119] não me disseste que era tua mulher? — Tu me disseste, pelo contrário: É minha irmã; e eu tinha feito dela a minha mulher. Mas agora, eis aqui a tua mulher, retoma-a, e vai-te. — E o Faraó deu ordens à sua gente; e Abrão, sua mulher, e tudo o que lhe pertencia, foram reconduzidos.» (Gênesis 12:17-20) Eis o nosso Abrão de novo a caminho. «Era muito rico em gado, em prata e em ouro» (Gênesis 13:2); não tinha [120] devolvido nada ao Faraó, por azul! «E voltou pelo mesmo caminho por onde tinha vindo, do sul até Betel» (Gênesis 13:3).
51. O rei do Egito cumula Abraão de presentes. No decurso dessa nova peregrinação, sobreveio uma contenda entre os pastores de Abrão e os de Ló. O tio e o sobrinho separaram-se, sem deixar de ser os melhores amigos do mundo. Abrão decidiu permanecer na terra de Canaã, enquanto Ló, dirigindo-se à planície do Jordão, se fixou em Sodoma, onde armou as suas tendas.
52. Separação de Abraão e de Ló. (a tabuleta diz “Sodome et Gomorrhe — train de plaisir”, Sodoma e Gomorra, trem de prazer: o trem de excursão barato da época, rumo às cidades do prazer) Algum tempo depois, rebentou uma guerra entre diversos reis, dentre os quais o de Sodoma, e, na pancadaria, Ló foi feito prisioneiro. O tio Abrão, que se tinha mudado mais uma vez, levando as suas tendas para Hebrom, soube da triste notícia; uma santa indignação encheu-lhe o coração; resolveu, pois, libertar Ló. Viu-se então o que pode a valentia de um patriarca. Esse nômade, que não tinha uma polegada de terra no país, tinha às suas ordens um grande número de criados, ao que parece; pois «escolheu deles trezentos e dezoito, que armou», e, com esse punhado de lacaios, fez em pedaços os exércitos dos quatro reis mais poderosos da região: «Anrafel, rei de Sinar, Arioque, rei do Ponto, Quedorlaomer, rei dos elamitas, e Tidal, rei das nações»; desculpai o pouco!... A vitória foi tal que ele «perseguiu os quatro monarcas até Dã», que ainda não estava edificada; «e, tendo repartido os seus servos, lançou-se de novo sobre os reis durante a noite, bateu-os e perseguiu-os até Hobá, à esquerda de Damasco; e trouxe de volta todo um rico despojo, trouxe até mesmo Ló, e as mulheres, e todo o povo.» (Gênesis 14:1-16)
53. Abraão liberta Ló prisioneiro. Ora, os anos iam passando, e Abrão estava desolado; perguntava-se como teria uma posteridade, como se realizariam as promessas divinas, em virtude das quais ele devia ser o pai de uma grande nação. «O Eterno disse-lhe: Abrão, não temas; eu sou o teu escudo e a tua magnífica recompensa. — E Abrão respondeu: Senhor, que me darás? Passo a minha vida sem ter filhos: — e eis que o servo que nasceu na minha casa será o meu herdeiro. — Mas o Eterno dirigiu-lhe esta palavra: Não, este não será o teu herdeiro; mas aquele que sair das tuas entranhas será o teu herdeiro. — E, depois de [121] o ter levado para fora, Deus disse-lhe: Levanta agora os olhos para o céu, e conta as estrelas, se as podes contar; assim será a tua posteridade.» (Gênesis 15:1-5) Abrão teve paciência mais um pouco. «Ora, Sarai, sua mulher, ainda não lhe tinha dado filho algum; mas tinha uma serva egípcia, chamada Agar. — E disse a Abrão: Em verdade, Deus me fechou, para que eu não possa dar à luz. Junta-te, pois, à minha serva; porventura terei assim filhos por ela. E Abrão obedeceu à palavra de Sarai.» (Gênesis 16:1-2) Isso queria dizer que Sarai adotaria o filho da sua serva, segundo o costume oriental: um pai ou uma mãe punha o filho de outrem sobre os joelhos, e isso bastava para legitimá-lo. «Então, Sarai tomou Agar, sua serva egípcia, e deu-a por concubina a Abrão, seu marido, depois de ter ele habitado dez anos na terra de Canaã. — Conheceu, pois, a Agar, e ela concebeu; mas Agar, vendo que tinha concebido, desprezou a sua senhora. — Sarai disse então a Abrão: O ultraje que me fazem recai sobre ti. Pus a minha serva no teu seio, e desde que se viu grávida, olha-me com desprezo. Julgue Deus entre mim e ti! — Abrão respondeu: Vamos, a serva está nas tuas mãos; trata-a como te aprouver. Sarai, pois, bateu-lhe, e Agar fugiu.» (Gênesis 16:3-6)
54. Rivalidade de Sara e de Agar. Encantador, não é verdade, esse pequeno lar de patriarca?... Felizmente, um anjo encontrou Agar no deserto, e, depois de tê-la admoestado, encorajou-a. «Torna para a tua senhora, disse o anjo do Senhor, e humilha-te sob ela. — Multiplicarei tanto a tua posteridade que não se poderá contar. — E o filho que puseres no mundo, chamá-lo-ás Ismael; porque o Eterno ouviu a tua voz na tua aflição.» (Gênesis 16:9-11)
55. Agar e o jovem Ismael expulsos por Sara. Eis um pormenor curioso que os tonsurados omitem nos seus manuais de história sagrada, e que no entanto está na Bíblia: o anjo que apareceu a Agar, e que ela tomou por um deus, não se deixou ver por ela de frente; só lhe mostrou o traseiro. Textual! «O teu filho, disse-lhe o anjo, será semelhante a um jumento selvagem; levantará a mão contra todos, e todos levantarão as suas mãos [122] contra ele. — Então, Agar chamou ao anjo que lhe falava: «o deus que me viu»; porque, certamente, disse ela, vi o traseiro daquele que me viu (fr. “le derrière”: a Bíblia de Ostervald traz “vu ici”, “visto aqui”, e a Bíblia católica de Sacy “vu ici par derrière”, “visto aqui por detrás”; é Voltaire, em La Bible enfin expliquée, quem faz disso o traseiro, e Taxil retoma as suas palavras, e depois a sua nota sobre Moisés).» (v. 12-13) Essa bizarrice baseia-se numa crença dos antigos: Deus era tão deslumbrante que não se podia ver o seu rosto sem morrer, a não ser com uma proteção de todo excepcional. Assim, mais tarde, Moisés só viu Jeová por detrás, através da fenda de um rochedo; mas, outras vezes, Deus [123] lhe concedeu o favor de vê-lo face a face. Seria lamentável deixar na obscuridade tais pérolas bíblicas. «Depois, sendo Abrão da idade de noventa e nove anos, o Eterno apareceu-lhe e disse-lhe: Eu sou o Deus Shadai; anda diante da minha face, e sê sem manchas. — E farei aliança contigo, e multiplicar-te-ei prodigiosamente. — Então, Abrão caiu sobre a sua face, e Deus falou-lhe, dizendo: — Eis que a minha aliança é contigo; — e não te chamarás mais [124] Abrão, mas o teu nome será Abraão doravante; — e far-te-ei crescer mui abundantemente, até reis sairão de ti. — Dar-te-ei, a ti e à tua posteridade depois de ti, a terra em que habitas como estrangeiro, e toda a terra de Canaã, em possessão perpétua; — e serei eu o seu Deus. — Eis qual será o pacto entre mim e os teus descendentes: todo macho dentre vós será circuncidado. — Cortarás a carne do teu prepúcio, e isso será o sinal da minha aliança contigo e com os teus. — Todo filho macho, logo que tiver oito dias, será circuncidado entre vós nas vossas gerações, tanto o nascido na casa como o escravo, comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro que não é da tua raça. — Assim a minha aliança estará na vossa carne, para ser uma aliança perpétua. — E o macho incircunciso, cuja carne do prepúcio não tiver sido cortada, será exterminado, porque terá violado a minha aliança.
56. Deus institui a circuncisão. — Quanto a Sarai, tua mulher, não a chamarás mais Sarai, mas o seu nome será Sara doravante. — Abençoá-la-ei; ela te dará um filho, que eu abençoarei. Ele estará sobre as nações, e os reis dos povos sairão dele. — Então, Abraão prostrou-se, com o rosto contra a terra; mas pôs-se a rir, e dizia consigo mesmo: Pensa ele que um homem de cem anos fará um filho? e que uma mulher de noventa anos parirá? — E disse a Deus: O que te peço é que Ismael viva! — E Deus respondeu a Abraão: Tem-no por certo, Sara, tua mulher, te dará à luz um filho, e chamá-lo-ás Isaque; farei um pacto com ele também e com a sua raça para sempre. — Quanto a Ismael, já te atendi; abençoei-o, e multiplicá-lo-ei mui abundantemente; será pai de doze príncipes, e fá-lo-ei vir a ser uma grande nação. — Mas com Isaque estabelecerei a minha aliança, com Isaque, que Sara te dará à luz daqui a um ano, nesta mesma estação. — E, depois que Deus acabou de falar, tornou a subir de diante de Abraão.» (Gênesis 17:1-22) Nunca será demais o respeito com que se leia o relato oficial dessa aparição de Jeová a Abraão. Quando os olhos caem sobre essa passagem da Bíblia, torna-se impossível pôr em dúvida que o autor sagrado, quem quer que seja, Moisés ou Esdras, tenha sido verdadeiramente inspirado pelo Espírito Santo. Os tonsurados não precisam insistir; pois o discurso do Senhor [125] atinge tal altura de sublimidade que nenhum escritor humano poderia tê-lo imaginado. Jamais teria ocorrido a Alexandre, o Grande, quando fez aliança com os reis indianos Taxiles e Poro, propor-lhes que se circuncidassem e cortassem os prepúcios de todos os seus súditos, como marca de uma amizade indissolúvel. E quando Napoleão, em Tilsit, sobre a histórica jangada do Niemen, recebeu nos braços o czar Alexandre, só pensou no ódio comum à Inglaterra para cimentar, de modo indestrutível, a aliança que queria sinceramente entre a França e a Rússia; se Murat, que acompanhava o vencedor de Friedland, lhe tivesse dito então: «Sire, em vez de pedir ao czar que ponha a sua assinatura ao pé do tratado de aliança ofensiva e defensiva, exigi dele que vos traga amanhã o seu prepúcio cortado e os prepúcios de todo o seu estado-maior, pois eis o que seria o mais belo penhor do pacto entre os dois impérios», é provável que Napoleão tivesse acreditado numa demência súbita de Murat e o tivesse imediatamente confiado aos seus melhores médicos. Mas Alexandre e Napoleão não passavam de homens! Só os miolos de um deus podiam conceber a ideia divina de uma eterna aliança baseada num holocausto de prepúcios, que se perpetuasse de geração em geração. Por outro lado, precisamente por ser a circuncisão de instituição divina, causa estupefação constatar que os cristãos se apressaram a suprimi-la. O patriarca bem-amado, no entanto, não tinha hesitado em obedecer ao Altíssimo. «Então, Abraão tomou o seu filho e todos os seus escravos que tinha comprado, e em geral todos os machos da sua casa, e cortou-lhes a carne do prepúcio, como o deus Shadai o tinha ordenado. — Abraão cortou ele mesmo a carne do seu prepúcio, com a idade de noventa e nove anos. — E Ismael, seu filho, tinha treze anos completos, quando foi circuncidado. — Abraão e Ismael foram, pois, circuncidados no mesmo dia. — E todos os machos da sua casa, tanto os que nela tinham nascido como os que tinham sido comprados a estrangeiros, todos foram circuncidados.» (Gênesis 17:23-27) Assim foi sempre entre os judeus. [126] Ora, é por demais evidente que os cristãos não podem enxertar a sua religião na do povo hebreu sem lhe executar fielmente as prescrições que são de origem divina. Jesus Cristo foi circuncidado; o seu prepúcio é venerado, como uma das mais preciosas relíquias, em São João de Latrão, em Roma, e até se multiplicou, por efeito de um milagre muito significativo, pois a mesma relíquia se encontra também em Charroux (perto de Poitiers), em Le Puy-en-Velay, em Coulombs [127] (perto de Chartres), em Châlons-sur-Marne, em Antuérpia e em Hildesheim; além disso, o dia em que Jesus Cristo foi circuncidado é celebrado pela Igreja, é a festa que abre o ano gregoriano. O imperador Juliano, o Filósofo, na sua crítica do cristianismo, não deixou de fazer sobressair até que ponto os adeptos do novo culto violam as prescrições dessa religião judaica da qual se dizem os continuadores, mais puramente fiéis do que os próprios judeus: mostrou [128] a diferença de rito, a supressão dos sacrifícios, a violação da lei no uso das carnes, a substituição do dia do sabá (sábado) pelo dia seguinte, etc. A propósito da circuncisão, escrevia: «É preciso que eu vos pergunte, galileus, por que não vos circuncidais?... Não ordenou o próprio Jesus que se observasse exatamente a lei? «Não vim, diz ele, para destruir a lei e os profetas, mas para cumpri-los». (Mateus 5:17) E pouco depois diz ainda: «Aquele que faltar ao menor dos preceitos da lei, e que ensinar aos homens a não o observar, esse será chamado muito pequeno no reino dos céus.» (v. 19) Ora, visto que Jesus ordenou expressamente que se observasse escrupulosamente a lei, e que estabeleceu penas para punir aquele que pecasse contra o menor mandamento dessa lei, vós, galileus, que faltais a todos, que desculpa podeis justificar? Ou Jesus não diz a verdade, ou então vós sois desertores da lei.» (Discurso do imperador Juliano contra os cristãos, traduzido pelo marquês d’Argens.) O tradutor, depois de reproduzir essa crítica do imperador filósofo, dá a conhecer como São Cirilo quis refutá-lo (Cirilo de Alexandria, c. 376-444, patriarca da cidade a partir de 412; o seu “Contra Juliano” é a refutação de que se trata); e o leitor reconhecerá, com o marquês d’Argens, que os argumentos de São Cirilo são lastimosos e fracos. «Vejamos, diz São Cirilo, para que serve a circuncisão carnal, quando lhe rejeitarmos o sentido místico? Se é necessário que os homens circuncidem o membro que serve à procriação dos filhos, e se Deus desaprova e condena o prepúcio, por que, desde o princípio, não o suprimiu, e por que não formou esse membro como julgava que devia ser? A essa primeira razão da inutilidade da circuncisão, juntemos outra. Em todos os corpos humanos que não estão estragados ou alterados por algumas doenças, não se vê nada que seja supérfluo ou que lhes falte: tudo neles está disposto pela natureza de uma maneira útil, necessária e perfeita; e penso que os corpos seriam defeituosos, se fossem desprovidos de algumas das coisas que lhes são, por assim dizer, inatas. Porventura o autor do universo não conheceu o que era útil e [129] decente? porventura não o empregou no corpo humano, visto que em tudo o mais formou as criaturas no seu estado de perfeição? Qual é, pois, a utilidade da circuncisão? Talvez alguém apresente, para lhe autorizar o uso, o ridículo pretexto do qual os judeus e vários idólatras se servem para sustentá-lo: é, dizem eles, para que o corpo fique isento de sujeira e de mácula; é, pois, necessário despojar o membro viril dos tegumentos que o cobrem. Não sou dessa opinião. Penso que isso é ultrajar a natureza, que nada tem de supérfluo e de inútil. Pelo contrário, o que nela parece vicioso e desonesto é necessário e conveniente, sobretudo para quem foge das impurezas carnais; que se sofram os seus incômodos, como se suportam os da carne, os das coisas que são a consequência dessa carne, e que se deixe coberta pelo prepúcio a fonte de onde fluem os filhos: pois convém mais opor-se firmemente ao fluxo dessa fonte impura, e deter-lhe o curso, do que ofender os seus condutos com secções e cortes. A natureza do corpo, mesmo quando sai das leis comuns, não macula o espírito.» Assim, São Cirilo pergunta para que serve a circuncisão, se dela se tirar o sentido místico. O imperador Juliano poderia ter respondido ao bispo de Alexandria: «Para nada, se quiserdes, mas não se trata disso; trata-se de saber se o Deus de Abraão ordenou a esse patriarca a circuncisão como marca eterna e certa da sua aliança entre ele e os fiéis da sua religião.» É evidente, pelo texto da Escritura dita Sagrada, que essa foi a intenção de Deus e que ele se explicou sobre isso da maneira mais clara e mais expressa. Moisés renovou mais tarde a lei da circuncisão naquela que estabeleceu por ordem de Deus (Êxodo 12:48, Levítico 12:3). Jesus Cristo, que nos ensinou que tinha vindo para cumprir a lei, e não para destruí-la, nunca disse nada que tendesse à supressão da circuncisão. Os evangelistas não fizeram menção alguma de que ele tivesse querido interromper o uso dessa prática ritual. Por que razão, pois, os cristãos se julgaram dispensados dela, algum tempo depois da morte do seu divino legislador? Objeta-se que São Paulo disse que «só a circuncisão do coração é necessária» (Romanos 2:29); [130] mas o próprio São Paulo cortou o prepúcio ao seu discípulo Timóteo! (Atos dos Apóstolos, 16:3) Julgou, pois, necessária a circuncisão corporal. Por que mudou São Paulo de opinião mais tarde? observa o marquês d’Argens. Foi por uma revelação? ele não diz que tenha tido alguma a esse respeito; foi porque se tornou mais instruído? Portanto, tinha estado na ignorância quando já era apóstolo havia bastante tempo. [131] Às observações do marquês d’Argens, Voltaire acrescentou as suas; merecem ser reproduzidas: «Alguns naturalistas, diz Voltaire, não deram razões plausíveis para a circuncisão. Afirmaram que ela prevenia as imundícies que se poderiam insinuar entre a glande e o prepúcio. Aparentemente, nunca tinham visto circuncidar. Não se corta senão um pedaço muito pequeno do prepúcio, o que não o impede de modo algum de recobrir a glande [132] no estado de repouso. Para prevenir as sujeiras, basta lavar as partes da geração, como se lavam as mãos e os pés. Isso é muito mais fácil do que cortar a ponta da verga (fr. “la verge”: o membro viril, em francês o termo neutro da anatomia; como “verga”, designa também uma vara), e muito menos perigoso, visto que por vezes crianças morreram dessa operação. Os hebreus, diz-se ainda, habitavam um clima quente demais; a sua lei quis poupar-lhes as consequências de um calor excessivo que podia causar úlceras na verga. Isso não é verdade. O país montuoso da Palestina não é mais quente que o da Provença. O calor é muito maior na Pérsia, para os lados de Ormuz, nas Índias, em Cantão, na Calábria, na África. Nunca os habitantes desses países imaginaram cortar o prepúcio por princípio de saúde. A verdadeira razão é que os sacerdotes de todos os países imaginaram consagrar às suas divindades algumas partes do corpo, uns fazendo-se incisões como os sacerdotes de Belona ou de Marte, outros fazendo-se eunucos como os sacerdotes de Cibele. Os talapões (assim se chamavam então os monges budistas do Sião e da Birmânia) meteram pregos no cu; os faquires, um anel na verga. Outros açoitaram as suas devotas, como o jesuíta Girard (Jean-Baptiste Girard e a sua penitente Catherine Cadière, que o acusou de tê-la seduzido e açoitado: escândalo julgado em Aix em 1731) açoitava a Cadière. Os sacerdotes hotentotes cortam um testículo em honra da sua divindade, e põem no seu lugar uma bolinha de ervas aromáticas. Os supersticiosos egípcios contentaram-se em oferecer a Osíris uma ponta de prepúcio; os hebreus, que deles tomaram quase todas as suas cerimônias, cortaram o prepúcio, e cortam-no ainda. Os árabes e os etíopes tiveram esse costume, desde tempos imemoriais, em honra da divindade secundária que presidia à estrela do Cão Menor. Os turcos, vencedores dos árabes, tomaram deles esse costume, ao passo que, entre os cristãos, se lança água salgada sobre uma criancinha e se lhe sopra na boca. Tudo isso é igualmente sensato, e deve agradar muito ao Ser supremo!» Não insistamos. Voltemos ao nosso patriarca: provavelmente pensava às vezes na bizarra ideia que Jeová tivera de lhe mudar o nome, assim como à sua esposa; bizarrice tanto mais estranha quanto a mudança se limitava a pouca coisa. Abraão, em vez de Abrão! Sara, em vez de [133] Sarai! O deus dos judeus e dos cristãos é, decididamente, um deus dos mais engraçados. Com o dito Abraão, a Bíblia torna-se cada vez mais divertida. «Ora, o Eterno apareceu de novo a Abraão, e foi na planície de Manre, num dia em que ele estava sentado à porta da sua tenda, na hora do forte calor. — Tendo levantado os olhos, Abraão avistou de repente três homens que estavam a pouca distância; logo correu para eles, e saudou-os até a terra.» (Gênesis 18:1-2) O discurso que se segue é bastante cômico; é uma mistura de singular e de plural que faria crer que o patriarca não estava bem em seu juízo: era o efeito do forte calor?... «E Abraão disse-lhes: Meus senhores, se achei graça diante dos teus olhos, não passes além da habitação do teu servo. — Mas trarei um pouco de água, a fim de que laveis os vossos pés; enquanto isso, descansai sob uma árvore. — E trarei também um pedaço de pão, a fim de que vos reconforteis. Após o que, passareis adiante; pois para isso viestes ter com o vosso servo. E eles lhe responderam: Faze como disseste.» (Gênesis 18:3-5) Numerosos comentadores católicos julgaram que, se naquele dia Jeová tinha vindo em companhia de dois anjos, era a fim de figurar as três pessoas da divina Trindade. Abraão não tinha o espírito bastante sutil para adivinhar isso; nem ele, nem Moisés, nem profeta judeu algum jamais o suspeitaram. «Abraão foi, pois, a toda a pressa à tenda, ter com Sara, e disse-lhe: Despacha-te, toma três éphata de farinha, amassa-os, e faze pães cozidos sob a cinza.» (Gênesis 18:6) As traduções modernas da Bíblia trazem: toma três medidas de farinha. Os nossos tonsurados põem de propósito esse termo vago; pois o que o Espírito Santo ditou ao autor do Gênesis é superlativamente grotesco. O texto hebraico traz éphatà. Ora, um efa contém vinte e nove pintas (a pinta de Paris, medida antiga, valia cerca de 0,93 litro), e, por conseguinte, três éphata representam oitenta e sete pintas ou oitenta e um litros de farinha (sic: o hebraico traz “três seás”, e três seás fazem um só efa, ou seja, 29 pintas, cerca de 27 litros; Voltaire, a quem Taxil segue, di-lo ele próprio antes de triplicar a soma; ainda é muito pão para três hóspedes). Que prodigiosa quantidade de pão! O costume entre os orientais era, é [134] verdade, servir um só prato em abundância; mas o patriarca tomava, mesmo assim, os seus visitantes por Gargântuas. Admirai ainda o que se segue: «Depois, Abraão correu ao seu rebanho, onde tomou um bezerro tenro e bom, e deu-o a um servo, que se apressou a prepará-lo. — Em seguida, tomou kaïmak (espécie de queijo de nata) e leite, e o bezerro que acabavam de preparar, e pôs tudo diante deles. Ele estava junto deles sob [135] a árvore, e eles comeram. — Então, disseram-lhe: Onde está Sara, tua mulher? Ele respondeu: Ei-la na tenda. — Um deles disse-lhe: Não deixarei de voltar daqui a um ano, nesta mesma época, se eu ainda estiver vivo, e tua mulher Sara terá um filho.» (v. 7-10) Se eu ainda estiver vivo é, evidentemente, uma maneira de falar. Jeová, que se exprimia assim, não podia duvidar de que havia de estar vivo dali a um ano. Dirão que papai Bom Deus e [136] os seus dois angélicos companheiros, não se apresentando como seres sobrenaturais, podiam tomar emprestada a linguagem dos homens; mas, visto que predisseram o futuro, apresentavam-se pelo menos como profetas. Então?... «Sara, tendo ouvido isso detrás da porta da tenda, pôs-se a rir; porque ambos eram bem velhos, e Sara já não tinha as suas regras. — Riu-se, pois, escondendo-se, e disse consigo mesma: Depois que envelheci e quando o meu senhor é tão velho, terei, pois, ainda prazer? — Mas Deus disse a Abraão: Por que se pôs Sara a rir, dizendo: Será possível que eu tenha um filho, sendo tão velha? — Há porventura alguma coisa difícil para Deus? Ora, pois, voltarei a ti daqui a um ano, como te disse, se eu ainda estiver vivo, e Sara terá um filho. — Então, Sara teve medo e negou, dizendo: Não me ri. Mas Deus lhe disse: Sim, tu te riste.» (v. 11-15)
57. Os anjos anunciam a Sara que terá um filho. Observou-se que essa aventura tem certo ar de semelhança com a do velho Hirieu (fr. “Irius”: na mitologia grega, o pai de Órion), a quem Júpiter, Netuno e Mercúrio fizeram uma visita, enquanto ele se lamentava de não ter filhos; os três deuses concederam-lhe um, lançando o seu sêmen sobre um pedaço de couro do qual nasceu a criança. Mas os teólogos católicos respondem que foi o paganismo que copiou a Bíblia; segundo o beneditino Dom Calmet, é bem claro que o nome de Hirieu é o mesmo que o de Abraão. Na verdade, mal se desconfiaria disso; não obstante, não contrariemos o sábio beneditino por tão pouco! É mais interessante saborear essa conversa de Deus e de Abraão, cujos pormenores são de uma ingenuidade regozijante. O escritor do Gênesis dá conta de tudo o que se fez e de tudo o que se disse, exatamente como se lá tivesse estado presente. Foi, pois, inspirado pelo próprio Espírito Santo, é claro; sem isso, não passaria de um contador de fábulas. Alguns comentadores católicos, embaraçados pelo ridículo desses pormenores, insinuaram que semelhante história é sobretudo alegórica; segundo eles, Deus e os anjos que foram à casa de Abraão simularam o apetite, não comeram, mas fingiram comer. Ora vamos!... É preciso tomar a Bíblia como ela é, respondemos-lhes; pois, se admitíssemos a interpretação desses teólogos a quem [137] o grotesco de certos episódios do Gênesis parece pesado demais para carregar, seria preciso não ver senão alegorias em toda a Sagrada Escritura. Então, nada teria acontecido de tudo o que o pombo conta? tudo não teria passado de aparência? a divina Bíblia seria um sonho perpétuo?... Vede, senhores tonsurados, aonde um tal raciocínio nos conduziria! É bem mais simples admitir que Deus, que vimos amassar, soprar e passear, também come, digere, etc., e apanha uma insolação de vez em quando, como o seu amigo Abraão, que lhe fala ao mesmo tempo no plural e no singular. Depois do jantar, foram dar um pequeno passeio. «Os três viajantes, tendo-se levantado, dirigiram os olhos para Sodoma, e Abraão caminhava com eles, para os conduzir. — Então, o Eterno disse consigo: Ocultarei eu a Abraão o que vou fazer, — já que ele será pai de uma nação grande e poderosa, e que todas as nações da terra serão benditas nele?» (Gênesis 18:16-18) Todas as nações da terra benditas em Abraão!... Os comentadores judeus e cristãos estão de acordo em ver neste texto a afirmação de que Jeová será um dia o deus adorado em todo o globo, visto que Jeová é o deus de Abraão e que os cristãos não se separam dos judeus no que concerne a este patriarca; mas, dado que judeus e cristãos já não estão de acordo a partir do filho de Maria, qual das duas religiões, pois, prevalecerá sobre o mundo? acabará a terra por ser judia ou cristã?... Grave questão. Temos, aliás, tempo para esperar. A população do globo eleva-se, com efeito, a mais de um bilhão e quatrocentos milhões de habitantes, dos quais os católicos, isto é, as pessoas batizadas na religião que se intitula a única verdadeira religião cristã, somam apenas duzentos e trinta e nove milhões. Para cumprir a palavra de Jeová, será preciso, pois: primeiro, que todos os católicos batizados se tornem crentes e praticantes; depois, que esses verdadeiros cristãos reconduzam aos seus dogmas os protestantes e outros hereges e cismáticos que os rejeitaram; e, por fim, depois de terem persuadido os judeus de que Jeová é triplo, os católicos terão de converter os maometanos, os confucionistas, os bramanistas, os budistas, [138] os fetichistas, etc., etc. — a menos que sejam os judeus que consigam convencer católicos e hereges de que há mil e novecentos anos têm o seu Messias enfiado no próprio olho (fr. “se sont fourré… leur Messie dans l’œil”, jogo com a locução familiar “se mettre le doigt dans l’œil”, literalmente “meter o dedo no olho”: enganar-se redondamente; Taxil põe o Messias no lugar do dedo). De um modo ou de outro, a profecia da conversão total do globo ao deus de Abraão mal parece poder ser celebrada como cumprida por ocasião da próxima exposição (alusão às Exposições Universais de Paris: 1855, 1867, 1878, 1889 e 1900). Ora bem, qual era o projeto que papai Bom Deus tinha formado, e a respeito do qual se perguntava se faria ou não [139] uma confidência ao seu patriarca bem-amado?... Pesando bem as coisas, decidiu-se a não ter segredinhos para com Abraão, e então este compreendeu, enfim, que aqueles três viajantes que lhe tinham devorado um bezerro e oitenta e um litros de farinha, sem contar o queijo de nata, eram seres sobrenaturais, entre os quais o seu velho amigo Shadai em pessoa. «Disse, pois, o Eterno: Porquanto o clamor de Sodoma e de [140] Gomorra se tem aumentado, e porquanto o seu pecado é muito grave, — descerei agora, e verei se fizeram inteiramente todas as coisas cujo clamor veio até mim; e, se assim não for, sabê-lo-ei.» (Gênesis 18:20-21) Jeová não se fiava cegamente nos relatórios da sua polícia. Talvez se ache que, na sua qualidade de deus onisciente, ele não devia ignorar nada, e que, por conseguinte, sabia exatamente o que pensar, sem necessidade de inquérito algum; mas não esqueçamos que isto se passa num tempo de calor muito forte e que a digestão do copioso jantar comido há pouco podia muito bem ter perturbado um tanto as suas divinas ideias. «Os três viajantes, partindo dali, caminhavam, pois, para Sodoma; mas Abraão fez alto, permanecendo diante do Eterno. — E chegou-se a Deus e disse-lhe: Farás perecer até o justo com o mau? — Porventura há cinquenta justos na cidade; fá-los-ás perecer também? Não perdoarás à cidade, por causa de cinquenta justos, se ali estivessem? — Não se dirá de ti que fazes morrer o justo com o mau, e que o justo é tratado como o mau. Não, isso não se dirá. Aquele que julga toda a terra não fará justiça? — E disse o Eterno: Se eu achar em Sodoma cinquenta justos, perdoarei a todo o lugar, por causa deles. — E Abraão tornou: Eis que agora tomei ousadia falando ao Senhor, ainda que eu não seja senão pó e cinza. — Porventura faltarão cinco dos cinquenta justos; destruirás a cidade por cinco que faltassem? E Deus lhe respondeu: não a destruirei, se ali achar quarenta e cinco justos.» (Gênesis 18:22-28) A conversa continua nesse tom (v. 29-32), e Abraão se esforça por obter novas concessões: dos quarenta e cinco justos exigidos, passa-se a quarenta, depois a trinta, a vinte; mas finalmente papai Bom Deus não quer descer abaixo de dez justos para conceder a graça. É a sua última palavra! «E foi-se o Eterno, quando acabou de falar a Abraão; e Abraão tornou para a sua casa.» (Gênesis 18:33). Segundo a Bíblia, papai Bom Deus, que queria ver por si mesmo, não seguiu caminho com os seus dois companheiros; o capítulo 19 dá a entender que ele tornou a subir ao céu. «E, ao entardecer, os dois anjos chegaram a Sodoma. [141] Ló, que estava sentado junto à porta da cidade, adiantou-se ao seu encontro; logo que os viu, saudou-os, prostrando-se com o rosto em terra. — E disse-lhes: Peço-vos, meus senhores, dignai-vos deter-vos na casa do vosso servo; pousai nela esta noite; lavai nela também os vossos pés; amanhã, de madrugada, vos levantareis, e prosseguireis o vosso caminho. Mas eles responderam: Não, passaremos esta noite na rua. — Mas Ló apertou com eles tão instantemente, que aceitaram recolher-se em sua casa. E, quando entraram em sua casa, preparou-lhes um banquete, com pães sem levedura que fez cozer, e comeram. — Mas, antes que fossem deitar-se, os homens da cidade, isto é, os homens de Sodoma, cercaram a casa, desde o mais moço até os velhos, todo o povo, desde uma ponta até a outra. — E, chamando Ló, disseram-lhe: Onde estão esses homens que entraram em tua casa esta noite? Faze-os sair, para que usemos deles. — Então, Ló saiu a eles para lhes falar à porta, e, tendo fechado a porta atrás de si, disse-lhes: Peço-vos, meus irmãos; não cometais este mal. — Escutai, tenho duas filhas que ainda não conheceram varão; eu vo-las trarei, e usareis delas tal como vos aprouver, contanto que não façais violência a estes dois homens, porque vieram à sombra do meu telhado. — Eles lhe responderam: Retira-te daí. E disseram mais: Este homem é um estrangeiro, que tomou domicílio aqui, e quereria fazer juízo sobre nós? Anda, far-te-emos mais a ti do que a eles. E então fizeram violência a Ló; depois, prepararam-se para arrombar as portas da sua casa. — Mas os dois viajantes, estendendo as mãos, fizeram Ló tornar a entrar em sua casa, e fecharam a porta. — Em seguida, feriram de ofuscamento todos os homens que sitiavam a casa, de sorte que se cansaram de procurar a porta.» (Gênesis 19:1-11)
58. Ló protege os anjos contra os habitantes de Sodoma. Era necessário reproduzir textualmente esta passagem do Gênesis; nunca será demais lembrar que estas linhas foram escritas sob o ditado do Espírito Santo. Além disso, não é menos útil reproduzir o comentário de Voltaire: «Confessamos que o texto bíblico confunde aqui mais [142] do que em qualquer outra parte o espírito humano. Se esses dois anjos, ou esses dois deuses, eram incorpóreos, então tinham tomado um corpo de grande beleza, para inspirar desejos abomináveis a todo um povo. Quê! os velhos e as crianças, todos os habitantes varões, sem exceção, vêm em multidão para cometer o pecado infame com esses dois anjos! Não está na natureza humana cometer todos juntos publicamente uma tal abominação, para a qual se busca [143] sempre o retiro e o silêncio. Os sodomitas pedem esses dois anjos, como se pede pão em tumulto num tempo de fome. Não há nada, na mitologia pagã, que se aproxime deste horror inconcebível. Os teólogos que disseram que os três celestes viajantes, dos quais dois vieram a Sodoma, eram Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo, tornam ainda mais execrável o crime dos sodomitas, e mais incompreensível esta história. [144] A proposta de Ló aos sodomitas de se deitarem todos com as suas duas filhas donzelas, em vez de se deitarem com esses dois anjos, ou esses dois deuses, não é menos revoltante. Tudo isso encerra a mais detestável impureza de que se faça menção em livro algum. Os intérpretes encontram algumas relações entre esta aventura e a de Filêmon e Báucis; mas esta última nada tem de indecente, e é muito mais instrutiva. É um burgo que Júpiter e Mercúrio punem por ter sido inospitaleiro; é uma advertência para ser caridoso; não há nela impureza nenhuma. Alguns dizem que o autor sagrado quis sobrepujar a história de Filêmon e Báucis, para inspirar mais horror de um crime muito comum nos países quentes. Contudo, os árabes ladrões, que ainda estão nesse deserto selvagem de Sodoma, estipulam sempre que as caravanas que passam por esse deserto lhes darão moças núbeis, e nunca pedem rapazes. Esta história desses dois anjos não é tratada aqui como alegoria, como apólogo; tudo é ao pé da letra (fr. “au pied de la lettre”, locução: no sentido literal, palavra por palavra, como em português); e não se vê, aliás, que alegoria se poderia tirar dela para a explicação do Novo Testamento, do qual o Antigo é uma figura, segundo os Padres da Igreja.» Continuemos a citar o texto sagrado, o livro divino, a escritura inspirada, que temos o dever de crer verídica, sob pena de pecado mortal. Vamos ver muitas outras! «Então, os dois viajantes disseram a Ló: Quem tens ainda aqui que seja dos teus, ou genro, ou filhos, ou filhas, ou algum outro dos teus parentes na cidade?» (Gênesis 19:12) — Por que fazer esta pergunta? os anjos não sabiam de quem se compunha a família de Ló? — «Todos os que são teus parentes, disseram eles, faze-os sair deste lugar; porque vamos destruir esta cidade, cujo clamor de iniquidade subiu até o céu, e o Eterno enviou-nos para a destruir. — Saiu, pois, Ló e foi falar a seus genros, que haviam de casar com suas filhas; disse-lhes: Levantai-vos depressa e deixai comigo esta cidade; porque o Eterno vai destruí-las. Mas seus genros creram que ele zombava deles. — Logo à alva do dia, os anjos apertaram de novo com Ló, dizendo-lhe: Apressa-te, leva a tua mulher e as tuas duas filhas que estão [145] aqui; doutro modo, perecerias pelo crime desta cidade. — E, como Ló tardava, os anjos tomaram-no pela mão, e tomaram também pela mão a sua mulher e as suas duas filhas, porque o Eterno os poupava; e levaram-nos e puseram-nos fora da cidade. — Ali, um deles disse: Salva a tua vida, não olhes para trás de ti, e não te detenhas em lugar algum da planície; salva-te no monte, para que não pereças. — Mas Ló lhes respondeu: Não, Senhor, peço-te; — eis que o teu servo achou graça diante de ti e que exerceste para comigo a tua misericórdia; contudo, não poderei salvar-me no monte sem que o mal me alcance e eu morra. — Pelo que, peço-te, há aqui bem perto uma cidade para onde posso fugir, e é uma cidade pequena; permite que eu me refugie nela; e poupa-a. Não é ela pequena, e viverá a minha alma? — O anjo disse-lhe: Seja, concedo-te ainda esta graça, de não destruir a cidade de que acabas de me falar. — Mas anda depressa, e salva-te ali; porque nada poderei fazer antes que tu ali tenhas entrado. Por esta razão, esta cidade foi chamada desde então Zoar. — Enquanto o sol se levantava, Ló entrou, pois, em Zoar. — Então, o Eterno fez chover, sobre Sodoma e sobre Gomorra, enxofre e fogo, que caíam do céu. — E destruiu aquelas cidades, e toda a planície, e todos os habitantes das cidades, e aniquilou o germe da terra. — Mas a mulher de Ló olhou para trás de si, e foi mudada em estátua de sal. — Ora, Abraão, naquele dia, levantara-se de madrugada, e veio ao mesmo lugar onde se tinha detido durante o seu passeio com o Eterno (fr. “sa promenade”: a Bíblia de Ostervald traz “au lieu où il s’était tenu devant l’Éternel”, “ao lugar onde estivera diante do Eterno”, e Voltaire também não tem passeio: é de Taxil, o mesmo que ele lhes fez dar depois do jantar). — E, como dirigia os seus olhares para Sodoma e Gomorra, e como os seus olhos estavam fixos em toda a terra ao redor, viu subir da terra uma fumaça cheia de faíscas, como a fumaça de uma fornalha.» (Gênesis 19:12-28)
59. Incêndio de Sodoma. A respeito do número de cidades queimadas, as linhas que precedem não contêm nenhuma informação precisa. Só Sodoma e Gomorra são nomeadas; não obstante, os teólogos são de parecer que todas as cidades daquela planície foram destruídas pelo fogo do céu, e até imaginaram um nome: chamam «a Pentápole» à região devastada, o que significa «a terra das cinco cidades». Teria havido, pois, cinco cidades criminosas. Em apoio da sua tese, os teólogos [146] se reportam ao capítulo 14, onde é contada a guerra no decurso da qual Ló foi feito prisioneiro, e depois libertado graças à intervenção vitoriosa de Abraão e dos seus trezentos e dezoito criados de elite; o versículo 2 desse capítulo nomeia, com efeito, cinco reinos que teriam existido naquela região, e daí se concluiu que as cidades culpadas, cujo extermínio Jeová tinha decretado, são precisamente as capitais desses cinco reinos. [147] Eis, de mais a mais, essa passagem: «Os quatro reis (Anrafel, Arioque, Quedorlaomer e Tidal) fizeram guerra contra Bera, rei de Sodoma, contra Birsa, rei de Gomorra, contra Sinabe, rei de Admá, contra Semeber, rei de Zeboim, e contra o rei de Bela, que foi chamada mais tarde Zoar. — Todos estes se tinham reunido no vale de Sidim, que é hoje o mar Salgado.» (Gênesis 14:2-3) Mas essa engenhosa interpretação dos teólogos não [148] consegue senão fazer ressaltar melhor as contradições da Bíblia. Com efeito, eis aí as cidades culpadas: Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Bela. Assim, pois, o Senhor Jeová, conversando com Abraão, manteve o seu decreto de extermínio contra toda a Pentápole, porque em Sodoma não há dez justos ao todo, não é verdade? e, em contrapartida, os anjos incendiários poupam Bela, chamada por esse motivo Zoar, muito simplesmente porque Ló desejou transportar-se para essa cidade!... Contudo, os habitantes de Bela-Zoar eram — não há como sair daí (fr. “il n’y a pas à sortir de là”, locução: não há escapatória) — entregues ao mesmo vício que os sodomitas, visto que Deus os tinha votado primeiro à chuva de fogo. Dirão que os belaítas, não tendo recebido a visita dos anjos, não manifestaram contra estes os seus desejos infames, e que essa circunstância pôde ser tida por atenuante? Seja; mas os gomorreus, os admaítas e os zeboimitas estiveram no mesmo caso e nem por isso deixaram de ser exterminados.
60. A mulher de Ló é mudada em estátua de sal. No que concerne a Gomorra, a ciência dos teólogos exerceu-se de um modo curioso, e, sem que se saiba por quê, a Igreja admitiu, em virtude de uma tradição de que não se encontra vestígio em parte alguma, que o pecado dessa cidade era exatamente o contrário do pecado de Sodoma. Daí resulta que aquilo que os gregos chamavam «pederastia» se chama «sodomia» na linguagem dos eclesiásticos; por outro lado, o vício sáfico, que granjeou um renome universal às damas da ilha de Lesbos, torna-se, entre os nossos tonsurados, o vício das «gomorreias». Por conseguinte, compreende-se bem agora qual era esse clamor que se elevou de Sodoma e de Gomorra e que subiu até o céu, segundo a declaração que o velho Shadai fez a Abraão. Em Sodoma, eram as mulheres que se queixavam de estar abandonadas; em contrapartida, em Gomorra, eram os maridos sem trabalho que uivavam as suas lamentações ao Eterno. Mas então tem-se o direito de perguntar por que, em Sodoma, a vindita celeste exterminou as mulheres, visto que os homens eram na realidade os únicos culpados naquela cidade, e por que, em Gomorra, papai Bom Deus não poupou esses infortunados maridos, já muito amargurados (fr. “infortunés maris, déjà fort marris”: jogo de palavras, pois “marris”, palavra antiga para aflitos, soa como “maris”, maridos) por as senhoras suas esposas passarem sem eles. E, se nos quisermos limitar ao exame de [149] um caso particular, é evidente que os dois senhores de Sodoma que tinham ficado noivos das filhas de Ló não eram pederastas; o seu casamento estava tão bem ajustado, tão pronto para ser celebrado, que o santo homem já os chamava seus genros. Segundo o autor sagrado, de modo algum consta que esses dois genros de Ló fossem culpados do mesmo excesso de impureza abominável pela qual os sodomitas foram queimados com a sua cidade; o texto de modo nenhum os mostra no bando que quis violar os dois anjos; longe disso, o Gênesis dá a entender que eles estavam recolhidos muito honestamente em casa, visto que Ló foi despertá-los, para convidá-los a safar-se com ele; não obstante, foram envolvidos na destruição geral. Quanto à mulher de Ló, é preciso confessar que ela pagou caro o movimento de compaixão que lhe fez voltar a cabeça para aquela cidade onde se encontravam provavelmente os seus parentes. A sua transformação súbita em estátua de sal foi confirmada, de certo modo, por escritores judeus ou cristãos dos primeiros séculos da era vulgar. O historiador judeu Flávio Josefo assegura, no seu livro das Antiguidades, que viu essa estátua, e que ainda a mostravam no seu tempo. Os céticos creem que israelitas do lugar bem podem ter-se divertido a talhar um pedaço de asfalto em figura grosseira, e a dizer: É a mulher de Ló. Já se viram obras de betume trabalhadas com arte e capazes de subsistir muito tempo. Por outro lado, Santo Ireneu foi muito longe ao afirmar isto: «A mulher de Ló já não é carne corruptível; mas, permanecendo sempre no estado de estátua de sal, continua a ter as suas regras todos os meses.» (Livro 4, cap. 2) Tertuliano, no Poema de Sodoma, afirma a mesma coisa, com mais energia ainda: «Dicitur, et vivens salso sub corpore, sexus mirifice solito dispungere sanguine menses. (latim: “Diz-se que, viva sob o seu corpo de sal, o seu sexo ainda marca prodigiosamente os meses com o sangue costumado”)» Todavia, essa maravilha ficou desconhecida dos romanos que vieram à Palestina: quando tomaram Jerusalém, não tiveram a curiosidade de ir ver a miraculosa estátua de sal, pela simples razão de que ninguém lhes falou dela; e mesmo nem Pompeu, nem Tito, nem Adriano tinham jamais ouvido falar de Ló, de sua mulher Edite e de suas duas filhas, nem de Abraão, nem de personagem algum dessa família. Hoje, [150] as viajantes que vão explorar os arredores do mar Morto não constatam ali a presença de estátua alguma de sal ou de asfalto; os muçulmanos da terra não pensaram em fabricar uma, que daria grande prazer aos curiosos; em compensação, mostram aos peregrinos o carvalho de Manre, à sombra do qual Jeová e os dois anjos devoraram um bezerro inteiro e uma quantidade formidável de pães e de queijo de nata. Estrabão, o célebre geógrafo grego, que morreu na época [151] em que a lenda cristã situa o nascimento de Jesus, visitou em pormenor a Ásia Menor e muito particularmente a Palestina, sobre a qual escreveu relatos minuciosos; notadamente, dirigiu-se à região de Sodoma e do mar Morto, e não diz uma palavra da estátua de sal, que Josefo, alguns anos mais tarde, afirma ter visto. O que Estrabão relata, como viajante imparcial, é muito curioso de ler, porque a opinião dos judeus que então habitavam a terra não concorda [152] exatamente com a Bíblia; longe de crer numa chuva de fogo, causada por crimes, os israelitas atribuíam a devastação das terras a causas muito naturais, a erupções vulcânicas. Citemos, pois, Estrabão: «Que esta região tenha sido trabalhada pelo fogo, disso se apresenta mais de uma prova: rochedos queimados, numerosas fendas, uma terra de cinzas, rios que espalham ao longe um odor infecto, e, aqui e ali, habitações em ruína. Tudo isso faz crer o que contam os habitantes da terra, isto é, que outrora havia ali treze cidades, das quais Sodoma era a metrópole: mas que, por tremores de terra, erupções de fogos subterrâneos e as ondas ardentes de águas betuminosas e sulfurosas, o lago invadiu as terras, e os rochedos guardaram as marcas do cataclismo. Dessas cidades, umas foram tragadas, as outras abandonadas pelos habitantes que puderam salvar-se.» (Geografia de Estrabão, livro 16, cap. 2) Isto pouco se parece com o versículo 24 do capítulo 19 do Gênesis: «Então, o Eterno fez chover, sobre Sodoma e sobre Gomorra, enxofre e fogo, que caíam do céu.» Mas o que importa notar é que a tradição judaica recolhida por Estrabão nos próprios lugares, se está em contradição com o relato bíblico do capítulo 19, não surpreende de modo algum quando nos reportamos ao capítulo 14 do mesmo Gênesis, versículo 10: «Havia, no vale, muitos poços de betume, e os reis de Sodoma e de Gomorra caíram neles ao fugir.» A própria Bíblia constatou, pois, que todo o terreno era asfalto antes do terrível abrasamento! Os sábios têm bom jogo, como se vê, para dizer que o divino pombo, também aqui, mistificou nos grandes preços o escritor sagrado. Toda a natureza, nesse imenso deserto, atesta um cataclismo que devia produzir-se fatalmente, se é verdade que homens tiveram a imprudência de ali se estabelecer. Assim, o mar Morto, que recebe o Jordão e os rios que descem das montanhas circunvizinhas, não é maior que o lago de Genebra; tem, exatamente como o lago Lemano, 76 quilômetros de comprimento, e a sua maior largura é de 15 quilômetros. Ora, enquanto o Ródano atravessa o lago de [153] Genebra, o Jordão e os diversos rios são absorvidos pelo mar Morto. Calculou-se que o Jordão, sozinho, leva ao mar Morto seis milhões de toneladas por dia: é preciso, pois, que essa massa enorme de água se evapore diariamente; porque não é possível supor um escoamento, em razão do nível do lago, que está 394 metros abaixo do nível do Mediterrâneo, e, além disso, a profundidade máxima é de 399 metros. Com efeito, o ar quente e seco dessa depressão, única no seu gênero (793 metros), pode absorver quantidades enormes de vapor de água. As camadas margosas da vizinhança, as massas de asfalto que estão por toda parte, a frequência dos tremores de terra, o solo essencialmente vulcânico, tudo prova um país desde sempre inabitável. Caso se faça absoluta questão de crer o pombo incapaz de ter zombado do escritor do Gênesis, caso se queira admitir mesmo assim como verídica a história da chuva de fogo caída do céu para destruir seres humanos, culpados aqui de pederastia e ali de safismo, é preciso então dizer que Jeová-Shadai, embora eterno, não deixa de ser um tantinho normando (fr. “un tantinet normand”, locução: um pouco manhoso e evasivo; na França, os normandos têm fama de astutos, de não responderem nem sim nem não e de só cumprirem a palavra pela metade). Com efeito, ao declarar a Noé que a sua clemência se absteria doravante de exterminar os homens, tinha jurado solenemente, com a mão sobre o arco-íris, nunca mais repetir o dilúvio. Fazer juramento de renunciar aos afogamentos, e substituir depois o dilúvio de água por aguaceiros de fogo, é, para um deus, ser bastante cordel!... Além disso, a Bíblia nos conta que uma cidade foi poupada a rogo de Ló, e que essa cidade é a que desde então foi chamada Zoar. — Pois bem, quem conhece então Zoar? onde está ela, essa cidade? Já que todos os historiadores ignoraram a existência de Zoar, essa felizarda cidade não teria tido até o fim a sorte de agradar, e papai Bom Deus a teria destruído no século seguinte?... O fato é que não ficaram mais vestígios de Zoar do que de Sodoma e de Gomorra. Quando homens se arriscaram a vir morar às margens do mar Morto, nunca foi senão para ali fazerem uma breve estada, em habitações construídas a título provisório, unicamente para recolherem sal, asfalto, cloreto de magnésio e um certo óleo mineral que sobrenada em certos pontos do lago e de que se fez uso [154] outrora em medicina; depois disso, apressavam-se a debandar dessa região insalubre onde a vegetação é quase nula e onde nem sequer se encontra água potável. Enfim, creiamos em Zoar pelo quarto de hora (fr. “pour le quart d’heure”, locução familiar: por ora), e vejamos a continuação do extraordinário Gênesis. O autor sagrado acaba de nos mostrar que Ló, não sendo pederasta, foi salvo da catástrofe, bem como as suas filhas, virtuosas donzelas; o mesmo autor vai mostrar-nos imediatamente os belos [155] exemplos de virtude dados por essa santa família. O novo episódio bíblico não contém uma palavra de reprovação dirigida aos três escapados de Sodoma. O divino pombo tem uma especialidade: narra as mais repugnantes obscenidades como se nada no mundo fosse mais simples; o incesto, sob a pena do autor sagrado, parece uma prática perfeitamente corriqueira. O leitor desculpará mais esta citação; é necessária; é preciso que seja textual, para dar bem a conhecer o que é [156] a Sagrada Escritura, o livro religioso por excelência, a augusta base do dogma e da fé. «E Ló subiu de Zoar e veio habitar na montanha com as suas duas filhas; porque temia morar em Zoar. E retirou-se para uma caverna com as suas duas filhas. — E a mais velha disse à menor: Nosso pai é velho, e não ficou homem algum na terra que possa entrar em nós, segundo o costume de todas as terras. — Vem, pois; embriaguemos nosso pai com vinho, e deitemo-nos com ele, para que possamos suscitar semente de nosso pai. — Então deram de beber vinho a seu pai naquela noite. Depois, a mais velha aproximou-se e deitou-se com seu pai; mas ele nada sentiu, nem quando se deitou, nem quando se levantou. — E, no dia seguinte, a mais velha disse à menor: Eis que eu me deitei a noite passada com nosso pai: demos-lhe de beber vinho também esta noite, e tu te deitarás com ele por tua vez, para que guardemos semente de nosso pai. — Naquela noite, pois, embriagaram de novo o seu pai, e a mais nova deitou-se com ele, o qual nada sentiu, nem quando ela se ajuntou com ele, nem quando se levantou. — Assim, as duas filhas de Ló ficaram pejadas de seu pai. — A mais velha deu à luz um filho, a quem chamou Moabe; este é o pai dos moabitas, e a sua descendência existe ainda hoje. — E a menor deu também à luz um filho, a quem chamou Amom; este é o pai dos amonitas, e a sua descendência existe ainda hoje.» (Gênesis 19:30-38) Este texto pode muito bem ser o produto da inspiração direta do Espírito Santo; nem por isso deixa de ser infecto. Essa aventura de Ló e de suas filhas não podia escapar à justa crítica de Voltaire; por isso, para comentá-la, nós nos apagaremos completamente por trás do grande filósofo. As reflexões desse homem de gênio, que foi o pai intelectual da Revolução, são tão úteis hoje como no século passado, já que a superstição ainda está de pé, com os seus dogmas e os seus sacerdotes. «O texto bíblico, escreve Voltaire, não diz o que Ló fez quando viu a sua mulher mudada em estátua de sal; também não diz o nome de suas filhas. A ideia de embriagarem o pai para se deitarem com ele na caverna é singular. O texto [157] não diz onde encontraram vinho; mas diz que Ló gozou de suas filhas sem se aperceber de nada, quer quando se deitaram com ele, quer quando se foram. É muito difícil gozar de uma mulher sem o sentir, sobretudo se ela é donzela. É um fato que não nos aventuramos a explicar. De resto, não se vê por que as filhas de Ló temiam que o mundo acabasse, uma vez que Abraão já tinha gerado Ismael de sua serva, que todas as nações estavam dispersas, e que a cidade de Zoar, de onde essas filhas saíam, ficava muito perto.» E a quem se dirigiram elas então para comprar vinho, senão a mercadores de vinho que habitavam o lugar?... Voltaire faz notar ainda que essa história tem alguma relação com a de Mirra, que teve Adônis de seu pai Cíniras. «Isto é imitado, diz ele, da antiga fábula arábica de Cíniras e Mirra; mas, nessa fábula bem mais honesta, Mirra é punida pelo seu crime, ao passo que as filhas de Ló são recompensadas com a maior e a mais cara das bênçãos segundo o espírito judeu: são mães de uma numerosa posteridade.» Queimemos açúcar (fr. “brûlons du sucre”: queimar açúcar era um antigo modo de tirar o mau cheiro de um quarto, e a história de Ló fede). O Gênesis volta agora a Abraão, o Alphonse patriarcal, sempre disposto a repetir o pequeno truque que tão bem lhe tinha saído no Egito. «Naquele tempo, Abraão foi-se para as terras do sul, e habitou entre Cades e Sur, e atravessou como viajante a terra de Gerar. — E Abraão dizia a todos de Sara, sua mulher: É minha irmã. Pelo que Abimeleque, rei de Gerar, mandou arrebatar Sara para a possuir. — Mas Deus apareceu uma noite a Abimeleque num sonho, e disse-lhe: Eis que és um homem morto, por causa desta mulher que tomaste; porque ela tem marido. — Ora, Abimeleque ainda não a tinha tocado. Respondeu, pois: Senhor, farias tu morrer gente inocente e ignorante? — Não me disse este homem, ele mesmo: É minha irmã? E ela mesma não me disse também: É meu irmão? Fiz isto na simplicidade do meu coração, e com mãos puras. — O Eterno tornou: Sim, sei que agiste com a ignorância de um coração simples; por isso impedi que pecasses contra mim, e [158] por esta razão velei para que não tocasses nesta mulher até agora. — Agora, pois, restitui-a a seu marido; este homem é profeta, e rogará por ti, e viverás. Mas, se não restituíres esta mulher, então certamente morrerás, bem como todos os teus, sabe-o. — E Abimeleque levantou-se muito de madrugada; chamou toda a sua gente, explicou-lhes estas coisas, e eles foram tomados de temor. — Depois, Abimeleque mandou vir Abraão e disse-lhe: Por que [159] agiste desta sorte? Em que te ofendi, para que tenhas atraído sobre mim e sobre o meu reino um castigo tal como os que são reservados aos grandes crimes? Fizeste-me coisas que não se devem fazer. — Dize-mo, pois: que viste entre nós que te tenha impelido a fazer isto? — Abraão respondeu: Agi assim porque dizia comigo mesmo que talvez não houvesse temor de Deus nesta terra, e pensei que me matariam por causa da formosura de minha mulher. — [160] Aliás, posso dizer com verdade que ela é minha irmã; porque, se não é filha de minha mãe, é pelo menos filha de meu pai; mas é verdade também que me foi dada por mulher. — E aconteceu que, quando os deuses me conduziram de cá para lá, longe da casa paterna, eu disse à minha mulher: Onde quer que formos, faze-me o favor de dizer que sou teu irmão. — Então Abimeleque tomou ovelhas, bois, criados e servas, e deu-os a Abraão, restituindo-lhe Sara, sua mulher. — E disse-lhe: Eis que a minha terra está à tua disposição; mas vai-te daqui (fr. “mais va-t’en d’ici”: a Bíblia de Ostervald traz “Voici, mon pays est à ta disposition ; habite où il te plaira”, “Eis que a minha terra está à tua disposição; habita onde te aprouver”; Taxil intercala-lhe o “Va-t’en”, “Vai-te”, de La Bible enfin expliquée de Voltaire, e assim a oferta do rei se contradiz), e habita onde te aprouver. — E disse a Sara: Eu tinha dado mil peças de prata a teu irmão. Ora, segue o meu conselho; tem um véu sobre os olhos, diante de todos os que estão contigo e diante de todos os outros. Assim foi ela repreendida. — Ora, Deus tinha fechado todas as vulvas, por causa de Sara, mulher de Abraão. — E, a rogo de Abraão, Deus sarou Abimeleque e restituiu a fecundidade à sua mulher e às suas servas; e elas tiveram então filhos.» (Gênesis 20:1-18) (“quando os deuses me conduziram” — fr. “quand les dieux m’ont conduit”, no plural, como em La Bible enfin expliquée de Voltaire, que Taxil segue aqui. Taxil volta a esses plurais como a uma prova de que o texto hebraico guarda o vestígio de vários deuses; a Almeida tem “Deus”, no singular.) Não esqueçamos que nessa época a bela Sara tinha noventa anos bem contados. (Gênesis 17:17) Impõem-se, além disso, algumas observações: Abraão disse a verdade quando afirmou a Abimeleque que Sara é ao mesmo tempo sua mulher e sua irmã? Se sim, estamos diante de outro incesto. Vamos, que limpeza, a Bíblia!... Não é tudo: se, nesse negócio, Abimeleque dá a impressão de ser um bom homem, Abraão, qualquer que seja o ponto de vista em que nos possamos colocar, é um cavalheiro muito vil. Irmão de Sara, nem por isso deixa de ser mentiroso, no seu interesse de proxeneta; antes de tudo, a sua irmã-esposa é uma reles marmita (fr. “marmite”, palavra de gíria: a mulher de quem vive um rufião; de “faire bouillir la marmite”, fazer ferver a marmita, isto é, sustentar a casa; o rufião, aqui, é Abraão). Mentia real e verdadeiramente quando ocultava a sua qualidade de marido; a explicação que dá, quando se descobre o pote-das-rosas (fr. “le pot-aux-roses est découvert”, locução: o segredo é descoberto; o “pot aux roses” seria o pote em que se guardava a essência de rosa), oferece-nos um Abraão casuísta à moda jesuítica; a sua restrição mental não poderia justificá-lo aos olhos das pessoas honestas. Por outro lado, esse patriarca bem-amado, esse querido costas-verdes (fr. “dos-vert”, palavra de gíria: o rufião; chamava-se ao rufião “maquereau”, cavala, e a cavala tem o dorso verde) que Jeová protege e a quem dá o título de profeta, é bem certo que seja irmão de Sara, como o declara de repente? As outras passagens do Gênesis parecem indicar o contrário. No episódio do rei do Egito [161] (Gênesis 12), vimos Abraão usar pela primeira vez desse estratagema que o enriqueceu; mas, quando o Faraó lhe censurou a conduta, não pensou na explicação sutil de agora: é Abimeleque quem a ouve em primeira mão, e tem-se o direito de suspeitar que se trata de uma nova peta imaginada bruscamente, sob o efeito das vivas recriminações do rei de Gerar. Por que não se teria desculpado da mesma maneira quando teve de responder ao Faraó? Há mais. O Espírito Santo, que ditou tudo, contradiz-se de modo terminante. No capítulo 11, deu a conhecer a família de Tera, pai de Abraão. «Tera teve três filhos: Abrão, Naor e Harã. E Harã gerou a Ló; depois, Harã morreu na presença de Tera, seu pai. Abrão e Naor tomaram mulheres; a mulher de Abrão chamava-se Sarai, e a mulher de Naor chamava-se Milca; esta era filha de Harã, e tinha por irmã Iscá.» (v. 27-29) Por conseguinte, Naor casou com a sobrinha. Se Sarai fosse filha de Tera e irmã de Abrão, Naor e Harã, o autor não deixaria de dizê-lo, no momento em que especifica os graus de parentesco na família de Tera. Melhor ainda! chama a Sarai «a nora de Tera»; lá está com todas as letras no versículo 31. «Ora, Sarai era estéril, e não tinha filho. — E Tera tomou consigo seu filho Abrão, e Ló, filho de seu filho Harã, e sua nora Sarai, mulher de Abrão, seu filho; e saíram juntos de Ur, cidade da Caldeia, para irem à terra de Canaã. E vieram até Harã, e ali moraram. — Ali Tera morreu, com a idade de duzentos e cinco anos.» (v. 30-32) Portanto: Abraão, pouco se importando de parecer marido incestuoso aos olhos de Abimeleque, mentiu de novo, a pretexto de fornecer desculpas de uma primeira mentira; ou então, se ele resolveu dizer ao rei de Gerar a verdade que se tinha descuidado de dar a conhecer ao Faraó, é o Espírito Santo que, ao ditar o Gênesis, chapinha no galimatias e nas contradições. Outra impressão que se desprende, logo que se examina de perto, é que tudo isto é inventado a bel-prazer e que o autor sagrado é um imbecil desastrado. O Espírito Santo, em veia de mistificação e comprazendo-se nas fábulas imorais e imundas, dita tudo o que lhe passa pela cabeça, e [162] o escritor pateta registra imperturbavelmente qualquer coisa, torpezas e contos grotescos, sem reparar nas contradições e nas impossibilidades, embora evidentes. Como não percebeu ele que o pombo zombava dele, quando lhe fez inscrever a terra de Gerar como um reino? Segundo o relato dos geógrafos da antiguidade, Gerar é uma pequena planície arenosa, sem a menor vegetação, um horrível deserto onde nenhum ser humano jamais pôde fixar domicílio. [163] Abimeleque era, pois, rei de um deserto!... E quanto tempo guardou ele Sara, sem que Mme Abimeleque (abreviatura de “Madame”; Taxil dá às mulheres da Bíblia o título burguês do seu tempo, como dá aos homens “le sieur”, no texto “sr.”) tivesse a tentação de arrancar os olhos a esta? Eis mais um ponto em que ressalta toda a impudência da patranha do Espírito Santo. Este episódio é posterior ao incêndio de Sodoma e anterior à época em que Jeová cumpriu a sua promessa de Manre. Com efeito, o capítulo 21 começa assim: «E o Eterno visitou Sara, e fez-lhe assim como o tinha prometido. — Sara, pois, [164] concebeu, e deu à luz um filho a Abraão na sua velhice, na estação que Deus lhe tinha dito.» (v. 1-2)
61. Nascimento de Isaque. Como esse parto ocorreu assim um ano depois da viagem de Shadai e dos dois anjos a Manre, a estada de Abraão na terra de Gerar situa-se forçosamente nos três meses que se seguiram ao dilúvio de fogo. Ora, mesmo supondo que essa estada em Gerar tenha durado exatamente esses três meses, como puderam a esposa, as servas e as súditas de S. M. Abimeleque, no espaço de um trimestre, aperceber-se de que eram estéreis, isto é, de que tinham a vulva fechada, para empregar a delicada expressão do autor sagrado? É preciso, em geral, um número bastante grande de anos para que uma mulher possa constatar que se tornou inapta para ter filhos. Mas, caso se afaste a possibilidade de uma constatação de esterilidade na ordem natural das coisas, é preciso, com a ciência dos teólogos, os quais nenhum milagre, mesmo burlesco, jamais pasma, chegar à conclusão de que Jeová, nessa ocasião, tinha tido a farsa atrozmente folgazã, e de que, quando o autor sagrado fala da desolação dos maridos de Gerar ao encontrarem as suas mulheres fechadas, quer dizer simplesmente que as infelizes estavam costuradas. Nesse caso, imagina-se facilmente a cara do rei do deserto e a dos seus súditos. Pois claro! desta vez, devem tê-la achado ruim, e compreende-se que Abimeleque, para ver o fim desse flagelo, tenha dado a Abraão todo o santo farnel que ele podia desejar, dizendo ao profeta e à sua esposa-irmã: Safai-vos depressa daqui! Depois do milagre das mulheres costuradas, o inesgotável Gênesis serve-nos, pois, o milagre do parto de Sara, mulher de noventa anos, que já não tinha menstruação havia muito tempo. É como em casa de Nicolet, cada vez mais forte (fr. “comme chez Nicolet, de plus en plus fort”, dito: cada vez mais espantoso; era o lema do teatro de feira de Nicolet, em Paris, no século XVIII); com o faceto pombo, ninguém se entedia! Agora, sobrevém outro negócio: Abraão, tendo um filho legítimo, vai atirar porta afora Ismael, o menino que teve da sua concubina. «E Abraão deu o nome de Isaque ao filho que Sara lhe tinha dado à luz. — E circuncidou Isaque com a idade de oito dias, assim como Deus lho tinha ordenado. — E Abraão tinha [165] cem anos quando lhe nasceu Isaque. — E Sara disse: Deus me deu motivo de riso; todos os que o souberem rirão comigo. — Disse também: Quem teria dito a Abraão que Sara amamentaria filhos? porque lhe dei à luz um filho na sua velhice. — E o menino cresceu e foi desmamado. E Abraão fez um grande banquete no dia em que Isaque foi desmamado. — Ora, Sara percebeu que o filho da egípcia Agar zombava, esse filho que Agar tinha dado à luz a Abraão. — E disse a Abraão: Expulsa esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não deve herdar de ti com o meu filho, com Isaque. — Mas Abraão ficou contrariado com isso, por causa de seu filho. — Então Deus lhe apareceu e lhe disse: Não tenhas desgosto algum por causa deste menino, nem a respeito da tua serva. Pelo contrário, obedece a Sara em tudo o que ela te disser; porque em Isaque será chamada a tua posteridade pelo teu nome. — Todavia, porque o filho da tua serva é da tua semente, fá-lo-ei vir a ser, também ele, uma grande nação. — Então Abraão levantou-se pela manhã, muito cedo, e, tendo tomado pão e uma garrafa de água, pô-los sobre o ombro de Agar, entregando-lhe o seu filho; e assim a despediu. E Agar se foi, errante, pelo deserto de Berseba. — E a água da garrafa esgotou-se ao cabo de algum tempo. Então Agar deitou o seu filho à sombra de um arbusto. — E, tendo-se afastado dele à distância de um tiro de arco, disse: Que eu não veja morrer este menino! E, como estava sentada defronte, levantou a voz, chorando. — E Deus ouviu a voz do moço; depois, um anjo de Deus chamou Agar do alto do céu e lhe disse: Que tens, Agar? Não temas nada, porque Deus ouviu a voz do moço. — Levanta-te, vai ter com o teu filho, faze-o levantar, e toma-o pela mão; porque o farei vir a ser uma grande nação. — Então Deus abriu os olhos de Agar, e ela avistou um poço; foi lá, encheu de água a sua garrafa, e deu de beber ao moço. — E Deus foi com Ismael; ele cresceu no deserto; ali viveu e tornou-se um hábil atirador de arco. — Fixou-se no deserto de Parã; e sua mãe lhe deu uma mulher da terra do Egito.» (Gênesis 21:3-21) Essa brusca despedida, dada por Abraão ao seu primogênito e à pobre Agar, com um pedaço de pão e uma garrafa de água, é bem desumana da parte de um personagem tão [166] poderoso e tão rico, que tinha sido vencedor de cinco reis com trezentos e dezoito homens da elite dos seus criados e a quem a sua mulher tinha rendido tanto dinheiro graças ao convívio dela com o rei do Egito e com o rei de Gerar. É difícil, depois disso, dizer que a Sagrada Escritura ensina a caridade! Segue-se um episódio que não tem grande interesse. Abimeleque, acompanhado de Ficol, general em chefe do seu exército, vem fazer uma visita a Abraão e pede-lhe que lhe jure, por Deus, [167] que nunca mais lhe dirá mentira alguma; o rei de Gerar pede também ao patriarca que contraia aliança com ele, e essa aliança é firmada a propósito de um poço que os servidores de Abimeleque disputavam aos criados de Abraão. O patriarca, para provar que foi mesmo ele quem cavou o poço em litígio, põe à parte sete ovelhas do seu redil, num presente de carneiros e de bois a Abimeleque. Este aceita o rebanho, mas fica intrigado ao ver [168] essas sete ovelhas cuidadosamente apartadas do resto do gado. Abraão, interrogado, responde: «Pus à parte estas sete cordeiras, e tu as tomarás da minha mão; elas te serão por testemunho de que eu verdadeiramente cavei este poço.» (v. 30) Abimeleque e o general Ficol declaram-se convencidos e voltam para casa. Abraão planta um carvalhal em volta do poço; depois disso, o Gênesis nos informa que o patriarca de boné-de-ponte (fr. “casquette-à-pont”: o alto boné de seda preta dos rufiões parisienses da época, cuja altura se comparava às pontes, os conveses sobrepostos, de um navio; Taxil volta a chamar rufião a Abraão) habitou muito tempo na terra dos filisteus. Contudo, Abraão, que era tão feliz por ter um filho da sua querida e velha Sara, estava longe de esperar a má peça que papai Bom Deus lhe reservava. «Tu te babas por ele (fr. “tu le gobes”, locução de gíria, literalmente “tu o engoles de uma vez”), pelo teu pirralho, ó profeta do meu coração? Ora bem, agora tu vais matá-lo, tu mesmo, nem mais nem menos, para me seres agradável!» Tal é a surpresa que Jeová decretara fazer ao seu patriarca bem-amado. É verdade que era só fingimento. O Eterno, que gostava de rir, queria simplesmente regalar-se com o espetáculo do aparvalhamento de Alphonse Abraão. Aqui, mais uma vez, é preciso recorrer à citação textual; é bonito demais! «Aconteceu, depois destas coisas, que Deus tentou a Abraão. Disse-lhe: Abraão! Abraão! E este respondeu: Eis-me aqui. — Deus disse-lhe mais: Toma agora o teu filho único, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, para me ofereceres esse filho em holocausto, sobre uma montanha que eu te mostrarei. — Abraão, pois, tendo-se levantado de madrugada, cilhou o seu jumento e levou consigo dois dos seus servos, assim como o seu filho Isaque. Depois, tendo cortado a lenha necessária para o sacrifício, pôs-se a caminho, na direção do lugar que Deus lhe dissera.
62. Deus ordena a Abraão que lhe imole o seu filho. — Ao terceiro dia, avistou a montanha, ao longe. — Então, disse aos dois servos: Esperai aqui, com o jumento; iremos, o menino e eu, até lá, e adoraremos o Eterno; após o que, voltaremos. — E Abraão tomou a lenha para a fogueira do sacrifício; pô-la sobre as costas de Isaque, seu filho; quanto a ele, muniu-se do fogo para acender a fogueira, e levava também na mão um grande cutelo. Assim se foram ambos juntos. — Então, Isaque, dirigindo-se a Abraão, disse-lhe: Meu pai! E Abraão respondeu: Que queres, meu filho? E Isaque disse: Eis aqui o fogo e a lenha; mas onde está a rês [169] para o holocausto? — E Abraão respondeu-lhe: Meu filho, Deus mesmo se proverá da rês para o holocausto. E continuaram a caminhar ambos juntos. — Quando chegaram ao lugar que Deus lhe dissera, Abraão edificou ali um altar, arrumou a lenha por cima; depois, amarrou a Isaque, seu filho, e pô-lo sobre a lenha que tinha disposto sobre o altar. — Em seguida, Abraão, avançando a mão, tomou o cutelo para degolar o seu filho. — Mas então um anjo do Eterno gritou-lhe do céu: Abraão! Abraão! E ele respondeu: Eis-me aqui. — O anjo disse-lhe: Não estendas a tua mão sobre o menino, e não lhe faças mal algum; porque agora conheci que temes a Deus, já que não poupaste o teu filho único, por mim.
63. Sacrifício de Isaque. — E Abraão, levantando os olhos, avistou um carneiro que se tinha prendido pelos chifres numa espessa moita. Então, foi tomar esse carneiro, e imolou-o em holocausto, em lugar do seu filho. — E Abraão chamou àquele lugar O-Eterno-ali-proverá. — E o anjo do Eterno gritou dos céus a Abraão pela segunda vez. — Jurei por mim mesmo, disse o Senhor, porque fizeste isto, não poupando o teu filho único. — Pelo que te abençoarei de novo; e multiplicarei mui abundantemente a tua semente, como as estrelas dos céus e como a areia das praias que estão à beira do mar; e a tua posteridade possuirá as portas dos teus inimigos; — e todas as nações da terra serão benditas na tua semente, porque obedeceste à minha voz. — Assim Abraão tornou aos dois servos; e tornaram todos juntos, indo-se então para Berseba.» (Gênesis 22:1-19) Os críticos fazem notar que Abraão, que tinha suplicado a Deus que poupasse os habitantes de Sodoma e de Gomorra, os quais eram para ele estrangeiros, não dirigiu a menor oração em favor do seu próprio filho. Acusam também o patriarca de uma nova mentira, quando diz aos dois criados: Não faremos senão ir, meu filho e eu, e voltaremos. Já que ia à montanha expressamente para degolar e queimar Isaque, não podia ter a intenção de voltar com ele. Essa mentira era obra de um bárbaro, se as outras tinham sido as mentiras de um cúpido proxeneta que prostituía a sua mulher por dinheiro. [170] Além disso, não sem surpresa se vê Abraão, ancião de cem anos, cortar ele mesmo a lenha de uma fogueira antes de se pôr a caminho: é preciso, para queimar um corpo, pelo menos uma grande carroçada de lenha seca; um pouco de lenha verde não poderia bastar. Provavelmente, toda essa lenha foi levada primeiro pelo jumento e pelos dois servidores. Em todo caso, se não havia ao todo mais que a carga de um jumento, é de espantar que Isaque, que ainda não tinha treze anos, a pudesse carregar por sua vez. [171] Diz-se também que o fogareiro, de que Abraão se muniu para acender o fogo, mal podia conter mais que alguns carvões, e que estes devem ter-se apagado antes de se chegar ao lugar do sacrifício, já que, no momento em que o patriarca e o seu filho se separaram dos dois criados, o monte Moriá ainda só se avistava ao longe. Por fim, observou-se que esse famoso monte Moriá, montanha sobre a qual foi edificado mais tarde o templo de Jerusalém, [172] não passa de um rochedo pelado, de uma aridez lendária; nunca o menor arbusto ali cresceu, e todo o campo dos arredores de Jerusalém sempre esteve cheio de pedregulhos, de sorte que em todos os tempos foi preciso mandar vir para ali a lenha de muito longe. Não obstante, essas diversas objeções não impedem que Deus tenha provado a fé de Abraão, e que esse patriarca tenha merecido a bênção de Deus pela sua obediência. Veremos, mais adiante, Jefté imolar a sua filha, sem que anjo algum venha interromper o sacrifício; é verdade que Jefté não vivia de proxenetismo e não era um santo. O capítulo 23 nos informa que Sara morreu com a idade de cento e vinte e sete anos, em Hebrom, na terra de Canaã. Abraão, tendo, por conseguinte, de enterrá-la, comprou uma certa caverna chamada de Macpela, que pertencia a um sr. Efrom; este lhe cobrou muito caro por ela. «Efrom disse a Abraão: A terra que pedes vale quatrocentos siclos de prata; é o preço entre mim e ti; sepulta, pois, a tua morta. — E Abraão, tendo ouvido isso, pesou a prata que Efrom lhe pedia e pagou-lhe quatrocentos siclos de moeda corrente pública.» (Gênesis 23:15-16) Calculou-se que o siclo de prata equivale a dez francos da nossa moeda de hoje. Portanto, Abraão teria pago 4.000 francos pelo terreno de uma caverna numa terra absolutamente estéril que faz parte do deserto que cerca o mar Morto; é mais caro que uma concessão perpétua no cemitério de Montparnasse, em pleno Paris! Outro motivo de espanto é que daí resulta que Abraão, embora grande senhor, não possuía uma polegada de terra sua; como é que, com todas as suas riquezas, nunca tinha adquirido o menor terreno em parte alguma?... Por fim, os críticos fizeram notar que é estranho ver o Gênesis falar de moeda pública corrente no tempo de Abraão: não só não havia então moeda em Canaã; mas nunca os judeus bateram moeda com o seu cunho! Será preciso, pois, entender por isso que os quatrocentos siclos em questão significam simplesmente o valor dessa soma segundo a apreciação do autor do Gênesis? Essa hipótese não resolveria melhor a dificuldade, visto que também não [173] se conhecia moeda no tempo em que Moisés, pretenso autor do Pentateuco, supostamente escrevia. Vemos, no capítulo 25, que Abraão se consolou da morte de Sara tomando outra mulher, chamada Quetura; o patriarca tinha, pois, cento e quarenta anos, pelo menos. Ora, vimos que a própria Sara o tinha declarado, quando ele estava no seu centésimo ano, demasiadamente velho para gerar, e que foi preciso um milagre do céu para torná-lo pai de um filho legítimo. Pois bem, com Quetura, sem intervenção divina alguma, Abraão teve mais seis filhos: Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Isbaque e Suá. Por fim, o patriarca querido de Jeová-Shadai quebrou o cachimbo, numa bela noite do seu centésimo septuagésimo quinto ano (Gênesis 25:7), legando tudo o que possuía a Isaque, salvo alguns presentes aos seus outros filhos. E foi enterrado junto de Sara, na caverna de Macpela. CAPÍTULO 6
Agora vamos ver cumprirem-se as promessas de papai Bom Deus, relativas à grande multiplicação da descendência de Abraão. Entre a morte de Sara e o seu casamento com Quetura, o patriarca tinha-se ocupado de estabelecer o seu filho predileto; esse episódio é o assunto do capítulo 24 do Gênesis. Recorde-se que Naor, irmão de Abraão, tinha desposado a sobrinha Milca. Ora, esse sire Naor, o qual, por seu lado, não gostava nada de passar a vida correndo os desertos, tinha-se fixado numa terra fértil, na Mesopotâmia. Ali, teve de Milca oito filhos, chamados Uz, Buz, Quemuel, Quésede, Hazo, Pildas, Jidlafe e Betuel; e, como esses oito fedelhos não lhe bastavam, tomou além disso uma concubina, chamada Reumá, da qual teve mais quatro filhos, a quem deu os nomes de Teba, Gaã, Taás e Maaca. (Gênesis 22:20-24) Por sua vez, esses filhos multiplicaram-se, notadamente Betuel, que teve, entre outros, um menino, Labão, e uma menina, Rebeca. Esta última, pela graça de Jeová, havia de tornar-se Mme Isaque. [174] Então, o velho Abraão mandou chamar para junto de si, numa bela manhã, o mais antigo dos seus servidores, que era ao mesmo tempo o intendente encarregado da administração das suas riquezas. No Gênesis, esse intendente só é nomeado no capítulo 15; chamava-se Dammesec Eliézer. «Abraão disse-lhe: Peço-te, segura um momento na tua mão o meu sexo, e assim jura-me que não tomarás nenhuma das filhas dos cananeus para a dar por esposa ao meu filho, mas que irás à terra onde [175] residem os meus parentes e que ali escolherás a esposa de Isaque.» (Gênesis 24:2-4) Os comentadores céticos divertiram-se com essa maneira de fazer prestar juramento. São Jerônimo e os tradutores da Vulgata, achando-a forte demais, modificaram os termos dessa passagem do Gênesis; segundo eles, Abraão teria dito a Eliézer: «Põe a tua mão debaixo da minha coxa (a Bíblia de Almeida traz a mesma leitura: “Põe agora a tua mão debaixo da minha coxa”; também o texto hebraico diz “coxa”, palavra pela qual a tradição rabínica entende o membro circuncidado), e assim jura-me, etc.» Todavia, o texto original hebraico traz: [176] «Toma na tua mão as minhas partes genitais.» Os sábios explicam isso dizendo que as partes viris eram tidas em grande veneração, não só por causa da circuncisão que as tinha consagrado a Deus, mas porque são a fonte da propagação do gênero humano e o penhor da bênção do Senhor. Por mais bizarra que possa parecer essa maneira de se comprometer por juramento, é preciso inclinar-se com respeito; pois nunca se deve perder de vista que tudo isto é ditado pelo Espírito Santo. Os sábios dizem, pois, que, cada vez que se encontra a palavra coxa na Bíblia arranjada por São Jerônimo, é preciso ler outra coisa; assim, quando se lê mais adiante que um chefe de nação saiu da coxa de Judá, é evidente que há ali uma alteração do texto sagrado, visto que as crianças não se fazem pela coxa, e que, aliás, como se pôde ver, o divino pombo não se acanha de falar cruamente. «Eliézer jurou, pois, segurando na mão as partes genitais de Abraão, seu amo» (v. 9); depois disso se pôs a caminho com dez camelos, e dirigiu-se à Mesopotâmia. Ah! havia caminho a fazer! Quando Eliézer chegou a alguma distância da cidade onde contava encontrar parentes do seu amo, estava extenuado e morria de sede. Felizmente, encontrou uma linda moreninha que passeava por aquelas paragens, para ir buscar água num poço situado fora das portas. Essa amável pessoa, muito caridosa, veio em socorro de Eliézer e abeberou-o, assim como aos seus camelos. Mas admirai a Providência: a moreninha não era outra senão Rebeca, filha de Betuel, neta de Abraão (na verdade neta de Naor, irmão de Abraão: Gênesis 24:15).
64. Eliézer e Rebeca. Eliézer, depois de lhe dar de presente um anel e duas pulseiras, informa-se do seu nome. Quadro (fr. “Tableau !”, exclamação: imaginai a cena; no teatro, um “quadro” é a cena em que os atores ficam imóveis)! Depressa, pede para ser levado à família. Rebeca leva-o consigo, apresenta-o ao pai e ao irmão. O intendente explica a estes que fez essa viagem com o fim de descobrir na Mesopotâmia uma esposa para Isaque. Betuel e Labão exclamam: A mão de Deus é visível em tudo isto; parta, pois, Rebeca quanto antes contigo, e seja a mulher do filho do teu amo. Eliézer, todo alegre com o êxito tão pronto da sua missão, cumula Rebeca de anéis de prata e de ouro e de vestes suntuosas; «deu também presentes primorosos ao seu irmão e à sua mãe».
65. Eliézer em casa de Betuel e Labão. A mãe da moça teria gostado muito que a partida [177] fosse adiada por dez dias. Mas Rebeca, interrogada, declarou que tinha pressa de estar junto daquele noivo desconhecido. É difícil crer, no entanto, que Eliézer lhe tivesse mostrado a fotografia de Isaque; mas nem por isso ela deixara de receber o golpe de raio (fr. “le coup de foudre”, locução: o amor à primeira vista). Por seu lado, o jovem Isaque, embora não soubesse que mulher Eliézer lhe traria, nem mesmo se lhe traria alguma, estava apaixonado, loucamente apaixonado; passava os dias e as noites na estrada real. Imagina-se, pois, facilmente a alegria que sentiu quando, numa bela manhã, constatou que Eliézer não voltava de mãos vazias. O intendente fez um relato fiel da sua viagem; os dois jovens lançaram-se nos braços um do outro.
66. Eliézer traz Rebeca ao jovem Isaque. «Então, Isaque fez entrar logo Rebeca na tenda que tinha sido a de Sara, sua mãe; e tomou Rebeca por mulher; e amou-a tanto, que assim foi consolado da morte de sua mãe.» (Gênesis 24:67) Nos primeiros tempos, por mais que Isaque executasse prodígios de boa vontade, não conseguia tornar-se papai tão depressa quanto teria querido. Não é preciso mais para que o Gênesis acuse Rebeca de esterilidade; a culpa é sempre das mulheres, por azul! «E Isaque, vendo a sua mulher infecunda, orou instantemente ao Eterno por ela; e o Eterno foi abrandado pelas suas orações, e Rebeca concebeu.» (Gênesis 25:21) Cá entre nós, Jeová fazia melindres; pois, sim ou não, tinha ele prometido a Abraão que este teria uma descendência de nunca acabar? Sim, não é verdade? Ora, a sua própria Providência tinha escolhido Rebeca para ser a esposa do filho de Abraão; papai Bom Deus não podia, pois, sem faltar à sua palavra, ter dado a Isaque uma mulher improdutiva. Está claro. Se tinha fechado de novo essa vulva, era, pois, pura e simplesmente para se regalar com o prazer de reabri-la, depois de ter feito posar um pouco (fr. “faire poser”, locução familiar: fazer esperar) o herdeiro do seu bem-amado Alphonse Abraão. Mas aqui a história se complica. «Ora, tendo Rebeca concebido, duas crianças estavam no seu ventre, e ali se batiam. E Rebeca disse: Se assim é, por que concebi eu? E foi consultar o Eterno.» (Gênesis 25:22) Não se vê bem como dois fetos podem bater-se numa matriz, sobretudo no começo de uma gravidez. Uma mulher pode sentir dores; mas daí a sentir [178] que há dentro dela sessões de boxe e de savate (fr. “chausson”, literalmente “pantufa”: antigo nome da savate, o boxe francês, que se pratica também com os pés) entre dois gêmeos, vai uma grande distância! tanto mais que, até o termo, nunca se sabe se virá uma só criança ou se haverá dois gêmeos; o próprio médico parteiro não saberia profetizar a esse respeito; e mesmo no parto, no momento em que a criança se apresenta, nenhum facultativo pode afirmar se a parturição será simples ou dupla. O autor sagrado descuida-se de dizer a que lugar Rebeca [179] se dirigiu para consultar papai Bom Deus. O tabernáculo ainda não tinha sido inventado. Jeová aparecia quando queria; não tinha fixado domicílio algum na terra. Não obstante, foi consultado, e respondeu: «Duas nações há no teu ventre, disse o Eterno a Rebeca, e dois povos sairão da tua vulva (fr. “de ta vulve”: a Bíblia de Ostervald traz “de tes entrailles”, “das tuas entranhas”, e Voltaire “de ta matrice”, “da tua madre”; a vulva é de Taxil, e prolonga as “vulves” fechadas de Gênesis 20:18, palavra de Voltaire tirada da Vulgata); dividir-se-ão; um dos dois será mais forte que o outro, e o maior será submetido ao menor.» (Gênesis 25:23) [180] Enfim, chegou o tempo do parto; Rebeca teve as dores, em castigo da gulodice de Eva, «e eis que se acharam dois gêmeos na sua matriz. O primeiro que saiu era ruivo e eriçado de pelos, como um manto; o seu nome é Esaú. E logo depois saiu o seu irmão, segurando com a mão o calcanhar de Esaú; e chamaram-no Jacó. E Isaque tinha sessenta anos, quando eles nasceram.» (Gênesis 25:24-26) É raro que uma criança nasça toda peluda, tão raro que Esaú é o único exemplo disso. Não é menos raro que uma criança, ao nascer, segure outra pelo pé. Mas, do fato de essas coisas não acontecerem mais hoje, não se deveria concluir que não devam ter acontecido então. Essas fantasias de Jeová não são nada ao lado de outros milagres que teremos de relatar. Esaú foi declarado o primogênito. Sabe-se que a questão da primogenitura é resolvida, em diversas jurisprudências, em favor daquele dos dois gêmeos que veio ao mundo em segundo lugar, e, para decidir assim, alega-se que, concebido e formado primeiro, ele deve ter ocupado o fundo da cavidade uterina. Em razão disso, talvez se pense que Jacó era mais naturalmente o primogênito do que Esaú. Mas essas crianças se tinham batido tanto no ventre da mãe, que decerto tinham mudado muitíssimas vezes de lugar! Não se pensou, pois, em tirar à palha curta a quem cabia o título de primogênito, e julgou-se mais simples dá-lo àquele que tinha visto a luz primeiro. Aliás, Jacó não ia tardar a tomar o lugar de Esaú.
67. Infância de Esaú e de Jacó. «Quando se tornaram adultos, Esaú foi um hábil caçador e homem do campo; mas Jacó era um homem simples, que permanecia de assento nas tendas. — E Isaque amava Esaú, porque a caça era a sua carne preferida; em contrapartida, Rebeca amava Jacó. — Ora, um dia em que Jacó fazia cozer um guisado de lentilhas, Esaú chegou dos campos, estando muito cansado. — E disse a Jacó: Dá-me, peço-te, de comer desse guisado vermelho, porque estou exausto. Por isso o chamaram Edom. — Mas Jacó respondeu-lhe: Vende-me hoje o teu direito de primogenitura. — Morro de fome, replicou Esaú; de que me serviria o meu direito de primogenitura? — E Jacó insistiu, dizendo: Jura-me, pois, que [181] renuncias a ele. E Esaú jurou-lho, e assim vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó. — Então, Jacó deu ao seu irmão pão e o guisado de lentilhas. E Esaú comeu e bebeu, depois levantou-se e foi-se, tendo assim desprezado o seu direito de primogenitura.» (Gênesis 25:27-34)
68. Esaú cede a Jacó o seu direito de primogenitura. Não nos deteremos a discutir a bizarrice dessa chicana, numa época em que ainda não havia direito de primogenitura, visto que não existia nenhuma lei positiva; só muito tempo depois, no Deuteronômio, se vê instituir esse direito, declarando o legislador que o primogênito terá uma porção dupla. Mas é sobretudo interessante fazer notar, com os filósofos, a que ponto a conduta de Jacó foi indigna: segundo o próprio texto sagrado, Esaú perecia de fome, e Jacó, abusando do estado em que se achava seu irmão, não tem desculpa; a Bíblia não tem uma palavra para justificá-lo. Aliás, o nome de Jacó significa «aquele que suplanta». Parece, com efeito, merecer bem esse nome, visto que sempre suplantou Esaú. Não se contenta em lhe vender tão caro as suas lentilhas; como um bandoleiro que faz a sua vítima assinar um pedido de resgate, arranca a seu irmão o juramento de renúncia aos seus direitos; arruína-o por uma escudela de purê sem valor algum; e não é o único dano que lhe fará. Pois bem, esse negócio em que o esfaimado é cinicamente explorado e ludibriado, essa transação caduca por si mesma, essa renúncia extorquida que qualquer tribunal teria declarado nula, o senhor Jeová, pretenso deus de justiça, protetor dos fracos, vingador dos oprimidos, ratificou tudo isso, aceitou Jacó como legítimo proprietário desses famosos direitos de primogenitura, e a espoliação de Esaú foi reconhecida por Deus como regular e válida para sempre. Algum tempo depois, Isaque mostrou-se o digno filho de Abraão. Como sobreviesse uma grande fome, Isaque dirigiu-se a Gerar, onde ainda reinava Abimeleque, a quem o Gênesis chama de repente rei dos filisteus. Deus poderia ter dado pão a Isaque, para ele e sua família; mas não, preferiu favorecê-lo com uma visão, na qual lhe fez um discurso exatamente semelhante àqueles com que brindava Abraão: Multiplicarei a tua semente como as estrelas do céu, darei à tua posteridade todas as terras, e todas as nações [182] da terra serão benditas na tua semente (toada conhecida). Isaque habitou, pois, em Gerar, e quando a gente do lugar o interrogava sobre Rebeca, respondia: É minha irmã (Gênesis 26:1-7). «E, um dia, Abimeleque, rei dos filisteus, olhava pela sua janela, e, para sua grande surpresa, viu que Isaque acariciava Rebeca. — Então fez vir Isaque à sua presença, e disse-lhe: É certo, eu o vi, que esta mulher é tua esposa; então, por que disseste a todos que ela é tua irmã? E Isaque [183] respondeu: Tive medo de que me matassem por causa da sua formosura. — E Abimeleque exclamou: Que é isto que nos fizeste? Pouco faltou para que alguém do meu povo se deitasse com a tua mulher, e assim terias trazido sobre nós um grande pecado! — Abimeleque fez, pois, uma ordenança, decretada para todo o povo e que dizia isto: Qualquer que tocar em Isaque ou em sua mulher será punido com a morte.» (Gênesis 26:8-11) Abimeleque, como se vê, lembrava-se do milagre das mulheres costuradas, embora tivessem [184] já decorrido mais de oitenta anos desde a aventura de Sara. Além disso, o que é bastante singular é que a Bíblia nos mostra sempre os filisteus como adoradores de outro deus que não o de Abraão e de Isaque, e no entanto eis que o seu rei, idólatra, reconhece constantemente a divindade de Jeová. Que imbróglio! «E, no país de Gerar, Isaque semeou na terra, e colheu naquele ano o cêntuplo do que havia semeado.» (Gênesis 26:12) Já é forte que Isaque tenha podido semear num país onde não possuía uma polegada de terreno; mas, não perdendo de vista que o país de Gerar é um deserto onde só há areia, fica-se ainda mais maravilhado; e dessa areia sai uma colheita de cem por um! As mais férteis terras do mundo raramente produziram vinte e cinco por um. Isaque tinha sorte!... O Gênesis nos informa que ele enriqueceu bem depressa: com colheitas como essas, compreende-se. Os filisteus tiveram-lhe inveja e entupiram com pedregulhos todos os poços que Abraão tinha cavado outrora. Daí, contendas; Abimeleque pediu-lhe que fosse para mais longe. Isaque partiu, estabeleceu-se num vale e desentupiu os poços de seu pai. Novas disputas; nova aparição de Jeová, para animar Isaque; novo tratado de aliança com Abimeleque; grande festim. O leitor compreenderá que lhe poupemos todos esses pormenores enfadonhos (Gênesis 26:13-33). Quanto a Esaú, «quando teve quarenta anos, desposou Judite, filha de Beeri, heteu, e Basemate, filha de Elom, outro heteu, as quais, ambas, ofenderam Isaque e Rebeca» (Gênesis 26:34-35). O autor sagrado não nos diz em que consistiu essa ofensa. Não obstante, Esaú continuou a ser o filho preferido de seu pai. «Tendo Isaque envelhecido, os seus olhos se escureceram tanto que já não podia ver. Chamou a Esaú, seu filho mais velho, e disse-lhe: Meu filho. Esaú respondeu: Eis-me aqui. — E Isaque lhe disse: Tu o vês, estou agora muito idoso, e ignoro o dia em que morrerei. — Toma, pois, agora a tua aljava e o teu arco; vai ao campo e traze-me caça. — Faze-me dela um guisado, como sabes que eu gosto deles; traze-mo, para que eu coma dele e para que a minha alma te abençoe antes que [185] eu morra. — Ora, Rebeca escutava, enquanto Isaque falava a Esaú, seu filho. Este partiu, pois, para o campo, para caçar e trazer caça. — Então Rebeca disse a Jacó, seu filho: Ouvi teu pai, que falava a Esaú, teu irmão, e lhe dizia: Traze-me da tua caça e faze-me dela um guisado, para que eu coma dele, e te abençoarei diante do Eterno antes de morrer. — Agora, pois, meu filho, obedece à minha palavra, e faze o que te vou mandar. — Vai ao nosso rebanho e toma dois dos melhores cabritos; da sua carne aprontarei um guisado para teu pai, como sei que ele gosta deles. — Levarás estas iguarias a teu pai, para que as coma, e assim é a ti que ele abençoará antes da sua morte. — Jacó respondeu a Rebeca, sua mãe: Tu sabes que Esaú, meu irmão, é muito peludo, e eu não tenho pelo. — Se meu pai vier a apalpar-me, compreenderá que o quis enganar, e trarei sobre mim a sua maldição, em lugar da sua bênção. — E sua mãe lhe disse: Seja sobre mim essa maldição que temes! Obedece somente à minha palavra, e vai buscar o que te disse. — Foi-se, pois, e trouxe os dois cabritos a sua mãe, e Rebeca preparou um daqueles guisados de que Isaque era tão guloso. — Depois, tomou as mais ricas vestes de Esaú, seu filho mais velho, que estavam em casa, e com elas vestiu Jacó, seu filho mais novo. — E, com as peles dos cabritos, cobriu-lhe as mãos e o pescoço, que eram sem pelo. — Em seguida, entregou a Jacó o guisado, assim como pão que tinha cozido. — Jacó veio, pois, a Isaque e disse-lhe: Meu pai. Isaque respondeu: Aqui estou; quem és tu, meu filho? — E Jacó disse a seu pai: Eu sou Esaú, teu filho mais velho; fiz o que me mandaste. Levanta-te, peço-te; assenta-te e come da minha caça, para que a tua alma me abençoe. — Mas Isaque disse: Que é isto? Como pudeste achar caça tão depressa? Jacó respondeu: O Eterno, teu deus, quis que eu a achasse logo. — Isaque disse ainda: Meu filho, chega-te, pois, para que eu te apalpe, e saberei assim se és o meu próprio filho Esaú, ou se não o és. — Jacó, pois, chegou-se a seu pai, que o apalpou; e Isaque disse: Esta voz é a voz de Jacó, mas estas mãos são as mãos de Esaú. — Assim, não o reconheceu, porque as suas mãos, sendo peludas, lhe pareceram [186] semelhantes às de seu filho mais velho; e abençoou-o. — E disse-lhe de novo: És tu mesmo o meu filho Esaú? Jacó respondeu: Eu o sou. — Dá-me, pois, de comer da tua caça, continuou Isaque, para que a minha alma te abençoe. Jacó serviu-lhe as iguarias, e ele comeu; trouxe-lhe também vinho, e ele bebeu. — Depois, Isaque lhe disse: Chega-te, peço-te, e beija-me, meu filho. — Jacó chegou-se e beijou-o; e Isaque, tendo sentido o cheiro das suas vestes, abençoou-o, dizendo: Eis [187] em verdade o cheiro de meu filho, como o cheiro de um campo que o Eterno abençoou. — Deus te dê o orvalho do céu e a gordura da terra, e grande abundância de trigo, e o melhor vinho! — Sirvam-te os povos, e prostrem-se diante de ti as nações! Sê senhor de teus irmãos, e estejam curvados diante de ti os filhos de tua mãe! Qualquer que te amaldiçoar seja maldito, e qualquer que te abençoar seja bendito!» (Gênesis 27:1-29)
69. Jacó se faz abençoar por Isaque. [188] Tudo isto merece algumas observações; mas vejamos primeiro o fim dessa edificante história. «Mal tinha Jacó saído, depois de ter recebido a bênção de Isaque, quando Esaú voltou da caça. — Aprontou também ele a sua caça e levou o guisado a seu pai, dizendo-lhe: Levanta-te, meu pai, para que comas da caça de teu filho, e para que a tua alma me abençoe. — E Isaque disse: Quem és tu, pois? Esaú lhe respondeu: Eu sou Esaú, teu filho mais velho. — Então Isaque sentiu uma extraordinária comoção, e disse: Mas quem é aquele que me trouxe caça, e onde está? Comi, antes que tu viesses, de tudo o que ele me apresentou; abençoei-o, e eis que será bendito! — Logo que Esaú ouviu estas palavras, soltou um grito muito grande e muito amargo, e disse a seu pai: Ah! dá-me também a tua bênção, meu pai! — Mas Isaque respondeu: Teu irmão veio aqui fraudulentamente; conseguiu surpreender-me, e levou a tua bênção. — Esaú replicou: Com razão o chamaram Jacó; porque já me suplantou duas vezes: tirou-me o meu direito de primogenitura, e eis que agora me furtou a tua bênção. Vamos, meu pai, não reservaste nenhuma bênção para mim? — E Isaque respondeu a Esaú: Eis o que fiz; constituí-o teu senhor, e sujeitei-lhe todos os seus irmãos; terá trigo em abundância, terá o melhor vinho; depois disso, que posso eu fazer por ti, meu filho? — E Esaú disse ainda: Não tens, pois, mais que uma só bênção, meu pai? Ó meu pai, abençoa-me também a mim. E Esaú chorou, dando grandes gritos.
70. Furor de Esaú. — Isaque respondeu-lhe: Pois bem, eis aqui para ti: a tua habitação será num terreno gordo, regado pelo orvalho dos céus do alto. — E viverás pela tua espada; mas servirás a teu irmão; não obstante, virá o tempo em que sacudirás o jugo do teu pescoço.» (Gênesis 27:30-40) E é tudo; Esaú não teve bênção. Apelo para o próprio Leão XIII, que fez careta e bateu com o punho, ao que dizem, quando soube que eu o tinha mistificado da mais bela maneira e que, como bom farsante, lhe tinha arrancado bênçãos de que eu mofava no meu foro íntimo. Sim, apelo para o Santo Padre em pessoa, e encerro-o neste dilema: ou esta história de Isaque, Rebeca, Esaú e Jacó é uma ridícula peta, e nesse caso Leão XIII [189] faria mal em me guardar rancor, visto que o Espírito Santo, inspirador do Gênesis, mistificando os crédulos devotos, dá o exemplo das patranhas fortes e mostra que em matéria de religião se pode contar tudo aos imbecis; ou então esta história é rigorosamente verdadeira, e nesse caso o Deus dos católicos é, ele próprio, um simples pepininho (fr. “cornichon”: o pepino pequeno que se conserva em vinagre e, por zombaria, um tolo), visto que as suas bênçãos ficaram ligadas às do gagá Isaque (fr. “gaga”, palavra familiar: que voltou à infância; imita o balbucio dos velhos, e dela vem o português “gagá”), que Jacó mistificou nos grandes preços. Num caso como no outro, os livres-pensadores farsantes não têm por que se acanhar; podem, se isso os diverte, regalar-se com a cabeça dos fiéis e dos padres, dos bispos e do papa, dos patriarcas, santos e profetas, e até de papai Bom Deus, que se tornou o mais amolecido da coleção. Com efeito, segundo o que se depreende do texto sagrado, a bênção de Isaque não era uma bênção paterna comum, isto é, o voto que um pai formula pela felicidade de seu filho; era, pelo contrário, um ato solene, formal, que acarretava consequências precisas e certas, algo como um ato ao mesmo tempo religioso e jurídico, com todo o valor de um ato notarial de hoje: embora verbal, essa bênção era como um documento escrito, e o beneficiário era de fato aquele sobre cuja cabeça tinha sido pronunciada, fosse ele quem fosse, visto que não estava sujeita a ser retomada ou anulada. A Sagrada Escritura nos mostra Isaque profundamente comovido, quando percebe que foi enganado; está muito contrariado por se ter deixado lograr por Jacó; mas é-lhe impossível voltar atrás no que está feito; n, i, ni, fini (dito familiar, em geral “n, i, ni, c’est fini”: e não se fala mais nisso; as crianças que soletram “ni” terminam com a rima “fini”, acabado). Jacó furtou e levou a bênção destinada a Esaú; tanto pior para Esaú! Estamos, pois, diante de uma fraude verdadeiramente criminosa; em sã consciência, qualquer júri declararia Jacó culpado de ter cometido o crime de falsidade; seria condenado, assim como sua mãe, visto que Rebeca foi não somente cúmplice, mas instigadora do fato punível, perpetrou-o, preparou toda a fraude e fez tudo para lhe assegurar o êxito. Agora, por criminoso que tenha sido o embuste, visto que tinha por fim e teve por efeito defraudar Esaú de um bem tão considerável como essa bênção tão fecunda em [190] resultados materiais, pergunta-se, por outro lado, como pôde Isaque cair na rede; a palavra «gagá», de que me servi há pouco, não é forte demais. Como! O Gênesis nos diz que o bom velho tinha reconhecido a voz de Jacó; está cheio de hesitações, desconfia, e, apesar disso, deixa-se apanhar, como o último dos idiotas, por um artifício dos mais grosseiros?... Espera caça, gosta de caça, é guloso dela, e a sua gulodice é uma das causas [191] da sua preferência por Esaú; ora, servem-lhe cabrito, e o seu paladar, tão acostumado à caça, confunde o chibo com o faisão ou a lebre. Puxa (fr. “Mazette !”, exclamação; a “mazette” foi primeiro um cavalo ruim, depois um jogador desajeitado)! que cordon-bleu (expressão francesa, literalmente “cordão azul”: cozinheira excelente; era a fita azul da ordem do Espírito Santo, a mais alta da antiga monarquia, e o nome passou por gracejo à cozinheira), madame Rebeca! eis uma cozinheira fora do comum, que teria confeccionado uma bouillabaisse com algas e seixos!... Mas o sentido do gosto não é o único que se desarranjou de repente no velho Isaque; está gagá até no olfato e no tato. Rebeca tinha coberto com a pele de um chibo [192] as mãos e o pescoço de Jacó; ora, por peludo que fosse Esaú, a sua pele não podia parecer-se com a de um cabrito. Isaque não pensa em apalpar o resto do corpo; não percebe que as mãos de seu filho não têm unhas. Sente o cheiro das vestes de Esaú, e nada mais; contudo, o cheiro da pele de um animal recém-morto devia fazer-se sentir. Isto quanto à caduquice de Isaque. Além disso, pergunta-se como Deus pôde atar as suas bênçãos às de Isaque, extorquidas por uma fraude tão punível e que só um baboso, no último grau da decrepitude, podia não descobrir. Eis, pois, Deus escravo de uma vã cerimônia, que por si mesma não tem força alguma, ou então Jeová está bastante amolecido para fazer par com (fr. “faire pendant à”, locução: dizia-se de dois quadros que se correspondem, pendurados frente a frente) Isaque gagá. Estas observações aplicam-se à hipótese da veracidade do episódio. Mas é bem evidente que, se esta história é uma pura patranha — o que deixaria o cérebro de papai Bom Deus fora de toda suspeita de embrutecimento — a Igreja já não pode propor à nossa veneração o seu divino pombo como um inspirador grave e sério: ou esse volátil eterno disparata como um papagaio que voltou à infância; ou então é um canard (em francês, o pato e também a notícia falsa; daí o “pigeon-canard”, literalmente “pombo-pato”, com que Taxil passa a chamar o Espírito Santo) mistificador. Inclinamo-nos para esta última opinião. Eia, vejamos a continuação das altas fantasias do pigeon-canard. Esaú, melindrado — e não era para menos! — por ter sido roubado e por ver na cabeça do gatuno essa bela bênção toda nova cujo presente lhe tinha sido prometido, jurou a si mesmo matar Jacó. A mãe Rebeca, apavorada, aconselhou Jacó a tomar depressa alguns grãos de pó de escapada (fr. “prendre la poudre d’escampette”, locução: fugir às pressas; “escampette” vem do antigo “escamper”, escapulir-se); este, um tanto medroso (fr. “traqueur”, palavra familiar: quem se assusta facilmente, de “trac”, o medo; nada tem a ver com “traquer”, acossar), de resto, não precisou que lhe dissessem duas vezes. Rebeca disse-lhe, pois, que se refugiasse em casa de seu irmão Labão, e o velho Isaque exortou-o a aproveitar a ocasião para desposar uma de suas primas. (Gênesis 27:41-46; 28:1-5) Enquanto Jacó se dirigia à Mesopotâmia, Esaú foi dar uma volta pela terra de Ismael; ali casou-se com Maalate, filha de Ismael; as suas duas primeiras mulheres não lhe bastavam (Gênesis 28:6-9). Eis, pois, Jacó a caminho de Harã (Gênesis 28:10). «E, tendo chegado a certo local, e querendo ali descansar depois do sol posto, Jacó tomou uma pedra, pô-la debaixo da cabeça e [193] adormeceu naquele lugar. — Então teve um sonho, no qual viu uma escada que estava apoiada na terra e cujo topo tocava até os céus; e os anjos de Deus subiam e desciam ao longo dessa escada. — Viu também o Eterno, que estava na extremidade da escada, e que lhe disse: Eu sou o Eterno, o Deus de Abraão e de Isaque; dar-te-ei a terra onde dormes, a ti e à tua posteridade; — e a tua semente será como o pó da terra; dar-te-ei o Ocidente e o Oriente, o Norte e o Sul; em ti e na tua semente serão benditas todas as nações da terra; — e eu estou contigo, teu guardião e teu guia por onde quer que fores, e te farei tornar a este país.
71. A escada de Jacó. — Quando Jacó despertou, disse: Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu nada sabia disso! — E teve medo e exclamou: Quão terrível é este lugar! é a casa de Deus e a porta do céu. — E, levantando-se de madrugada, tomou a pedra de que tinha feito a sua cabeceira, erigiu-a e derramou azeite por cima dela. — Depois, deu o nome de Betel à cidade que antes se chamava Luz. — E fez um voto ao Senhor, dizendo: Se Deus permanecer comigo, se me preservar de acidentes na viagem que faço, se me der pão para comer e vestes para me vestir; — e se eu voltar são e salvo à casa de meu pai, então certamente o Senhor será o meu deus; — e esta pedra, que erigi como monumento, se chamará a casa de Deus; então, sim, Senhor, dar-te-ei o dízimo de tudo o que me tiveres dado.» (Gênesis 28:11-22) Dispensemo-nos de contestar a existência de uma cidade chamada Luz ou Betel na região de que se trata; os geógrafos nunca ouviram falar de Betel, nem tampouco de Luz. O que é preciso admirar é o espírito prático do espantoso Jacó. Embrulhou Esaú, seu irmão mais velho, Isaque, seu pai, e o próprio Jeová, por ricochete; por isso, pretende firmemente não se deixar trapacear por papai Bom Deus, e põe as suas condições ao Senhor Altíssimo. O deus de seus antepassados acaba de lhe dar um espetáculo abracadabrante; mostrou-lhe os seus anjos entregando-se numa escada a exercícios de ginástica muito variados; prometeu-lhe montes e maravilhas (fr. “promettre monts et merveilles”, locução: prometer coisas magníficas que nunca se darão; em português, “prometer mundos e fundos”) num belo discurso. O primeiro sentimento de Jacó é o temor mesclado de respeito; mas bem depressa se tranquiliza e reflete [194] que tudo aquilo não passava de um sonho. Por isso diz ao deus de seus antepassados: «Se me deres pão e vestes, serás o meu deus; adorar-te-ei.» O que equivale a dizer: «Se não me deres nada, bolas para ti, meu velho!» Promete o dízimo, um ovo, ao Senhor, mas com a condição de que o Senhor o tenha gratificado com um boi (fr. “un œuf… d’un bœuf”, do provérbio “donner un œuf pour avoir un bœuf”, dar um ovo para ter um boi: dar pouco para receber muito). Em boa hora!... Os críticos compararam esse discurso de Jacó aos usos de certos povos que atiravam os seus ídolos ao rio, [195] quando não tinham obtido a chuva pedida. Conheci uma velha devota que punha São José de castigo quando não tinha ganhado na loteria; isto é, virava a estátua de São José com a cabeça contra a parede, no seu nicho; essa boa cristã, piedosa, mas espertalhona na sua superstição, devia descender de Jacó. Depois desse incidente de viagem, Jacó pôs-se de novo a caminho. Num campo, um poço onde se abeberavam rebanhos [196] lhe forneceu a ocasião de travar conhecimento com uma pastorinha; justamente, era sua prima Raquel. Como se vê, o Gênesis se repete: Eliézer, por um acaso providencial, também tinha encontrado, junto de um poço, Rebeca, que ele não conhecia e que vinha buscar. Raquel, que era a filha mais nova de Labão, conduziu, pois, à casa de seu pai o amável primo Jacó; apresentação à família. Leia, a filha mais velha, tinha «os olhos remelosos», diz-nos a Bíblia, e deixou Jacó absolutamente frio. Em contrapartida, Raquel teve o dom de lhe bater no olho (fr. “taper dans l’œil”, locução familiar: agradar logo à primeira vista); «tinha o talhe fino e era formosa à vista». Jacó comunicou as suas preferências ao tio Labão, que dirigiu ao sobrinho algumas palavras de esperança. Ora, Labão era um homem prático. Disse a Jacó: — Meu pequeno, queres desposar Raquel; não me oponho, mas é preciso ganhá-la.
72. Jacó pede a Labão a mão de sua filha Raquel. — Como assim, meu tio? — Servindo-me de criado durante sete anos, para que eu tenha o vagar de ver se és um rapaz trabalhador e regrado. Foi negócio fechado. Durante sete anos, para pôr Jacó à prova, o tio o pôs a fazer a tarefa mais dura da casa.
73. Jacó entra ao serviço de Labão. Terminada a prova, chegou o dia das bodas. A noiva estava coberta com um grande véu, segundo o costume; Jacó rabeava como um peixe na água. Labão, grave e solene, desempenhou ele mesmo, nesse negócio, as funções de prefeito e sumo sacerdote. Declarou o casamento efetuado, para grande satisfação de Jacó.
74. Primeiro casamento de Jacó. Essa cerimônia foi muito solene. Aqui, é bom citar o texto ditado pelo Espírito Santo: «Labão, pois, reuniu toda a gente da terra e deu um grande banquete. — Mas, quando veio a tarde, tomou Leia, sua filha mais velha, e entregou-a a Jacó, que se deitou com ela. — Mas, pela manhã, ao despertar, Jacó reconheceu que era Leia; e disse a Labão: Por que agiste assim? não te servi eu sete anos para ter Raquel? por que me enganaste?
75. Jacó percebe que é Leia quem lhe foi dada em casamento. — Nesta terra, respondeu Labão, não é costume casar a filha mais nova antes da sua irmã mais velha. — Deita-te com Leia mais uma semana, e, com a condição de que sejas de novo meu servo por um trabalho de sete anos, então te darei também Raquel.
76. Jacó volta uma segunda vez ao serviço de Labão. — Jacó fez, pois, assim; cumpriu durante uma semana os seus deveres de esposo [197] com Leia, e Labão deu-lhe por mulher também Raquel. — Jacó deitou-se enfim com Raquel, a quem amou mais do que a Leia, tendo servido em casa de Labão ainda outros sete anos.» Por ocasião desse duplo casamento, Labão tinha dado a Leia uma serva chamada Zilpa, e a Raquel uma serva chamada Bila. (Gênesis 29:22-30)
77. Jacó desposa enfim Raquel. Assim Jacó, que tinha embrulhado o pai e o irmão, foi embrulhado pelo tio. Só que não se compreende muito bem como, tendo vivido primeiro sete anos na família e conhecendo bem as duas primas, passou uma noite inteira com Leia julgando ter trato com Raquel. «Ora, o Eterno, vendo que Jacó desdenhava Leia, abriu a vulva desta, e em contrapartida fechou a vulva de Raquel (fr. “il ferma la vulve de Rachel”: a Bíblia de Ostervald traz “mais Rachel était stérile”, “mas Raquel era estéril”, e Voltaire o mesmo; a vulva aberta de Leia é a da Vulgata, “aperuit vulvam eius”, mas a vulva fechada de Raquel é de Taxil).» (Gênesis 29:31). Isto, para começar, não está nada mal; mas o mais bonito é o que o Gênesis acrescenta nos quatro versículos seguintes: Jacó só é representado cumprindo os seus deveres conjugais durante uma semana ao todo, a semana que se seguiu ao seu primeiro casamento; pois bem, apesar disso, Leia pôs-lhe de enfiada quatro filhos, que foram Rúben, Simeão, Levi e Judá. «Então Raquel, vendo que não dava filhos a Jacó, disse-lhe: Faze-me filhos, ou senão, morrerei. — E Jacó entrou em grande cólera contra Raquel e exclamou: Tomas-me, pois, por um deus? Eu faço tudo o que é necessário (fr. “Je fais tout ce qui est nécessaire”: nem a Bíblia de Ostervald nem Voltaire têm estas palavras; são também de Taxil, mais adiante, o leito de Jacó, onde Ostervald diz “la donna à Jacob pour femme”, e a tropa de reforço, pelo seu “Une troupe est arrivée”), mas sou eu quem te tira o fruto do teu ventre? — Raquel respondeu: Se assim é, eis Bila, minha serva; entra nela; e, quando ela estiver para parir, dará à luz sobre os meus joelhos; assim terei filhos por ela. — E Jacó deitou-se com Bila. — Bila concebeu e deu à luz um filho a Jacó. — Raquel disse: Deus, pois, me atendeu; e deu a esse filho o nome de Dã. — Bila concebeu de novo e deu à luz um segundo filho. — E então Raquel disse: Em tudo isto lutei fortemente contra minha irmã, e eis que tenho a vitória. Pelo que deu a esse menino o nome de Naftali. — Mas Leia, vendo que tinha cessado de ter filhos, tomou a sua serva Zilpa e pô-la no leito de Jacó. — E Zilpa também deu à luz um filho a Jacó. — Então Leia disse: Este menino que chega é como uma tropa de reforço. Pelo que lhe chamou Gade. — Depois, Zilpa deu à luz outro filho a [198] Jacó. — E Leia disse: Isto é ainda mais feliz; agora todas as filhas me chamarão bem-aventurada. E chamou ao menino Aser.» (Gênesis 30:1-13) Com que comentário acompanhar este texto edificante?... Não insistamos. A continuação é mais edificante ainda. Para compreender o que se vai ler, é bom saber que, segundo uma crença antiga, ainda espalhada em certas regiões rurais, [199] as raízes de mandrágoras seriam muito eficazes contra a impotência. Como essas raízes têm uma forma bizarra, que se presta facilmente a transformações obscenas, os charlatães, em todas as épocas, faziam delas príapos que recomendavam trazer consigo; ou então punham-nas a macerar, e o licor que assim se tirava delas passava por um maravilhoso filtro de amor. O Espírito Santo divertiu-se, pois, a ditar ao escritor do Gênesis um episódio que põe em relevo [200] esta bizarra planta de pretensas virtudes afrodisíacas. É Rúben quem vai colher algumas para a mãe; não é encantador?... «E Rúben, tendo ido ao campo no tempo da ceifa, desenterrou ali mandrágoras, que trouxe a Leia, sua mãe. E Raquel disse a Leia: Dá-me, peço-te, dessas mandrágoras. — Mas Leia respondeu-lhe: Não basta já que me tenhas tomado o meu marido, e é preciso ainda que queiras comer as mandrágoras que meu filho me trouxe? Raquel disse-lhe: Pois bem, em troca dessas mandrágoras que te peço, eu te devolverei Jacó para que se deite uma noite contigo. — Quando, pois, Jacó voltou do campo à tarde, Leia saiu-lhe ao encontro e disse-lhe: Entrarás em mim esta noite, porque te comprei pelo preço das mandrágoras que meu filho tinha colhido; e ele se deitou com ela naquela noite. — E Deus escutou a oração de Leia; e ela ficou grávida, e assim deu à luz o seu quinto filho. — E Leia disse: O Eterno me recompensou, depois que dei a minha serva ao meu marido. Pelo que chamou a esse filho Issacar». (Gênesis 30:14-18) Leia teve ainda um sexto filho, que recebeu o nome de Zebulom, e uma filha, chamada Diná, sem que o Gênesis nos diga em que ocasião Jacó venceu de novo a repugnância que tinha por ela. Quanto a Raquel, é de crer que as mandrágoras produziram o seu efeito ou que Jeová se decidiu a abrir-lhe a vulva; ela acabou por ficar pejada também; e o filho de Jacó e de Raquel foi chamado José. Todavia, não se deveria imaginar que Jacó tinha engolido mansamente os seus catorze anos de esfregar chão e de lavar louça; a Bíblia nos mostra que ele guardou a Labão um cão da sua cadela (fr. “garder à quelqu’un un chien de sa chienne”, locução: guardar rancor a alguém e esperar a ocasião de se vingar). Primeiro, Jacó pregou ao seu tio sogro uma peça da sua lavra: pediu-lhe que lhe desse todos os cordeiros e todos os cabritos dos seus rebanhos que nascessem com manchas verdes; Labão consentiu, plenamente convencido de que Jacó esperaria muito tempo. Não tinha contado com o espírito astuto do genro. Este, segundo a Sagrada Escritura, tomou ramos de álamo, de aveleira e de castanheiro, dos quais tirou as cascas, e colocou esses ramos assim despojados nos cochos e nos bebedouros aonde as ovelhas e as cabras de Labão vinham beber; o resultado foi que, desde então, quase [201] todos os cordeiros e cabritos que nasciam nos rebanhos do sogro eram estranhamente malhados, tinham manchas verdes. Labão não se refazia da surpresa, e não era para menos! mas estava obrigado, pela sua promessa, a dar de presente a Jacó todo aquele gado extraordinário. Recomendamos esta receita aos amadores que, sentindo alguma dificuldade em arranjar melros brancos (fr. “merles blancs”, locução: coisas tão raras que nunca se encontram, o que em português se chama “mosca branca”; a piada é de Fréret, que Voltaire cita em La Bible enfin expliquée contra o comentador Calmet: “Nous lui donnerons un merle blanc, quand il nous fera voir des moutons verds”, “Dar-lhe-emos um melro branco quando ele nos mostrar carneiros verdes”; na Bíblia de Ostervald os animais são apenas “picotées et tachetées”, salpicados e malhados, e só as varas são verdes), desejassem dar-se ao luxo de ter carneiros verdes. Esta mirífica receita e os pormenores do seu êxito, garantido pelo divino pombo, se vos apraz, estão por extenso no sublime Gênesis, capítulo 30, versículos 25 a 43. Depois, o espertalhão Jacó, não contente de ter despojado Labão, com esse truque, de nove décimos dos seus rebanhos, safou-se numa bela manhã sem avisá-lo, levando a sua pequena família, já numerosa. Leia e Raquel, tomando partido por ele contra o pai, tinham-no aprovado, logo que ele lhes confiou os seus projetos de fuga; a própria Raquel, ao partir, surripiou (fr. “chiper”, palavra familiar: furtar coisas pequenas) ao pai todos os seus ídolos, que levou consigo, sem nada dizer.
78. Partida de Jacó; pesares de Labão. Eis o nosso Labão desconsolado; põe-se em perseguição do genro e das filhas; consegue alcançar a caravana. Apesar de toda a sua eloquência, não conseguiu convencer Jacó a voltar sobre os seus passos. «Ao menos, devolve-me os meus deuses! disse-lhe ele; por que me furtaste os meus deuses?» Jacó não sabe o que isso quer dizer. Convida Labão a revistar as bagagens da família. Enquanto o pai inspeciona os pertences de Leia, Raquel enfia os ídolos na albarda de um camelo e senta-se em cima; depois, pede a Labão que a desculpe se não pode levantar-se: «Meu pai, diz ela, estou neste momento com as minhas regras (fr. “j’ai en ce moment mes règles”: a Bíblia de Ostervald traz “j’ai ce que les femmes ont accoutumé d’avoir”, “tenho o que as mulheres costumam ter”, e Voltaire, com outro eufemismo, “j’ai mes ordinaires”; o “textual” de Taxil vale para o sentido, não para as palavras)» (textual). Por mais que Labão rebuscasse, não achou os seus ídolos. Enfim, depois de uma cena bastante acalorada de parte a parte, o genro e o sogro separaram-se definitivamente, não sem terem posto pedras num montão, para que esses seixos fossem testemunhas da sua promessa de doravante não procurarem prejudicar-se um ao outro. A partida de Jacó, a sua perseguição por Labão e o tratado final ocupam todo o capítulo 31. Os dois capítulos seguintes são consagrados à continuação da viagem de Jacó, que regressa à terra de Canaã. Encontra Esaú, e dá-se entre eles uma tocante reconciliação. Mas uma passagem que vale a pena reproduzir é aquela em que o autor nos conta uma nova peça de Jeová: papai [202] Bom Deus fazendo de alma do outro mundo, querendo bater em Jacó, e só conseguindo levar uma sova, apesar da sua onipotência. O marido de Leia, Raquel, Zilpa e Bila acabava de fazer a sua caravana passar o vau de Jaboque; era noite. «Então Jacó, tendo ficado só no caminho, foi atacado por um fantasma de forma humana, que lutou com ele até o romper da alva. — E esse fantasma, não podendo derrubá-lo, [203] tocou-lhe o lugar da juntura da anca, a qual logo foi deslocada; mas a luta com o espectro continuou. — E o espectro disse a Jacó: Estou farto, deixa-me; porque a aurora sobe. Mas Jacó respondeu-lhe: Não te soltarei, se me não abençoares. — Qual é o teu nome? perguntou o fantasma. Ele respondeu: Jacó. — O espectro disse então: O teu nome não será mais Jacó, mas Israel; porque, já que pudeste combater contra Deus, quanto mais forte serás contra [204] os homens! — E Jacó interrogou-o, dizendo: Peço-te, dá-me a saber o teu nome. E o fantasma respondeu-lhe: Por que me perguntas o meu nome? E então o abençoou ali. — E Jacó chamou a esse lugar Peniel; porque, disse ele, foi ali que vi Deus face a face e que a minha alma foi livrada. — E o sol nasceu, logo que ele deixou Peniel; e Jacó estava coxo de uma anca.» (Gênesis 32:24-31) Os críticos fizeram notar que o nome de Israel, dado pelo divino fantasma a Jacó, era o nome de um anjo na mitologia dos caldeus. A tradição judaica afirma que esse nome significa forte contra Deus; todavia, Fílon, judeu muito sábio, sustenta que o nome é realmente caldeu, e não hebraico, e que significa o que vê Deus. Seja como for, não se lê sem um doce sorriso o relato dessa aventura. Não creio que mitologia alguma represente um homem qualquer bastante robusto para pespegar uma surra (fr. “flanquer une pile”, locução de gíria: “flanquer” é atirar, e “une pile”, uma sova) a um deus; e ainda por cima Jacó aguentou firme e levou a melhor, mesmo depois de o espectro lutador lhe ter deslocado a anca!... Passemos a outra aventura. O leitor viu que Leia deu à luz sete vezes e que o seu sétimo filho foi uma menina, Diná. Além disso, temos a conta exata do tempo passado por Jacó em casa de Labão; na sua disputa, no momento da fuga, ele disse ao tio sogro: «Servi-te estes vinte anos passados em tua casa, catorze anos por tuas duas filhas, e seis anos por teus rebanhos.» (Gênesis 31:41) Portanto, o nascimento de Rúben, o mais velho, só pode ter-se dado no oitavo ano; e, se não esquecermos que Leia ficou pelo menos dois anos sem ter filhos, tempo durante o qual emprestou a sua serva Zilpa a Jacó, a cronologia situa o nascimento de Diná no décimo sexto ano da estada em casa de Labão. Diná tinha, pois, quatro anos no máximo quando Jacó largou o tio sogro. Esta observação era necessária, visto que o Gênesis nos mostra Diná inspirando uma violenta paixão ao filho de um rei, desde os primeiros dias da sua chegada com a família à terra de Canaã, isto é, logo depois da luta contra o fantasma e da reconciliação de Esaú e Jacó. «Jacó chegou em boa saúde à cidade de Salém, na terra de Canaã, vindo de Padã-Arã (terra de Labão), e armou as suas tendas diante da cidade. — Depois, comprou [205] aos filhos de Hamor, por cem peças de prata, uma parte do campo onde acampava; Hamor era o pai do jovem príncipe Siquém.» (Gênesis 33:18-19) Esse príncipe Siquém apaixonou-se subitamente pela pequena Diná, de quatro anos de idade! «E Diná, filha de Leia, teve a curiosidade de ver as mulheres da terra, e saiu do acampamento. — E o príncipe Siquém, filho de Hamor, rei da terra, viu-a, arrastou-a e fê-la deitar-se com ele. — Estando o seu coração fortemente apegado a Diná, amou a menina (fr. “la petite fille”: a Bíblia de Ostervald traz “la jeune fille”, a moça, e nem ela nem Voltaire dizem “petite” em todo o relato: Taxil diminui Diná cinco vezes para ajustá-la à sua conta de quatro anos), prodigalizou-lhe grandes carícias e falou-lhe segundo o seu coração. — Siquém falou também a Hamor e disse-lhe: Meu pai, conjuro-te, alcança-me que eu tenha esta menina por mulher.» (Gênesis 34:1-4) O rei Hamor foi, pois, ter com Jacó e fez a diligência desejada pelo filho. Na verdade, o príncipe Siquém tinha de se desculpar por ter ido um pouco depressa demais; mas estava decidido a sujeitar-se a todas as exigências de Jacó para obter o seu perdão. A Bíblia dá a entender que Jacó estava numa disposição bastante favorável; em contrapartida, os irmãos de Diná não queriam ouvir falar de um casamento para reparar a falta do príncipe Siquém. «Os filhos de Jacó, tendo voltado do campo e tendo sabido o que tinha acontecido, ficaram extremamente agastados e muito irados, e disseram que Siquém tinha cometido uma ação infame contra Israel, deitando-se com a filha de Jacó, o que se não devia fazer. — Hamor falou-lhes, pois, e disse-lhes: Siquém, meu filho, tem muito amor por Diná; concedei, peço-vos, que ela seja sua mulher. — E vós mesmos aparentai-vos conosco; dai-nos as vossas filhas e tomai as nossas filhas para vós. — E habitai entre nós; toda a terra estará à vossa disposição; cultivai-a, negociai nela, e até possuí-a. — Quanto a Siquém, disse por sua vez ao pai e aos irmãos da menina: Ache eu graça diante de vós! e darei tudo o que vos aprouver. — Imponde-me que forneça um rico dote, pedi-me numerosos presentes; tudo o que quiserdes, eu vo-lo darei; mas dai-me a pequena Diná por mulher! — Então os filhos de Jacó, enganando de propósito Hamor e Siquém, responderam: — Não podemos conceder a nossa irmã a um incircunciso; porque isso [206] seria para nós um opróbrio. — Mas consentiremos no que quereis, se todos os machos que há entre vós aceitarem cortar o prepúcio. — Então, sim, dar-vos-emos as nossas filhas, e nos casaremos com as vossas; e habitaremos entre vós, e não seremos mais que um só povo; — mas, se não quiserdes circuncidar-vos todos, retomaremos Diná, a nossa irmãzinha, e ir-nos-emos. — E esse discurso agradou a Hamor e a Siquém. — E [207] o jovem príncipe não tardou em fazer o que lhe era proposto; porque o seu amor pela filha de Jacó lhe enchia o coração.» (Gênesis 34:7-19) Nisso, o rei Hamor e o filho reuniram o povo e repetiram-lhe as propostas que acabavam de receber. A aliança com a família de Jacó foi aceita por unanimidade. Houve uma circuncisão geral de todos os machos da cidade (Gênesis 34:24).
79. Reconciliação de Esaú e de Jacó. Mas, «três dias depois, dois dos filhos de [208] Jacó, Simeão e Levi, tendo tomado a sua espada, entraram afoitamente na cidade e mataram todos os homens. — Degolaram também Hamor e Siquém, retomaram Diná e levaram-na. — Depois, todos os filhos de Jacó se lançaram sobre os mortos, despojaram-nos e puseram a cidade a saque, gritando que assim vingavam a sua irmã de ter sido tomada. — E apoderaram-se dos rebanhos, dos bois, dos jumentos e de tudo o que os habitantes possuíam na cidade e no campo. — E levaram prisioneiros as crianças e as mulheres, depois de terem tudo assolado e tomado tudo o que havia nas casas.» (Gênesis 34:25-29) Tudo isto é bem horrível. Os filhos e a gente da caravana de Jacó comportam-se como os últimos dos patifes para com essa população que os tinha recebido tão fraternalmente, que tinha levado a amizade ao ponto de aceitar a prática ritual mais absurda deles, a circuncisão. Jamais houve assassinos mais pérfidos, nem mais ladrões, nem mais sanguinários. Mas o horror do crime apaga-se diante da inverossimilhança de tais monstruosidades, e também aí o cético aprecia como diletante a mistificação do pombo Espírito Santo. Esse Simeão e esse Levi, autores dessa pavorosa carnificina, são dois garotos que mal deixaram de ter o ranho no nariz; Simeão nasceu no nono ano da estada de Jacó em casa de Labão, e Levi no décimo; não tinham, pois, senão onze e dez anos, segundo a Bíblia, quando, entre os dois, massacraram o rei Hamor, o príncipe Siquém e todos os seus súditos machos. É verdade que Simeão e Levi, tendo nas veias o sangue de um paisano (fr. “un pékin”, palavra de gíria militar: quem não veste farda, dito com o desprezo do soldado) que tinha sovado Deus em pessoa, deviam ser uns fedelhos bem terríveis!... Não se fazem mais, dessa têmpera!... O capítulo 35 do Gênesis nos informa que Jacó, ficando de repente desolado por serem idólatras as suas mulheres e dizendo consigo que isso lhe podia trazer desgraça, «disse à sua família e a todos os que estavam com ele: Lançai para longe de vós todos os deuses estranhos que tendes; purificai-vos e mudai de vestes» (v. 2). Dito e feito; Raquel, Leia, Zilpa, Bila, etc., etc., entregaram os seus ídolos a Jacó, que os enterrou ao pé de um carvalho, nos arredores da cidade que acabava de ser devastada. Jeová, encantado com [209] esta bela ação, transtornou a cabeça de todos os habitantes da região, e estes «não pensaram em perseguir Jacó e os seus filhos» (v. 5). Temos também neste capítulo uma nova aparição de papai Bom Deus, com discurso a Jacó; mas é sempre a mesma cantilena. Depois, pela primavera, Jacó chega a um caminho que conduz a Efrata. Ali, Raquel teve um parto tão doloroso que lhe deu a morte. «Estando a sua alma prestes a exalar-se, deu ao filho o nome de Benoni, o filho da minha dor; mas Jacó o chamou Benjamim, o filho da minha coxa direita» (v. 18). Jacó sepultou ali a sua querida Raquel e pôs sobre a sua sepultura uma pedra que os muçulmanos ainda hoje mostram. Ora, enquanto Jacó chorava Raquel, o jovem Rúben, filho mais velho que tivera de Leia, aproveitou a dolorosa distração do pai para se esgueirar para junto de uma das mulheres do patriarca; seduziu, pois, a sua madrasta Bila e deitou-se com ela; mas, quando Jacó soube que estava corneado (fr. “cocufié”, palavra familiar, formada sobre “cocu”, o marido enganado; Bila era concubina de Jacó: Gênesis 35:22) pelo filho, fechou os olhos e não se zangou, pelo menos por enquanto. Enfim, Jacó, de volta à planície de Manre, reencontrou ali o seu pai Isaque: este morreu algum tempo depois; tinha então cento e oitenta anos. Isaque foi enterrado por Esaú e Jacó. (“o filho da minha coxa direita” — fr. “le fils de ma cuisse droite”, retoque de Taxil na tradução de Voltaire, que traz “o filho da minha direita”, o sentido tradicional do nome Benjamim; a Almeida dá apenas o nome. É o mesmo emprego de “coxa” para designar os órgãos genitais de que Taxil zombou a propósito do juramento de Eliézer.) Jacó estava, pois, à frente de uma numerosa família, mas Esaú também. O capítulo 36 dá-nos um considerável apanhado da posteridade deste último; é uma verdadeira ladainha de «duques», com nomes cada qual mais pasmoso.
80. Jacó, abençoado por Deus, tem uma numerosa família. Neste capítulo e no precedente, os críticos assinalam dois versículos que permitem dizer que os cinco primeiros livros da Bíblia são mentirosamente atribuídos a Moisés. Assim, diz-se no versículo 19 do capítulo 35: «Raquel foi sepultada no caminho que conduz a Efrata, hoje Belém.» Ora, a cidade de que se trata não podia chamar-se Efrata no tempo em que se supõe que Moisés escreve, visto que mais adiante se indica que essa denominação foi fixada por um certo Calebe, que tinha por mulher uma certa Efrata; esse Calebe deu o nome da sua mulher ao lugarejo então nascente; e Calebe era contemporâneo de Josué, sucessor de Moisés. Com maior razão, Moisés não podia citar o nome de Belém, que substituiu, vários séculos depois, o nome de Efrata. No versículo 31 do capítulo 36, [210] o verdadeiro escritor do Gênesis trai-se ainda mais desajeitadamente; esse versículo, que se segue a uma nomenclatura de descendentes de Esaú, está assim redigido: «Estes são os reis que reinaram na terra de Edom, antes que os filhos de Israel tivessem um rei.» É evidente que essas linhas só podem ter sido escritas posteriormente à primeira realeza judaica, isto é, depois de Saul. Se, numa história de uma nação da Europa, alguém encontrasse, por exemplo, isto: «Esses príncipes governaram diversos [211] principados da Alemanha, muito antes que a França fosse República, sob o regime de uma assembleia parlamentar chamada Convenção (a Convenção Nacional, que governou a França de 1792 a 1795 e proclamou a primeira República)», todos seriam unânimes em declarar que o livro foi forçosamente escrito durante ou depois da Convenção, mas não antes da primeira República francesa. Cheguemos à história de José, cujos começos são objeto do capítulo 37 do Gênesis. De todos os seus filhos, o que Jacó mais amava era [212] José, a quem tinha outorgado uma belíssima túnica listrada de cores vivas. José, que deixou fama de adivinho de sonhos e que teria dado pontos (fr. “rendre des points”, locução: superar alguém de longe; vem dos jogos de destreza, em que o mais forte dá vantagem ao mais fraco) aos sonâmbulos mais extralúcidos (fr. “somnambules extra-lucides”: os videntes das feiras e bulevares de Paris, que liam o futuro num sono magnético e vendiam consultas), entrou cedo nessa carreira; aos dezessete anos, já espantava a sua família. Infelizmente para ele, contava ingenuamente os seus próprios sonhos, e os seus sonhos eram em geral de molde a exaltá-lo a ele mesmo e a humilhar os seus onze irmãos. Um dia, tinha sonhado que, enquanto se atavam molhos num campo, o seu molho se levantara e ficara em pé, e que então os molhos dos seus irmãos se tinham prostrado diante do seu. Num outro dia, o sol, a lua e onze estrelas tinham vindo fazer-lhe profundas reverências durante o sono.
81. José, desde a juventude, tem o dom da adivinhação. Como essa mania acabou por irritar nove dos seus irmãos, estes embirraram com José (fr. “prendre quelqu’un à tic”, locução familiar, literalmente “tomar alguém por tique”). Ora, certa manhã, quando Jacó o mandou juntar-se aos seus irmãos, que apascentavam os seus rebanhos nos campos de Dotã, nove dos seus irmãos, vendo-o chegar, conspiraram para matá-lo. Rúben opôs-se ao homicídio; mas José, despojado da sua bela túnica, foi baixado a um velho poço seco.
82. José posto num poço pelos seus irmãos. Nesse ínterim, passaram uns mercadores; o autor sagrado qualifica-os ora de ismaelitas, ora de midianitas, o que não é a mesma coisa; mas passemos. Então Judá, tomado de remorsos ao pensar que o jovem corria grande risco de morrer de fome no fundo do poço, propôs aos seus irmãos uma pequena operação comercial da qual José seria a mercadoria; era, de uma só vez, fazer um negócio e filantropia.
83. Mercadores ismaelitas propõem comprar José. Toca aqui! Os ismaelitas ou midianitas compraram o adolescente por vinte moedas de prata; o que verdadeiramente não era caro. Retiraram José do seu poço, e os mercadores receberam-no em entrega para o levarem consigo a países longínquos.
84. José, tirado do poço, é vendido. Ora, Rúben e Benjamim eram os únicos que não tinham participado nesse tráfico; Benjamim, que era ainda muito novo, ficava em casa. Quanto a Rúben, tinha-se afastado dos seus irmãos — o autor sagrado não diz por quê — depois da descida de José ao poço, e estivera ausente por ocasião da negociação com os mercadores nômades; segundo a Bíblia, Rúben tivera até a secreta intenção de vir [213] retirar José do poço e de reconduzi-lo ao pai deles. Ficou, pois, muito pesaroso ao encontrar o poço vazio; correu para os seus irmãos e disse-lhes: «O menino já não está no poço, e eu, eu, aonde irei?...» Os outros, espertos e hipócritas como velhos sacristães, tingiram com o sangue de um bode a bela túnica de várias cores do infortunado e enviaram-na a Jacó, com esta mensagem: «Eis o que achamos; isto nos parece ser a túnica de José; reconhece se é isso mesmo.» Jacó exclamou: «Ai! é verdadeiramente a túnica do meu filho querido! terá sido encontrado por uma besta feroz! foi devorado! eis tudo o que resta dele!»
85. Fazem Jacó crer que José está morto. E ficou num grande desespero. Primeiro, rasgou todas as suas vestes; depois, revestiu-se de um cilício e chorou José durante vários dias. E dizia, no meio das suas lágrimas: «Descerei à cova com o meu filho!» (Gênesis 37:33-35)
86. Jacó desesperado rasga as suas vestes. Por outro lado, os mercadores tinham levado José ao Egito, e ali o revenderam a um alto personagem da corte; o autor sagrado nomeia-o e enumera os seus títulos e qualidades: era o sire «Potifar, eunuco do rei Faraó, preboste do palácio». Num dos capítulos seguintes, o impagável Gênesis nos informará que Potifar, embora eunuco, era casado.
87. José comprado como escravo por Potifar. Mas não antecipemos. Enquanto José é escravo em casa de Potifar, uma nova série de episódios edificantes se desenrola na família de Judá, o quarto filho de Jacó. «Naquele tempo, Judá foi à casa de um adulamita chamado Hira. — Ali travou conhecimento com a filha de um chamado Sua, cananeu; tomou-a e deitou-se com ela.» (Gênesis 38:1-2) Observe-se que, por mais que papai Bom Deus proíba os seus patriarcas de tomar por mulheres idólatras, e, em particular, cananeias, raça maldita, os patriarcas mal fazem caso dessas proibições e nem por isso são menos queridos de Jeová. Mais tarde, os cristãos, adotando as asneiras e as torpezas da Bíblia judaica, farão, para a genealogia do seu Jesus, as escolhas mais assombrosas; eles lhe darão por avós precisamente as idólatras, as adúlteras e as prostitutas. «E a mulher de Judá concebeu e lhe deu à luz um filho, que foi chamado Er. — Concebeu outra vez, e o seu segundo filho [214] foi chamado Onã. — E deu à luz um terceiro filho, que recebeu o nome de Selá. — Mais tarde, Judá fez Er, seu primogênito, desposar uma moça chamada Tamar. — Mas Er era mau diante do Eterno, e Deus o matou.» (Gênesis 38:3-7) A sagacidade dos teólogos exerceu-se a respeito do crime de Er, já que a Bíblia não diz nada mais sobre ele; em vista da continuação da historieta, e considerando que Deus tinha decidido fazer descender de Judá o seu Messias, os comentadores católicos concluíram [215] que esse crime consistia em só usar da sua mulher à moda dos sodomitas. Deus fez morrer Er, dizem eles, porque ele agia assim para não ter filhos; e a prova é que o texto sagrado emprega aqui a expressão «mau diante do Eterno», que é exatamente aquela de que Jeová se serviu mais acima, quando se queixou dos costumes dos senhores maridos de Sodoma. Seja como for, veremos que Tamar não teve sorte com os seus esposos. [216] «Então Judá disse a Onã: Entra na viúva de teu irmão, e seja ela tua mulher; assim suscitarás a semente de teu irmão.» (Gênesis 38:8) É textual (mas de Voltaire: “prends pour femme la veuve de ton frère ; entre dans elle”, “toma por mulher a viúva de teu irmão; entra nela”, segundo o “ingredere ad” da Vulgata; a Bíblia de Ostervald traz “Viens vers la femme de ton frère”, “Chega-te à mulher de teu irmão”), sabeis! E isto quer dizer que, segundo o costume judaico, os filhos nascidos nessas condições seriam os herdeiros do defunto, e não do seu verdadeiro pai. «Mas Onã, sabendo que os filhos que fizesse não seriam considerados como seus, derramava a sua semente por terra cada vez que se chegava à sua mulher, a fim de não dar filhos a seu irmão.» (38:9) Absolutamente textual, isso também! O nome de onanismo vem desse edificante episódio bíblico. «E essa conduta desagradou ao Eterno, e Deus matou também Onã.» (Gênesis 38:10) «Pelo que Judá disse a Tamar, sua nora: Vai-te; fica viúva na casa de teu pai, até que Selá, meu último filho, esteja em idade de ser teu esposo. Foi-se ela, pois, e habitou em casa de seu pai. — Vários dias depois, a filha de Sua, que Judá tinha desposado, morreu. Depois Judá se consolou disso, e subiu a Timna, para ver tosquiar as suas ovelhas, em companhia de Hira, seu amigo íntimo. — E alguém informou Tamar do que se passava, isto é, que Judá vinha à região. — Então Tamar, que sabia que Selá se tinha tornado grande e via com pesar que ele não lhe fora dado por marido, tirou os seus trajes de viúva, revestiu-se de um véu com que se envolveu, e veio sentar-se numa encruzilhada, na esquina do caminho que conduzia a Timna. — E, quando Judá a avistou, tomou-a por uma prostituta, por causa da sua postura e do seu véu. — Veio a ela no caminho e disse-lhe: Queres tu que eu me deite contigo? porque não suspeitava que era a sua nora. E ela lhe respondeu: Que me darás tu para te deitares comigo? — Judá disse: Eu te enviarei amanhã um cabrito do meu rebanho. Ela replicou: Farei, pois, o que quiseres; mas primeiro preciso de um penhor para me assegurar de que me enviarás o cabrito que me prometes. — Que penhor exiges? perguntou Judá. E Tamar respondeu: O teu anel, o teu lenço e esse cajado que tens na mão. Judá lhos deu, e então entrou nela, à beira do caminho, e assim ela ficou grávida das suas obras (fr. “enceinte de ses œuvres”, locução: esperando um filho dele). — Após o que, levantou-se e foi-se; depois, tendo tirado o seu véu, retomou as suas vestes de viúva. — [217] Enquanto isso, Judá enviou o cabrito prometido, tendo-o entregado ao seu amigo Hira, a fim de que ele recobrasse os penhores dados àquela mulher; mas Hira já não a achou. — E interrogou a gente da localidade onde ela se tinha postado para atrair Judá, e dizia a todos: Onde está, pois, essa prostituta que se posta na encruzilhada e no caminho? Eles responderam: Não houve por aqui mulher de má vida. — Hira tornou a Judá, disse-lhe que não tinha achado aquela mulher, e referiu-lhe as palavras da gente da localidade. — E Judá disse: Seja; que ela guarde os meus penhores; ao menos não poderá acusar-me de não lhe ter querido pagar! Não lhe enviei eu o cabrito prometido? mas tu não a achaste. — E aconteceu que, cerca de três meses depois, fizeram um relato a Judá: Tamar, tua nora, vieram dizer-lhe, caiu na luxúria, e eis que até o seu ventre começa a inchar. Judá respondeu: Que a vão buscar o mais depressa possível, e que seja queimada! — Quando a conduziam ao suplício, ela enviou a Judá o seu anel, o seu lenço e o seu cajado, dizendo: Se estou grávida, é por obra do homem a quem estas coisas pertencem; mande-se, pois, reconhecer estes objetos. — Então Judá, tendo-os reconhecido, exclamou: Ela é mais justa do que eu; fez-se emprenhar por mim (fr. “elle s’est fait engrosser par moi”: nem a Bíblia de Ostervald nem Voltaire têm estas palavras depois de “Elle est plus juste que moi”; a confissão é de Taxil, como, pouco adiante, a brecha “enorme”, onde Ostervald diz “Quelle brèche as-tu faite ?”), porque me esqueci de a dar a Selá, meu terceiro filho. E Judá não se deitou mais com ela. — E, quando Tamar esteve para dar à luz, notou-se que tinha dois gêmeos no ventre. — E, no momento do parto, um dos gêmeos pôs a mão de fora, e a parteira tomou-a e atou-a com uma fita escarlate, crendo que ele ia sair primeiro. — Mas logo esse menino retirou a sua mão e empurrou o seu irmão, e este saiu. E Tamar lhe disse: Que enorme brecha me fizeste, meu filho! Que a brecha seja sobre ti! Pelo que o chamaram Perez. — Depois saiu o menino que tinha na mão uma fita escarlate, e o chamaram Zerá.» (Gênesis 38:11-30) Não me acusarão de ser dos que fingem resumir uma obra e que, sob esse pretexto, a travestem. Pelo contrário, talvez haja leitores que pensem que mais valeria relatar cada episódio da maneira mais sucinta e desenvolver a crítica. Mas, dada [218] a natureza da obra que é o objeto desta análise, julgo que o resumo só tem a sua razão de ser quando se trata de episódios cujos pormenores pouco importam; por outro lado, quando a Sagrada Escritura contém passagens do gênero desta aventura de Tamar, torna-se necessário citar por extenso. Foi o espírito divino quem ditou isto! nunca será demais, pois, pôr em evidência as pérolas deste texto sagrado. Este é bem o caso em que o crítico não deve expor [219] os seus leitores a ouvir de um padre que foram enganados e que se caluniou a Bíblia. Portanto, todas as sujeiras da história de Tamar fazem realmente parte do livro de fé; figuram nele cruamente, e a Igreja declara-as autênticas, apesar da sua inverossimilhança. Porque é coisa bem singular que Tamar, tendo tido tão pouca sorte com os seus dois primeiros maridos, queira entregar-se ao pai deles, porque ele se esqueceu de lhe dar [220] o seu terceiro filho, que tinha prometido! «Ela toma um véu para se disfarçar de mulher de vida alegre, fez notar Voltaire; mas, pelo contrário, o véu era e foi sempre a veste das mulheres honestas. É verdade que, nas grandes cidades, onde a devassidão é muito conhecida, as mulheres de vida alegre vão esperar os transeuntes em vielas, como em Londres, em Paris, em Veneza, em Roma; mas não é verossímil que o ponto de encontro das mulheres de vida alegre, na miserável terra de Canaã, fosse no campo, na encruzilhada das estradas. É bem estranho, além disso, que um patriarca faça amor em pleno dia com uma mulher de vida alegre na estrada real, e se exponha a ser apanhado em flagrante por todos os transeuntes. O cúmulo da impossibilidade é que Judá, estrangeiro em Canaã, e não tendo a menor possessão, ordene que se queime a sua nora, logo que sabe que ela está pejada, e que imediatamente se prepare uma fogueira, como se ele fosse o juiz e o dono da terra. Esta história tem alguma relação com a de Tiestes, que, encontrando a sua filha Pelópia, se deitou com ela sem a conhecer. Os críticos dizem que os judeus escreveram muito tarde, e que copiaram muitas histórias gregas que corriam por toda a Ásia Menor. Josefo e Fílon, historiadores judeus, confessam que os livros judaicos não eram conhecidos de ninguém, e que os livros gregos eram conhecidos de toda a gente.» Depois da história de Tamar, o Gênesis volta a José, e temos aqui um episódio cuja semelhança com a história de Teseu, Fedra e Hipólito é das mais flagrantes. O autor sagrado informa-nos que Potifar, esse eunuco ricaço que tinha comprado José, era casado, e que, embora não adorasse o deus de José, não tardou a reconhecer que esse deus fazia prosperar todos os negócios do seu escravo. «Potifar viu que o Eterno estava com José e que o Eterno fazia prosperar todas as coisas em suas mãos.» (Gênesis 39:3) Essa constatação de modo algum levou o nosso eunuco a converter-se à religião judaica; «mas entregou tudo o que era seu nas mãos de José, de modo que já não se informava de nada, senão dos guisados que eram servidos à mesa. Ora, José tinha o talhe bem-feito e era de todo formoso à vista. — [221] Aconteceu, pois, que a mulher de Potifar reparou nos atrativos de José, e disse-lhe um dia: Deita-te comigo. — Mas ele recusou e respondeu à mulher de seu amo: Eis que o meu amo me confiou tudo o que lhe pertence, e já não se ocupa do que se passa em sua casa. — Ninguém está acima de mim na sua casa, e nada me vedou senão a ti, porque tu és sua mulher. Como, pois, faria eu este mal e pecaria contra Deus? — E, ainda que ela falasse disso todos os dias a José, este não a quis escutar; recusando deitar-se com ela, evitou até achar-se em sua companhia. — Mas aconteceu que um dia ele veio à casa, num momento em que todos os criados estavam ausentes. — Então ela o pegou pelo seu manto e lhe disse de novo: Eia, deita-te comigo. Mas ele se desvencilhou e, deixando-lhe o manto nas mãos, fugiu para fora da morada.» (Versículos 6 a 12)
88. Bela virtude de José. Na volta de Potifar, a sua mulher contou-lhe as coisas completamente às avessas. «Esse escravo hebreu que trouxeste aqui tentou desonrar-me; mas eu gritei, e ele fugiu; toma, eis o seu manto, que ele deixou no quarto.» (Gênesis 39:17-18)
89. José acusado de atentado ao pudor de madame Potifar. Potifar, ao saber do pretenso atentado, ficou tão furioso que não quis ouvir nenhuma explicação de José e mandou logo lançá-lo num estreito calabouço da grande prisão onde o rei mandava encerrar os seus prisioneiros. Ora, o carcereiro-chefe tomou afeição ao belo escravo hebreu; em breve lhe suavizou o infortúnio, encarregando-o da direção de todos os outros prisioneiros, de sorte que, na prisão, nada se fazia sem as ordens de José.
90. José na prisão. Mais tarde, num tempo que o autor sagrado não especifica, o padeiro e o copeiro do rei caíram em desgraça e tornaram-se os companheiros de cativeiro do filho de Jacó; segundo a Bíblia, esses personagens eram mais dois eunucos. Certa manhã, José, achando-lhes o semblante triste, perguntou-lhes a razão disso. Eles responderam: «Cada um de nós teve um sonho esta noite, e estamos muito aborrecidos por não termos ninguém que no-los explique. José replicou-lhes que, graças ao seu deus, estava em condições de interpretar o que tinham sonhado. — No meu sonho, disse então o copeiro, vi uma videira que tinha três ramos, os quais [222] produziram botões, flores e uvas maduras; eu tinha na mão a taça do rei; espremi as uvas na taça e dei de beber ao rei. — Isto quer dizer, disse José, que dentro de três dias estarás livre e retomarás as tuas funções junto de Faraó; peço-te, pois, que te lembres então de mim e que dês a conhecer as minhas desgraças ao rei, a fim de que eu saia enfim desta prisão. O padeiro narrou por sua vez o seu sonho: tinha-se visto com [223] três cestos de farinha na cabeça, e umas aves tinham vindo comer toda aquela farinha. — Isso significa, disse José, que dentro de três dias também tu sairás da prisão; mas, em vez da liberdade, é uma forca o que o rei te dará; serás enforcado, e as aves te comerão. Sendo o terceiro dia o aniversário do nascimento de Faraó, houve, pois, grande festim na corte.» (Gênesis 40:8-19).
91. José explica os sonhos dos prisioneiros. As predições de José realizaram-se à letra; mas, infelizmente [224] para ele, o copeiro felizardo esqueceu-se dele completamente. Passaram-se dois anos. O rei do Egito teve também um sonho que o intrigou de uma maneira violenta. Julgou estar à beira de um rio, do qual saíram sete vacas gordas e belas, depois sete vacas magras e feias; e as vacas magras devoraram as vacas gordas. Depois de despertar, tornou a adormecer, e viu sete espigas muito belas numa mesma haste, e sete outras espigas ressequidas que comeram as outras.
92. Sonho do Faraó. Faraó perguntava-se qual era o sentido misterioso desse duplo sonho; consultou todos os adivinhos e sábios do seu reino; a resposta geral foi que o sonho régio era tão incompreensível quanto extraordinário. O copeiro lembrou-se então do seu antigo companheiro de prisão; falou dele favoravelmente ao monarca, que o mandou comparecer diante de si. O filho de Jacó tinha envelhecido durante o seu longo cativeiro; a Bíblia nos diz que foi apresentado ao rei depois de o terem barbeado e vestido. José, interrogado, respondeu: — O duplo sonho de Faraó não tem senão um só e mesmo sentido. As sete vacas gordas e as sete belas espigas significam sete anos de abundância; as sete vacas magras e as sete espigas ressequidas significam sete anos de esterilidade. É preciso, pois, que o rei escolha um homem sábio e hábil, que governe todo o reino do Egito e que estabeleça prepostos, encarregados de guardar cada ano a quinta parte dos frutos. O conselho agradou a Faraó e aos seus ministros.
93. José prediz o futuro ao Faraó. E o rei disse a estes: — Onde poderíamos achar um homem tão cheio do espírito de Deus como este judeu? Depois disso, voltando-se para José, disse-lhe: — Já que Deus te mostrou tudo o que me disseste, onde poderia eu achar alguém mais sábio do que tu? Nisso, deu-lhe o seu anel, vestiu-o com uma veste de linho fino, pôs-lhe ao pescoço um magnífico colar de ouro, e fê-lo subir num carro; e um arauto, precedendo José, gritava ao povo: — Que todos dobrem o joelho diante do governador do Egito! Não é tudo. A conselho do rei, José mudou de nome, e chamou-se desde então Zafenate-Paneia. Depois, Faraó casou-o, e nunca adivinharíeis, caros [225] leitores, quem Sua Majestade lhe deu por mulher. — O Gênesis já nos havia proporcionado um espanto, quando nele lemos de repente que o eunuco Potifar era casado; pois bem, o divino pombo reservava-nos uma nova surpresa. Durante o longo cativeiro de José, esse eunuco provido de uma mulher muito inflamável tinha mudado de funções: nos capítulos 37 e 39, vimo-lo preboste do palácio do rei; no capítulo 41, reencontramo-lo sacerdote de Heliópolis. Ora, durante esse tempo, Madame Potifar tornou-se mãe; o que leva a crer que os deuses dos egípcios faziam, também eles, milagres. Com os livros santos de qualquer mitologia, é preciso admitir tudo: ora, verifica-se que no capítulo 41 Potifar já não é qualificado de eunuco pelo superpasmoso Gênesis; uma prece ao Santo Antônio (Santo Antônio de Pádua, a quem se recorre para achar os objetos perdidos) daquela época fizera-o reencontrar, pois, o que tinha perdido. E eis, sem dúvida alguma, como Potifar, feito sacerdote de Heliópolis, cidade santa do Egito, foi papai de uma deliciosa menininha, chamada Asenate, a qual cresceu em idade e em beleza e se encontrou ali muito a propósito para ser Madame Zafenate-Paneia, quando José foi nomeado primeiro-ministro. E nunca será demais admirar o espírito de justiça de Faraó: o virtuoso José sofrera duramente em consequência da asneira de Potifar e da velhacaria da sua ardente esposa; nenhuma outra reparação teria sido tão equitativa. Moralidade: Potifar, não tendo sido corneado por José, bem lhe devia isto: tomá-lo por genro; é claro! Esta parte da história de José permite emitir uma reflexão que vem em apoio de uma observação feita no começo desta obra. Os judeus, como observamos, dizem «os deuses» a propósito da criação e em numerosas circunstâncias, e contudo não adoram senão um só deus, Jeová, divindade suprema, que não dividem em três pessoas, como os cristãos; reconheciam, pois, outrora a existência de outros deuses além do seu. Com efeito, segundo eles, os outros povos tinham também os seus deuses próprios, e os judeus acreditavam no poder sobrenatural desses deuses, sem ver neles de modo algum diabos; só que o seu amor-próprio nacional os fazia admitir que Jeová, [226] divindade dos judeus, era mais poderoso que todos os outros deuses. Por isso vemos aqui o Gênesis fazer ressaltar o poder maior do deus de José. Potifar, o copeiro, Faraó e os seus ministros, numa palavra, todos os egípcios que são postos em cena têm outra religião que não a do filho de Jacó; mas não abandonam os seus deuses porque José, inspirado por Jeová, seja mais clarividente que os sacerdotes do seu culto. Cada um conserva a sua crença, [227] visto que no espírito de cada um a fé de uns não está em contradição com a fé dos outros. José permanece fiel a Jeová, mesmo desposando a filha de um sacerdote de Ápis, o deus-boi, e viverá em boa harmonia com Asenate, sem que esta tenha de abraçar a religião judaica. Desse ponto de vista, este episódio da Bíblia é, pois, muito significativo. José não se aproveita da autoridade quase soberana que adquire para fazer proselitismo em favor da sua religião [228] pessoal; basta-lhe saber que o seu Jeová possui um poderio sobrenatural mais forte e mais extenso que o das divindades dos seus administrados. Agora, se confrontarmos o Alcorão muçulmano com a Bíblia hebraica, verificamos que os árabes e os judeus tinham um fundo comum de lendas, no qual foram beber os autores sagrados das duas religiões. Antes que o Gênesis fosse escrito, contava-se nessas regiões a maravilhosa história de José; mas ela variou nos seus pormenores, através das gerações e ao repetir-se entre os diversos povos saídos da Arábia. Assim, segundo o Alcorão, Potifar não era eunuco, e Asenate já vivia, era uma criança de berço, quando a sua mãe acusou José de ter querido violá-la. Essa menininha mostrou-se muito judiciosa desde os seus primeiros anos. Um dia, o seu pai falava do incidente, com o qual ficou muito tempo preocupado; tinha até guardado o famoso manto que a sua mulher arrancara a José e que se rasgara um pouco na luta. Um dos servidores aconselhou Potifar a perguntar à pequena Asenate o que ela pensava de tudo aquilo; a menina, que mal começava a falar, disse: «Escute, meu pai; se a minha mãe rasgou o manto de José pela frente, é uma prova de que José a queria tomar à força; mas, se o manto se acha rasgado por trás, é uma prova de que a minha mãe corria atrás de José.» (Taxil retoma aqui Voltaire, que atribui este relato ao Alcorão em “La Bible enfin expliquée”, 1776; mas a surata 12 tem apenas uma testemunha sem nome, um parente da esposa, de quem os comentadores muçulmanos fazem uma criança de berço, e é uma lenda judaica, o Midrash Abkir, que faz de Asenate aquela que desenganou Potifar) De qualquer modo, como se vê, Asenate estava predestinada a tornar-se Madame José. A Bíblia e o Alcorão estão de acordo em nos informar que Asenate foi uma esposa modelo. No decurso dos sete anos de abundância, ela teve de José dois filhos: o primeiro recebeu o nome de Manassés, e o segundo o de Efraim. Depois, sobrevieram os sete anos de carestia; mas os egípcios não tiveram de sofrer com isso, graças à clarividência de José, que mandara estabelecer celeiros nacionais, cheios de trigo que se conservou muito bem. Houve até para revender, e de todos os países vinham ao Egito comprar provisões; pois a fome assolava então toda a terra (ch. 41). Ora, os filhos de Jacó, à exceção de Benjamim, dirigiram-se ao Egito, a conselho de seu pai, para comprar trigo. Parece que José presidia em pessoa [229] a essas distribuições de víveres às caravanas que chegavam de todos os pontos da terra; como podia o primeiro-ministro dar conta, ele próprio, de semelhante tarefa? a Bíblia não o diz. O certo é que José não foi reconhecido por seus irmãos, mas que ele, sim, os reconheceu muito bem. Tratou-os com muita dureza, sem lhes revelar o seu nome, e sem que nenhum egípcio, durante a estada deles no país, tivesse pensado em dizer-lhes que o governador e benfeitor do Egito, o homem de Estado tão imensamente popular, era precisamente um dos seus compatriotas.
94. José, primeiro-ministro, impede a fome. José, guardando o incógnito, acusou os seus dez irmãos de serem espiões. Estes protestaram, como bem se pode imaginar. — Éramos doze irmãos, disseram eles; um de nós morreu, e o undécimo, que é muito novo, ficou junto de nosso pai. — Ora vamos! replicou José, viestes aqui como espiões, para reconhecer os lugares fracos por onde o vosso povo poderia apoderar-se do país. Não se vê bem como o povo hebreu, que se compunha então da família de Jacó, ao todo — já que Esaú, excluído da bênção especial, se tornara o chefe dos idumeus — teria podido apoderar-se do Egito, esse vasto reino poderoso e bem povoado, que provia, com as suas reservas de trigo, à alimentação das nações do mundo inteiro. Mas vejamos a continuação do discurso de José. — A fim de saber se dizeis a verdade, continuou ele, vou mandar meter-vos na prisão, e lá ficareis, à exceção de um só dentre vós, que irá buscar o irmãozinho de quem falais. Enfiou-os no calabouço (fr. “au bloc”, palavra de gíria militar: a cela do corpo da guarda, a prisão do soldado), mas todos os dez. Ao cabo de três dias, mandou trazê-los de novo à sua presença. — Refleti e mudei de ideia, disse-lhes ele. Um só dentre vós permanecerá aqui como refém. Ide-vos, pois, os outros, para a vossa terra, e levai o trigo que comprastes; mas não deixeis de voltar o mais cedo possível trazendo o vosso irmãozinho; senão, aquele que retenho morreria na prisão. Foi Simeão o escolhido como refém. Mandou acorrentá-lo diante dos outros nove, e despediu-os. Além disso, [230] tinha ordenado à sua gente que repusesse o dinheiro do pagamento do trigo nos sacos que eles levavam. No caminho, um dos irmãos de José, tendo aberto um saco para dar de comer ao seu jumento, ficou todo surpreso ao reencontrar ali o seu dinheiro; os outros também não se refaziam da surpresa, e do espanto passaram ao pavor. Voltando bem depressa a Canaã, contaram a Jacó tudo o que lhes acontecera. Jacó recusou-se, a princípio, a separar-se do jovem Benjamim. [231] Mas, quando o trigo do Egito se esgotou, decidiu-se a instâncias de Judá. — Se é necessário, disse ele, que eu envie este menino, fazei o que quiserdes. Tomai os melhores frutos desta terra, um pouco de resina, mel, estoraque, terebinto e hortelã. Levai também convosco o dobro do dinheiro que entregastes por ocasião da vossa primeira viagem; pois as quantias que reencontrastes nos vossos sacos deviam estar ali em consequência de algum erro. [232] Ei-los, pois, de novo no Egito. Quando José viu que Benjamim estava com eles, acolheu-os com marcado favor, libertou Simeão e deu-lhes um esplêndido festim. Quiseram devolver o dinheiro das primeiras compras de trigo; José recusou, dizendo que já recebera o que lhe cabia; era Deus, insinuou ele, quem lhes tinha posto aquele tesouro nos sacos.
95. José faz bom acolhimento aos seus irmãos, por causa de Benjamim. Não obstante, José, embora tivesse a alma boa e generosa, possuía um caráter inclinado à farsa. Enquanto os seus irmãos jantavam e faziam brindes ao magnânimo ministro de Faraó, ele saiu um instante da sala do banquete, e ordenou ao seu mordomo que escondesse a sua bela taça de prata na bagagem de Benjamim. Depois disso, deixou-os partir.
96. A taça escondida na mala de Benjamim. Mas, quando a caravana se afastou o bastante, enviou em seu encalço a gendarmaria, acompanhada do seu mordomo. Este, que sabia bem a sua lição, interpela os onze viajantes judeus e censura-os por terem pagado mal por bem. — Roubastes, diz-lhes ele, a mais preciosa taça do governador, «aquela na qual ele lê infalivelmente o futuro». (Gênesis 44:5) Isto, de passagem, informa-nos que José é o inventor da adivinhação pela borra de café. Os filhos de Jacó protestam e alegam que são incapazes de ter roubado uma taça de prata, eles que trouxeram de volta de Canaã as quantias que tinham achado nos seus sacos. Pedem para ficar como escravos no Egito se a taça reclamada for descoberta na bagagem de um deles, e até que se dê a morte àquele que tiver a taça. A revista geral efetua-se, e avalie-se a consternação dos nossos hebreus quando, aberto o saco do pequeno Benjamim, a gendarmaria avista nele o objeto procurado. Não havia que refugar; o delito era flagrante.
97. Benjamim e os seus irmãos presos por roubo. Reconduzidos ao palácio, os irmãos de José estavam desesperados. Felizmente para eles, este julgou que a mistificação tinha durado bastante. Deu-se a conhecer. Chorou-se de alegria. José declarou que perdoava tudo. Então, foi um regozijo inaudito, e não há necessidade de pôr os miolos à tortura para fazer ideia da festa que foi dada em honra dessa feliz conclusão.
98. José se dá a conhecer aos seus irmãos. [233] Há em tudo isto um pormenor bastante divertido: é que, no Gênesis, Benjamim é sempre tratado como um menininho; parece não ter ganhado idade, ter ficado criança. Contudo, se nos reportarmos à história do seu nascimento, que custou a vida a Raquel, é fácil calcular que Benjamim tinha, quando muito, quatro ou cinco anos menos que José. Ora, este tinha dezessete anos quando foi vendido por seus irmãos; o episódio de Tamar, que desposou sucessivamente dois filhos de Judá, deixa supor um período mínimo de vinte e cinco anos; José aproximava-se, pois, dos cinquenta, na época em que os seus irmãos o vieram encontrar no Egito. O pequeno Benjamim já não era uma criança de tenra idade, então! Mas a cronologia não parece ser o ponto forte da Bíblia, e, principalmente, do Gênesis. Aproximamo-nos, aliás, do fim deste primeiro livro da Sagrada Escritura, e abreviamos. Tudo o que precede é o resumo dos capítulos 42 a 45. Neles vemos ainda que Faraó ficou muito feliz ao saber que o seu primeiro-ministro tinha junto de si os seus irmãos. José pedira-lhes que fossem buscar o mais depressa possível Jacó e toda a família, propondo-se estabelecê-los na terra de Gósen, pelo menos durante os cinco anos de fome que ainda havia a sofrer. O rei aprovou esse projeto. «Faraó disse a José: Carreguem teus irmãos as suas bestas, e tornem a Canaã. — Dize-lhes que tragam vosso pai e as suas famílias; e que voltem para cá. E eu lhes darei todos os bens do Egito, e comerão o melhor tutano da terra. — Ora, tu tens o poder de mandar. Tomem carroças do meu reino para trazerem de volta as suas mulheres e os seus filhos. — Não lamentem os seus móveis; porque todas as riquezas do Egito serão deles.» (Gênesis 45:17-20) Se o velho pai Jacó ficou em júbilo com a notícia da existência e da glória de José, escusado é dizê-lo! Com isso, caiu desfalecido; e, quando voltou a si, exclamou: «Basta; meu filho José ainda vive; irei, e o verei antes que eu morra!» Não se pode deixar de achar bem extraordinário esse Faraó que promete dar a estrangeiros todos os bens do Egito; ao menos, não o acusarão de ingratidão para com José! [234] O velho pai Jacó veio, pois, ao reino onde o seu bem-amado filho era governador. José, montado no seu mais belo carro, foi ao encontro de Israel, e abraçaram-se chorando. Esta história é tão enternecedora que não se podem reter as próprias lágrimas ao lê-la, não é verdade?
99. Chegada de Jacó ao Egito. E este cálculo: «Todos os que vieram ao Egito com Jacó, saídos da sua coxa (o hebraico diz “coxa” para designar as partes genitais: isto é, gerados por ele), eram em número de sessenta e seis, sem contar as mulheres de seus filhos!» (Gênesis 46:26) [235] Retenhamos também isto: «José disse a seus irmãos e à família de seu pai: Quando Faraó vos mandar chamar diante de si e vos perguntar qual é o vosso ofício, responder-lhe-eis: — Somos pastores, e, como nossos pais, fomos criados nesta profissão desde a nossa infância: e direis isto para que possais habitar na terra de Gósen; porque os egípcios têm em execração todos os criadores de gado.» (Gênesis 46:33-34) [236] Quanto ao rei, disse a José: «Teu pai e teus irmãos vieram a ti; — todo o Egito está à tua disposição; faze-os habitar no melhor lugar da terra, na terra de Gósen; e, se entre eles houver alguns peritos e robustos, dá-lhes a intendência dos meus rebanhos.» (Gênesis 47:5-6) Faraó tem, pois, rebanhos, e vamos ver imediatamente que todo o seu povo também os tem; então, como podiam os egípcios detestar os criadores de gado? Jacó, apresentado a Faraó, abençoou o rei; o bom velho tinha então cento e trinta anos (Gênesis 47:7-9). José deu, pois, a seu pai e a seus irmãos a possessão do melhor lugar, chamado Ramessés, e forneceu víveres a todos; pois o pão faltava no mundo inteiro, e a fome assolava sobretudo o Egito e Canaã (Gênesis 47:11-13). Quereis conhecer a maneira como José administrava o reino? Saboreai. «José, tendo arrecadado todo o dinheiro da terra vendendo os trigos postos em reserva, acumulou esse dinheiro no tesouro do rei. — O dinheiro veio, pois, a faltar ao povo. Então os egípcios vieram a José: Dá-nos pão, disseram-lhe; é preciso que morramos de fome, porque já não temos dinheiro? — José respondeu: Trazei-me todo o vosso gado, e eu vos darei trigo em troca. — Os egípcios trouxeram, pois, todo o seu gado, e José deu-lhes pão em pagamento dos seus cavalos, pelos seus rebanhos de ovelhas, pelos seus bois e pelos seus jumentos.» (Gênesis 47:14-17) Estamos no terceiro ano de esterilidade, note-se bem; a seca é tal que o trigo já não cresce há três anos. Se a terra se recusa a produzir trigo, certamente também não devia produzir erva; então, de que se alimentaram todas essas reses? Mas, se havia, contudo, algum meio de fazer viver sem pastagens os rebanhos dos egípcios, que ideia esquisita têm estes de se desfazerem deles para obter a farinha de José! Teriam feito muito melhor negócio comendo as suas reses. Além disso, vendendo os seus rebanhos, nunca mais tinham com que lavrar a terra. Por outro lado, eis um ministro que, de qualquer modo, põe os súditos [237] do seu rei na impossibilidade de semear trigo. O que é mais surpreendente ainda é que o autor sagrado não diz uma palavra da inundação periódica do Nilo, e os críticos Herbert, Bolingbroke, Fréret, Boulanger (Nicolas-Antoine Boulanger, 1722-1759, engenheiro e filósofo, colaborador da Enciclopédia, autor de “L’Antiquité dévoilée par ses usages”), e acima de todos Voltaire, julgaram que essa omissão inexplicável bastava para demonstrar o caráter fantasioso da história de José e dos sete anos de seca; tudo isso é qualificado de puro romance: «Não é possível, dizem esses críticos, que o Nilo não tenha transbordado durante sete anos seguidos. Todo esse país teria mudado de face para sempre. Teria sido preciso que as cataratas do Nilo tivessem sido entupidas, e então toda a Etiópia não teria sido mais que um vasto pântano. Ou, se as chuvas que caem regularmente cada ano na zona tórrida tivessem cessado durante sete anos, o interior da África ter-se-ia tornado inabitável.» É evidente que semelhante calamidade pública teria tomado as proporções desses cataclismos que transtornaram o nosso planeta nos primeiros tempos da humanidade, e que dela teriam ficado alguns vestígios na história dos egípcios, povo anterior à nação judaica. «Acabado aquele ano, os egípcios voltaram a José no ano seguinte, e disseram-lhe: Não encobriremos a meu senhor que, não tendo já nem dinheiro nem gado, nada nos resta senão os nossos corpos e a terra. — Será preciso, pois, que morramos de fome diante dos teus olhos? Toma as nossas pessoas e as nossas terras, compra-nos por pão; seremos escravos de Faraó, e as nossas terras serão dele. Mas dá-nos também semente, para que vivamos; porque, se o cultivador morrer, a terra será reduzida a uma solidão desolada. — José comprou, pois, para Faraó todas as terras do Egito; porque os habitantes venderam cada um o seu campo, por causa da fome, que tinha aumentado. — E fez passar o povo para as cidades, de uma extremidade do reino à outra. — Só as terras dos sacerdotes não foram compradas; porque os sacerdotes deviam os seus campos à generosidade régia, e alimentavam-se graças a uma parte dos trigos postos em reserva que Faraó lhes mandava dar; pelo que os sacerdotes não foram obrigados a vender as suas terras. — Então disse José ao povo: Hoje vos comprei, a vós e às vossas terras, e pertenceis doravante a Faraó. [238] Agora, eis aqui semente, para que prepareis as colheitas futuras. — Mas a quinta parte de cada colheita pertencerá ao rei, e eu vos concedo as outras quatro, para que possais comer, vós e os vossos filhos, e semear de novo. — E eles responderam: Tu nos salvaste a vida; digna-te, meu senhor, olhar-nos sempre com bondade, e seremos sem pesar os escravos de Faraó.» (Gênesis 47:18-25) [239] Esta maneira de administrar um reino, longe de valer a José o título de benfeitor que a Bíblia lhe dá, faz dele, muito pelo contrário, um tirano ridículo e extravagante. Se essa história fosse verdadeira, se os povos tivessem acreditado na beneficência do governador do Egito nos primeiros tempos da carestia, a sua imbecilidade já não teria desculpa quando a exploração de que foram vítimas chegou a esse ponto. Quê! dizem os críticos citados há pouco, esse bom ministro [240] José torna escrava uma nação inteira! vende ao rei todas as pessoas e todas as terras do reino! É uma ação tão infame e tão punível como a de seus irmãos, que degolaram todos os siquemitas. Não há exemplo, na história do mundo, de semelhante conduta de um ministro de Estado. Um ministro que agisse assim, em qualquer país que fosse, provocaria logo uma sublevação geral e não escaparia à justa cólera das populações. Felizmente uma história tão atroz não passa de um conto estúpido. É absurdo demais apoderar-se de todas as reses, quando havia muito tempo a terra não produzia erva para alimentá-las. E, se ela tivesse produzido erva, teria podido produzir também trigo, não há como sair daí; porque, de duas uma: sendo o terreno do Egito essencialmente arenoso, só as inundações regulares do Nilo podem fazer crescer a vegetação; ou então, caso se admita a inadmissível cessação dessas inundações durante sete anos consecutivos, todas as reses devem ter perecido. Além disso, estava-se então apenas no quarto ano da pretensa esterilidade: de que teria servido dar sementes ao povo para nada produzir durante outros três anos? Esses sete anos de esterilidade são, pois, uma das fábulas mais incríveis que a imaginação do divino pombo inventou no Gênesis. O leitor terá notado também que deferência o autor sagrado dos judeus tem para com os sacerdotes egípcios: são os únicos que José poupa; as suas terras ficam livres quando a nação caiu na escravidão, e ainda por cima são alimentados à custa dessa infeliz nação. Ora, a Bíblia contém o ensino religioso que os supostos representantes de Deus se deram a missão de fazer penetrar nos cérebros do povo. Com este episódio, os ministros de Jeová inculcam, pois, a ideia de respeito para com a pessoa de quaisquer sacerdotes, mesmo de outras religiões. Os sacerdotes não se comem entre si (fr. “Les prêtres ne se mangent pas entre eux”, segundo o provérbio “les loups ne se mangent pas entre eux”, os lobos não se comem entre si: os maus não se prejudicam uns aos outros; o português diz “lobo não come lobo”). O pigeon-canard informa-nos em seguida que Jacó permaneceu dezessete anos no Egito, onde morreu, e que por conseguinte viveu ao todo cento e quarenta e sete anos (Gênesis 47:28). Dois capítulos inteiros, o 48 e o 49, são consagrados [241] às bênçãos que o patriarca distribuiu no seu leito de morte. Abençoa os seus doze filhos, reunidos à sua cabeceira; e, como avista no quarto dois homens que não conhece, pergunta: «Quem são, pois, estes?» E José responde-lhe: «São os meus dois filhos Efraim e Manassés, nascidos nesta terra do Egito antes que tu viesses para cá, meu pai.» Então Jacó diz: «Pois bem, faze-os aproximar-se, peço-te, para que eu os abençoe.» Havia dezessete anos que o patriarca habitava o reino, e José ainda não tinha pensado em lhe apresentar a sua família! As bênçãos dadas por Jacó aos seus filhos não foram isentas de alguns reproches. Assim, Rúben, que tinha corneado o pai, perdeu nesse dia o seu direito de primogenitura. «Rúben, disse o patriarca, tu és o meu primogênito, a minha força e o princípio do meu vigor; tu és grande em dignidade e grande em força muscular. Mas tu transbordaste como a água, e não terás a preeminência; porque subiste sobre uma das mulheres de teu pai e derramaste a tua semente no meu leito (fr. “répandu ta semence”: a Bíblia de Ostervald traz “tu es monté sur la couche de ton père, et tu as souillé mon lit”, subiste ao leito de teu pai, e contaminaste a minha cama; a semente, o “uma das mulheres” e, mais acima, a força “muscular” são de Taxil).» (Gênesis 49:3-4) Também nesse dia, o velho pai Jacó deu claramente a entender que tinha sido partidário do casamento da sua pequena Diná com o príncipe Siquém e que no seu íntimo tinha desaprovado o grande massacre executado por Simeão e Levi; porque não transferiu para eles o direito de primogenitura tirado a Rúben, e até estigmatizou com severidade as suas violências. «Simeão e Levi, disse ele, são irmãos, e irmãos nas suas violências; não entre a minha alma no seu conselho secreto! não seja a minha glória unida à sua reunião! porque mataram gente por cólera, e arrebataram rebanhos de bois por seu prazer. Maldita seja a sua cólera, pois foi violenta; e o seu furor, pois foi duro! Eu os dividirei em Jacó, e os espalharei em Israel.» (Gênesis 49:5-7) Os teólogos qualificam de proféticas todas as palavras pronunciadas por Jacó no seu leito de morte: contudo, a sequência da história nos mostrará que os supostos descendentes de Levi não foram os mais mal aquinhoados; porque a eles foi dado o sacerdócio em Israel, com todos os seus benefícios e privilégios. Em boa lógica, o preferido deveria ter sido José, que Jacó tivera como primogênito da sua querida Raquel, José, que tinha sido a glória da sua velhice, que lhe tinha dado [242] tanta alegria, e que tinha enriquecido toda a família. Nada disso, o preferido foi Judá; Judá, que tinha sido o instigador da venda de José aos mercadores midianitas, Judá, o incestuoso, teve a precedência sobre o virtuoso José. Foi a ele que o velho pai Jacó conferiu o patriarcado, que era a parte divina da sua herança. «Judá, quanto a ti, pronunciou Jacó, os teus irmãos te exaltarão; a tua mão pesará sobre o pescoço dos teus inimigos, e todos os filhos de teu pai se prostrarão diante de [243] ti. Judá, tu és um leão novo. Ó meu filho, tu voltaste, depois de ter despedaçado a tua presa; tu te deitaste, como um leão sempre cheio de força, mesmo quando está velho. O cetro não será tirado de Judá, nem a legislatura, até que o Siló (fr. “Sçilo”, nome: assim no texto de 1904, pelo “Scilo” da Bíblia de Ostervald; a tradição judaica, como a cristã, vê nele o Messias) venha; e a ele pertence governar a assembleia dos povos. Ele amarra à videira o seu jumentinho, e o filho da sua jumenta a uma cepa muito boa. Lavará a sua túnica no vinho, e o seu manto no sangue das uvas. Tem [244] os olhos vermelhos de vinho e os dentes brancos de leite.» (Gênesis 49:8-12) Os outros tiveram bênçãos bastante banais. Quanto a José, se não foi o sucessor de Jacó no título de patriarca, teve ao menos boas palavras: «O Deus forte de teu pai te ajudará, e o Todo-Poderoso te cumulará do alto com as bênçãos do céu e de baixo com as bênçãos do abismo, e terás também as bênçãos dos peitos e da madre da mulher.» (Gênesis 49:25) Jacó, por fim, fez os seus filhos prometerem que transportariam o seu caixão para fora do Egito e o enterrariam na caverna de Macpela, na terra de Canaã, junto de Abraão, Sara, Isaque, Rebeca e Leia. «E, quando Jacó acabou de dar as suas ordens aos seus filhos, recolheu os seus pés no leito, e expirou.» (Gênesis 49:33) Fez-se ao patriarca polígamo um enterro de primeira classe, embalsamamento incluído e transporte para Canaã. A crer no capítulo 50 e último, os egípcios guardaram luto durante setenta dias.
100. Magníficas exéquias de Jacó. José viveu até o seu fim nas grandezas, sustentando os seus irmãos e as famílias deles; viu em redor de si os seus netos e os seus bisnetos. Morreu com a idade de cento e dez anos. E eis acabado o Gênesis. Passamos, agora, ao Êxodo. CAPÍTULO 7
O Êxodo é o livro que relata a saída do Egito e o longo passeio dos hebreus pela península do Sinai; completa-se com o Levítico, os Números e o Deuteronômio. Sabe-se que essa grande viagem do povo judeu durou quarenta anos. Quem lança os olhos sobre um mapa geográfico que mostre a Arábia Pétrea e a Palestina percebe facilmente o que foi essa peregrinação para sempre famosa. Em resumo, os hebreus deixaram o Egito em Baal-Zefom, que é hoje Suez — e é esse, supostamente, o lugar [245] onde passaram o mar Vermelho; — seguiram a costa oriental do mar Heroopolita (golfo de Suez) e desceram até Refidim, atravessando o maciço do Sinai; nessa região sul da península, avançaram para leste até Hazerote (hoje Aïn-el-Hadhrah); dali, subindo de novo para o norte até o Djebel-Halal, caminharam em seguida mais para leste ainda, para se dirigirem na direção do mar Morto, que contornaram pela direita, chegando por fim a Jericó. Com o auxílio de um mapa moderno, determina-se com a maior facilidade a posição exata dos três pontos extremos desse itinerário: Baal-Zefom, ponto de partida, está a 30° de latitude norte e a 30° 12' de longitude leste (longitudes contadas, como nos mapas franceses da época, a partir do meridiano de Paris, situado a 2° 20' a leste do de Greenwich: um mapa de hoje situa, pois, Suez a 32° 33' e Jericó a 35° 27' de longitude leste); Hazerote, o ponto extremo sudeste da viagem, está a 28° 45' de latitude norte e a 32° 10' de longitude leste; Jericó, ponto de chegada, está a 31° 50' de latitude norte e a 33° 7' de longitude leste. Por conseguinte, a distância entre esses três pontos extremos não é enorme; aliás, todo o mundo pode verificar. Pois bem! que representa, então, essa lendária viagem? com que itinerário moderno se poderia compará-la, para fazer ressaltar melhor o ridículo acabado do relato bíblico?... A memorável marcha dos hebreus atrás de Moisés e Josué equivale EXATAMENTE a uma viagem a pé que se fizesse partindo de Paris para descer a sudeste até Dijon e subir depois a nordeste até Liège, na Bélgica. Paris, Dijon e Liège dão, no globo, a mesma distância geométrica que Baal-Zefom, Hazerote e Jericó. Um aleijado sem pernas não precisaria de três meses para cumprir esse percurso, e descansaria frequentemente pelo caminho! Os israelitas gastaram nisso quarenta anos. Inclinemo-nos, e sorriamos diante dessa colossal patranha que o pigeon-canard fez mais uma vez engolir aos devotos mistificados. Mas os crentes nada examinam e engolem tudo. Se ao menos se dessem ao trabalho de refletir um pouco, depois de terem lido o Êxodo, achariam pelo menos espantoso que o autor desse livro, que diz ter sido criado no Egito e ter vivido lá muito tempo antes de arrastar os seus compatriotas a sair de lá, não tenha uma palavra a respeito dos monumentos, dos costumes, das leis, da religião, da política, da história desse país tão afamado e então em plena civilização; porque, por mais [246] posterior que seja o reino do Egito ao vasto império das Índias e ao da China, o certo é que os egípcios contemporâneos do pretenso Moisés ocupam o primeiro lugar entre as nações civilizadas do nosso Ocidente; nessa época floresciam Tebas e Mênfis, cuja existência o autor do Êxodo parece ignorar, já que nem sequer fala dessas maravilhosas e opulentas cidades, já que os seus nomes lhe parecem ser desconhecidos. Quanto aos poderosos monarcas [247] que reinavam então, o autor sagrado chama-os todos indiferentemente Faraó, o que é um título, e não um nome; o «faraó» é o rei egípcio, como um rei da Prússia é um «könig», como uma rainha da Inglaterra é uma «queen». O pretenso Moisés, falando de diferentes reis do Egito, atribuindo-lhes aventuras em tempos situados a vários séculos de distância e não achando para designar uns e outros senão o nome de Faraó, assemelha-se [248] a um pseudo-historiador que, em relatos de fantasia referentes ao império russo em diversas épocas, citasse constantemente «Sua Majestade Czar», para designar os imperadores Ivã, o Terrível, Pedro, o Grande, e Nicolau I, cujos nomes ignorasse; esse historiador grotesco seria um desastrado, de quem todos ririam. Ora, como se poderia levar mais a sério o autor do Gênesis e do Êxodo? Conhece e cita os nomes pessoais de minúsculos régulos, quando se trata de reinos sem história, isto é, absolutamente imaginários, tais como os de Sodoma, de Gomorra e de Gerar; mas, quando é o soberano de um reino real, histórico, importante, que ele põe em cena, como o do Egito, então a sua ciência torna-se modesta a ponto de não ousar dizer se o faraó de que fala é Tutmés, Amenófis ou Hórus. Em resumo, ele especifica, quando crê que nenhuma verificação das suas asserções é possível; fica no vago, quando a grande questão para ele é não trair a sua ignorância por algum lamentável quiproquó, que correria o risco de ser um dia demasiado facilmente demonstrado. Os teólogos, que proclamaram que o Pentateuco é a mais pura expressão da verdade, não previam as descobertas dos Champollion, dos Wilkinson, dos Lepsius e outros sábios egiptólogos, quando fixaram as datas da cronologia do mundo baseando-se na Bíblia. Assim, segundo a Vulgata, isto é, segundo São Jerônimo, a criação do mundo seria do ano 4004 antes de Cristo, e o dilúvio universal seria do ano 3296; e todos os Padres da Igreja opinaram com o barrete (fr. “opiner du bonnet”, locução: aprovar sem refletir; nas antigas assembleias, quem nada tinha a dizer contentava-se em tirar o barrete para se juntar ao parecer precedente). Ora, Menés, chefe militar egípcio, que fundou a primeira dinastia conhecida, subtraindo o seu país à dominação suprema da casta sacerdotal, realizou essa revolução 5.400 anos antes da era cristã, ou seja, 1.400 anos antes da criação e 2.100 anos antes do dilúvio. Os teólogos dão-nos também a data em que José, sendo primeiro-ministro de um faraó, estabeleceu Jacó e a sua família na terra de Gósen; foi em 1962 antes de Cristo: e os hebreus permaneceram quatrocentos e trinta anos no Egito; a sua saída é situada no ano 1533, ainda segundo os teólogos e a Bíblia. Mas, hoje, possuímos, trouxemos à luz e deciframos os monumentos históricos do Egito; lemos [249] essa história escrita na pedra dos templos e dos obeliscos, e a história desse período lá se encontra, estabelecendo os reinados e os grandes feitos dos faraós, notadamente o pilone do templo de Karnak, descoberto em Tebas, que enumera as 115 cidades submetidas pelo faraó Tutmés III, depois da sua vitória de Megido; conhecem-se, e em pormenor, as quinze campanhas sucessivas e sempre vitoriosas empreendidas na Ásia por esse príncipe. Ora, esse reinado glorioso, que a ciência dos hieróglifos iluminou com uma luz tão viva, brilha no meio dos séculos em que os filhos de Jacó estavam supostamente no Egito; e nada, nesses monumentos, nada, absolutamente nada relata o famoso governo de José; nenhum desses faraós pensou em inscrever, nos anais de pedra do reino, a celebridade do seu Richelieu!... Melhor ainda, o faraó que reinava na época em que, segundo o autor sagrado, os hebreus deixaram o Egito, e, por conseguinte, aquele que vamos ver daqui a pouco tragado pelas ondas do mar Vermelho, perecendo miseravelmente com todo o seu exército, esse faraó, se tomarmos as datas bíblicas adotadas pelos teólogos, não pode ser senão Amenófis III. Ora, a sua história está escrita por completo nos monumentos antigos, e não concorda de modo nenhum com a narração do Êxodo. Esse príncipe pertencia àquela valente raça dos faraós da décima oitava dinastia, soberanos poderosos e conquistadores ilustres, que deram ao império egípcio um esplendor e uma extensão que só foram mantidos pela dinastia seguinte; conquistaram a Etiópia, toda a terra dos árabes, a Mesopotâmia, a terra de Canaã, tomaram Nínive e a ilha de Chipre, tiveram por tributários os babilônios, os fenícios, os armênios; numa palavra, o êxito das suas armas estendeu-se muito longe na Ásia ocidental. Tutmés IV, pai de Amenófis III, não perdeu o fruto das conquistas do grande Tutmés; há monumentos que o representam reinando gloriosamente em 1550 antes de Cristo, dezessete anos antes da época em que a Bíblia situa a saída dos hebreus do Egito. Quanto a Amenófis III, os testemunhos históricos dos seus triunfos abundam: foi ele quem fundou o templo de Luxor; foi em sua honra que se ergueu em Tebas a estátua tão conhecida pelo nome de colosso de Mêmnon, [250] estátua que o representava e que emitia sons harmoniosos quando os raios do sol nascente vinham feri-la; temos a longa lista dos reis e dos povos que estavam submetidos a esse faraó, morto em plena glória no seu trono, e de modo algum afogado no mar Vermelho, mas suntuosamente inumado numa das pirâmides. No ano em que o Êxodo o faz perecer nas ondas obedientes à varinha de Moisés, ele acabava a conquista da Abissínia, e mais tarde fazia ainda grandes [251] expedições na Ásia; morreu tão pouco nessa época que, enquanto o Êxodo passeia os judeus pela península do Sinai, ele mandava construir o magnífico palácio de Sholeb, na alta Núbia, e a parte sul do grande templo de Karnak, em Tebas. Deixou o seu imenso império a seu filho Hórus, que castigou uma revolta dos abissínios e continuou as obras de seu pai. Eis a história; ela contradiz terminantemente a Bíblia. Essas considerações preliminares eram úteis. Vamos, [252] agora, passar rápida revista à lenda de Moisés. Portanto, no quarto século depois da instalação de Jacó e Cia. em Gósen, os sessenta e seis hebreus tinham-se multiplicado prodigiosamente, e o rei de então tinha esquecido completamente os serviços prestados outrora por José ao Egito. Muito cruel, até, era Faraó (continuaremos a chamá-lo pelo nome que lhe dá o autor sagrado, e que não é um nome); mandou chamar as duas parteiras judias, Mme Sifrá e Mme Puá, que tinham toda a clientela das suas compatriotas, e ordenou-lhes que, quando fizessem um parto israelita, estrangulassem os meninos. As duas aparadeiras apressaram-se a não obedecer a Faraó, e, quando este lhes perguntou por que deixavam viver os filhos varões, responderam: «As mulheres judias não são como as vossas egípcias; conhecem a arte de dar à luz e livram-se por si mesmas, antes que nós tenhamos chegado.» (Êxodo 1:19) Então Faraó promulgou um édito, que decretava que todo filho varão nascido de um israelita deveria ser lançado ao rio logo após o seu nascimento.
102. Édito que ordena a morte dos filhos varões. Houve, como bem se pode imaginar, uma grande desolação nas famílias judias. As prescrições do édito podiam ser impostas tanto mais facilmente quanto os infelizes descendentes de Jacó se viam reduzidos a uma espécie de escravidão; eram tratados muito duramente pelos funcionários egípcios, já não se pertenciam, por assim dizer, e eram obrigados a executar os trabalhos mais penosos. (Êxodo 1:11-14)
101. Trabalhos penosos dos israelitas. Ora, eis que uma mãe, que era da família de Levi, escondeu durante três meses o seu filho; tinha-o achado «formoso». Mas, não podendo escondê-lo por mais tempo e temendo uma denúncia, tomou um cesto de juncos, que untou de betume e de pez, pôs nele o bebê, e foi colocar o berço à beira do rio, entre os caniços. Em seguida, disse à irmã mais velha da criança que ficasse observando a alguma distância. Nesse ínterim, a filha de Faraó, acompanhada das suas aias, veio banhar-se no Nilo.
103. Moisés exposto no Nilo. O autor sagrado descuida-se de louvar a coragem da princesa, e é um esquecimento lamentável; estando o Nilo infestado de crocodilos, esse banho merece a admiração do leitor. Além disso, a corte residia em Mênfis, e de Mênfis à terra de [253] Gósen, morada das famílias judias, há mais de cinquenta léguas. Seja como for, a princesa chegou muito a propósito. Como nada se faz senão pela vontade de Jeová, foi, pois, com a sua permissão que todos os outros pequenos judeus tinham sido afogados no Nilo e devorados pelos crocodilos, e foi também em virtude dos grandes projetos divinos que só esse bebê ia ser salvo. Foi papai Bom Deus, evidentemente, quem tinha mandado a filha de Faraó banhar-se tão longe e quem lhe tinha inspirado o desprezo pelos terríveis anfíbios. Aconteceu, pois, o que a Providência tinha determinado: a princesa deu com o berço flutuante, comoveu-se com os vagidos da criança e compreendeu de pronto que era um pequeno judeu; nisso, a irmã mais velha se apresenta e propõe ir buscar uma ama; a princesa aplaude essa excelente ideia; quem aparece é a mãe; a filha de Faraó confia-lhe a criança para amamentar, declara que pagará o salário da ama, e vai-se embora, toda feliz com a sua boa ação.
104. O berço de Moisés encontrado pela filha do rei. Mais tarde, quando o menino foi desmamado, a mãe o levou de volta à princesa. Esta, que se afeiçoara a ele, deu-lhe o nome de Moisés, o qual quer dizer «salvo das águas», e advogou tão bem a sua causa junto do rei, que esse monarca, apesar de tão cruel, consentiu em fazer criar o menininho na sua corte; a Bíblia diz até que Faraó o adotou por seu filho.
105. Infância de Moisés na corte de Faraó. Moisés cresceu, revelando-se um pequeno prodígio desde a infância; maravilhava o rei, a sua filha, os cortesãos; um brilhante futuro lhe estava reservado. Já rapaz, ia visitar os seus compatriotas hebreus: um belo dia, ao ver um egípcio bater num judeu, matou o egípcio e enterrou-o na areia; depois disso, refletindo nas consequências desse homicídio, fugiu e escondeu-se na terra de Midiã. Essa região estava situada a sudeste da península do Sinai, e não se deve confundi-la com duas outras terras do mesmo nome, de que se falará mais adiante e que se encontravam, uma ao norte do mar de Elate (hoje golfo de Akabah), a outra a leste do mar Morto; pois, quem confundisse todas essas terras de Midiã poderia crer que o Espírito Santo perdeu o mapa (fr. “perdre la carte”, locução familiar: desnortear-se) e é um perfeito disparatador em geografia. Em Midiã nº 1, Moisés travou conhecimento com um sacerdote idólatra, chamado Jetro, papai de sete filhas, das quais uma, [254] a bela Zípora, cativou o coração do fugitivo. Casamento, longa lua de mel, e eis Moisés pai de um pirralho que foi chamado Gérson. Durante esse tempo, Faraó passava ao estado de múmia e tinha um sucessor que continuou a atormentar os pobres judeus numa servidão cada vez mais dura. Então Jeová, que, assim como Moisés, já não pensava no infortúnio dos hebreus, lembrou-se da aliança que tinha firmado com Isaque e Abraão, Jacó. (Êxodo 2) [255] O sacerdote Jetro era proprietário de um rebanho, e às vezes encarregava o genro de levá-lo a pastar. Numa dessas excursões, Moisés foi até o monte Horebe, que faz parte do maciço sinaítico, sem ser o próprio Sinai. De repente, uma sarça se inflamou, e papai Bom Deus apareceu no meio desse fogo; o que havia de mais curioso, ao que parece, é que a sarça estava toda em chamas, sem se consumir. O Eterno ordenou a Moisés, pasmado, que se descalçasse; o outro [256] obedeceu. Deus lhe anunciou então que lhe dava uma missão, que teria de ir ter com Faraó, para convidá-lo a deixar os hebreus partir do Egito, mas que este só se decidiria a isso depois de ter visto certo número de milagres operados por ele, Moisés. Teria ainda de reconfortar os seus compatriotas. Moisés pediu à aparição que lhe dissesse o seu nome. E disse Deus a Moisés: «Chamo-me Eheieh. Dirás aos filhos de Israel: Eheieh me envia a vós.» (Êxodo 3:14) Papai Bom Deus, entre outras recomendações a respeito da próxima partida do Egito, fez esta: «Cada mulher israelita pedirá emprestados à sua vizinha egípcia ou à sua hóspeda vasos de prata e de ouro, assim como belas vestes; vossos filhos e vossas filhas os levarão, e assim despojareis os egípcios.» (Êxodo 3:22) (“Eheieh” — o hebraico que a Almeida traduz por “EU SOU”, como em “EU SOU O QUE SOU”. Taxil retoma aqui palavra por palavra a tradução de Voltaire, que não traduz esse nome: o deus dá um nome que ninguém pode compreender.)
106. A sarça ardente. Depois, como Moisés manifestou o seu temor de que nem os judeus nem Faraó acreditassem na sua palavra, Jeová-Eheieh conferiu-lhe, ali mesmo, o dom dos milagres. Um cajado que o genro de Jetro tinha na mão mudou-se em serpente e tornou depois a ser cajado.
107. O cajado de Moisés é mudado em serpente. «Disse-lhe Deus mais: Mete agora a tua mão no teu seio. E ele obedeceu, e tirou do seu seio a sua mão toda coberta de uma lepra branca como a neve. Depois, por ordem de Deus, tornou a meter a sua mão no seu seio, e ela tornou a ser carne sã como dantes.» Jeová fez saber também a Moisés que lhe dava o poder de mudar a água em sangue e o sangue em água. Moisés tinha ainda alguma hesitação: explicou a Deus que, sendo gago, seria um mau orador para pregar ao povo; Deus encolerizou-se, não o curou de modo algum da sua gagueira; mas respondeu-lhe que, já que assim era, associava à sua missão Arão, seu irmão mais velho. Observemos, de passagem, que Arão não se escondia no Egito; portanto, a mãe o tinha salvado, sem que se saiba como. Após essa aparição, Moisés despediu-se do sogro e levou consigo a mulher e os filhos. «E aconteceu, no caminho, que Deus o encontrou numa taberna e o quis matar; mas Zípora tomou logo um cutelo afiado, cortou o prepúcio de seu filho, lançou-o por terra, e Deus ficou desarmado.» (Êxodo 4:24-25) Arão, prevenido por Jeová, foi ao encontro de Moisés, [257] soube por ele todos os pormenores da missão de que estavam investidos, e desde então foram os dois ter com Faraó. O rei não fez caso algum dos avisos que lhe deram os dois irmãos; pelo contrário, as vexações contra os israelitas redobraram (Êxodo 5). Moisés assegurou aos seus compatriotas que, pela vontade de Deus, recobrariam a liberdade (Êxodo 6). Moisés tinha oitenta anos e Arão oitenta e três, quando falaram a Faraó para intimá-lo a autorizar os israelitas a deixar o Egito; e como o rei se recusava a ouvir razões, Arão lançou a sua vara diante dele. No mesmo instante, a vara transformou-se em dragão. Os magos da corte, chamados a toda a pressa, lançaram por sua vez as suas varas, que se tornaram outros tantos dragões; mas o dragão de Arão devorou os dragões dos magos. Esse milagre deixou Faraó tão pouco disposto como antes a restituir a liberdade aos hebreus. Então Moisés feriu o Nilo com um golpe de varinha, e as águas do rio mudaram-se em sangue; a Bíblia acrescenta que os magos do rei fizeram outro tanto. Os peixes morreram; os egípcios cavaram em redor do Nilo, mas sem sucesso, a fim de ter água para beber; o autor sagrado descuida-se de dizer como os judeus a conseguiram (Êxodo 7). Arão e Moisés presentearam ainda o Egito com outras pragas. Houve uma invasão de rãs; e os magos da corte, picados no seu amor-próprio, realizaram o mesmo prodígio; de tal sorte que já não se viam senão rãs por toda parte; era como uma chuva, um dilúvio de rãs. Às rãs sucederam os piolhos; o Egito ficou inteiramente coberto deles; depois fervilharam outros insetos, que a Bíblia não designa mais claramente. Em contrapartida, o autor sagrado informa-nos que os magos não puderam executar o milagre dos piolhos. Rãs, piolhos e insetos inominados desapareceram; mas o coração de Faraó estava mais endurecido que nunca, e ele não deixou partir o povo judeu (Êxodo 8).
108. Pragas do Egito: a chuva de rãs. A quinta praga consistiu na morte súbita de todos os cavalos, jumentos, camelos, bois e ovelhas dos egípcios. Não tinha acabado. Sexta praga: Moisés e Arão tomaram cinza e vieram espalhá-la diante do rei; logo todos os egípcios ficaram cheios de úlceras. Sétima praga: furacões de granizo e de fogo que destruíram todas as ervas e [258] todas as árvores dos campos; só a terra de Gósen, onde estavam os israelitas, foi poupada. Dessa vez, Faraó consentiu na partida dos judeus. Moisés estendeu a mão; os furacões cessaram, e... Faraó retirou a sua palavra (Êxodo 9). Oitava praga: grande vento, trazendo bilhões de gafanhotos, que roeram o pouco de verdura que tinha escapado ao granizo. Arrependimento de Faraó; vento que leva para o mar Vermelho todos os gafanhotos; Faraó volta [259] outra vez atrás no que disse e retém os israelitas. Nona praga: o Egito é coberto de trevas tão espessas que se podem tocar com a mão (sic). Faraó decide-se a deixar partir Moisés e os seus compatriotas; mas quer ficar com as ovelhas e os bois deles, que Deus tinha preservado dessa múltipla avalanche de flagelos (Êxodo 10). Para acabar de vez, Jeová enviou anjos exterminadores, com a ordem de massacrar os primogênitos dos egípcios. Ora, [260] a fim de evitar qualquer erro, visto que o programa estipulava que o extermínio se daria de noite, comeu-se um cordeiro em cada família judia e, na porta das suas casas, os israelitas fizeram uma pequena marca com o sangue do cordeiro; foi a instituição da Páscoa (Êxodo 12:12-13). Disto resulta que os anjos, que passaram à meia-noite por todas as cidades do Egito, tinham uma espada para o massacre e uma lanterna para examinar se as portas das habitações estavam ou não marcadas com o sangue do cordeiro; não somos nós, é a Bíblia que materializa assim os anjos. Ah! como o divino pombo deve ter rido ao ditar tais burradas!...
109. Os anjos exterminadores. Todos os primogênitos egípcios, pois, foram degolados, «desde o príncipe filho mais velho de Faraó, que lhe devia suceder no trono, até os primogênitos dos escravos e dos presos que estavam nos calabouços. E o rei naquela noite se levantou; porque houve um clamor de desolação em todo o Egito.» Faraó mandou chamar imediatamente Moisés e Arão, e disse-lhes: Parti o mais depressa possível, vós e os filhos de Israel. «Então, os hebreus fizeram o que Deus lhes tinha ensinado pela voz de Moisés: pediram emprestados todos os vasos preciosos que puderam, assim como as mais belas vestes; e o Eterno tornou os egípcios fáceis em lhes emprestar todas as coisas de valor; de sorte que despojaram os egípcios.» (Êxodo 12:35-36)
110. Os israelitas obtêm o direito de deixar o Egito. O Êxodo informa-nos aqui que as famílias judias, cuja morada nunca deixara de ser a região de Gósen desde a vinda de Jacó, se concentraram em Ramessés para a partida. Dali marcharam até Sucote; eram em número de seiscentos mil homens válidos, sem contar as mulheres e as crianças; uma multidão considerável de gente de todas as condições juntou-se a eles, e tinham bois em quantidade prodigiosa e inumeráveis rebanhos (Êxodo 12:37-38). Moisés tinha levado consigo os ossos de José (Êxodo 13:19). Isto permite calcular aproximadamente a quantas vítimas montou o massacre atribuído, pelo pombo, aos anjos de Jeová. Já que os que partiram de Ramessés eram seiscentos mil «em armas» (Êxodo 13:18), isso supõe seiscentas mil famílias. A terra de Gósen é a quadragésima parte do Egito, desde Meroé até Pelúsio; o resto [261] do reino continha, pois, vinte e quatro milhões de famílias; assim, Deus matou, pela mão dos seus anjos, esse número horrendo de primogênitos! De Sucote os hebreus foram a Etã, onde acamparam. Depois chegaram a Baal-Zefom (Suez), e ali de novo acamparam, junto ao mar (Êxodo 14:2). Observe-se que o lugar designado pela Bíblia não é precisamente o mar Vermelho, mas o fundo do golfo de Suez; se havia água a atravessar, era a do canal dos faraós, que existia então, indo do Nilo aos Lagos Amargos. Quando Moisés e os seus compatriotas já se tinham posto a caminho, Faraó, cujo espírito era decididamente de uma mobilidade extravagante, lamentou ter-se privado daqueles excelentes súditos que lhe tinham valido tantos flagelos. «Fez atrelar o seu carro, os seiscentos carros dos seus generais, e todos os carros do Egito, nos quais se colocaram os melhores capitães» (Êxodo 14:6-7); pôs-se à frente de todo o seu exército, e o seu próprio povo veio com ele; «a cavalaria egípcia, os carros dos chefes e o exército alcançaram os hebreus em Pi-Hairote, junto a Baal-Zefom» (v. 9). Pergunta-se de onde vinham essas parelhas e toda essa cavalaria, já que a quinta praga tinha matado, sem uma única exceção, os cavalos, jumentos, camelos e bois dos egípcios. No primeiro momento, os israelitas ficaram inquietos; mas Moisés os fez passar depressa o mar a pé enxuto: com um simples golpe de varinha, tinha separado as vagas.
111. Os israelitas passam o mar Vermelho a pé. Faraó, vendo o prodígio, pensou que aquele caminho aberto através das ondas era igualmente bom para ele. Meteu-se por ele com o seu exército; mas, eu te dou disso! Moisés deu um novo golpe de varinha enquanto os egípcios estavam bem no meio do mar. «Então, as águas se reuniram com ímpeto e cobriram os carros, a cavalaria e todo o exército de Faraó; e nem um só deles ficou.» (Êxodo 14:28)
112. O exército egípcio é tragado. Notemos que Faraó não tinha saído em perseguição dos hebreus para exterminá-los, mas para cercá-los e reconduzi-los à servidão no seu reino. Como estes contavam entre si seiscentos mil homens válidos e armados, pode-se, considerando os velhos papais, as mamães, as esposas, as irmãs e os irmãos pequenos, avaliar o conjunto dos emigrantes em cerca de [262] três milhões de pessoas. Para capturar semelhante população, eram necessárias forças muito mais numerosas. Além disso, segundo o cálculo tão lógico feito há pouco, o total das famílias egípcias cifra-se aproximadamente em vinte e quatro milhões; contando um soldado por família, o exército de Faraó deve ter sido de vinte e quatro milhões de combatentes. É verdade que Deus já tinha matado o mais velho de cada família; mas os mais novos podiam estar em idade de pegar em [263] armas; e, aliás, esse projeto de perseguição suscitou um grande entusiasmo, já que o autor sagrado nos diz que o povo acorreu em massa para acompanhar o seu rei. Não esqueçamos os egípcios, a quem os nossos fugitivos acabavam de gatunar vasos preciosos e belas vestes; esses não devem ter hesitado em lançar-se atrás dos seus ladrões. Mas reduzamos os números à metade, se quiserdes: no mínimo, doze milhões de egípcios foram afogados com Faraó. [264] Dirão talvez que, se nenhum autor egípcio jamais soprou palavra desse desastre tão milagroso quanto horrendo, nem das dez pragas que devastaram o reino, foi por amor-próprio nacional. Concedamos. Mas as outras nações do mundo, hein? como não tiveram conhecimento de tão terríveis acontecimentos? Eis, no entanto, um gigantesco afogamento que desobrigou de um só golpe os cento e quinze príncipes tributários do faraó Amenófis. Quê! nem mesmo Heródoto, a quem a antiguidade chamou «o pai da História» e que recolheu tantos fatos relativos ao velho Egito, visitado por ele a fundo; Heródoto, que narrou as façanhas de Sesóstris, que falou da estátua de Amenófis, o colosso de Mêmnon, não teria conhecido o fim trágico desse príncipe e o afundamento do seu exército!... Esse silêncio geral dos historiadores daqueles tempos remotos é pelo menos tão milagroso quanto o próprio prodígio. Os israelitas viram, pois, a destruição dos seus inimigos. Se aceitarmos o fato, podemos acrescentar que os descendentes de Jacó riram tanto e tanto da aventura, que vários com isso ficaram corcundas (fr. “devinrent bossus”, da locução familiar “rire comme un bossu”, literalmente “rir como um corcunda”: rir muito e com vontade; Taxil a toma ao pé da letra). Em todo caso, o capítulo 15 do Êxodo informa-nos que Miriã, irmã de Moisés e de Arão, tomou um tambor na mão, e que todas as mulheres, pegando tambores e flautas, dançaram de alegria com ela; esse capítulo nos faz saber também que Moisés improvisou incontinenti um cântico (não diz em que língua) e que todo o Israel o cantou a uma só voz. Não percamos de vista que cantores e dançarinas formavam um coro de três milhões de pessoas; letra e música foram aprendidas no mesmo instante. Peço-vos que vos figureis esse orfeão executando essa cantata. Sapristi! como aquilo devia ser belo!... Eis os nossos hebreus em marcha na Arábia Pétrea, assim chamada porque nela quase só crescem pedras, pedregulhos. O objetivo da viagem era a terra de Canaã, sempre cobiçada pelos seus antepassados; por que não se estabelecerem nela por fim, agora que eram numerosos?... Aliás, Moisés lhes tinha afirmado, pela palavra do Senhor, que aquela terra de Canaã era de uma fertilidade espantosa. O difícil era encontrá-la; pois não havia estrada nenhuma, e a bússola ainda não estava inventada. Felizmente uma nuvem celeste pôs-se [265] à frente do povo judeu e lhes mostrou o caminho noite e dia; de dia, era uma coluna de negra fumaça; de noite, era uma nuvem de fogo. O texto sagrado diz que Jeová em pessoa estava nessa nuvem de aspecto variável. Essa maneira de ser guiados num deserto tinha a sua comodidade; mas tinha certamente também os seus inconvenientes. Com efeito, muitas vezes os israelitas teriam ficado muito contentes de descansar; ah! nada disso! a nuvem desatava a correr para diante; que fazer? era preciso expor-se a perder um guia tão precioso? e nenhum meio de reter uma coluna de fumaça pelas abas da sobrecasaca, não é verdade?... Então, obrigação absoluta de seguir caminho. Esse velho brincalhão do Jeová divertia-se, é claro. Amigo Leão XIII, não digas que não! Olha, eis a prova: para ir de Baal-Zefom (Suez) a Jericó, o divino guia só tinha de subir para o norte, rumo ao Mediterrâneo, costeando a cadeia do Djebel-Rabah; depois, obliquar para leste, seguindo os vales do Djebel-Maghara, que levam direto à costa mediterrânea; bastava então segui-la até a terra dos filisteus, que se contornava, e chegava-se bem depressa a Canaã pela terra dos heteus, nação amiga. De modo nenhum; em vez de ir para o norte, Jeová conduziu os nossos hebreus para a ponta sul da península sinaítica; exatamente como se, encarregado de guiar um viajante que tivesse de ir de Paris à Bélgica, alguém o fizesse tomar a estrada de Lyon-Marselha!... Assim, como vês, santo padre Leão, impossível sustentar que Sabaote-Jeová-Eheieh não é um farsante!...
113. Marcha dos israelitas no deserto. Como é preciso ser justo, reconheceremos que, embora alongando assim o caminho, papai Bom Deus pagou algumas doçuras ao seu povo. Assim, ao partir de Baal-Zefom, depois da cantata, conduziu os nossos hebreus à parte ocidental do deserto de Sur, onde caminharam três dias sem achar uma gota de água. Por fim, num lugar que depois foi chamado Mara, foram agradavelmente surpreendidos pelo glu-glu de uma abundante nascente. Precipitam-se para beber; zás! as águas eram amargas, mas amargas!... Careta geral dos três milhões de judeus. «Então o povo murmurou contra Moisés, dizendo: Que beberemos? E Moisés levantou clamores ao Eterno. E o Senhor mostrou-lhe um arbusto, do qual ele cortou um ramo, que lançou na nascente; e as águas [266] se tornaram doces. Depois, os hebreus desceram até Elim, onde acharam doze fontes de água e setenta palmeiras, debaixo das quais se acamparam, abrigando-se à sua sombra e abeberando-se nas águas límpidas.» (Êxodo 15:24-27) Para abrigar uma população em cujo seio se achavam seiscentos mil combatentes, essas setenta palmeiras deviam estar muito espaçadas e ter folhas imensamente largas. Ao deixar Elim, desceram, sempre para o sul; estavam [267] então no deserto de Sim, que está situado na vertente leste das colinas do litoral do golfo de Suez; essa marcha para o sul conduzia ao maciço do Sinai. A natureza é ali muito grandiosa, muito imponente, mas absolutamente selvagem. Que me seja permitido tomar emprestada a Élisée Reclus (1830-1905, geógrafo francês, autor da “Nouvelle Géographie universelle”, de onde foi tirado este trecho) a sua descrição desta terra de fama clássica. «As colinas do litoral, a oeste do Djebel-et-Tyh, diz o sábio geógrafo, são compostas de camadas gredosas, massas brancas e regulares [268] de um aspecto monótono, com algumas centenas de metros de altura. Mas as primeiras montanhas que pertencem ao grupo sinaítico e que se elevam ao sul da cadeia marginal, do golfo de Suez ao de Akabah, são formadas de arenitos de perfil bizarro e de colorido variado, que se agrupam em paisagens pitorescas. Ao sul, elevam-se os granitos, os gnaisses e os pórfiros. Uniformes pela composição das suas rochas, os montes do Sinai não o são menos pela aridez da sua superfície; são de uma nudez formidável; o seu perfil de arestas vivas desenha-se sobre o azul do céu com a precisão de um traço aberto a buril no cobre. Assim, a beleza do Sinai, desprovida de todo ornamento exterior, é a beleza da própria rocha: o vermelho-tijolo do pórfiro, o rosa terno do feldspato, os cinzentos brancos ou escuros do gnaisse e do sienito, o branco do quartzo, o verde de diferentes cristais dão às montanhas uma certa variedade, aumentada ainda pelo azul das lonjuras, pelas sombras negras e pelo jogo da luz que brilha nas facetas cristalinas. A escassa vegetação que se mostra aqui e ali nas ravinas e sobre o gnaisse decomposto das encostas realça, pelo contraste, a majestade de formas e o esplendor de colorido que apresentam as escarpas nuas; nas margens das águas temporárias dos uádis, algumas giestas, acácias, tamargueiras, pequenos grupos de palmeiras não podem em nada velar a altiva simplicidade da penha. Essa forte natureza, tão diferente da que se admira nas terras úmidas da Europa ocidental, age poderosamente sobre os espíritos. Todos os viajantes ficam tomados por ela; os beduínos nascidos ao pé das montanhas do Sinai amam-nas com paixão e definham de nostalgia longe dos seus rochedos... Esses rochedos são, além disso, muito ricos em jazidas de turquesas... Vista de um dos cumes, a região assemelha-se a um mar agitado cujas ondas se entrecruzam sob a influência de ventos opostos e rodopiantes; na parte mais elevada (o Djebel-Katherin), veem-se os vestígios de antigas geleiras. Uma fileira de montanhas destaca-se dela para o noroeste; ali está o Serbal (2.046 metros), que a maior parte dos exploradores considera como o verdadeiro Sinai. Outrora os árabes iam ali sacrificar ovelhas e levar tufos de ervas; o que a natureza lhes dá de mais precioso. Rodeado de uádis [269] inferiores em altitude aos do Djebel-Katherin, o Serbal ergue-se a uma maior altura relativa, e em todos os tempos os árabes viram nele o gigante da Península. É pelo menos o mais grandioso: acima dos contrafortes elevam-se paredes nuas, cortadas de precipícios e terminando numa crista, inescalável na aparência, recortada em agulhas e em pirâmides. Pode-se contudo subir até lá, e desde Burckhardt vários europeus o escalaram. Em consequência de um fenômeno bastante raro no granito, sucede que certas partes do Serbal são furadas de grutas naturais: os cristais de feldspato dispuseram-se na rocha em forma de raios divergentes, e, sendo os primeiros atacados pela ação do tempo, deixam, ao desagregar-se, cavidades profundas. Por fim, nas encostas do Serbal, tem-se frequentemente ocasião de ouvir os sons penetrantes que emitem as areias cristalinas em movimento. Um corredor da montanha, inclinado na direção do oeste e com cerca de quinze metros de largura, está cheio de detritos das paredes de quartzo: chama-se a esse corredor o Djebel-Nakous (a subida dos sinos), porque ali se ouve, dizem os beduínos, o som dos sinos de um convento fantasma que passeia no interior do Serbal. O viajante percebe um som delicioso, ora fraco, como o de flautas longínquas, ora mais forte, como o de um órgão próximo; conforme o ardor do sol, a umidade do ar e da terra, a quantidade de areia que se desprende, a força da brisa que precipita ou retarda os sons, a música parece um suspiro harmonioso ou como a voz mugidora da montanha.» Tal é a região por onde, escondido na sua coluna de nuvem, Jeová arrastava o seu povo. É evidente que o espetáculo dos montes Sinai é incomparável; mas não deixa de ser verdade também que a admiração dessa soberba natureza, por mais agradável que pudesse ser aos hebreus, não lhes punha nada debaixo do dente. Segundo o Êxodo (Êxodo 16), estavam então no décimo quinto dia do segundo mês da sua saída do Egito: sem dúvida alguma, as provisões que tinham levado deviam estar esgotadas, e nesse velhaco de deserto não havia um só restaurante nem uma só cervejaria. Os nossos três milhões de emigrantes murmuraram contra Moisés e Arão. «E os filhos de Israel [270] disseram-lhes: Ah! quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor na terra do Egito! Estávamos sentados sobre panelas de carne, e comíamos pão quanto queríamos. Mas vós nos trouxestes a este deserto, para nos fazer morrer a todos de fome!» (16:2-3). E os hebreus teriam maltratado Moisés (fr. “faire un mauvais parti à quelqu’un”, locução: tratar alguém com violência, até matá-lo), se papai Bom Deus não o tivesse posto em condições de satisfazer esses famintos com prodígios que o próprio Robert-Houdin (Jean-Eugène Robert-Houdin, 1805-1871, o célebre prestidigitador francês) nunca conseguiu [271] igualar. Houve, nesse deserto de Sim, chuva de codornizes; sim, vós me ouvis bem, senhoras e senhores, codornizes! (16:13). Ora, como os hebreus provavelmente não tinham fogões, pode-se concluir que essas codornizes lhes chegaram já assadas (fr. “toutes rôties”, do dito “attendre que les alouettes vous tombent toutes rôties dans le bec”, esperar que as cotovias nos caiam assadas no bico: querer obter tudo sem se dar trabalho algum). E não foi tudo: «Eis que houve pela manhã uma camada de orvalho ao redor do acampamento; era, no deserto, uma coisa pequena e redonda, miúda como a geada, sobre a terra. E Moisés disse [272] aos hebreus: Este é o pão que o Eterno vos dá para comer. E os hebreus chamaram a este pão maná; e este maná era como semente de coentro, e tinha o sabor dos bolinhos de mel.» (Êxodo 16:13-15, 31) O mesmo capítulo nos informa que o povo de Deus teve, cada manhã, a sua provisão de maná para o dia, durante os quarenta anos que durou a viagem, e que todos se deliciavam com ele, de lamber os dedos. A veneração que tenho pelo Espírito Santo obriga-me a acrescentar que o maná ainda hoje se encontra não só na península sinaítica, mas em muitos outros lugares do globo, notadamente na Calábria, na Pérsia, nas vizinhanças do Ararate, etc.; o maná é bastante recomendado como purgante. Assim, papai Bom Deus tinha grande cuidado com a saúde dos israelitas: ao mesmo tempo que lhes enchia o ventre, velava para que não tivessem prisão de ventre. Quarenta anos de purga cotidiana, eis o que é verdadeiramente próprio de um bom pai!
114. O céu alimenta o povo de Deus. Do deserto de Sim, os hebreus passaram ao deserto de Tyh, onde fica Refidim. Ali, Moisés, assediado pelos seus compatriotas que lhe pediam de beber, galgou o monte Horebe e feriu um rochedo com um golpe de varinha; uma fonte de água viva jorrou dele; os nossos três milhões de emigrantes dessedentaram-se; depois disso, armaram as suas tendas na planície. Uma surpresa desagradável os esperava. Naquelas paragens encontravam-se Amaleque e o seu povo, que viram com maus olhos os descendentes de Jacó. É bom dizer que Amaleque era neto de Esaú: de Ada, sua primeira mulher, Esaú tivera como filho mais velho Elifaz, o qual, concubinando-se com uma certa Timna, teve Amaleque, entre outros filhos. (Gênesis 36:12) Como é que esse Amaleque ainda vivia? O pombo esqueceu-se de explicá-lo ao autor sagrado, e este não pensou em se espantar com isso. O simples fato dessa existência é, no entanto, muito extraordinário; porque, para que os descendentes dos doze filhos de Jacó tenham podido tornar-se uma população que fornecia seiscentos mil combatentes, a multiplicação só pôde operar-se por uma sucessão de numerosas gerações, e, aliás, a Bíblia ensina que quatrocentos e trinta anos tinham decorrido entre a chegada de Jacó e seus filhos ao Egito e o êxodo da sua posteridade. Amaleque devia ter, por conseguinte, uns quatrocentos anos, quando atacou [273] o acampamento de Refidim. O autor sagrado não parece suspeitar da extrema velhice do chefe dos amalequitas; diz muito simplesmente, sem a menor surpresa: «Então veio Amaleque e deu batalha aos hebreus em Refidim.» (Êxodo 17:8) Seja como for, esse Amaleque era sem dúvida alguma um terrível homem, visto que os nossos judeus tiveram um susto carabinado (fr. “une frousse carabinée”, locução de gíria: um medo enorme; “carabinée” dizia-se, entre os marinheiros, de um vento súbito e violento como um tiro de carabina). Para repelir o assalto, Moisés ordenou a Josué, general em chefe dos emigrantes, que escolhesse os seus melhores soldados; quanto a ele, subiu a um outeiro vizinho, em companhia de Arão e de Hur. Então, enquanto os outros se batiam, Moisés mantinha os braços em cruz: todo o tempo que podia permanecer nessa posição, os hebreus levavam a melhor; mas, logo que, cansado, deixava cair as mãos, os inimigos retomavam a vantagem; finalmente, não podendo mais, convidou Arão e Hur a sustentar-lhe os braços até o pôr do sol, e o resultado foi que Josué, na planície, infligiu ao duque Amaleque a derrota mais completa possível; os amalequitas foram todos passados ao fio da espada (Êxodo 17:9-13).
115. Moisés obtém do céu grandes vitórias. No capítulo 18, vemos o sumo sacerdote midianita Jetro visitar o seu genro Moisés para felicitá-lo. Este contou ao sogro todas as maravilhas da saída do Egito; o que ocasionou a conversão de Jetro. «Agora conheço, exclamou ele, que Jeová é grande acima de todos os deuses.» (v. 11) E ofereceu a Jeová um sacrifício. Antes de voltar para casa, Jetro deu alguns conselhos ao genro, notadamente o de descarregar uma parte das suas funções em subchefes, uns comandando mil homens, outros cem homens, etc. Moisés achou excelente o parecer, e uma hierarquia foi logo instituída. Nessa época, Moisés, à imitação dos egípcios e dos outros povos, estabeleceu sacerdotes com numerosos privilégios. A tribo de Levi, à qual ele pertencia, tornou-se a casta sacerdotal, e Arão, seu irmão mais velho, foi o primeiro sumo sacerdote de Jeová. O culto estava, desde então, organizado.
116. Invenção do sacerdócio: Arão primeiro sacerdote. Tudo isso se fazia por ordem do próprio Jeová, com quem Moisés entrava em conversa no monte Sinai. O genro de Jetro ia sozinho ao cume da montanha, e ali papai Bom Deus lhe deu dez mandamentos que deviam ser [274] a lei religiosa do povo hebreu. Durante esse tempo, o Sinai estava cercado de clarões tão celestes quanto assustadores, e por toda parte ressoava um fragor horrendo, sinais manifestos dos grandes acontecimentos que se cumpriam. Jeová ditou também leis civis (Êxodo 19-31). Essas conversas entre Moisés e o deus dos judeus foram frequentes e duraram vários dias. «E, havendo o Senhor acabado todos os seus discursos no monte Sinai, entregou [275] a Moisés duas tábuas de pedra, nas quais, com o seu dedo divino, tinha escrito o seu testemunho, em escritura gravada.» (Êxodo 31:18)
117. Moisés no Sinai. Ora, enquanto o Altíssimo estava em conferência solene com Moisés, os hebreus, esquecendo completamente a variada coleção de milagres realizados em seu favor, adoravam um bezerro de ouro. O mais curioso da história é que esse bezerro de ouro lhes tinha sido fabricado pelo próprio Arão: Arão tinha pedido todas as joias de ouro das mulheres e das filhas da nação; não se diz [276] quais fundidores prestaram, nesse deserto, o seu auxílio ao sumo sacerdote renegado. Essa fundição do colossal ídolo, para a qual uma boa fábrica levaria três meses, foi executada numa noite. Avalie-se o justo furor de Moisés quando, descendo do Sinai com as suas divinas tábuas de pedra debaixo do braço, avistou o bezerro de ouro e os judeus oferecendo-lhe sacrifícios, acompanhados de danças e de cantos alegres, sob a direção de Arão. Quebrou as tábuas de mármore e mandou destruir o ídolo.
118. O bezerro de ouro. A sua maneira de suprimir a estátua sacrílega merece as honras da citação textual: «Moisés tomou o bezerro de ouro, meteu-o no fogo e moeu-o até que se tornou em pó; depois espalhou esse pó nas águas e fez beber delas aos filhos de Israel.» (Êxodo 32:20) O leitor reconhecerá que não é dado a todo mundo reduzir ouro a pó, metendo-o no fogo; é essa uma operação cujo segredo ninguém, além do espantoso Moisés, conheceu. Além disso, a Bíblia acaba de nos informar que o pó de ouro se pode beber dissolvido em água; isto também não é banal, já que o ouro se dissolve com enxofre; mas então imagina-se facilmente que horrível beberagem os israelitas tiveram de engolir. Mas o mais belo de tudo é que Moisés deu a absolvição a Arão, fabricador do ídolo, e ordenou aos levitas, que eram, com o seu irmão, os mais culpados nessa apostasia geral, que se espalhassem pelo acampamento e massacrassem ao acaso; vinte e três mil judeus foram assim degolados por aqueles mesmos que acabavam de presidir à idolatria. Jeová, apaziguado, mandou Moisés construir um tabernáculo, isto é, uma espécie de tenda especial, armada fora do acampamento, para lhe poupar a ascensão do Sinai, quando doravante tivessem de cortar juntos um babador (fr. “tailler une bavette”, locução familiar: conversar longamente; “bavette” é da mesma família de “baver”, babar, que no francês antigo queria dizer também tagarelar). Eis como as coisas se passavam (é textual): «Logo que Moisés tinha entrado no tabernáculo, a coluna de nuvem descia e se detinha à porta; então o Eterno falava com Moisés. E todo o povo se levantava, e cada um se prostrava. E o Eterno falava a Moisés face a face, como um homem fala ao seu íntimo amigo.» (Êxodo 33:9-11) Mas Moisés, não tendo apreciado suficientemente o favor excepcional que papai Bom Deus lhe concedia ao exibir-lhe a sua face, cuja contemplação é reservada só aos anjos, afoitou-se [277] um dia e pediu a Jeová que se mostrasse a ele em toda a sua glória. Como acolheu papai Bom Deus esse pedido? Os manuais de história sagrada omitem cuidadosamente essa passagem da Bíblia. Aqui, de novo, usaremos, pois, da citação textual: «Moisés disse ao Eterno: Peço-te, Senhor, faze-me ver a tua glória. E Deus lhe respondeu: Farei passar todo o meu esplendor diante dos teus olhos; mas agora não poderás mais ver a minha face, porque nenhum homem doravante me verá sem morrer. Mas eis como poderás ver a minha glória: tu te porás sobre o rochedo que está ali, e esse rochedo tem uma fenda na qual mergulharás a tua cabeça; então, a minha glória passará do outro lado do rochedo. Cobrirei primeiro os teus olhos com a minha mão, até que a minha glória esteja em todo o seu brilho; depois, retirarei a minha mão, e verás o meu traseiro; mas a minha face, tu não a verás.» (Êxodo 33:18-23) Como as tábuas da Lei tinham sido quebradas, papai Bom Deus houve por bem gravar de novo o seu decálogo. Todavia, sem que se saiba por quê, a segunda edição não se fez no tabernáculo; é preciso, pois, crer que esse trabalho só podia efetuar-se no Sinai, aonde Moisés teve de voltar; ali permaneceu quarenta dias e quarenta noites sem beber nem comer. «E, quando Moisés desceu da montanha, não percebeu que a sua fronte tinha dois chifres de raios; mas Arão e todos os israelitas o viram, e temeram chegar-se a ele.» (Êxodo 34:29-30) Sucedeu o mesmo quando Moisés saía do tabernáculo; tal é a razão pela qual o representam sempre, nas imagens, com dois jatos de raios, semelhantes a chifres. (“dois chifres de raios” — fr. “deux cornes de rayons”: o verbo hebraico pode significar tanto “resplandecer” como “ter chifres”. A Vulgata conservou a leitura dos chifres, aquela que deu a Michelangelo o seu Moisés cornudo, e Voltaire traduz: “a sua face era cornuda”; as Bíblias francesas, como a Almeida, dizem que o seu rosto resplandecia, e Taxil mistura as duas leituras.) O Êxodo termina com seis capítulos (35-40), dos quais bastará citar os sumários: «Lei do sábado. Das ofertas para o tabernáculo. — Liberalidade do povo nas ofertas. O tabernáculo. — A arca. O propiciatório. A mesa dos pães da proposição. O castiçal. O altar dos perfumes. O azeite santo e o perfume. — Diversas peças do tabernáculo. — Descrição das vestes sagradas. — O tabernáculo levantado e santificado.» Todos os miúdos pormenores, regulados por Jeová falando a Moisés, já não oferecem hoje interesse algum. O mesmo se dá com o Levítico, em vinte e sete capítulos, terceiro livro da Bíblia. Em matéria de episódios, esse livro não [278] contém senão a descrição da consagração de Arão e de seus filhos (ch. 8) e a história lamentável de Nadabe e Abiú, que, tendo acendido o seu incensário com o primeiro fogo que apareceu, foram queimados vivos por chamas que Jeová fez sair de repente diante dele no santuário (ch. 10). O Levítico é, na realidade, uma longa e fastidiosa enumeração das diversas categorias de sacrifícios e das cerimônias de que devem ser acompanhados. O autor sagrado formula nele as leis [279] sobre o sacerdócio, sobre os holocaustos, sobre os animais puros e impuros, sobre as contaminações de diversas sortes, em particular sobre a lepra e os leprosos, sobre a santidade dos sacerdotes, sobre as festas, sobre a oferta dos bolos e dos primeiros frutos, sobre as lâmpadas do santuário, sobre diversas purificações, notadamente a das mulheres paridas, sobre a blasfêmia, a pena de morte, o ano do jubileu, o resgate dos votos, etc. Uma passagem considerável quase só contém ordenanças [280] sobre os deveres da vida civil. É um amontoado incoerente de prescrições das mais bizarras, cuja leitura não se pode empreender sem bocejar de desencaixar o queixo. Ali dentro, a lebre, declarada animal impuro, é qualificada, assim como o coelho, de «ruminante» (Levítico 11:5-6); o autor sagrado tomou o movimento dos lábios deles pela ação de ruminar. Vota à abominação «toda besta que voa e que tem quatro pés» (v. 23); é proibido comer desses bichos sob pretexto algum; pudera! para comer pássaros de quatro patas, seria preciso alimentar-se de tela e de pedra, visto que tais monstros só existem nos quadros e nas esculturas de alta fantasia. O gafanhoto é declarado impuro; o que não impediu São João Batista de fazer dele o seu alimento, no tempo em que anunciava o Messias. No Levítico, as doenças venéreas são estudadas do ponto de vista religioso, e sobre esse assunto o autor sagrado, que se torna inteiramente nojento, é inesgotável. Certo número dessas santas porcarias são, além disso, das mais grotescas, como esta: «Se um homem que tem fluxo cuspir sobre uma pessoa sã, esta será reputada impura até o pôr do sol» (Levítico 15:8); mas o cavalheiro afligido pelo fluxo em questão pode purificar-se religiosamente. Julgais talvez que a Bíblia lhe vai receitar alguma copaíba? (fr. “copahu”: o bálsamo, remédio habitual do século XIX contra esses fluxos) Não, não acertastes! «O homem que tem fluxo contará sete dias para a sua purificação; lavará as suas vestes e também a sua carne com água viva. E, ao oitavo dia, tomará duas rolas ou então dois pombinhos; virá ao santuário, e os dará ao sacerdote.» (Levítico 15:13-14) Várias proibições são excelentes. Deve-se, com toda a justiça, reconhecer que o legislador não faz dificuldade alguma em constatar que os costumes dos descendentes de Jacó eram então horrendos; a cópula com animais é estigmatizada como um pecado que não deve mais se repetir em Israel. A ameaça da pena capital é reiterada à saciedade contra todas as formas do desregramento no capítulo 20, a ponto de Jeová (pois é ele quem fala) chegar a dizer: «Quando um homem se tiver deitado com uma mulher que tenha as suas regras, serão ambos extirpados do meio do meu povo.» (v. 18) [281] Eis, por fim, algumas recomendações, que darão uma ideia do estilo em que está redigido esse sublime Levítico; nunca será demais o respeito com que se lê isto, visto que é o próprio Deus quem usa essa linguagem: «Ninguém se chegará àquela que é sua parenta próxima, para descobrir a sua nudez. Eu sou o Eterno! — Não descobrirás a nudez de teu pai, nem a nudez de tua mãe; visto que essa mulher é tua mãe, respeita a sua nudez. — Não descobrirás a nudez da mulher de teu pai; porque essa nudez pertence a teu pai (fr. “appartient à ton père”: a Bíblia de Ostervald traz “c’est la nudité de ton père”, é a nudez de teu pai, e o mesmo das outras parentas: essas nudezes que “pertencem” a alguém, e até “a ti”, são de Taxil). — Não descobrirás a nudez de tua irmã, filha de teu pai ou filha de tua mãe, nascida em casa ou fora de casa; não, não descobrirás a nudez delas. — Quanto à nudez da filha de teu filho ou da filha de tua filha, ainda que essa nudez te pertença, não a descobrirás. — Não descobrirás a nudez da filha da mulher de teu pai, nascida de teu pai; é tua irmã. — Não descobrirás a nudez da irmã de teu pai; ela é parenta próxima de teu pai. — Não descobrirás a nudez da irmã de tua mãe; ela é parenta próxima de tua mãe. — Não te chegarás à mulher do irmão de teu pai para descobrir a sua nudez; essa mulher é tua tia. — Não descobrirás a nudez de tua nora; porque essa nudez pertence, não a ti, mas a teu filho. — Não descobrirás a nudez de tua cunhada; porque essa nudez pertence a teu irmão. — Não descobrirás juntamente a nudez de uma mulher e a nudez de sua filha; porque, se te deitas com a mãe, a filha torna-se tua parenta próxima. E, se a mulher com quem te deitas é velha (fr. “est vieille”: a Bíblia de Ostervald traz apenas “et tu ne prendras point la fille de son fils, ni la fille de sa fille”, e não tomarás a filha de seu filho, nem a filha de sua filha; a amante velha, que explica as netas, é de Taxil), não atrairás a ti a filha de seu filho ou a filha de sua filha, para descobrir a nudez delas; porque também elas são tuas parentas próximas. — Também não tomarás uma mulher com sua irmã, para te deitares com ambas; porque, descobrindo a nudez de uma diante da outra, tu a afligirias durante a sua vida.» (Levítico 18:6-18) O livro dos Números chama-se assim porque os quatro primeiros capítulos compreendem a contagem dos hebreus no deserto, no segundo mês do segundo ano da viagem. Quanto à tribo de Levi, o recenseamento abrangeu todos os machos desde a idade de um mês, e eles são contados [282] em 22.000; mas os que dentre eles foram encarregados do serviço do tabernáculo eram os levitas de trinta a cinquenta anos de idade; figuram em número de 8.580. Quanto às outras tribos, Moisés só incluiu na sua estatística os machos de vinte anos para cima, em condições de pegar em armas: tribo de Rúben, 46.500; de Simeão, 59.300; de Gade, 45.650; de Judá, 74.600; de Issacar, 54.400; de Zebulom, 57.400; de Efraim, 40.500; de Manassés, 32.200; de Benjamim, 35.400; de Dã, 62.700; [283] de Aser, 41.500; de Naftali, 53.400; ou seja, ao todo, 603.550 combatentes. No seu conjunto, os outros trinta e dois capítulos do livro contam a continuação da viagem dos judeus. Contudo, ainda se encontram neles regulamentos, tão minuciosos quanto monótonos; metade do capítulo 8 é consagrada à maneira de acender as lâmpadas! Nos Números encontra-se uma receita a recomendar aos maridos ciumentos que se julgam cornos, [284] embora não tenham podido apanhar a mulher em flagrante delito. «Jeová, falando de novo a Moisés, disse-lhe: Quando uma mulher, desprezando o seu marido, se tiver deitado com outro, e o seu marido não a tiver podido surpreender, e testemunhas não a puderem convencer de adultério, levar-se-á diante do sacerdote a mulher assim suspeita, e o marido fará primeiro ao sacerdote a oferta de um bolo confeccionado com boa farinha de cevada. Então, o sacerdote tomará água sagrada, que porá num vaso de barro, e misturará nela um pouco de pó tomado do chão do tabernáculo. Depois, adjurará a mulher, dizendo-lhe: Se não te deitaste com ninguém além do teu marido, esta água que vais beber não te fará mal algum; mas, se te entregaste à devassidão, que o mal com que vais ser ferida sirva de exemplo ao povo. E o sacerdote fará a mulher jurar com um juramento de imprecação; dir-lhe-á o mal que a ameaça, se for culpada, e ela responderá: Amém. E, depois que lhe tiver feito beber a água, se for verdade que ela se poluiu em perfídia contra o seu marido, essa água, estando cheia de maldição, será amarga para ela; logo o seu ventre inchará e a carne de uma das suas coxas se tornará em podridão; assim receberá ela o seu castigo, no meio do povo. Pelo contrário, se ela se manteve fiel ao seu marido, a água de ciúme não lhe causará mal algum, e em consequência dessa prova ela terá filhos.» (Números 5) Por fim, depois do recenseamento e do ditado de diversos regulamentos, puseram-se de novo em marcha; por ordem de Jeová, Moisés mandara fabricar duas trombetas de prata para dar o sinal da partida. Nesse novo período da viagem, os hebreus, achando o maná insuficiente para o seu alimento, murmuraram e reclamaram carne. Olha! mas, a propósito, o divino pombo não nos tinha dito, no Êxodo (Êxodo 12:38), que os nossos emigrantes, ao deixarem o Egito, levaram consigo um número prodigioso de bois e inumeráveis rebanhos? Em várias ocasiões, papai Bom Deus mandara que lhe sacrificassem os primogênitos das ovelhas, quando pararam um ano inteiro, no mínimo, na região do Sinai; além disso, no momento da sua apostasia, Arão e os levitas ofereceram holocaustos ao bezerro de ouro. Então, desaparecidos de repente, os inumeráveis rebanhos?... [285] É preciso confessar que é de não se entender nada: quando o Espírito Santo conta os sacrifícios oferecidos no deserto, o povo hebreu tem todo o seu gado trazido do Egito; mas, quando o seu relato passa a outros fatos, eis esse mesmo povo representado como reduzido a alimentar-se de maná. Não insinuaremos que o divino pombo se contradiz; seria uma blasfêmia: somos, pois, obrigados a concluir que os rebanhos inumeráveis tinham sido papados por Jeová, sob forma de holocaustos, e que o Espírito Santo se esqueceu de dizê-lo expressamente. Seja como for, se os hebreus, ao partirem da região do Sinai, pediam carne a trompa e a gritos (fr. “à cor et à cris”, locução: aos gritos e com insistência; a imagem vem da caça, conduzida com a trompa e com gritos à matilha), é que já não tinham nem um boi, nem uma ovelha, nem um carneiro, nem um cordeiro. Moisés deu parte a Jeová dessas reclamações. «Então, o Eterno suscitou um grande vento, que, soprando de além do mar Vermelho, trouxe codornizes e as espalhou em tão abundante quantidade no acampamento e ao redor, que havia delas quase a altura de dois côvados sobre a terra.» (Números 11:31) Papai Bom Deus bem devia isso ao seu povo, que lhe tinha sacrificado os seus inumeráveis rebanhos. Imagine-se como os hebreus ficaram alegres e se banquetearam! «Mas, quando a carne das codornizes estava ainda entre os seus dentes, antes que a tivessem mastigado, a cólera do Eterno se acendeu contra o povo e o feriu com uma horrível praga. E chamou-se aquele lugar Quibrote-Hataavá, isto é, sepulcro dos gulosos; porque ali sepultaram milhares dos que tinham querido comer carne» (Números 11:33-34). Pasmoso de doidice (fr. “maboulisme”, palavra de gíria: um “-ismo” com ar de termo médico, formado sobre “maboul”, louco, por sua vez gíria militar trazida da Argélia, do árabe “mahbûl”, desmiolado), decididamente, o senhor Jeová!... Ora, Arão e Miriã não tinham aprovado que o seu irmão Moisés se casasse com uma etíope. Um dia em que se encontravam em Hazerote, aonde o povo hebreu se dirigira ao deixar Quibrote-Hataavá, trocaram entre os dois observações descorteses a respeito da cunhada Zípora; mas foram logo rudemente repreendidos por papai Bom Deus, que lhes falava na sua coluna de nuvem, sem se deixar ver. Além disso, Miriã teve um castigo severo: quando o Eterno terminou a sua descompostura, a irmã de Moisés viu-se toda coberta de lepra; todavia, a instâncias de Moisés, papai Bom Deus consentiu [286] em fazer essa doença durar apenas sete dias (ch. 12). Ao partirem de Hazerote, tomaram a direção do norte. A região em que os nossos emigrantes se embrenharam é chamada na Bíblia «deserto de Parã»; é a parte leste da península do Sinai, compreendida entre a extremidade da cadeia do Djebel-et-Tyh e as montanhas de El-Samghi e de El-Chafa; ali corre o rio de Aïn, que deságua no golfo de Akabah. O autor sagrado coloca nessa região uma nova terra de [287] Midiã. Moisés mandou fazer alto e enviou em reconhecimento doze espiões, um de cada tribo; esses batedores foram até Hebrom, a oeste do mar Morto, em plena terra de Canaã, ocupada então pelos amorreus. Voltaram ao cabo de quarenta dias e fizeram o seu relatório: traziam consigo, em apoio dos seus dizeres, frutos magníficos, tais como romãs, figos, uvas; um cacho de uvas era tão grande que eram necessários vários homens para carregá-lo.
119. Os frutos da terra prometida. [288] Era a prova incontestável da fertilidade do território de que os nossos emigrantes planejavam apoderar-se. Por outro lado, o relatório dos espiões foi como uma ducha de água gelada que esfriou instantaneamente as suas cobiças. Em parte alguma jamais vimos tão belos frutos, disseram os espiões; mas os habitantes da terra são uns rapagões dos mais robustos, e têm cidades fechadas por sólidas muralhas. «Vimos lá até descendentes de Anaque, isto é, gigantes, diante dos quais não parecemos senão como gafanhotos.» A conclusão de dez dos doze espiões foi que não seria bom esfregar-se contra (fr. “se frotter à”, locução: atacar, medir-se com) aqueles sujeitos, e o povo foi inteiramente da opinião deles. Apenas Josué e Calebe julgaram que a terra que acabavam de ver era bela demais para não tentarem conquistá-la; em duas palavras, disseram sem rodeios que o jogo valia a vela (fr. “le jeu en valait la chandelle”, locução: a coisa valia a pena; a vela é a que se queimava para alumiar os jogadores) e que era preciso tentar a jogada. Mas, como o seu entusiasmo não era partilhado pelos seus compatriotas, papai Bom Deus declarou ao povo hebreu que, visto que assim era, morreriam todos antes de chegar à meta da sua viagem, com exceção de Josué e de Calebe. Alguns dias depois, apareceram amalequitas e cananeus e pespegaram aos judeus uma sova das mais bem acondicionadas. (Números 13, 14) Entre os incidentes relatados pelo livro dos Números, encontra-se a conspiração de Corá, Datã e Abirão, que, com duzentos e cinquenta camaradas, eram de parecer que Moisés e Arão faziam mal em se colocar acima de todos os outros levitas. Esses três personagens foram tragados de repente, pois a terra se entreabriu sob os seus passos; desapareceram, assim como as suas famílias; e os duzentos e cinquenta judeus do seu partido foram instantaneamente devorados por chamas miraculosas que saíram do solo sob os seus passos. De mais a mais, o Eterno, a fim de melhor impressionar os espíritos do povo, infligiu uma praga a catorze mil e setecentos emigrantes que não tinham entrado no complô; esses infelizes morreram dela, e os levitas queimaram perfumes (Números 16). Depois disso, por ordem de Jeová, Moisés convidou os chefes das tribos a trazer-lhe uma vara de madeira seca, semelhante à vara que Arão levava sempre consigo; [289] em cada vara escreveu-se o nome de uma tribo; depois, depositaram-nas juntas no tabernáculo, e a essas doze varas misturou-se uma décima terceira, oferecida pela tribo de Levi e na qual foi inscrito o nome de Arão. No dia seguinte, para grande surpresa de todos, enquanto as varas das outras doze tribos não tinham mudado de aspecto, a da tribo de Levi tinha florescido; estava cheia de flores, e até amêndoas bem maduras nela tinham brotado. Esse milagre indicava claramente que o Eterno confirmava Arão no seu sacerdócio; o povo declarou-se convencido e prometeu não mais invejar os levitas (Números 17). Visto que esse milagre devia bastar, por que Deus tinha feito morrer, de uma horrível praga, catorze mil e setecentos homens, inocentes de todo complô? Ninguém se esqueceu de que os hebreus já não tinham carne alguma; mas eis que Jeová desejou um novo sacrifício. Tinha vontade de que lhe oferecessem em holocausto uma jovem vaca ruiva, sem defeito algum e que nunca tivesse levado o jugo. Mal esse desejo foi expresso, os nossos emigrantes escolheram, entre os seus rebanhos — então os tinham, de repente? — a mais bela vaca ruiva, que reunia as condições requeridas, e levaram-na ao sacrificador Eleazar (Números 19). No capítulo 20, os viajantes chegaram ao pé do Djebel-Halal. Param em Cades; Miriã morre ali, e enterram-na. A água faltava naquele lugar. Novas murmurações do povo; novo rochedo ferido com um golpe de vara por Moisés; novo milagre. «Então, saíram águas do rochedo em abundância, e os hebreus abeberaram-se, e as suas bestas também» (v. 11). Não há engano, não é? os nossos emigrantes tinham agora os seus rebanhos. — Como queriam seguir o seu caminho para o norte, passando pela terra dos idumeus, entraram em negociações com o rei de Edom; mas este recusou deixá-los atravessar o seu território, e tiveram de fazer um desvio. Enquanto, depois de tomar à direita, costeavam a vertente oriental da cadeia dos montes Seir, papai Bom Deus disse a Moisés que subisse com Arão e seu filho Eleazar ao monte Hor: uma vez no cume da montanha, Moisés, conformando-se às prescrições divinas, despojou Arão das suas vestes, vestiu com elas Eleazar, e logo Arão morreu. Tinha [290] cento e vinte e três anos de idade. Em nossos dias, os muçulmanos mostram aos turistas o túmulo de Arão, no cume do Hor, a 1.329 metros de altitude; o monumento é na realidade um santuário maometano; quanto ao túmulo propriamente dito, é um sarcófago absolutamente moderno. Nessa região cananeia, reinava um certo rei de Arade, que, logo que soube da vinda dos israelitas, partiu em campanha, bateu o exército deles, tão numeroso, e fez [291] prisioneiros entre eles. Profundamente desolado, o povo judeu dirigiu a Jeová uma prece: «Senhor, exclamaram os hebreus, se nos deres a vitória sobre esta nação, fazemos voto de destruir as suas cidades!» E Deus atendeu o seu povo. Num segundo encontro, os emigrantes foram vencedores dos cananeus, os exterminaram e cumpriram a sua obra, destruindo as cidades do reino de Arade. Nisso, em vez de se instalarem na terra, voltaram atrás e [292] puseram-se, não se sabe por quê, a descer de novo para o mar Vermelho. O autor sagrado não explica de modo algum essa estranha marcha. Enquanto os viajantes estavam de volta ao deserto, papai Bom Deus, à guisa de distração, enviou-lhes «serpentes ardentes, que morderam tanto o povo, que morreu disso um grande número dos de Israel». Moisés, então, fabricou uma serpente de bronze e a colocou no alto de uma haste; e qualquer um que tivesse sido mordido por uma das serpentes ardentes só tinha de olhar para a serpente de bronze para ficar curado. (Números 21:6-9) Depois de terem passeado por montes e vales, os hebreus voltaram ao norte, para os amorreus, governados pelo rei Seom, a quem infligiram uma sangrenta derrota; essa nação foi inteiramente passada ao fio da espada. Depois, Ogue, rei de Basã, foi vencido por sua vez e degolado, assim como todos os seus súditos; o povo de Deus tomou posse desse novo território. Os emigrantes do Egito tinham então chegado a um lugar que a Bíblia chama Ijé-Abarim, a pouca distância da extremidade sul do mar Morto; tiveram de atravessar uma pequena cadeia de montanhas que serve de fronteira às terras ocupadas pelos descendentes daquele Moabe, outrora gerado pelo patriarca Ló ao desposar a sua filha mais velha numa noite de bebedografia (fr. “soulographie”, palavra de gíria: a bebedeira elevada a arte; nascida entre os tipógrafos, formada sobre “soûl”, bêbado, à imitação de “typographie”); ora, as terras dos moabitas eram limitadas a leste pela terra de Midiã (é a terceira!), e midianitas e moabitas viviam como excelentes vizinhos. Pergunta-se por que Moisés conduziu os hebreus a essa região; pois, enfim, qual era a meta da viagem? A crer no Êxodo, o profeta dos chifres radiantes arrastava consigo a múmia de José, destinada a uma inumação definitiva na famosa caverna de Macpela, isto é, em Hebrom, no território de Canaã, a oeste do mar Morto. Pois bem, o caminho estava livre daquele lado, visto que os amorreus, que tiveram a má ideia de sair do seu reino para se opor à invasão judaica, acabavam de ser todos exterminados; só restava, pois, instalar-se ali, era uma parte da Terra Prometida. Pelo contrário, é a leste do mar Morto, fora da terra de Canaã, que Moisés leva os seus compatriotas. Compreenda quem puder! [293] Seja como for, o rei dos moabitas, chamado Balaque, sabendo da marcha dos hebreus para a sua capital, apressou-se a reunir-se em conselho com os seus ministros e com os mais sábios magistrados dos midianitas, seus aliados. Eis a resolução que foi adotada: havia naquele tempo, na cidade de Petor, um certo Balaão, filho de Beor, cujo ofício era ler a sorte e conjurar os malefícios; decidiu-se enviar uma delegação a Balaão, para obter uma das suas melhores bênçãos em favor dos moabitas e dos midianitas, ao passo que ele formularia uma maldição bem sentida contra os hebreus. Balaão começou por recusar-se a ir abençoar o rei Balaque, o seu povo e os seus aliados. Contudo, quando por fim julgou compreender que o Eterno o autorizava a aceder aos desejos do monarca, pôs-se a caminho com a deputação que o viera buscar. Caminhava, pois, empoleirado na sua jumenta, quando de repente esta avistou um anjo, armado de uma espada, que lhe barrava o caminho. A jumenta, então, pôs-se a fugir para um campo, para evitar o anjo. «E Balaão espancou a sua montaria, para a fazer voltar ao caminho. Mas o anjo deteve-se numa vereda de vinhas, que tinha um tapume de cá, e outro de lá. E a jumenta, tendo visto de novo o anjo, apertou-se contra o muro, e, apertando-se, machucou o pé de Balaão, que continuava a batê-la. E o anjo passou ainda mais adiante e deteve-se naquele lugar estreito onde não havia meio de se desviar, nem para a direita, nem para a esquerda. A jumenta, vendo ainda o anjo, abateu-se debaixo de Balaão, e este, encolerizado, espancou-a com mais força do que nunca com o seu cajado. Então, o Senhor abriu a boca da jumenta, a qual disse a Balaão: Que te fiz eu? por que me espancaste três vezes? Balaão lhe respondeu: É porque o mereceste; esmagaste-me o pé. Oxalá tivesse eu uma espada na mão! Matar-te-ia agora. A jumenta replicou: Não sou eu a tua jumenta, que sempre montaste até hoje? Dize-me se tenho costume de fazer assim? — Não, disse Balaão. Então o Eterno abriu os olhos de Balaão, e ele viu, diante de si no caminho, o anjo que segurava o seu sabre, fora da bainha; e Balaão prostrou-se, com a face contra a terra. O anjo disse a Balaão: Eu saí para me opor a ti; porque segues [294] um mau caminho; e, se a tua jumenta não se tivesse desviado de mim, eu te teria matado; mas a ela, eu a teria deixado com vida. Balaão respondeu ao anjo: Se não te agrada que eu vá para lá, tornar-me-ei. O anjo lhe disse: Não, podes prosseguir o teu caminho; vai com estes homens; mas só pronunciarás as palavras que Jeová disser pela tua boca. Foi-se, pois, Balaão com os senhores que tinham sido enviados por Balaque.» (Números 22:23-35) A conclusão [295] foi que o povo israelita foi três vezes abençoado pela boca de Balaão, para grande fúria do rei dos moabitas, que exclamou: «Eu te mandara chamar para amaldiçoar os meus inimigos, e tu os abençoaste! Torna, pois, para a tua terra. Eu resolvera cumular-te de honras e de presentes; pelo que podes dizer contigo que é o deus Jeová quem te privou disso.» (Números 24:10-11) Vamos ver em breve como os hebreus recompensaram Balaão pelas suas bênçãos. [296] De início, o rei Balaque conteve a sua cólera, e o capítulo 25 nos mostra os descendentes de Jacó muito tranquilamente instalados entre os moabitas e os midianitas. Esse exército de seiscentos mil combatentes judeus, que estava pronto para massacrar os súditos e os aliados de Balaque, não pensa mais em batalhas; sem trégua, sem o menor preliminar, a paz está feita; o povo hebreu mistura-se familiarmente com o povo midianita e moabita. «Então Israel habitava em Sitim, e o povo de Deus começou a deitar-se com as filhas de Moabe. Essas mulheres convidaram os hebreus aos sacrifícios dos seus deuses; eles adoraram os mesmos deuses, Israel abraçou o culto de Baal-Peor.» (Números 25:1-3) Isso não convinha aos levitas, largados em favor dos seus concorrentes, os sacerdotes idólatras. Por isso Fineias, filho do sumo sacerdote Eleazar, ao ver um dia um judeu chamado Zinri entrar na casa da bela Cosbi, midianita, precipitou-se lá dentro no momento em que estavam fornicando e os trespassou de um só golpe com uma longa javelina. Pouco antes, Jeová tinha enviado uma praga ao seu povo para puni-lo; vinte e quatro mil homens já tinham morrido dessa praga. O golpe de javelina de Fineias causou, pois, uma grande alegria a papai Bom Deus, que instantaneamente deteve a doença (Números 25:6-9). Todavia, o senhor Jeová ordenou a Moisés que preparasse um extermínio geral dos moabitas e dos midianitas. Antes de pôr esse belo projeto em execução, Moisés mandou proceder a um novo recenseamento; pois havia então trinta e oito anos que tinham deixado a terra do Sinai e partido de Quibrote-Hataavá e de Hazerote. Durante esses trinta e oito anos, o povo de Deus se renovara, já que Jeová tivera o cuidado de avisar os emigrantes de que nenhum dos que estavam presentes à partida do Egito entraria na Terra Prometida, com a única exceção de Josué e Calebe. Apesar das perdas de vinte e três mil homens degolados pelo caso do bezerro de ouro, de catorze mil mortos de uma praga pelo incidente Corá-Datã-Abirão e de vinte e quatro mil mortos igualmente de uma praga mal definida em punição da fornicação com as moças moabitas e midianitas, sem contar os milhares enterrados no sepulcro dos gulosos ou mortos pelas serpentes ardentes, a estatística de Moisés acusou um total de [297] seiscentos e um mil setecentos e trinta homens em condições de pegar em armas, não incluídos os levitas, em número de vinte e três mil (ch. 26). Agora, se quisermos examinar esse caminho percorrido em trinta e oito anos, constataremos uma vez mais a que ponto o divino pombo caçoa dos crentes devotos. Com efeito, nada é mais fácil do que seguir os israelitas na sua pretensa viagem, valendo-se quer de um guia para uso dos turistas — por exemplo, o Baedeker (guia de viagem fundado pelo alemão Karl Baedeker, o guia habitual do turista no século XIX; o título que se segue é o da sua edição francesa, fr. “Manuel du Voyageur en Palestine et en Syrie”), Manual do Viajante na Palestina e na Síria — quer das obras dos sábios, tais como Salomon Munk, Delaborde, Burckhardt, von Raumer, Bertou etc., que foram aos próprios lugares levantar os principais pontos do célebre itinerário; pois a superstição manteve no país uma lenda adotada pelos árabes tanto quanto pelos judeus, visto que Moisés figura entre os profetas reconhecidos pelo islamismo, e o fanatismo muçulmano em nada cede ao das outras religiões que têm a Bíblia por livro sagrado. Os mapas de Élisée Reclus e os de Kiepert e Lionnet (Bibel-Atlas) são igualmente um precioso recurso para quem quiser dar-se conta das patranhas do Espírito Santo. Assim, vamos refazer, por curiosidade, um itinerário moderno desde Hazerote, ponto de partida da região do monte Sinai, até o monte Nebo, onde morreu Moisés à vista da Terra Prometida, passando pelo monte Hor, onde morreu Arão, e pela terra dos moabitas. Hazerote (hoje Aïn-el-Hahdrah) está situado na península sinaítica, a pouca distância da costa ocidental do golfo de Akabah, chamado mar de Elate na antiguidade. Elate fica no fundo do golfo; as suas ruínas veem-se perto de Akabah; ali começa o longo vale da Arabá, que se estende até o Djebel-Ousdoum, na extremidade sudoeste do mar Morto. De Hazerote a Elate, há 148 quilômetros. Caminhando sem pressa, à razão de apenas 8 quilômetros por dia (duas horas de marcha e vinte e duas horas de descanso!), isso dá um primeiro estirão de dezesseis dias. — A viagem de Akabah ao monte Hor faz-se com bastante frequência em nossos dias; pois, perto dessa montanha onde está o túmulo de Arão, guardado pelos muçulmanos, [298] encontram-se as interessantes ruínas de Petra, a antiga Sela dos hebreus, cidade de comércio que foi outrora muito próspera. Há 81 quilômetros de Akabah a Petra, que fica a 3 horas do monte Hor. O guia Baedeker (página 152) diz que esse trajeto se faz em quatro dias e dá as etapas em pormenor. Sejamos generosos, e digamos: oito dias. — Para seguir os israelitas na sua marcha, é preciso ir agora do monte Hor a El-Kerak, a antiga Quir-Moabe, uma das principais cidades [299] dos moabitas; cerca de 100 quilômetros, cujas etapas Baedeker dá em pormenor (rota 13, página 154), atribuindo 28 horas a esse trajeto, que se faz muito comodamente a cavalo. Ponhamos doze dias. — Por fim, para chegar ao monte Nebo, é preciso tomar a estrada de El-Kerak a Madéba, por Dibân (outrora Dibom, cidade conquistada pelos hebreus (Números 21:30). Madéba é a antiga Medeba, cidade originalmente moabita (Josué 13:9), que pertenceu depois à tribo [300] de Rúben. De El-Kerak a Dibân, há 35 quilômetros; de Dibân a Madéba, 23 quilômetros. Esse estirão requer cerca de 26 horas, segundo o guia Baedeker (rota 17, páginas 192-193). Mas não sejamos mesquinhos, e concedamos sete dias, incluindo a excursão ao monte Nebo. «Nas montanhas a noroeste de Madéba encontra-se o Nebo, de onde Moisés contemplou antes da sua morte toda a Terra Prometida; chega-se lá por campos cultivados em cerca de 1 hora e meia.» Por conseguinte, da partida do Sinai até o Nebo, a viagem a pé representa ao todo quarenta e três dias, com apenas duas horas de marcha diária. O rodeio, para evitar o território dos idumeus, dá uma diferença de 120 quilômetros, quando muito. Isso pouco se parece com os trinta e oito anos que a Bíblia conta! Antes de arrastar os israelitas na direção do monte Nebo, Moisés, por ordem de Jeová, cuidou de massacrar as populações que lhes tinham dado uma fraternal hospitalidade, mas que tinham cometido o erro — crime irremissível! — de associá-los às suas genuflexões diante de outros deuses. Escolheram-se mil homens por tribo, ao todo doze mil vingadores de Sabaote. (Números 31) Os midianitas, sobretudo, pagaram; todos os machos dessa nação foram degolados, incluindo os seus reis, em número de cinco: Evi, Requém, Zur, Hur e Reba. «Os hebreus passaram também ao fio da espada Balaão, filho de Beor», esse excelente profeta que os tinha abençoado (v. 8); «e os filhos de Israel tomaram as mulheres dos midianitas, os seus pequeninos, os seus rebanhos, todos os seus móveis, e saquearam tudo, e queimaram cidades, aldeias, castelos» (Números 31:9-10). Ora, Moisés achou esse massacre ainda insuficiente. «Encolerizou-se contra os capitães do exército, e disse-lhes: Por que poupastes as mulheres?... Matai, pois, agora todos os pequeninos varões, degolai todas as mulheres que conheceram o coito (sic) (fr. “le coït (sic)”: o “sic” é do próprio Taxil; a Bíblia de Ostervald traz “toute femme qui aura eu compagnie d’homme”, toda mulher que tiver tido ajuntamento com homem, e a palavra, como mais abaixo as “pucelles”, donzelas, vem de La Bible enfin expliquée de Voltaire); mas reservai para vós todas as moças virgens» (Números 31:14-15, 17-18). Fez-se a conta do despojo: «verificou-se que o que fora saqueado se compunha de 675.000 ovelhas, 72.000 bois, 61.000 jumentos e 32.000 donzelas» (v. 32-35). Uma parte desse despojo foi reservada para Jeová; trinta e duas jovens virgens midianitas lhe foram atribuídas (v. 40). [301] Nada de interessante há a assinalar nos outros capítulos do livro dos Números; são regulamentos sobre as heranças, ordenanças tocantes aos sacrifícios para as festas das trombetas, da expiação e dos tabernáculos, recapitulações de acampamentos, isto é, repetições, e prescrições relativas à futura partilha da Terra Prometida, isto é, enumerações que o livro de Josué reproduzirá com pormenores ainda mais fastidiosos. O Deuteronômio, quinto e último livro do Pentateuco, oferece ainda menos interesse que o Levítico e os Números. É, sob forma de discursos, a repetição das diversas leis anteriormente promulgadas. Num primeiro discurso, que ocupa quatro capítulos, Moisés resume o que se passou desde a saída do Egito e lembra aos hebreus com que avalanche de benefícios foram cumulados por Jeová. Num segundo discurso, este em vinte e um capítulos, expõe de novo tudo o que constitui para o povo judeu o seu código civil e religioso. Depois, vem certo número de exortações relativas à observância da lei: os israelitas serão abençoados e os seus negócios prosperarão, se cumprirem os mandamentos de Jeová; ao contrário, se os transgredirem, as maldições choverão sobre as suas cabeças, com acompanhamento de castigos tão numerosos quanto variados. Como o autor sagrado tem o bom cuidado de nos dizer que, quando ele, Moisés, pronunciou esses discursos, quem falava pela sua boca era o próprio Eterno, não é inútil pôr em relevo algumas pérolas dessa divina eloquência. «Eis o quadragésimo ano que andais em caminho, e contudo as vestes de que estáveis cobertos não se gastaram sobre vós, nem os vossos sapatos nos vossos pés.» (Deuteronômio 8:4) Eis, decerto, um milagre que é tão milagre como todos os outros, e que não carece de graça. Segundo as duas contagens que se conhecem, houve em números redondos seiscentos mil homens de armas nessa população emigrante, tanto à saída do Egito como à chegada à terra de Moabe, e sabe-se também que os que chegaram já não eram os mesmos que partiram. Todos os teólogos estão de acordo em reconhecer que esse número de homens de armas supõe [302] na partida, para o total do povo hebreu, três milhões de indivíduos, velhos, mulheres, moças, rapazes e famílias de levitas. Portanto, já que três milhões de pessoas encontraram a morte no deserto no espaço desses quarenta anos, houve três milhões de casacos e de vestidos e três milhões de pares de sapatos que se transmitiram de uns para outros. Mas, já que o último recenseamento acusou um número de seiscentos e um mil setecentos e trinta [303] combatentes, sem contar vinte e três mil levitas, se supusermos que cada combatente e cada levita tinham uma mulher, que cada lar desses judeus tão prolíficos tivesse em média três filhos (é modesto!), que só a metade dos casais tivesse consigo os seus pais e mães, isso faria quatro milhões trezentos e setenta e três mil cento e dez pessoas a calçar e a vestir. Esse cálculo só faz sobressair ainda mais a grandeza do milagre; pois assim foi preciso que [304] papai Bom Deus desse no deserto ao seu povo um milhão trezentos e setenta e três mil cento e dez pares de sapatos a mais, sem falar das túnicas! Aliás, São Justino, no seu diálogo com Trifão, sustenta que não só as vestes dos hebreus não se gastaram na sua marcha de quarenta anos ao sol e à chuva, e dormindo no chão duro, mas que as das crianças cresciam com elas e se alargavam maravilhosamente à medida que avançavam em idade. E São Jerônimo acrescenta em uma epístola (a 38ª) (carta de São Jerônimo a Pamáquio contra João de Jerusalém, parágrafo 32) estas próprias palavras: «Em vão os barbeiros aprenderam a sua arte; não fizeram uso dela durante quarenta anos no deserto, porque os cabelos e as unhas dos israelitas não cresciam.» Se, depois disso, não estais convencidos?... Uma recomendação que não espantará ninguém: «Velai bem por cuidar dos vossos sacerdotes (fr. “vos prêtres”: a Bíblia de Ostervald traz “Garde-toi… d’abandonner le Lévite”, guarda-te… de desamparar o levita; Taxil segue Voltaire, “Prenez bien garde d’avoir soin du lévite”, tomai bem cuidado de cuidar do levita, mas faz do levita os sacerdotes dos seus leitores), durante todo o tempo que viverdes sobre a terra.» (Deuteronômio 12:19) «Quando combaterdes os vossos inimigos, se Deus os entregar nas vossas mãos, e se virdes, entre os vossos cativos, alguma formosa mulher que inspire o vosso amor, então aquele a quem ela agradar a levará para a sua casa; ela rapará os cabelos e cortará as unhas, e se despirá inteiramente, pois não deve guardar sobre si nenhuma das vestes com que foi presa; depois, dar-se-lhe-á um mês para chorar seu pai e sua mãe; após o que, aquele a quem ela tiver agradado a porá no seu leito, entrará nela, e desde então ela será sua mulher. Mas, se acontecer depois que ela não agrade mais, seu marido poderá despedi-la, com a condição de que ela consinta nisso; em todo caso, desde o momento em que um israelita se tiver deitado com ela, não se poderá mais vendê-la.» (Deuteronômio 21:10-14) Isso é gentil, não é? «Não entrará jamais nas santas assembleias do culto aquele que for eunuco por ter tido os testículos cortados, nem mesmo aquele que tiver tido os testículos pisados.» (Deuteronômio 23:1) Sem comentário! «Se, na véspera de uma batalha, um soldado tiver tido durante a noite um sonho voluptuoso que lhe tenha causado uma perda de semente, sairá de manhã do acampamento, e à tarde se lavará com água fresca; depois, tornará a entrar no acampamento.» (Deuteronômio 23:10-11) [305] O que equivale a dizer que ele não tomará parte na batalha. Voltaire julgou útil emitir algumas reflexões a esse respeito: «Vários homens de guerra, escreve ele, disseram que as poluções noturnas aconteciam principalmente aos jovens vigorosos, e que a ordem de afastá-los do exército da manhã à noite era muito perigosa, visto que é habitualmente da manhã à noite que se travam as batalhas; que essa ordem só servia para favorecer a poltronaria; que era mais fácil lavar-se na sua tenda, onde se supõe haver pelo menos um cântaro de água, do que ir para fora do acampamento, onde bem se podia não a encontrar.» Jeová chega a ensinar ao seu povo como convém fazer caca, em tempo de guerra. «Tereis um lugar reservado, fora do acampamento, para evacuar. E, entre os vossos utensílios, tereis uma pequena pá; então, quando quiserdes evacuar, ireis ao lugar reservado, cavareis um buraco redondo com a pequena pá, e, quando a vossa evacuação estiver terminada, cobrireis de terra o que tiver saído das vossas tripas. Porque eu, o Eterno, estarei no meio do vosso acampamento, para combater convosco; é preciso, pois, que eu não sinta nada de impuro no vosso acampamento (fr. “que je sente”: a Bíblia de Ostervald traz “de peur qu’il ne voie quelque chose d’impur en toi”, para que ele não veja em ti coisa impura, e Voltaire omite o versículo: o nariz do Eterno é de Taxil; já a “pequena pá”, pelo “pic”, picareta, de Ostervald, é de Voltaire); senão, retirar-me-ia do meio de vós.» (Idem 23:12-14) Esta passagem da Bíblia pede um comentário particularmente grave. Já sabíamos que Deus tem mãos de que se serve para amassar, que sopra e que saliva, que tem pés para passear pelo nosso planeta, quando lhe dá a fantasia; soubemos há pouco que tem um traseiro e que o mostrou a Moisés. Agora, ficamos sabendo que Jeová possui um nariz, não simplesmente para enfeitar o seu rosto e para evitar dar que rir, quando se digna aparecer aos humanos, criados à sua semelhança; mas esse nariz é um verdadeiro nariz. Assim como Deus come de verdade (lembrai-vos do lauto jantar em casa de Abraão), assim também Deus se adjudicou desde toda a eternidade um nariz de que se serve para cheirar, e não gosta dos maus cheiros. Por outro lado, ninguém deixará de pensar que era fácil ao Todo-Poderoso poupar ao seu divino nariz a respiração de cheiros desagradáveis. Quê! esse povo hebreu é o seu povo, a sua nação predestinada, e não veio ao espírito [306] do senhor Jeová a ideia de isentá-lo, por uma exceção solene, das consequências comuns e nauseabundas da digestão, já que os odores da caca repugnam ao seu olfato sacrossanto?... Que todo alimento aproveitasse inteiramente aos estômagos israelitas, supressão completa da evacuação, e eis, parece-me, uma engenhosa solução do problema; se preciso fosse, os judeus não teriam tido olho do cu (fr. “trou-de-balle”, palavra chula, literalmente “buraco de bala”), e isso os teria distinguido do resto da humanidade, melhor ainda que [307] a circuncisão. Ou ainda, se o Todo-Poderoso não tivesse querido dar ao seu povo um privilégio tão notável como o da ausência de ânus, se fazia questão de que os hebreus fossem de corpo como todo o mundo, teria sido fácil para ele, de outra maneira, não ter de fungar fedentinas, quando estava no meio deles, no seu acampamento: eu, se fosse deus, teria simplesmente decretado que a caca judia, em tempo de guerra, cheiraria a violeta ou a qualquer [308] outro perfume deleitável: não era mais complicado do que isso!... Diz-se que um soneto sem defeito vale, por si só, um bom poema (alusão ao verso de Boileau, “Art poétique”, canto II: “Un sonnet sans défaut vaut seul un long poème”, um soneto sem defeito vale sozinho um longo poema); por minha fé, creio que os versículos 12, 13 e 14 do capítulo 23 do Deuteronômio valem, os três juntos, mais que todos os salmos de Davi. É de uma imensidade incomparável o horizonte que esses três versículos abrem à ciência dos teólogos; há aí, nesse nariz de Deus refratário aos maus cheiros, profundidades teológicas inauditas, se nos quisermos dar ao trabalho de perscrutar, de examinar e de dissertar piedosamente. Assim, tomo como juiz disso o meu velho amigo Leão XIII, e peço-lhe humildemente que submeta ao próximo concílio a questão seguinte: o fato dos três versículos em questão, nos quais um fiel é obrigado a crer sob pena de anátema, visto que pertencem à Bíblia, não complica de modo espantoso o mistério da Eucaristia, já tão complicado? Em duas palavras, durante a missa, no momento da consagração, se o sacerdote, ao pronunciar as palavras sacramentais, solta, por acidente, um peido de couve podre, Deus desce à hóstia e a transubstanciação se realiza? Não me digais que é impossível que tal acidente aconteça. Na minha juventude, no colégio Saint-Louis (estabelecimento religioso de Marselha, cidade natal de Taxil) — especifico! — desempenhei algumas vezes o ofício de coroinha, e aconteceu-me ajudar à missa, notadamente a um santo homem, o abade Jourdan, que era de um temperamento muito ventoso. Eram os feijões do colégio que lhe produziam efeito? Inclino-me a crê-lo, em sua defesa. Seja como for, lembro-me de que uma manhã, no momento em que, ajoelhado atrás dele, eu levantava a barra da sua casula, ao mesmo tempo que agitava a campainha, de verdade! era de não se aguentar, tanto a artilharia intestinal do santo homem fazia furor, e provavelmente bem contra a sua vontade. O bom abade Jourdan ainda vive; é cônego, na minha diocese natal; esteja ou não curado da sua enfermidade crepitante, a questão deve evidentemente interessar-lhe mais que a ninguém. Por isso, quando ela for examinada pelo concílio que solicito, terei o prazer de lhe oferecer as despesas de viagem, nem que seja só para lhe provar que não lhe guardo rancor pelos infectos quartos de hora que me fez passar outrora. [309] Portanto, no tempo da minha infância, não dei aos acidentes ventosos de um sacerdote oficiante mais importância que a de um mau cheiro infligido ao meu nariz humano. Mas, hoje que folheio com cuidado a bendita Bíblia e que mergulho devotamente no seio dos seus sublimes esplendores, os três versículos do Deuteronômio, que permaneceram demasiado despercebidos até o presente, estimulam o meu zelo e me fizeram compreender que eu tinha um grande dever a cumprir, levantando a grave e necessária questão da bufa (fr. “vesse”, palavra chula: o peido silencioso; o peido do penúltimo parágrafo era um “pet”, o que se ouve) sacerdotal solta por um oficiante no momento em que pronuncia as palavras: «Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue.» Ninguém ignora que nesse mesmo instante o Altíssimo se torna semelhante à cavala (fr. “maquereau”, o peixe, como Taxil vai explicar; na gíria é também o cafetão, segundo sentido que Taxil deixa ficar), tal como é apregoada em Paris pelas ruas, isto é: «Está chegando! está chegando!...» Mais ainda, Deus cumpre então, melhor que a dita cavala, o anúncio da peixeira, visto que esta exagera ao acrescentar: «Pede para ser frita!» A verdade é que a cavala não pede para ser frita mais do que a enguia para ser esfolada viva; são os humanos que lhes atribuem esses pedidos, a respeito dos quais esses infortunados peixes nunca foram consultados. Ao contrário, no que respeita ao Altíssimo Jeová (e Cia.), não só ele chega à hóstia de repente, mas ainda pede realmente para ser papado, ele!... Eis o que é a Eucaristia. Por conseguinte, como é inadmissível que o Novo Testamento esteja em contradição com o Antigo Testamento, do qual faz parte o Deuteronômio, como esses dois Testamentos são, tanto um como o outro, obra do Espírito Santo, afigura-se de uma lógica das mais límpidas que Deus, cujo horror às fedentinas é um fato de absoluta certeza, deve evidentemente fazer-se puxar a orelha (fr. “se faire tirer l’oreille”, locução: fazer-se muito rogado) para se transformar em obreia, quando tem de se haver com um ministro de olho do cu gasoso. Ele se instala definitivamente na hóstia, sim ou não? Espera que o cheiro do peido de padre tenha passado, ou torna a subir ao seu paraíso com mais ou menos mau humor? Eis a questão de interesse geral que o meu fervor propõe candidamente à minha santa madre Igreja. Como se vê, nada é mais grave; pois, se, no caso de que se trata, as hóstias que o padre crepitante se prepara para [310] distribuir aos fiéis não passam de um simples pão, sem sequer um pelo da barba de Sabaote dentro, os comungantes são roubados, por azul!... E suponde um fiel que conta com essa comunhão, com indulgência plenária aplicável, a fim de tirar a sogra do purgatório, calculai, peço-vos, a imensidade do desastre!... Vamos, santo padre, depressa um concílio, se vos apraz! Não fechemos os capítulos do Deuteronômio, que decretam [311] as ordenanças divinas, sem citar mais esta: «Quando uns homens tiverem uma contenda entre si, um contra o outro, se a mulher de um se aproximar para livrar o seu marido daquele que o espanca, e se então, estendendo a mão, ela agarrar este pelos testículos, cortar-se-á a mão dessa mulher.» (Deuteronômio 25:11-12) Excelente Jeová! previa tudo!... Declarou ainda a Moisés que os seus compatriotas, depois da sua entrada na Terra Prometida, deveriam destinar duas [312] montanhas a um uso bastante curioso: sobre uma, chamada Gerizim, abençoariam o povo; sobre a outra, chamada Ebal, pronunciariam toda sorte de maldições (ch. 27). Quanto às ameaças de Jeová, eis algumas amostras, extraídas do capítulo 28: «Se não quiserdes ouvir a voz do Eterno, vosso Deus, o Eterno vos enviará a ruína em todos os negócios que empreenderdes (v. 20); o Eterno vos ferirá de languidez e de febre (v. 22); o Eterno vos acabrunhará de hemorroidas, de sarna e de coceira, de que não podereis sarar (v. 27)... Quando vos casardes, outro se deitará com a vossa mulher (v. 30); tomar-vos-ão o vosso jumento e não vo-lo devolverão (v. 31); o Eterno vos fará ter uma úlcera muito maligna que vos roerá os joelhos, assim como as coxas (v. 35); sereis um motivo de escárnio para todos os povos (v. 37); semeareis muitos grãos nos vossos campos, e não tereis senão colheitas muito magras (v. 38)... Nascer-vos-ão filhos e filhas, mas não serão vossos (v. 41); o estrangeiro vos emprestará com usura, e vós não lhe emprestareis com usura (v. 44)... O Eterno fará vir de uma terra remota, e das extremidades da terra, um povo cuja linguagem não entendereis, e que não terá piedade nem dos vossos velhos nem das vossas crianças: esse povo comerá os vossos frutos, as crias das vossas bestas, e não vos deixará nem trigo, nem vinho, nem azeite (v. 49-51)... Comereis os vossos próprios filhos, tanto a carne das vossas filhas como a dos vossos filhos (v. 53); o homem mais terno e mais delicado dentre vós olhará com olho seco para o seu irmão e para a sua mulher bem-amada e recusará dar-lhes de comer da carne dos seus filhos, que ele comerá sozinho (v. 54-55); a mãe mais terna tomará o seu filho acabado de nascer, comê-lo-á às escondidas, e olhará com olho seco para o seu marido bem-amado (v. 56-57).» De todas as penas com que Jeová ameaça o seu povo, nem uma só é um castigo espiritual. O povo de Deus não conhecia, pois, senão as penas temporais; é bom assinalá-lo, observando além disso que em parte alguma, no Antigo Testamento, se fala de inferno nem de purgatório. Se Deus, como se viu, se preocupava com a caca dos judeus, em contrapartida mal se importava com as suas almas, a tal ponto que estas palavras «imortalidade da alma» não se encontram em [313] nenhum lugar dos livros sagrados, sobre os quais os cristãos enxertaram a sua religião. Depois das ameaças, vem um fragmento histórico (!): Moisés, com a idade de cento e vinte anos, demite-se do seu cargo em favor de Josué, para vivo desprazer do sumo sacerdote Eleazar, e confia a Josué a missão de conduzir os hebreus à terra de Canaã. Pouparemos ao leitor um cântico cantado por Moisés ao despedir-se dos seus compatriotas, assim como as bênçãos que ele pronuncia sobre cada uma das tribos de Israel. Finalmente, o extraordinário herói bíblico, obedecendo a uma ordem divina, sobe ao monte Nebo, onde sabe que vai morrer, e de onde pode, antes de entrar em agonia, contemplar a Terra Prometida.
120. Moisés institui Josué seu sucessor. A Igreja decidiu, depois da Sinagoga, que o Pentateuco é obra de Moisés; sobre este ponto, judeus e cristãos estão plenamente de acordo. Não vades dizer ao papa que os cinco livros de que o Deuteronômio é o último foram escritos por outro que não o genro de Jetro; se tivésseis a audácia de insinuar isso, seríeis excomungado. Esses cinco livros, ensinam os teólogos, que não largam a mordida (fr. “n’en démordent pas”, locução: aferram-se obstinadamente a essa opinião), foram escritos por Moisés desde a primeira linha até a última, sob a inspiração do divino pombo. Um livro comum, um livro puramente humano pararia, pois, na ascensão de Moisés, galgando o monte Nebo; em último caso, o grande homem poderia escrever como conclusão: «Sinto que me vou; agora, pouso a minha pena, pois estou a ponto de morrer; n, i, ni, fini.» Ora, Moisés, na sua qualidade de escritor sagrado, não podia ficar por aí. Teve, pois, o cuidado de consignar, no seu último capítulo, a sua morte, o fato da sua sepultura, o luto do povo, e teve a amabilidade de dirigir a si mesmo um pequeno elogio póstumo. «Assim, Moisés, servo do Eterno, morreu ali (sobre o monte Nebo), na terra de Moabe, segundo o que o Eterno tinha dito (Deuteronômio 34:5); e o Eterno o sepultou no vale, defronte de Bete-Peor, e ninguém tem sabido até este dia onde estava o seu túmulo (v. 6). Ora, quando morreu com cento e vinte anos, Moisés tinha ainda a vista muito boa, e o seu vigor não tinha passado (v. 7); e os filhos de Israel choraram a Moisés trinta dias, nas campinas de Moabe (v. 8). E [314] Josué, filho de Num, foi cheio de sabedoria, porque Moisés lhe tinha imposto as mãos; e os filhos de Israel lhe obedeceram desde então (v. 9). E nunca se levantou em Israel um profeta tão santo como Moisés, e a quem Deus tenha permitido, como a ele, vê-lo face a face (v. 10).» Algum leitor sacudirá a cabeça, depois de ter visto estas linhas; vai lhe parecer que elas provam que Moisés é alheio à sua redação. Erro, meu amigo! Os teólogos vos dirão [315] que esse é o estilo do próprio Moisés, e que, aliás, em todos os capítulos precedentes, ele nunca empregou a primeira pessoa, mas sempre a terceira, quando falou de si. Nada a replicar, quando a Igreja se pronunciou. Ora, a opinião bem firmada da Igreja é exposta por Mons. Paul Guérin, nestes termos: «O Pentateuco é o nome coletivo dos cinco primeiros livros da Bíblia. Moisés é o autor do Pentateuco. O Pentateuco é autêntico, e a sua autenticidade [316] é tão certa como a dos livros mais autênticos, tão certa como a própria existência de Moisés (assim!...); não se pode recusar ter por autêntico um livro cuja autenticidade tem a seu favor a fé pública e constante de uma nação cuja história, culto e legislação ele descreve, sobretudo se esse livro apresenta os caracteres da antiguidade que se lhe atribui, e se é aliás impossível que seja apócrifo, isto é, escrito por outro que não aquele cujo nome traz. Ora, tal é o Pentateuco: a fé pública e constante da nação judaica, os caracteres de antiguidade que se notam nesse livro, a impossibilidade de ser apócrifo, tudo lhe demonstra a autenticidade. Moisés escreveu o Pentateuco sob a inspiração do Espírito Santo.» (Dicionário dos dicionários (fr. “Dictionnaire des dictionnaires”: enciclopédia universal em seis volumes, 1884-1890, dirigida por um prelado, Mons. Paul Guérin, camareiro do papa), enciclopédia católica, tomo V, página 690) Inclinemo-nos, meus irmãos, e não nos espantemos mais de nada. CAPÍTULO 8
Eis, pois, Josué elevado sobre o pavês e proclamado chefe supremo dos hebreus. Imediatamente, papai Bom Deus, para lhe dar coração ao ventre (fr. “donner du cœur au ventre”, locução: dar coragem), apareceu-lhe e prodigalizou-lhe boas promessas: «Levanta-te, passa o Jordão, tu e todo o povo contigo, para entrar na terra que eu dou aos filhos de Israel. Possuireis todas as terras onde tiverdes posto a planta dos vossos pés. As vossas fronteiras serão desde o deserto e o Líbano até ao grande rio Eufrates, e toda a terra dos heteus vos pertencerá também, até ao grande mar, para o lado do sol poente. Ninguém te poderá resistir, enquanto viveres; porque não te abandonarei. Fortifica-te, pois, e toma coragem.» (Livro de Josué 1:2-6)
121. Josué proclamado chefe dos hebreus. Não era a primeira vez, desde a saída do Egito, que Jeová recordava o que tinha jurado a Abraão, Isaque e Jacó. Ah! que imenso império aquele que ele se tinha comprometido, por juramento, a dar ao seu povo! Todas as terras compreendidas entre a península do Sinai, o Mediterrâneo [317] e o Eufrates, esse império teria sido maior que o da Assíria. Mas, também, que falência desses compromissos solenes! Os judeus nunca tiveram senão um miserável território. Esse Eufrates tão prometido, conheceram-no não como proprietários, mas como cativos. O seu grande rio nunca foi senão o pobre Jordão. Que fez o sucessor de Moisés depois das exortações de Jeová? «Josué enviou secretamente de Sitim dois espiões. Estes partiram, entraram na cidade de Jericó, e passaram a noite em casa de uma tal Raabe, que era uma prostituta.» (Josué 2:1)
122. Dois espiões são enviados a Jericó. As traduções cristãs da Bíblia qualificam de estalajadeira a dama Raabe; ora, o texto original hebraico traz zonah, palavra que significa real e verdadeiramente prostituta, mulher devassa, que vive dos seus encantos. Por que essa inexatidão de tradução? Não será porque a supracitada Raabe figura, no Evangelho (genealogia dada por São Mateus 1:5), entre as avós de Jesus Cristo?... «O rei de Jericó, tendo sido avisado, enviou mensageiros a Raabe, e disseram a essa prostituta: Faze sair os dois homens que entraram na tua casa; porque são espiões vindos para examinar a terra. Mas essa mulher os escondeu e respondeu: Saíram, enquanto se fechavam as portas da cidade, e não sei aonde foram.» (v. 2-5)
123. A polícia de Jericó em casa de Raabe. Depois da partida da polícia, Raabe fez um pacto com os dois espiões. Informou-os de que a gente da terra, conhecendo as maravilhas da saída do Egito, tinha um medo atroz do exército judeu.
124. Raabe faz um pacto com os dois espiões. Quanto a eles, deram-lhe um sinal distintivo para pôr na sua casa, e prometeram-lhe que, por ocasião da futura tomada de Jericó, esse sinal a faria excetuar do massacre. Firmado esse pacto, os dois espiões evadiram-se pela janela, pois a casa de Raabe ficava bem junto aos muros da cidade. (Josué 2:9-21)
125. A evasão dos espiões. Os críticos perguntam por que, se Deus tinha jurado a Josué que estaria sempre com ele, Josué tomou contudo a precaução de enviar espiões à casa de uma mulher de vida alegre. Que necessidade, diz Voltaire, tinha ele dessa miserável, quando Deus lhe tinha prometido o seu socorro pela sua própria boca; quando estava certo de que Deus combatia por ele, e quando estava [318] à frente de um exército de seiscentos mil homens, dos quais destacou, segundo o texto sagrado, quarenta mil para ir tomar a aldeia de Jericó, que nunca foi fortificada, visto que os povos daquele país ainda não conheciam as praças de guerra e que Jericó está num vale onde é impossível fazer uma praça defensável? — De Jericó, que fica ao pé do monte Karantal, não restam hoje senão algumas pobres choças, que abrigam cerca de 300 habitantes; os guias para uso [319] dos turistas nos informam que a moralidade das mulheres desse lugarejo continua à altura daquela da sua gloriosa antepassada Raabe. A propósito dessa moça Raabe, o beneditino Dom Calmet discutiu se ela foi ou não culpada de uma mentira, ao dizer que os espiões judeus tinham partido, quando estavam em sua casa; ele afirma que ela praticou assim uma ação muito boa. «Estando informada, escreve esse teólogo, do desígnio de Deus, que [320] queria destruir os cananeus e entregar o seu país aos hebreus, ela não podia resistir-lhe sem cair no crime de rebelião para com Deus; além disso, estava persuadida das justas pretensões de Deus, e da injustiça dos cananeus; assim, não podia tomar um partido nem mais equitativo nem mais conforme às leis da sabedoria.» O sábio Fréret respondeu que, se assim fosse, a prostituta Raabe teria sido inspirada, pois, pelo próprio Deus, tanto quanto Josué; o que seria muito estranho. Parece, pelo contrário, diz ele, que essa Raabe, pelo seu crime abominável de traição à sua pátria em proveito dos espiões de um povo bárbaro, era uma infame que merecia o último suplício. Mas não insistamos, e prossigamos. Josué ordenou marchar contra Jericó; para isso, era preciso primeiro passar o Jordão. Os sacerdotes que levavam a arca da aliança marcharam à frente do povo; entraram afoitamente na água, como gente bem certa de que um milagre não podia deixar de se produzir. Mal os seus pés se molharam, as ondas superiores do rio detiveram-se, como se um dique invisível se tivesse subitamente erguido, e acumularam-se a uma altura formidável, enquanto as águas inferiores, seguindo o seu curso comum, deixaram o leito do Jordão a seco. E os sacerdotes ficaram no meio do rio, até que todo o povo judeu tivesse passado. Em memória do milagre, amontoaram-se doze pedras grandes junto ao Jordão. Depois, assim que os carregadores da arca da aliança alcançaram a margem direita, as águas retomaram o seu curso habitual (Josué 3, 4). Ao saber dessas maravilhas, os reis dos diversos povos da região, até as costas do Mediterrâneo, «sentiram o seu coração derreter-se» e desanimaram no mais alto grau. Nesse ínterim, papai Bom Deus fez notar a Josué que, desde a partida do Egito, a circuncisão não tinha mais sido praticada. Por que esse esquecimento? a Bíblia não o diz; limita-se a informar-nos do fato, de repente. Nenhum dos machos que tinham nascido no deserto tinha sofrido a pequena operação que se sabe. Ora, a totalidade do povo hebreu ultrapassava então quatro milhões de pessoas dos dois sexos; isso dava, pois, aproximadamente dois milhões de machos, [321] de todas as idades. Pode-se assim imaginar a quantidade fantástica de prepúcios que foram cortados, por ordem de Josué, e ninguém se espanta de que o seu montão formasse uma verdadeira colina; o autor sagrado chama-lhe «montanha dos prepúcios (fr. “montagne des prépuces”: a Bíblia de Ostervald traz “au coteau des prépuces”, na encosta dos prepúcios, e Voltaire “la colline des prépuces”, a colina dos prepúcios; a montanha é de Taxil, que a atribui ao autor sagrado)». Catorze dias depois, os hebreus celebraram a Páscoa e tiveram bastante trigo para fabricarem pão; desde então, o maná, não sendo mais necessário, cessou (Josué 5). Conformemente às instruções divinas, o exército israelita deu a volta a Jericó, durante seis dias seguidos, os soldados marchando gravemente e os sacerdotes tocando os seus instrumentos de música; os sitiados estavam boquiabertos com essa maneira de combatê-los, mas não se rendiam.
126. Primeira volta dos hebreus ao redor de Jericó.
127. Segundo passeio com música ao redor de Jericó.
128. Os hebreus desesperam de tomar a cidade. No sétimo dia, de novo segundo as prescrições de Jeová, executou-se ainda uma vez o passeio circular, desta vez com outra música mais forte, acompanhada de um grande grito dado por todo o povo, e então as muralhas da cidade desabaram.
129. As muralhas de Jericó desabam. Josué ordenou massacrar tudo, «desde o homem até à mulher, desde a criança até ao velho, até mesmo ao boi, ao gado miúdo e ao jumento». A prostituta Raabe foi a única poupada, com os seus parentes, a quem tinha dado asilo em sua casa. «Após o que, os hebreus, tendo tomado o ouro e a prata para o tesouro do Senhor, queimaram a cidade e tudo o que estava dentro.» (Josué 6)
130. Massacre dos habitantes de Jericó. Essa carnificina inspirou a lorde Bolingbroke estas reflexões, que se encontram nas suas obras publicadas pelo poeta David Mallet, seu amigo: «Será possível, escrevia o grande ministro do reino da Inglaterra, que Deus, o pai de todos os homens, tenha conduzido ele mesmo um bárbaro com quem o canibal mais feroz não quereria parecer-se? Grandes deuses! vir de um deserto desconhecido para massacrar toda uma cidade desconhecida! degolar as mulheres e as crianças, contra todas as leis da natureza! degolar todos os animais! queimar as casas e os móveis, contra todas as leis do bom senso, no tempo em que não se têm nem casas nem móveis! não poupar senão uma vil p.... digna do último suplício! Se este conto não fosse o mais absurdo de todos, seria o mais abominável. Só um ladrão bêbado pode tê-lo escrito, e só um imbecil bêbado pode acreditar nele.» Não esqueçamos que o autor destas reflexões foi um dos mais eminentes homens de Estado da nação inglesa; [322] ministro dos Negócios Estrangeiros, lorde Bolingbroke foi o instigador e o verdadeiro autor do famoso tratado de Utrecht, que pôs enfim termo às longas e sangrentas guerras do reinado de Luís XIV; pode-se dizer que, por essa grande obra, o orgulho da sua vida, ele devolveu a paz à Europa, e isso em condições satisfatórias para todas as potências. É útil recordar a glória desse homem de bem que honra a humanidade e que empregou o seu gênio em deter a degola [323] dos povos; isso é necessário, a fim de fechar a boca aos fanáticos que seriam tentados a tratar a citação que se acaba de ler de divagação ímpia de algum obscuro foliculário. Foi lorde Bolingbroke quem emitiu este juízo sobre a Bíblia: «Seria ofender a Deus e aos homens discutir seriamente este miserável tecido de fábulas, nas quais não há uma palavra que não seja ou o cúmulo do ridículo ou o cúmulo do horror.» [324] No dizer do autor sagrado, a tomada e o saque de Jericó tiveram por resultado uma conspiração geral contra Israel. Vendo a maneira expeditiva como os hebreus entendiam a conquista, os reis que governavam a região disseram consigo que lhes era preciso exterminar esses invasores, sob pena de serem exterminados por eles; coligaram-se, pois, e reuniram um conselho em que se tomaram grandes resoluções (Josué 9).
131. Cinco reis conspiram contra os hebreus. Todavia, não tinham pensado num ligeiro pormenor, que não deixava de ter a sua importância: é que Deus estava com Josué. O senhor Jeová meteu o pavor no exército deles, e «Josué infligiu-lhes uma terrível derrota perto de Gibeão; perseguiu-os pelo caminho de Bete-Horom, continuando a batê-los até Azeca e mesmo até Maquedá» (Josué 10:10). Melhor ainda, o pai Sabaote, picado no seu amor-próprio, tomou ele mesmo parte no combate: «Enquanto os fugitivos corriam pela estrada de Bete-Horom, o Eterno lançou sobre eles, do alto do céu, grandes pedras, até Azeca, e delas morreram; foram mais os que pereceram sob a saraiva de pedras do que os que os israelitas mataram à espada» (v. 11).
132. Deus combate pelo seu povo fazendo chover pedras sobre o exército inimigo. Mas Josué achava que a sua vitória ainda não era bastante completa. «Então, Josué disse na presença de todos os filhos de Israel: Sol, detém-te sobre Gibeão, e tu, lua, detém-te no vale de Aijalom. E o sol se deteve, e a lua também, até que o povo tivesse acabado a carnificina. O sol, que estava no meio dos céus, deteve-se, pois, e não se apressou a pôr-se, cerca de um dia inteiro. Nunca dia algum, nem antes, nem depois, foi tão longo como aquele» (Josué 10:12-14).
133. Josué detém o sol. Ao ler este relato, é de espantar que, depois da chuva de pedras, Josué ainda tenha recorrido ao grande milagre de deter o sol e a lua. O texto diz que o astro do dia estava em pleno meio-dia; parece, pois, que teria havido tempo para matar todos os fugitivos desde o meio-dia até a noite nessa estrada de Bete-Horom, supondo que as pedras celestes tivessem errado alguns deles. É verdade que os teólogos nos dirão talvez que certo número desses fugitivos correu tão depressa que foram necessárias mais de seis a sete horas para alcançá-los. Quanto aos físicos, ainda não puderam explicar como o sol, que não anda, deteve o seu curso, nem como esse dia, que foi o dobro dos outros [325] dias, pôde conciliar-se com o movimento dos planetas e a regularidade dos eclipses. Este magnífico milagre de Josué provocou muitos risos alegres e vale-nos algumas anedotas. Conta-se, notadamente, a de um discípulo de Galileu, que tinha sido levado perante a Inquisição por ter sustentado o movimento da terra em torno do sol. Liam-lhe a sentença; ela dizia que ele blasfemara, visto que Josué detivera o sol, e que por conseguinte é esse astro que anda, e não a terra. «Eh! monsenhores, respondeu o acusado, é decerto desde esse tempo que o sol já não anda!» O exército, que acabava de ser aniquilado nesse desastre, tinha à sua frente cinco reis; estes tinham escapado à chuva de pedregulhos divinos e à espada dos soldados judeus. Como assim? Tinham-se refugiado numa caverna, em Maquedá (Josué 10:16). Josué, ao saber da coisa, deu depressa ordem de rolar grandes pedras à entrada da caverna (Josué 10:18). Eis os cinco reis apanhados como ratos numa ratoeira. Nisso, Josué foi a Maquedá, mandou tirar as grandes pedras que fechavam a caverna, e os cinco monarcas foram obrigados a sair. Depois, os capitães foram chamados, e Josué disse-lhes: «Agora, ponde os vossos pés sobre os pescoços destes reis.» Depois disso, Josué começou por feri-los a grandes golpes, e em seguida matou-os, e mandou pendurar os seus cadáveres em cinco forcas, onde ficaram até a noite; por fim, os cadáveres foram repostos na caverna, fechada de novo por meio de grandes pedras. O autor sagrado acrescenta gravemente: «Os corpos destes cinco reis ainda estão lá.» (v. 22-27) Josué continuou as suas façanhas. «Devastou toda a terra, as montanhas e as planícies; matou todos os reis e fê-los enforcar a todos; matou tudo o que tinha vida, como o Senhor lho havia ordenado» (Josué 10:40). — «Perseguiu todos os reis que restavam, e a sua carnificina foi tal que nada dela escapou; queimou os carros, cortou os jarretes dos cavalos por toda parte. E, quando esteve em Hazor, que tinha sido uma grande capital, matou-lhe o rei, degolou todos os habitantes e todas as bestas; e reduziu tudo a cinzas.» (11:8-11) — «Josué fez guerra vários anos contra todos aqueles reis.» (v. 18) — «Marchou também contra os gigantes das montanhas [326] e exterminou-os (v. 21); e não deixou nenhum da raça dos gigantes, exceto em Gaza, Gate e Asdode.» (v. 22) — «E fez enforcar ao todo trinta e um reis.» (Josué 12:24) Puxa! trinta e um reis enforcados! É muito num país de sete a oito léguas de extensão!... Depois que as populações da Terra Prometida sofreram uma esborrachada (fr. “écrabouillade”: um esmagamento completo; palavra formada sobre o familiar “écrabouiller”, esmagar até reduzir a papa) completa, os hebreus viram-se senhores; só lhes restava repartir entre si a região. [327] Foi o que fizeram. Do capítulo 13 ao capítulo 21 inclusive, o livro de Josué indica minuciosamente o território que foi atribuído a cada tribo; há ali uma enumeração formidável de cidades. O leitor terá uma ideia aproximada disso sabendo que a tribo de Judá, por sua parte, recebeu cento e vinte e quatro cidades, sem contar as aldeias; todos os nomes dessas cidades são citados expressamente (Josué 15:20-63). Quanto aos levitas, receberam quarenta e oito cidades, das quais [328] seis chamadas de refúgio (Josué 20, 21). O próprio Jeová, aliás, tinha fixado o número: «Os levitas, estipulara ele, terão quarenta e oito cidades, espalhadas pelos territórios das doze tribos; habitarão nessas cidades, e os arrabaldes dessas cidades serão para as suas bestas, para os seus bens e para todos os seus animais. Além disso, os arrabaldes das cidades levíticas serão de mil côvados em redor, desde o muro da cidade para fora.» (Números 35) As seis cidades de refúgio destinavam-se a servir de asilo aos homicidas que tivessem matado alguém sem premeditação.
134. Partilha da terra de Canaã em doze tribos. Lorde Bolingbroke julga que estas passagens da Bíblia só puderam ser compostas por um levita ávido e bárbaro, que escrevia em tempos de anarquia. Eis como esse filósofo formula a sua opinião: «Jamais o povo judeu, nas suas maiores prosperidades, teve quarenta e oito cidades muradas. Nem sequer se crê que Herodes, o seu único rei verdadeiramente poderoso, as possuísse. Jerusalém, no tempo de Davi, era a única habitação dos judeus que merecesse o nome de cidade; mas era então uma vilória que não teria podido sustentar um cerco de quatro dias. Só foi bem fortificada por Herodes. Na realidade, os levitas não tinham outras possessões além do dízimo, e o pequeno povo israelita não teve cidade alguma, nem sob Josué, nem sob os Juízes. A longa enumeração que se encontra no livro de Josué não passa de uma longa e ridícula mentira. Como teria podido esse minúsculo povo, errante e vagabundo até Saul, dar quarenta e oito cidades aos seus sacerdotes, ele que foi sete vezes reduzido à escravidão, por sua própria confissão? O levita falsário que escreveu essas orgulhosas tolices afirma ainda que se puseram em poder dos sacerdotes seis cidades de refúgio para os homicidas; eis um belo incentivo aos maiores crimes. Não se sabe o que deve revoltar mais, se o absurdo que faz dar quarenta e oito cidades a sacerdotes num deserto, se seis cidades de refúgio nesse mesmo deserto para ali atrair todos os celerados!» No mínimo, a famosa partilha, realizada com tanto cuidado sob a direção de Josué, comporta cerca de seiscentas cidades para o conjunto das tribos israelitas. Desculpai o pouco!... E notai que a região mede dois graus de longitude na sua maior largura, e dois graus e meio de latitude [329] no seu maior comprimento, na época em que o poderio judeu atingiu o apogeu do seu florescimento, isto é, de modo nenhum no tempo de Josué. Efetuada a partilha, Josué via a sua missão terminada; por isso morreu... aos cento e dez anos (Josué 24:29). Tinha exterminado tudo; os capítulos do seu livro repetem à saciedade que as suas incessantes vitórias não deixaram um ser vivo. Ora bem, segurai-vos firme (fr. “tenez-vous bien”, locução: preparai-vos para uma surpresa), leitor! Depois da morte de Josué, vamos reencontrar todos esses inimigos exterminados mais poderosos que nunca, e mantendo os judeus na mais dura escravidão, até o tempo de Saul e de Davi. Com efeito, o livro dos Juízes — o que segue imediatamente o livro de Josué — mostra-nos, desde o primeiro capítulo, as tribos de Judá e de Simeão em guerra contra dez mil cananeus, governados por um rei chamado Adoni-Bezeque. Naturalmente, essa população, que se achava ali de repente não se sabe como, foi passada ao fio da espada. Quanto a Adoni-Bezeque, antes de o degolarem, infligiram-lhe um suplício. «Os descendentes de Judá e de Simeão, tendo-o apanhado, cortaram-lhe primeiro as mãos e os pés (fr. “les mains et les pieds”: a Bíblia de Ostervald traz “les pouces des mains et des pieds”, os polegares das mãos e dos pés, e o mesmo dos setenta reis: as mãos e os pés inteiros, e os reis que comem “sem mãos”, são de Voltaire, em La Bible enfin expliquée). Então, Adoni-Bezeque disse: Mandei cortar as mãos e os pés a setenta reis, que comiam debaixo da minha mesa os restos do meu jantar; Jeová tratou-me como eu tratei todos esses reis.» (Juízes 1:6-7) Esse Adoni-Bezeque era, pois, um poderoso monarca, já que tinha reduzido ao cativeiro setenta reis daquela região. A sua capital chamava-se Bezeque, segundo a Bíblia; mas essa cidade, esse terrível potentado e o seu reino ficaram completamente ignorados dos historiadores. Isso espanta; pois essa imensa mesa, debaixo da qual setenta reis comiam sem mãos, era bem própria para valer a Adoni-Bezeque uma reputação considerável. Seja como for, se juntarmos esses reis vencidos e mutilados por Adoni-Bezeque aos trinta e um exterminados por Josué, isso nos dá, com Adoni-Bezeque, o Cruel, um total de cento e dois reis, e, por conseguinte, de cento e dois reinos na terra de Canaã. Se lançarmos os olhos sobre o mapa geográfico e fizermos a divisão desse pequeno território, eis, pois, reinos que teriam tido, cada um, apenas meio quarto de légua; é magro! Esses cento e dois reis deviam estar bem apertados nesse estreito [330] espaço, e já era tempo de que os judeus viessem pôr ordem em tal estado de coisas tomando o lugar dos cananeus. Contudo, Jeová, embora todo-poderoso, não pôde acabar com alguns desses cananeus, que, aniquilados por Josué, tinham brotado de novo, como por encanto, nessa região extraordinária. «Deus estava com Judá, e os seus descendentes tornaram-se senhores das montanhas; mas não puderam vencer os habitantes dos vales, [331] porque estes tinham carros de guerra armados de foices.» (Juízes 1:19) A provisão de grandes pedras que mestre Jeová tinha no seu céu estava, pois, esgotada? tal é a reflexão que não se pode deixar de fazer. Mas, levando mais a fundo o exame dessa passagem da Bíblia, pergunta-se como esses cananeus, que escaparam por pouco graças aos seus carros de guerra, podiam possuir tais carros, já que a sua manobra era impossível nesse [332] país todo coberto de montanhas e de pedregulhos. Com efeito, os carros de guerra armados de foices só foram inventados nas grandes planícies que ficam para os lados do Eufrates, e sabe-se que os babilônios e os persas só puseram essa invenção em prática três séculos depois de Josué. Os capítulos 2 e 3 do livro dos Juízes mostram-nos os hebreus faltos de gratidão para com Jeová e logo punidos pela derrota e pela escravidão. Depois da morte de Josué, os nossos judeus tinham escolhido para si Juízes, para governá-los; esse período da sua história não é muito brilhante.
135. Governo dos Juízes. «Os filhos de Israel, abandonando o Deus de seus pais, Jeová, que os tinha tirado da servidão do Egito, prostraram-se diante das estátuas de Baal; adoraram a Baal e a Astarote (Juízes 2:12-13);
136. Os israelitas põem-se a adorar os ídolos. e, como habitaram no meio dos cananeus, dos amorreus, dos ferezeus, dos heveus e dos jebuseus, tomaram as suas filhas por mulheres, deram as suas filhas em casamento aos filhos desses povos, e serviram aos seus deuses.» (Juízes 3:5-6) Não nos cansemos, para melhor admirar esses casamentos, de lembrar que o exército dos seiscentos mil israelitas, comandados por Josué, tinha destruído sem misericórdia todos os habitantes da região: Moisés, ao menos, mandava às vezes poupar 32.000 donzelas; mas o seu sucessor não deixava um ser vivo. «Jeová, estando, pois, encolerizado contra os filhos de Israel, entregou-os nas mãos de Cusã-Risataim, rei da Mesopotâmia, de quem foram escravos durante oito anos» (Juízes 3:8). O crítico inglês Thomas Woolston (sic: “Wolston” no texto de 1904; deísta, 1668-1733, preso por blasfêmia em 1729; Taxil segue aqui, grafia incluída, uma nota de Voltaire sobre os Juízes, em La Bible enfin expliquée), que pagou com vários anos de prisão a sua independência em matéria religiosa, e que exerceu a sua verve tanto contra os livros sagrados dos cristãos como contra os dos judeus, declarava claramente que era preciso escolher entre a história dos Juízes e a de Josué, visto que uma ou outra é mentirosa, já que há contradição flagrante entre esses dois santos livros. Não é possível, dizia ele, que os hebreus tenham sido escravos imediatamente depois de terem exterminado todos os habitantes de Canaã com um exército de seiscentos mil homens. Quem é esse Cusã-Risataim, rei da Mesopotâmia, que vem de repente acorrentar os filhos [333] de Israel? Como veio de tão longe, sem que se diga nada da sua marcha? O texto diz, é verdade, que é um castigo do Senhor por terem dado as suas filhas em casamento aos cananeus e por terem desposado as filhas destes; mas é fácil demais dizer que, quando um povo foi vencido, é porque pecou, e que, quando foi vencedor, é porque foi fiel: não há nação alguma nem lugarejo algum de selvagens que não possa dizer outro tanto. Será sempre impossível compreender como uma população de quatro milhões de indivíduos, que tinha seiscentos mil homens de armas, pode ter sido reduzida à servidão no mesmo país que acabava de conquistar; assim como é impossível que essa horda formidável de guerreiros tenha aniquilado todos os antigos habitantes, e que depois se tenham estabelecido alianças matrimoniais entre os massacradores e os exterminados. Essa multidão de contradições não é sustentável. Diz-se, logo depois, que ao cabo de oito anos o juiz Otniel livrou os seus compatriotas e que os hebreus expulsaram e mataram esse Cusã-Risataim, rei da Mesopotâmia; mas não nos dão informação alguma sobre essa guerra, que deve ter sido considerável e da qual os historiadores, no entanto, nunca ouviram falar. Quarenta anos mais tarde, os hebreus foram subjugados por Eglom, rei dos moabitas, embora o reino de Moabe já não existisse havia muito tempo; a sua supressão pelo massacre em massa é anterior à tomada de Jericó.
137. Os israelitas, subjugados, levam o tributo ao rei Eglom. Essa escravidão durou dezoito anos. Eúde, filho de Gera, pôs-lhe fim por meio de um estratagema homicida: esse judeu, depois de se juntar aos delegados do povo, que levavam um presente a Eglom, pediu ao tirano que o recebesse à parte na sua câmara, a pretexto de algumas palavras secretas que tinha a dizer-lhe; Eglom, sem desconfiança, fechou-se com Eúde, o qual lhe cravou um punhal no ventre e foi-se embora logo, sem se fazer notar. Esse assassinato encorajou os judeus; revoltaram-se, e dez mil moabitas foram degolados. E a terra ficou em repouso durante oitenta anos. Depois de Eúde foi Sangar, «que matou seiscentos filisteus com uma relha de arado» e que também livrou Israel (Juízes 3:11-31).
138. Eúde imola o rei Eglom. Os hebreus foram de novo escravos de um certo Jabim, [334] rei de Canaã. Felizmente, uma venerável profetisa, que cantava cânticos debaixo de uma palmeira entre Ramá e Betel, Mme Débora, mandou vir para junto de si o sr. Baraque, inflamou a sua coragem, assim como a de dez mil soldados das tribos de Zebulom e Naftali, e partiu em guerra com eles. As tropas de Jabim, comandadas pelo general Sísera, foram feitas em pedaços no seu primeiro encontro com as de Baraque e Débora.
139. A profetisa Débora chama os hebreus à liberdade. O general, na sua fuga, refugiou-se em casa de [335] Héber, que o autor sagrado nos diz ser «um queneu que vivia em paz com o rei Jabim». Ora, Héber tinha uma mulher, a amável Jael, a quem Jeová soprou uma inspiração. A própria Jael ofereceu asilo a Sísera. «Ela veio-lhe ao encontro e disse-lhe: Meu senhor, retira-te para nossa casa, e não temas. E ela o escondeu. Como ele tinha sede e pedia água para beber, ela deu-lhe leite. Sísera pediu-lhe que se pusesse à entrada da tenda; depois, adormeceu [336] profundamente. Então, Jael tomou um prego muito comprido, bem como um martelo, tornou a entrar muito mansamente, e trespassou-lhe a fonte com esse prego, que se cravou até a terra; e o general morreu. E, tendo Baraque chegado depois, Jael mostrou-lhe Sísera estendido morto, dizendo: Eis aquele que buscas.» Quanto ao rei Jabim, não tardou a ser massacrado, e a profetisa Débora cantou um dos seus mais belos cânticos (Juízes 4, 5).
140. Jael, inspirada por Deus, mata o general Sísera. Apesar de Eúde, Débora e Jael, as tribulações dos hebreus não tinham terminado. Desta vez, foram os midianitas (mais almas do outro mundo, estes) que tomaram por tarefa persegui-los. Os infelizes filhos de Jacó, sem estarem, propriamente falando, em estado de escravidão, eram alvo de todas as vexações: quando tinham semeado e trabalhado longamente na esperança de uma abundante colheita, os midianitas tinham um maligno prazer em acorrer aos seus campos, com inumeráveis camelos, e as colheitas perdiam-se; surripiavam-lhes bois, jumentos e gado miúdo; estragavam as frutas dos seus pomares; os infortunados judeus viram-se reduzidos a cavar para si cavernas nas montanhas para se preservarem das mil e uma maldades desses encarniçados perseguidores (Juízes 6:1-6).
141. Os maus midianitas perseguem os filhos de Israel. (a tabuleta da loja diz “Juda bonnetier”, Judá, negociante de malhas, fechado aos domingos: a perseguição de Israel desenhada como o assédio a um lojista judeu, com um insulto rabiscado na vitrine) Havia sete anos que essas importunações duravam, quando papai Bom Deus, tendo enfim piedade do seu povo, resolveu suscitar um novo herói. E, para que o exemplo fosse mais retumbante, escolheu um jovem enfermiço, de nome Gideão, o qual era tão franzino que tinha a maior dificuldade do mundo em manejar o lagar de seu pai. Numa bela manhã, pois, «um anjo do Senhor veio a Ofra e assentou-se debaixo de um carvalho que pertencia a Joás, chefe da família de Abiezer e pai de Gideão; e o anjo disse ao mancebo: Eis que agora és muito forte e muito valente, porque o Eterno é contigo» (Juízes 6:11-12).
142. O jovem Gideão faz-se notar pela sua fraqueza muscular. (a tabuleta diz “Gédéon père, fabricant d’huiles”, Gideão pai, fabricante de óleos; nos tonéis, óleo de baleia, para lampiões, para a extrema-unção e um azeite de Nice, safra de 4960 a.C.) Gideão não ousava acreditar na palavra do anjo, sobretudo quando soube que seria ele quem livraria Israel do jugo dos midianitas. «Se o Eterno me concede esta graça, disse ele, por que não me convencerias disso com algum sinal maravilhoso? Mas permite-me oferecer-te alguma coisa, e, peço-te, não te vás enquanto eu vou buscar-te de comer. O anjo respondeu: Está bem, ficarei aqui até que voltes. Gideão, [337] tendo então voltado para casa, fez cozer a toda a pressa um cabrito e uns bolos; pôs a carne num cesto e o caldo numa panela; depois, levou tudo para debaixo do carvalho e ofereceu-o ao anjo. Mas o anjo disse-lhe: Vês essa pedra que está ali bem perto; põe nela a carne e os bolos, e derrama o caldo por cima. Gideão obedeceu. Então, o anjo estendeu a sua vara sobre o cabrito e os bolos; no mesmo instante, saíram chamas do rochedo; a carne, os bolos e o caldo foram consumidos, e subitamente o anjo desapareceu.» (v. 17-21)
143. Um anjo transforma Gideão em homem forte. Nisso, Gideão chamou dez dos melhores servidores de seu pai, e, de noite, foi demolir o altar de Baal e cortar as árvores de um bosquete consagrado aos deuses dos midianitas; com essa lenha, construiu uma fogueira sobre a qual sacrificou um touro a Jeová (Juízes 6:27-28). Grande foi a cólera dos habitantes de Ofra quando viram o altar de Baal demolido e o bosquete cortado. Ora, como Joás não quis entregar-lhes o filho, uma violenta cólera apoderou-se de todos os inimigos dos hebreus; e todos os midianitas, e todos os amalequitas, e todos os povos orientais se reuniram, passaram o Jordão e vieram acampar no vale de Jezreel (Juízes 6:29-33). Mas Deus revestiu Gideão de armas (Juízes 6:34).
146. Gideão derruba os ídolos. (a caixa diz “Pour le beurre et les œufs”, para a manteiga e os ovos: a caixa de esmolas das igrejas francesas, onde os fiéis pagavam a licença de comê-los na Quaresma) Crereis nisto? Gideão ainda se perguntava se Jeová o tinha realmente escolhido para pespegar uma tunda (fr. “flanquer une trempe”, locução de gíria: “flanquer” é atirar, e “une trempe”, uma surra) aos inimigos de Israel. Quando convocou as tribos de Manassés, de Aser, de Zebulom e de Naftali, com as quais julgava poder contar melhor, rogou a Deus que fizesse um milagre que demonstrasse, sem erro possível, a proteção de que era objeto. (Juízes 6:35)
144. Deus explica a Gideão que tem desígnios sobre ele. «E disse Gideão a Deus: Se deveras hás de livrar Israel por minha mão, como disseste, escuta-me bem; vou pôr sobre uma larga pedra chata o velo de uma ovelha; e, se o orvalho cair somente sobre o velo, ficando seco o resto, será o sinal de que queres livrar Israel por minha mão. E a coisa sucedeu como Gideão o pedira: porque, no dia seguinte, ao romper da aurora, apesar do orvalho da manhã, a pedra tinha ficado seca, ao passo que o velo estava a tal ponto úmido que, espremendo-o, Gideão fez sair dele uma taça cheia de água de orvalho. Gideão disse ainda a Deus: Não te agastes se solicito de ti um novo milagre como prova da realidade da minha missão; é a última vez que [338] te dirijo tal pedido. Peço-te, permite-me fazer mais uma tentativa com este velo, e desta vez que o velo fique seco sozinho no meio da terra úmida. E Deus fez naquela noite como Gideão o pedira: o velo ficou seco, e a terra ao redor estava úmida do orvalho.» (Juízes 6:35-40)
145. Milagre do velo úmido. Eis aí uns famosos milagres! Que bela é a santa Bíblia! Não estais transportados de admiração?... Quando o rumor desses grandes milagres se espalhou por [339] Israel, o povo inteiro quis vir combater com Gideão. Mas esse entusiasmo não durou muito; porque, quando o herói disse numa proclamação: «Que os que são tímidos voltem para suas casas!» só dez mil homens ficaram junto dele, e todos os outros aproveitaram a permissão de se raspar.
147. Os anjos armam Gideão. Ora, papai Bom Deus julgou que esses dez mil ainda eram demais, e, por conselho seu, eis como Gideão escolheu o punhado de valentes que, só eles, [340] deviam acompanhá-lo contra o inimigo: fez descer os dez mil soldados ao rio vizinho, convidou-os a beber a água diretamente, e, enquanto bebiam, Gideão observava os seus dez mil guerreiros com grande atenção. Com efeito, «o Eterno dissera a Gideão: Qualquer que lamber a água com a sua língua, como lambe o cão, esse porás à parte; e porás também à parte todos os que se curvarem sobre os joelhos para beber. E o número dos que lamberam a água à maneira dos cães foi de trezentos; e todos os outros se curvaram sobre os joelhos. Então, disse o Eterno a Gideão: Por aqueles que lamberam a água como os cães livrarei Israel, e entregarei os midianitas nas tuas mãos vitoriosas; e agora, que todo o povo se vá, cada um para sua casa!» (Juízes 7:5-7) Gideão reteve, pois, os seus trezentos lambedores (fr. “lapeurs”; Taxil joga com a semelhança entre “lapeur”, o que lambe, e “lapin”, coelho: “un rude lapin”, locução familiar, é um sujeito rijo), certo de que tinha enfim uns rudes coelhos. O acampamento dos midianitas ficava mais abaixo, no vale. Agora, atenção! não percais uma linha do relato dessas novas façanhas bíblicas; ides ver que Alexandre, César, Carlos Magno, Napoleão não passavam de nabo cozido ao lado de Gideão, capitão de Sabaote. O herói dividiu os seus trezentos lambedores em três bandos. Deu a cada um uma trombeta, um vaso de barro e uma lâmpada. «Com isto, exclamou ele, alcançaremos uma grande vitória. Não me percais de vista, e fazei exatamente o que eu fizer; quando eu tiver chegado à extremidade do acampamento inimigo, imitar-me-eis em tudo. Tende confiança! A batalha será ganha aos sons destas trombetas e com um grito, guardai-o bem: A espada do Eterno e de Gideão!» (Juízes 7:7-18)
148. Gideão reúne os israelitas e lhes explica o seu plano. Esperou a noite. Então, desceu com os seus trezentos lambedores até o acampamento midianita. Esgueiraram-se silenciosamente nos postos avançados, quando a segunda guarda acabava de ser postada. Depois, quando cada um colocou e acendeu a sua lâmpada no vaso de barro, Gideão e os seus soldados tocaram de repente as suas trombetas, quebrando ao mesmo tempo com estrépito os seus potes (alguns tradutores escrevem: os seus cântaros), com acompanhamento de clamores em que dominava o grito dado como senha. Os midianitas, despertados de um salto, ficaram amedrontados com aquele estrondo de trombetas e sobretudo com aqueles trezentos potes partidos, e, não [341] compreendendo nada daquelas lâmpadas que os israelitas agitavam vociferando, mataram-se quase todos uns aos outros (Juízes 7:16-28).
149. Os midianitas são surpreendidos no seu acampamento. Mais adiante temos a conta desse massacre; dois generais midianitas, Orebe e Zeebe, foram mortos por homens da tribo de Efraim, quando fugiam para o Jordão, e dois reis, chamados Zeba e Salmuna, foram alcançados em Carcor e degolados por Gideão em pessoa. O texto sagrado diz expressamente: «Zeba e Salmuna puderam chegar a Carcor, e ali estavam com quinze mil homens de tropa, isto é, os que tinham sobrevivido de todo o exército dos povos orientais; porque cento e vinte mil homens, que arrancavam da espada, tinham caído mortos.» (Juízes 8:10) Com isso ficamos sabendo, pois, que havia cento e trinta e cinco mil midianitas, amalequitas e outros orientais acampados no vale de Jezreel; esse acampamento era, por conseguinte, de uma extensão considerável. Ora, o acampamento de um exército de cem mil homens ocupa, habitualmente, uma légua quadrada de superfície; é o cálculo do cônego Rohrbacher, quando fala dos acampamentos israelitas no deserto (História universal da Igreja católica, tomo 1, página 182); e uma légua quadrada equivale a mil e seiscentos hectares; donde se deve concluir que o acampamento midiano-amalequita de Jezreel ocupava dois mil e duzentos hectares, no mínimo, e que a linha exterior do contorno media vinte e um quilômetros, aproximadamente. Não esqueçamos que os soldados de Gideão mal penetraram nos postos avançados e ficaram no lugar: «mantiveram-se, cada um no seu lugar, ao redor do acampamento» (v. 21); o texto é preciso. Assim, para cercar o acampamento, os trezentos lambedores estavam forçosamente espaçados, com uma distância de setenta metros entre cada um deles. E isso se passava de noite! Como, a essa distância, podiam ver-se uns aos outros e imitar todos juntos Gideão partindo o seu pote de barro? Que mísero efeito deve ter sido, na realidade, o de trezentos cântaros quebrados numa linha circular de vinte e um quilômetros! Trezentos homens, entrando num acampamento em falange compacta, só produziriam um efeito bem lastimoso numa superfície de dois mil e duzentos hectares; com maior razão, se estavam disseminados e permaneciam [342] na linha exterior, o resultado seria absolutamente nulo. Por isso o estratagema de Gideão não significa nada de nada nesta história; se teve êxito, aí está verdadeiramente o milagre; foi preciso que Sabaote fizesse trezentas trombetas darem o estrondo de trinta mil, que multiplicasse por mais de cem o ruído dos cântaros partidos, que desse aos gritos dos lambedores uma multiplicação formidável por meio de ecos sobrenaturais de que a Bíblia não fala. Reduzido aos seus próprios termos, o relato [343] do divino pombo é uma patranha inverossímil, impossível e grotesca. Seja como for, depois desse feito de armas sem precedente, Gideão tornou-se extremamente popular em todo Israel, e os seus compatriotas ofereceram-lhe a realeza; mas o herói, tão modesto quanto prático, recusou as honras soberanas, acrescentando todavia: «Prefiro que me deis, cada um de vós, os anéis de ouro do vosso despojo.» E o peso [344] dos anéis de ouro que recebeu assim foi de «mil e setecentos siclos de ouro» (Juízes 8:22-26).
150. Gideão recusa a realeza. O autor sagrado nos informa em seguida que Gideão, sendo polígamo, teve setenta filhos; além disso, de uma concubina que morava em Siquém, teve um menino, chamado Abimeleque, que em breve deu que falar de si, de um modo pouco fraterno (Juízes 8:30-31). Abimeleque, num só dia, cortou o pescoço «sobre uma mesma pedra» a sessenta e nove dos seus irmãos; um só, o jovem Jotão, escapou a essa carniçaria, porque se escondera enquanto Abimeleque retalhava a sua numerosa família (Juízes 9:5).
151. Abimeleque degola sessenta e nove dos seus irmãos. Os siquemitas, muito orgulhosos do seu compatriota, o bastardo de Gideão, proclamaram-no rei; mas, ao cabo de três anos, Abimeleque tinha deixado de agradar, e as revoltas multiplicaram-se, fomentadas por um tal Gaal. Abimeleque apoderou-se da cidade revoltada e massacrou o povo; como os chefes da insurreição se tinham reunido na torre de Siquém, bloqueou-a e incendiou esse forte numa gigantesca fogueira de regozijo.
152. Incêndio da torre de Siquém. Sitiou, pouco tempo depois, uma cidade de nome Tebes; mas ali recebeu na cabeça uma mó de moinho que lhe atirou uma mulher do alto da cidadela. Essa enorme pedra partiu-lhe o crânio, como bem se pode imaginar. Todavia, Abimeleque chamou logo o moço que lhe levava as armas e disse-lhe: Morro; mas mata-me já, para que não se diga que foi uma mulher que me matou. Então, para lhe ser agradável, o adolescente o traspassou (Juízes 9). Abimeleque, como se vê, tinha amor-próprio.
153. Morte de Abimeleque. Assim acabou o ilustre bastardo de Gideão. Depois dele, a Bíblia menciona os srs. Tola e Jair, que foram juízes de Israel, um durante vinte e três anos, e o outro durante vinte e dois. CAPÍTULO 9
As lições da experiência pouco aproveitavam aos judeus, naquele tempo: tinham sempre tendência a abandonar o culto de Jeová pelo dos outros deuses, e [345] no entanto sabiam quanto lhes saía caro adorar Baal, Astarote, Dagom, etc., de quem o seu batalhador Sabaote era muito ciumento. Tendo recaído na apostasia, foram por isso punidos com uma nova servidão; desta vez, foram entregues aos amonitas. Eis, pois, a sexta escravidão dos israelitas, nessa mesma terra que tinham conquistado com um exército de seiscentos mil homens, nessa região onde Josué tinha exterminado completamente os primeiros ocupantes. Ao cabo de dezoito anos de servidão do seu povo, Jeová deixou-se tocar e suscitou um libertador: «Jefté, homem forte e valente, era filho de uma prostituta que se deitara com Gileade. Mas Gileade tivera de sua mulher outros filhos, e estes, quando cresceram, expulsaram Jefté como filho de uma mãe indigna; e Jefté, tendo-se estabelecido na terra de Tobe, pôs-se à frente de uma tropa de vadios, com os quais vagabundeava pilhando por todos os lados.» (Juízes 11:1-3) Esse chefe de bandidos foi o eleito de Deus.
155. Jefté chefe de bandidos. Com toda a justiça, convém dizer que Jefté tinha uma qualidade: era excelente pai. Possuía uma filha, filha única, e era de ver como a mimava, como a acarinhava, como a embonecava, como a cobria de joias, como lhe trazia cada dia montanhas de presentes! É verdade que joias e presentes não lhe custavam caro.
156. Jefté tem uma imensa afeição por sua filha. Os seus compatriotas recorreram, pois, a ele para sacudir o jugo dos amonitas. Aceitou e pôs-se logo em campanha. Mas, como o banditismo não exclui a piedade, Jefté, antes de partir contra os amonitas, fez voto a Jeová de lhe imolar, se fosse vencedor, a primeira pessoa que encontrasse, vinda da sua cidade, no seu regresso...
157. Jefté, partindo para a guerra, faz um voto. Nada é mais fácil para papai Bom Deus do que dar a vitória aos seus protegidos. Ora, como por um lado o velho Sabaote amava o seu pequeno Jefté encantador, como por outro lado apreciava o sacrifício que lhe era prometido, decuplicou as forças do capitão hebreu, e este fez em pedaços os amonitas. A carnificina foi muito grande, desde Aroer até Minite, diz a Bíblia, e vinte cidades foram devastadas.
158. Esborrachada completa dos amonitas. Mas que surpresa esperava o nosso herói, quando voltou à sua boa cidade de Mispa!... Um coro de moças, tocando flauta e tamborim, vinha ao seu encontro [346] para celebrar o seu triunfo; à frente delas marchava a própria filha de Jefté, que não conhecia o voto paterno, a pobre corcinha. Era o que se pode chamar uma telha...
159. A filha de Jefté vem ao encontro de seu pai vitorioso. Um bandoleiro só tem a sua palavra (fr. “Un brigand n’a que sa parole”, sobre o dito “Un honnête homme n’a que sa parole”, um homem honrado só tem a sua palavra: uma vez dada, cumpre-a). Aliás, a menina prestou-se de bom grado ao sacrifício: pediu somente, e obteve, dois meses de prazo «para chorar a sua virgindade»; pois era a maior desgraça, para as moças daquela nação, morrer virgens. Daí vem que nunca houve freiras [347] entre os judeus. A imolação realizou-se, pois, e o próprio Jefté presidiu ao sacrifício, com o luto no coração e o rosto inundado de lágrimas (Juízes 11). Alguém, em compensação, que ria como uma torta (fr. “rigolait comme une tourte”, locução familiar: ria como um tolo; a “tourte”, torta, é também, em gíria, o imbecil) e que lambia os beiços com volúpia, era Jeová. Recebeu, dizem os teólogos, a jovem criança no seu seio. Velho brincalhão!...
160. Jefté sacrifica sua filha ao Eterno. Mas, depois dessa história, como poderia um tonsurado dizer que o povo de Deus se absteve dos sacrifícios humanos? Tanto [348] quanto o Moloque dos fenícios e dos cartagineses, o deus dos judeus, isto é, o deus oficial de hoje, aceitava com deleite a homenagem do sangue humano, apesar do horror muito natural que se prende a tais holocaustos. Jefté não se limitou a massacrar os amonitas; tornou-se, além disso, agradável a Jeová degolando quarenta e dois mil dos seus compatriotas, que tinham uma má pronúncia. Os homens de Efraim, ao que parece, pronunciavam, cha, che, chi, em vez de ça, ce, ci (em francês, como em português, “ch” soa como x, e “ç”, “ce”, “ci” soam com s; Taxil faz os efraimitas dizerem ch por s, o inverso da Bíblia); eram os auverneses da época (os habitantes da Auvérnia, no centro da França, cujo sotaque, que troca o s por ch, era em Paris motivo corrente de troça), poderíamos dizer. Jefté emboscou, pois, os seus soldados na passagem do Jordão, e então... É preciso citar o texto sagrado, é belo demais: «Quando algum dos de Efraim se apresentava, dizendo: Deixai-me passar; os homens de Gileade o interrogavam nestes termos: Dize lá Sibolete (palavra hebraica, “espiga” ou “torrente”, que serviu de senha; Taxil inverte as duas formas: no texto hebraico, como em Ostervald e na Almeida, os de Gileade exigem “chibolete”, e o efraimita, que não sabe pronunciar o ch, responde “sibolete”). Mas o efraimita dizia Chibolete, porque não podia pronunciar como se deve. Então, agarrando-o, davam-lhe a morte na passagem do Jordão. E houve assim quarenta e dois mil homens da tribo de Efraim que foram mortos.» (Juízes 12:5-6)
154. O massacre de Chibolete. Jefté foi juiz em Israel durante seis anos; depois, morreu e teve por sucessores Ibsã, de Belém; Elom, da tribo de Zebulom, e Abdom, filho de Hilel. Sob o governo destes, os hebreus viveram em paz. Eis-nos chegados ao famoso Sansão, o terrível entre os terríveis, o Hércules bíblico. Os filisteus, que até o presente não tinham dado muito que falar de si, entram seriamente em cena e vão, durante séculos, dar fio a retorcer (fr. “donner du fil à retordre”, locução: causar muitas dificuldades) ao povo de Deus. Esses descrentes começaram por uma sujeição de quarenta anos; domaram os judeus e não lhes pouparam humilhação alguma. Quando Jeová decretou que era tempo de preparar o livramento dos filhos de Israel, tratou disso cedo, desta vez, empregando um velho método: enviou um anjo ao sr. Manoá, da tribo de Dã, que tinha uma mulher estéril; pouco depois da visita do anjo, Mme Manoá ficou grávida. O anjo fez a mãe prometer que o seu filho nunca cortaria os cabelos; Mme Manoá pôs no mundo o providencial bebê, M. Manoá ficou numa alegria que desisto de descrever, e a criança recebeu o nome de Sansão (Juízes 13). O rapagão, desde a infância, deu prova de uma força [349] extraordinária. Um dia, só brincando, matou um dos mais terríveis leões da região. Assim que ficou púbere, quis casar-se, e, o que parecerá bizarro da parte de um eleito de Deus, foi uma filisteia que desejou ter por mulher: por mais que os pais lhe lembrassem que os casamentos com moças idólatras eram vedados pela lei de Moisés, o jovem Sansão replicou que havia exceção para ele; desposou, pois, a sua filisteia.
161. Sansão, menino, mata um leão. Durante as bodas, que duraram vários dias, propôs um enigma aos jovens da família da sua esposa: a parada consistia em trinta camisas e trinta túnicas que estes teriam de oferecer a Sansão, se não conseguissem adivinhar o seu enigma, e reciprocamente. A noiva, que fazia questão de que os seus parentes ganhassem esse considerável lote de trapos (fr. “frusques”, palavra familiar: a roupa, muitas vezes usada; a mesma raiz de “saint-frusquin”, tudo o que se possui), fez Sansão dizer-lhe a chave do enigma, à noite, no travesseiro, e ensinou-a depois aos jovens filisteus. Como Sansão perdera assim a aposta, só lhe restava pagar. Para isso, dirigiu-se a Asquelom, procurou briga com trinta filisteus, que espetou sem a menor dificuldade, tomou-lhes as camisas e as túnicas e deu-as aos adivinhadores vencedores. Quanto à sua mulher, que tivera a ruindade de lhe tirar os vermes do nariz (fr. “lui tirer les vers du nez”, locução: arrancar-lhe um segredo com astúcia) e de traí-lo, não levou até o fim o seu casamento com ele: estava-se no sétimo e último dia das bodas; o sogro, naquela noite, sem avisar Sansão, adjudicou a noiva a um companheiro, que o jovem hebreu considerava o seu melhor amigo. (Juízes 14)
162. Sansão espeta trinta filisteus. Alguns dias depois, Sansão, ignorando que tinha sido substituído, e já não guardando rancor à sua mulher, dirigiu-se à casa dela, portador de um cabrito que desejava oferecer-lhe. Mas, quando chegou à porta do quarto, esbarrou com o sogro, que se recusava a deixá-lo entrar. «Julguei, disse-lhe este, que de repente tinhas concebido aversão à minha filha; por isso a dei ao teu companheiro. Mas, se queres a minha filha mais nova, basta que fales. Vamos, não é ela mais formosa que a sua irmã mais velha? Peço-te, toma-a. — Sansão respondeu: Pois bem! agora, por maior que possa ser o mal que eu fizer aos filisteus, ter-me-ei por inocente.» (Juízes 15:1-3) Eis qual foi a primeira vingança do eleito de Deus: tomou trezentas raposas (nem uma a mais, nem uma a menos!); «atou-as uma à outra [350] pela cauda, e lhes prendeu tochas no meio; e, tendo acendido as tochas, soltou as raposas, que queimaram todos os trigos dos filisteus, tanto os que estavam na eira como os que estavam em pé, e as vinhas e as oliveiras» (Juízes 15:4-5).
163. As raposas em chamas. Os filisteus, desolados com esse incêndio e tendo sabido de todas as suas causas, dirigiram-se à casa do sogro de Sansão e queimaram-no vivo, assim como a sua filha; imaginavam que a ira do filho de Manoá ficaria dali em diante apaziguada. [351] Nada disso; Sansão declarou-lhes que a sua vingança contra todos os filisteus sem distinção mal acabava de começar; e «bateu-os costas e ventre (sic) e infligiu-lhes uma grande derrota», a Bíblia não diz nem onde, nem como, nem se foi em companhia de outros hebreus ou sozinho. Seja como for, a situação agravou-se: todos os filisteus se reuniram e acamparam no meio da tribo de Judá, preparando-se para massacrar tudo. [352] Enquanto isso, Sansão retirara-se para a rocha de Etã. Três mil homens da tribo de Judá vieram ali ter com ele e cobriram-no de reproches, fazendo-lhe notar que não estavam à altura de lutar contra os filisteus, os seus sitiantes.
164. Os israelitas bloqueados pelos filisteus. «Pois bem, disse-lhes Sansão, amarrai-me solidamente e entregai-me aos nossos inimigos; desse modo, eles vos deixarão tranquilos.» Assim se fez. Os filisteus aceitaram com alegria que lhes entregassem um rapagão que lhes dava tanta canseira...
165. Sansão entregue aos filisteus. Mas, mal Sansão fora levado pelos seus inimigos triunfantes, rompeu as amarras, agarrou uma queixada de jumento que se achava ali no chão, e, armado dessa clava improvisada, abateu os mil filisteus que lhe serviam de guardas.
166. A queixada de jumento. Depois de um exercício tão violento, Sansão sentiu-se um tanto cansado e sobretudo muito sedento; ora, estava num campo, e nem um poço no horizonte. «Então, muito apertado pela sede, clamou ao Eterno: Tu concedeste ao teu servo este grande livramento; e agora morrerei de sede e cairei nas mãos dos incircuncisos? E Deus, tendo ouvido Sansão, fendeu um dos dentes molares daquela queixada de jumento, e dela brotou uma fonte; e, quando Sansão bebeu, a força lhe voltou e ele recobrou ânimo.» (Juízes 15:18-19)
167. Sansão dessedenta-se. Essa façanha valeu-lhe as honras da magistratura suprema em Israel: exerceu as altas funções de juiz durante vinte anos (v. 20). É de notar que Sansão não posava de magistrado de costumes austeros: esse eleito de Deus frequentava os lupanares, à vista e com conhecimento de todo o mundo. Um dia, teve uma aventura que poderia ter acabado muito mal para ele; mas Jeová o protegia, mesmo no meio das suas fornicações. Eis a historieta: Sansão continuava caído pelas filisteias; tendo ido a Gaza, cidade forte que pertencia aos inimigos de Israel, «fez-se hospedar à noite por uma prostituta, com quem se deitou; e a coisa foi sabida em toda a cidade, de sorte que os filisteus, confiando nas suas portas, que estavam fechadas à noite, dormiram tranquilamente, prometendo a si mesmos apoderar-se dele ao romper do dia e matá-lo; mas Sansão levantou-se à meia-noite e deixou a casa de devassidão; depois, chegado às muralhas, arrancou as portas da cidade, [353] com os seus gonzos e as suas umbreiras, carregou tudo sobre os ombros e fez o seu transporte para muito longe, até o cume de uma montanha que está defronte de Hebrom.» (Juízes 16:1-3)
168. Sansão leva as portas de Gaza. Incorrigível mulherengo (fr. “coureur de guilledou”, locução familiar, literalmente “corredor do guilledou”: o homem que sai à noite à procura de mulheres; “guilledou” é palavra antiga, de origem incerta), Sansão embeiçou-se, numa bela manhã, por uma nova filisteia, chamada mamzelle (“mademoiselle”, senhorita, dito depressa e sem cuidado, e um tanto zombeteiro) Dalila, que conheceu vagueando pelas margens da torrente de Soreque. Assim que os seus inimigos souberam que ele fora apanhado pela bela, ofereceram a esta uma soma considerável, se ela lhes entregasse o seu apaixonado, o mais enfraquecido possível.
169. Dalila e Sansão travam conhecimento. Dalila não foi por quatro caminhos (fr. “n’y alla pas par quatre chemins”, locução: foi direto ao assunto); perguntou abertamente a Sansão qual era o segredo da sua força. A maneira como o Hércules judeu se deixou apanhar na armadilha é tão tolinha que é bom, aqui de novo, citar por extenso o texto divino: «Dalila, pois, disse a Sansão: Declara-me, peço-te, em que consiste a tua grande força e com que seria preciso atar-te bem para te domar. — E Sansão lhe respondeu: Se me atassem com sete cordas frescas, que não estivessem ainda secas, ficaria sem força, e seria como outro homem. — Então os governadores dos filisteus lhe enviaram as sete cordas frescas, e ela o atou com elas. — Ora, ela tinha em casa, na sua câmara, gente que se mantinha escondida, e disse-lhe: Os filisteus estão sobre ti, Sansão! Mas ele rompeu as cordas, como se romperia um fio de estopa assim que sente o fogo; e o segredo da sua força não foi conhecido. — Depois, disse Dalila a Sansão: Vamos, zombaste de mim; porque me disseste mentiras. Peço-te, declara-me agora com que poderás ser bem atado. — E ele lhe respondeu: Se me atassem apertado com grossas cordas novas, de que nunca ninguém se tivesse servido, ficaria sem força e seria como outro homem. — Dalila, pois, tomou grossas cordas novas, e atou Sansão, depois lhe disse: Os filisteus estão sobre ti, Sansão! E havia ainda gente escondida na câmara; e ele rompeu as grossas cordas de cima dos seus braços como um fio. — Depois, disse Dalila a Sansão: Zombaste de mim até aqui, e não me disseste senão mentiras. Acabemos com isto; revela-me com que seria preciso atar-te. E ele lhe disse: Pois bem, eis aqui; seria se tivesses tecido sete tranças da minha cabeleira em volta de um eixo. — E ela as meteu no eixo com a cavilha, enquanto ele dormia; e [354] gritou de repente: Os filisteus estão sobre ti, Sansão! Então ele despertou do seu sono, e arrancou a cavilha do tear com o eixo. — Então ela lhe disse: Por que dizes que me amas, visto que o teu coração não está comigo? Zombaste de mim três vezes, e obstinas-te em esconder-me em que consiste a tua grande força. — E ela o atormentava todos os dias com as suas palavras e apertava com ele até o fim, de sorte que a sua alma estava por isso muito aflita. — Então ele lhe abriu todo [355] o seu coração e lhe disse: A navalha nunca passou sobre a minha cabeça; porque sou nazireu, votado a Deus desde o ventre de minha mãe. Se eu fosse rapado, a minha força me abandonaria, e ficaria como todos os outros homens. — Dalila, pois, vendo que desta vez ele lhe abrira todo o seu coração, enviou a chamar os governadores dos filisteus e mandou-lhes dizer: Podeis subir a mim; porque ele me abriu todo o seu coração. Os governadores apressaram-se a vir a ela, trazendo o dinheiro [356] prometido. — E, quando os fez esconder, Dalila fez adormecer Sansão sobre os seus joelhos, e, tendo chamado um homem, fez-lhe rapar sete tranças dos cabelos da sua cabeça; desde então começou a domá-lo, porque a sua força o abandonava.
170. Os filisteus rapam Sansão durante o seu sono. — Então ela gritou: Os filisteus estão sobre ti, Sansão! E ele, ao acordar, dizia consigo: Sairei disto como das outras vezes, e desvencilhar-me-ei das suas mãos. Mas não sabia que o Eterno se tinha retirado dele. — Os filisteus, pois, o agarraram, e lhe furaram os olhos; e o levaram a Gaza, o lançaram numa prisão, atado com duas cadeias de bronze; e ali o obrigaram a girar, todos os dias, uma pesada mó de moinho.» (Juízes 16:6-21)
171. Furam os olhos a Sansão. Seria difícil, creio, imaginar um conto mais estúpido. Da primeira linha à última, neste episódio do livro dos Juízes, tudo é idiota, e não há aí com que divertir as crianças, mesmo as mais imbecis. A propósito da história de Sansão, lorde Bolingbroke (na verdade o cura Jean Meslier, 1664-1729, ateu em segredo: Voltaire, que Taxil segue aqui, atribui-lhe este dito em La Bible enfin expliquée, assim como o das crianças mais imbecis) dizia que nesta fábula não há outra queixada de jumento senão a do autor que a inventou. É uma grosseira imitação, um plágio desajeitado e grotesco da fábula pagã de Hércules, do mesmo modo que o sacrifício de Ifigênia inspirou visivelmente o narrador do voto de Jefté que acaba na imolação da sua filha. É verdade que os teólogos insinuam que, pelo contrário, a mitologia grega é que teria copiado e desnaturado a Bíblia: mas é fácil responder-lhes com datas precisas, algumas das quais são fornecidas por eles mesmos. A sua opinião é que esse livro dos Juízes foi escrito por Samuel, no tempo de Saul; ora, entre os gregos, falava-se de Hércules muito antes da guerra de Troia, e há mais de duzentos anos entre a guerra de Troia e a eleição de Saul. O R. P. Petau (o Reverendo Padre Denis Petau, 1583-1652, teólogo francês, autor de uma célebre cronologia da história antiga), jesuíta, faz nascer Hércules no ano 1289 antes da nossa era, e o mesmo Petau só faz começar as façanhas de Sansão mil cento e trinta e cinco anos antes da mesma era. Supondo que tivesse começado aos vinte e cinco anos, teria nascido, pois, em 1110 (sic: antes da nossa era, vinte e cinco anos antes de 1135 é 1160; Hércules nasceu, pois, 129 anos antes de Sansão, e não 179; o argumento se mantém); mesmo que se admita a existência, de modo algum provada, desses dois terríveis personagens, resulta daí que Hércules nasceu cento e setenta e nove anos antes de Sansão: assim os teólogos são apanhados na sua própria cronologia. [357] Além disso, é de notar que a fábula pagã foi mais inteligentemente imaginada que a fábula judaica; o fim de Hércules é menos inepto que o de Sansão. Na mitologia grega, o semideus foi tão seduzido pela beleza de Ônfale que esqueceu por ela os seus hábitos errantes e as suas façanhas guerreiras, e fixou-se junto da sua nova amante, que adquiriu sobre o espírito de Hércules um império absoluto: então, enquanto a rainha da Lídia se divertia em vestir-se com a pele do leão de Nemeia e em armar-se com a temível clava do herói, este, sentado aos pés da princesa, coberto como uma mulher com um longo vestido de púrpura, tentava fiar a lã, quebrava todos os fusos e recebia rindo os golpes de pantufa que lhe aplicava a sua alegre senhora. Esse episódio caracteriza suficientemente a influência que pode adquirir uma mulher amada sobre o homem, mesmo o mais heroico; mas aqui a alegoria não transpõe os limites do possível e permanece crível. Se Hércules esquece a sua dignidade, nem por isso deixa de ser verdade que estamos na presença de dois amantes que se divertem; viajam, assim travestidos; a própria Ônfale esquece o seu reino e leva Hércules para se deitar com ela em grutas, longe da sua corte. Hércules, num belo dia, engana Ônfale e embeiça-se por uma das suas aias, a bonita Matis, de quem tem um filho, Agesilau. De Matis passa a Íole, filha do rei Êurito. Por fim, Dejanira, sua mulher, desesperada com as suas infidelidades, envia-lhe a túnica do centauro Nesso, que ela crê ser um talismã com o poder de reconduzir os maridos mulherengos aos seus deveres conjugais, e Hércules, nas dores que lhe causa a túnica envenenada que se lhe colou à carne e que ele não pode arrancar, resolve suicidar-se para terminar mais depressa os seus sofrimentos; constrói uma imensa fogueira no monte Eta, acende-a e precipita-se nas chamas. O fim da lenda de Hércules recai no incrível; mas, ao menos, que há de mais poético que a morte do filho de Júpiter e de Alcmena?... Visto que o Espírito Santo é o autor da Bíblia, obriga-nos a dizer-lhe que os seus contos estão muito abaixo das lendas pagãs dos gregos e dos romanos. Ovídio, contando o trágico suicídio de Hércules, é infinitamente [358] superior ao divino pombo, cujo Sansão é de um ridículo acabado. Os deuses do Olimpo apiedam-se das dores do esposo de Dejanira; mas Júpiter tranquiliza-os, e temos aí uma das mais belas páginas da mitologia pagã. «— Que a fogueira do Eta não alarme mais a vossa alma! Sim, quem soube vencer tudo saberá vencer a chama. [359] Os fogos vão depurar o que ele teve de mortal. O que teve de divino, impassível, eterno, Não teme de Vulcano o golpe homicida. Meu filho vai sacudir a sua argila grosseira, E em breve, novo deus, colocar-se entre vós. Se alguma deidade o vê com olhar ciumento, Confessará ao menos, embora com isso se indigne, Que, se a honra é grande, o herói é digno dela.» Este decreto antecipou dos deuses o desejo; A própria Juno, Juno o ouve sem desprazer; [360] Mas, a estas últimas palavras, que condenam o seu ódio, O seu despeito na fronte a custo se disfarça. O herói no fogo triunfa de Vulcano; O seu ar é mais augusto, já nada tem de humano: Já nada tem dos traços que recebeu de sua mãe, Imortal pela sua morte, assemelha-se a seu pai. Tal como uma serpente soberba, aos raios do sol, Da sua nova escama acende o ouro rubro E parece com a pele despir a velhice, Assim, da humanidade despindo a fraqueza, Hércules tomou de um deus a augusta majestade E parece vestir-se da imortalidade. Dos ares num instante atravessando a carreira, Eleva-se, arrebatado num carro de luz. (OVÍDIO, Metamorfoses, livro 9; tradução de Delille (Jacques Delille, 1738-1813, poeta francês, célebre pelas suas traduções em verso dos clássicos latinos).) Mas, se o paganismo era muitas vezes cheio de poesia nas suas lendas, em contrapartida, pode-se sonhar algo mais insípido que o Hércules bíblico? Que o episódio de Sansão e de Dalila seja uma contrafação da aventura de Hércules em casa de Ônfale, isso parece fora de dúvida; todavia, parece que o Espírito Santo poderia ter composto melhor o seu herói; Sansão desconfia da sua amante, já que por três vezes lhe conta uma peta a respeito da sua força; e, depois de ter verificado três vezes que a sua confidência lhe vale ter de se debater contra os seus inimigos, revela, na quarta vez, toda a verdade a essa mulher cuja perfídia é evidente. Há aí uma impossibilidade que fura os olhos (fr. “crever les yeux”, locução familiar: ser de toda a evidência, como o português “saltar aos olhos”), mais vivamente ainda do que foram furados os de Sansão; ou então esse juiz de Israel era o último dos gagás. Sem contar que se pergunta como Sansão, tendo perdido todas as suas forças, foi obrigado, na sua servidão, a girar quotidianamente uma pesada mó de moinho! Convinha, pelo contrário, impor-lhe, por humilhação, o aviltamento de Hércules fiando lã ou qualquer outro trabalho de mulherzinha...
172. Sansão gira a mó. A conclusão rebenta, aliás, cada vez mais em asneira e em contradição. Os filisteus, sabendo que a força do seu prisioneiro reside na sua grenha, deveriam rapá-lo pelo menos de quinze em quinze dias. De modo nenhum! deixam-lhe os cabelos crescer de novo e não desconfiam de nada. «E os cabelos de Sansão começaram a voltar, e ficaram sobre [361] a sua cabeça como estavam no dia em que foi rapado em casa de Dalila» (Juízes 16:22). Nisso, os governadores filisteus dão uma grande festa em Gaza, em honra do seu deus Dagom; Sansão é tirado da sua prisão; levam-no a um imenso palácio, «onde havia três mil pessoas, tanto homens como mulheres»; fazem colocar o cativo entre dois pilares que sustentavam todo o edifício (sic). «Sansão, pois, abraçou os dois pilares do meio, sobre os quais o palácio estava apoiado, e segurou-se a eles: um estava à sua direita, e o outro à sua esquerda. E disse: Morra eu com todos os filisteus! Estendeu então os braços com toda a sua força, e o palácio desabou sobre os governadores e sobre todo o povo que nele estava. E fez morrer muito mais gente na sua morte do que fizera morrer durante a sua vida.» (Juízes 16:29-30)
173. Sansão morre vingando-se. Sem ter nenhuma tendência para o paganismo, qualquer um achará certamente a morte de Hércules muito mais interessante que a de Sansão. Quanto à vida dos dois heróis, se quisermos comparar uma com a outra, que mísera existência levou Sansão! e como poderiam as suas magras façanhas elevar a alma, mesmo colocando-nos no ponto de vista religioso!... Porque, segundo a própria Bíblia, se Sansão reduz a picadinho (fr. “mettre en capilotade”, locução, literalmente “pôr em capilotade”; a “capilotade”, do espanhol “capirotada”, é um guisado de sobras de carne picada) os filisteus e incendeia as suas colheitas, não é de modo algum sob a inspiração de um ódio patriótico contra a nação que oprime os seus irmãos judeus, nem para vingar Jeová da concorrência do deus Dagom. Satisfaz pura e simplesmente um ódio pessoal, depois de ter vivido nos melhores termos com os perseguidores dos seus compatriotas. Melindrado no mais alto grau porque uma filisteia, de quem está enamorado, não foi sua mulher senão durante seis dias e se tornou, pelo capricho do seu sogro, a esposa definitiva de um filisteu, que é o seu mais íntimo amigo, alivia o seu rancor fazendo aos filisteus todo o mal que pode, exerce uma vingança particular que nada tem a ver com uma desforra nacional; mais ainda, despreza as virgens de Israel, e é sempre para as marafonas (fr. “gadoues”, palavra de gíria: as mulheres da rua, nome dado com o maior desprezo; a “gadoue” é a imundície que se tirava das fossas) filisteias que o seu coração o leva. Jeová? importa-se com ele como com a sua primeira camisa (fr. “il s’en soucie comme de sa première chemise”, locução: não se importa nada com ele; a primeira camisa, a que se vestia em pequenino, ninguém dela se lembra)!... Hércules, pelo contrário, é verdadeiramente o herói nacional da Grécia, e, se as suas façanhas nos deixam incrédulos, não deixa de ser verdade [362] que são inspiradas, na sua lenda, pelos mais nobres sentimentos: não é somente a personificação da força; põe essa força ao serviço dos fracos com uma admirável generosidade. Já na sua adolescência, quando encontra no seu caminho o Vício e a Virtude, que, sob a forma de duas mulheres, tentam à porfia atraí-lo a si, que escolha faz Hércules? Uma faz brilhar aos seus olhos mil seduções bem capazes de conquistar um moço; mostra aos seus olhares [363] um caminho largo, cômodo e orlado de flores perfumadas, ao passo que a outra lhe descobre uma vereda escarpada, estreita e árida. O filho de Alcmena, com um discernimento acima da sua idade, decide-se pela vereda da virtude, apesar das dificuldades do seu acesso, porque compreende que é a via da felicidade e pressente, ao cabo do outro, o remorso impiedoso. Todos os papas infalíveis poderão esgoelar-se a gritar-nos que o paganismo é a obra [364] do demônio, não impedirão que o ensino dessa alegoria pagã seja essencialmente moral. Depois, Hércules, passando a vida a combater os tiranos e os monstros, age para o bem da humanidade; luta contra os flagelos de toda espécie, extermina os mais cruéis bandoleiros. Aos olhos de quem quer que reflita, o paralelo é esmagador para o herói da Bíblia; é preciso uma insigne má-fé ou ser um piedoso cretino para preferir Sansão a Hércules. Pondo este sobre os seus altares, os pagãos adoravam um herói simpático; fazendo venerar pelas suas ovelhas o amante de Dalila, dizendo que é preciso ver nele um santo, um eleito de Deus, os tonsurados fazem obra de embrutecimento, enganam com cinismo e põem, em suma, a auréola sobre a cabeça de um sujo cavalheiro. No livro dos Juízes, encontramos mais um episódio que — como muitos outros, aliás — é pouco próprio para realçar o prestígio do povo israelita; é a aventura do levita de Efraim, da sua concubina e dos benjamitas. Esse padre judeu tomara uma concubina, mulher de Belém, pertencente à tribo de Judá. Um dia, esse estimável casal, estando em viagem, parou em Gibeá, e recebeu hospitalidade em casa de um velho, que lhes ofereceu generosamente o jantar, pondo em sua honra os pratos pequenos dentro dos grandes (fr. “mettre les petits plats dans les grands”, locução: preparar uma refeição magnífica). Vamos à citação textual! «Enquanto eles se banqueteavam, os homens da cidade, que eram maus marotos, cercaram a casa, batendo com golpes redobrados na porta e gritando ao velho: Traze-nos para fora esse levita, porque queremos servir-nos dele como de uma mulher! Mas o velho, indo a eles, lhes disse: Meus irmãos, peço-vos, renunciai ao vosso desejo de cometer tal pecado; este levita é meu hóspede; não consumeis esta loucura. De mais a mais, tenho a minha filha, que é virgem, e o levita está aqui com a sua concubina. Vou, pois, trazer-vos a minha filha e a concubina do sacerdote; violareis essas duas mulheres quanto quiserdes; isso valerá mais do que saciar a vossa devassidão neste levita. Ora, essa gente não quis aceitar a proposta do velho; então o próprio levita empurrou a sua concubina para fora da casa; eles a tomaram, e todos os machos da cidade passaram sobre ela, naquela noite. Quando as trevas se dissiparam, a mulher voltou à porta da casa; mas [365] estava tão fraca em consequência de tantas violações, que caiu no limiar. Quando o levita se levantou, ao romper da aurora, saiu para se pôr de novo a caminho, e eis que esbarrou com o corpo da sua concubina estendida por terra. Disse-lhe: Eia, levanta-te, partimos. Mas ela não respondeu. Então, carregou-a sobre o seu jumento e voltou para sua casa, em Efraim. Ali, tomou um grande cutelo, e retalhou o corpo da sua concubina em doze pedaços, e enviou um dos pedaços do cadáver a cada uma das tribos de Israel.» (Juízes 19:22-29)
174. O levita de Efraim. Lorde Bolingbroke, comentando esse episódio, diz que ele parece a princípio uma cópia da abominação dos sodomitas, que quiseram violar dois anjos; acrescenta que o povo judeu se mostra assim o mais execrável dos povos. No seu entender, era quase perdoável a gregos voluptuosos, a jovens perfumados, abandonarem-se, num momento de devassidão, a excessos muito condenáveis, de que se tem horror na idade madura; mas que dizer desses gibeatitas, mais ignóbeis que cães no cio! Pergunta-se se é possível encontrar, num livro que se afirma inspirado pelo Espírito Santo, alguma coisa mais repugnante do que a aventura desse sacerdote concubinário, portador, sem dúvida alguma, de uma grande barba à maneira dos sacerdotes orientais, que, chegando de longe no seu jumento e coberto de poeira, inspira, não obstante, desejos impudicos a todos os machos de uma cidade! Não há nada, escreve Bolingbroke, nas histórias mais revoltantes de toda a antiguidade, nada que se aproxime de uma infâmia tão pouco verossímil. Ao menos os dois anjos de Sodoma, estando na flor da idade, deviam ser de uma resplandecente beleza, como convém a anjos, e podiam tentar os infelizes sodomitas; mas o gosto dos gibeatitas não é o último grau da depravação?... Quanto à ideia de enviar um pedaço do corpo da concubina a cada tribo, também ela não tem exemplo e faz estremecer. Foi preciso, pois, enviar doze mensageiros, carregados desses horríveis restos. Mas onde estavam então as doze tribos? a quem, em cada tribo, se entregou esse duodécimo de cadáver, já que as tribos se achavam sem chefes oficiais, os israelitas dispersos, em servidão, sofrendo o jugo dos filisteus?... [366] «Então, todos os filhos de Israel se ajuntaram como um só homem, desde Dã até Berseba, e até a terra de Gileade, ao Eterno, em Mispa. E todas as tribos se acharam na assembleia do povo de Deus, em número de quatrocentos mil homens de pé, que arrancavam da espada» (Juízes 20:1-2). Não esqueçamos, decerto, que isto se passa imediatamente depois da morte de Sansão, quando os filisteus mantêm os hebreus numa escravidão das mais [367] duras. Como se ajuntaram as doze tribos? como toleraram os seus amos essa vasta reunião armada? A Bíblia não o diz; parece que o divino pombo esqueceu completamente a lamentável situação em que geme o povo de Deus. Era, contudo, aos filisteus, possuidores do país, que se devia recorrer para obter o castigo de um crime cometido em seu território: é esse o direito de todos os soberanos, direito de que eles foram extremamente ciosos em outros tempos. [368] Mais adiante, o texto dá vinte e seis mil e setecentos combatentes à tribo de Benjamim (Juízes 20:15), que tomou partido pelos culpados, e mantém para as outras onze tribos «quatrocentos mil homens que arrancavam da espada, todos gente de guerra» (v. 17). — «Supondo-se igual a população, diz Voltaire, cada tribo teria tido trinta e cinco mil quatrocentos e dezesseis soldados. E acrescentando os velhos, as mulheres e as crianças, cada tribo devia ser composta de cento e quarenta e uma mil seiscentas e sessenta e quatro pessoas, que fazem, para as doze tribos, um milhão seiscentas e noventa e nove mil novecentas e sessenta e oito pessoas, sem falar dos levitas.» Ora, para que se mantivesse em servidão um número tão prodigioso de indivíduos, entre os quais havia quatrocentos e vinte e seis mil homens de armas, teriam sido precisos pelo menos oitocentos mil soldados bem armados. E como deixavam os amos armas aos seus escravos, quando se diz, no livro dos Reis, cap. 13 (1 Samuel 13:19-20; as antigas Bíblias católicas dão o nome de livros dos Reis aos dois livros de Samuel), que «os filisteus não permitiam aos judeus ter um só ferreiro, por medo de que fizessem espadas e lanças», e que «todos os israelitas eram obrigados a ir aos filisteus, seus amos, para mandar afiar a relha dos seus arados, as suas enxadas, os seus machados e as suas podadeiras?» — Em qual destas duas passagens contraditórias da Bíblia conta o divino pombo uma patranha? em que versículos zomba melhor o Espírito Santo da credulidade dos fiéis? Vamos ver, agora, que série de massacres ocasionou a múltipla violação da concubina do levita. Na assembleia dos quatrocentos mil homens de armas, o padre judeu contou em parte o que se passara; para poder fazer-se ouvir de um auditório tão numeroso, é preciso admitir que o nosso homem era dotado de uma bela voz. A Bíblia reproduz o seu discurso; passando rapidamente, com palavras veladas, sobre a empalação de que por pouco fora vítima da parte dos gibeatitas sobre-excitados, limitou-se a pedir vingança pelo crime cometido contra a sua defunta amante: «Violaram tanto a minha concubina, que ela morreu disso!» exclamou. Não é inútil notar que, no primeiro relato, todos os machos da cidade são representados como tendo violado a infeliz, e que, depois do discurso do amante retalhador, mestre Pombo-Deus nos informa que [369] «os habitantes de Gibeá contavam setecentos dentre eles, excelentes soldados, muito robustos, que atiravam pedras com a funda e nunca erravam o alvo» (Juízes 20:16). Como essa pavorosa violação cometida por todos os machos de uma cidade durou toda a noite, mas uma só noite, se só tivermos por culpados os setecentos gibeatitas, robustos guerreiros, e se considerarmos que o atentado foi consumado no verão e não no inverno, por conseguinte numa noite de dez horas no máximo, constataremos que esses raivosos eram uns sujeitos muito expeditivos. Evidentemente, a infortunada não pôde defender-se contra tantos assaltantes, e em breve não passou de uma massa inerte, sobre a qual esses miseráveis se precipitavam; mas ainda assim causa estupefação calcular que violaram a concubina do padre à razão de setenta violações por hora! menos de um minuto para cada um! Torna-se, pois, necessário crer que, desde o início do crime, esses celerados tinham organizado entre si um serviço de ordem, e que, chegando um atrás do outro, como os lobos (fr. “à la queue-leu-leu”, locução, literalmente “à cauda-lobo-lobo”; “leu” é a forma antiga de “loup”, lobo), se apresentavam primeiro ao fiscal, cada um com o seu número, para não perder tempo, como se pratica nas estações de ônibus, e cada um, de mais a mais, pronto para montar no carro. Ide dizer, depois disso, que nem tudo é maravilhoso na santa Bíblia!... A série dos massacres não é menos mirabolante. «Os filhos de Israel, marchando desde o romper do dia, vieram acampar-se junto a Gibeá; mas os filhos de Benjamim saíram de Gibeá e se ordenaram em batalha. E, no primeiro dia desta guerra, os benjamitas mataram vinte e dois mil homens do exército de Israel.» (Juízes 20:19-21) Aqui, de início, é de espantar que Jeová protegesse os benjamitas, que eram do partido mais culpado, contra todos os israelitas, que eram do partido mais justo. «Na segunda batalha, os filhos de Benjamim mataram mais dezoito mil homens do exército de Israel» (Juízes 20:25). Isso dá quarenta mil defensores da boa causa já massacrados. É desolador! Mas esperai o fim. Agora, os filhos de Israel vão ser inteiramente vencedores, e isso nos consolará. Tudo o que pode dar um pouco de pena é o número fantástico de judeus degolados pelos seus irmãos, desde a adoração do bezerro de ouro até estas guerras intestinas. [370] O que valeu ao exército de Israel a vitória definitiva não foi a bondade da sua causa, mas uma oração que foi dirigida a Sabaote... adivinhai por quem?... por Fineias, filho de Eleazar e neto de Arão (Juízes 20:28)... Não estava, pois, morto, o nosso velho Fineias; mas havia muito tempo, ainda assim, que não dava que falar de si!... «Então, dez mil homens escolhidos, do exército de Israel, vieram contra Gibeá, e a peleja foi rude; e os filhos [371] de Israel, naquele dia, mataram vinte e cinco mil combatentes da tribo de Benjamim (Juízes 20:34-35). Os benjamitas viram então que estavam batidos (v. 36)... Depois, viraram as costas diante do exército de Israel, e fugiam para o caminho do deserto; mas o exército de Israel os apertou de perto, e os israelitas cercaram, pois, os de Benjamim, perseguiram-nos desde Menuá até defronte de Gibeá; e os benjamitas, estando rodeados dos seus inimigos, perderam [372] dezoito mil homens, mortos naquele lugar, todos gente de guerra e muito robustos (v. 42-44). Então, os de Benjamim que tinham ficado fugiram para o rochedo de Rimom; e os de Israel mataram ali mais cinco mil deles pelos caminhos, e, continuando a perseguição até Gidom, mataram deles mais dois mil (v. 45) ... Houve seiscentos homens, dos que tinham virado as costas, que escaparam ao massacre, refugiando-se no rochedo de Rimom, onde ficaram quatro meses. E os de Israel voltaram do combate, mataram tudo o que restava em Gibeá, desde os homens até as bestas; e queimaram também todas as cidades e todas as aldeias da tribo de Benjamim.» (v. 47-48) Neste relato, o Espírito Santo, prodigalizando os números, parece ter-se atrapalhado um tanto. Tinha-nos dito primeiramente que os soldados da tribo de Benjamim eram ao todo vinte e seis mil e setecentos, incluídos os robustos guerreiros de Gibeá. Se sabemos contar bem, eis cinquenta mil combatentes benjamitas mortos de enfiada nessas batalhas que se sucederam com uma rapidez vertiginosa. Portanto: ou os benjamitas se multiplicaram na ação, a tal ponto que o seu número dobrou, o que seria um milagre dos mais curiosos; ou então o Espírito Santo, ao ditar o bendito livro, perdeu a aritmética, o que seria um milagre ainda mais pasmoso! Mas o mais belo da história é o nosso querido Fineias, que se encontra ali no momento em que ninguém o esperava, decerto! havia um bom tempo que o imaginávamos morto e enterrado, se não junto do seu avô Arão, pelo menos no túmulo de seu pai Eleazar. E não há como se enganar; o versículo 28 do cap. 20 do livro dos Juízes é muito preciso: não se trata de modo algum de um homônimo; porque o Fineias que roga a Sabaote em favor do exército de Israel contra os benjamitas é real e verdadeiramente qualificado de «filho de Eleazar e neto de Arão». Não vos diz nada, isso?... Pois bem! contai lá nos dedos, e caireis de costas! É esse mesmo Fineias que vimos, em vida de Moisés, espetar com uma javelina o hebreu Zinri e a linda midianita Cosbi, no momento em que o amoroso casal suspirava os mais ternos suspiros. O livro dos Números, que [373] nos deu, no seu capítulo 25, o relatório oficial dessa façanha de levita, nomeia expressamente o Fineias trespassador: «filho de Eleazar e neto de Arão» (v. 7 e 11). E o incidente passava-se na terra de Moabe, antes da chegada dos hebreus à Terra Prometida, muito anteriormente à passagem do Jordão. Ora, quanta água correu debaixo da ponte, desde a espetada de Zinri e Cosbi até a esborrachada geral dos benjamitas, a qual é posterior à morte de Sansão e termina o livro dos Juízes!... Ninguém esqueceu que, entre os israelitas que tinham vinte anos ou mais no momento da saída do Egito, o general Josué e o sr. Calebe foram os únicos a quem Jeová outorgou o favor da entrada em Canaã; além disso, a Bíblia diz-nos que Josué morreu com a idade de cento e dez anos. Acrescentando os seus quarenta anos de viagem no deserto aos vinte anos de idade da sua travessia do mar Vermelho, verifica-se que tinha sessenta anos quando sucedeu a Moisés; por conseguinte, comandou e governou os hebreus durante cinquenta anos. Façamos, pois, percorrendo os livros de Josué e dos Juízes, a conta do tempo decorrido entre a passagem do Jordão, a que assistia o jovem e fogoso Fineias, acompanhando seu pai Eleazar, e o massacre dos benjamitas: Governo de Josué, cinquenta anos. O versículo 10 do livro 2 dos Juízes diz que houve em seguida «uma geração que não tinha conhecido as obras que o Eterno fizera pelo seu povo»; ou seja, no mínimo, vinte anos. Sobrevém a primeira servidão dos hebreus, a de Cusã-Risataim, rei da Mesopotâmia: oito anos. Livramento, governo do juiz Otniel: quarenta anos. Segunda servidão, a do rei Eglom: dezoito anos. Graças ao juiz Eúde, o jugo dos moabitas é sacudido, e o povo de Deus tem um longo repouso: oitenta anos. Terceira servidão, a do rei Jabim: vinte anos. Triunfo de Mme Débora e de Baraque, novo repouso: quarenta anos. Volta à cena dos midianitas, quarta servidão: sete anos. Vocação de Gideão, livramento: quarenta anos de paz. Os hebreus recaem sob o jugo; desta vez, o déspota é um dos seus; tirania de Abimeleque: três anos. Governo do juiz Tola: vinte e três anos. Governo do juiz Jair: vinte e dois anos. Sexta [374] servidão, a dos amonitas: dezoito anos. Livramento por Jefté, e governo desse juiz: seis anos. Governo pacífico de três outros juízes: Ibsã, sete anos; Elom, dez anos; Abdom, oito anos. Sétima servidão, a primeira sob o jugo dos filisteus: quarenta anos. Façanhas e governo do juiz Sansão: vinte anos. Ao todo: quatrocentos e oitenta anos decorreram, pois, entre a passagem do Jordão e a morte de Sansão. Conclusão: Fineias, [375] sumo sacerdote, tinha por conseguinte quinhentos anos pelo menos, quando rogou a Sabaote-Jeová contra os benjamitas, quando suplicou ao céu que vingasse a concubina do levita de Efraim, violada numa noite por setecentos raivosos machos de Gibeá... E eis a História! Mas por que o texto bíblico se esquece de nos indicar a idade exata do sumo sacerdote Fineias?... Um pouco de precisão teria sido útil; porque os céticos poderiam dizer que [376] o divino pombo, desavindo-se com a aritmética, perdeu a memória da sua cronologia — cronologia oficial e sagrada, se vos apraz! Ora, as onze tribos israelitas que tinham massacrado a de Benjamim arrependeram-se logo da sua obra de destruição. Gemia-se, dizendo: Ai! será preciso que uma das nossas tribos desapareça?... Depois, pensou-se nos seiscentos benjamitas que viviam bem ou mal no rochedo de Rimom. Por que não seriam eles a semente destinada a repovoar Benjamim?... Sim, mas aí é que está! Logo na abertura das hostilidades, tinha-se jurado, em Mispa, nunca dar uma filha israelita em casamento a um benjamita. Enquanto se procurava a solução do problema, um esperto disse: Basta inquirir e descobrir as famílias que não se acharam em Mispa e que não prestaram esse juramento. O inquérito foi ordenado; o seu resultado foi a constatação de que os judeus de Jabes tinham faltado ao encontro em que se jurou o extermínio dos benjamitas. Então, massacre dos bons judeus de Jabes, com exceção de quatrocentas donzelas, que foram enviadas ao rochedo de Rimom. Mas os habitantes daquele rochedo fizeram notar que as donzelas não estavam em número suficiente; duzentos dos benjamitas sobreviventes não estavam providos; aquilo tornava-se muito grave. Nesse ínterim, os magistrados lembraram-se da grande festa de Jeová, que ia celebrar-se em Siló, e proferiram o seguinte veredicto: Os benjamitas não providos de mulheres são, excepcionalmente, autorizados a fazer raptos durante as cerimônias religiosas e os festejos de Siló. Os benjamitas raptaram, pois, duzentas dançarinas; os papais e as mamães não tiveram o direito de protestar, e todo o mundo, exceto eles, ficou contente. Por fim, os descendentes de Benjamim reedificaram as suas cidades queimadas. Assim termina o livro dos Juízes. Essa maneira de repovoar uma tribo pareceu bem singular a todos os críticos; mas, como os críticos são uns ímpios, que podem importar as suas objeções? Aliás, a arca de Deus estava em Siló durante as festas; logo, Deus estava presente, e, já que não fez sair da terra as chamas que devoravam instantaneamente os grandes criminosos, [377] é uma prova de que aprovava os raptores. Permanecei, pois, mudos, ó críticos! inclinai-vos diante dos impenetráveis desígnios da Providência divina! CAPÍTULO 10
Oh! as lágrimas de enternecimento que vertem os sensíveis devotos sobre a tocante história de Rute e de Noemi!... Com que doce alegria também nós a abordamos!... «No tempo em que os Juízes governavam o povo de Israel, uma fome assolou a terra; pelo que um homem de Belém, da tribo de Judá, foi-se à terra de Moabe para ali habitar, e levou consigo a sua mulher e os seus dois filhos. Este homem chamava-se Elimeleque; a sua mulher, Noemi; os seus dois filhos, Malom e Quiliom. Fixaram-se, pois, na terra de Moabe. E Elimeleque morreu ali; mas Noemi permaneceu ali, não obstante, com os seus dois filhos, que desposaram mulheres moabitas, das quais uma se chamava Orfa e a outra Rute. A sua estada nessa terra foi de dez anos, aproximadamente, ao cabo dos quais Malom e Quiliom morreram. Assim Noemi ficou como a única israelita em Moabe.» (Livro de Rute 1:1-5) «Um dia, Noemi ouviu dizer que Jeová tinha feito uma visita ao seu povo e lhe tinha distribuído pão. Então, levantou-se, fez levantar as suas noras e informou-as de que deixava a terra de Moabe para voltar a Belém. Quando se achou fora da casa, percebeu que as suas noras caminhavam com ela; estas, com efeito, tinham tomado o caminho que conduz à região habitada pelos descendentes de Judá. Então, Noemi disse às suas duas noras: Ide-vos, e que cada uma de vós volte de imediato para a casa de sua mãe. Fostes muito amáveis para com os meus filhos que morreram; por isso desejo que, por causa disso, Jeová vos faça misericórdia. Sim, que o meu deus conceda a cada uma, na casa do seu marido, o repouso que merece! E beijou-as. Mas as duas jovens mulheres puseram-se a chorar, e [378] lhe disseram, levantando a voz: Não, preferimos ir contigo, já que voltas para o teu povo. Noemi tornou: Vamos, minhas filhas, ouvi-me, e tornai atrás. Por que viríeis comigo? Há ainda nas minhas entranhas filhos que eu vos pudesse dar por maridos? Não, eu vo-lo asseguro. Ide-vos, minhas filhas, ide-vos! Aliás, estou idosa demais para me casar de novo; e, supondo que eu tivesse disso o desejo e a esperança, ainda que eu [379] me deitasse com um marido esta mesma noite, ainda que viesse depois a pôr no mundo dois meninos, esperá-los-íeis até que se tornassem grandes? Recusaríeis, por causa deles, outros casamentos? Não, não é verdade? Voltai, pois, para as vossas famílias; porque eu estou em maior amargura do que vós, a mão do Eterno se agravou sobre mim.» (v. 6-14) «Então, elas levantaram de novo a voz e verteram novas lágrimas. Depois, Orfa despediu-se da sua sogra; [380] mas Rute ficou com Noemi. E Noemi insistia para que Rute fosse juntar-se à sua cunhada: Orfa voltou para o seu povo e para o seu deus, dizia ela; imita o exemplo da tua cunhada. Mas Rute respondeu: Tu me magoas pedindo-me que te deixe, que me afaste de ti; porque irei aonde fores, morarei onde morares, o teu povo será o meu doravante e o teu deus será o meu deus. Onde morreres, morrerei eu, e ali serei enterrada. Que o teu Jeová me trate com o último rigor, se jamais outra coisa, senão a morte, te separar de mim!» (Rute 1:15-17) «Noemi, vendo assim que a resolução dela era inabalável, cessou de lhe falar de separação. E caminharam ambas longo tempo, até que chegaram a Belém. E, quando transpuseram as portas, toda a cidade ficou em alvoroço por causa delas, e todos diziam: Não é Noemi?... Mas ela lhes respondeu: Peço-vos, não me chameis Noemi; chamai-me Mara. E, perguntando-lhe os que a tinham reconhecido por que mudava ela o seu nome, disse-lhes: O Todo-Poderoso encheu-me de amargura; parti daqui cumulada de bens, e o Eterno me traz de volta completamente vazia. Assim, já que Jeová me abateu e afligiu, não se deve mais, bem o vedes, chamar-me Noemi.» (v. 18-21)
175. Rute e Noemi. «Assim, Noemi, tendo regressado com Rute, a moabita, sua nora, voltou a Belém; era no princípio da sega das cevadas.» (Rute 1:22) «Ora, havia um parente de Elimeleque, que se chamava Boaz, homem muito poderoso e muito rico. E Rute, a moabita, disse à sua sogra: Se o permites, irei respigar nos campos, e acharei talvez algum homem que se interessará por mim (fr. “quelque homme qui s’intéressera à moi”: a Bíblia de Ostervald traz “celui devant lequel j’aurai trouvé grâce”, aquele em cujos olhos eu achar graça, e Voltaire “quelque père de famille”, algum pai de família; o homem que se interessa por ela é de Taxil). Ela lhe respondeu: Vai, minha filha. Foi-se, pois, Rute respigar atrás dos segadores. E aconteceu que ela se achou num campo pertencente a esse Boaz, que era parente de Elimeleque. Nesse ínterim, Boaz veio da cidade e disse aos segadores: Que Deus seja convosco! Eles lhe responderam: Que Deus vos abençoe! Após o que, Boaz, tendo reparado em Rute, perguntou a um jovem, chefe dos segadores: Quem é esta moça? O qual respondeu: É uma jovem mulher moabita, que voltou com Noemi [381] da terra de Moabe. Ela nos pediu que lhe permitíssemos apanhar alguns punhados de cevada após os segadores; só está aqui desde esta manhã. Então Boaz aproximou-se de Rute e lhe disse: Ouve, minha filha, não vás respigar noutro campo, e até fica junto das minhas servas. Proibi aos moços que estão aqui que te toquem; e, quando tiveres sede, bebe da água que tira a minha gente.» (Rute 2:1-9)
176. Miséria de Rute respigando no campo do velho Boaz. «A estas palavras, Rute prostrou-se, com o rosto contra a terra, e disse: Como, pois, achei eu graça diante de ti? Sou estrangeira, e no entanto pareces conhecer-me. — Contaram-me em Belém, respondeu Boaz, como te portaste bem para com a tua sogra, desde que o teu marido morreu. Sei tudo, o teu abandono de teu pai e de tua mãe, e da tua terra natal, para vir a um povo que não conhecias. Que o Eterno te recompense! já que te puseste sob a proteção do Deus de Israel, possas tu obter dele tudo o que mereces como teu salário! — Meu senhor, disse Rute, eis-me bem alegre por ter achado graça diante dos teus olhos; as tuas palavras são para mim uma grande consolação, e são verdadeiramente segundo o coração da tua serva, ainda que eu seja menos que a última das tuas servas.» (v. 10-13) «Boaz voltou de novo a ela, quando chegou a hora de comer, e lhe disse: Não temas juntar-te à minha gente; eu te autorizo a isso. Comerás pão, e permito-te molhá-lo no vinagre. Assim, ela tomou parte na refeição dos segadores, que lhe deram grão tostado; ela se fartou dele e guardou com cuidado as suas sobras. Após o que, levantou-se para ir respigar. E Boaz ordenou à sua gente: Deixai-a respigar até junto das gavelas; além disso, guardai-vos bem de lhe fazer o que quer que seja que lhe possa causar vergonha. De mais a mais, deixai ficar pelo chão, como por descuido, alguns punhados de espigas, para que ela os apanhe. Respigou, pois, Rute até a tarde; e, tendo batido as espigas que havia recolhido, tirou delas cerca de um efa de cevada.» (v. 14-17)
177. Bondades de Boaz para com Rute. «Quando Rute voltou à cidade, mostrou à sua sogra o que tinha respigado; deu-lhe também as sobras da sua refeição, que tinha levado consigo. Então a sua sogra interrogou-a: Onde respigaste hoje? Bendito seja aquele que te fez tão bom acolhimento! Rute respondeu: O homem em cujo campo [382] apanhei esta cevada chama-se Boaz. E Noemi exclamou: Que Jeová o abençoe! Depois, acrescentou: Este homem é nosso parente próximo, e é dos que têm o direito de adquirir para si pessoalmente na herança da família. E Rute disse ainda: Lembro-me de que ele me recomendou ficar com a sua gente, até que a sega esteja inteiramente acabada. Noemi tornou: Minha filha, tem cuidado sobretudo de te manteres junto das suas servas, com receio de que noutra parte te causem [383] algum desgosto. Apegou-se, pois, Rute às servas de Boaz, e todas as tardes vinha ter com a sua sogra, com quem habitava.» (Rute 2:18-23) «Noemi disse um dia a Rute: Minha filha, por que não hei de eu buscar como poderias ter a vida assegurada e ser feliz? Eis, pois, o que deverás fazer. Boaz, que é nosso parente próximo, padejará esta noite a sua cevada. Pelo que hoje tens de te lavar; além disso, esfrega-te a pele [384] com óleo perfumado; depois, põe sobre ti o teu mais belo vestido, e vai-te à eira de Boaz. Mas não te mostres a ele enquanto ele não tiver acabado de comer e de beber. Quando ele for deitar-se, nota bem o lugar aonde se dirigir para dormir. Esperarás que ele esteja deitado; entrarás muito de mansinho; descobrirás os pés dele, e te deitarás junto dele; então ele te dirá o que terás de fazer (textual). Rute lhe respondeu: Farei tudo o que me dizes.» (Rute 3:1-5)
178. Conselhos de Noemi à sua nora. «Foi, pois, à eira de Boaz, para pôr fielmente em prática os conselhos da sua sogra. E Boaz, tendo comido e bebido bem, estava em franca alegria, e foi deitar-se junto a um monte de molhos. Então, Rute esgueirou-se muito de mansinho para perto do seu leito, e, tendo levantado a coberta aos pés, deitou-se ali.» (v. 6-7) «No meio da noite, Boaz ficou todo espantado de achar uma mulher no seu leito, a seus pés; retirou os pés bruscamente, dizendo: Quem és tu? Ela respondeu: Sou eu, Rute, e sou a tua serva. Estende-te sobre a tua serva (fr. “Etends-toi”: a Bíblia de Ostervald traz “Etends le pan de ta robe”, estende a aba da tua capa, e Boaz ali só louva a sua “bondade”; “Estende-te” e “Vales ainda mais esta noite do que esta manhã” são de Voltaire, em La Bible enfin expliquée); porque és parente próximo, e tens direito de me tomar para ti, já que faço parte da herança na tua família. Boaz disse: Que Jeová te abençoe, minha filha! Vales ainda mais esta noite do que esta manhã, visto que não foste buscar jovens, quer ricos, quer pobres. Não temas, pois, nada; farei o que me acabas de dizer; porque tens a reputação de ser uma mulher de bem. Agora, se é muito verdade que tenho o direito de te tomar para mim, há outro que tem direito antes de mim, porque é parente mais próximo de Noemi. Passa esta noite no meu leito (fr. “dans ma couche”: a Bíblia de Ostervald traz “Passe ici cette nuit”, passa aqui esta noite: o leito de Boaz é de Taxil, aqui, mais acima e mais abaixo, onde Ostervald diz “Elle demeura donc couchée à ses pieds”, ficou, pois, deitada a seus pés); e, se amanhã de manhã o outro parente mais próximo quiser exercer o seu direito, pois bem, que o use! mas, se não lhe aprouver usá-lo, tomar-te-ei para mim sem dificuldade alguma, tão certo como Deus é vivo! Permanece, pois, aqui deitada até a manhã.» (v. 8-13)
179. Rute desperta Boaz. «Assim, ela ficou no seu leito toda a noite; e levantou-se antes que o dia aparecesse. Boaz lhe disse: Toma bem cuidado para que ninguém saiba que passaste a noite aqui. Mas dá o teu avental, desdobra-o. Ela estendeu o seu avental, segurando-o com as duas mãos; Boaz pôs nele seis medidas de cevada, que ela levou para Belém. À sua sogra, que lhe perguntou como se tinha portado, Rute contou tudo o que se tinha [385] passado entre Boaz e ela. Deu-me, acrescentou ela, estas seis medidas de cevada, dizendo-me: Não quero que voltes, com as mãos vazias, para a tua sogra.» (v. 14-17) O capítulo 4 do livro de Rute mostra-nos o velho Boaz em negociações com o parente próximo cujos direitos passavam à frente dos seus. Este, não fazendo questão nenhuma de desposar a nora de Noemi, descalçou-se e deu a Boaz um dos seus sapatos em testemunho da sua renúncia (Rute 4:8). Boaz, então, pôs-se a mostrar o sapato aos magistrados e a todos os habitantes de Belém. «Assim, disse Boaz, vós sois todos testemunhas de que adquiri hoje tudo o que pertencia a Elimeleque e tudo o que era de Quiliom e de Malom, seus filhos, e de que, desta maneira, adquiri também para mim Rute, a moabita, viúva de Malom, para ser minha mulher. Então, todo o povo e os anciãos, vendo o sapato, disseram: Disso somos testemunhas. Deus faça que a mulher que entra na tua casa seja como Raquel e como Leia, as quais ambas deram filhos à família de Israel; porta-te virtuosamente em Efrata, e torna o teu nome célebre em Belém; e que, pela posteridade que Jeová te der por esta jovem mulher, a tua casa seja como a casa de Perez, teu antepassado, que Tamar deu à luz a Judá. Tomou, pois, Boaz a Rute por mulher; entrou nela, e Deus lhe concedeu conceber e dar à luz um filho. E as mulheres disseram a Noemi: Bendito seja o Eterno, que não quis que a herança do teu filho se perdesse para a casa de Israel! Que Jeová console a tua alma e seja o amparo da tua velhice; porque a tua nora, que te ama, deu à luz pelas obras de um israelita, e ela te vale mais do que sete filhos. Então, Noemi tomou o menino e o pôs ao seio (fr. “à son sein”: a Bíblia de Ostervald traz “le mit dans son sein”, o pôs no seu colo; com uma só palavra, Taxil faz a velha Noemi amamentar o menino, daí o milagre; mais acima, “pelas obras de um israelita” também é dele), e serviu-lhe de ama (isso, sim, é um milagre que não é banal). E as vizinhas deram um nome ao menino; chamaram-lhe Obede. Este Obede foi o pai de Jessé, que foi o pai de Davi.» (Rute 4:9-17)
180. Boaz desposa Rute com grande solenidade. Tal é, em todo o seu sabor, a edificante história de Rute, modelo das noras bíblicas, e de Noemi, a nata das sogras. O leitor terá admirado, de passagem, a generosidade de Boaz, esse velho proprietário muito poderoso e muito rico, que, logo que Rute lhe bateu no olho, lhe concedeu [386] o pão da mesa dos seus segadores, autorizando-a a molhá-lo em vinagre, para que fosse menos seco. Os críticos acham bizarro que Boaz, em vez de ir deitar-se no seu quarto, se tenha estendido, para dormir, de noite, junto a um monte de molhos, na eira, como fazem os jornaleiros depois da sega; mas acham mais bizarro ainda, e de um gosto extremamente duvidoso, que Rute se tenha esgueirado para o leito de Boaz, assim como o conta [387] o autor sagrado, como uma coisa muito natural e sem o menor pejo. Se esse Boaz, dizem eles, devia, na qualidade de parente, desposar essa Rute, o dever de Noemi, que lhe fazia as vezes de mãe, era fazer honestamente a proposta de casamento; ela não devia persuadir a sua nora a fazer ofício de perdida. Além disso, Noemi devia saber que havia um parente mais próximo que Boaz: era, pois, a esse parente mais próximo que se devia recorrer. [388] Por fim, sabe-se que os cristãos fazem Jesus descender de Davi, e, por conseguinte, de Boaz e de Rute; a prostituição e o incesto encontram-se assim em profusão no sangue que Deus escolheu para se encarnar. Boaz descende em linha reta de Perez, nascido do incesto de Tamar, que se entregou ao seu sogro Judá fazendo de prostituta; além disso, Boaz é filho de Salmom e de Raabe, a prostituta de Jericó. Quanto a Rute, descende de Moabe, nascido do incesto de Ló com a sua filha mais velha. Eis, pois, antepassados de escol para um Messias! eis um sangue muito honroso para um Deus que se faz homem! Mas o mais divertido para o observador é constatar que, ao ditar o livro de Rute, o divino pombo não reparou que deixava transparecer a mistificação de todos os seus ditados. Com efeito, entre Salmom, esposo de Raabe, e Jessé, pai de Davi, não há, na ordem genealógica, senão Boaz e Obede. Ora, Raabe e Salmom são contemporâneos de Josué; Raabe só foi desposada por Salmom depois da tomada de Jericó, isto é, depois da passagem do Jordão. Além disso, seguindo a cronologia da Bíblia, vamos ver que Obede viveu no tempo do sumo sacerdote Eli, e que o sucessor de Eli, Samuel, viveu ao mesmo tempo que Jessé; o governo dos Juízes vai acabar com Samuel, que instituirá o primeiro rei, Saul, pronunciará depois a sua deposição e sagrará Davi. Do ponto de vista do tempo vivido pelos heróis bíblicos, o livro de Rute destrói, pois, completamente o livro de Josué e o livro dos Juízes; porque é materialmente impossível que tenha havido, de um lado, essa longa série de vicissitudes tão diversas do povo hebreu, esses governos vitoriosos, essas servidões de uma duração enorme e tão multiplicadas, esses livramentos seguidos de períodos de paz que se contam por um número considerável de anos, o que dá, no conjunto, um total de quatrocentos e oitenta anos desde a passagem do Jordão até a morte de Sansão, e que não tenha havido, do outro lado, paralelamente, senão Salmom, que vivia por ocasião da tomada de Jericó, e o seu filho Boaz, contemporâneo de Sansão. [389] CAPÍTULO 11
Naquele tempo, havia em Ramataim-Zofim (ou Ramá, simplesmente) um homem, chamado Elcana, que estava à frente de duas mulheres, tão legítimas uma como a outra, Ana e Penina. Ora, a primeira não podia ter filhos, e todos os dias havia cenas de quebrar tudo (fr. “des scènes à tout casser”, locução familiar: cenas terríveis, brigas violentas) entre as esposas do honorável bígamo; porque Penina, que era azeda como vinagre, picava Ana no vivo, zombando da sua esterilidade.
181. O lar do bígamo Elcana. Ana, para acabar com isso, resolveu fazer uma peregrinação, provavelmente depois de ter consultado algum piedoso eremita; porque Ramá ficava nas imediações da montanha de Efraim, à qual os seus levitas granjearam um renome imperecível. Mas aonde ir peregrinar? Evidentemente, o eremita consultado não se tinha julgado bastante santo para poder atrair sobre Ana as bênçãos de Jeová.
182. A estéril Ana consulta o eremita de Efraim. Seja como for, a Bíblia nos informa que a arca divina se encontrava então em Siló, sob a guarda do sumo sacerdote Eli e de seus dois filhos, Hofni e Fineias (não confundir com o Fineias, filho de Eleazar). Assim, Elcana e a sua família partiram para Siló.
183. Partida de Elcana para Siló. Supõe-se com razão que Ana, a estéril, se pôs alegremente a caminho, mas que Penina, a fecunda, não deve ter deixado Ramá sem algum pesar, visto que as más línguas lhe atribuem um primo-irmão com quem ela estava nos melhores termos. Todavia, a alegria de Ana não parece ter sido de longa duração. Com efeito, uma vez em Siló, a crer no autor sagrado, «quando Ana ia ao templo do Eterno, Penina a ofendia sempre da mesma maneira, e Ana recomeçou a chorar, e não comia. Elcana, seu marido, lhe dizia: Ana, por que choras, e por que te absténs de comer? não te valho eu mais do que dez filhos?» (Primeiro livro de Samuel 1:7-8) «Depois que ela comeu e bebeu em Siló, levantou-se. Ora, o sumo sacerdote Eli estava assentado numa cadeira, junto a uma das colunas do tabernáculo do Eterno. Ana, pois, tendo o coração [390] cheio de amargura, orou a Jeová, derramando torrentes de lágrimas. Ela fez este voto: Ó Sabaote, deus dos exércitos, se te dignares olhar para a aflição da tua serva, se me deres um filho varão, eu to darei por todos os dias da sua vida, e jamais navalha alguma passará sobre a sua cabeça. Mas, ao dizer isso, Ana limitava-se a falar no seu coração; o sumo sacerdote, que a observava, via somente mexerem-se os seus lábios, e disse consigo: Esta mulher está embriagada. Então, interpelou-a [391] nestes termos: Quando acabarás de estar bêbada? Vamos, vai dormir noutra parte o teu vinho!» (v. 9-14)
184. Ana, a Estéril, implora o Eterno. Contudo, sob essa dura apóstrofe, Ana não perdeu o mapa; explicou que não estava nada embriagada, «não tendo bebido nem vinho nem cerveja», e Eli, vendo o seu engano, interessou-se logo pela infortunada. Sabe-se como se operam os milagres do gênero daquele que Ana solicitava; o procedimento perpetuou-se até os nossos dias: por isso, é fácil dar-se [392] conta do que se passou. Com a autorização de Elcana, marido devoto, Eli não deixou de convidar a estéril esposa a vir por um momento ao santuário reservado. Ana sentia, sim, algumas hesitações; o próprio marido a tranquilizou. Vai, disse-lhe ele, vai com esse senhor, ele te fará tocar algum talismã sagrado, e eu te garanto que te darás bem com isso. Ana, pois, foi admitida a ver de perto o Santo dos santos.
185. O sumo sacerdote Eli admite Ana a ver de perto o Santo dos Santos. Depois, como a estada da sua esposa no santuário se arrastava um pouco, Elcana foi sentar-se sob a colunata exterior do templo. Enfim, a esposa querida reapareceu, trazida por Hofni e Fineias, filhos do sumo sacerdote, os quais estavam radiantes; asseguraram ao bom Elcana que, com toda a certeza, desta vez o Eterno tinha inundado Ana da sua graça todo-poderosa.
186. Ana é reconduzida ao seu esposo pelos dois filhos de Eli. Nove meses depois, o lar de Elcana aumentava com um gordo bebê cor-de-rosa, ao qual deram o nome de Samuel. Ana, que estava em júbilo, renovou o seu voto de nunca cortar nem sequer uma pequena mecha da cabeleira dessa criança tão desejada. Não é preciso ser feiticeiro para adivinhar que, de tempos em tempos, o sumo sacerdote Eli vinha fazer uma visita ao pirralho, pelo qual tinha uma afeição muito particular; pois era, dizia ele, o testemunho vivo do poderio do Eterno.
187. Afeição do sumo sacerdote pelo filho de Ana. Quando Samuel chegou à idade de entrar ao serviço do Senhor, Ana levou-o a Eli, e ficou decidido que o garoto seria consagrado a Deus. Investiram-no nas funções de coroinha, especialmente encarregado da guarda do tabernáculo. O sumo sacerdote deu à mãe a sua palavra de padre-profeta de que o adolescente estava destinado a extraordinárias coisas.
188. O menino Samuel é consagrado ao Senhor. A querida Ana ficou tão contente que improvisou um cântico, inserido por extenso no capítulo 2; o leitor me dispensará de reproduzi-lo, é uma lenga-lenga arquifastidiosa. Em contrapartida, não se poderiam passar em silêncio os versículos rutilantes de indignação pelos quais o Espírito Santo, inspirador do escritor bíblico, estigmatiza a conduta dos srs. Hofni e Fineias, que, marotos completamente maus, faziam patuscada em prejuízo de mestre Jeová. «Os filhos de Eli, diz-se com todas as letras, eram uns celerados, e desprezavam o Eterno; porque, quando alguém do povo tinha fornecido [393] a vítima cujo sacrifício era devido a Jeová, esses sacrificadores ímpios, por meio de um longo garfo de três dentes, espetavam na marmita (fr. “piquer dans la marmite”: tirar a carne da marmita espetando-a com o garfo; segundo 1 Samuel 2:13-14, o sacrificador ficava com tudo o que o garfo trazia) sagrada e retiravam desse modo em seu proveito os melhores pedaços. Procediam dessa sorte constantemente, enquanto os israelitas vinham para os holocaustos a Siló. Mesmo antes que se fizesse fumegar a gordura, o seu criado, enviado por eles, dizia a todo homem que se preparava para sacrificar: Dá-me boa carne a assar para os sacrificadores. E, se o homem respondia: Faça-se primeiro fumegar a gordura; após o que, tomarás carne quanta quiseres; então o criado de Hofni e de Fineias dizia: Dá já o que te peço; senão, tomar-to-ei à força. Assim o pecado dos filhos de Eli era enorme, e a ira do Eterno se acumulava, cada dia maior» (1 Samuel 2:12-17).
189. Impiedade dos dois filhos do sumo sacerdote. Não era tudo: «os filhos de Eli deitavam-se com todas as mulheres que vinham orar à porta do tabernáculo» (v. 22). O sumo sacerdote não ignorava essas horrendas impiedades; mas tolerava-as por fraqueza. E, enquanto manifesta essa bela indignação, a Bíblia nos conta, no mesmo capítulo, que a mãe de Samuel vinha ver regularmente o seu filho em Siló. «O jovem Samuel, cingido de um éfode de linho, cumpria inocentemente o serviço do Eterno; e cada ano sua mãe lhe fazia uma pequena túnica branca, que lhe trazia quando ia ao templo. E Jeová visitou a Ana de novo, várias vezes; pelo que (fr. “de nouveau, plusieurs fois ; c’est pourquoi”: a Bíblia de Ostervald traz apenas “Et l’Éternel visita Anne, qui conçut et enfanta trois fils et deux filles”; as visitas repetidas, e o “pelo que”, são de Taxil) ela concebeu e deu à luz mais três filhos e duas filhas» (1 Samuel 2:19-21). Os céticos concluirão talvez que Hofni e Fineias contribuíam para aumentar a família do excelente Elcana; mas os fiéis de fé ardente replicarão que não se deve confundir, isto é, que só papai Bom Deus se ocupava de fecundar a amável Ana e que isso era perfeito, ao passo que os filhos de Eli, deitando-se com as outras devotas, eram uns odiosos patifes. É cometer um sacrilégio apropriar-se das bonitas devotas, reservadas a Jeová, tanto quanto espetar na marmita sagrada para se banquetear com as vitualhas do holocausto. «Ora, o jovem Samuel servia ao Senhor na presença de Eli; e a palavra do Eterno era rara naqueles dias, e [394] as aparições de Deus não eram comuns. Aconteceu um certo dia que Eli, cujos olhos começavam a turvar-se por efeito da velhice, se tinha deitado no seu quarto antes que as lâmpadas do santuário estivessem apagadas; por seu lado, Samuel dormia no tabernáculo, junto da arca de Deus. E o Eterno chamou a Samuel.
190. O jovem Samuel acordado à noite por uma voz misteriosa. E o adolescente respondeu: Eis-me aqui! e correu a Eli e lhe disse: Eis-me aqui, visto que tu me chamaste. Mas Eli lhe disse: Não, eu não te chamei, [395] torna ao teu leito, e deita-te.
191. Samuel vai despertar o sumo sacerdote. Pouco depois, o Eterno chamou outra vez a Samuel, e Samuel, despertado bruscamente, levantou-se e foi de novo a toda a pressa a Eli, e lhe disse: Tu me chamaste, eis-me aqui. Eli lhe respondeu: Meu filho, não te chamei de modo nenhum, vai deitar-te de novo! Ora, Samuel não sabia distinguir a voz do Eterno, porque Jeová nunca lhe tinha falado antes. Tornou, pois, a dormir, e pela terceira vez o Eterno o despertou chamando-o. E Samuel, [396] tendo corrido, como sempre, a Eli, lhe disse: Certamente tu me chamaste, e eis-me aqui. Então o sumo sacerdote compreendeu que era o Eterno quem chamava o adolescente. E disse a Samuel: Torna-te ao teu leito, deita-te; mas, se te chamarem outra vez, responderás: Eterno, fala; o teu servo te escuta. Foi-se, pois, Samuel, e tornou ao leito. E o Eterno se manifestou; chamou, como das outras vezes: Samuel! Samuel! O moço respondeu então: Fala, Senhor, o teu servo te escuta. E o Eterno falou a Samuel, dizendo-lhe: Eis que vou soltar em Israel um tal grito, que ninguém o poderá ouvir sem que lhe fiquem tinindo ambas as orelhas; naquele dia, porei contra Eli tudo o que jurei contra a sua casa: começarei e acabarei. A sua casa será punida para sempre, por causa da iniquidade de seus filhos, que ele conheceu e não reprimiu. Sim, jurei que a infâmia da casa de Eli nunca será expiada, nem por vítimas, nem por presentes.» (1 Samuel 3:1-13)
192. Deus fala a Samuel. Na manhã seguinte, logo à primeira hora, o sumo sacerdote quis saber o fim desse incidente noturno; imagine-se o embaraço do aprendiz de levita. Eli insistiu, exigiu toda a verdade, e o jovem Samuel relatou a terrível confidência que tinha recebido. «Nada encobriu ao sumo sacerdote; e Eli respondeu: Sim, foi o Eterno que falou; faça ele o que bem lhe parecer!» (v. 18) «E eis que Samuel crescia; ora, estando o Eterno com ele, nenhuma de suas palavras caía no chão (sic). E todo o Israel, desde Dã até Berseba, soube que Samuel era em verdade profeta de Deus.» (v. 19-20) Esta primeira parte da história do famoso profeta que foi o último juiz não deixou de levantar algumas críticas. Primeiramente, sobre o próprio livro, que é atribuído a Samuel, o sábio Fréret apresentou uma observação geral; aponta um defeito em que nenhum historiador sério cairia: o de deixar o leitor numa ignorância completa do estado em que se achava então a nação de que se fala. Com efeito, segundo o texto sagrado, é difícil saber que extensão de terra possuíam os judeus no tempo do sumo sacerdócio de Eli, em que lugares exatamente residiam, se eram ainda escravos ou simplesmente tributários dos fenícios, que os ignaros escritores hebreus se obstinam [397] em chamar filisteus. O autor parece ser um sacerdote que só se ocupa da sua profissão, e que tem todo o resto em pouca conta. O autor designa Siló como residência do sumo sacerdote Eli. Sobre esse ponto, Voltaire observa que a aldeia chamada Siló pertencia ainda aos fenícios, e que é, por conseguinte, muito espantoso que estes ali tivessem tolerado o sumo sacerdote de uma religião inimiga; se a arca estava nessa aldeia, só podia ser em segredo, evidentemente, visto que os filisteus só se apoderarão dela mais tarde e por ocasião de uma batalha, como se verá; mas então como explicar que os judeus viessem em peregrinação a Siló?... Além disso, em todo o decurso do relato, o narrador dá a entender que os judeus se tinham tornado tão miseráveis que Deus já não lhes falava frequentemente como outrora; ora, era ideia de todas essas nações grosseiras que, quando um povo era vencido, o seu deus era vencido também, e que, quando ele se reerguia, o seu deus se reerguia com ele. Muitos julgam que, se Jeová é verdadeiramente o criador do universo, fazem-no desempenhar um papel dos mais grotescos representando-o encerrado num cofre, de onde, no meio da noite, ele chama um moço até quatro vezes antes de lhe exprimir o que lhe quer dizer. Woolston acha o autor sagrado excessivamente ridículo em dizer que o pequeno Samuel «ainda não sabia distinguir a voz do Eterno, porque Jeová nunca lhe tinha falado antes». Efetivamente, não se pode reconhecer a voz de alguém que nunca se ouviu; além disso, o autor sagrado, exprimindo-se assim, representa o seu Jeová como tendo uma voz humana, do mesmo modo que cada homem tem o seu timbre de voz pessoal. Boulanger tira daí uma nova prova de que os judeus sempre fizeram o seu deus corporal, e de que não viram nele senão um homem de uma espécie superior, morando habitualmente numa nuvem, vindo às vezes à terra visitar os seus favoritos, ora tomando o seu partido, ora abandonando-os, ora vencedor, ora vencido, tal, numa palavra, como os deuses de Homero; diz também que Homero, aliás, dá ideias mais sublimes da divindade do que as que estão contidas na Bíblia, e que se encontram outras mais [398] belas ainda no antigo Orfeu, e até nos mistérios de Ísis e de Ceres. Esta opinião de Boulanger é partilhada por Fréret, por Dumarsais, etc. Eis, pois, Samuel crescido, e o divino pombo fica mudo sobre a conduta de Hofni e Fineias desde a memorável noite das terríveis revelações. Espetavam ainda na marmita?... Ficamos sabendo apenas que «Samuel tinha dito tudo aos israelitas»; a reprovação de Eli e de sua família [399] era, pois, o segredo de Polichinelo (fr. “le secret de Polichinelle”, locução: um segredo que todos conhecem; Polichinelo é o bufão corcunda do teatro de bonecos), o que não impedia os fiéis de levar as suas oferendas a esse sumo sacerdote desqualificado e a seus filhos. Talvez estes, por temor do castigo predito, tivessem renunciado aos seus sacrílegos hábitos; mas sabemos que mestre Jeová é muito rancoroso. «Os israelitas sublevaram-se contra os filisteus e reuniram-se em armas para os combater; acamparam em Ebenézer, e os filisteus estabeleceram o seu acampamento em Afeca. [400] Então a batalha foi travada; Israel foi batido, os filisteus mataram de início cerca de quatro mil soldados judeus num primeiro combate em campo raso. O exército de Israel virou as costas e tornou ao acampamento, onde os anciãos do povo disseram: Por que deixou o Eterno que hoje fôssemos batidos pelos filisteus? Façamos vir de Siló a arca da aliança, na qual Jeová reside; assim Deus estará no meio de nós, e nos livrará dos nossos inimigos. A arca santa foi, pois, trazida, e Sabaote, deus dos exércitos, estava nela, entre os querubins; e Hofni e Fineias, filhos de Eli, acompanhavam a arca de Deus. E, quando a arca entrou no acampamento, todo o Israel soltou tão grandes gritos de alegria, que a terra ressoava.» (1 Samuel 4:1-5) «Então os filisteus, ouvindo a voz deste grito, disseram: Que voz de grito há, pois, no acampamento hebreu! E souberam que a arca onde Jeová reside estava no meio do exército. Então os filisteus tiveram medo, e diziam uns aos outros: Jeová está agora no acampamento hebreu; não era assim nestes dias passados; ai de nós, agora! Reconfortemo-nos, filisteus, e sejamos homens valentes; combatamos com coragem, para não cairmos escravos destes judeus, como eles foram os nossos. Travaram, pois, os filisteus uma segunda batalha, e Israel foi de novo batido e fugiu; e a derrota do exército israelita foi tão grande, que trinta mil soldados, desta vez, ficaram mortos no campo de batalha. A arca de Deus foi tomada pelo inimigo vencedor, e os dois filhos de Eli, Hofni e Fineias, pereceram neste combate.» (v. 6-11)
193. Morte dos filhos de Eli e tomada da arca. «Ora, um soldado da tribo de Benjamim, escapado à carnificina, correu um dia inteiro para ir a Siló, aonde chegou com as vestes rasgadas e cinza sobre a cabeça. E, enquanto esse homem corria assim, o sumo sacerdote Eli estava assentado numa cadeira que mandara erguer ao lado do caminho, e esperava as notícias; e na sua espera tremia, por causa da arca santa. Eli era então da idade de noventa e oito anos. Esse homem, logo que chegou, disse a Eli: Venho do campo de batalha, de onde escapei. E Eli o interrogou nestes termos: Que sucedeu, meu filho? O soldado benjamita respondeu: Israel fugiu diante [401] dos filisteus, e houve até uma grande derrota do povo; os teus dois filhos estão mortos, e a arca de Deus caiu em poder do inimigo. Quando Eli ouviu isso, caiu de costas de cima da sua cadeira, e na queda quebrou o pescoço. Assim morreu; porque era velho e pesado. Tinha julgado a Israel quarenta anos.» (v. 12-18)
194. Eli cai da sua cadeira à notícia da morte de seus filhos. (os cartazes dizem “Dernières dépêches”, últimos telegramas, e “Nouvelles de la guerre”, notícias da guerra: Eli espera as notícias da batalha como diante do mural de um jornal) «E sua nora, mulher de Fineias, que estava pejada, via aproximar-se a hora em que havia de parir, quando um mensageiro lhe fez saber, tudo ao mesmo tempo, que a arca estava tomada, que o seu marido estava morto e o seu sogro também. A esta notícia, dobrou-se em dois; então deu à luz, e o seu parto foi dos mais dolorosos. E eis que a morte se apoderou também dela. Ora, enquanto ela morria, as mulheres, suas amigas, que a rodeavam, lhe disseram: Não tenhas inquietação; nós seguramos a tua criança, e te garantimos que não é uma menina; em verdade, é um menino. Mas ela não prestava atenção nenhuma ao que as amigas lhe diziam, não ouvia nada; porque a morte a invadia cada vez mais. E de repente pôs-se a falar, e disse: A glória de Deus é transportada de Israel, porque a arca santa está tomada; e, por esta razão, quero que o meu filho seja chamado Icabô.» (v. 19-22) Vê-se que o autor sagrado nos deixa ainda mais no vago. Esse estranho historiador não dá a conhecer nem como os hebreus se tinham revoltado contra os filisteus, seus amos, nem o motivo dessa guerra, nem que território os hebreus ocupavam. Só se mostra preciso para indicar o lugar onde se achavam os acampamentos dos dois exércitos inimigos; mas é jogar com azar (fr. “jouer de malheur”, locução: ser contrariado pelo acaso; vem do jogo), visto que nenhum geógrafo da antiguidade mencionou Ebenézer nem Afeca. O autor sagrado fala-nos somente de trinta e quatro mil judeus mortos apesar da presença da arca. Como conceber, diz Voltaire, que um povo escravo, que sofreu tão grandes e tão frequentes perdas, possa tão cedo reerguer-se delas? Os críticos sempre ousaram suspeitar o autor de um pouco de exagero, quer nos sucessos, quer nos reveses. O autor parece muito mais ocupado em celebrar Samuel do que em deslindar a história judaica; espera-se em vão que dê uma descrição fiel do país, do que os judeus dele possuíam como próprio sob os seus amos, das circunstâncias em que [402] se deu essa sublevação, das praças-fortes, ou, pelo menos, das cavernas que ocuparam, das medidas que tomaram, dos chefes que os levaram ao combate; nada de todas essas coisas essenciais! Daí conclui lorde Bolingbroke, no seu exame, que o levita autor desta história escrevia como os monges da Idade Média escreveram a história do seu país. E Voltaire acrescenta, com a sua mordaz ironia: «Sem dúvida, Samuel, tendo-se tornado profeta, e falando-lhe Deus [403] já na sua infância, era um objeto mais considerável que os trinta mil homens mortos na batalha, que não passavam de profanos, a quem Deus não se comunicava; eis por que, evidentemente, na Sagrada Escritura se trata dos profetas judeus mais do que do povo judeu.» Atenção, agora!... Leitores, nunca seremos graves demais. Chegamos a uma passagem da Bíblia que não dispõe mais à alegria do que o espetáculo do nariz de prata de [404] um inválido; com efeito, eis o grande negócio dos olhos do cu de ouro... Atenção! atenção! não riais. É muito sério. Mestre Jeová, para castigar Hofni e Fineias que, durante certo tempo, tinham espetado na sua marmita, tinha-se feito tomar, por meio do seu cofre, pelos filisteus; e, mesmo enquanto Hofni e Fineias defendiam o seu cofre, isto é, o defendiam a ele próprio (visto que estava em residência na arca), quisera, por sua vontade misteriosa e impenetrável, que os dois levitas fossem mortos junto dele, em companhia de trinta mil outros judeus, igualmente massacrados, embora eles nunca tivessem espetado na marmita. Era esse um castigo sensacional, tudo o que se pode imaginar de mais sensacional, visto que Deus, deixando-se cair nas mãos dos filisteus idólatras, se englobava na punição do sacrilégio cometido contra ele. Isso talvez não seja muito lógico; mas é essencialmente divino, qualquer teólogo vo-lo dirá. Os filisteus, pois, tinham sido eleitos de Deus para exercer contra Deus a vingança de uma ofensa a Deus, fazendo Deus prisioneiro. Só que, depois de ter eleito os filisteus para o manterem cativo, mestre Jeová resolveu punir os filisteus por serem os seus eleitos. Isso continua, como se vê, a não ser lógico; mas é cada vez mais divino. Notemos, primeiramente, que esses filisteus, que eram bons rapazes no tocante à devoção, testemunharam o maior respeito ao deus seu prisioneiro. Vimos há pouco que estavam convencidos do seu poderio. Longe de agir como os fanáticos intolerantes que prodigalizam o ultraje às divindades de outras religiões que não a sua, trataram com honra o deus de Israel. Caia um Júpiter ou um Buda em poder de inquisidores cristãos, e eles depressa o terão atirado ao esgoto. Os filisteus, pelo contrário, sabendo que Jeová estava nesse cofre que lhes coubera pela sorte da batalha, transportaram dignamente a bendita caixa para Asdode, onde se achava um dos seus mais belos templos, o templo de Dagom; ali colocaram a arca na parte mais venerada do santuário, junto do próprio Dagom. É claro que os filisteus faziam consigo o seguinte raciocínio: — O deus de Israel é um deus de primeira qualidade; [405] porque sabemos as maravilhas que operou, quando tirou do Egito o seu povo. Já que temos, pois, a feliz fortuna de possuí-lo, comportemo-nos o melhor possível para com ele, a fim de que continue a ser-nos favorável. Honremo-lo tanto quanto a Dagom: Abundância de deuses protetores não prejudica (Taxil parodia o provérbio “Abondance de biens ne nuit pas”, “abundância de bens não prejudica”; em português se diz “o que abunda não prejudica”). Ai! esses bons filisteus metiam o dedo no olho; não iam tardar a aprender que Jeová é um mau companheiro de cama (fr. “un mauvais coucheur”, locução: pessoa briguenta, de gênio difícil; aqui também no sentido próprio, pois Jeová vai passar a noite com Dagom). Na noite da instalação da arca na basílica de Asdode, os sacerdotes de Dagom retiraram-se ao anoitecer, deixando o seu deus em tête-à-tête com o de Israel. Se, em vez de terem tomado Jeová, os nossos fenícios tivessem tido a sorte de possuir, nas mesmas circunstâncias, um Anúbis egípcio, ou um Ormuzd persa, ou um Apolo grego, tudo se teria passado muito bem nessa primeira noite, e nas noites seguintes. Os dois deuses teriam amigavelmente cortado um babador, teriam contado um ao outro os pequenos incidentes alegres das homenagens que recebiam respectivamente dos seus fiéis; em suma, se teriam tornado dois bons camaradas, e os habitantes de Asdode teriam estado em júbilo. Nada disso!... Jeová, como velho resmungão ciumento, aproveitou a ausência dos sacerdotes de Dagom para tratar o outro deus como rival antipático; fazia questão de deixar patente que tinha a divindade mais robusta do que o ídolo oficial dos filisteus. Esse Dagom não era mau por dois sous (fr. “pas méchant pour deux sous”, locução: nem um pouco mau; o “sou”, moeda antiga, valia a vigésima parte do franco, cinco cêntimos); não mandava que lhe sacrificassem vítimas humanas, esse não; era um deus bonachão. Deve ter ficado, por conseguinte, muito surpreendido quando, bem no meio da noite, Jeová, saindo de repente da sua caixa, se precipitou sobre ele, como um atleta raivoso, e o atirou ao chão, do alto do altar. A Bíblia não dá os pormenores dessa luta noturna; mas é evidente, segundo o texto, que assim sucedeu. «Os filisteus tinham levado a Asdode a arca de Jeová; instalaram-na no templo de Dagom, colocaram-na mesmo ao lado de Dagom. E, no dia seguinte, os habitantes de Asdode, tendo-se levantado de madrugada, acharam Dagom estendido no chão, com o rosto em terra, diante da arca; mas reergueram Dagom e tornaram a pô-lo no seu lugar.» (1 Samuel 5:1-3) A segunda noite foi ainda mais terrível que a primeira. [406] Jeová estava melindrado por ter de partilhar com Dagom as homenagens dos asdoditas. Talvez, no seu íntimo, sentisse que o seu ciúme era ridículo e que as suas maneiras nada tinham de distinto; pois, durante o dia, ficava quieto no fundo do seu cofre... Ah! se os devotos que enchiam então o templo o tivessem visto saltar da sua caixa, se ele lhes tivesse apregoado a superioridade do seu culto, é possível que os asdoditas tivessem renunciado ao seu ídolo; mas não! ele devia experimentar [407] uma certa vergonha da sua conduta. Com efeito, esperou de novo até estar só, sem testemunhas, na escuridão, para deixar rebentar o seu mau humor, para saciar o seu ressentimento. Desta vez, Dagom pagou de bela maneira (fr. “écopa de la belle façon”, locução: levou uma bela sova). «Na segunda manhã, os habitantes de Asdode acharam Dagom estendido de novo no chão, diante da arca, e a sua cabeça e as suas duas mãos, tendo sido cortadas, estavam sobre o limiar do templo; só o tronco de Dagom tinha ficado junto do cofre.» (1 Samuel 5:4)
195. O ídolo de Dagom é derrubado. [408] Tudo isto era bem próprio para perturbar os filisteus daquela cidade, que nada compreendiam daquilo, e que, na sua candura, estavam a cem léguas de suspeitar que o divino habitante da bendita caixa fosse o autor desses atos de vandalismo. Mas um horrendo flagelo perturbou-os ainda mais, pouco depois. Aqui, é preciso dar a tradução textual: «Em seguida a mão de Deus se agravou sobre os traseiros dos asdoditas; pôs nos seus ânus uma doença repugnante; tanto em Asdode como nos arredores, os filisteus foram feridos na mais secreta parte das nádegas, e a todos, aos grandes assim como aos pequenos, a tripa do sesso saía, e o seu sesso, saído para fora, apodrecia.» (1 Samuel 5:6) Desta feita, os asdoditas compreenderam que o dedo do deus de Israel tinha realizado a obra nefasta. Os magistrados ordenaram que Jeová e o seu cofre fossem transportados para outra cidade. A cidade de Gate recebeu a bendita caixa, e a sua chegada foi logo assinalada por um arregaçamento geral dos ânus e por uma podridão das tripas do sesso (1 Samuel 5:7-9). De Gate a arca santa passou a Ecrom, onde se produziu imediatamente o fenômeno dos esfíncteres arregaçados (5:10). Ao mesmo tempo, houve no campo uma geração espontânea de ratazanas. Essas ratazanas mostraram-se roedores insaciáveis, e os ânus filisteus estavam mais que nunca em compota (fr. “en compote”, locução: todos machucados); «e os homens que não morriam eram acabrunhados de hemorroidas, de tal sorte que um grito de dor se elevava por toda parte até ao céu» (1 Samuel 5:12). Durante sete meses, os filisteus passearam a arca de Jeová de cidade em cidade, e esse passeio só conseguia propagar a horrível doença. (1 Samuel 6:1) Finalmente, foram consultados os adivinhos da Fenícia; estes eram sacerdotes de uma falsa religião — falsa, se nos colocarmos no ponto de vista dos teólogos cristãos —, mas eram excelentes profetas mesmo assim. Os filisteus estavam bastante decididos a devolver a arca de Jeová. «Os seus adivinhos responderam: Se devolverdes a arca do deus de Israel, guardai-vos bem de a devolver sem a acompanhar de um presente para vos fazerdes perdoar os vossos pecados. Ora, visto que os governos desta terra são em número de cinco, fabricai cinco ânus de ouro e cinco ratos de ouro, que serão [409] a vossa dádiva ao deus de Israel; então, porventura, ele não agravará mais a sua mão sobre os vossos traseiros nem sobre os vossos campos. Por que endureceríeis o vosso coração, como o Egito e Faraó endureceram o seu coração? Tomai, pois, uma carroça toda nova e duas vacas jovens que amamentam os seus bezerros, sobre as quais ainda não se tenha posto o jugo, e encerrai os seus bezerros no estábulo. Poreis a arca de Jeová sobre a carroça, e colocareis ao lado da arca um cesto que contenha os ânus de ouro e os ratos de ouro; depois, deixai ir a carroça aonde as vacas quiserem ir. Mas olhai bem para que lado irá a carroça: se for a Bete-Semes, podeis estar certos de que foi o deus de Israel quem pôs a doença nos vossos ânus e os roedores nos vossos campos; se, pelo contrário, a carroça não for a Bete-Semes, saberemos que não foi esse deus quem nos feriu, e que tudo aconteceu por acaso.» (1 Samuel 6:3-9) Ao ler esta história, não se pode deixar de rememorar a de Sara, arrebatada pela sua beleza, aos noventa anos de idade, pelo rei de Gerar, que a julgava irmã de Abraão. Recorde-se que, enquanto o rei não devolveu a mulher do patriarca, todas as damas da terra de Gerar tiveram a vulva fechada, por decreto de Jeová. Aqui, é aos ânus filisteus que o dedo de Deus move guerra, enquanto a arca não é devolvida aos hebreus. Infortunadas vulvas! desgraçados ânus! a sua inocência era, no entanto, a própria evidência, nessas espantosas aventuras. Por que o barroco Jeová anistiava o proxenetismo de Abraão, o único culpado no caso de Gerar, visto que ele especulava com os encantos da sua esposa fazendo-a passar por sua irmã? Por que o mesmo Jeová punia os filisteus por se terem apoderado dele ao tomá-lo com o seu cofre, visto que fora ele mesmo quem se fizera tomar por eles? Mistério e divina divagação. O certo é que os filisteus seguiram o conselho dos seus adivinhos. Fabricaram os cinco ratos de ouro e os cinco olhos do cu de ouro, que representavam a oferta das suas cinco sedes de governo: Asdode, Gaza, Asquelom, Gate e Ecrom. Atiraram a arca e a sua oferta para cima de uma carroça, atrelaram-lhe as duas vacas jovens privadas [410] dos seus bezerros e soltaram-nas através dos campos sem condutor. «E as vacas jovens tomaram direito o caminho de Bete-Semes, mantendo-se sempre na mesma estrada, andando e mugindo; e não se desviaram nem para a direita nem para a esquerda; e os governadores dos filisteus foram atrás delas até perto de Bete-Semes.» (1 Samuel 6:12) Como tudo isto é maravilhoso! e como os devotos têm o direito de estar orgulhosos, crendo nos dogmas de [411] uma tão bela religião! Os profetas, como se vê, não faltam na Bíblia. Os adivinhos dos filisteus, povo maldito, são aqui considerados como verdadeiros profetas; cada país tinha os seus, e o autor do livro, sendo ele mesmo profeta, respeita o seu caráter até nos estrangeiros idólatras que dele fazem profissão. No seu extraordinário poderio, Jeová prodigaliza o sobrenatural, a ponto de inspirar os profetas dos falsos deuses, haja vista Balaão, e nem sequer desdenha conceder [412] o dom dos milagres aos magos das religiões inimigas da sua, haja vista os magos do Egito Janes e Jambres, que fizeram os mesmos milagres que Moisés. E as vacas que trazem de volta a arca não são uma espécie de milagre? Vão, impelidas pela inspiração divina, a Bete-Semes, para junto dos hebreus; parece, pois, que essas vacas se tinham tornado profetisas também. «Ora, a gente de Bete-Semes ceifava os trigos no vale; e levantaram os seus olhos, e viram a arca, e muito se alegraram com isso. A carroça deteve-se no campo de Josué, o bete-semita; havia ali uma grande pedra; então fenderam as madeiras da carroça, fizeram delas uma fogueira, e as duas vacas jovens foram oferecidas em holocausto ao Eterno. Porque os levitas desceram a arca do Senhor, assim como o cesto que continha os ânus de ouro e os ratos de ouro, e puseram tudo sobre a grande pedra.» (1 Samuel 6:13-15)
196. Retorno maravilhoso da arca. Ainda não acabou!... Havia muito tempo que Jeová não fulminava ninguém do seu povo, e como teria ele podido fazer a sua reaparição entre os hebreus sem se dar ao luxo de uma pequena matança?... Saboreai, pois, o que se segue: «Mas o Eterno feriu de morte súbita gente de Bete-Semes, porquanto vieram olhar dentro da sua arca; houve assim cinquenta mil e setenta homens que foram feridos. E o povo chorou, por causa desse terrível castigo daqueles que tinham querido ver Jeová.» (v. 19) Papai Bom Deus não gracejava e não podia suportar a curiosidade a seu respeito. Não tinha ele declarado, repetidas vezes, que, salvo raras exceções, quem quer que o visse face a face perderia com isso a vida no mesmo instante? Assim, esses grandes basbaques de bete-semitas estavam bem prevenidos. Pergunto-vos eu: que ideia danada, a de ir olhar dentro da arca!... Evidentemente, os filisteus foram mais respeitosos e abstiveram-se, com cuidado, de levantar alguma vez a tampa da bendita caixa; por isso Jeová contentou-se com deteriorar-lhes o olho do cu. Outra observação, de passagem: embora desconhecida dos geógrafos, essa cidade de Bete-Semes devia ser muito importante, dada essa destruição de cinquenta mil e setenta homens de um só golpe!... [413] E, já que estamos nisso, por que não dizer que essa morte súbita de tantos milhares de bete-semitas nos dá a conhecer, sem mais dúvida possível, de que terra é o Espírito Santo?... Segui bem o meu raciocínio. É materialmente impossível que cinquenta mil e setenta pessoas tenham rodeado a arca todas juntas, a um só tempo, não é verdade?... Digamos dez, vinte — trinta, se quiserdes — que tenham levantado ao mesmo tempo a tampa e mergulhado os olhares no cofre. Esses trinta primeiros curiosos são logo punidos pela sua ousadia; zás! caíram fulminados. Que outros trinta não tenham compreendido a lição e, por sua vez, tenham sido feridos de morte súbita, ainda passa. Acrescentai mesmo uma terceira leva de temerários, instantaneamente castigados dessa terrível maneira. Sapristi! é difícil engolir que os bete-semitas tenham querido continuar a aproximar-se, tenham galgado os cadáveres para olhar dentro da bendita caixa, e, numa palavra, que tenham tido a cachola bastante dura para se obstinarem em se fazer fulminar uns após os outros, quando constatavam a imediata execução dos seus predecessores. Por teimosos que pudessem ser, os bete-semitas foram forçosamente detidos, logo que a acumulação dos cadáveres formou uma barreira, e não foram precisas numerosas dúzias para que essa barreira fosse intransponível. Pelo contrário, mal houve uns sessenta mortos, deve ter-se produzido um movimento geral para trás, um recuo de pavor. O número indicado pelo texto é, pois, muito exagerado, isso é de toda evidência. A setenta vítimas, o divino pombo acrescentou cinquenta mil, com toda a certeza.... Mas então?... Então, temos enfim as terras de origem dos três deuses da Trindade!... Deus Filho é judeu, nascido em Belém; é sabido. Deus Pai, ou Jeová, que jurou a Noé nunca mais fazer perecer homens por um dilúvio... de água, e que contornou o seu juramento solene praticando o dilúvio de fogo, Jeová, digo eu, é normando. Quanto ao pombo, que sem cessar exagera a bel-prazer — e, desta vez, o exagero que cai no impossível é flagrante —, é de Tarascon (cidade de Tartarin, o caçador de leões que, no romance de Alphonse Daudet publicado em 1872, se gaba de caçadas e de viagens que nunca fez: na França, ser de Tarascon é exagerar sem medida), Bouches-du-Rhône (o departamento francês onde fica Tarascon), por azul! Apanhado, meu velho pombo!... Com a tua história [414] dos bete-semitas fulminados aos milhares, mortos como moscas, tu te denunciaste como compatriota do nosso querido Tartarin; e quem sabe se não és da própria família dele?... Dito isto, não espantaremos nenhum leitor ao lembrar, segundo um novo versículo bíblico (1 Samuel 6:21), que a gente de Bete-Semes que sobrevivera ao massacre se apressou a enviar a arca para outra parte; o texto diz: para Quiriate-Jearim. O cofre mortífero ali permaneceu vinte anos. Só [415] ao cabo desse tempo papai Bom Deus se decidiu a fazer o seu povo alcançar uma grande vitória sobre os filisteus, entre Mispa e Bete-Car (1 Samuel 7:11). Samuel ainda era juiz de Israel. Conformando-se ao voto de sua mãe, deixava crescer os cabelos mais do que nunca; acrescenta-se que soube fazer-se amar pelos hebreus com benefícios de toda sorte, e que a sua popularidade era imensa. Depois, quando o filho de Ana se viu envelhecer, nomeou [416] os seus dois filhos, Joel e Abias, seus coadjutores para administrar a justiça; mas parece que estes não valiam muito mais que Hofni e Fineias. «E os seus filhos não imitavam os seus virtuosos exemplos; porque se inclinaram para os ganhos desonestos, fizeram-se dar presentes para proferir juízos injustos». (1 Samuel 8:3)
197. Numerosos benefícios de Samuel. Fato curioso: Jeová, que tinha feito morrer os filhos de Eli, não puxou do seu raio, por escandalosa que fosse a corrupção dos filhos de Samuel; a magistratura de subornos (fr. “pots-de-vin”, literalmente “potes de vinho”: a palavra corrente em francês para o suborno) deixava-o, pois, insensível e era a seus olhos um pecadilho ao lado das sacrílegas garfadas na marmita dos holocaustos. CAPÍTULO 12
Seria um estranho engano imaginar a história de Samuel prestes a acabar no momento em que a Bíblia nos mostra o profeta tão acabrunhado pela velhice que é obrigado a descarregar sobre os seus filhos as principais funções do seu governo teocrático; Samuel, no meio dos judeus, desempenhou um papel importante até a sua morte, e havemos mesmo de vê-lo agir em pessoa depois da sua morte. Numa bela manhã, os chefes do povo reuniram-se e vieram ter com Samuel, para lhe pedir um «melch», isto é, um rei. As nações vizinhas têm reis; por que não teríamos nós um? tal foi o tema do discurso dos delegados. O profeta, depois de ter consultado Jeová, respondeu fazendo-lhes um quadro pouco convidativo da realeza. «Quereis um rei? disse ele aos chefes do povo; pois bem! sabei qual será o costume desse rei que vos há de comandar. Tomará os vossos filhos para fazer deles os seus carroceiros; fará deles os seus soldados; fará deles lavradores dos seus campos, ceifeiros dos seus trigos, ferreiros para lhe fabricarem armas; fará das vossas filhas as suas perfumistas, as suas cozinheiras e as suas padeiras; tomará os vossos melhores campos, as vossas melhores vinhas, os vossos melhores olivais, e os dará [417] aos seus criados; terá eunucos, a quem dará o dízimo das vossas vindimas e das vossas ceifas; tomar-vos-á mesmo os vossos servos e as vossas servas, e o escol dos vossos jovens, e até os vossos jumentos, e os fará trabalhar para ele. Então, clamareis contra o vosso rei; mas o Senhor não vos ouvirá, porquanto fostes vós mesmos que pedistes esse rei.» (1 Samuel 8:11-18) Apesar de toda a sua eloquência, Samuel não pôde fazer o povo ouvir a razão; é justo dizer que o seu requisitório contra a realeza cheirava um pouco demais ao despeito de ver os israelitas desejarem a restrição do poder sacerdotal. Em suma, os ingênuos hebreus, tosquiados pelos seus sacerdotes, pediam pura e simplesmente para mudar de tosquiador. Ora, Jeová acabou por dizer ao seu profeta: «Faze o que eles desejam; estabelece um rei sobre eles.» (v. 22) A quem reservava Deus, pois, a primeira coroa em Israel?... «Havia um homem da tribo de Benjamim, de nome Quis, muito vigoroso; tinha ele um filho, chamado Saul, de formosa figura, e que excedia o povo por uma cabeça inteira.» (1 Samuel 9:1-2) Saul era um rapaz de hábitos muito simples; em casa de seu pai, era guardador das jumentas. Provavelmente, tinha às vezes distrações; pois o jovem travou conhecimento com Samuel por causa dessas jumentas, que se tinham escapado. O pai Quis tinha-o enviado à procura delas, em companhia de um pequeno criado de granja. Ora, como exploraram sem sucesso todos os arredores, o pequeno criado, que não era nada tolo, aventou a ideia de consultar um «vidente» para descobrir onde estavam as jumentas inencontráveis. Saul fez observar que era necessário oferecer alguma coisa ao adivinho, mas que infelizmente não tinha nenhum presente consigo. — Que isso não o inquiete, respondeu o jovem serviçal; eis aqui um quarto de siclo que acabo de encontrar; nós o ofereceremos ao homem de Deus. Esse quarto de siclo valia mais ou menos oito sous da nossa moeda. A Bíblia mostra-nos, pois (1 Samuel 9), Saul e o seu criado chegando a uma aldeia e perguntando pela morada do «vidente» que lhes fará reencontrar as suas jumentas, como se pergunta onde mora o sapateiro remendão. Esse nome de «vidente», [418] que se dava então àqueles que depois foram chamados profetas, esses oito ou nove sous apresentados a esse Samuel que se afirma ter sido juiz e príncipe do povo são, segundo os críticos, testemunhos palpáveis da grosseira estupidez do autor judeu desconhecido. As moças da aldeia indicaram a casa do adivinho a Saul e ao seu companheiro; estes dirigiram-se para lá. «Ora, Jeová, falando na véspera ao ouvido de Samuel, tinha-lhe revelado [419] nestes termos a vinda de Saul: A esta mesma hora, amanhã, te enviarei um homem da tribo de Benjamim; ungi-lo-ás, para que seja rei sobre o meu povo de Israel, e ele arrancará o meu povo do jugo dos filisteus, porquanto olhei para o meu povo, e o seu clamor subiu até mim.» (1 Samuel 9:15-16) — «E, logo que Samuel olhou para Saul, o Eterno lhe disse: Eis aqui o homem de quem te falei ontem; será ele quem dominará sobre o meu povo.» (9:17) — Depois, quando Saul perguntou [420] a Samuel onde estava o adivinho da aldeia, «Samuel lhe respondeu: Eu mesmo sou o Vidente; sobe comigo ao lugar alto, e comereis hoje comigo; deixar-te-ei ir amanhã de manhã, e te direi tudo o que tens no coração.» (1 Samuel 9:19) O vidente tinha gente para jantar nesse dia, trinta pessoas; pôs Saul no lugar de honra e mandou o seu cozinheiro servir-lhe uma espádua de carneiro, só para ele. (1 Samuel 9:22-24) A fim de lhe tirar primeiro toda a preocupação a respeito das jumentas perdidas, tinha-lhe revelado que elas tinham sido reencontradas e que as veria ao voltar para casa de seu pai. Por fim, antes de se separarem, na manhã seguinte, Samuel esfregou com azeite a cabeça de Saul e informou-o de que desde então ele era rei e, além disso, que o espírito de Deus tinha entrado nele.
198. Samuel oferece a coroa a Saul. E, em verdade, assim foi: tinha-se operado uma transformação completa no filho de Quis, ele já não era o mesmo homem. Mal de volta à casa paterna, constatou o regresso das suas queridas jumentas e pôs-se a profetizar como se nunca tivesse feito outra coisa em toda a sua vida. (1 Samuel 10:1-16)
199. O espírito de Deus se apodera de Saul. Naquele tempo, a arca santa tinha sido transferida para Mispa. Nessa cidade convocou Samuel o povo israelita; o divino pombo não especifica a época e abstém-se de dizer como os milhões de indivíduos que compunham a nação judia puderam ali reunir-se. «Estando, pois, todo o povo reunido em Mispa, Samuel disse aos filhos de Israel: Vou repetir-vos as palavras que o Eterno me fez ouvir: Eu tirei a Israel do Egito e o livrei de todos os seus opressores; mas hoje rejeitastes o vosso Deus, e dissestes ao seu profeta: Dá-nos um rei. Pois bem, agora ides todos desfilar, milhar por milhar, tribo por tribo, diante da arca onde está o Senhor. Assim, Samuel fez chegar todas as tribos de Israel, e a sorte caiu sobre a de Benjamim. Depois, fez tirar à sorte entre as famílias da tribo de Benjamim, e a sorte caiu sobre a família de Matri; por fim, na família de Matri, a sorte caiu sobre Saul, filho de Quis.» (1 Samuel 10:18-21) Talvez alguém se espante de que Samuel não tenha dito pura e simplesmente ao povo: Saul foi-me designado pelo Eterno há algum tempo, e já o esfreguei com azeite; ele é, pois, o vosso rei. Mas a operação do sorteio tinha [421] provavelmente a sua utilidade, para não fazer invejosos. Sendo Jeová o dono da sorte, o velho profeta estava, pois, bem certo de que Saul seria o eleito; porque Deus não podia, deixando a escolha fazer-se por um acaso isento de toda trapaça, expor-se a tornar sem validade a recente unção do seu favorito. Se recorrermos às profecias de Jacó, veremos que a realeza fora prometida à tribo de Judá. Jeová esquecera, pois, essa profecia quando foi instituída a monarquia judia. Mas não tardou a tornar a lembrar-se dela, e por isso veremos em breve a coroa passar da cabeça de Saul para a de um descendente de Judá; desse modo, o esquecimento divino será reparado, e a profecia do patriarca se cumprirá doravante. Enquanto isso, o povo inclinou-se diante do resultado do sorteio. Ora, nesse momento, ausência total do eleito!... Onde está Saul? que é feito de Saul? tal era a pergunta que todos se faziam. Interroga-se o Eterno para saber se Saul viria. «E o Eterno fez ouvir a sua voz, dizendo: Saul está presente, mas escondeu-se entre a bagagem (sic). Então, os judeus correram e tiraram-no do seu esconderijo; foi levado à assembleia do povo; ali, bem se viu que era mais alto que todos os outros, chegando-lhe os ombros ao nível do alto das cabeças deles. E Samuel disse a todo o povo: Não vedes que não há nenhum entre vós que seja semelhante àquele que o Eterno escolheu? Então, a nação inteira soltou gritos de alegria, e ressoou este clamor: Viva o rei!» (v. 22-24)
200. Sagração solene de Saul. Dos versículos que se seguem, parece resultar que Samuel foi, a princípio, o primeiro-ministro do novo monarca. Com efeito, foi ele quem escreveu a lei do reino, e o seu precioso manuscrito foi depositado junto da arca; mas não haviam de tardar a estalar desavenças entre Saul e Samuel.
202. Saul nomeia Samuel primeiro-ministro. Passou-se cerca de um mês. O rei Saul, bonachão e não orgulhoso por dois sous, não encarnava de modo algum o horrível tipo do tirano que Samuel agitara como um espectro para desviar os judeus do seu desejo de viver em monarquia: em vez de formar para si uma corte, de mandar construir um palácio, de rodear-se de guardas de corpo, o filho de Quis voltara pacificamente à granja da sua família e continuava a viver [422] a sua vida campestre. Nesse ínterim, Naás, rei dos amonitas, empreendeu a tomada da cidade judia de Jabes, em Gileade. «Assentou o seu acampamento junto de Jabes e sitiou a cidade; e os habitantes de Jabes, intimidados, disseram a Naás: Recebe-nos por composição, e nós te serviremos. Naás lhes respondeu: Consinto em tratar aliança convosco, mas com uma condição: é que primeiro vos furarei a todos o olho direito, e depois farei outro tanto a todo o Israel, para cobrir [423] a vossa nação de opróbrio. Os anciãos de Jabes replicaram: Concede-nos sete dias de trégua, para que enviemos mensageiros por todo o Israel; se ninguém vier livrar-nos, render-nos-emos a ti. Vieram, pois, os delegados a Gibeá, onde morava Saul.» (1 Samuel 11:1-4) «E eis que Saul voltava dos campos, seguindo os seus bois, e, vendo que o povo chorava, perguntou: Por que estas lágrimas? Contaram-lhe o que tinham dito os delegados de [424] Jabes. Então, o espírito de Deus se apoderou de Saul, que entrou em grande cólera; tomou dois dos seus bois, cortou-os em pedaços, e enviou deles a cada tribo, com esta mensagem: Do mesmo modo se tratarão os bois daqueles que não vierem à guerra, isto é, que não seguirem a Saul e a Samuel. E todos se puseram de pé; na revista que se passou em Bezeque, havia trinta mil soldados de Judá e trezentos mil das outras tribos.
201. Os israelitas choram pela sorte dos habitantes de Jabes. Ali, Saul disse aos delegados de Jabes: Sereis livrados amanhã, quando o sol tiver chegado ao meio do seu curso. Os delegados voltaram, e houve grande alegria em Jabes. Depois, os sitiados disseram aos amonitas: Render-nos-emos a vós dentro de um dia, a partir deste momento, e nos fareis tudo o que quiserdes. E, logo na manhã seguinte, Saul dividiu o seu exército em três corpos; marchou contra os amonitas, desbaratou-os no seu acampamento e exterminou-os até o meio-dia; e os que escaparam foram de tal modo dispersos que não ficaram dois deles juntos.» (1 Samuel 11:5-11)
203. Jabes livrada por Saul. «Então o povo disse: Que nos entreguem os prisioneiros, para que os façamos morrer! Mas Saul respondeu: Não, não se fará morrer ninguém neste dia, porque hoje Jeová livrou a Israel. E Samuel disse ao povo: Vamos todos a Gilgal, e ali confirmaremos a realeza. E todo o povo se foi a Gilgal; fizeram-se grandes festas; ofereceram-se ao Eterno sacrifícios alegres; e Saul e todos os israelitas se regozijaram muito.» (v. 12-15) Os críticos não se surpreendem de que Saul fosse um rei obscuro, entregando-se ele mesmo aos trabalhos da agricultura e voltando à granja paterna com os seus bois; mas recusam-se a admitir que ele pudesse levantar, de repente, em cinco dias, um exército de trezentos e trinta mil combatentes, ao mesmo tempo em que o autor representa os judeus ainda sob a dependência dos filisteus, quando a Bíblia diz que o povo de Deus não tinha nem uma lança, nem uma espada, e que os seus amos não lhes permitiam sequer um instrumento de ferro para afiar os seus arados, as suas enxadas, as suas podadeiras. «O nosso Gulliver, escreve lorde Bolingbroke, tem tais fábulas, mas não tais contradições.» No capítulo 12, temos um discurso resmungão de [425] Samuel, que invoca a velhice para dar a sua demissão; o governo dos Juízes está definitivamente terminado. Samuel não se retira de bom grado. Faz ver ao povo que o fato de ter pedido um rei é um grande pecado que os judeus acrescentaram a tantos outros. Mas enfim, agora, conclui ele, já que tendes um rei, guardai-o; ele é, aliás, o ungido do Senhor; sobretudo, redobrai a vossa piedade para com Jeová. E, para provar aos hebreus que Jeová ainda o escutava, mesmo depois da sua retirada da política, Samuel executou, ali mesmo, um desses milagres como só se encontram na Bíblia. «Vede, disse ele ao povo, vede esta grande coisa que o Eterno vai fazer, à minha voz, diante dos vossos olhos. Não é hoje a ceifa dos trigos? Pois bem, clamarei ao Eterno, e ele fará trovejar e chover, para que saibais e vejais quão grande é o mal que cometestes pedindo um rei. Então, Samuel ergueu um clamor ao Eterno, e Jeová fez trovejar com fragor e chover em torrentes naquele dia, e todo o povo temeu grandemente a Jeová e a Samuel» (1 Samuel 12:16-18). Depois disso, o velho profeta se foi, não sem ter prometido aos seus queridos compatriotas que nunca os esqueceria nas suas orações e dando a entender que se reservava ainda o direito de lhes ensinar, chegada a ocasião, o bom e direito caminho. Em suma, a retirada de Samuel parecia-se muito com uma falsa saída (fr. “fausse sortie”, locução: no teatro, a saída do ator que logo volta à cena).
204. Samuel dá a sua demissão. «Saul tinha reinado um ano, quando estas coisas aconteceram, e reinou dois anos sobre Israel.» (1 Samuel 13:1) Aqui, os críticos bradam contra a contradição e o anacronismo, já que a Bíblia, em outros lugares, diz que Saul reinou quarenta anos. (Atos 13:21; algumas versões modernas completam assim 1 Samuel 13:1: “Saul tinha trinta anos quando começou a reinar, e reinou quarenta e dois anos sobre Israel.”) Sabemos que os israelitas temiam o mau humor de Samuel. A sua demissão consternou-os. Julgaram ver no céu sinais de catástrofes próximas. Os seus inimigos, sabendo da situação, aprestaram-se a cair-lhes de novo em cima; o que não era de molde a levantar o moral dos súditos de Saul. Os trezentos e trinta mil homens da recente leva geral derreteram-se como manteiga na frigideira. Assim, «quando os filisteus se ajuntaram para pelejar contra Israel e armaram trinta mil carros de guerra, seis mil cavaleiros e soldados em tão grande [426] número que as suas tropas se assemelhavam à areia que está à beira do mar, e quando os filisteus vieram acampar em Micmás, ao oriente de Bete-Áven, então o povo de Israel ficou consternado; a maior parte dos hebreus, vendo-se na última extremidade, esconderam-se nas cavernas, nos rochedos, e até nas cisternas; os outros, passando o Jordão, refugiaram-se na terra de Gade e de Gileade.» (v. 5-7)
205. Sinais de desgraças iminentes. Saul encontrava-se em Gilgal, onde os menos apavorados se agruparam [427] em torno dele. A fim de tornar Jeová propício, o rei julgou que era oportuno oferecer o holocausto; Samuel fez saber que viria sacrificar ele mesmo. «E Saul esperou sete dias, segundo o prazo fixado por Samuel; mas Samuel não vinha a Gilgal, e o povo afastava-se cada vez mais de Saul. Então Saul disse: Que me tragam o holocausto pacífico. E ofereceu o holocausto. Ora, mal tinha ele acabado de oferecer o holocausto, quando Samuel chegou; e, como Saul lhe vinha ao encontro [428] para o saudar, Samuel lhe disse: Que fizeste? Saul lhe respondeu: Vendo que não vinhas no dia que me tinhas fixado, e estando os filisteus em armas em Micmás, constrangido pela necessidade, ofereci o holocausto ao Senhor.
206. Saul usurpa as funções sacerdotais. Samuel disse a Saul: Agiste loucamente; não observaste os mandamentos de Jeová; se não tivesses feito isso, o Senhor teria firmado para sempre o teu reinado sobre Israel; mas, agora, o teu reinado não será estável: o Eterno buscou para si um homem segundo o seu coração, e a este destinou a reinar sobre o seu povo. Depois, Samuel foi-se de Gilgal para Gibeá; e, tendo Saul passado revista aos que estavam com ele, acharam-se cerca de seiscentos.» (1 Samuel 13:8-15) Como exército, era fraco, sobretudo depois de ter comandado trezentos e trinta mil homens! Entre nós, não se pode deixar de constatar que Samuel era um esquisito pistolete (fr. “un drôle de pistolet”, locução de gíria: um tipo estranho; “pistolet”, a pistola, dizia-se de um indivíduo bizarro). Em todo este negócio, mostra uma singular má vontade. A Bíblia não o dá em parte alguma como sumo sacerdote; o sumo sacerdote era Aías, filho de Aitube, o qual era irmão de Icabô, filho de Fineias, filho de Eli (1 Samuel 14:3). Samuel era apenas sacerdote e profeta; ora, Saul o era como ele, visto que tinha profetizado logo que fora ungido; portanto, Saul não cometia erro algum julgando-se com o direito de oferecer o holocausto. Além disso, não parece que Samuel, cujos discursos precedentes provam todos claramente que ele não digeria ter sido obrigado a abdicar da sua magistratura para instituir um rei, não parece, digo eu, que Samuel tenha faltado de propósito à palavra a fim de ter um pretexto para reprovar Saul e torná-lo odioso ao povo?... E se alguém não tinha feito intrigas para ter o governo de Israel, era certamente o filho de Quis, Saul, o guardador de jumentas! Seja como for, a situação não era alegre. «Nem sequer se achavam ferreiros em todas as terras de Israel; porque os filisteus lho tinham proibido, com receio de que os hebreus forjassem uma espada ou uma lança; e todos os israelitas eram obrigados a ir ter com os filisteus para afiar a relha dos seus arados, as suas segas, os seus machados e as suas enxadas; os filisteus não lhes permitiam ter senão limas para consertar as suas enxadas, as suas segas, [429] as suas forquilhas de três dentes e as suas aguilhadas.» (1 Samuel 13:19-21) — «E quando chegou o dia da batalha, não se achou nenhum dos seiscentos homens que tinham ficado com Saul que tivesse espada ou alabarda, exceto somente o próprio Saul e seu filho Jônatas.» (1 Samuel 13:22) É evidente que nessas condições a partida não era igual. Os trezentos e trinta mil combatentes que, no ano anterior, tinham desbaratado os amonitas em redor de Jabes também não possuíam, evidentemente, nem espadas nem alabardas; mas pouco importou então que só estivessem armados das suas forquilhas, o seu número formidável lhes tinha valido a vitória. Com seiscentos soldados apenas, sem espadas, era outro par de mangas (fr. “une autre paire de manches”, locução: coisa muito diferente, e bem mais difícil), e compreende-se que Saul fizesse triste figura diante dos filisteus acampados em Micmás. Felizmente, o jovem Jônatas, filho do rei, era um pugilista de primeira força e, ao mesmo tempo, um rapagão resoluto, amante dos golpes ousados. Sem nada dizer a seu pai, levou consigo uma manhã um criado, que lhe carregava as armas, e foram os dois rondar junto dos postos avançados do exército filisteu. Foi assim que avistaram soldados inimigos, que se tinham estabelecido num local elevado, dominando os rochedos de Bozez e de Sené (1 Samuel 14:4). Lá do alto, os filisteus viram os dois homens; «e disseram: Eis os hebreus, que saem das cavernas onde se tinham escondido. Então, os do posto avançado interpelaram Jônatas e o criado que o seguia carregando as suas armas: Olá! gritaram-lhes, subi, pois, até nós; mostrar-vos-emos a nossa nudez, e nos divertiremos (fr. “notre nudité, et nous nous amuserons”: a Bíblia de Ostervald traz “nous vous montrerons quelque chose”, vos mostraremos uma coisa, e mais adiante apenas “tombèrent devant Jonathan”, caíram diante de Jônatas: a nudez, a diversão e os punhos do pugilista são de Taxil). Jônatas disse ao seu criado: Sobe atrás de mim; vejo que Jeová os entregou nas nossas mãos. E Jônatas escalou os rochedos, ajudando-se com os pés e com as mãos, assim como o seu criado, que ainda carregava as suas armas; e quando chegou junto dos do posto avançado, Jônatas lançou-se sobre eles de improviso, abatendo-os a socos, e, à medida que iam caindo, o seu criado que carregava as suas armas os matava atrás dele. Mataram assim vinte homens na metade de um arpent (antiga medida francesa de terra: valia de um terço a meio hectare, conforme o lugar); e esta foi a primeira derrota dos filisteus.» (1 Samuel 14:11-14)
207. Jônatas cai de improviso sobre os filisteus. Durante esse tempo, Saul, que chamara para junto de si [430] o sumo sacerdote Aías, aprestava-se para assistir a um sacrifício; e, de repente, ouviu-se um grande rumor do lado dos filisteus. «Ora, eis que os filisteus tinham desembainhado as suas espadas uns contra os outros, e matavam-se entre si. Então, aqueles israelitas que se tinham escondido nas cavernas da montanha de Efraim saíram delas, caíram sobre os filisteus, perseguiram-nos e alcançaram-nos, até Bete-Áven. Naquele dia, pois, Jeová livrou a Israel.» (v. 20-23) [431] «Depois, estando os israelitas muito exaustos, Saul fez, com todo o povo, este juramento: Maldito será quem quer que, desde agora até esta tarde, tiver comido de qualquer alimento; ninguém comerá até que a vingança tenha alcançado os inimigos. E o povo não provou mais alimento algum. Contudo, o povo estava então numa terra arborizada, e na orla da floresta havia colmeias, cujo mel escorria até sobre a terra do campo; mas ninguém [432] do povo ousou tomar daquele mel e levá-lo à boca porque todos respeitavam o juramento.
208. Jônatas, faminto, encontra uma colmeia. Ora, Jônatas ignorava o juramento que seu pai fizera jurar ao povo; estendeu a ponta do seu cajado, e, tendo-a molhado num favo de mel, levou dele com a mão à boca, e eis que logo os seus olhos viram muito mais claro. Então, um homem do povo lhe disse: Teu pai fez jurar um juramento de maldição contra quem quer que tomasse qualquer alimento hoje. Jônatas respondeu: Nisto, meu pai turbou a terra; vede, peço-vos, como a minha vista se aclarou, por ter provado um pouco deste mel. Se o povo, que está exausto de fadiga, tivesse comido bem hoje e recobrado forças, não teria sido muito maior a derrota dos filisteus?» (v. 24-30)
209. Jônatas prova do mel. — O povo acabou por seguir o conselho de Jônatas; as ovelhas, os bois e os bezerros, que faziam parte do despojo tomado ao inimigo, foram degolados, e fez-se uma patuscada. Mas o mais grave é que os judeus famintos comeram a carne sem terem previamente sangrado a fundo as vítimas; nisso, contravinham às prescrições mais expressas da lei mosaica (v. 31-32). «Fez-se a Saul um relato de tudo isto nestes termos: O povo peca contra o Eterno, come carne com o sangue. E Saul disse ao povo: Transgredistes a lei de Deus! Pois bem, rolai uma grande pedra até mim, e traga-me cada um o seu touro e as suas ovelhas; degolaremos tudo aqui, sangrando as reses; e, comendo-as assim, não pecareis mais contra o Eterno. E cada um do povo trouxe o seu touro, pela mão, naquela noite, e todo o seu gado foi degolado.» (v. 33-34). — Que hecatombe! — «Então, Saul edificou um altar ao Eterno. Depois, disse: Não esperemos o romper do dia; desçamos à planície, e acabemos esta noite com os filisteus; que não sobreviva um só deles! Mas o sacrificador lhe disse: Não tomes decisão alguma antes de ter consultado a Deus. Saul consultou, pois, o Eterno, nestes termos: Perseguirei os filisteus? entregá-los-ás nas mãos de Israel neste dia? E Jeová, permanecendo mudo, não lhe deu resposta alguma.» (v. 35-37) Em vão Saul colou a orelha contra a arca santa (que o sumo sacerdote Aías mandara trazer), em vão esperou [433] ouvir a voz divina. Jeová obstinou-se no seu silêncio. Então, Saul compreendeu que papai Bom Deus não estava contente. Com que podia afinal mestre Jeová estar zangado? O sumo sacerdote Aías, neto de Fineias, certamente não espetava na marmita sagrada; pois não devia ignorar que essa gulodice ímpia tinha valido a seu avô uma morte trágica. Saul sentia-se pessoalmente inocente de todo pecado, e, com efeito, não cometera nenhum que a Bíblia dê a conhecer. Jônatas, que tinha comido mel na ignorância do juramento de seu pai, evidentemente não era culpado; e, aliás, tinha Jeová aceitado um juramento tão absurdo? pois proibir tropas de recobrar forças num dia de combate é uma danada imprudência!... Por conseguinte, se o Eterno estava descontente, parece que devia sê-lo com o povo que se empanturrara da carne do gado filisteu sem ter primeiro sangrado as reses, contrariamente à lei de Moisés, ditada pelo próprio Deus. É verdade que esse povo glutão, logo depois, na mesma noite, tinha devorado o seu próprio gado, conformando-se desta vez às prescrições rituais. Se nesse momento os nossos judeus não sofriam de uma indigestão, é que tinham o estômago sólido! Em suma, visto que Jeová se recusava a responder, era preciso descobrir primeiro quem era culpado para com ele. «Então, Saul disse a todo o Israel: ponde-vos todos de um lado; e eu e meu filho Jônatas nos poremos do outro lado. O povo respondeu a Saul: Faze assim como te parecer bem. E Saul disse ao Eterno: Dá ao menos a conhecer quem é culpado. Tirou-se a sorte diante da arca, e a sorte caiu sobre Jônatas e Saul, e o povo escapou. Depois, Saul disse mais: Agora, lance-se a sorte entre mim e meu filho. E a sorte designou a Jônatas. Então, Saul disse a seu filho: Declara-me o que fizeste. Jônatas lho declarou: É verdade que provei um pouco de mel, tomado na ponta do meu cajado; pois bem, seja, estou pronto a morrer. E Saul exclamou: Que Deus me castigue severamente, se não morreres hoje, Jônatas!...
210. Saul condena o seu filho à morte. Mas o povo implorou a Saul, dizendo-lhe: Quê! Jônatas morreria, ele que livrou Israel pela sua coragem tão maravilhosa? Isso não pode ser. Deus, que é vivo, não permitirá que um só cabelo caia da sua cabeça; porque foi [434] pela proteção de Deus que Jônatas realizou a sua grande façanha. Assim o povo salvou Jônatas da morte.» (1 Samuel 14:40-45)
211. Saul perdoa. A continuação da história informa-nos que, como Saul renunciara a perseguir os filisteus, estes voltaram para a sua terra; mas não passava de uma partida adiada. Durante um período de tempo cuja duração o autor sagrado não nos indica, o reinado do filho de Quis foi bastante glorioso. «Saul reinou, pois, sobre Israel, e de todos os lados fez a guerra com êxito contra os seus [435] inimigos, contra os moabitas, os amonitas, os idumeus, contra os reis de Zobá (reino arameu ao norte de Israel) e contra os filisteus; por toda parte aonde levava as suas armas, tinha a vitória. Levantou também um grande exército, com o qual bateu os amalequitas, e livrou Israel da mão dos que o saqueavam.» (v. 47-48) O inesgotável capítulo 14 dá-nos a conhecer enfim os principais membros da família de Saul. Seu avô, chamado Abiel, tivera dois filhos: Quis, já citado, e Ner, o qual [436] gerou Abner; esse Abner, primo-irmão do rei, era o general em chefe do exército israelita. A rainha chamava-se Ainoã e era filha de um certo Aimaás. Além de Jônatas, Saul teve dois filhos, Isvi e Malquisua, e duas filhas, Merabe, a mais velha, e Mical ou Micol, a mais nova; teve ainda outros dois rapazes, Abinadabe e Isbosete. Mas eis que o velho Samuel vai voltar à cena por alguns instantes; foi ele quem fez declarar a guerra aos amalequitas, embora estes se mantivessem bem sossegados. «Samuel veio a Saul e lhe disse: Enviou-me o Eterno a ungir-te; ora, visto que és rei sobre Israel pela vontade de Jeová, escuta o que Jeová te ordena pela minha boca, porque te repito as próprias palavras que o Eterno me disse: Acabo de trazer à memória que Amaleque não deixou passar pelo seu território o meu povo, quando vinha do Egito; é preciso, pois, agora, matar todos os amalequitas; não se poupe ninguém; não cobiceis nada do que essa nação possui, mas destruí tudo; matai tudo, as mulheres assim como os homens, os rapazes grandes e as criancinhas ainda de peito; e matai também os seus bois, as suas ovelhas, os seus camelos e os seus jumentos.» (1 Samuel 15:1-3) Os críticos, mesmo os mais moderados, só falam desta passagem da Bíblia com horror. Quê! exclama sobretudo lorde Bolingbroke, fazer descer o Criador do universo a um canto ignorado deste miserável globo, para dizer a uns judeus: A propósito, lembro-me de repente de que há cerca de quinhentos anos (sic: o texto de Voltaire que Taxil retoma aqui diz cerca de quatrocentos anos, o que concorda com a cronologia da Bíblia; o argumento se mantém) um pequeno povo vos recusou a passagem! Vamos, tendes uma guerra terrível com os vossos amos, os filisteus, contra os quais vos revoltastes; pois bem, deixai de lado essa guerra embaraçosa, e ide-vos contra esse pequeno povo, que outrora não quis que os vossos antepassados viessem devastar tudo na sua terra. Massacrai homens, mulheres, crianças e velhos! degolai bois, vacas, cabras, camelos, jumentos; porque, como estais em guerra com o povo poderoso dos filisteus, é bom que não tenhais nem bois nem carneiros para comer, nem jumentos para levar as vossas bagagens e os vossos víveres de campanha!... «Saul, pois, reuniu o seu povo, convocado pelos pregoeiros; passou-se a revista em Telaim, e verificou-se que [437] a tribo de Judá tinha fornecido dez mil homens prontos a combater; o contingente fornecido pelas outras tribos era de duzentos mil homens de pé.» (v. 4) Em boa hora! já não estamos nos seiscentos praças do acampamento de Gilgal, embora se possa perguntar o que era feito dos outros cento e vinte mil soldados que tinham travado as primeiras batalhas do reinado de Saul. Há apenas um ano, o exército israelita contava trezentos e trinta mil heróis, que tinham vindo combater os amonitas sem terem uma só espada, uma só lança, e já só restam a Saul duzentos e dez mil!... Para onde foi o resto?... Ah! pombo, divino pombo, como tu és mesmo de Tarascon-sur-Rhône, meu bom!... A vitória do exército judeu foi retumbante; os amalequitas foram batidos à costura chata (fr. “battus à plate couture”, locução: derrotados por completo; vem da alfaiataria, onde a costura é dobrada e achatada a golpes), desde Havilá até Sur: Saul fez prisioneiros em número prodigioso, e os israelitas massacraram os seus cativos sem piedade alguma.
212. Saul traz de volta os amalequitas prisioneiros. No entanto, Saul poupou o rei Agague, julgando provavelmente que devia dar mostras de camaradagem para com um indivíduo da mesma patente que ele.
213. O rei Agague é poupado. Essa clemência melindrou o pai Sabaote. Apareceu a Samuel e lhe disse: «Arrependo-me de ter estabelecido Saul rei; porque se desviou de mim, não executando inteiramente as minhas ordens. Então, Samuel teve uma grande dor, e passou toda aquela noite clamando ao céu.» (1 Samuel 15:10-11)
214. Desespero de Samuel. Quais foram as consequências dessa aparição divina e dessa noite de uivos?... Este capítulo da Bíblia foi apresentado por Voltaire de uma maneira impressionante no seu drama Saul. A cena passa-se em Gilgal, e a ação abre-se com um colóquio entre o rei judeu e Baza, o seu confidente. Baza. — Ó grande Saul! ó o mais poderoso dos reis, vós que reinais sobre os três lagos, no espaço de mais de quinhentos estádios, vós, vencedor do generoso Agague, rei de Amaleque, cujos capitães estavam montados nos mais poderosos jumentos, assim como os cinquenta filhos de Amaleque; vós a quem Adonai fez triunfar ao mesmo tempo de Dagom e de Belzebu; vós que, sem dúvida, poreis sob as vossas leis toda a terra, como Deus o prometeu tantas vezes, que desgosto poderia perturbar-vos em tão nobres triunfos e em tão grandes esperanças? Saul. — Ó meu caro Baza! mil vezes feliz aquele que conduz em paz os rebanhos balidores de Benjamim e espreme [438] a doce uva do vale de En-Gedi!... Ai! eu buscava as jumentas de meu pai, achei um reino; desde esse dia, só conheci a tristeza... Prouvera a Deus, ao contrário, que eu tivesse buscado um reino e achado jumentas! teria feito melhor negócio... Samuel, tu o sabes, ungiu-me a contragosto; fez o que pôde para impedir o povo de escolher um príncipe, e logo que fui eleito, tornou-se o mais cruel de todos os meus inimigos... [439] Baza. — Bem devíeis esperá-lo; ele era sacerdote, e vós éreis guerreiro; ele governava antes de vós: sempre se odeia o seu sucessor. Saul. — Eh! podia ele esperar governar por mais tempo? Tinha associado ao seu poder os seus indignos filhos, igualmente corrompidos e corruptores, que vendiam publicamente a justiça: toda a nação se levantou contra esse poder sacerdotal. Tirou-se um rei à sorte: os dados sagrados anunciaram a vontade [440] do céu; o povo ratificou-a, e Samuel estremeceu. Não lhe basta odiar em mim um príncipe escolhido pelo céu, odeia também o profeta; porque sabe que, como ele, tenho o nome de vidente, que profetizei como ele; e esse novo provérbio, espalhado em Israel, Saul está também no número dos profetas, ofende até demais os seus ouvidos soberbos. Ainda o respeitam; para minha desgraça ele é sacerdote, é perigoso. Baza. — Vossa Alteza Real está por demais firmada pelas suas vitórias, e o rei Agague, vosso ilustre prisioneiro, é-vos aqui um seguro garante da fidelidade do vosso povo, igualmente encantado com a vossa vitória e com a vossa clemência... Eis que o trazem diante de Vossa Alteza Real. Entrada de Agague, cercado de soldados. Agague. — Doce e poderoso vencedor, modelo dos príncipes, que sabeis vencer e perdoar, lanço-me aos vossos sagrados joelhos; dignai-vos ordenar vós mesmo o que devo dar pelo meu resgate; serei doravante um vizinho, um aliado fiel, um vassalo submisso; já não vejo em vós senão um benfeitor e um amo: admirarei, amarei em vós a imagem do Deus que pune e perdoa. Saul. — Ilustre príncipe, a quem a desgraça torna ainda maior, não fiz mais que o meu dever ao salvar os vossos dias: os reis devem respeitar os seus semelhantes; quem se vinga depois da vitória é indigno de vencer; não ponho a vossa pessoa a resgate, ela é de um preço inestimável. Sede livre; os tributos que pagardes a Israel serão menos marcas de submissão que de amizade: é assim que os reis devem tratar entre si. Agague. — Ó virtude! ó grandeza de ânimo! quão poderosa sois sobre o meu coração! Viverei, morrerei súdito do grande Saul, e todos os meus Estados são dele. Sobrevém Samuel, acompanhado de sacerdotes. Saul. — Samuel, que notícias me trazeis? Vindes da parte de Deus, da do povo, ou da vossa? SAMUEL. — Da parte de Deus. Saul. — Que ordena ele? Samuel. — Ordena-me que vos diga que se arrependeu de vos ter feito reinar. [441] Saul. — Deus, arrepender-se!... Só os que cometem faltas se arrependem. Deus não pode cometer faltas. Samuel. — Pode arrepender-se de ter posto no trono os que as cometem. Saul. — Eh! que homem não as comete?... Falai, de que sou culpado? Samuel. — De ter perdoado a um rei. Agague. — Como! a mais bela das virtudes seria considerada entre vós como um crime? Samuel, a Agague. — Cala-te, não blasfemes. (A Saul:) Saul, ex-rei dos judeus, não vos tinha Deus ordenado, pela minha boca, degolar todos os amalequitas, sem poupar nem as mulheres, nem as moças, nem as crianças de peito? Agague. — O teu Deus te tinha ordenado isso!... Enganaste-te, querias dizer o teu diabo. Samuel, aos seus sacerdotes. — Preparai-vos para me obedecer... E vós, Saul, obedecestes a Deus? Saul. — Não julguei que tal ordem fosse terminante; pensei que a bondade era o primeiro atributo do Ser supremo; que um coração compassivo não lhe podia desagradar. Samuel. — Enganastes-vos, homem infiel: Deus vos reprova, o vosso cetro passará a outras mãos. Baza, a Saul. — Que insolência!... Sire, permiti-me punir esse sacerdote bárbaro. Saul. — Guardai-vos bem disso; não vedes que ele é seguido por todo o povo, e que seríamos apedrejados se eu resistisse, porque com efeito eu tinha prometido... Baza. — Tínheis prometido uma coisa abominável! Saul. — Não importa; os judeus são ainda mais abomináveis; tomarão a defesa de Samuel contra mim. Baza, à parte. — Ah! infeliz príncipe, só tens coragem à frente dos exércitos. Saul. — Pois bem, então! sacerdotes, que é preciso que eu faça? Samuel. — Vou mostrar-te como se obedece ao Senhor... (Aos seus sacerdotes:) Ó sacerdotes sagrados, filhos de Levi, mostrai aqui o vosso zelo: traga-se uma mesa; estenda-se sobre esta mesa este rei, cujo prepúcio é um crime diante do Senhor... [442] Os sacerdotes apoderam-se de Agague e amarram-no sobre a mesa. Agague. — Que quereis de mim, monstros impiedosos? Saul. — Augusto Samuel, em nome do Senhor... Samuel. — Não o invoqueis, sois indigno disso, ficai aqui, ele vo-lo ordena; sede testemunha do sacrifício, que, talvez, expiará o vosso crime. Agague, a Samuel. — Assim, pois, ides dar-me a morte?... Ó morte, quão amarga sois! [443] Samuel. — Sim, tu és gordo (Voltaire tira a gordura da Vulgata, em que Agague se apresenta “pinguissimus et tremens”, gordíssimo e tremendo, 1 Samuel 15:32; a Bíblia de Ostervald traz “Agag vint à lui gaiement”, Agague veio a ele alegremente; e, segundo Levítico 3:16, “toda a gordura é do Eterno”)! e o teu holocausto será com isso mais agradável ao Senhor. Agague. — Ai! Saul, quanto te lastimo por estares submetido a semelhantes monstros! Samuel, a Agague. — Escuta, vais morrer: queres ser judeu? queres fazer-te circuncidar? Agague. — E, se eu fosse bastante fraco para ser da tua religião, dar-me-ias a vida? [444] Samuel. — Não; terás a satisfação de morrer judeu, e isso basta. Agague. — Golpeai, pois, carrascos! Samuel. — Dai-me esse machado, em nome do Senhor; e enquanto eu cortar um braço, cortai uma perna, e assim por diante pedaço por pedaço, Os sacerdotes golpeiam todos juntos, com Samuel, em nome de Adonai. Agague. — Ó morte! ó tormentos! ó bárbaros! Saul. — Tenho eu de ser testemunha de uma abominação tão horrível! Baza. — Deus vos punirá por a terdes tolerado. Samuel, aos sacerdotes. — Levai este corpo e esta mesa; queimem-se os restos deste infiel, e que as suas carnes sirvam para alimentar os nossos servos... (A Saul:) E vós, príncipe, aprendei para sempre que obediência vale ainda mais que sacrifício. Saul, atirando-se numa poltrona. — Morro; não poderei sobreviver a tantos horrores e a tanta vergonha. Seria errado acreditar que há exagero nesta representação. O capítulo 15 do 1º livro de Samuel representa, com efeito, a degola de Agague, massacrado da maneira mais bárbara, com uma crueldade de que há poucos exemplos, estando o próprio profeta entre os carrascos e presidindo ao suplício.
215. Samuel faz em pedaços o rei Agague. Além disso, Samuel declarou a Saul que a partir daquele momento ele estava deposto, que Jeová o tinha rejeitado. «E, como Samuel se voltava para se ir, Saul, querendo retê-lo, pegou-o pela orla do seu manto, que se rasgou. Então o profeta disse ao rei: Assim como rasgaste o meu manto, assim o teu reino será rasgado.» (1 Samuel 15:27-28).
216. Samuel declara Saul deposto. Depois, sem perder tempo, Samuel dirigiu-se a Belém. Ali, fez comparecer diante de si um sr. Jessé, descendente de Boaz, e toda a sua família. Após uma purificação geral, seguida de um sacrifício, Samuel disse a Jessé: «São esses todos os teus filhos? Jessé respondeu-lhe: Ainda resta um pequenino, que guarda as ovelhas. Manda-o vir, replicou Samuel; porque não nos poremos à mesa antes que ele esteja aqui presente. Trouxeram, pois, o moço; este era ruivo (fr. “roux”, segundo o “rufus” da Vulgata; a Bíblia de Ostervald diz “blond”, a Almeida “ruivo”) e de lindo semblante. E Jeová disse a Samuel: Eis em verdade aquele que deves [445] ungir. Então, Samuel tomou um chifre cheio de azeite, que tinha trazido, e ungiu Davi no meio dos seus irmãos. Desde então, o sopro do Senhor soprou sobre Davi e não soprou mais sobre Saul; de mais a mais, Jeová enviou a Saul um mau espírito, e Saul teve o cérebro perturbado.» (1 Samuel 16:11-14)
217. Davi, menino, coroado por Samuel. Os críticos fazem notar, como coisa espantosa, que Deus tenha falado a Samuel em casa do próprio pai de Davi, diante de toda a casa, sem que o autor sagrado diga explicitamente se houve ou não uma aparição. A opinião dos teólogos é que Jeová falava interiormente ao seu profeta; mas então como podiam os circunstantes adivinhar que ele tinha uma missão particular e divina? Todos os judeus, diz Voltaire, deviam saber que Saul reinava, visto que Samuel tinha derramado azeite sobre a sua cabeça. Ora, quando fez outro tanto a Davi, seu pai, sua mãe, seus irmãos e os circunstantes deviam perceber que ele instituía um rei novo, e que com isso expunha toda a família à vingança de Saul; há aí alguma dificuldade. Boulanger diz que nunca houve cena do teatro italiano (a Comédie-Italienne de Paris, teatro de farsas à maneira da commedia dell’arte) mais cômica que a de um sacerdote de aldeia que vem à casa de um camponês, com uma garrafa de azeite no bolso, ungir um rapazinho ruivo, e fazer assim uma revolução no Estado; esse crítico acrescenta que esse Estado e esse rapazinho ruivo não mereciam outro historiador. «Ora, os oficiais de Saul disseram-lhe: Vês que um mau sopro de Deus te perturba; se te apraz, os teus servos irão buscar um tocador de harpa, a fim de que, quando o mau sopro de Deus mais te perturbar, esse músico te alivie tocando a harpa com a sua mão. Saul disse, pois, aos seus servos: Ide buscar-me alguém que saiba harpejar bem. Mas um dos servos lhe disse: Há, em Belém, um dos filhos de um chamado Jessé, que eu vi e que toca harpa como verdadeiro artista; é um moço robusto, valente guerreiro, que se exprime com eloquência, e rapaz muito lindo; além disso, Deus é com ele. Então, Saul enviou mensageiros a Jessé para lhe dizer: Envia-me teu filho Davi, o que guarda as tuas ovelhas. Jessé tomou logo um jumento, que carregou de pão e de um barril de vinho, e um cabrito, e mandou Davi entregar esses presentes a Saul. E quando Davi [446] se apresentou, Saul sentiu por ele uma grande afeição e o nomeou seu escudeiro; e mandou dizer a Jessé: Peço-te que deixes Davi ao meu serviço; porque me agrada muito. Quando, pois, o mau sopro de Deus perturbava Saul, Davi tomava uma harpa e a tocava, e Saul ficava aliviado com isso, e o mau sopro cessava de soprar.» (v. 15-23)
218. Davi toca harpa para distrair Saul. Que mixórdia, esta história!... Davi, de quem o autor sagrado faz um simples pastor, é ao mesmo tempo um harpista de talento [447] dos mais distintos; se ao menos, ao levar as ovelhas a pastar, se tivesse contentado com tocar flauta! mas não, é a enorme e incômoda harpa que ele arrasta consigo através das áridas montanhas da Judeia. Depois, dão-nos Davi como bem jovem; como se pode então qualificar esse rapazinho de valente guerreiro?... Outra observação: o oficial de Saul, que está tão bem informado a respeito de Davi, ignora então que o adolescente foi ungido por Samuel e [448] que é, por conseguinte, um perigoso competidor?... E que ridículos são esses presentes de Jessé ao chefe do Estado! pão, um barril de vinho e um cabrito, eis o que se oferece a um soberano, para granjear as suas boas graças!... Que dizer, enfim, de Jeová, que passa o seu tempo pespegando ataques de nervos a Saul e curando-o deles momentaneamente com a música do seu rival? Tudo isso é de um grotesco insensato!... «Enquanto isso, os filisteus ajuntaram todos os seus exércitos para travar um grande combate contra Israel; estabeleceram o seu acampamento entre Socó e Azeca, na fronteira de Damim. Saul e os judeus ajuntaram-se também, e acamparam no vale do Carvalho (a leitura da Bíblia de Ostervald, que é também a da Almeida; as versões modernas dizem “vale dos terebintos” ou “vale de Elá”, do nome hebraico do terebinto). Os filisteus estavam sobre uma montanha e os israelitas estavam sobre outra montanha, defronte. E aconteceu que um bastardo (segundo o “vir spurius” da Vulgata, a Bíblia latina; o texto hebraico diz “campeão”, e a Almeida, “um homem guerreiro”) saiu do acampamento filisteu e veio apresentar-se entre os dois exércitos; chamava-se Golias; era de Gate, e tinha seis côvados e um palmo de altura (um pouco mais de quatro metros!); um capacete de bronze protegia a sua cabeça, e a sua couraça, feita de escamas, que ele tinha sobre o peito, pesava cinco mil siclos de bronze, só ela (sessenta quilogramas); tinha também botas de bronze, e um grande escudo de bronze cobria os seus ombros; a haste da sua lança era tão volumosa como o eixo de um tecelão; o ferro dessa lança pesava seiscentos siclos de ferro (dez quilogramas). Esse gigante vinha gritar diante das falanges de Israel: Escolhei, pois, alguém dentre vós para combater contra mim; se ele me matar, seremos vossos escravos; mas, se eu o matar, sereis vós os nossos escravos. E esse filisteu gabava-se assim cada dia de ter desonrado a Israel, e todos os judeus, tendo ouvido a voz desse gigante filisteu que os desafiava, estavam estupefatos e tremiam de medo.» (1 Samuel 17:1-11) Este gigante Golias, que tinha mais de quatro metros de altura, não deve parecer extraordinário, depois dos outros gigantes que vimos no Gênesis. É verdade que hoje já não vemos homens dessa estatura; tal é mesmo a constituição do corpo humano, que essa excessiva altura, desarranjando todas as proporções, tornaria esse gigante muito fraco, e incapaz de se manter de pé. — É preciso considerar Golias como um prodígio que Deus suscitava para manifestar a glória de Davi, diz ironicamente Voltaire. [449] «Ora, Davi era filho desse efrateu de Belém, de quem se falou, o qual se chamava Jessé e era muito velho, com oito filhos. Os três filhos mais velhos, Eliabe, Abinadabe e Samá, tinham tomado o seu lugar no exército de Saul para combater nessa guerra; mas Davi, que era o mais novo, ia e voltava de junto de Saul para levar a pastar as ovelhas de seu pai, em Belém.» (v. 12-15) — Bizarro, esse Davi, que o rei fez seu escudeiro, e que, em plena guerra, deixa de tempos em tempos o seu serviço para ir guardar rebanhos! — «E o gigante filisteu renovava de manhã e à tarde os seus desafios aos soldados judeus, e ficou ali de pé durante quarenta dias. Então, Jessé disse a Davi, seu filho: Olha, toma um litron (antiga medida francesa de secos, de cerca de quatro quintos de litro) de farinha de cevada e dez pães, e corre a teus irmãos no acampamento; leva também dez queijos ao capitão deles, visita teus irmãos, e vê um pouco como vão. Ora, Saul e as suas tropas estavam ainda no vale do Carvalho. Davi, pois, partiu um dia, de madrugada, depois de ter deixado as suas ovelhas à guarda de outro; foi-se todo carregado, como seu pai lhe tinha dito, e chegou até o lugar chamado Magala, aonde o exército se tinha adiantado para pedir a batalha, e que já gritava batalha; porque os israelitas e os filisteus estavam frente a frente. Pelo que Davi, tendo deixado com a bagagem tudo o que tinha trazido, correu ao lugar onde os israelitas e os seus inimigos estavam formados, uns defronte dos outros, em ordem de batalha, e o seu primeiro cuidado foi perguntar como iam os seus irmãos. Enquanto ele falava, eis que o bastardo Golias saiu das fileiras filisteias e veio recomeçar as suas bravatas; o que fez imediatamente voltar as costas a todos os judeus, que recuaram tremendo de medo.» (1 Samuel 17:16-24) «Então, um homem de Israel pôs-se a dizer: Vedes este filisteu que vem insultar toda a nossa nação? Se se achar alguém que o possa matar, o rei o enriquecerá de imensas riquezas, e lhe dará a sua filha, e a sua família será isenta de todo imposto em Israel. Por seu lado, Davi perguntava à sua volta, dirigindo-se a uns e a outros: Que se dará àquele que matar este grande velhaco incircunciso? O povo repetiu-lhe o que acaba de ser dito.» (v. 25-27) — Segundo este texto, Davi mal parece querer combater por amor à sua pátria, [450] mas muito mais pela esperança do ganho. — «Mas, quando Eliabe, seu irmão mais velho, soube das palavras que Davi dizia, exaltou-se muito contra ele: Por que vieste aqui? disse ele; não temos senão poucas ovelhas no campo, e tu as deixaste! Mas Davi respondeu: Que fiz eu de mal? Há motivo para se zangar? E, tendo-se afastado, foi ter com outros, fez-lhes a mesma pergunta e recebeu a mesma resposta.» (v. 28-30) «As palavras de Davi foram referidas ao rei, que o mandou chamar. [451] E Davi disse a Saul: Que ninguém tenha o coração perturbado por causa de Golias; porque irei eu, teu servo, e combaterei esse filisteu. Mas Saul falou-lhe assim: Não poderias lutar contra esse inimigo terrível, visto que não és senão um menino e que ele, pelo contrário, é um homem de guerra, desde a sua mocidade. Davi respondeu ao rei: Há algum tempo, enquanto eu apascentava as ovelhas de meu pai, sobrevieram um leão e um urso, e levaram uma ovelha do rebanho; mas eu [452] corri atrás deles, feri-os a golpes redobrados, e arranquei a ovelha das suas fauces; e, como eles se erguiam ambos contra mim, agarrei-os, com cada mão, um e outro pela queixada, e feri-os ainda mais forte, de sorte que os matei. Teu servo, pois, matou um leão e um urso; e este filisteu, cujo prepúcio não foi cortado, será tratado como esses animais, porque insultou o exército do Deus vivo. Disse mais Davi: Jeová, que me livrou da garra do leão e da pata do urso, me livrará da mão deste incircunciso. Então, Saul disse a Davi: Vai, e Jeová seja contigo!» (1 Samuel 17:31-37) Como se vê, o rei Saul tinha ficado pasmado, e, no lugar dele, qualquer um teria ficado assim por menos; com efeito, o relato do fedelho era pasmoso. Imaginai por um instante que sois espectadores desta aventura: o leão e o urso atirando-se ao mesmo tempo sobre uma mesma ovelha do rebanho do pai Jessé, quando lhes teria sido mais cômodo tomar cada um a sua; os dois animais ferozes afastando-se com a presa, que se aprontam para devorar, o leão segurando-a pela cabeça, e o urso pelos quartos traseiros; nisso, o pequeno pastor lançando-se em perseguição dos terríveis raptores, disputando-lhes a ovelha, batendo com o punho e com o pé, e agarrando-os pela queixada! Que quadro!... Achai, pois, semelhantes façanhas noutro lugar que não a Bíblia; eu vos desafio a isso. Ó Tartarin, eis o teu mestre: o jovem Davi! Pela história de Sansão, tínhamos sabido que o leão se achava na Palestina. Já era uma surpresa para o leitor. Mas, com Davi, encontramos juntos o leão e o urso!... Os naturalistas afirmam que onde vive o leão não há ursos, e reciprocamente. Bolas para os naturalistas! Eis a ciência deles apanhada em falta. Ó divino pombo, só te resta dar-nos a conhecer o urso do Equador e o leão do polo Norte! «Saul, então, fez armar Davi com as suas próprias armas; pôs-lhe o seu capacete de bronze na cabeça e vestiu-o da sua couraça. E Davi, tendo cingido a espada por cima da túnica, começou a experimentar se podia andar com armas; porque não estava acostumado a isso.» (1 Samuel 17:38-39) — Não acostumado ao manejo das armas?... Seja; mas então por que o versículo 18 do capítulo precedente representa Davi [453] como conhecido por um «valente guerreiro» há muito tempo? — «Davi disse, pois, a Saul: Não poderia andar com armas, não tendo o costume. E tirou-as. Depois, retomou o seu cajado de pastor, escolheu para si cinco pedras numa torrente vizinha, meteu-as no seu surrão, e, tendo a funda na mão, marchou contra o gigante filisteu. O filisteu, precedido do seu escudeiro, avançou também ao encontro de Davi.» (v. 39-41) O escudeiro de Golias?... Só se fala dele na Bíblia, texto in-extenso; esse escudeiro é suprimido pura e simplesmente nos manuais de história sagrada para uso dos fiéis, e ali Golias já não é mais que um simples soldado de infantaria. Por que, pois, os sacerdotes modernos operaram esse corte no texto sagrado? O escudeiro do gigante filisteu não merecia, no entanto, desaparecer assim, de maneira tão arbitrária. Com efeito, nos exércitos de outrora, o escudeiro era o soldado que acompanhava um oficial a cavalo e que cuidava da sua montaria; em nossos dias, ele seria chamado o ordenança de um oficial de cavalaria. Ora, se Golias tinha um escudeiro adido especialmente ao seu serviço, é porque era oficial no exército filisteu; a Bíblia diz, aliás, em vários lugares, que havia uma poderosa cavalaria entre os filisteus. E o inefável pigeon-canard, que nos assegurou há pouco que Golias tinha mais de quatro metros de altura, esqueceu-se de nos dar a conhecer as proporções gigantescas do seu cavalo! É evidente que o cavalo de Golias também devia ser gigante. E a Sagrada Escritura não nos indica a região que produzia garanhões tão fenomenais, cavalos com porte para carregar cavaleiros de seis côvados e um palmo de altura!... Deplorável lacuna!... Retomemos o relato bíblico: «Então, o gigante filisteu lançou um olhar sobre Davi, e, vendo que era um adolescente de cabelos ruivos e de rosto bonito, mostrou-lhe o seu desprezo. Sou eu um cão, disse-lhe ele, para que venhas contra mim com um cajado? E amaldiçoou Davi, jurando pelo nome dos seus deuses. Depois, disse-lhe ainda: Pois bem, vem, então, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas do campo. Davi respondeu a Golias: Tu marchas contra mim com a tua espada, a tua lança e o teu escudo; mas eu marcho [454] contra ti em nome de Sabaote, deus dos exércitos de Israel, deus dessas tropas formadas em batalha que insultaste; e, como o Senhor te entregará hoje nas minhas mãos, sou eu que te abaterei, sou eu que, depois de te ter cortado a cabeça, darei a tua carne às aves dos céus e aos animais da terra; e o mundo inteiro saberá que Israel tem um deus!...
219. Combate de Golias e de Davi. E Davi, tendo arremetido contra Golias, meteu a mão no seu surrão, tomou uma pedra, e lançou-a com a sua funda; [455] e essa pedra atingiu o gigante na testa, onde se cravou, de sorte que o filisteu caiu com o rosto contra o chão. Depois, Davi atirou-se sobre Golias, tomou a sua espada, tirou-a da bainha, matou-o e cortou-lhe a cabeça. E os filisteus, tendo visto que o seu gigante estava morto, fugiram.
220. Morte de Golias. Então, os soldados de Israel e de Judá, que tinham permanecido sentados, levantaram-se soltando gritos de alegria e puseram-se em perseguição dos filisteus, e estes, caindo feridos de morte sob os seus golpes, juncaram [456] o caminho de Saaraim até Gate e até Ecrom; após o que, os judeus saquearam o acampamento filisteu» (1 Samuel 17:42-53) «E Davi tomou as armas do gigante e pô-las na sua tenda; tomou também a cabeça de Golias e levou-a a Jerusalém.» (v. 54) — Olha! tinha então, de repente, uma tenda, o jovem Davi?... E a Jerusalém é que ele foi, como triunfador, levar a cabeça do gigante filisteu? Isto é mais estranho ainda, visto que Jerusalém não pertencia de modo algum, nessa época, aos judeus; veremos mais adiante como essa cidade só foi tomada mais tarde por Davi, depois da morte de Saul. Mas começamos a habituar-nos às contradições do Espírito Santo! «— Ora, quando Saul tinha visto Davi marchar contra Golias, disse a Abner, general do exército israelita: Quem é este adolescente? de que pai é filho? Abner respondeu-lhe: Tão certo como a tua alma é vivente, ó rei, não sei nada disso. O rei replicou: Informa-te já, para que eu saiba a que família pertence este adolescente. Logo que, pois, Davi voltou do combate, Abner conduziu a Saul o jovem, que tinha na mão a cabeça do gigante. E Saul lhe disse: De quem és filho? Davi respondeu: Meu pai se chama Jessé, teu servo, e habita em Belém.» (1 Samuel 17:55-58) Ora essa! que é toda essa lenga-lenga incoerente?... Onde tem a cabeça o divino inspirador da Bíblia?... No capítulo precedente, contaram-nos, com os mais minuciosos pormenores, que Saul, para acalmar os nervos, perguntou por um bom tocador de harpa; um dos seus oficiais arranjou-lhe um, que é Davi, e o rei foi informado sobre a sua família; melhor ainda, Saul enviou a Jessé um mensageiro para rogar ao bom velho que lhe deixasse o filho, porque lhe agradava muito; o pombo disse-nos ainda que Davi ia e vinha frequentemente de junto de Saul a Belém e que fazia assim de lançadeira entre a corte real e as ovelhas paternas. E eis que nem Saul, nem Abner, nem nenhum oficial do rei sabem quem é Davi, no momento da sua luta contra Golias! Eis o tocador de harpa do rei, o escudeiro de Saul, tornado de repente um desconhecido!... Que pensar desse galimatias?... Quando ditou a Samuel esse capítulo 17, o divino pombo não tinha absorvido, nesse dia, um pouco de semente de cânhamo a mais?... Seria de crer, por minha fé! [457] Resignemo-nos, e prossigamos a edificante leitura. Sem se importar minimamente com as suas contradições, o autor sagrado informa-nos (1 Samuel 18:2) que, desta vez, Saul já não quis permitir a Davi voltar para a casa de seu pai. Além disso, Jônatas foi tomado de repente de uma viva amizade pelo jovem tocador de harpa, cuja presença na corte ele também tinha ignorado nos tempos anteriores: «Logo que Davi acabou de falar a Saul, a alma de Jônatas ficou tão ligada à sua alma, que Jônatas o amou como à sua alma; e Jônatas fez aliança com Davi, porque o amava como à sua alma; e Jônatas despojou-se do manto que trazia, e deu-o de presente a Davi, e deu-lhe ainda todas as suas vestes, até mesmo a sua espada, o seu arco e o seu boldrié.» (1 Samuel 18:3-4). — Isto é que é amizade! Que devem ter pensado o general Abner, os capitães, os cortesãos, ao ver o filho do rei despir-se, ficar só de camisa (pelo menos, é decente supô-lo) e oferecer as suas armas e todas as suas vestes ao feliz vencedor de Golias?... Infelizmente, a Bíblia esquece-se de nos participar as reflexões dos altos personagens que assistiram a essa cena impagável. Uma nova existência começava, pois, para o fedelho, que Samuel tinha sagrado rei, e que, pouco inclinado pelo quarto de hora a entrar em concorrência com Saul, se limitava a servir-lhe de escudeiro e de músico; mas, apesar desse apagamento, Davi não ia tardar a fazer sombra a Sua Majestade. «E, quando voltavam, algum tempo depois da derrota do gigante filisteu, saíram, de todas as cidades de Israel, mulheres em grande número, que foram ao seu encontro aclamando Davi; e eis que essas mulheres se puseram a cantar e a dançar alegremente, com tambores e címbalos; e, enquanto tocavam os seus instrumentos, gritavam umas às outras: Saul matou mil, mas Davi matou dez mil!» (v. 6-7)
221. O triunfo de Davi. Era difícil admitir que o finado Golias, por mais gigante que fosse, representasse dez mil homens, ele sozinho. Por isso, Saul, que se tinha distinguido na guerra por numerosas façanhas, achou que a ovação feita ao seu escudeiro harpista saía dos limites razoáveis e tomava um caráter ofensivo para ele. «Essas palavras das mulheres de Israel [458] desagradaram ao rei, e ele ficou muito irado com elas.» (v. 8) — «Desde aquele dia, Saul passou a ver Davi com maus olhos.» (v. 9). «E aconteceu, já no dia seguinte, que o mau sopro de Deus soprou sobre Saul; então, Davi tocou harpa, como nos outros dias. Mas Saul tinha a sua lança na mão, e lançou-a de repente contra a parede, dizendo consigo mesmo: Ao atingir esta parede, a minha arma traspassará Davi. E este, que era lesto, evitou duas vezes o golpe, [459] desviando-se.» (1 Samuel 18:10-11)
222. O ciúme de Saul. Pouco depois, o rei, para afastar de si o jovem, nomeou-o capitão e pô-lo à frente de mil homens (v. 13), e Davi, «a quem tudo saía bem», tornou-se cada vez mais popular entre os filhos de Israel, e o seu nome começou a ser conhecido fora da nação. Vamos ver em breve que o senhor Jeová multiplicou as provas da sua proteção para com Davi. Um dia, depois de mandar chamá-lo, Saul disse-lhe: «Escuta, eu [460] te darei por mulher a minha filha mais velha Merabe, e assim, tu que és valente, serás para mim um outro filho, e dirigirás as batalhas de Israel» (v. 17); no fundo, Saul dizia consigo que os filisteus acabariam por livrá-lo de Davi. «Sou tão pouca coisa para vir a ser genro do rei!» respondeu Davi (v. 18). Guardava-se bem de revelar que Samuel o tinha ungido. «E, quando chegou a época em que Saul devia dar sua filha Merabe a Davi, casou-a com Adriel, o meolatita» (v. 19); o autor sagrado não diz por quê. «Mas Mical, segunda filha de Saul, enamorou-se de Davi, e o fez saber a seu pai; então Saul ficou muito contente, e disse a Davi: Serás meu genro hoje mesmo.» (v. 20-21). É provável, pelo que segue, que o vencedor de Golias não pedisse coisa melhor do que casar-se imediatamente com Mical; mas Saul tinha falado à toa, ao que parece, ou então arrependeu-se de se ter mostrado tão apressado. Com efeito, logo que obteve o consentimento do jovem, pôs-se a exigir dele coisas extraordinárias. Nunca se adivinharia que condição Saul mandou pôr a Davi para aceitá-lo definitivamente! «Saul disse àqueles dos seus servos que enviou a Davi: Dir-lhe-eis que o rei pede por arras cem prepúcios de filisteus.» (v. 25) Em outros termos, o rei não queria dotar Mical; na sua opinião, era Davi quem devia constituir um dote à sua mulher; e que dote!... Cem prepúcios!... Mal se vê para que teriam podido servir tantos prepúcios no novo lar... «Então, antes que se cumprissem os dias fixados, Davi foi-se à terra dos filisteus, acompanhado da sua tropa; ali, matou duzentos homens. Depois, cortou-lhes os prepúcios, trouxe-os e entregou-os bem contados (sic) ao rei, a fim de ser seu genro. E Saul deu-lhe por mulher sua filha Mical.» (1 Samuel 18:26-27) — Imagine-se a sessão de assinatura do contrato, o notário régio contando gravemente os duzentos prepúcios, e a enamorada Mical arrulhando para Davi e toda feliz por ter tão belo presente de núpcias!
224. Davi e Mical. Quanto aos filisteus, acharam de muito mau gosto que viessem abastecer-se de prepúcios em casa deles, e a guerra recomeçou. «Os capitães filisteus puseram-se em campanha; e, logo que saíram, Davi teve mais [461] vitórias que todos os oficiais de Saul; e o seu nome foi tido em muito grande estima.» (1 Samuel 18:30) Nesse tempo, o rei tinha frequentes períodos de doidice; mas pergunta-se por que o escritor bíblico se empenha em pintar o infortunado monarca com as mais feias cores. Segundo o próprio texto, era Jeová quem, por momentos, soprava com um mau sopro sobre Saul; era, pois, Deus em pessoa quem o tornava maluco. Um louco não é responsável pelas suas loucuras, e Saul menos que qualquer outro, por conseguinte. «Então Saul falou a Jônatas, seu filho, e a todos os seus oficiais, de fazer morrer Davi; mas Jônatas amava muito a Davi; pelo que lhe fez saber o perigo de morte que corria, por causa da inimizade de seu pai.» (1 Samuel 19:1-2). Além disso, o bom Jônatas tentou uma reconciliação. «Falou, pois, favoravelmente de Davi a Saul, seu pai, e disse-lhe: Não peque o rei contra Davi, seu servo; porque ele não pecou contra ti, e até o que fez te é muito vantajoso, visto que expôs a sua vida e matou o gigante filisteu; tu o viste e te alegraste com isso; por que, pois, pecarias contra o sangue inocente, fazendo morrer Davi sem causa? Saul prestou ouvido à voz de seu filho, e jurou, dizendo: Pelo Deus vivo, Davi não morrerá! Então, Jônatas chamou Davi e fez-lhe o relato das novas disposições do rei. Levou em seguida Davi a Saul, e Davi retomou como antes o seu serviço junto do rei.» (1 Samuel 19:4-7)
223. Jônatas tenta reconciliar Saul com Davi. Como se vê, o ódio abandonava o monarca logo que ele estava no seu estado natural; é somente no decurso dos seus acessos, «quando Jeová soprava sobre ele com um sopro mau», é só então que Saul formava projetos homicidas contra o seu genro. Enquanto isso, a guerra com os filisteus estava no auge, e o harpista achava às vezes tempo para infligir uma derrota ao inimigo, entre duas serenatas. «Mas eis que o mau sopro de Deus soprou de novo sobre Saul, um dia em que estava assentado no seu palácio, tendo a sua lança na mão, escutando a música de Davi.» (v. 9) O leitor bem imagina o que vai acontecer! «Então, enquanto Davi dedilhava a harpa, Saul tentou de novo pregá-lo contra a parede com a sua lança; mas Davi [462] se desviou agilmente, e Saul, sem atingir o seu genro, cravou a sua arma na parede; após o que, tendo assim escapado à morte, Davi pôs-se em fuga.» (v. 10) Em casa da sua terna esposa se refugiou o jovem capitão harpista; a amável Mical consolou-o o melhor que pôde. «Mas, naquela noite, Saul enviou gente à casa de Davi, com ordem de ficar de vigia, para que pudesse fazê-lo perecer pela manhã. E Mical, tendo avistado os homens de guarda, [463] disse a Davi: Se não te salvares esta noite, amanhã vão matar-te. Então, Mical fez descer Davi por uma janela, e ele fugiu de novo.
225. Davi foge da casa de Mical. Depois, Mical tomou um boneco (fr. “marmouset”: figurinha grotesca; a palavra da Bíblia de Ostervald, onde a Almeida diz “uma estátua”), deitou-o na sua cama no lugar de Davi e pôs-lhe sobre a cabeça uma pele de cabra. E, quando Saul enviou a sua gente para se apoderar de Davi, ela lhes disse: Está doente.
226. Mical põe um boneco na cama do seu esposo. Então Saul exclamou: Que mo tragam na sua cama, para que eu o faça morrer! E Saul e a sua gente não acharam senão um boneco, [464] toucado de pele de cabra.
227. Terrível vingança de Saul. E Saul disse a Mical: Por que me enganaste assim? por que fizeste escapar o meu inimigo? Mical respondeu: Ele me disse: Deixa-me ir. Por que, pois, me teria eu prestado a que ele fosse morto?» (1 Samuel 19:11-17) Não se deve perder de vista que reproduzimos um livro sacrossanto, uma obra divina, base fundamental de uma religião que tem a pretensão de curvar o mundo inteiro sob a sua lei. Pode-se, no entanto, encontrar uma aventura mais tolinha do que esta? Esta história de boneco nem sequer é vaudeville cômico; está abaixo do nível das mais bobas jocrissadas (fr. “jocrisseries”: bobagens dignas de Jocrisse, o bobo crédulo da antiga farsa francesa) de feira. E isso é dogma!... Sob pena de assar eternamente no inferno, é necessário crer que Mical fez escapulir o seu marido, o ungido Davi, pela janela, e que o substituiu na sua cama por um manequim toucado de uma pele de cabra! Seria essa pele de cabra o barrete de dormir habitual de Davi?... No texto hebraico, há terafim, que as versões modernas traduzem por «boneco», manequim. Mas terafim significa literalmente um ídolo. Fazia então Mical deitar ídolos consigo? queria ela que os esbirros enviados por Saul tomassem esse ídolo pelo seu marido? e, visto que Davi tinha, segundo nos disseram, os cabelos ruivos, esperava Mical que a pele de cabra com que toucava o terafim desse a impressão da grenha do querido homem? Belo assunto de grave exame para os reverendos teólogos! A asneira bíblica vai, agora, tornar-se delirante. «Assim Davi fugiu, escapando à morte. Veio ter com Samuel, a Ramá, e informou-o de tudo o que Saul lhe fizera.
228. Samuel acolhe Davi. Depois, foi-se com Samuel, e habitaram juntos em Naiote. Isto foi relatado a Saul, que enviou arqueiros para se apoderarem de Davi. Mas, quando os arqueiros chegaram a Naiote em Ramá, acharam Davi no meio de uma assembleia de profetas que profetizavam, e acima de todos eles estava Samuel, presidindo-os e profetizando; e eis que os arqueiros de Saul foram tomados do espírito de Deus, e puseram-se também a profetizar.
229. Davi no meio dos profetas. Saul, tendo sido avisado disso, enviou outros arqueiros, e estes profetizaram do mesmo modo, em vez de prender Davi. O rei enviou ainda outros, pela terceira vez, e profetizaram do mesmo modo.
230. Os arqueiros de Saul tornam-se profetas. Então, [465] Saul foi ele próprio a Ramá; chegou até a grande cova que está em Seco, e perguntava a todos: Onde estão Samuel e Davi? Responderam-lhe: Estão em Naiote, em Ramá. Foi, pois, a Naiote. E, no caminho, o espírito de Deus tomou-o a ele também, de sorte que durante todo o seu caminho profetizou. E, quando chegou a Naiote, em Ramá, começou por despojar-se das suas vestes de cima, e, em presença de Samuel, profetizou; depois, estendeu-se por terra e ficou assim deitado sem roupa sobre o chão, todo aquele dia e toda a noite. Pelo que os israelitas disseram por toda parte: Saul está agora no número dos profetas.» (1 Samuel 19:18-24)
231. Saul põe-se ele próprio a profetizar. Fiz questão de dar a tradução literal deste texto extravagante. Um profeta é um homem que prediz o futuro; é preciso, pois, ser inspirado por Deus para poder dizer que acontecimentos se passarão em tempos futuros; eis o que é admitido entre os crentes. Mas, em geral, um profeta só profetiza para anunciar tal fato: consulta-se um oráculo, o oráculo responde; ou então um homem de Deus vai a uma cidade, ou à corte de um monarca, e prediz tal catástrofe ou tal feliz acontecimento; é assim que operam os profetas, isto é, os que se dizem inspirados e que fazem profissão de possuir a ciência das coisas mais ocultas. Contudo, não ocorreria a ninguém a ideia de imaginar uma assembleia de profetas despejando profecias em jorro contínuo, a não ser em Charenton. Esses homens de polícia que de repente se tornam profetas, que se misturam com Samuel, com Davi e com os outros profetas, e que rivalizam em profecias com eles; esse Saul, que vai à procura do seu genro para matá-lo, que, sem ser solicitado por ninguém, lê a sorte pelo caminho, que se põe nu ou quase na reunião santa em que profetas de ofício e profetas de ocasião bramam em coro, tudo isso não é alta loucura? Boulanger, o enciclopedista, o sábio geólogo do século XVIII, diz que este conto estúpido se parece com a história de um juiz de aldeia da Baixa Bretanha, chamado Kerlotin: esse juiz, no decurso de uma audiência, mandou buscar uma testemunha por um meirinho; a testemunha bebia na taberna, e o meirinho ficou bebendo com ela; Kerlotin despacha então um segundo [466] meirinho, que fica bebendo com eles; por fim o juiz vai lá ele mesmo, mas bebe como os outros e se embriaga, e o processo não foi julgado. O capítulo 20 do 1º livro de Samuel é totalmente desprovido de interesse. Davi foge de Naiote e refugia-se junto de Jônatas, que tenta de novo advogar a causa do seu cunhado perante Saul, quando este terminou de profetizar. Esse arrazoado é empreendido por ocasião de um jantar dado [467] pelo rei em honra da... lua nova; Saul nota que o lugar de Davi à sua mesa está vazio, e então Jônatas sai-se com o seu pequeno discurso; mas o rei não quer ouvir nada e zanga-se até ficar todo vermelho. «Jônatas disse ainda a Saul: Por que fariam morrer Davi? que fez ele? E Saul arremessou contra ele uma alabarda para o ferir. Então, Jônatas compreendeu que seu pai tinha deveras resolvido fazer morrer Davi; levantou-se da mesa muito aflito, e não tomou refeição alguma, no segundo dia [468] da lua nova.» (1 Samuel 20:32-34) Jônatas foi, pois, avisar o seu cunhado, que se mantinha num esconderijo, de que já não esperava abrandar o rei a respeito dele. «Davi o escutara, assentado; levantou-se do lado do sul, e lançou-se com o rosto em terra, e prostrou-se por três vezes; e choraram ambos juntos, e Davi chorou extraordinariamente.» (v. 41) Davi, depois desta lamentação, foi pedir asilo ao sumo sacerdote Aimeleque, que habitava em Nobe; este o recebeu, brindou-o com pão sagrado, mas deu-lhe a entender que ali não estava muito em segurança. E como o jovem harpista, antes de tomar de novo o pó de escapada, pedia a Aimeleque que lhe desse alguma arma, para se defender se fosse o caso, o sumo sacerdote lhe disse: «Toma, eis a espada de Golias, que tu mataste no vale do Carvalho; está envolta num pano, detrás do éfode; se a queres para ti, toma-a; porque não há aqui outra senão essa.» (1 Samuel 21:9) Davi partiu, com a espada de Golias, e dirigiu-se a Gate, cidade filisteia, onde reinava o rei Aquis; esperava que esse inimigo de Israel lhe concedesse a sua proteção. Enquanto se aproximava de Gate, foi reconhecido por alguns servidores de Aquis; não foi preciso mais para que tivesse um sobressalto (fr. “avoir la venette”: “venette” é palavra de gíria para o medo) maior do que nunca; o rei filisteu se dignaria compadecer-se do seu infortúnio? Nada estava menos provado, pareceu-lhe. «Então Davi teve um medo muito grande, por causa de Aquis, rei de Gate. Mudou o seu semblante e contrafez o louco diante dos filisteus; urinava contra as portas das casas (fr. “il urinait contre les portes des maisons”: a Bíblia de Ostervald traz “il marquait les portes”, fazia marcas nas portas, e a Bíblia católica de Sacy, segundo a Vulgata, “il se heurtait contre les poteaux de la porte”, batia-se contra os postes da porta: a urina é de Taxil), e fazia correr a sua saliva sobre a barba. E Aquis disse aos seus servos: Não vedes que é um louco? Por que mo trouxestes?» (1 Samuel 21:12-14) «Davi partiu dali e escapou para a caverna de Adulão; o que tendo sabido os seus irmãos e toda a casa de seu pai, desceram ali a ter com ele. Também todos os que andavam mal nos seus negócios, carregados de dívidas, e que tinham um natural amargo, se ajuntaram a ele e o nomearam seu chefe; achou-se assim à frente de quatrocentos homens resolutos.» (1 Samuel 22:1-2) Depois disso, confiou o seu velho pai Jessé e a sua mãe ao rei de Moabe e pôs-se em campanha; a guerra estava definitivamente declarada entre Saul e o seu genro. Nesse ínterim, Saul soube do acolhimento que [469] o sumo sacerdote Aimeleque fizera a Davi. Um idumeu, chamado Doegue, que desempenhava as funções de primeiro criado do rei, testemunhou nestes termos: «Vi o filho de Jessé vir a Nobe, a Aimeleque, filho de Aitube; e Aimeleque consultou o Eterno a respeito de Davi, deu-lhe mantimentos e a espada de Golias.» (v. 9-10) Saul mandou então o sumo sacerdote e todos os sacrificadores, membros da sua família, comparecer perante o seu leito de justiça (fr. “lit de justice”: o assento sob dossel de onde o rei da França presidia o seu Parlamento e lhe fazia registrar a sua vontade; o tribunal tinha de obedecer). «Por que conspirastes contra mim, tu e o filho de Jessé, disse ele a Aimeleque, visto que lhe deste pão e uma espada, e consultaste a Deus por ele? — Aimeleque respondeu ao rei: Há alguém, entre todos os teus súditos, que te seja tão fiel como Davi, teu genro, que combateu por tua ordem e que tanto honra a tua casa? Foi hoje que comecei a consultar Jeová por ele? Quanto a conspirar contra o meu rei, Deus me guarde disso! Ó rei, não acuses, pois, de nada o teu servo, nem ninguém da sua família; porque nenhum delito foi cometido. — Pois bem, tornou o rei, morrerás hoje mesmo, Aimeleque, e toda a tua família contigo.» (v. 13-16) A sentença de morte estava pronunciada; mas os arqueiros que ali estavam recusaram-se a executá-la, não ousando pôr as mãos sobre sacerdotes. «Então, o rei disse a Doegue: Vira-te e lança-te sobre os sacrificadores. E Doegue, o idumeu, virou-se e lançou-se sobre Aimeleque e os sacrificadores, e degolou naquele dia oitenta e cinco homens que traziam o éfode de linho. Além disso, fez passar a fio de espada todos os habitantes de Nobe (o texto de 1904 traz “Nod”), cidade dos sacrificadores; homens e mulheres, grandes e pequenos, bois, jumentos e gado miúdo, tudo foi massacrado.» (v. 18-19) Todavia, um dos filhos de Aimeleque, chamado Abiatar, conseguiu escapar a essa hecatombe, e foi juntar-se a Davi, que lhe disse: «Fica comigo, não temas nada, porque quem procura a minha vida procura também a tua; assim estás sob a minha salvaguarda.» (v. 23)
232. Triste fim do sumo sacerdote Aimeleque. Abrevio tanto quanto possível; mas os manuais de história sagrada para uso dos fiéis são tão incompletos, que é necessário restabelecer, por meio de citações textuais da Bíblia, grande número de episódios que os tonsurados passam em silêncio, mas cujos bizarros pormenores oferecem às vezes um picante interesse. Eu [470] resumiria mais, se se tratasse de outro livro; ora, isto é a Escritura do próprio Deus, afirmam os sacerdotes; não negligenciemos, pois, as pérolas divinas que se encontram tão numerosas nesse prodigioso escrínio que é o Antigo Testamento. No capítulo 23, vemos Davi, à frente dos seus quatrocentos flibusteiros, livrar a cidade judia de Queila, que os filisteus sitiavam; depois, Saul bloqueia Queila, ocupada pelo seu genro. Nisso, Davi, que pouco contava com [471] a gratidão das pessoas, solicitou de Jeová alguns instantes de entrevista; papai Bom Deus não se fez rogado (fr. “ne se fit pas prier”, locução: consentiu logo; “prier” é ao mesmo tempo suplicar e rezar, como o português “rogar”, daí o jogo de Taxil). «Descerá Saul até aqui? perguntou Davi. E o Eterno lhe respondeu: Descerá. Davi disse ainda: Entregar-me-ão os chefes de Queila, a mim e à minha gente, nas mãos de Saul? E o Eterno lhe respondeu: Entregar-te-ão.» (v. 11-12) Julgando-se seguramente informado, Davi decampou com rapidez; não foi, pois, entregue a Saul. Em seguida, o autor sagrado [472] nos mostra o filho de Jessé errante no deserto de Zife; desta vez, a sua tropa de vadios, perdidos de dívidas, aumentou em duzentos homens, e Saul lhe dá caça, sem conseguir alcançá-lo. Davi tem, não obstante, uma conferência com Jônatas numa floresta; os dois cunhados juram-se um amor eterno. Do deserto de Zife, Davi passa ao deserto de Maom, com o seu inseparável bando. Por fim, Saul, sabendo que os filisteus se põem de novo em campanha, renuncia a perseguir o seu genro, a fim de combater o inimigo nacional. Repelidos os filisteus, o rei volta a Davi, que estabeleceu então em En-Gedi o centro das suas frutuosas operações. Sim, frutuosas, visto que o filho de Jessé, segundo a própria Bíblia, é um verdadeiro capitão de bandidos: reuniu seiscentos corta-jarretes (fr. “coupe-jarrets”: assassinos; o nome vem de cortar o jarrete a um homem para derrubá-lo), e corre por montes e vales com essa súcia de velhacos, não distinguindo nem amigos nem inimigos, cobrando resgates, pilhando tudo o que encontra. Por duas vezes (1 Samuel 24, 26), Saul, que tomou consigo três mil soldados de escol, consegue acossar Davi muito de perto; nessas ocasiões, o genro portou-se com uma magnanimidade tocante. Os dois episódios são divertidos demais para não serem citados. O divino pombo, que ditou o relato deles, estava verdadeiramente de alegre humor; porque, já que era Deus quem dirigia tudo, teria sido fácil para ele fazer Davi exercer a sua grandeza de alma em ocasiões menos triviais do que as que suscitou. Por conseguinte, se essas aventuras são grotescas, é porque a santa Trindade estava rindo à camponesa (fr. “rire à la paysanne”, locução: rir grosseiramente), é porque Jeová e os seus co-deuses se divertiam como palhaços de feira; mas essas aventuras nem por isso são menos divinas. Vamos, pois, à citação textual!... «Saul, procurando Davi até o meio dos rochedos onde se retiram as camurças, meteu-se por uma vereda onde havia uma caverna, e entrou nessa caverna para fazer as suas necessidades; e havia no fundo Davi e alguns dos seus companheiros, e o rei não os viu. Então, os companheiros de Davi disseram-lhe baixinho: Certamente, hoje é o dia em que o Eterno te entrega o teu inimigo. E Davi aproximou-se sem ruído; mas contentou-se em cortar muito de mansinho a orla da veste de Saul, do manto que Saul tinha arregaçado. Depois, voltando [473] ainda sem ruído ao fundo da caverna, tinha o coração comovido, e disse em voz baixa aos seus companheiros: Deus me guarde de pôr uma mão homicida sobre o rei! porque ele é o ungido do Senhor. Assim, Davi não lhes permitiu arrojar-se contra Saul, e conteve-os com estas palavras. Em seguida, Saul, tendo acabado de evacuar (fr. “ayant fini d’évacuer”: a Bíblia de Ostervald traz apenas “Puis Saül se leva de la caverne”, depois Saul se levantou da caverna, e nenhum manto arregaçado: ambas as coisas são de Taxil; já “para fazer as suas necessidades” é de Ostervald), saiu da caverna e seguiu o seu caminho.
233. Saul adormecido é surpreendido por Davi. Mas então Davi saiu também, correu atrás dele, e lhe gritou: Meu senhor e meu rei! Saul voltou-se; Davi prostrou-se, com o rosto em terra; depois, disse a Saul: Por que escutas os que te dizem que procuro fazer-te mal? Os teus olhos veem hoje que o Eterno te entregara à minha mercê, quando te detiveste alguns instantes nesta caverna, eu lá estava, e aconselharam-me a matar-te; mas eu te poupei, porque és o ungido do Senhor. Olha, meu pai, olha a orla do teu manto, que tenho aqui na minha mão. Cortei-a sem que tu desses por isso; eu poderia ter-te matado e não te matei. Sabe, pois, e reconhece que não penso de modo algum em fazer-te mal; e contudo tu espreitas a minha vida para ma tirar! O Eterno será juiz entre nós dois; mas eu não porei a minha mão sobre ti.
234. Saul verifica que Davi o poupou. Quê! tu que és rei de Israel, atrás de que homem te puseste em campanha? a quem persegues? um cão morto e uma pulga? O Eterno julgará, pois, entre mim e ti; e, quando Deus julga, ele olha; eis por que será o meu defensor e me preservará da tua mão. E, logo que Davi acabou estas palavras, Saul disse: Não é esta a tua voz, meu filho Davi? E Saul, vertendo uma torrente de lágrimas, disse a Davi, falando muito alto: Tu és melhor do que eu, visto que me pagaste o bem pelo mal que te fiz; porque quem é que, tendo tido o seu inimigo à sua mercê, o deixaria ir sem lhe fazer mal? Por este sinal reconheço que certamente reinarás e que o reino de Israel será poderoso sob o teu cetro. Pelo que, agora, jura-me pelo Eterno que não destruirás a minha raça depois de mim. E Davi o jurou a Saul. Então, o rei voltou para sua casa, enquanto Davi e os seus companheiros subiram a um lugar elevado e bem fortificado.» (1 Samuel 24:3-23)
235. Reconciliação de Saul e de Davi. A cena é comovente, embora mal se compreenda por que Davi, na sua humildade, se compara a um cão [474] morto e a uma pulga; e este episódio teria sido muito belo, se tivesse sido inteiramente diferente, no que respeita às circunstâncias do encontro. Saul poupado por Davi, quando veio fazer caca numa gruta! O leitor confessará que o Espírito Santo poderia ter encontrado coisa melhor; e, visto que Deus fez questão de que os fatos se produzissem assim, é incontestável que há da sua parte, se não mistificação, pelo menos gracejo de gosto duvidoso. Os clericais uivam contra certos livros [475] de Émile Zola, em que esse romancista naturalista pôs em cena o traseiro da Mouquette (personagem de “Germinal”, de Zola, 1885, famosa por mostrar o traseiro aos burgueses; o camponês dos peidos é Hyacinthe Fouan, dito Jesus Cristo, em “La Terre”, 1887) e os peidos de um camponês; mas os romances de Zola não têm a pretensão de ser livros sagrados, e nunca ocorrerá a ninguém o pensamento de fundar uma religião baseando-se em Germinal ou em A Terra. Enquanto estava em verve (fr. “en verve”, locução: em plena inspiração espirituosa), o pigeon-canard poderia ter acrescentado que, na sua precipitação ao sair da caverna para correr atrás do sogro, Davi pôs o pé [476] no cagalhão de Saul e que isso lhe trouxe sorte (superstição francesa: pisar num excremento com o pé esquerdo traz sorte). Mas deslizemos (fr. “glissons”: passemos por cima do assunto; Taxil brinca com o escorregão no excremento), ou, para melhor dizer, não insistamos. Da segunda vez que o filho de Jessé mostrou a sua grandeza de alma, as circunstâncias foram menos odoríferas, ou quase. Enquanto Saul e o seu exército estavam acampados em Haquila, Davi, acompanhado de um certo Abisai, penetrou de noite até a tenda do rei; desta vez, Jeová era francamente cúmplice do seu ungido querido, como se vai ver. «Saul dormia, e a sua alabarda estava cravada na terra à sua cabeceira, e Abner e o povo estavam deitados nas outras tendas, ao redor. Então, Abisai disse a Davi: Hoje Deus te entregou o teu inimigo; agora, pois, peço-te, permite que eu o fira com a sua própria alabarda e que o encrave na terra de um só golpe; sinto-me com forças para não ter de ferir duas vezes. Davi respondeu a Abisai: Não, não o mates; porque quem é aquele que poderia pôr uma mão homicida sobre um ungido do Senhor e ficar inocente? Mas eis o que vamos fazer: tomemos, eu, a sua alabarda, e tu, o vaso que está junto ao seu leito (fr. “le vase qui est auprès de son lit”: a Bíblia de Ostervald traz aqui, e nos outros dois versículos, “le pot à eau qui est à son chevet”, o jarro de água que está à sua cabeceira; o “vase” de Taxil, junto ao leito, é um “vase de nuit”, um penico, daí o do fim), e vamo-nos. Tomaram, pois, junto ao leito, a alabarda e o vaso de Saul, e partiram do acampamento, sem serem vistos de ninguém; porque todos dormiam, porquanto o Eterno tinha feito cair sobre eles um sono dos mais profundos. E, quando Davi se achou sobre uma altura, que ficava bastante longe dali, gritou com todas as suas forças, pela manhã: Abner, Abner, não responderás? E Abner respondeu: Quem és tu, tu que gritas tão forte lá longe? Então, Davi gritou estas palavras: Tu és um homem valente, Abner, e quem é semelhante a ti em Israel? Ninguém te iguala, e no entanto não soubeste guardar o rei, teu senhor; porque alguém veio para matar Saul. Não fazes bem o teu serviço; pelo Deus vivo, tu e os teus soldados, mereceis a morte por terdes guardado tão mal o rei, que é o ungido do Eterno. E agora, olha onde está a alabarda do rei, e o vaso que estava junto ao seu leito. Ao ouvir esses gritos, Saul despertou e reconheceu a voz de Davi.» (1 Samuel 26:7-17) — O episódio termina como o precedente, com a simples diferença de que o filho de Jessé já não se compara a um cão morto, mas somente a uma pulga; além disso, devolve a alabarda, mas não o penico. [477] Pergunta-se por que Saul está no número dos malditos da Bíblia. Se nos ativermos a um raciocínio puramente humano, esse rei dá bastante bem a impressão de um bom homem; os seus acessos de furor contra Davi são o resultado do mau sopro, e, aliás, o filho de Jessé é um triste sujeito. Quando Saul não está sob a influência do mau sopro, quando está no seu natural, a crueldade lhe repugna; de mais a mais, é patriota, ao passo que veremos mais adiante Davi alistar-se, com os seus flibusteiros, no exército dos filisteus. Ora, os sacerdotes nos dizem que não se devem encarar as coisas com os olhos da razão; é preciso aceitar o que é artigo de fé, e, quando alguém se submete assim, compreende logo que tudo se encadeia com ordem no plano de Deus; o que parecia inexplicável torna-se de uma lucidez espantosa. Fechemos, pois, por alguns instantes, os nossos olhos de raciocinadores; teremos logo uma revelação dos justos motivos da maldição que pesou tão gravemente sobre Saul. Onde está essa revelação? No penico que Davi levou. Não creiais que eu graceje. Sabemos que Jeová é muito guloso de massacres; ora, Saul estreou-se com uma vitória sobre os amonitas que sitiavam Jabes; mas, todo entregue à alegria de ter livrado essa cidade, opôs-se à degola dos inimigos prisioneiros; Saul não observava, pois, a lei divina. O penico do acampamento de Haquila é uma prova decisiva da rebelião permanente desse rei contra Deus. Não podeis ter esquecido, não é verdade? as prescrições expressas de Sabaote sobre a maneira de fazer caca em tempo de guerra: deve-se ir para fora do acampamento, cavar um buraquinho redondo, etc. (Deuteronômio 23:12-14) Ora, esse Saul ousava dar-se ao luxo de um penico! Se isto não é impiedade sem vergonha, que é que o será?... Depois disso, não é de espantar que Deus tenha lamentado ter feito ungir Saul e que tenha transferido toda a sua afeição para Davi, o qual, sem dúvida alguma, devia arriar as calças (fr. “poser culotte”, locução chula, literalmente “pousar calção”: defecar) com uma irrepreensível ortodoxia. Por isso, Jeová nunca deixou escapar uma ocasião de mostrar que protegia Davi, porque este era bem o homem segundo o seu coração. Saboreai a história de Nabal e de Abigail. Resumamos, seguindo à letra o relato bíblico; [478] isto é, traduzamos palavra por palavra, mas suprimamos as repetições e as prolixidades. «Havia no deserto de Maom um homem muito rico que possuía no Carmelo três mil ovelhas e mil cabras; e fez tosquiar as suas ovelhas no monte Carmelo. A sua mulher, Abigail, era prudente e mui formosa à vista. Davi enviou dez dos seus companheiros a Nabal para lhe dizer: Viemos em bom dia; dá-nos a nós e dá a Davi tudo o que puderes.
236. Nabal recusa deixar-se requisitar por Davi. Nabal respondeu: Quem é [479] esse Davi? já não se veem senão maus servos que fugiram ao seu amo; deveras, sim! iria eu dar o meu pão, a minha água e os meus carneiros a gente que não conheço! Então, Davi disse aos seus companheiros: Cada um tome a sua espada! E Davi tomou também a sua espada, e marchou para Nabal com quatrocentos homens, e deixou duzentos para velar pela bagagem. Mas a formosa Abigail tomou duzentos pães, dois barris de vinho, cinco carneiros já preparados, cinco medidas de [480] grão tostado, cem pacotes de passas, e duzentos cestos de figos secos, e os pôs sobre jumentos; depois, tendo montado num jumento, foi ao encontro de Davi. E, quando Abigail o avistou, apressou-se a descer do seu jumento, caiu sobre a sua face diante de Davi e o adorou; e lhe disse: Meu senhor, suplico-te que desprezes esse homem de nada que é Nabal, meu marido; porque há loucura nele; mas eis aqui presentes que a tua serva oferece a meu senhor, para ele e os seus companheiros; praza-te, meu senhor, recebê-los com bondade. Então, Davi disse a Abigail: Bendito seja o Eterno, que te enviou ao meu encontro! e bendita sejas tu mesma, tu que me impediste hoje de chegar até o sangue! porque, sem isso, tão certo como Deus é vivo, Nabal já não estaria vivo amanhã de manhã, e não teria ficado um só da sua gente que pudesse mijar contra as paredes! E, dez dias depois, Nabal morreu, ferido por Jeová, que tinha lido no coração de Abigail (fr. “qui avait lu dans le cœur d’Abigaïl”: a Bíblia de Ostervald traz “l’Éternel frappa Nabal, et il mourut”, o Eterno feriu a Nabal, e ele morreu, e Voltaire diz o mesmo: o motivo de Jeová é de Taxil, tirado das “violentas suspeitas” que Voltaire relata numa nota). E, quando Davi soube que Nabal estava morto, disse: Bendito seja o Eterno, que me vingou do ultraje que eu tinha recebido e que fez recair a maldade de Nabal sobre ele mesmo!
237. Deus fulmina Nabal; Davi desposa a sua viúva. Depois, enviou mensageiros a Abigail, para lhe propor tomá-la por mulher. Então, ela se levantou a toda a pressa, montou num jumento, seguida de cinco servas, e foi-se após os mensageiros de Davi; e Davi a desposou no mesmo dia. Davi desposou também Ainoã, de Jezreel; de sorte que ambas juntas foram suas mulheres. Saul, por outro lado, sabendo disso, deu Mical, primeira esposa de Davi, a Palti, filho de Laís, que era de Galim.» (1 Samuel 25:2-44) Os críticos observam que, se alguém quisesse escrever a história de um bandoleiro, de um salteador de estrada, não teria procedido de outro modo. Sem dúvida, o autor, que exalta Davi, qualifica Nabal de homem brutal e grosseiro; mas a conduta de Davi não é por isso menos revoltante, se esse episódio é verdadeiro. Chegamos aqui à época em que a história do povo judeu começa realmente; com efeito, as incertezas diminuem a partir de Saul. A bem dizer, encontraremos ainda bom número de milagres mais ou menos extraordinários; mas doravante já não parecem destinados senão a enfeitar a biografia de personagens cuja existência mal é contestada. É [481] assim que os críticos, a propósito de Nabal morrer subitamente tão poucos dias depois de ter sido pilhado pela sua mulher, apaixonada por Davi, dizem que essa morte, seguida imediatamente do casamento de Davi com a bela viúva, deixa veementes suspeitas. Quanto ao texto, escrito sob a inspiração do pombo, não hesita em fazer intervir diretamente Jeová para matar esse marido desprezado pela esposa, quando Mical, filha de Saul, é a mulher legítima de Davi; e com essa intervenção homicida Deus consagra o adultério de Davi, o seu ungido querido. O leitor reconhecerá que aí está uma moral esquisita! Nessa época morreu Samuel; «e todo o Israel se ajuntou e o chorou, e o sepultaram na sua casa, em Ramá» (1 Samuel 25:1); o que não o impediu, como a Moisés, de contar, no seu livro, fatos posteriores à sua morte.
238. Santa morte do profeta Samuel. Nesse terreno, é Samuel, aliás, quem detém o recorde. Com efeito, Moisés limitou-se a narrar as suas exéquias e o luto do povo e a indicar o lugar da sua sepultura, ao passo que o relato póstumo de Samuel compreende o fim do reinado de Saul e todo o reinado de Davi, seu sucessor; trinta e oito capítulos de acontecimentos de que o escritor foi espectador, embora defunto. Isso, sim, é um milagre!... Como pôde Samuel, vendo tudo isso com os olhos da sua alma, que estava no outro mundo, escrever na terra a narração disso com a mão do seu corpo, morto e enterrado? Isso, sim, é um mistério! Não procuremos, pois, aprofundar, e contentemo-nos com estar muito felizes de que o profeta defunto se tenha dignado continuar a ser o historiador dos dois reis que ungira. É assim que o finado Samuel nos informa, sem se indignar com isso, que «Davi passou, com os seiscentos homens que estavam com ele, para junto do rei de Gate, filisteu, filho de Maoque.» (1 Samuel 27:2). Aquis lhe designou por residência a cidade de Ziclague, e o ungido querido de Jeová habitou um ano e quatro meses entre os inimigos da sua nação (27:6-7). «Ora, durante esse tempo, Davi partia amiúde em expedição contra a gente de Gesur, de Gerzi e de Amaleque (que eram aliados de Aquis, diga-se de passagem), e semeava a desolação nessas terras; não deixava com vida nem homem nem mulher, e apoderava-se das ovelhas, dos bois, dos jumentos, dos camelos e das vestes. Voltava então para os filisteus e [482] vinha ter com Aquis. E, quando o rei Aquis lhe dizia: Onde fizeste hoje as tuas correrias? Davi lhe respondia: Pilhei, na região do Sul, a gente de Judá (israelitas); ou então, os jerameleus e os queneus (inimigos dos filisteus). E Davi, em vez de fazer prisioneiros que teria levado a Gate, matava todos os que pilhava, a fim de que ninguém pudesse levantar a voz contra ele. Aquis fiava-se, pois, em Davi e dizia: Ele faz muito mal a Israel e se torna assim muito odioso [483] aos judeus; pelo que me será sempre fiel.» (1 Samuel 27:8-12) Pois bem, que achais do ungido querido?... Os críticos lembram que primeiro Davi contrafez o louco e o imbecil diante do rei Aquis, junto do qual havia de refugiar-se durante dezesseis meses, e fazem notar que não é essa uma excelente maneira de inspirar confiança a um monarca a quem se pretende servir na guerra, como se verá mais adiante; mas, acrescentam, a maneira como Davi serve [484] esse rei, seu benfeitor, é ainda mais extraordinária: faz-lhe crer que exerce o seu banditismo contra os israelitas, quando pilha e massacra os aliados de Aquis; mata tudo, extermina tudo, até as crianças, com medo de que falem. Mas como pôde esse rei ficar dezesseis meses na ignorância da realidade dos fatos? Era preciso que esse rei Aquis fosse mais imbecil do que Davi fingira sê-lo diante dele... Quanto aos teólogos, a conduta do ungido querido não os embaraça; dizem que, nessa guerra civil, Davi já não devastava os seus compatriotas, e que pouco importa que tenha traído e degolado os seus aliados, visto que eram infiéis; vários chegam mesmo a considerá-lo o executor das vinganças divinas, e o absolvem de todo pecado nessa ocasião. No capítulo seguinte, os filisteus armam-se em guerra para combater os israelitas, e Davi, de escudeiro e genro de Saul, seu rei, torna-se capitão dos guardas do rei filisteu (1 Samuel 28:1-2). Eis-nos chegados ao episódio, tão conhecido, da pitonisa de En-Dor. Para nos conformarmos ao uso, chamaremos assim a feiticeira que Saul consultou, embora, a bem dizer, o texto hebraico da Bíblia não contenha uma palavra que se pareça com Píton ou com pitonisa. Literalmente, deve-se ler: «uma mulher que tem um Ob»; foi a Vulgata, isto é, a tradução de São Jerônimo, que transformou «Ob» em «espírito de Píton»; o que é um anacronismo. «E, tendo-se os filisteus ajuntado em armas em Suném, Saul reuniu também o exército israelita, que acampou em Gilboa; e foi tomado de temor. Depois, como consultasse o Eterno, não obteve dele resposta alguma, nem pelos sonhos, nem pelos sacerdotes, nem pelos profetas. Então, Saul disse aos seus servos: Buscai-me uma mulher que tenha um espírito de Píton (no texto hebraico: uma mulher que possui um Ob (hebraico “ob”: o espírito familiar que a mulher possui e que fala pela sua boca; a Almeida diz “espírito de feiticeira”)), para que eu vá ter com ela e saiba pelo seu ministério o que me há de acontecer. Os seus servos lhe responderam: Há em En-Dor uma pitonisa (no texto hebraico: uma mulher que possui um Ob). Saul disfarçou-se e foi a En-Dor, fazendo-se acompanhar por dois dos seus servos.» (v. 4-8) Já constatamos os empréstimos religiosos que os judeus tomaram aos egípcios e aos sírios. Ob era uma divindade, [485] síria, cujas estátuas davam oráculos com uma voz surda e cava que parecia sair da terra; em outros termos, os sacerdotes e sacerdotisas de Ob eram reles brincalhões que se entregavam ao exercício da ventriloquia, de sorte que o seu ídolo tinha supostamente uma voz profética que os basbaques ouviam mais ou menos bem. As pitonisas não procediam do mesmo modo: eram elas mesmas que falavam, num acesso de loucura sagrada. A mais célebre de todas estava estabelecida em Delfos, no templo de Apolo, onde se encontrava a pele da serpente monstruosa, chamada Píton, que o jovem deus, com apenas quatro dias de idade, matou, segundo dizem, a flechadas; havia ali um buraco muito profundo, de onde se exalavam não se sabe que vapores, naturais ou produzidos por algum subterfúgio dos sacerdotes, e esses vapores tinham a reputação de inspirar a sacerdotisa sentada sobre um tripé de ferro colocado por cima do buraco; essa mulher, escolhida com cuidado numa família pobre, estava adstrita especialmente ao serviço do templo de Delfos; uma vez sobre o tripé, tinha uma crise que não se poderia comparar melhor do que a um ataque de histeria e durante a qual pronunciava, muitas vezes com a espuma nos lábios, palavras incoerentes, que os sacerdotes transcreviam logo; reuniam-nas bem ou mal, davam-lhes um sentido, e eram esses os famosos oráculos de Apolo, que tinham junto das multidões tanto valor quanto uma bula do papa na Idade Média. Em razão de o tripé estar recoberto com a pele da serpente Píton, a sacerdotisa inspirada de Delfos chamava-se a «pítia». O templo de Delfos não tardou, como bem se pode imaginar, a ter numerosos concorrentes em todos os países onde a religião era o paganismo grego; as imitadoras da pítia foram chamadas «pitonisas». Mal se compreende, pois, por que São Jerônimo qualificou de pitonisa a feiticeira de En-Dor, sacerdotisa do deus sírio Ob; porque, na consulta que dá a Saul, ela não operou de modo algum à moda délfica; não entra em crise, não tem o menor tripé; uma pitonisa sem tripé é como uma cartomante sem baralho. Além disso, o termo empregado pela Vulgata, «uma mulher que tem o espírito de Píton», não tem sentido algum, visto que o suposto espírito que inspirava as pitonisas era [486] o de Apolo, e não o da serpente que ele matara. Feitas estas observações, vejamos o relato bíblico, segundo a tradução de São Jerônimo. «Saul chegou de noite à casa dessa mulher e lhe disse: Peço-te, sê adivinha para mim pelo teu espírito de Píton, e faze subir diante de mim o morto que eu te designar. Mas a mulher lhe respondeu: Ignoras, pois, que Saul exterminou os que têm o espírito de Píton e que condena à morte [487] os adivinhos? por que me armas um laço para me fazer morrer? Então, Saul lhe fez este juramento: Tão certo como Deus é vivo, nenhum mal te acontecerá por causa disto. E a pitonisa lhe disse: Pois bem, a quem queres que eu evoque? Ele respondeu: Faze-me subir a Samuel. E, quando essa mulher viu aparecer Samuel, exclamou, interpelando Saul: Por que me enganaste? pois tu és Saul. O rei lhe respondeu: Repito-te, não temas nada; mas dize-me o que [488] viste? Então, a mulher lhe disse: Vi como que um deus que saía da terra. Ele a interrogou ainda: Como é ele? Ela respondeu: É um ancião que sobe, e está coberto com um grande manto. A este sinal, Saul compreendeu que era bem Samuel que a pitonisa via; e prostrou-se, tendo a face contra a terra.» (v. 8-14) «Samuel disse a Saul: Por que perturbaste o meu repouso, fazendo-me evocar? O rei lhe respondeu: É porque estou muito perplexo; os filisteus me fazem guerra; Jeová retirou-se de mim, e não quis mais responder-me, nem pelos profetas, nem sequer por sonhos; pelo que recorri a ti, a fim de que me faças ouvir o que devo fazer. Samuel lhe disse: Visto que Jeová se retirou de ti, é que se tornou teu inimigo; então por que me consultas? Jeová cumpre neste momento o que te tinha anunciado pela minha voz; rasgou o teu reino; retomou a tua realeza, e deu-a a um dos teus súditos, isto é, a Davi. O que aí te acontece tem por causa a tua desobediência a Deus, quando poupaste o rei dos amalequitas. Eis por que Israel contigo será entregue nas mãos dos filisteus; e amanhã tu e os teus filhos estareis comigo. Ao ouvir estas palavras de Samuel, Saul caiu estendido ao comprido no chão; e faltaram-lhe as forças, porque não tinha tomado alimento algum em todo aquele dia, nem em toda a noite.» (v. 15-20)
239. A sombra de Samuel aparece a Saul. «Então, a pitonisa aproximou-se de Saul, e, vendo que ele tinha ficado muito perturbado, disse-lhe: A tua serva obedeceu-te, e eis que por isso expus a minha vida. Agora, peço-te, aceita que eu ponha diante de ti um bocado de pão, a fim de que comas e tenhas forças para voltares. Ele recusou primeiro; mas, tendo os seus companheiros insistido, assim como essa mulher, rendeu-se às suas instâncias; levantou-se, pois, e sentou-se sobre um leito. Ora, a pitonisa tinha em casa um bezerro que cevava: foi matá-lo a toda a pressa; depois, tomou farinha, amassou-a, e fez com ela pães ázimos. Pôs tudo isso diante de Saul e dos seus companheiros; comeram; por fim, foram-se.» (v. 21-25) Esse episódio da pitonisa de En-Dor suscitou numerosas discussões entre os teólogos; quanto [489] aos comentadores céticos, fizeram dele gargantas quentes (fr. “en faire des gorges chaudes”, locução: zombar ruidosamente de alguma coisa; em falcoaria, a “gorge chaude” é a carne ainda quente da presa que se dá à ave), e não é para menos! Em todos os tempos, a trapaçaria dos charlatães abusou da credulidade dos imbecis, fazendo-lhes pagar muito caro consultas de alta fantasia. Aqui, não somente Saul não oferece a menor moeda miúda à feiticeira; mas é ela, ainda por cima, quem o brinda com uma ceia e quem mata o seu bezerro cevado em sua honra. Além disso, o relato bíblico faz-nos assistir a uma consulta das mais infantis. Habitualmente, os evocadores mostram um fantasma qualquer, que se move com a ajuda de um truque. Essa pitonisa de En-Dor não se mete em tão grandes despesas: diz que vê uma sombra, e Saul crê na sua palavra; Saul ouve, é certo, uma voz, enquanto está prostrado, com o rosto contra a terra, mas não se deve esquecer que a pitonisa da Vulgata é, segundo o texto hebraico, uma profetisa de Ob, o deus cujas sacerdotisas são muito legitimamente suspeitas de terem sido ventríloquas espertalhonas. Em qualquer outra parte que não na Sagrada Escritura, diz Voltaire, esta história passaria por um conto de feiticeiro bastante malfeito; mas, visto que um autor sagrado a escreveu, é indubitável: merece tanto respeito como todo o resto. Quanto aos teólogos, se não põem em dúvida a veracidade do episódio, pelo menos não estão decididos quanto à identidade do fantasma evocado pela feiticeira. São Justino, no seu Diálogo contra Trifão, admite que os magos tenham podido evocar algumas vezes, por uma espécie de tolerância de Deus, as almas dos justos e dos profetas, que, dizem eles, estavam todos no inferno, embora tivessem tido uma vida santa, e que ali permaneceram até que o próprio Jesus ali descesse depois da sua morte, para tirá-los de lá, segundo o dogma cristão; por conseguinte, segundo São Justino, o fantasma de En-Dor podia muito bem ser a alma do próprio Samuel. Orígenes, outro Padre da Igreja, vai mais longe: segundo ele, a pitonisa fez vir Samuel não só em alma, mas também em corpo, e, como prova da materialidade da alma do outro mundo, cita o manto; o que permite aos curiosos perguntar se no inferno há mantos, e sobretudo mantos incombustíveis. Mas os teólogos modernos não seguem os passos daqueles [490] dos primeiros séculos do cristianismo: sentem o ridículo dessa interpretação de Orígenes e de São Justino, em virtude da qual magos e feiticeiras, sequazes do diabo, tinham o poder de fazer comparecer santos diante de si, e declaram que o fantasma não era outro senão Lúcifer ou algum outro demônio que se apresentava como Samuel. Todavia, convém dizer que esses casuístas têm contra si o próprio texto da Bíblia; porque o autor sagrado, longe de empregar [491] um termo dubitativo a respeito da aparição, diz expressamente que foi Samuel quem falou a Saul: a evocadora «viu Samuel», e não uma sombra parecida com o profeta defunto; por três vezes o texto diz: «Samuel disse a Saul», e «Samuel lhe disse», e ainda «Saul, ouvindo estas palavras de Samuel»; e, por fim, Samuel pergunta por que se perturbou o seu repouso. Ora, sabe-se que os pequenos pormenores deste gênero têm uma grandíssima importância nos livros de [492] religião. Nesta grave discussão, São Justino e Orígenes seguram, pois, a boa ponta (fr. “tenir le bon bout”, locução: ter a vantagem). Além disso, põe-se uma questão que não é das mais fáceis de resolver. Saul é efetiva e verdadeiramente representado como um maldito, desde o dia em que se mostrou humano para com Agague, seu prisioneiro; os fiéis veem nele um condenado; o preconceito contra Saul é tão forte que o seu nome nunca é dado a uma criança, mesmo entre os judeus desapegados das práticas supersticiosas; numa palavra, o nome do primeiro rei de Israel foi tão execrado pelos sacerdotes que inspira, ainda hoje, uma espécie de horror. Pois bem, examinando-se de perto o texto sagrado, bem parece que Jeová se desmentiu no último momento e que Saul foi salvo. Com efeito, Samuel lhe declara: «Amanhã, tu e teus filhos estareis comigo»; e, quando Samuel fala assim, está naquele inferno dos justos que, segundo a teologia cristã, não se deve confundir com o inferno dos condenados; porque, antes da redenção operada por Jesus Cristo, havia dois infernos: o dos réprobos, onde foram tragados Corá, Datã e Abirão, e o dos eleitos, onde os patriarcas, os profetas e todos os santos do Antigo Testamento esperavam que a morte do Messias lhes abrisse as portas do céu. Portanto, se Saul foi juntar-se a Samuel, foi no inferno dos justos; portanto, Saul, apesar da sua maldição, foi um eleito. É uma contradição a mais a apontar na Bíblia. Isto não é tudo. Vimos mais acima que Davi conseguiu impedir que uma profecia de Jeová se cumprisse. Jeová em pessoa tinha dito a Davi: «Os chefes da cidade de Queila te entregarão nas mãos de Saul.» (1 Samuel 23:12) Davi, ao ouvir isso, apressou-se a safar-se de Queila sem tambor nem trombeta, e não foi entregue. Saul é menos esperto que o seu genro: este rei crê nas predições de Samuel, visto que o manda evocar, visto que o interroga; e quando Samuel lhe anunciou que encontrará a morte nessa batalha de Gilboa que ele se prepara para dar aos filisteus, é bobalhão o bastante para marchar mesmo assim ao combate! não faz a paz com os filisteus! Parece que o cumprimento de uma profecia feita por um fantasma, saído da terra à evocação de uma pitonisa, devia [493] ser mais fácil de esquivar que o de uma profecia do Padre Eterno falando ele mesmo. Por fim, eis o que bem poderia simplificar todas essas questões tão complexas: tem-se mesmo certeza de que tenha havido alguma vez um Saul e um Samuel, e não seria toda a sua história uma nova mistificação do autor da Bíblia? Com efeito, os incrédulos fazem notar que só os livros judeus mencionam esse rei e esse profeta, e que os anais de Tiro, que falaram de Salomão, nunca disseram uma palavra sobre Davi... Pois claro! há por aí não pouca gente que se espanta com o silêncio dos contemporâneos de todos esses personagens postos em cena pelo escritor sagrado, e que tem dificuldade em digerir: 1º o combate do fedelho Davi contra Golias, gigante de mais de quatro metros de altura, gigante cavaleiro, isto é, montado num cavalo proporcionalmente gigantesco; 2º a história de Agague cortado subitamente em pedaços por um sacerdote de cerca de cem anos de idade; 3º o dote de duzentos prepúcios filisteus decepados por Davi e bem contados por Saul, que lhe deu a sua filha em agradecimento por esse presente magnífico; 4º, etc. Se ainda por cima disso chega a pitonisa de En-Dor, a digestão torna-se cada vez mais penosa... Espírito Santo, descei em nós! isto não passa!... Enquanto isso, Davi ainda estava no exército filisteu; tinha escolhido o seu lugar «na retaguarda». O capítulo 29 nos faz saber que os governadores do acampamento de Afeca não o viram com bons olhos nas suas fileiras e exigiram do rei Aquis a sua dispensa. Durante esses preliminares, os amalequitas saquearam e queimaram Ziclague, a cidade de residência do ungido querido; na volta do acampamento filisteu, Davi e os seus seiscentos flibusteiros já não encontraram as suas mulheres nem os seus filhos; os amalequitas os tinham levado prisioneiros (1 Samuel 30:1-3); o que prova pelo menos uma coisa: que esses inimigos dos judeus não tinham a barbárie destes, não eram massacradores. As duas esposas Abigail e Ainoã estavam entre as cativas. Davi pôs-se em perseguição dos amalequitas, alcançou-os e degolou-os, depois de lhes ter retomado os prisioneiros e prisioneiras. O primeiro livro de Samuel termina com um relato [494] da morte de Saul, a qual será apresentada de um modo totalmente diferente no segundo livro, logo no seu primeiro capítulo. Saul travou, pois, a batalha de Gilboa, e o exército de Israel foi batido desde os primeiros recontros. «E os filisteus alcançaram Saul e seus filhos; e mataram a Jônatas, a Abinadabe e a Malquisua, filhos de Saul. Ora, todo o esforço do combate se voltou contra o rei, e os arqueiros o feriram com as suas flechas. Então, Saul disse ao seu escudeiro: Arranca a tua espada, e passa-ma [495] através do corpo, para que não venham estes incircuncisos e me traspassem, insultando a minha desgraça. Mas o seu escudeiro, apavorado com essas tristes ordens, não as quis executar. Saul, pois, tomou a sua espada e se lançou sobre ela. Então o escudeiro, tendo visto o seu amo morto, também se lançou sobre a sua espada e morreu com ele.» (1 Samuel 31:2-5)
240. Suicídio de Saul. «Os israelitas que habitavam além do vale onde se travou a batalha, tendo visto a derrota do exército judeu e tendo [496] sabido da morte de Saul e de seus filhos, abandonaram as suas cidades; de sorte que os filisteus entraram nelas e nelas se estabeleceram. E, logo no dia seguinte à batalha, os filisteus vieram despojar os cadáveres. Tendo achado os de Saul e de seus três filhos, cortaram a cabeça do rei e fizeram um troféu das suas armas, que passearam por todos os arredores e pela sua terra, a fim de que o resultado da guerra fosse conhecido em toda parte. Por fim, puseram as armas dele no templo de Astarote e penduraram o seu corpo nas muralhas de Bete-Seã. Ora, os habitantes de Jabes, tendo tido notícia desses ultrajes infligidos ao cadáver de Saul, levantaram-se, fizeram uma marcha que durou uma noite inteira, despenduraram o corpo do rei das muralhas de Bete-Seã, e o levaram para a sua cidade, onde o queimaram com os de seus filhos. Depois, sepultaram os ossos debaixo de um carvalho, perto de Jabes, e jejuaram sete dias em sinal de luto.» (1 Samuel 31:6-13) O segundo livro de Samuel abre com um relato, totalmente diferente, da morte de Saul. A contradição é tão flagrante que merece ser posta em relevo; mostra bem com que sem-cerimônia o autor sagrado zomba dos crentes. «Depois que Saul morreu, Davi, que acabava de bater os amalequitas, permaneceu dois dias em Ziclague.» O autor já esqueceu que essa cidade tinha sido totalmente destruída pelo incêndio, alguns dias antes. «Ao terceiro dia, viu-se aparecer um homem, que voltava do acampamento de Saul; esse homem tinha as vestes rasgadas e a cabeça coberta de terra, e, tendo chegado a Davi, prostrou-se diante dele. Tendo-lhe Davi perguntado donde vinha, respondeu: Escapei do acampamento de Israel. Davi interrogou-o de novo: Que aconteceu? Peço-te, conta-mo. Esse homem disse: Os israelitas cederam terreno no combate; o número dos que foram mortos é considerável, e Saul e seus filhos estão entre os mortos. Então, Davi disse a esse moço: Como sabes que o rei e Jônatas são mortos? O moço fez o relato: Achava-me por acaso na montanha de Gilboa. E eis que vi Saul, que estava inclinado sobre a sua alabarda; alguns cavaleiros filisteus estavam prestes a alcançá-lo. Como ele olhava para trás de si, viu-me e chamou-me: Quem és tu? perguntou-me. Sou amalequita, respondi. [497] Tem-te firme sobre mim, tornou ele, e faze-me morrer; porque estou em angústia, e até a minha vida ainda está toda em mim. Obedeci-lhe, pois, e o fiz morrer. Tomei a coroa que tinha sobre a cabeça e o bracelete que trazia no braço, e tos trago. Então, Davi rasgou todas as suas vestes; todos os homens que estavam ao redor dele o imitaram. Houve luto geral e um jejum de um dia. Então, Davi lhe disse: Como tiveste a audácia de estender a tua mão para matar um ungido do Senhor? Depois, chamou um dos seus e lhe mandou que se lançasse sobre o portador de notícias; este foi logo ferido, e morreu.» (2 Samuel 1:1-15)
241. Davi chora Saul e Jônatas. Depois disso, Davi compôs uma lamentação — a Bíblia a dá — sobre o triste fim de Saul e de Jônatas. Dela só destacarei esta passagem: «Ó Jônatas, meu irmão! oh! como estou em angústia, por tua causa; tu eras todo o meu prazer; o amor que eu sentia por ti era maior do que aquele que tenho pelas mulheres (fr. “celui que j’ai pour les femmes”: a Bíblia de Ostervald traz “plus grand que celui des femmes”, “maior do que o das mulheres”, o amor que as mulheres dão; Taxil faz dele o amor de Davi pelas mulheres)!» (v. 26) Vimos, desde o início desta obra, que a maior parte dos livros que compõem a Bíblia são contestados a vários títulos pelos sábios. Assim, a Igreja afirma que esses livros foram escritos por determinados personagens que neles contam os acontecimentos do seu tempo: o Pentateuco seria obra de Moisés; Josué seria o autor do livro de Josué; Samuel, o autor dos dois livros de Samuel. O propósito da Igreja, ao impor essa crença aos seus fiéis, é dar a esses livros um caráter mais forte de veracidade; e vimos que os teólogos, Bossuet à frente, se zangam até ficarem vermelhos quando lhes dizem que tudo isso foi fabricado depois dos fatos, em grande parte por Esdras, posteriormente ao cativeiro de Babilônia. Em apoio da opinião dos sábios incrédulos, convém notar aqui, de passagem, uma simples frase do capítulo 1º do livro 2 de Samuel, que permite constatar o embuste dos fabricantes de Sagrada Escritura. «Esta lamentação de Davi sobre Saul e Jônatas, diz-se no versículo 18, acha-se escrita também no Livro dos Justos (fr. “Livre des Justes”, segundo o “liber justorum” da Vulgata; a Almeida diz “livro do Reto”).» Ora, esse mesmo Livro dos Justos foi mencionado no livro de Josué, a propósito do milagre do sol e da lua detidos pelo sucessor de Moisés: «E o sol se deteve, e a lua também, até que o povo tivesse acabado a carnificina. Isto está escrito também no [498] Livro dos Justos.» (Josué 10:13) Se Josué não é um mito, o seu milagre se deu cerca de cinco séculos antes do reinado de Davi. É, por conseguinte, materialmente impossível que Josué tenha podido citar, num livro escrito por ele, outro livro que, segundo o suposto Samuel, reproduz também a lamentação de Davi sobre Saul e Jônatas. Esse Livro dos Justos, que a Bíblia nomeia repetidas vezes, foi suprimido pelos sacerdotes; fizeram-no [499] desaparecer e dizem que é um documento infelizmente perdido. A sua existência deixava ver bem demais que o Antigo Testamento não foi escrito, à medida que as coisas aconteciam, pelos Moisés, Samuel, Davi, etc., relatando fielmente os acontecimentos de que foram contemporâneos. Mas não se pensa em tudo: os dois versículos bíblicos que acabo de reproduzir paralelamente mostram a ponta da orelha, dão a prova certa do embuste sacerdotal. [500] Davi, pois, que tinha sido sagrado por Samuel, só se considerou verdadeiramente rei com a morte de Saul; só então agiu como soberano. Consultou primeiro Jeová para saber que cidade seria a capital do seu reino, e papai Bom Deus lhe designou Hebrom (2 Samuel 2:1). Depois, fez apelo ao povo; mas só os chefes da tribo de Judá vieram reconhecê-lo, «e ali, em Hebrom, ungiram Davi por rei sobre a casa de Judá» (v. 4). O filho de Jessé foi assim ungido duas vezes; o que equivale a dizer que a unção de Samuel não contava. Depois disso, instalou em Hebrom as suas mulheres Abigail e Ainoã, e, para se consolar da ausência de Mical, a sua primeira esposa, filha de Saul, substituiu-a por quatro novas mulheres: Hagite, Abital e Eglá, cuja família o autor sagrado descuida de nos dar a conhecer, e Maaca, filha de S. M. Talmai, rei de Gesur. Essas seis esposas parecem ter vivido juntas em bastante boa harmonia. Davi precisava de um general em chefe. Ninguém terá esquecido aquele Abisai, que foi o seu companheiro quando penetrou de noite no acampamento de Haquila, e que surripiou a Saul o seu penico, enquanto Davi lhe levava a alabarda. Abisai, filho de Zeruia, tinha dois irmãos, chamados Joabe e Asael; foi Joabe que Davi pôs à frente do seu exército, e o veremos desempenhar um papel importante durante todo o reinado. «O número dos dias que Davi reinou em Hebrom sobre a tribo de Judá foi de sete anos e seis meses.» (v. 11) Por outro lado, Abner, general em chefe de Saul, não reconheceu o eleito de Judá. Apresentou ao povo Isbosete, o mais novo dos filhos de Saul, e este, aclamado pelas onze outras tribos, tomou o título de rei de Israel e fixou a sua corte em Maanaim; o seu reinado só durou dois anos.
242. O mais novo dos filhos de Saul se proclama rei. Houve, pois, guerra civil. No começo, quando os exércitos de Israel e de Judá se encontraram junto ao tanque de Gibeão, Abner propôs a Joabe fazer lutar doze moços da tribo de Benjamim contra doze jovens partidários de Davi. Joabe aceitou. «Então, cada um dos doze de cada lado se pôs em frente do seu adversário e lhe passou a espada através do corpo, de sorte que caíram todos juntos, tendo-se traspassado mutuamente; e chamou-se ao local Helcate-Hazurim» (v. 16). Nisso, travou-se uma refrega geral; [501] os partidários de Davi desbarataram os de Isbosete. Abner tinha-se posto em fuga quando viu a batalha perdida. «Corria a mais correr, perseguido pelo irmão de Joabe, Asael, que era tão ligeiro de pés como um corço no campo. E Asael perseguia Abner, sem se desviar nem para a direita nem para a esquerda, mas não tendo em mira senão Abner. E este, na sua corrida, olhou para trás de si e disse: Não serás tu Asael? — Sim, sou eu mesmo, respondeu Asael. Então, Abner lhe disse, ainda correndo: Cessa de me perseguir, e corre, em vez disso, atrás de um dos moços do meu exército; mata-o, e reconheço o teu direito sobre o seu despojo. Mas Asael obstinava-se em correr atrás do general. Abner lhe disse de novo: Verdadeiramente, fazes mal em me perseguir; porque eu só teria de me voltar e de te matar; e asseguro-te que teria pesar em te dar a morte, porque depois disso nunca mais ousaria aparecer diante de Joabe, teu irmão. E eis que Asael não quis ouvir razões, e perseguia com redobrado ardor Abner, que fugia. Então, Abner voltou-se de repente, e o feriu, na quinta costela, com a extremidade da haste da sua alabarda, de sorte que a sua alabarda o atravessou e lhe saiu pelo traseiro (fr. “par le derrière”: a Bíblia de Ostervald traz “sa hallebarde lui sortait par derrière”, “a alabarda lhe saía por detrás”; com um só artigo acrescentado, Taxil faz desse “por detrás” o traseiro de Asael). Asael caiu morto no mesmo lugar; e os outros fugitivos que chegavam depois detinham-se um momento para o olhar, jazendo por terra.» (2 Samuel 2:18-23) «Então, Joabe e Abisai lançaram-se em perseguição de Abner, e correram tanto tempo que o sol se punha quando chegaram ao outeiro de Amá, defronte de Giá. Desta vez, os fugitivos e os perseguidores detiveram-se. Os benjamitas agruparam-se em volta de Abner, no cume do outeiro, e dali Abner gritou a Joabe estas palavras: Devorará a espada sem cessar? não sabes tu que há amargura numa tal guerra? Dize, pois, bem depressa aos teus homens que não persigam mais os seus irmãos. Joabe respondeu: Deus me é testemunha de que, se tivesses falado assim esta manhã, os meus já se teriam retirado, tendo cada um pesar em combater os seus irmãos. Joabe, pois, tocou a trombeta, todos os soldados de Judá se detiveram, não perseguiram mais os de Israel. Assim, Abner, são e salvo, passou o Jordão e foi para Maanaim; por outro lado, Joabe fez a conta do seu exército e viu que faltavam ao todo dezenove partidários de Davi, além [502] de Asael. Ao contrário, o exército de Abner tinha perdido trezentos e sessenta homens. E o dia começava a raiar quando Joabe e as suas tropas chegaram a Hebrom.» (2 Samuel 2:24-32) Teria sido uma pena não reproduzir o relato dessa famosa batalha; porque, sendo isto história sagrada, ditada pela própria divindade, burradas como as que acabamos de ler merecem ser assinaladas. Nunca devemos perder de vista que em nome dessas estupidezes, declaradas [503] sublimes, sacerdotes são funcionários do Estado, nele têm privilégios, e o dinheiro dos contribuintes serve para sustentar a sua casta, como se fossem doutores das mais nobres ciências e professores das mais admiráveis verdades. Enquanto onze tribos se recusavam a reconhecer a sua realeza, Davi «fortificava a sua casa fazendo filhos». O ungido querido não perdia o seu tempo, oh! não. «De Ainoã, teve Amnom, por primogênito; de Abigail, teve Quileabe; de [504] Maaca, teve Absalão; de Hagite, teve Adonias; de Abital, teve Sefatias; de Eglá, teve Itreão. Estes seis filhos de Davi nasceram em Hebrom.» (2 Samuel 3:2-5) Pouco depois, uma história de mulher havia de fazer Abner passar para o partido de Davi. Eis, textualmente, a anedota: «Ora, Saul tinha tido uma concubina, chamada Rispa, filha de Aiá. E Isbosete disse um dia a Abner: Por que te deitaste com a concubina de meu pai? Abner, muito irado, respondeu-lhe: Tenho eu, pois, cabeça de cão, para que me censures por me ter apropriado de uma mulher, eu que te apoiei contra a tribo de Judá depois da morte de teu pai e de teus irmãos? Visto que assim é, que Deus agrave sobre mim a sua mão mais severa, se eu não der a Davi o teu trono, como Jeová jurou dar-lho, e se não transferir a realeza da casa de Saul para a de Davi, desde Dã até Berseba!... Isbosete, que temia Abner, não ousou responder-lhe uma palavra. Abner enviou, pois, deputados a Davi, para lhe dizer: Trata comigo, e reunirei sob o teu cetro todo o Israel. Davi respondeu: Seja, tratarei contigo, com uma só condição: não conferenciaremos juntos antes que me tragas de volta a minha querida Mical, filha de Saul. E, além disso, Davi enviou deputados a Isbosete, com esta mensagem: Que me restituam imediatamente Mical, a minha primeira mulher, que desposei por duzentos prepúcios de filisteus! Isbosete mandou buscar a sua irmã e tirou-a a seu marido Palti, filho de Laís. E até Baurim, o segundo marido de Mical, Palti, a seguiu, e chorava lágrimas quentes, caminhando atrás dela. Então, Abner disse a Palti: Agora, anda para trás (fr. “marche en arrière”: a Bíblia de Ostervald traz apenas “Va, et retourne-t’en”, “Vai, e volta”; o andar para trás é acréscimo de Taxil), e vai-te sozinho. Palti voltou.» (2 Samuel 3:7-16) Assim recuperou Davi a sua esposa nº 1, à qual era muito apegado, como se vê; mas nem por isso deixou de guardar as outras seis. Quanto a Abner, a sua traição para com Isbosete não lhe trouxe sorte. Quando foi a Hebrom para tratar com o filho de Jessé, fizera-se acompanhar por vinte dos seus oficiais; Davi deu um festim em sua honra, depois despediu-o como amigo, a fim de que fosse convencer os israelitas de que só ele era o rei legítimo. Mas Joabe, ao saber disso, mandou homens seus, que alcançaram [505] Abner no caminho e o reconduziram a Hebrom, sob o pretexto de que Davi ainda tinha alguma coisa a lhe dizer. «Então, Joabe tomou Abner à parte, para lhe falar em segredo, e matou-o, furando-o pelas partes genitais (fr. “par les parties génitales”: a Bíblia de Ostervald traz “à la cinquième côte”, na quinta costela; a Bíblia católica de Sacy diz “dans l’aine”, na virilha, segundo o “in inguine” da Vulgata; é Voltaire, em La Bible enfin expliquée, quem faz disso as partes genitais, e Taxil retoma as suas palavras).» A morte de Asael estava vingada. Davi, com a notícia desse homicídio, proclamou que não tinha parte alguma nele. Que o sangue de Abner, exclamou ele, recaia sobre a cabeça de Joabe! Fez até esplêndidos funerais ao general em chefe do exército do seu rival. (2 Samuel 3:20-39) A situação não era alegre para Isbosete; um grande número dos seus partidários o abandonavam. Dois dos seus capitães, chamados Recabe e Baaná, entraram no seu quarto, num dia em que fazia muito calor e em que ele dormia depois da sua refeição do meio-dia, e o sufocaram no seu leito. Orgulhosos dessa bela façanha e contando com uma recompensa, levaram a cabeça dele a Davi. Davi recompensou-os, mandando-lhes cortar as mãos e os pés, primeiro; depois, Recabe e Baaná foram pendurados numa forca que se levantou por cima do tanque de Hebrom. Por fim, Davi mandou depositar a cabeça de Isbosete no túmulo de Abner. (2 Samuel 4).
243. Morte trágica de Isbosete. Depois de ter reinado sete anos e meio em Hebrom, Davi reinou trinta e três anos em Jerusalém, que pertencia aos jebuseus, e da qual se apoderou graças à união definitiva de todos os israelitas sob o seu cetro. «Davi habitou na fortaleza, à qual deu o nome de cidade de Davi, e levantou edifícios em redor. Hirão, rei de Tiro, enviou-lhe embaixadores, assim como carpinteiros e pedreiros, com madeira de cedro, para lhe construírem um palácio.» Lembremos que os anais de Tiro não fazem menção alguma dessa embaixada e nem sequer citam o nome de Davi. Seja como for, o verdadeiro estabelecimento do povo judeu começa com a tomada de Jerusalém; até então, os israelitas não tinham sido mais que uma horda errante, vivendo de rapina, correndo de montanha em montanha e de caverna em caverna, sem terem podido apoderar-se de uma só praça considerável. Jerusalém está situada perto do deserto, na passagem de todos os árabes que iam comerciar na Fenícia; a posição era boa. O terreno, na verdade, é só de pedregulhos e não produz nada; mas as três montanhas sobre as quais a cidade está edificada faziam dela uma praça muito importante. Vê-se que [506] Davi carecia de tudo para ali edificar casas adequadas a uma capital, visto que Hirão, rei de Tiro, lhe enviou madeira, carpinteiros e pedreiros; mas não se vê como Davi pôde pagar a Hirão, nem que negócio fez com ele. Davi estava, diz Voltaire, à frente de uma nação por muito tempo escrava, que devia ser muito pobre; o despojo que tomara nas suas correrias não devia tê-lo enriquecido muito, visto que não se fala de nenhuma cidade opulenta que ele tenha saqueado; [507] mas enfim, embora a história judaica não nos dê nenhum pormenor do estado em que se achava então a Judeia, embora não saibamos como Davi fez para governar essa terra, devemos, ainda assim, considerá-lo como o único fundador. Logo que se viu dono de Jerusalém e de quinze a vinte léguas de terra, «Davi tomou mais concubinas e desposou novas mulheres; e nasceram-lhe mais filhos e filhas. Eis os nomes dos filhos que lhe nasceram em Jerusalém: Samua, [508] Sobabe, Natã, Salomão, Ibar, Elisua, Nefegue, Jafia, Elisama, Eliada e Elifelete.» (2 Samuel 5:13-16) Concluída a sua instalação pessoal, Davi pensou em dar a Jeová um alojamento adequado, isto é, em fazer transportar a arca santa para a sua capital. «Ajuntou de novo todo o escol de Israel, que montava a trinta mil homens, e, acompanhado de toda a tribo de Judá, foi buscar a arca de Deus, sobre a qual se invoca Sabaote, essa arca sagrada na qual o Eterno reside entre os querubins. Puseram, pois, a arca de Deus sobre uma carroça toda nova, e tomaram-na na vila de Gibeá, onde ela estava, na casa de Abinadabe (filho de Saul, morto com ele em Gilboa) (na verdade um homônimo: o Abinadabe em cuja casa a arca era guardada desde 1 Samuel 7:1 não é o filho de Saul morto em Gilboa, 1 Samuel 31:2); Uzá e Aiô, filhos de Abinadabe, conduziam a carroça (2 Samuel 6:1-3)... Mas, quando chegaram perto do celeiro de Nacom, os bois escorregaram e, ao cair, fizeram inclinar a arca; Uzá a segurou com as mãos. Então a cólera de Deus se acendeu contra Uzá; Deus o feriu, e ele caiu morto no lugar, diante da arca de Deus.» (v. 6-7) «Então Davi sentiu um grande pavor de Jeová naquele dia, e disse consigo: Seria talvez perigoso que a arca de Deus entrasse em minha casa. E fê-la pôr na casa de um chamado Obede-Edom.» (2 Samuel 6:9-10) Se o escritor desta parte da Bíblia não é Samuel, é, não obstante, sacerdote, segundo toda a probabilidade; pois o que domina neste relato é a preocupação de impedir os leigos de tocar na arca. Já vimos a pavorosa hecatombe de cinquenta mil e setenta curiosos, mortos instantaneamente, como que fulminados, por terem olhado dentro da bendita caixa; o autor, para inspirar o temor, não recuou diante da inverossimilhança da anedota. Agora, pouco importa que Deus pareça de uma injustiça clamorosa! eis uma arca que, embora divina, não devia tomar muito espaço, visto que não ocupava mais que uma simples carroça, e essa carroça devia ser muito estreita, visto que passava pelos desfiladeiros que se estendem da montanha de Gibeá à montanha de Jerusalém; ora, os sacerdotes não acompanhavam o cofre santo, o que mal se concebe, e, dado que não se tomaram todas as precauções necessárias para impedi-la de cair, eis esse bom homem do Uzá que [509] segura a arca, que a preserva de uma queda, e que se vê recompensado do seu zelo religioso com uma morte súbita! O leitor confessará que é forte! Os incrédulos, milorde Bolingbroke à frente, têm, pois, bom jogo para dizer que este relato é injurioso para a bondade divina, e que, se havia alguém culpado, eram os levitas que tinham abandonado a bendita caixa, e não o leigo que a sustinha... Mas com relatos desta espécie se mantinha o povo ignorante na crença das imunidades e privilégios concedidos por Deus à casta sacerdotal. Outra observação: estes começos grosseiros do reinado de Davi provam que a nação judaica era ainda tão grosseira quanto pobre, e que na realidade não possuía ainda uma casa suficientemente adequada para nela depositar o objeto do seu culto. O sr. Obede-Edom, constituído guardião da arca, teve grande cuidado em não tocar nela; por isso «o Eterno o abençoou, assim como a toda a sua família, e os seus negócios prosperaram». (2 Samuel 6:11) Quando Davi constatou, ao cabo de três meses, que havia assim meio de não ser fulminado, mandou reclamar a arca a Obede-Edom. Transportaram-na então para Jerusalém. A cerimônia da trasladação foi solene, e o rei manifestou uma alegria extraordinária nessa ocasião: «Davi, cingido de um éfode de linho, saltava com toda a sua força (sic) diante da arca de Deus.» (v. 13) No seu regozijo, chegou a levantar a perna um pouco alto demais e mostrou... o que não deveria ter deixado ver. Mical, a sua esposa nº 1, não lhe escondeu a sua maneira de pensar a esse respeito, depois que a bendita caixa foi colocada num tabernáculo, construído ad hoc.
244. Davi dança diante da arca. «Quando Davi veio para a sua casa para a abençoar, Mical foi ao seu encontro e lhe disse: O rei de Israel fez-se hoje muita honra, descobrindo a sua nudez diante dos olhos das suas servas, e não teve disso vergonha alguma, como faria um louco!» (v. 20) Quanto a Jeová, ficou muito satisfeito com essa dança desgrenhada, e puniu Mical por ter desprezado naquele dia o seu marido; para seu castigo, «ela não teve filhos, até o dia da sua morte». (2 Samuel 6:23) Davi teria desejado construir um templo a Jeová; mas o deus dos judeus opôs-se a isso, reservava essa honra a Salomão. (2 Samuel 7) [510] O capítulo 8 é consagrado às vitórias de Davi. «Depois disso, Davi bateu os filisteus, humilhou-os, e libertou o povo israelita do tributo que lhes pagava.» (2 Samuel 8:1) Causa grande espanto que o ungido querido, depois da conquista de Jerusalém, ainda tenha pago tributo aos filisteus, e que tenham sido necessárias novas vitórias para libertar os judeus dessa onerosa sujeição; isso prova que esse povo era ainda um povo muito pequeno. «Davi derrotou também os moabitas, e, tendo-os vencido, [511] fê-los deitar por terra e medir com cordas; uma medida de corda era para a morte, outra medida era para a vida; e Moabe foi sujeito a tributo». (2 Samuel 8:2) A maneira como Davi trata os moabitas assemelha-se singularmente à fábula pagã que se propalou sobre Busíris (o leito é o de Procusto, o bandido que Teseu matou; Busíris, rei lendário do Egito, imolava os estrangeiros; a confusão vem de Voltaire, em La Bible enfin expliquée, cuja frase Taxil retoma, e a comparação se mantém), que fazia medir os seus cativos pelo comprimento do seu leito; cortavam-lhes os membros que excediam, e alongavam, por meio de torturas, os membros que não eram suficientemente longos. [512] «Depois, Davi derrotou ainda Hadadezer, rei de Zobá, na Síria, e derrubou o seu domínio sobre o rio Eufrates. Tomou-lhe mil e setecentos cavaleiros e vinte mil infantes; cortou os jarretes a todos os cavalos dos seus carros de guerra, exceto aos de cem carros, que reservou para si. E, tendo os sírios de Damasco vindo em socorro de Hadadezer, Davi matou deles vinte e dois mil. Estabeleceu guarnição na Síria de Damasco, e a Síria inteira lhe pagou tributo. Tomou as armas de ouro dos oficiais de Hadadezer e trouxe-as a Jerusalém.» (2 Samuel 8:3-7) Fez aliança com um certo Toí (fr. “Tobie” no texto de 1904; a Almeida, como as versões modernas, chama Toí a este rei de Hamate), rei de Hamate, tão desconhecido na história como o rei de quem ele foi o vencedor. «E, voltando da sua campanha da Síria, fez em pedaços dezoito mil idumeus no vale do Sal.» (v. 13) Vários sábios negam terminantemente essas vitórias de Davi na Síria e até o Eufrates. Dizem que delas não se faz menção em parte alguma, em nenhum historiador; que não se conhece nenhum rei da Síria com o nome de Hadadezer; que, se Davi tivesse estendido o seu domínio até as margens do Eufrates, teria sido um dos maiores soberanos da terra, naquela época, e que, por conseguinte, o silêncio absoluto de todos os historiadores a seu respeito não se compreenderia. Em resumo, os sábios consideram como um exagero insustentável essas pretensas conquistas do chefe de uma minúscula nação, dona de uma só cidade que nem sequer estava ainda edificada! No meio da sua glória, Davi lembrou-se de repente de um velho servidor de Saul, chamado Ziba; mandou chamá-lo e perguntou-lhe se por acaso não viveria ainda alguém da família do primeiro rei. Ziba informou-o (Davi ignorava isso!) de que Jônatas tinha deixado um filho, Mefibosete, o qual, com o tempo, se tornara papai; esse rebento chamava-se Mica. O monarca não tinha de temer concorrência alguma da parte do filho de Jônatas, visto que este ficava quieto a ponto de ter permanecido desconhecido durante tantos anos. Deu terras a Ziba e a Mefibosete, e quis que este último, dali em diante, só tomasse as suas refeições no palácio real (2 Samuel 9) «Desde então, Mefibosete morou em Jerusalém, porque comia continuamente à mesa do rei; e era coxo de ambos os pés.» (v. 13) [513] Davi fez também a guerra aos amonitas (2 Samuel 10), em consequência de um mau gracejo do rei deles, Hanum. Como certo número de judeus se achasse em viagem no território de Hanum, este «lhes fez rapar a metade da barba e cortar a metade das vestes, desde o alto das coxas até os pés; depois, despediu-os assim». (v. 4) Nem é preciso dizer que os amonitas foram batidos à costura chata. A Sagrada Escritura enumerou-nos há pouco os filhos que Davi teve em Jerusalém, entre os quais Salomão. As circunstâncias do nascimento desse filho são o objeto do capítulo 11. Um dia em que o rei passeava, avistou ao longe uma bela mulher que tomava banho; no mesmo instante, sentiu o vivo desejo de ver essa dama mais de perto. (2 Samuel 11:2)
245. Davi presa do demônio do adultério. «Quem é esta mulher? perguntou ele. E um dos seus oficiais lhe disse: É Bate-Seba, filha de Eliã, esposa do capitão Urias. Então Davi enviou a Bate-Seba homens do seu serviço, e ela foi arrebatada.
246. Projetos criminosos do rei. Deitou-se, pois, com ela; após o que, Bate-Seba se lavou, e assim se purificou da sua impureza; depois, voltou para a sua casa. E essa mulher concebeu; mandou dizê-lo a Davi nestes termos: Estou grávida. A esta notícia, Davi mandou a Joabe, seu general em chefe, que lhe enviasse Urias. Tendo Urias vindo, foi interrogado pelo rei sobre Joabe, sobre o povo e sobre o que se passava na guerra. Depois, Davi disse a Urias: Vai-te para casa, para a tua casa, e lava os teus pés (sic). Saiu, pois, Urias da casa do rei, seguido de um presente régio que os servos de Davi levavam atrás dele. Mas Urias dormiu à porta da casa do rei, com os servos do seu senhor, e não desceu à sua casa. E contaram-no a Davi, que o chamou de novo e lhe disse: Por que não foste para a tua casa, visto que vinhas de viagem? Urias respondeu a Davi: Quê! a arca de Deus se aloja debaixo de uma tenda, e Joabe, meu general, e todos os meus companheiros de armas também! e eu entraria na minha casa para ali comer e beber e para me deitar com a minha mulher? Não, não farei isso! Então Davi reteve Urias em Jerusalém mais um dia e o dia seguinte. Depois, Davi o fez comer e beber com ele, e embriagou Urias. Na manhã seguinte, o rei escreveu a Joabe; enviou a sua carta pelas mãos de Urias. Ora, essa carta estava escrita nestes termos: Na primeira batalha que derdes, [514] poreis Urias no posto mais perigoso, e vos retirareis de junto dele no mais forte do combate, para que seja ferido e morra.» (2 Samuel 11:2-15) «Tendo, pois, Joabe feito o exame da cidade de Rabá, que sitiava, pôs Urias no lugar onde sabia que haveria uma surtida dos mais valentes amonitas. E os sitiados saíram contra o exército de Joabe; e alguns dos sitiantes foram mortos, e Urias achou-se no número daqueles [515] que pereceram.
247. O bom capitão Urias é sacrificado. Então Joabe enviou um mensageiro a Davi para lhe fazer saber tudo o que tinha acontecido naquele combate. Se acontecer que o rei se encolerize, disse ele ao mensageiro, e se censurar que se tenham aproximado demais das muralhas, acrescentarás estas palavras: Ó rei, o teu servo Urias morreu neste assalto.» (v. 16-21) O mensageiro desincumbiu-se da sua missão. «Davi, tendo-o ouvido, respondeu: Faze saber a Joabe que não deve desanimar de modo algum; que redobre [516] o combate contra Rabá, e que destrua essa cidade.» (v. 25) «Então a mulher de Urias, tendo sabido que o seu marido estava morto, pôs luto. E, quando passou o tempo do luto, Davi mandou buscá-la, tomou-a consigo, e ela foi sua mulher, e deu-lhe à luz um filho. Mas a coisa que Davi fizera desagradou ao Eterno.» (2 Samuel 11:26-27)
248. Davi consola Bate-Seba, viúva de Urias. Jeová delegou junto ao rei o profeta Natã, que lhe desfiou (fr. “débita”: contou tudo de um fôlego; é também o verbo do comerciante que vende a retalho) uma historieta: um grande ricaço, proprietário de numeroso gado, tinha dado um dia hospitalidade a um viajante, e, para regalá-lo, serviu-lhe uma ovelha que roubou a um pobre homem, em vez de tomar uma do seu abundante rebanho. Davi indignava-se contra esse ricaço desonesto, quando Natã o interrompeu: «Esse culpado contra quem se acende a tua cólera és tu mesmo. Deus me enviou para te lembrar que te tinha ungido rei de Israel, que te tinha livrado de Saul, que te tinha até dado numerosas mulheres, e, se tudo isso te podia parecer pouco, estava disposto a conceder-te ainda outra coisa. Mas eis que fizeste perecer o capitão Urias, e lhe tiraste a sua mulher! Pelo que Jeová me encarrega de te dizer que a espada nunca sairá da tua casa por toda a eternidade, porque desprezaste os seus benefícios. E eis que Deus vai fazer sair da tua própria família uma vergonha que será contra ti e que te humilhará muito; Deus, eu to anuncio, tomará as tuas mulheres diante dos teus próprios olhos, dá-las-á a um dos teus próximos, e este se deitará com as tuas mulheres em pleno dia, aos olhos de todo o Israel; porque tu fornicaste em segredo; mas aquele que possuir as tuas esposas e as tuas concubinas fornicará em público com elas, para a tua humilhação. Então Davi disse a Natã: Ai! pequei contra o Eterno! Natã tornou: Visto que choras, não morrerás; Deus te tira o teu pecado e o faz passar sobre a cabeça do teu filho; é o menino nascido do teu pecado que morrerá.» (2 Samuel 12:7-14) Saída majestosa do profeta; oração e jejum de Davi; morte, ao cabo de sete dias, do menino que ele tivera de Bate-Seba. «Durante esses sete dias, Davi não tomou alimento algum, e permaneceu dia e noite deitado por terra ao comprido. E os seus servos temeram informá-lo de que o menino estava morto. Quando o menino estava vivo, [517] diziam eles, o rei recusou-se a escutar a nossa voz; como, pois, lhe faríamos saber a sua morte? Isso não pode ser, porque ele se afligiria ainda mais. Mas Davi, tendo percebido que os seus servos falavam muito baixo, compreendeu que o menino estava morto. Fez-lhes, pois, esta pergunta: Não está morto o meu filho? Eles responderam: Sim. Então Davi levantou-se da terra, fez a sua toalete, esfregou todo o corpo com suaves perfumes, vestiu-se de belas vestes, e foi prostrar-se diante da arca de Deus. Depois, voltou ao seu palácio, pediu de jantar, e comeu muito. Os seus servos, espantados, disseram-lhe: Ó rei, que fazes, pois? não compreendemos nada disso. Jejuaste e choraste por este menino, enquanto ele ainda estava vivo; e agora que está morto, eis que já não choras e que comes com bom apetite! Davi lhes disse: Quando o menino estava apenas doente, jejuei e chorei; porque me perguntava se Deus não teria piedade de mim e não deixaria viver o meu filho. Mas, agora que está morto, por que jejuaria eu? a minha abstinência o chamaria de volta à vida? Não, não é verdade? Continuando a não tomar alimento algum, eu também morreria; iria juntar-me ao meu filho, e ele não voltaria para mim. Então Davi foi ter com Bate-Seba, e, para a consolar, deitou-se com ela até que ela lhe desse à luz outro filho. Esse segundo filho de Bate-Seba recebeu de seu pai o nome de Salomão; e este agradou ao Eterno, que o amou. E Davi deu parte desse nascimento a Natã, o profeta, e Natã impôs ao menino um segundo nome, o nome de Jedidias.» (2 Samuel 12:17-25) Eis um episódio dos mais edificantes, certamente!... O casamento de Bate-Seba, pejada de Davi, é declarado nulo por vários rabinos e por vários comentadores, relata Voltaire. Entre nós, uma mulher adúltera não pode desposar o seu amante, assassino do seu marido, a não ser com uma dispensa do papa: foi o que decidiu o papa Celestino III. Ignoramos se o papa pode, com efeito, ter tal poder; mas é certo que em nenhuma nação civilizada é permitido desposar a viúva daquele a quem se assassinou. Há outra dificuldade: se o casamento de Davi e de Bate-Seba é nulo, não se pode, pois, dizer que Jesus Cristo é descendente legítimo de Davi, como o declara o Evangelho [518] ao dar a sua genealogia. Se, pelo contrário, se decide que descende dele legalmente, calca-se aos pés a lei de todas as nações, uma das leis universais conforme aos princípios mais elementares da moral; se o casamento de Davi e de Bate-Seba não passa de um novo crime, Jesus Cristo nasceu, pois, da fonte mais impura, visto que o Novo Testamento o faz descender de Salomão. Para escapar a esse dilema, os teólogos invocam o arrependimento de Davi, que [519] tudo reparou. Mas o seu arrependimento durou pouco, e ele conservou a viúva de Urias, a sua vítima; portanto, o seu crime agravou-se; é uma dificuldade nova, que os teólogos não podem resolver, e ficam reduzidos a recorrer, como sempre, à necessidade de uma fé cega, sendo as vontades de Deus incompreensíveis na maior parte das vezes. No caso que examinamos, é, de fato, impossível deslindar exatamente os sentimentos de Jeová. Ele, [520] que matou o bom velho Nabal, para facilitar o primeiro adultério de Davi, zanga-se porque o seu ungido querido se tornou culpado de assassinato na pessoa de Urias; então era preciso que Davi lhe rogasse que se encarregasse dessa tarefa homicida, e que tivesse Bate-Seba graças a um divino golpe de raio (fr. “un divin coup de foudre”: um golpe súbito vindo do céu, como o que matou Nabal e permitiu a Davi casar-se com Abigail; a locução “coup de foudre” designa também o amor súbito, à primeira vista), como tivera Abigail?... Depois, Jeová dá prova, nessa ocasião, de uma cólera bizarra. Mostra-se zangado, visto que envia o profeta Natã a dirigir reproches ao rei e a fulminar o anúncio de terríveis castigos; mas a sua cólera não o impede de ver com bons olhos o casamento de Davi com a viúva do assassinado, visto que manifesta a sua predileção por Salomão, nascido de Davi e dessa viúva. Transporta o pecado do assassino para uma criança de berço; então, por efeito dessa estranha combinação celeste, Davi está, pois, definitivamente perdoado, direis?... Não precisamente. Está perdoado, porque a criança morreu; mas não está perdoado, porque a ameaça de fazer as mulheres e concubinas do rei deitarem-se com outro aos olhos de todo o Israel subsistiu inteiramente, como se vai ver. Enquanto isso, Joabe acabara por se apoderar de Rabá, a capital dos amonitas (2 Samuel 12:26). Davi veio tomar posse dessa nova conquista. «E tomou o diadema de sobre a cabeça do rei dos amonitas; e esse diadema, todo enriquecido de pedras preciosas, pesava um talento de ouro; e Davi o pôs sobre a sua cabeça, e trouxe de Rabá um mui grande despojo» (2 Samuel 12:30). Calculou-se que o peso de um talento de ouro equivalia a noventa libras: mal é possível que um homem tenha usado uma tal coroa; ela teria esmagado o próprio Golias. Depois de vencer os amonitas, o rei de Israel infligiu aos seus prisioneiros suplícios horrendos; esses mesmos habitantes de Rabá tinham desembaraçado Davi do capitão Urias: Davi estava meio perdoado por Deus; mas Jeová escolhia Davi para ser o executor da vingança divina contra os seus próprios cúmplices, que, de mais a mais, eram perfeitamente inocentes, visto que se tinham batido lealmente; se alguém devesse pagar, esse era Joabe, cujo papel fora pouco honroso. «Davi mandou que lhe trouxessem todos os habitantes de Rabá; todos foram massacrados, uns sendo serrados em dois [521] com serras, outros esmagados e dilacerados por pesadas grades de ferro que se fizeram passar sobre eles, outros retalhados vivos com cutelos, e os outros lançados em fornos de cozer tijolo. Davi tratou do mesmo modo a população de todas as cidades amonitas; após o que, tornou a Jerusalém.» (2 Samuel 12:31)
249. Ferocidade de Davi para com os amonitas. É de desejar que essas inconcebíveis barbaridades sejam um exagero, como o é evidentemente o diadema de noventa libras. Não há exemplo, na história, de uma crueldade tão enorme e tão refletida. M. Huet, de Londres, não deixa de pintá-la com as cores que ela merece. O beneditino Dom Calmet diz «que é de presumir que Davi não seguiu senão as leis comuns da guerra; que a Escritura não faz reproche algum a Davi a esse respeito, e que até lhe presta o testemunho expresso de que, fora o caso de Urias, a sua conduta foi sempre irrepreensível». Essa desculpa seria boa na história dos tigres e das panteras, responde M. Huet; que homem, se não tiver o coração de um verdadeiro judeu, poderá achar expressões adequadas a um tal horror? E eis o homem segundo o coração de Deus!... Em todo caso, seja essa história exata ou inventada a bel-prazer, só se pode estigmatizar um tal ensino religioso; e que pensar daqueles que se deram a missão de convencer um povo de que tais selvagerias são atos gloriosos e meritórios?... Mas, nessa família de Davi, só se sai de um horror para recair noutro. Prossigamos. «Imediatamente depois, Amnom, filho de Davi, enamorou-se de sua irmã Tamar, irmã também de Absalão, outro filho de Davi: e estava tão enamorado dela que todo o seu pensamento se absorvia nessa paixão, com desespero; porque Tamar era virgem, e parecia-lhe demasiado difícil obter dela coisa alguma. Ora, Amnom estava ligado pela mais íntima amizade a Jonadabe, homem muito hábil, sobrinho de Davi. E Jonadabe disse a Amnom: Por que emagreces assim de dia para dia? por que não me dizes a causa? Amnom lhe respondeu: É que estou enamorado de minha irmã Tamar, irmã de mãe de meu irmão Absalão. Então Jonadabe lhe disse: Deita-te no teu leito e finge-te doente; depois, quando teu pai vier ver-te, pede-lhe [522] que te envie Tamar para te fazer bolinhos de carne, que ela sabe muito bem preparar.» (2 Samuel 13:1-5) A história profana relata incestos que têm alguma semelhança com o de Amnom. Todavia, não é de presumir que uns tenham sido copiados dos outros; porque, afinal de contas, semelhantes impudicícias foram por demais comuns em todas as nações. O que há aqui de particularmente estranho é que Amnom confia a sua paixão criminosa [523] ao seu primo Jonadabe; era preciso, pois, que a família de Davi fosse bem dissoluta para que um dos seus filhos, que podia ter tantas concubinas ao seu serviço, quisesse a todo custo gozar da sua própria irmã, e que o seu primo-irmão lhe facilitasse os meios. Amnom seguiu o conselho de Jonadabe, e as coisas passaram-se como este o havia previsto. O rei, que viera ver o filho acamado, escutou o seu pedido, acreditou tratar-se de uma dessas [524] inofensivas fantasias de doente que não se recusam, e mandou a sua filha confeccionar no quarto de Amnom os famosos bolinhos de carne, a sua especialidade como cordon-bleu. «Veio, pois, Tamar à casa de seu irmão Amnom, e achou-o deitado. Tomou massa, amassou-a, e fez com ela diante dele uns bolinhos, que cozeu misturando-lhes pedacinhos de carne. Depois, trouxe a frigideira para junto do seu leito e despejou os bolinhos. Mas Amnom disse: Não os quero comer diante das pessoas que estão aí! Cada um se retirou. Então Amnom, que retivera Tamar, falou-lhe assim: Aproxima os bolinhos que me preparaste, e aproxima-te tu mesma, porque não os quero comer senão da tua mão; aproxima-te, Tamar, mais perto ainda. Tamar fez como ele lhe pedia. Mas, enquanto ela se inclinava sobre o seu leito para lhe fazer comer um bolinho, ele agarrou-a de repente, e disse-lhe: Eia, vem, não resistas; deita-te comigo, minha irmã. E ela lhe respondeu: Não, meu irmão, não quero, e, peço-te, não me faças violência, porque a violação é proibida entre os israelitas. Não cometas essa ação infame. E eu, que seria de mim, depois de me teres infligido essa vergonha? Tu passarias por um louco. Agora, escuta: se me queres a todo custo, fala disso ao rei, nosso pai, e sem dúvida, para um casamento, não recusará dar-me a ti. Mas Amnom não quis escutá-la; e, como era mais forte do que ela, derrubou-a e deitou-se com ela.
250. Amnom, filho do rei, desonra sua irmã Tamar. Depois, logo que a violou, concebeu por ela um ódio tão grande que o seu ódio era maior do que tinha sido o seu amor. E disse-lhe: Levanta-te, não te quero mais, vai-te! Então Tamar chorou, dizendo: O mal que me fazes agora é ainda mais forte do que o mal que acabas de me fazer neste leito. Mas Amnom, tendo chamado um criado, disse-lhe: Expulsa da minha câmara esta moça, e fecha a porta após ela.» (2 Samuel 13:8-17) Que pensais disso, leitores?... Como anedota de livro santo, ditado por Deus, não está bem conseguida?... Continuemos a reproduzir este texto, base sagrada da religião que tem entre nós um orçamento oficial (o “budget des cultes”, o orçamento com que o Estado francês pagava o clero sob a Concordata, até 1905) que se cifra todos os anos em milhões, à custa dos contribuintes, sem contar os bilhões que, há séculos, os sacerdotes têm extorquido de todas as maneiras, sempre prevalecendo-se [525] dos direitos divinos inscritos em favor da sua casta na imunda Bíblia. Assim, Tamar foi expulsa. «Tomou cinza e espalhou-a sobre a cabeça; rasgou a bela túnica de várias cores que trazia sobre si, e foi-se gritando, com a mão sobre a cabeça» (v. 19). Absalão, que era, como ela, filho de Maaca, esposa nº 4 de Davi, deixou uma reputação sobretudo cabeluda; é um dos ilustres personagens bíblicos célebres pela grenha; no tocante ao comprimento dos cabelos, ele dama o peão (fr. “dame le pion”, locução: leva vantagem; no jogo de damas, é fazer dama com a sua pedra antes do adversário) a Sansão e a Samuel. Quando soube da violação de Tamar, Absalão tentou primeiro consolá-la. Citamos textualmente: «O nosso irmão Amnom deitou-se contigo? disse-lhe ele. Mas agora, cala-te; é teu irmão. Não tomes isto a peito!» (v. 20) Apesar dessas boas palavras, Tamar ficou desconsolada. Quanto a Davi, quando soube de que maneira o seu filho Amnom entendia a merendinha de bolinhos de carne, sentiu uma grande cólera; mas foi um fogo de palha (fr. “un feu de paille”, locução: paixão viva que não dura, como a palha que se inflama e logo se apaga; o português tem a mesma locução). «Absalão, por seu lado, não falava a Amnom nem bem nem mal; mas, no fundo, odiava-o.» (v. 22) Absalão dissimulou o seu ódio durante dois anos. (2 Samuel 13:23) Ao cabo desse tempo, deu, em Baal-Hazor, onde tinha uma casa de campo, um grande festim para o qual convidou todos os seus irmãos, inclusive Amnom. O incestuoso violador bebeu sem medida e foi assassinado à sobremesa. (2 Samuel 13:24-29)
252. Absalão vinga a honra de Tamar. É uma grande impureza deitar-se com a irmã, observa Voltaire; é uma extrema brutalidade expulsá-la depois com ultraje; mas é sem dúvida um crime ainda maior assassinar traiçoeiramente o irmão, atraindo-o à sua casa e fazendo-o banquetear-se. Todos os irmãos de Absalão, testemunhas desse fratricídio, saíram precipitadamente da mesa e fugiram nas suas mulas, como se temessem ter a mesma sorte de Amnom. A esse propósito, fez-se notar que é a primeira vez que se fala de mulos na história judaica. Um teólogo, na sua mania de querer pôr o extraordinário até onde ele não existe, o impagável Dom Calmet, teve a bela ideia de avançar, no seu comentário da Bíblia, que «os mulos da Palestina não são produto do acasalamento de um jumento e de uma égua, mas que são gerados de um mulo e [526] de uma mula». Essa novidade inesperada provocou o riso de Voltaire, que responde ao beneditino: «Dom Calmet cita, a esse respeito, a opinião de Aristóteles; mas teria feito melhor, sem dúvida, em consultar um bom almocreve. Vimos vários viajantes que asseguram que Aristóteles se enganou, e o reverendo Calmet com ele. Não há hoje naturalista algum que creia nas pretensas raças de mulos. Um burrico faz um belo mulo numa égua; mas a natureza detém-se aí, e [527] o mulo não tem o poder de gerar. Por que, pois, a Providência lhe deu o instrumento da geração? Diz-se que ela nada faz em vão: contudo, o instrumento de um mulo torna-se a coisa mais inútil do mundo. Sucede, aliás, com as partes do mulo o mesmo que com as mamas dos homens; essas mamas são muito inúteis, e só servem para figurar.» Davi chorou muito a Amnom e não ocultou que reprovava Absalão por tê-lo matado; por isso Absalão [528] exilou-se de Israel: refugiou-se no reino de Gesur, cujo soberano, o rei Talmai, era seu avô materno. Permaneceu três anos nesse asilo. (2 Samuel 13:37-38) Joabe usou de habilidade para fazer chamar Absalão de volta; conseguiu-o bem ou mal e reconduziu-o a Jerusalém (2 Samuel 14:23); mas Davi não quis que o filho comparecesse diante dele. «Ora, não havia em todo o Israel homem mais formoso do que Absalão; não tinha o menor defeito, desde os pés até a cabeça; e quando mandava cortar os cabelos (o que lhe sucedia uma vez por ano, porque então o peso da sua cabeleira o incomodava demais), pesava-os, e verificava-se que o seu peso chegava até duzentos siclos.
251. Absalão, outro filho de Davi, fica sabendo do crime de Amnom. Além disso, Absalão teve três filhos e uma filha, a quem chamou Tamar e que se tornou uma mulher muito formosa. Mas importa sobretudo saber que ele permaneceu em Jerusalém dois anos inteiros sem ver o rei, seu pai. Depois, mandou dizer a Joabe que viesse ter com ele, para lhe rogar que o repusesse de todo nas boas graças do rei; mas Joabe não quis vir à casa de Absalão. Chamado segunda vez, recusou-se de novo a vir. Absalão disse então à sua gente: Não ignorais que Joabe possui um campo de cevada junto ao meu; ide, pois, e ponde-lhe fogo. E a gente de Absalão incendiou a seara do general em chefe dos exércitos de Davi. Então Joabe veio ter com Absalão, à sua casa, e disse-lhe: Por que os teus criados puseram fogo à minha cevada? Absalão lhe respondeu: Mandei-te rogar que viesses ver-me, a fim de me reconciliar com o rei, meu pai, e tu não te incomodaste; não valia a pena, na verdade, ter-me trazido de Gesur! mais valeria que eu ainda lá estivesse! Agora, pois, peço-te, faze-me ver o rei; se ele ainda achar alguma iniquidade, pois bem, que me mate! Joabe relatou essas palavras a Davi, que mandou então chamar Absalão; e, tendo-se Absalão posto de joelhos diante do rei, o rei o beijou.» (2 Samuel 14:25-33) Se essa conduta de Absalão para com Joabe é menos horrível do que o resto, é, em contrapartida, excessivamente grotesca. Nunca, fora da Bíblia, alguém se lembrou de incendiar as cevadas de um general em chefe, de um primeiro-ministro, para ter uma conversa com ele; é um meio esquisito de obter audiências!... [529] «Depois disso, Absalão mandou fazer carros; ajuntou cavaleiros e cinquenta homens que marchavam diante dele (2 Samuel 15:1)... E fez uma grande conjuração, prometendo a todos fazer justiça; e Absalão ligava assim a si os corações dos israelitas (v. 6)... E, quarenta anos depois, Absalão disse um dia a Davi: É preciso que eu me ausente; porque tenho de ir a Hebrom para cumprir um voto que fiz a Jeová, no tempo em que habitava em Gesur. O rei lhe respondeu: Vai-te em paz. Foi, pois, Absalão a Hebrom. E Absalão fez publicar em todo o Israel, ao som da trombeta, que fora estabelecido rei em Hebrom. E duzentos homens de Jerusalém, que ele arrastara consigo, estavam com ele em Hebrom, na simplicidade do seu coração, nada sabendo dessa conjuração (v. 7-11) ... Então Davi disse aos seus oficiais que estavam com ele em Jerusalém: Vamo-nos, fujamos bem depressa, para que Absalão não venha apoderar-se das nossas pessoas e nos faça devorar pela boca do seu gládio. Os seus oficiais lhe responderam: Estamos prontos a fazer tudo o que achares bom. Saiu, pois, o rei Davi de Jerusalém com toda a sua gente, marchando com os seus pés, deixando somente dez das suas mulheres para guardarem a casa; e todo o povo o seguiu, até o lugar muito afastado onde ele se deteve; depois, retomaram a marcha, afastando-se sempre, todos os seus oficiais e os seus servos fazendo caminho junto dele; e as tropas dos quereteus, dos peleteus e seiscentos geteus marchavam a pé diante do rei.» (2 Samuel 15:14-18)
253. Fuga de Davi. (a caixa debaixo do braço diz “caisse”, o caixa: o rei foge com o dinheiro) Milorde Bolingbroke conta que o general Withers (Henry Withers, c. 1651-1729, general inglês; Taxil tira a anedota de “La Bible enfin expliquée”, de Voltaire, 1776, onde as pragas vêm veladas: “par D”, “jarni D”, “Mord…”), algum tempo depois da batalha de Blenheim, onde se distinguira, ouvindo um dia o seu capelão ler essa passagem da Bíblia, arrancou-lhe o livro e atirou-o ao chão, dizendo: «Por Deus (fr. “Pardieu”, praga: a mesma que “parbleu”, mas com o nome de Deus inteiro; o que “parbleu” esconde, esta o diz)! capelão, eis aí um grande poltrão e um vil miserável, o teu Davi, por se ir embora de pés descalços com o seu belo regimento de geteus!... Ah! eu teria dado meia-volta, e, renego de Deus! (fr. “jarnidieu”, praga: “je renie Dieu” dito de corrido e meio engolido, para que a blasfêmia se perca; a variante mais branda, “jarnibleu”, põe “bleu”, azul, no lugar de “Dieu”) teria corrido sobre esse velhaco do Absalão; morte de Deus (fr. “mort-dieu”, uma das velhas pragas sobre a morte ou o corpo de Deus; nomeia Deus às claras, onde “corbleu” o esconde sob “bleu”, azul)! tê-lo-ia mandado enforcar na primeira pereira!» «E todo o mundo chorava, com grandes gritos; depois, o rei Davi passou a torrente de Cedrom, e o povo tomou o caminho que conduz ao deserto. Zadoque também estava ali, com todos os levitas que levavam a arca de Deus.» (2 Samuel 15:23-24) Mas Davi [530] fez voltar a arca a Jerusalém. «Quando Davi passou o alto da montanha, Ziba, intendente de Mefibosete, filho de Jônatas, saiu-lhe ao encontro com dois jumentos carregados de duzentos pães, de cem cestos de figos, de cem pacotes de passas e de uma pele de bode cheia de vinho. Trazia isso para o rei e a sua família. E Davi perguntou a Ziba: Onde está Mefibosete? Ziba respondeu: Ficou em Jerusalém, na esperança de que Israel lhe restitua hoje [531] o reino de seu avô Saul. Então Davi disse a Ziba: Pois bem, dou-te todos os bens de Mefibosete (16:1-4). .. Ora, tendo o rei Davi chegado, na sua fuga, até Baurim, um antigo criado de Saul, chamado Simei, saiu da sua casa e pôs-se a amaldiçoar o rei; e atirava pedras contra Davi e contra todos os seus oficiais; e todo o povo e todos os homens valentes, cercando o rei à direita e à esquerda, recebiam essas pedras. Simei gritava a [532] Davi: Vem, pois, aqui, homem de sangue! vem, que eu te apedreje, homem de Belial! (16:5-7)... Mas Davi e a sua gente seguiram o seu caminho, e Simei perseguia-os, continuando a lançar-lhes pedras, tanto e tanto que se levantava em redor do rei uma nuvem de poeira.» (2 Samuel 16:13). Os críticos fazem notar que, se o autor sagrado não tivesse sido mais que um escritor comum, teria pormenorizado a rebelião de Absalão; teria dito quais eram as forças desse príncipe; nos teria informado por que Davi, esse grande guerreiro, fugiu tão lastimosamente de Jerusalém antes que o filho lá tivesse chegado. Jerusalém era fortificada? não o era? Como é que todo o povo que segue Davi não opõe resistência alguma? É possível que um tirano tão feroz, tão impiedoso como Davi, que acaba de serrar em dois, de esmagar sob grades de ferro, de queimar em fornos de tijolos os seus inimigos vencidos, fuja da sua capital choramingando como uma criança tola, sem fazer a menor tentativa para deter a revolta de um filho criminoso?... E o incidente desse Simei, que lhe atira impunemente pedras ao longo de todo o caminho, enquanto ele está cercado de tantos homens de armas e de todos os habitantes de Jerusalém, não é uma das mais burlescas mistificações do divino pombo, inspirador do escritor?... Chegamos a perguntar se estamos sonhando, quando lemos baboseiras de tamanha tolice num livro religioso em que é preciso crer sob pena de anátema!... Quanto a esse pobre Mefibosete, filho de Jônatas e neto de Saul, como esperava reinar esse coxo dos dois pés? imaginava ele que Absalão, que acabava de levantar o estandarte da revolta para se proclamar rei, ia abdicar em seu favor e completar, para outro que não ele mesmo, a deposição de Davi?... Como, além disso, Davi, que já não tem nada, que já não pode dispor de nada, dá todos os bens do príncipe Mefibosete ao seu criado Ziba?... Fréret diz que, se esse príncipe Mefibosete tinha um intendente (o que é difícil de crer), é provável que esse intendente, representado como tão pouco fiel, não tivesse deixado, na derrocada, de se apoderar dos bens do seu amo, sem esperar a permissão de Davi. «Enquanto isso, Absalão entrara em Jerusalém, com [533] todo o povo do seu partido, e Aitofel, de Gilo, um dos conselheiros de Davi, passara-se para ele (2 Samuel 16:15)... E Aitofel dizia a Absalão: Crê-me, fornica publicamente com todas as mulheres de teu pai, que ele deixou para a guarda da sua casa, e assim, quando os israelitas souberem que fizeste a teu pai essa afronta, que é o pior dos ultrajes, só ficarão mais fortemente ligados a ti. Absalão fez, pois, estender uma tenda por cima do terraço da casa de seu pai, obrigou as mulheres de seu pai a subir ao terraço, e ali fornicou com todas, em presença do povo.» (2 Samuel 16:21-22) Os críticos quase não creem que o fato de cometer em público uma coisa tão indecente seja um procedimento muito eficaz para ligar a si um povo; recusam-se a crer também que Absalão, por mais jovem que fosse, tenha podido consumar o ato, de enfiada (fr. “coup sur coup”, locução, literalmente “golpe sobre golpe”; em francês familiar, um “coup” é também o ato sexual), com as dez mulheres de seu pai, diante de toda a população de Jerusalém. Mas o que há de mais claro é que o autor sagrado, escrevendo o livro fundamental da religião, se compraz nas mais sujas histórias; depois do incesto de Amnom, servem-nos os dez incestos de Absalão; com a santa Bíblia, só saímos das atrocidades para cair nas torpezas. Aitofel deu outro conselho a Absalão, o de escolher doze mil homens e perseguir imediatamente Davi; mas um chamado Husai aconselhou-o a fazer primeiro um apelo a todo o Israel, desde Dã até Berseba, e este último parecer afigurou-se o melhor a Absalão. Aitofel, despeitado por não ter sido escutado, estrangulou-se (2 Samuel 17). Finalmente, o partido da revolta sofreu uma derrota na floresta de Efraim, onde vinte mil soldados de Absalão foram mortos pelas tropas do rei, comandadas por Joabe. Na sua fuga, o filho de Davi, que ia montado num mulo, ficou com a cabeleira presa nos ramos de um carvalho e ali permaneceu suspenso, enquanto o mulo seguia o seu caminho. Joabe, informado, tomou três dardos e com eles traspassou Absalão. Este episódio parece bem puxado pelos cabelos (fr. “tiré par les cheveux”, locução: forçado, pouco natural; Taxil joga com Absalão pendurado pela cabeleira), não é verdade? Quanto a Davi, quando soube da morte do belo moço, derramou abundantes lágrimas e gritou repetidas vezes: «Absalão, meu filho! Meu filho Absalão! Absalão, meu filho!» O defunto não teve outra oração fúnebre. (2 Samuel 18)
254. Triste fim de Absalão. [534] Davi voltou, pois, para a sua capital; perdoou a Simei, que lhe tinha atirado pedras, e a Mefibosete, que lhe jurou que nunca tinha pensado em usurpar a sua coroa (2 Samuel 19). Houve ainda uma sedição, fomentada por um certo Seba; foi vencida também, e as pessoas em cuja casa Seba se tinha refugiado cortaram-lhe a cabeça. Por fim, havia um capitão Amasa, que Absalão tinha elevado ao posto de general; Joabe aproximou-se dele, fingindo querer-lhe bem; e, enquanto [535] conversavam, «Joabe pegou com a mão direita na barba de Amasa familiarmente, como se o quisesse beijar; e Amasa não se guardava da espada que Joabe tinha na mão esquerda; então Joabe feriu-o com ela e derramou as suas entranhas por terra». (2 Samuel 20:9-10) «Houve, no tempo de Davi, uma fome que durou três anos consecutivos. Jeová, interrogado, respondeu: É por causa de Saul e da sua casa consanguinária (fr. “consanguinaire”: a Bíblia de Ostervald traz “sanguinaire”, sanguinária; a palavra de 1904 mistura nela “consanguin”, consanguíneo, do mesmo sangue), porque fez [536] morrer gibeonitas. Então, o rei chamou os gibeonitas, para lhes falar. Ora, os gibeonitas não eram dos filhos de Israel, mas eram um resto dos amorreus, e os israelitas lhes tinham prometido deixá-los viver; não obstante, Saul tinha querido destruí-los no seu zelo, julgando servir os interesses de Israel e de Judá. Disse, pois, Davi aos gibeonitas: Que farei por vós? como vos aplacarei, para que abençoeis a herança do Senhor? Responderam-lhe eles: Não queremos nem ouro nem prata; mas, visto que Saul nos destruiu e tanto maquinou contra nós que fomos exterminados sem poder subsistir em Israel, que se nos entreguem sete homens da sua descendência, e nós os enforcaremos em nome do Eterno, no outeiro de Gibeá; porque Saul era de Gibeá, e foi o eleito do Senhor. Davi lhes disse: Pois bem, eu vo-los entregarei. Contudo, o rei não lhes entregou Mefibosete, filho de Jônatas, que tinha sido seu amigo íntimo; mas tomou Armoni e outro Mefibosete, que eram filhos de Rispa, concubina de Saul, e os cinco filhos que Mical, filha de Saul, tinha dado à luz a seu marido Adriel, o meolatita. E entregou-os aos gibeonitas, que os enforcaram na sua montanha diante do Eterno; e foram enforcados todos juntos no princípio da sega das cevadas.» (2 Samuel 21:1-9) Esta passagem da Bíblia sempre embaraçou os teólogos; porque em parte alguma se diz, na história de Saul, que esse rei tivesse feito o menor dano aos gibeonitas, e muito pelo contrário Samuel censurou-lhe constantemente, em nome de Deus, os seus sentimentos de generosidade em várias circunstâncias; ninguém esqueceu que o profeta o declarou deposto, porque ele não exterminava os povos não israelitas que viviam naquela região, tais como os amalequitas, os amorreus, os idumeus, etc. Além disso, visto que Saul era ele próprio de Gibeá, é muito natural que tenha favorecido os seus compatriotas; se tivesse massacrado aqueles habitantes de Gibeá que não eram judeus, Samuel não teria deixado de mencionar esse atentado naquele dos seus dois livros que consagra a Saul. Esse massacre, que é relatado aqui inopinadamente, depois dos fatos, dá a impressão de um pretexto mentiroso, imaginado por Davi para se livrar dos últimos descendentes [537] do seu predecessor. O episódio é tão pouco verídico, que o autor comete nele um quiproquó: foi Merabe, a sua filha mais velha, e não Mical, que Saul deu em casamento a Adriel, o meolatita (1 Samuel 18:19); quanto a Mical, quando Davi lhe foi infiel desposando Abigail e Ainoã, Saul deu-a a Palti, filho de Laís (1 Samuel 25:44), e vimos Davi retomá-la a Palti (2 Samuel 3:14-16). É possível que o autor sagrado tenha querido falar aqui de Mical e dos filhos que ela possa ter tido de outro marido que não Davi; mas é difícil admitir que um escritor, inspirado por Deus, tenha tido falta de memória a ponto de confundir o sr. Palti com o sr. Adriel, o meolatita, esposo de Merabe. Quanto à fome que assolou durante três anos o país, no tempo do rei Davi, nada foi tão comum naquele país como uma fome. Os livros santos falam muito frequentemente de fome; quando Abraão veio à Palestina, encontrou lá a fome. E veremos ainda muitas outras fomes nesse triste país, onde em todos os tempos houve mais pedregulhos do que vegetação. De mais a mais, causa grande surpresa saber que o próprio Deus disse a Davi que essa fome era enviada por causa de Saul, que tinha morrido tanto tempo antes, e porque Saul tinha tido más intenções contra um povo que não era o povo de Deus. Se esse episódio fosse verdadeiro, seria preciso dizer, com todos os críticos, que, dos numerosos crimes de Davi, este é o mais execrável. Não se encontra nele a desculpa de nenhum desvario passional. É uma infâmia ter mandado enforcar, sob um infame pretexto, dois filhos ilegítimos de Saul, que não eram nem podiam ser competidores; e, visto que tinha retomado Mical havia vários anos, Mical a quem, pelo contrário, tinha de pedir perdão pelos seus numerosos adultérios, Davi agia com uma crueldade ignóbil ao entregar aos gibeonitas, para serem supliciados, os filhos que a sua esposa tivera de outro, na época em que ele a abandonou por Abigail e Ainoã. À infâmia junta-se o absurdo: com efeito, ele entrega esses sete inocentes a um povo pequenino que não devia de modo algum ser de temer, visto que então se supõe Davi vencedor de todos os seus inimigos. Há nesta ação, dizem os críticos [538] (lorde Bolingbroke, Huet, Fréret, Voltaire), não somente uma barbárie que horrorizaria os selvagens, mas uma covardia de que o mais vil de todos os homens não seria capaz. A essa covardia e a essa crueldade, Davi acrescenta ainda o perjúrio; porque tinha jurado a Saul nunca tirar a vida a quem quer que fosse da sua descendência. Se, para desculpar esse perjúrio, os teólogos vêm dizer-nos que ele não enforcou pessoalmente os filhos de Rispa e de Mical, mas que os deu aos gibeonitas [539] para os enforcarem, essa desculpa é tão covarde como a conduta do próprio Davi e aumenta ainda a sua perversidade. Para onde quer que nos voltemos, não encontramos, em toda essa santa história do ungido querido de Deus, senão a reunião de todos os crimes, de todas as perfídias, de todas as infâmias, no meio de todas as contradições. O capítulo 21 termina com a narração da derrota de quatro gigantes filisteus, um dos quais era «um homem não [540] somente extraordinário pela sua estatura, mas também porque tinha vinte e quatro dedos, seis dedos em cada mão e em cada pé.» (v. 20) O capítulo 22 contém um cântico de Davi. Outro cântico no capítulo seguinte; este nos cita alguns valorosos feitos de diversos companheiros do rei. «Benaia, filho de Joiada, homem muito corajoso de Cabzeel, assinalou-se por grandes façanhas. Matou dois dos mais poderosos guerreiros de Moabe. Matou também um egípcio, que era um homem muito formoso e que tinha uma formidável alabarda; Benaia veio contra ele com um cajado, com o qual lhe deu um golpe na mão; assim o gigante egípcio soltou a sua alabarda, que o capitão de Davi tomou muito destramente e com a qual o traspassou. Num outro dia, em tempo de neve, Benaia viu um leão enorme que rolava na neve, e Benaia não teve temor algum; o leão, na sua bola de neve (fr. “dans sa boule de neige”: a Bíblia de Ostervald traz apenas “tua un lion au milieu d’une fosse dans un jour de neige”, “matou um leão no meio de uma cova num dia de neve”; o leão que rola na neve é de Taxil, que depois zomba dele como se a Escritura o contasse), caiu no fundo de uma cova; então, Benaia desceu à cova e matou o leão. Eis o que fez Benaia, capitão de Davi, e foi ilustre entre os mais valentes.» (2 Samuel 23:20-22) É lamentável que o autor sagrado tenha descuidado de dizer em que região se passou essa aventura, verdadeiramente cômica, do leão que se enredou numa bola de neve; a neve é tão rara nos países onde vivem os leões, que Benaia teve razão em não perder tempo para matar a fera; sem isso, teria corrido o risco de ver essa neve providencial logo derretida! Desejando saber o número dos seus súditos, Davi, inspirado por Deus, disse consigo um dia: Façamos o recenseamento de Israel e Judá. Essa operação, tão longa quanto pouco folgazã, só ficou terminada ao cabo de nove meses e vinte dias (2 Samuel 24:8).
256. O recenseamento do povo. «Joabe deu o censo do povo ao rei, e verificou-se que as tribos de Israel contavam no seu seio oitocentos mil homens robustos que arrancavam da espada, e que Judá contava quinhentos mil combatentes.» (v. 9) Mal estava terminado o recenseamento, quando Davi compreendeu que, ao mandar proceder a ele, tinha cometido um grande pecado. A Bíblia não diz em que o fato dessa estatística era um ato capaz de provocar a ira de Jeová; mas mostra-nos, não obstante, papai Bom Deus muito irado. «Jeová enviou, pois, ao rei o profeta Gade, que era o adivinho, o vidente de Davi. Gade disse ao rei, da parte do Eterno: Trago três [541] coisas contra ti; escolhe uma das três, para que eu ta faça. Que queres que te aconteça? ou sete anos de fome sobre a tua terra? ou que fujas durante três meses inteiros diante dos teus inimigos vitoriosos? ou três dias de peste no teu reino? Reflete bem, e vê o que queres que eu responda a Deus, que me enviou.» (2 Samuel 24:11-13) Esta primeira parte requer algumas observações importantes. Primeiro, o próprio texto diz expressamente (v. 1) que foi Deus quem, «tendo a sua cólera acesa contra Israel, incitou Davi a fazer esse recenseamento»; ora, Deus ira-se depois ainda mais e resolve que há motivo para desencadear um flagelo, para punir o que ele mesmo mandou fazer. Eis, pois, Deus representado, uma vez mais, pela Sagrada Escritura, como inimigo do gênero humano e comprazendo-se em fazer cair os homens nas suas armadilhas. Em segundo lugar, o próprio Senhor ordenou três recenseamentos no Pentateuco. Em terceiro lugar, nada é mais útil e mais sábio, como nada é mais difícil, do que fazer o censo exato de uma nação; e não somente essa operação de Davi é prudente, mas é santa, visto que nisso ele obedece à inspiração de Deus. Em quarto lugar, todos os críticos clamam contra o exagero, a impostura, o ridículo de atribuir a Davi um milhão e trezentos mil soldados num país tão pequeno: o que daria, contando como soldados somente a quinta parte do povo, seis milhões e quinhentos mil habitantes, sem contar os cananeus e os filisteus, que acabavam muito recentemente de dar quatro batalhas a Davi, e que estavam espalhados por toda a Palestina. Em quinto lugar, o livro das Crônicas, que faz também canonicamente parte da Bíblia, e que contradiz muito frequentemente as outras obras da mesma inspiração divina, conta um milhão quinhentos e setenta mil soldados; o que subiria a um número bem mais prodigioso ainda e bem mais incrível. Em sexto lugar, os críticos pensam que há uma afetação pueril, grotesca, indigna da majestade de Deus, em enviar o profeta Gade ao profeta Davi para lhe dar a escolher um dos três flagelos durante sete anos, ou durante três meses, ou durante três dias; encontram nessa crueldade celeste uma irrisão, e não sei que caráter de conto oriental que não deveria estar [542] num livro onde se faz agir e falar Deus a cada página. Vejamos agora qual foi a escolha do rei. «Davi respondeu a Gade: Estou numa grande perplexidade; mas mais vale cair, pela peste, nas mãos de Deus, que é misericordioso, do que nas mãos dos homens. Logo Deus enviou a peste a Israel; e em três dias, desde Dã até Berseba, morreram setenta mil machos. E, como o anjo da morte estendia ainda a sua mão sobre [543] Jerusalém para devastar essa cidade, o Senhor arrependeu-se de ter enviado o flagelo, e disse ao anjo que destruía o povo: Vamos, basta agora, retira a tua mão.
257. A peste em Israel. O anjo do Senhor estava então por cima do celeiro de Araúna, jebuseu. Mas Davi, por seu lado, vendo que o anjo continuava a ferir, implorou ao Eterno nestes termos: Fui eu que pequei, Senhor; quanto a estas ovelhas, que fizeram elas? Peço-te, pois, que agraves a tua mão sobre mim e sobre a família [544] de meu pai. Então Gade veio a Davi e disse-lhe: Vai-te depressa ao celeiro de Araúna, e erige ali um altar ao Eterno.» (2 Samuel 24:14-18) Davi obedeceu; Araúna forneceu tudo o que era preciso para um sacrifício. «E o rei edificou ali um altar, ofereceu nele holocaustos, e assim a cólera de Jeová foi aplacada e a peste cessou de destruir Israel.» (v. 25)
258. Davi obtém o perdão de Deus. Passemos aos reparos dos comentadores céticos. Uma peste que extermina em três dias setenta mil machos (viros, na Vulgata) deve ter matado também setenta mil fêmeas. Parece horrível aos críticos que Deus mate cento e quarenta mil pessoas do seu povo querido, ao qual se comunica todos os dias, com o qual vive familiarmente; e isso porque Davi obedeceu ao próprio Deus e fez a coisa mais sábia do mundo. Além disso, Fréret, entre outros, pensa que o autor sagrado imita visivelmente Homero, quando o Senhor detém a mão do anjo exterminador: segundo ele, é muito provável que o autor, que ele julga ser Esdras, tivesse ouvido falar do ilustre poeta grego; com efeito, Homero, no seu primeiro canto da Ilíada, pinta Apolo descendo dos cumes do Olimpo, armado da sua aljava, e lançando as suas flechas sobre os gregos, contra os quais estava irado. Com esse episódio da peste termina o segundo livro de Samuel. O Antigo Testamento continua com o livro dos Reis. No texto original hebraico, há um só livro assim chamado; mas esse livro foi dividido em dois pela versão grega dos Setenta e pela tradução latina da Vulgata, e essa divisão, embora arbitrária, é comumente adotada pelas edições modernas da Bíblia. Há até edições que dão quatro livros dos Reis, compreendendo sob esse título os dois livros de Samuel do texto hebraico. Para a comodidade das pesquisas, adotaremos a divisão grega e latina. O relato do livro (ou dos dois livros) dos Reis começa nos últimos dias de Davi e estende-se até o meio do cativeiro de Babilônia. A tradição talmúdica atribui a redação dessa obra ao profeta Jeremias; e essa opinião, admitida pela maior parte dos rabinos e dos antigos teólogos cristãos, foi defendida ultimamente por Hävernick. Outros exegetas, notadamente Bleek, querem que tenha sido [545] Baruque, discípulo de Jeremias, quem escreveu este livro. Não nos deteremos a examinar quem tem razão nesse debate. Para os judeus, como para os cristãos, é sempre Deus quem ditou as narrações; continuaremos, pois, a colocar-nos nesse ponto de vista, respigando as pérolas divinas e fazendo sobressair tudo o que cai a justo título sob a crítica da sã razão. «Ora, o rei Davi tinha envelhecido, tendo muitos dias; e, embora se cobrisse de um grande número de vestes, umas sobre as outras, não conseguia aquecer-se. Então, os seus oficiais disseram entre si: Vamos buscar uma moça para o senhor nosso rei, para que ela se ponha a seus pés no seu leito e o acaricie; e até o nosso rei poderá provavelmente aquecer-se, se ela dormir junto dele. Buscaram, pois, em todas as regiões de Israel uma moça que fosse bem formosa, com o sangue muito quente (fr. “avec le sang très chaud”: a Bíblia de Ostervald traz apenas “une fille qui fût belle”, “uma moça que fosse formosa”; Taxil segue aqui Voltaire, mas o sangue quente é dele, como no fim “Davi não entrou nela”, onde Ostervald diz “ne la connut point”, “não a conheceu”). Assim se achou Abisague, de Suném, e a trouxeram ao rei. Essa moça era muito formosa: deitou-se com o rei, e acariciava-o; não obstante, Davi não entrou nela.» (1 Reis 1:1-4) Essa donzela-edredom é um verdadeiro achado, que faz honra à imaginação do pigeon-canard. O beneditino Dom Calmet, que cai em (fr. “couper dans”, locução de gíria, literalmente “cortar em”: vem do jogo de cartas, onde o incauto corta o baralho justamente onde o trapaceiro dobrou as cartas) todas as mais miríficas farsas da Bíblia, observa gravemente que uma moça muito bela é muito própria para reanimar um homem de setenta anos; era então a idade de Davi. Em apoio do relato sagrado, o douto religioso conta que um médico judeu aconselhou ao imperador Frederico Barba-Roxa deitar-se com rapazinhos e pô-los sobre o peito. Mas, como não se pode ter um rapazinho sobre o peito a noite toda, Dom Calmet acrescenta que se empregaram cachorrinhos para o mesmo uso. No que diz respeito à opinião emitida pelo narrador bíblico, a saber, que Davi se limitou a aquecer-se contra a jovem sunamita Abisague, pode-se supor que Salomão pouco partilhava desse parecer; com efeito, veremos mais adiante que ele mandou assassinar o seu irmão mais velho Adonias, culpado de ter pedido Abisague em casamento, como se tivesse querido desposar a viúva ou a concubina de seu pai.
259. Abisague serve de edredom ao rei. Adonias tinha por mãe Hagite, desposada por Davi [546] anteriormente a Bate-Seba, de quem ele teve Salomão. Desde a morte de Absalão, o Cabeludo, Adonias era o mais velho dos filhos régios, e considerava que a coroa lhe cabia de pleno direito; mas havia, por outro lado, uma intriga de corte para fazer reinar Salomão. Sem esperar a morte de seu pai, os dois príncipes não se acanhavam de cobiçar publicamente o trono.
255. Adonias e Salomão disputam a coroa. «Adonias dizia: Serei eu quem reinará. Tinha no seu partido Joabe, general em chefe [547] dos exércitos, e Abiatar, o sumo sacerdote. Mas outro sacrificador, Zadoque, assim como Benaia, e o profeta Natã, e Simei, e outros homens valentes não eram por Adonias. Este príncipe deu um grande festim a todos os seus irmãos e aos principais de Judá; contudo, não convidou nem seu irmão Salomão, nem o profeta Natã, nem Benaia. Então, Natã disse a Bate-Seba, mãe de Salomão: Não ouviste dizer que Adonias já se fez rei, sem que o nosso senhor Davi [548] o saiba? Vai, pois, apresentar-te ao rei, e pergunta-lhe por que Adonias se fez proclamar, e dize-lhe que ele te prometeu que teu filho seria aquele que lhe sucederia. E eu sobrevirei enquanto falares ao rei, e lhe confirmarei tudo o que tiveres dito.» (1 Reis 1:5-14) Dado que o escritor sagrado não diz que Adonias se tivesse proclamado rei, mas que esperava somente que a coroa lhe coubesse e que tinha os seus partidários, tal como Salomão tinha os seus, eis, pois, estabelecido pela própria Bíblia que o profeta Natã era um rematado mentiroso, um vil intrigante; ele organiza com Bate-Seba, a impudica viúva do assassinado Urias, um conluio para arrebatar a coroa ao primogênito, e ele, o santo homem, emprega a calúnia para ter êxito. A ordem de sucessão talvez não estivesse ainda bem fixada entre os judeus; mas era natural que Adonias, na sua qualidade de primogênito, sucedesse a seu pai, tanto mais que não tinha nascido de uma mulher adúltera, como Salomão. O seu direito era reconhecido pelas duas principais cabeças do reino, o generalíssimo e o sumo sacerdote. Salomão, pois, foi designado pelo velho rei graças a uma cabala, que recorria a mentiras. Davi acreditou na denúncia caluniosa de Bate-Seba e de Natã. «E o rei Davi disse: Chamai-me o sacrificador Zadoque e o capitão Benaia; que o profeta Natã se junte a eles; tomai convosco os oficiais da minha guarda; ponde meu filho Salomão sobre a minha mula, e conduzi-o a Giom. Ali, Zadoque e Natã o ungirão rei sobre Israel; depois, tocareis a trombeta, e gritareis todos: Viva o rei Salomão!» (1 Reis 1:32-34) Por fim, a hora da morte de Davi estava próxima. Eis o que esse rei, antes de expirar, disse, entre outras coisas, a esse filho da adúltera Bate-Seba que ele tinha feito ungir solenemente em vida: «Tu sabes o que fez outrora Joabe, que pôs sangue ao redor dos seus lombos e nos sapatos que tinha nos pés. Não permitirás que os seus cabelos brancos desçam em paz ao túmulo; conto com a tua sabedoria.» (1 Reis 2:5-6)
260. Salomão se apodera da herança paterna. «Mas eis ainda: Tens, entre os teus partidários, Simei, de Baurim, que pronunciou contra mim maldições atrozes e me atirou pedras, no dia em que eu [549] fugia para Maanaim, mas, quando voltei do Jordão, implorou o meu perdão, e, diante de todo o povo, jurei-lhe pelo Eterno que não o faria perecer à espada. Mas, agora, tu não o deixarás impune, e tu és sábio, para saber o que lhe deverás fazer; farás, pois, descer, por uma morte sangrenta, os seus cabelos brancos ao sepulcro.» (1 Reis 2:8-9) «Assim Davi dormiu com seus pais, e foi sepultado na cidade de Davi. E o tempo que reinou sobre Israel foi quarenta anos: sete anos em Hebrom, e trinta e três anos em Jerusalém.» (v. 10-11) Davi morre como viveu, diz Huet. Tem a horrível ingratidão, esse homem segundo o coração de Deus, de ordenar que assassinem o seu general em chefe, Joabe, o mais fiel dos seus capitães, aquele a quem devia a sua coroa. No seu leito de morte, perjura, com um cinismo repugnante, mesclado de hipocrisia, em relação a Simei, a quem fingiu perdoar para granjear um renome de generosidade, e a quem jurou nunca atentar contra a sua vida. Em duas palavras, é assassino e pérfido até a beira do túmulo. Quanto ao beneditino Dom Calmet, não deixa de justificar Davi, e o faz nestes termos, que merecem ser emoldurados: «Davi recebera grandes serviços de Joabe, e a impunidade que lhe concedera durante tanto tempo era uma espécie de recompensa da sua inabalável dedicação; mas essa consideração não dispensava Davi da obrigação de punir o crime, e de exercer a justiça contra Joabe.» É evidente que Joabe tinha cometido, notadamente, um grande crime, quando executou a ordem de Davi de colocar Urias no posto mais perigoso de um combate e de ali o abandonar. A Igreja absolve Davi, mas não absolve Joabe!... «Além disso, acrescenta o R. P. Calmet, as razões de gratidão não subsistiam, no que se refere a Salomão; e esse príncipe tinha um motivo particular para fazer morrer Joabe, já que este, para o excluir, conspirara para dar o reino a Adonias.» Conclusão: Davi é um santo, e Salomão é um sábio. Amém! É, pois, admirável que a Igreja cristã tenha feito questão de [550] fazer descender Jesus Cristo de Davi e de Salomão. Já vimos alguns estranhos personagens na genealogia do Messias, mas esses dois reis não são mais estranhos que todos os outros ascendentes? Se ao menos a Igreja alegasse circunstâncias atenuantes!... Mas nada disso: passa a esponja sobre todos os crimes de Davi e faz dele o mais honrado dos antepassados. Ele é [551] o modelo dos reis, e, como tal, recebe os unânimes louvores dos teólogos. É proclamado santo entre os mais santos. Os papas fazem cantar as ineptas rapsódias dele nas cerimônias do culto. Melhor ainda, a Igreja — declarou-o muitas vezes nos seus concílios — vê em Davi a imagem humana de Jesus, isto é, de Deus Filho, da segunda pessoa da divina Trindade! [552] CAPÍTULO 13
«Salomão tomou, pois, posse do trono de Davi, seu pai, e logo firmou o seu poder.» (1 Reis 2:12)
261. Salomão no trono paterno. (a tabuleta diz “Ancienne maison David, Salomon successeur”, antiga casa Davi, Salomão sucessor: uma tabuleta de loja, e a dinastia como negócio de família) Bem se pode imaginar, dados os costumes bíblicos, que o novo rei não ia tardar a desembaraçar-se de Adonias e dos dois principais chefes de Israel, que teriam querido ver a coroa recair no filho de Hagite. Adonias já não pensava na realeza, tinha posto luto por ela (fr. “en faire son deuil”, locução: dar uma coisa por perdida e resignar-se, renunciar a ela): tudo o que desejava da herança de Davi era a jovem donzela que servira de edredom ao velho rei; pois estava apaixonado por Abisague. Como única indenização pelo reino que perdera, ele, o primogênito, pelo conluio e pelas cabalas de Bate-Seba e de Natã, pedia a bonita criada que aquecera o seu pai nos seus últimos dias. Esse amor, que não tinha importância alguma, serviu de pretexto a Salomão para mandar assassinar Adonias, apesar de este se mostrar bem humilde e se inclinar diante do fato consumado. Adonias, que provavelmente passava as noites sonhando com Abisague, esperava tão pouco ser morto, foi tão simples e tão ingênuo, que se dirigiu à própria Bate-Seba para obter essa moça. «Então, Adonias, filho de Hagite, veio a Bate-Seba, mãe de Salomão. E ela lhe disse: Vens com boas intenções? Ele respondeu: Venho com boas intenções. E acrescentou: Tenho uma palavra a dizer-te. Ela lhe disse: Fala. Adonias exprimiu-se assim: Tu bem sabes que a coroa me cabia, como ao primogênito, e que todo o Israel esperava ver-me reinar; mas a coroa foi transportada para a cabeça de meu irmão. Seja ele, pois, o rei, já que foi ungido e que o Eterno o estabeleceu. Não te peço senão uma graça: peço-te que vás ver o rei, teu filho, que nada te recusará, e que peças a Salomão que me dê Abisague, a sunamita; porque desejo fazê-la minha mulher. Bate-Seba respondeu-lhe: [553] Consinto de bom grado; falarei por ti ao rei. Assim, Bate-Seba foi ter com Salomão, que se levantou logo que ela entrou, prostrou-se diante dela, depois a fez sentar-se à sua direita. E Bate-Seba disse ao rei: Tenho uma pequena petição a fazer-te; não ma recuses. Salomão respondeu-lhe: Faze a tua petição, minha mãe, e tem por certo que não terás recusa da minha parte. Então, Bate-Seba disse: O meu desejo é que dês Abisague por mulher a teu irmão Adonias. Ao ouvir estas palavras, Salomão exclamou: Por que me pedes a sunamita para Adonias? Pede-me também o reino para ele, alegando diante de mim que é meu irmão mais velho! pede o poder para ele, para o sumo sacerdote Abiatar e para Joabe! Pois bem, juro-o pelo Eterno; que Deus me trate com todo o seu rigor, se Adonias, ao encarregar-te de me trazer estas palavras, não falou contra a sua própria vida! Tão certo como Jeová é o Deus vivo, Adonias será morto hoje mesmo.
262. Fim muito próximo de Adonias. E, tendo o rei Salomão encarregado Benaia de matar Adonias, o capitão Benaia desincumbiu-se logo da sua missão, e Adonias foi morto.» (1 Reis 2:13-25)
263. Catástrofe inesperada. Depois foi a vez de Abiatar; mas este não foi assassinado. Salomão, que sabia quanto o povo era supersticioso, não quis derramar o sangue de um sumo sacerdote; teria sido difícil para ele dizer que fora Deus quem lhe inspirara esse homicídio. «Depois, disse o rei ao sumo sacerdote Abiatar: Retira-te para a tua propriedade em Anatote, para onde te exilo, ainda que mereças a morte; mas, porque levaste a arca de Deus diante de Davi, meu pai, não te farei morrer hoje. Assim, Salomão expulsou Abiatar, para que não fosse mais sacrificador do Eterno.» (v. 26-27)
264. Salomão expulsa Abiatar. Para Joabe, nada de piedade. «Tendo estas notícias chegado a Joabe, refugiou-se no tabernáculo de Jeová; e ali se mantinha, abraçando com os seus braços as colunas do altar. Isso foi relatado ao rei, e Salomão enviou Benaia, dizendo-lhe: Vai, e mata Joabe. Entrou, pois, Benaia no tabernáculo e disse a Joabe: Sai daqui, venho matar-te. — Morrerei aqui, então, respondeu Joabe; porque não sairei do asilo de Deus. Benaia, perplexo, tornou a Salomão e deu-lhe conta da recusa de Joabe de sair do tabernáculo. E o rei disse a Benaia: Faze como te ordenei; mata-o e enterra-o [554] depois; e desse modo não serei responsável, nem eu, nem a minha família, pelo sangue inocente que Joabe derramou. O sangue das pessoas que ele matou recairá assim sobre a sua cabeça e sobre a sua posteridade, e o Senhor dará uma paz eterna a Davi, à sua semente, à sua casa e ao seu trono. Benaia, pois, lançou-se sobre Joabe no tabernáculo e o matou; após o que, sepultou-o no deserto.» (1 Reis 2:28-34) Se é possível acrescentar, observa Voltaire, um crime novo [555] às perversidades com que Salomão começa o seu reinado, ele lhes acrescenta um sacrilégio. Se há alguma coisa estranha depois de tantos horrores, é que Deus, que fez perecer cinquenta mil e setenta homens por terem olhado para dentro da sua arca, não vingue esse cofre sagrado, sobre o qual foi degolado o maior capitão dos judeus, a quem Davi devia a sua coroa. Continuemos. «Então o rei estabeleceu Benaia à frente [556] do exército, em lugar de Joabe, e constituiu sumo sacerdote o sacrificador Zadoque, em lugar de Abiatar.» (1 Reis 2:35) «O rei mandou também dizer a Simei: Edifica-te uma casa em Jerusalém, e habita nela, sem jamais sair da cidade; se dela saíres, se passares a torrente de Cedrom, far-te-ei matar sem remissão. Simei respondeu: Esta ordem é muito justa. Assim, habitou em Jerusalém. Mas aconteceu, ao cabo de três anos, que dois criados de Simei fugiram para a casa do rei de Gate. Simei cilhou logo o seu jumento e partiu para Gate, a fim de recuperar os seus bens; e depois trouxe de volta a Jerusalém esses servos infiéis (1 Reis 2:36-40)... E Salomão, tendo sabido a coisa, ordenou a Benaia que fosse matar Simei; assim morreu Simei. E o reino foi firmado nas mãos de Salomão.» (v. 46) O livro dos Reis informa-nos em seguida que Salomão se aliou ao rei do Egito e que este lhe deu a sua filha em casamento. Naturalmente, a Bíblia cala o nome do monarca egípcio, ou, para melhor dizer, designa-o, como sempre, sob o nome de Faraó, que não é um nome, mas o título geral dos reis do Egito. As bodas realizaram-se em Jerusalém. Naquele tempo, Salomão construía para si um palácio, começava a edificação do templo, e cercava de muralhas a sua capital. Enquanto esperava que o templo fosse acabado, o rei ia fazer as suas devoções em Gibeão, onde se achava o santuário mais importante do reino. Ali Jeová lhe concedeu a sabedoria, num sonho.
265. Casamento de Salomão. O episódio é bastante curioso. «O Eterno apareceu a Salomão, em Gibeão, em sonho de noite; e Deus lhe disse: Pede-me o que queres que eu te dê. E Salomão, que dormia (fr. “qui dormait”: a Bíblia de Ostervald traz apenas “Et Salomon répondit”; o sono, aqui e no versículo 10, é acréscimo de Taxil, mas o sonho está no texto, “en songe de nuit”, “em sonho de noite”, e Salomão despertou, de modo que o argumento se mantém), respondeu: Tiveste uma grande benevolência para com o teu servo Davi, meu pai, porque ele andava nos caminhos da verdade, da justiça, e tinha um coração cheio de retidão; pelo que lhe deste um filho que está assentado no seu trono hoje. E agora, ó Eterno, meu Deus, agora que me fizeste suceder a Davi, não sou senão um menino pequeno, incapaz de discernir como é preciso conduzir-se; e estou à frente de um grande povo, tão numeroso pela sua multidão, que não se pode contar. Dá-me, pois, um coração inteligente para julgar o teu povo e para [557] discernir o que está bem e o que está mal. Ora, o Eterno ficou agradavelmente tocado pelo que Salomão lhe respondera no seu sono, e disse-lhe ainda: Porque acabas de me falar assim, e não me pediste nem uma longa vida, nem riquezas, nem matar os teus inimigos, mas me pediste inteligência e equidade, pois bem, concedo-te segundo as tuas palavras: dou-te um coração sábio e inteligente, de sorte que jamais homem, nem antes de ti nem depois de ti, terá sido nem será semelhante a ti; além disso, dou-te o que não me pediste, as riquezas e a glória, e nenhum rei te igualará em glória e em riquezas; de mais a mais, se andares nos meus caminhos, observando os meus mandamentos, como Davi, teu pai, neles andou, prolongarei a tua vida por muitíssimo tempo. Então Salomão despertou, e eis muito veridicamente qual fora o seu sonho.» (1 Reis 3:5-15)
266. Jeová concede a sabedoria ao filho de Davi. O texto oficial, que a Igreja declara autêntico, não deixa nenhuma dúvida: trata-se mesmo de um sonho. Deus, que não esperava que Abraão, Jacó e outros estivessem adormecidos para lhes aparecer, só se manifesta a Salomão num sonho. Seja. Então, como se soube? Foi, pois, Salomão quem contou o seu sonho a algum outro judeu? De um para outro, esse relato de um sonho chegou até o autor do livro dos Reis, o qual vivia no tempo do cativeiro de Babilônia?... Bizarro, não é? Os teólogos nos dirão — é uma das suas teses favoritas — que a aparição de Deus num sonho não deixa de ser uma manifestação divina; a Igreja admite sonhos divinos e sonhos diabólicos; o sonho de um homem pode ser, afirmam os sacerdotes, o resultado de uma ação sobrenatural, em certos casos, e de modo nenhum o efeito do acaso. Pois bem, aceitemos por um instante essa tese. Deus manifestou-se realmente a Salomão; mas isso não impede que Salomão estivesse adormecido e, por conseguinte, inconsciente de tudo o que podia dizer ou fazer no seu sonho. Se o próprio papa sonhasse, uma noite, que é paladista (adepto do paladismo, maçonaria luciferiana inventada pelo próprio Taxil, cujos pretensos ritos consistiam notadamente em apunhalar hóstias) e que trespassa hóstias a grandes golpes de punhal, nenhum dos seus cardeais pensaria em acusá-lo disso como de um crime. Se Salomão, no seu sonho, tivesse escolhido a glória e as riquezas, isso não teria tido a menor consequência; nada é mais evidente. Seria compreensível que Deus, depois de lhe ter feito [558] perguntas, lhe tivesse deixado tempo para despertar, e que então Salomão, impressionado pelo sonho e vendo nele uma manobra de estratégia celeste, tivesse deliberado, consultando a sua consciência, o que tinha a responder; a sua resposta de homem acordado, escolhendo a sabedoria e desdenhando o resto, teria tido mérito. Já que sonhava, a sua resposta, portanto, não conta; e, no entanto, o impagável Jeová ficou encantado com ela. Eis o que é mais bizarro que tudo! [559] Assim dotado da sabedoria, pedida e recebida num sonho, Salomão não ia tardar a espantar os israelitas com uma justiça admirável, guiada pela mais maravilhosa inteligência. Todos conhecem o seu julgamento das duas mães; o único fato, aliás, que a Bíblia cita como prova dessa extraordinária sabedoria. Duas mulheres deram à luz, com três dias de intervalo, no mesmo quarto de uma estalagem; uma das crianças morreu; uma das mães acusa a outra de [560] lhe ter tirado, durante a noite, o seu filho, que está vivo, e de tê-lo substituído junto dela pelo cadáver do seu próprio filho, sufocado por descuido. Esse caso embaraçoso é submetido ao rei, por ocasião do seu regresso a Jerusalém. A mãe, acusada de substituição, defende-se gritando que é mentira, e jura que a criança viva, trazida por ela ao tribunal, é mesmo a sua; a outra jura, com o mesmo ardor, que disse a verdade e reclama a criança. Então, Salomão manda trazer uma espada e ordena que partam a criança em dois e que deem uma metade a cada uma das duas mães. Grito de compaixão da verdadeira mãe, que, não querendo ver matar o seu bebê, reclama agora que o deixem àquela que o tirou dela; esta, pelo contrário, trai-se por estas palavras: O rei julgou bem; a criança não será nem tua, nem minha, que a partam! Ora, a ordem de Salomão não era, no seu espírito, senão uma prova. Pronuncia, pois, o julgamento definitivo, restituindo a criança viva à sua verdadeira mãe (1 Reis 3:16-28).
267. Célebre julgamento de Salomão. Todos os fiéis se extasiam quando, no decurso de um sermão, o pregador cita essa anedota. Sem ter necessidade de recorrer à terrível prova da partilha da criança em dois, Salomão só teria tido de apelar para a primeira parteira que aparecesse, a qual teria indicado, sem a menor dificuldade, qual era a criança nascida na véspera e qual era aquela cujo nascimento remontava já a quatro dias. Mas não sejamos implicantes, e saudemos a sabedoria do filho de Davi. Diremos apenas que as anedotas desse gênero se revolvem às pazadas, e que sempre houve, em todos os tempos e em todos os países, magistrados, perspicazes sob uma aparência de bonomia, e até simples juízes de aldeia, que teriam dado pontos a Salomão. Limitemo-nos a citar dois casos, pelo menos tão divertidos quanto o da partilha da criança em dois; contudo, os juízes de que se trata não tinham recebido de Jeová o dom da sabedoria num sonho! Um homem tinha subido ao mais alto do campanário de uma igreja para ali consertar alguma coisa. Teve a infelicidade de cair lá de cima; mas, ao mesmo tempo, teve a sorte de não sofrer mal algum. Em contrapartida, a sua queda foi funesta a um homem que ele esmagou ao cair. Os parentes do esmagado, [561] morto instantaneamente, citaram perante o bailio o homem que caíra do campanário; acusavam-no de assassínio e queriam fazê-lo condenar, se não à morte, pelo menos a formidáveis perdas e danos. A causa foi pleiteada; era preciso conceder alguma satisfação aos parentes do morto. Por outro lado, o bailio não julgava que devesse, em consciência, punir, fosse de que maneira fosse, um homicídio não só involuntário, mas que, além do mais, fora unicamente o resultado inesperado de um acidente dos mais lamentáveis. O nosso bailio, conta-se, ordenou àquele dos parentes do defunto que era o mais encarniçado nessa demanda, que mais alto clamava por vingança, que subisse, por sua vez, ao alto do campanário e se deixasse cair de lá sobre o demandado, homicida involuntário, o qual seria obrigado a encontrar-se precisamente no mesmo lugar onde o defunto perdera a vida. Inútil dizer que o litigante rabugento desistiu, ali mesmo, da sua absurda demanda. O segundo caso a reproduzir aqui por curiosidade é de um magistrado pagão. Um jovem grego, tomado de amor pela cortesã Teógnis, propusera-se oferecer-lhe uma forte quantia, a fim de tê-la por amante. Ora, enquanto se ocupava de reunir o dinheiro da sua oferenda, sonhou uma noite que possuía Teógnis e gozava dos seus encantos; mas, ao despertar, achou-se ridículo por ter estado a ponto de se endividar pela bela, e o resultado das suas reflexões foi o completo esfriamento da sua paixão. Como contou aos amigos o seu projeto, o seu sonho e a sua renúncia a tornar-se o amante de Teógnis, a cortesã, melindrada por ele se recusar a dar seguimento à sua promessa, fê-lo chamar perante o juiz, pedindo para ser paga: tinha direito, dizia ela, à quantia que o jovem se propusera oferecer-lhe, já que ela tinha ao mesmo tempo curado a sua paixão e satisfeito o seu desejo. O juiz, sem ser Salomão, proferiu uma sentença diante de cuja sabedoria os nossos tonsurados não podem senão inclinar-se: ordenou, esse pagão a quem Jeová, no entanto, não iluminava com as suas luzes, ordenou... que o jovem grego trouxesse numa bolsa a quantia prometida, que a lançasse numa bacia, e que a cortesã se pagasse com o som e a cor das moedas de ouro, do mesmo modo que o seu ex-apaixonado gozara de um prazer imaginário. [562] Apostemos que, se o Espírito Santo, que gosta das historietas picantes, tivesse pensado nessa, a teria feito figurar na Bíblia, pondo-a no ativo da sabedoria de Salomão! Depois da anedota do julgamento das duas mães, o livro dos Reis passa à enumeração dos principais oficiais de Salomão; o leitor não nos levará a mal se lhe pouparmos essa fastidiosa nomenclatura: em contrapartida, há algumas [563] coisas bonitas na exposição, que vem a seguir, da glória e das riquezas do filho de Davi. «Judá e Israel eram como a areia que está à beira do mar, tão numerosos eram; e eram felizes, comendo e bebendo com abundância, e alegravam-se. Naquele tempo, Salomão tinha sob o seu domínio todos os reinos desde o Eufrates até os filisteus e até a fronteira do Egito, e os reis dessas terras [564] lhe traziam tributos, pois lhe foram sujeitos todo o tempo da sua vida.» (1 Reis 4:20-21) Aqui a patranha do Espírito Santo é um pouco forte demais, visto que já não estamos nas épocas extremamente remotas sobre as quais os historiadores não têm nenhum dado: ora, quem jamais ouviu dizer que judeus tenham reinado do Eufrates ao Mediterrâneo? É verdade que o banditismo lhes valeu um pequeno país no meio dos rochedos e das cavernas da Palestina, desde o deserto de Berseba até Dã; mas não está estabelecido em parte alguma que Salomão tenha conquistado pela guerra, ou adquirido de uma maneira qualquer, sequer uma légua de terreno. Pelo contrário, era o rei do Egito quem possuía grandes domínios na Palestina; vários cantões cananeus não obedeciam a Salomão: onde está, pois, esse pretenso poderio? «E havia para a mesa de Salomão, cada dia, trinta muids (antiga medida francesa de capacidade, variável segundo a mercadoria: em Paris, 268 litros para o vinho, mas perto de 1.900 para o trigo) de flor de farinha e sessenta muids de farinha comum, dez grandes bois cevados e vinte bois trazidos das pastagens, cem carneiros, e grande quantidade de cervos, de corços, de búfalos e de aves de toda espécie.» (v. 22-23) Puxa! que Gargântua (o gigante de Rabelais, proverbial pelo seu enorme apetite)!... Os oficiais que Salomão se dignava convidar para a sua mesa não corriam o risco de morrer de fome com semelhante menu!... Alguns teólogos, embaraçados por esses exageros manifestos (noventa muids de farinha e trinta bois por dia, sem contar o resto!), insinuaram que Salomão, imitando os reis de Babilônia, alimentava os seus oficiais, e que isso está subentendido no texto sagrado. O mal é que um rei judeu era, comparado com um rei de Babilônia, alguma coisa como o rei de Yvetot (o senhor de um minúsculo domínio que se dava o título de rei; a expressão já era proverbial em Voltaire, de quem Taxil retoma aqui a frase, e a canção de Béranger, de 1813, popularizou-a) diante do rei da França. «Salomão tinha também quarenta mil estrebarias para os cavalos dos seus carros, e doze mil cavalos de sela.» (v. 26) Estas quarenta mil estrebarias valem ainda mais que os noventa muids de farinha! É verdade que Dom Calmet diz que é preciso traduzir éguas, e não estrebarias. Não o contrariemos por tão pouco: passem as quarenta mil éguas de Salomão!... «E a sabedoria de Salomão excedia a sabedoria de todos os orientais e de todos os egípcios; era mais sábio que [565] todos os homens, mais sábio até que Etã, o ezraíta, e que Hemã, e que Calcol, e que Darda. Além disso, é bom saber que compôs três mil parábolas e mil e cinco cânticos.» (v. 30-32) Naturalmente, nunca ninguém pôde dizer quem eram esse Etã, esse Hemã, esse Calcol e esse Darda, postos tão inopinadamente em comparação com Salomão e citados pelo autor sagrado, com um descaramento imperturbável, como se se tratasse de ilustres personagens, reputados no mundo inteiro pela sua sabedoria sem par. Essa mania de citar célebres desconhecidos, que se manifesta de tempos em tempos na Sagrada Escritura, é uma das marcas mais características desse espírito de farsa levada ao extremo que parece, ao observador imparcial, ser o verdadeiro inspirador da Bíblia. Quanto às três mil parábolas e aos mil e cinco cânticos, restam alguns que se atribuem a esse Salomão. Prouvera a Deus, diz Voltaire, que esse rei tivesse sempre feito odes hebraicas, em vez de assassinar o seu irmão! Chegamos ao famoso templo de Jerusalém, que Salomão levou sete anos para edificar (1 Reis 6:38); esse grande negócio ocupa quatro capítulos do primeiro livro dos Reis. Vamos passar rapidamente revista ao essencial. «Hirão, rei de Tiro, enviou os seus servos a Salomão, tendo sabido que ele fora ungido rei como sucessor de Davi, seu pai. E Salomão mandou também dizer a Hirão: Formei o projeto de edificar uma casa ao meu Deus, Adonai; pelo que, ordena, pois, aos teus servos que cortem para mim cedros do Líbano; porque tu sabes que não tenho um só homem entre o meu povo que conheça a arte de cortar madeira como os sidônios... Deu, pois, Hirão a Salomão madeira de cedro e madeira de abeto, quanta quis; e Salomão deu a Hirão, para o alimento da sua casa, vinte mil muids de trigo por ano, e vinte mil muids de azeite puríssimo cada ano... O rei Salomão escolheu em Israel trinta mil obreiros, que iam por turnos ao Líbano, dez mil de cada vez, enquanto os outros descansavam; e Adonirão estava à frente desses obreiros. Salomão tinha também setenta mil serventes e carregadores, oitenta mil cortadores de pedra, e três mil e trezentos intendentes das obras... E os pedreiros de Salomão, [566] com os de Hirão, lavraram e prepararam a madeira e as pedras para edificar o templo.» (ch. 5) «Ora, esta casa, que o rei Salomão edificou a Jeová, tinha sessenta côvados de comprimento, vinte de largura e trinta de altura (equivalendo o côvado judeu a 52 centímetros, como o côvado do Egito, o monumento tinha, pois, segundo o texto bíblico, 31 metros de comprimento, 10 e meio de largura, e 15 e meio de altura)... O rei mandou fazer no templo [567] janelas laterais, largas por dentro e estreitas por fora; e fez sobre a muralha do templo andaimes em redor; a andaimaria de baixo tinha cinco côvados de largura, a do meio tinha seis côvados de largura, e a largura da terceira andaimaria, a de cima, era de sete côvados; e colocou vigas em redor, a fim de que não tocassem na muralha; por fim, construiu-se, por cima de toda a casa, um andar superior, que tinha cinco côvados de altura... [568] Colocou também o oráculo dentro do templo, para o fundo, para ali pôr o cofre da aliança do Eterno; o oráculo tinha vinte côvados de comprimento, vinte de largura, e vinte de altura... Fez, no oráculo, dois querubins de madeira de oliveira, que tinham cada um dez côvados de altura; uma asa de querubim tinha cinco côvados de comprimento, e a outra asa tinha também cinco côvados.» (ch. 6)
268. Salomão edifica um templo a Jeová. (a casa traz o letreiro “Asile pour les vieillards”, asilo para velhos: o templo como asilo para o velho papai Bom Deus) «Salomão mandou construir também o seu palácio, cuja edificação durou treze anos... tinha mandado vir de Tiro um chamado Hirão, filho de uma mulher viúva, da tribo de Naftali, e cujo pai era um tírio, que trabalhava em cobre; esse homem era muito perito, inteligente e sábio para fazer toda sorte de obras de bronze; veio a Salomão e fez-lhe toda a sua obra... Ele levantou as colunas de bronze, colocadas no pórtico do templo, a da direita, que se chamou Jaquim, e a da esquerda, que se chamou Boaz... Fez também uma grande bacia de fundição, chamada o Mar de Bronze, que tinha dez côvados de uma borda à outra e que era toda redonda; essa bacia estava assente sobre o dorso de doze bois, que tinham o traseiro voltado para dentro... Assim, toda a obra que Salomão fez para a casa de Jeová foi acabada.» (ch. 7) «Quando o templo foi acabado, os sacrificadores levaram a arca da aliança ao oráculo da casa, ao lugar santíssimo, debaixo das asas dos querubins; porque os querubins estendiam as asas por cima da arca e das suas barras de suporte... Depois, o rei e todo o Israel imolaram vítimas em número tão grande que se não podia contar, para celebrar a dedicação do templo a Jeová; e no sacrifício que ele mesmo fez ao Senhor, Salomão degolou vinte e dois mil bois gordos e cento e vinte mil carneiros. Assim o rei e todos os filhos de Israel dedicaram a casa do Eterno.» (ch. 8)
269. Salomão sacrifica em pessoa. Todos os pormenores dados nesses quatro capítulos são de um exagero tal que se pergunta, ao lê-los, se não era o Garona (o grande rio dos gascões, tidos por fanfarrões; o Cedrom não passa de um riacho), em vez do Cedrom, que corria naquele tempo em Jerusalém. Essa divina descrição derrete-se como neve ao sol, logo que se procede ao menor exame. Cento e oitenta e três mil e trezentos homens são empregados, sem contar os pedreiros e outros obreiros que [569] virão depois, só nos preparativos de um templo que não devia ter mais que dez metros e meio de fachada, por trinta e um metros e meio de comprimento! Esses construtores que se contam por trinta mil, por setenta e por oitenta mil, levam sete anos para edificar um monumento, de apenas três modestos andares de altura, que ocupa ao todo trezentos e vinte e cinco metros de superfície! Esses números fazem dar um salto a quem quer que tenha o mais leve conhecimento de arquitetura; são necessários, com efeito, cinquenta obreiros quando muito, para edificar em quatro ou cinco meses uma bela casa dessa dimensão. Os inumeráveis obreiros de Salomão eram, pois, uns rematados preguiçosos; ou então, apesar das suas imensas riquezas, esse rei era talvez de uma avareza sórdida, e esses obreiros, não conseguindo nunca fazer-se pagar, vadiavam quase todo o tempo, em vez de trabalhar. De mais a mais, as medidas que dá o livro dos Reis não concordam com as do livro das Crônicas, nem com as indicadas por Ezequiel, e umas e outras estão em contradição com as medidas relatadas por Flávio Josefo; as diferenças entre esses diversos autores judeus bastariam, por si sós, para inspirar desconfiança, se o texto oficial não fosse por si mesmo uma burlesca fanfarronada. Os autores também não concordam quanto à cronologia desse templo fantástico. O livro dos Reis diz que foi edificado quatrocentos e oitenta anos depois da fuga do Egito; Flávio Josefo, quinhentos e noventa e dois anos; e, entre os teólogos modernos, encontram-se vinte opiniões diferentes. Essa questão não tem importância nenhuma; mas, num livro sagrado, a exatidão não faria mal. Além disso, é difícil não segurar as costelas de riso, quando se vê a menção desses andares armados em andaimes no interior do edifício e que avançam um côvado um sobre o outro, sendo o andar inferior um metro menos largo que o andar superior; isso, deveras, é pasmoso. E as janelas laterais, que eram largas por dentro e estreitas por fora, eis mais uma coisa que não é mal achada como arquitetura engraçada! Com isso, seria difícil presumir que o superintendente dos prédios de Salomão fosse um Michelangelo ou um Bramante. A festa da dedicação do templo remata dignamente [570] o relato da construção e os apanhados desse maravilhoso monumento. Não conviria fazer amiúde semelhantes sacrifícios; mastim (fr. “mâtin !”, exclamação familiar, hoje antiquada: surpresa; o “mâtin” é um grande cão de guarda)! em breve todos estariam reduzidos à fome!
270. Grandes festas dadas ao povo. Contai para cada boi gordo quatrocentas libras de carne, eis oito milhões e oitocentas mil libras de boi, mais um milhão e duzentas mil libras de carneiro, tudo grelhado em pura perda para regalar o divino olfato de Sabaote! E esses dez milhões de libras de carne representam o holocausto de [571] Salomão! a Bíblia diz expressamente (1 Reis 8:5) que os filhos de Israel, que estavam juntos em redor do seu rei, sacrificaram, da parte deles, gado graúdo e miúdo em tão grande número que não se podia nem numerar nem contar (sic); os vinte e dois mil bois e os cento e vinte mil carneiros, degolados pelo monarca, figuram à parte, no versículo 63. Depois de tudo isso, papai Bom Deus se teria mostrado exigente, se não tivesse ficado contente!... Por isso «o Eterno [572] apareceu a Salomão pela segunda vez, como lhe tinha aparecido em Gibeão» (1 Reis 9:2); isto faria crer que essa manifestação divina se deu de novo em sonho: mas, como o filho de Davi se contentava com isso e não pedia uma aparição mais palpável, não nos ficaria bem pôr defeito nisso. A recompensa consistiu, pois, num pequeno discurso que Jeová fez ao rei enquanto ele dormia. Essa arenga pode resumir-se nestas simples palavras: se tu e o teu povo continuardes a honrar-me, tudo irá bem para vós; mas, se outros deuses que não eu receberem as tuas homenagens e as dos teus súditos, isso não ficará assim, então cuidado! (Toada já muito conhecida.)
271. Deus recompensa o grande construtor Salomão. (o edifício diz “Chalet de nécessité”, o nome dos banheiros públicos de Paris: Deus condecora o grande construtor diante de um deles) «Ora, Hirão, rei de Tiro, continuou a enviar a Salomão toda a madeira de cedro e de abeto, e todo o ouro de que ele precisava. Então, Salomão deu um dia a Hirão vinte cidades na Galileia. Hirão saiu de Tiro para vir ver essas cidades, e elas não lhe agradaram; e disse a Salomão: Meu irmão, eis aí umas pobres cidades que me destes.» (1 Reis 9:11-13) Mal se sabe onde o filho de Davi pôde ir buscar essas vinte cidades para oferecê-las ao seu amigo Hirão. Samaria não existia, Jericó não era mais que um casebre; Siquém, Betel não estavam reedificadas; só o foram sob Jeroboão. «O rei Salomão equipou também uma frota em Eziom-Geber, que está perto de Elate, na praia do mar Vermelho, na terra da Idumeia; e Hirão pôs bons marinheiros da sua frota ao serviço do rei de Israel. E a frota de Salomão, tendo ido a Ofir, trouxe de lá quatrocentos e vinte talentos de ouro para o tesouro do rei.» (1 Reis 9:26-28) Para fazer os fiéis engolirem que Salomão foi possuidor de uma frota, era necessário designar pelo menos um porto de mar que fizesse parte do seu reino. O autor não ousou colocá-lo nas margens do Mediterrâneo; porque todos os portos dessa região pertenciam então aos fenícios e aos filisteus e eram conhecidos demais (Gaza, Asquelom, Jope, Dor, Tiro e Sidom); imaginando o porto de Eziom-Geber, no fundo do golfo de Elate, que fica a leste da península do Sinai, no mar Vermelho, o farsante sagrado não corria o risco de que jamais se descobrisse que essa cidade marítima fazia parte de [573] algum outro reino: mas estamos no direito de dizer que Eziom-Geber tem, em geografia, exatamente o mesmo valor que os ilustríssimos sábios Etã, Hemã, Calcol e Darda (ver mais acima) têm na história.
272. Poderio marítimo do rei judeu: a frota de Israel. Quanto ao resultado da expedição da frota salomonesca a Ofir — país que, aliás, permaneceu impossível de encontrar, apesar das laboriosas pesquisas dos historiadores e geógrafos mais bem-intencionados —, produz um efeito lastimoso depois de todos os esplendores que acabamos de ver descritos nos capítulos precedentes. Ter equipado uma frota para receber dela, no regresso, quatrocentos e vinte talentos de ouro, é magro, meu príncipe! Sabe-se que o talento de prata equivalia em média a 5.000 francos da nossa moeda, e que, nos sistemas monetários da antiguidade, o ouro valia doze vezes e meia a prata. O que a frota régia trouxe de Ofir representa, pois, vinte e seis milhões de hoje. Que miséria para um cavalheiro que possuía quarenta mil estrebarias para os cavalos da sua corte e que se permitia o piedoso capricho de queimar cinco milhões de quilos de carne num único sacrifício! Deduzi desses vinte e seis milhões as despesas da expedição, que durou dois anos, a crer nos teólogos; o lucro líquido reduz-se a pouca coisa, e, francamente, não valia a pena citar como notável esse fato do reinado de Salomão. Meu pobre Espírito Santo, entre nós, há momentos em que decais, em que já não estás à altura de algumas das tuas patranhas cuja colossal audácia se saboreia por vezes. Para tranquilizar os nossos leitores, apressemo-nos a dizer que o divino pombo se desforrou mais adiante, no livro 2 das Crônicas, capítulo 9, importante parte do Antigo Testamento, tão santa e tão autêntica como o resto. Ficamos sabendo, ali, que «todos os reis da terra enviavam ouro a Salomão em grandes quantidades; o valor do ouro que o rei de Israel recebia cada ano era de seiscentos e sessenta e seis talentos de ouro (v. 13). O trono de Salomão era de marfim, coberto de ouro puro, e esse trono tinha seis degraus de ouro e um escabelo de ouro; havia também doze leões de ouro sobre os seis degraus do trono; e em nenhum reino jamais se tinha feito um trono tão suntuoso (v. 17-19). E toda a baixela do aparador [574] do rei Salomão era de ouro; e toda a baixela do seu palácio de verão, que ficava num parque no Líbano, era de ouro fino; não havia nenhuma de prata; a prata não era estimada no tempo de Salomão (v. 20). E o rei de Israel tinha ainda navios que iam a Társis e que de lá voltavam uma vez cada três anos, trazendo a Salomão ouro, prata, marfim, pavões e macacos. Assim, o rei Salomão foi maior que todos os reis da terra, tanto em riquezas [575] como em sabedoria. E todos os reis da terra se punham em viagem para ver Salomão, a fim de ouvir a sabedoria que Jeová tinha posto no seu coração (v. 21-23)... E Salomão fez que a prata fosse tão comum em Jerusalém como as pedras, tanta havia (v. 27).» Isso, em boa hora!... Aliás, o livro 1º das Crônicas (1 Crônicas 29) assegura que Salomão tinha recebido do seu pai Davi uma herança que não era de desdenhar, talentos de ouro [576] aos milhares, dracmas de ouro, talentos de prata, de bronze, etc. Voltaire divertiu-se a fazer o total e a traduzi-lo em moeda do seu século. «O que Davi deixou a Salomão, segundo a Bíblia, diz ele, faz exatamente dez bilhões de écus, dezoito bilhões em moeda da França. O que Salomão juntou também bem podia chegar a uma soma tão forte. É cômico ver um melch, um régulo judeu, ter à sua disposição trinta e seis bilhões de libras francesas, ou nove bilhões de écus da Alemanha, ou cerca de um bilhão e meio de libras esterlinas (a libra esterlina é de 25 francos da nossa moeda). Fica-se enjoado de tantos exageros pueris; isso se parece com a Jerusalém celeste, que desce do céu no Apocalipse, e que o velho São Justino viu durante quarenta noites consecutivas: as muralhas eram de jaspe, a cidade era de ouro, os alicerces de pedras preciosas, e as portas de pérolas!» Acabamos de ver que a Bíblia nos fala de todos os reis da terra que vinham em visita a Jerusalém para admirar Salomão e trazer-lhe presentes. (2 Crônicas 9:22-24) O autor sagrado, dirão, bem poderia ter citado alguns reis conhecidos; isso teria sido de excelente efeito. Mas citações precisas, eis justamente o que era escabroso; por farsante que seja, o pombo sujeitou-se à necessidade de se manter em termos vagos, sob pena de ver a sua mistificação desmascarada. Não obstante, como era preciso mencionar pelo menos um desses monarcas viajantes (sem isso, os bons palermas dos fiéis só teriam ficado meio contentes), a santa Bíblia serviu-lhes o relato da memorável visita de uma poderosa rainha: a rainha de Sabá. O capítulo x do primeiro livro dos Reis é consagrado em grande parte a esse acontecimento, assim como o capítulo 9 do segundo livro das Crônicas. Quanto ao país de Sabá, de que essa dama era a soberana, deu lugar a numerosas discussões entre teólogos, todas tão sábias umas como as outras; infelizmente, nenhuma dessas dissertações contraditórias conseguiu fixar exatamente sob que latitude esse país se encontrava. Pois bem, «a rainha de Sabá, tendo ouvido falar de Salomão, pôs-se em viagem e veio vê-lo, a fim de pôr a sua sabedoria à prova propondo-lhe alguns enigmas para adivinhar. E entrou em Jerusalém com um mui grande séquito; [577] tinha camelos que levavam aromas e uma grande quantidade de ouro e de pedras preciosas; e, quando viu Salomão, falou-lhe de tudo o que tinha no coração. Salomão explicou sem hesitação todos os enigmas que ela lhe propôs; e, o que quer que ela pudesse imaginar de sutil e de obscuro, nada conseguiu embaraçar o rei. Então, a rainha de Sabá, vendo que Salomão era dotado de uma tão maravilhosa sabedoria, admirando a casa que ele tinha edificado a Jeová, assim como o seu palácio, agradavelmente surpreendida com as iguarias deliciosas da sua mesa, achando que tudo era magnífico, até os aposentos dos seus servos, a ordem que regulava o serviço dos seus oficiais, as vestes deles, os seus copeiros, e os holocaustos que ele oferecia no templo, ela ficou toda fora de si.
273. A rainha de Sabá propõe enigmas a Salomão. (o desenho diz “Cherchez le chat”, procurem o gato: a rainha põe à prova a sabedoria de Salomão com um passatempo de figura escondida) E disse ao rei: Na verdade, nada é mais exato do que aquilo que eu tinha sabido no meu reino acerca de ti e da tua sabedoria; não o queria crer, pelo que vim: mas vejo que não me tinham dito a metade da realidade; a tua sabedoria e a tua magnificência excedem tudo o que a fama proclama a teu respeito!» (1 Reis 10:1-7) Antes de se separar do seu anfitrião, a rainha de Sabá ofereceu-lhe objetos raros e preciosos que tinha trazido, aos quais acrescentou cento e vinte talentos de ouro (1 Reis 10:10). Da sua parte, o galante Salomão revidou cumulando-a de presentes: «Deu-lhe tudo o que ela desejou e pediu, além do que lhe deu segundo o poder que para isso tinha um rei tal como Salomão» (v. 13). Alguns comentadores facetos supõem que, entre os mimos de Salomão que ela levou para o seu país, a rainha de Sabá tinha um polichinelo na gaveta (fr. “avoir un polichinelle dans le tiroir”, locução: estar grávida; o boneco é a criança, a gaveta, o ventre).
274. Troca de presentes régios. Tanta glória havia de ser fatal a Salomão, do ponto de vista da salvação da sua alma. Deus tinha-lhe dado a sabedoria, e não a tinha retirado dele; contudo, a Bíblia indica como um começo de decadência as relações amistosas que o filho de Davi teve com os egípcios, os heteus, os amonitas, os sidônios, etc.; eram, ao que parece, más companhias.
275. Salomão começa a decair: más companhias. Depois, «o rei Salomão amou ao mesmo tempo várias mulheres estrangeiras, além da filha de Faraó, a saber, mulheres nascidas dentre as nações das quais Jeová tinha dito aos filhos de Israel: Não entrareis nelas (fr. “Vous n’entrerez point en elles, et elles ne coucheront pas avec vous”: a Bíblia de Ostervald traz “Vous n’irez point vers elles, et elles ne viendront point vers vous”, “Não ireis a elas, e elas não virão a vós”; Taxil dá às duas partes da frase um sentido sexual), e elas não se deitarão [578] convosco; porque certamente desviariam o vosso coração para seguir os seus deuses. Apesar desta proibição de Jeová, Salomão apegou-se a todas estas estrangeiras com paixão. Teve por mulheres setecentas princesas, e além disso trezentas concubinas.» (1 Reis 11:1-3)
276. Continuação da decadência régia: mulheres demais. Sem dúvida, Jeová tinha visto com muito bons olhos a poligamia de um grande número dos seus patriarcas e profetas; para lembrar só o último, é certo que Davi tinha usado largamente da permissão [579] divina. Mas, francamente, Salomão abusava. Mil mulheres, que ele amava todas com paixão, isto é, que não estavam ali unicamente para ostentação! mil mulheres, a quem, sem cessar, atirava o lenço (fr. “jeter le mouchoir”, locução: escolher uma mulher para a noite, como o sultão que, dizia-se, atirava o lenço àquela do seu harém que desejava)!... E como isso lhe devia cansar o braço!... Aconteceu, pois, o que tinha de acontecer, o que Jeová aliás sabia de antemão, na sua qualidade de Deus que conhece o futuro melhor do que ninguém: Salomão, para agradar [580] às setecentas princesas estrangeiras que eram suas esposas, sacrificou aos deuses delas; sobre uma montanha vizinha de Jerusalém, edificou um templo a Quemos, deus dos moabitas, e sobre outra montanha, um templo a Milcom e a Moloque, deuses dos amonitas; o deus dos sidônios, Astarote, recebeu também as suas homenagens (v. 4-8).
277. O cúmulo da decadência: o rei adora os ídolos. Papai Bom Deus, que, nos primeiros tempos do mundo, tinha acusado Adão e Eva, como de um crime, de terem querido aprender a discernir o bem do mal, ficara, pelo contrário, muito encantado por Salomão aspirar, antes de tudo, a possuir essa mesma ciência, e a tinha concedido a ele, acompanhando-a de mil bênçãos. Deixemos de lado o que esta mudança de maneira de ver tem de caprichoso no superlativo, num ser sobrenatural que os teólogos proclamam o infinitamente sábio, e consideremos apenas o fato, isto é: esse discernimento do bem e do mal, recusado a Adão, Salomão o possuía no mais alto grau, pela graça de Deus. A sua conduta é, pois, absolutamente incompreensível, e aqui, mais uma vez, a Bíblia se contradiz. Ou então, é preciso ver simplesmente em tudo isto uma indicação histórica: é que, naquela época, os judeus ainda não tinham culto fixo e bem determinado, e é isso o mais verossímil. Se o tivessem tido, o autor sagrado não teria contado mais acima que Jacó e Esaú desposaram mulheres idólatras; Sansão não teria desposado uma filisteia; Jefté não teria dito que o povo moabita possuía de direito o que o seu deus Quemos lhe tinha dado. Os críticos apoiam-se nessas incoerências para dizer que nenhum dos livros judeus, tais como chegaram até nós, estava então escrito, evidentemente, e que, sob esse reinado de Salomão em que os israelitas mal começam a afirmar-se como nação, era muito indiferente que o seu rei adorasse um deus sob o nome de Quemos, ou de Astarote, ou de Moloque, ou de Milcom, ou de Adonai, ou de Shadai, ou de Jeová. Seja como for, a Bíblia nos mostra Jeová muito irado. Daí: terceira aparição; desta vez, já não se diz que papai Bom Deus se mostrou em sonho. A cena é movimentada: o Eterno dirige vivos reproches ao sábio Salomão, que deixou de ser sábio sem que o dito Eterno lhe tenha tirado a sabedoria; o filho de Davi é repreendido de bela maneira (fr. “de la belle façon”, locução: rudemente; dito por ironia)! [581] «Visto que assim procedeste, diz-lhe Jeová, rasgarei o teu reino, a fim de que não seja mais teu e o darei a um dos teus criados.» (1 Reis 11:11) Papai Bom Deus está tão encolerizado que se atrapalha literalmente; pois acrescenta logo (1 Reis 11:12): «Não obstante, nada disso farei contra ti durante a tua vida; é quando o teu reino estiver nas mãos de teu filho que o rasgarei.»
278. Deus fala pela última vez a Salomão. Notai que, naquele momento, o filho de que se trata, chamado Roboão, não tinha cometido pecado algum, atendo-nos ao texto da Bíblia: se ele continua devoto de Jeová, por que fazê-lo pagar os potes quebrados (fr. “payer les pots cassés”, locução: pagar o dano que outro fez; em português se diz “pagar os pratos quebrados”), sendo Salomão o único culpado? se ele há de, uma vez no trono, cometer as mesmas faltas que o pai, será, pois, punido pelas suas próprias faltas, e nesse caso por que diz Jeová a Salomão que é o seu filho quem pagará por ele?... Seria de crer que, ao dar a sabedoria ao filho de Davi, papai Bom Deus não tinha guardado para si mesmo o menor pedaço dela. Deus acaba, pois, de declarar terminantemente a Salomão que não dividirá o seu reino em vida dele. Ora, a Bíblia acrescenta imediatamente: «O Eterno suscitou, pois, inimigos a Salomão: em primeiro lugar, Hadade, o idumeu, que era da linhagem real de Edom.» (v. 14) A breve história desse Hadade é por si mesma a contradição flagrante do que precede, e pergunta-se a que amolecimento tinha chegado o autor sagrado, para ter podido escrever o que o pombo mistificador lhe ditava. Hadade, narram-nos, era muito jovem, na Idumeia, quando Joabe, generalíssimo de Davi, veio massacrar todos os varões daquele país; teve a sorte de escapar à carnificina, com alguns servidores de seu pai, e refugiou-se no Egito. O Faraó deu-lhe asilo, tomou-lhe amizade, fez-lhe presente de uma casa e de uma vasta propriedade rural, e Hadade foi tão bem visto pelo rei do Egito que este lhe outorgou por esposa a própria irmã da rainha. A Sagrada Escritura nunca nos indicou até aqui o nome de um Faraó; mas aqui ela nos dá a conhecer o nome da soberana: é a rainha Tafnes, de quem nenhum historiador falou, será preciso dizê-lo? Pois bem, eis Hadade cunhado do Faraó. Não percais de vista, peço-vos, que tudo isto se passava sob o reinado de Davi. O autor nos conta depois que, logo que Hadade soube [582] da morte de Davi, seguida quase imediatamente da de Joabe, despediu-se do rei do Egito, voltou para a Idumeia, e foi desde então um desses inimigos de que Deus se serviu contra Salomão para puni-lo da sua idolatria. Hadade fez muito mal a Salomão (1 Reis 11:15-22). Ora, esse mesmo capítulo da Bíblia nos diz (v. 4) que foi «no tempo da sua velhice» que o filho de Davi se desviou do culto de Jeová para adorar os deuses concorrentes, e, mais adiante (1 Reis 11:42), que reinou ao todo quarenta [583] anos. Admitamos, se assim se quiser, que a devoção de Salomão para com Jeová tenha durado trinta anos e que os dez últimos anos do seu reinado tenham sido os dos seus pecados. Ou Hadade, esse flagelo de Deus, logo ele, o cunhado do Faraó, permaneceu mais de trinta anos ignorando a ascensão de Salomão ao trono, e isso seria tanto mais impossível quanto Salomão desposou, desde o início do seu reinado, a filha do rei do Egito, parenta próxima de Hadade; ou então Hadade não perdeu tempo [584] e passeou o seu ferro vingador pelo reino de Israel pouco depois de Salomão tomar posse do trono, e é o cúmulo do extraordinário que Salomão tenha sido punido pelo seu pecado trinta anos antes de tê-lo cometido. Mas eis o que é mais exato ainda: «Deus suscitou também outro inimigo a Salomão; foi Rezom, filho de Eliada. Este ajuntou tropas contra ele; tinha sido batido outrora por Davi e se refugiara em Damasco. Mas foi um inimigo terrível para Israel durante todo o reinado de Salomão, e lhe fez muito mal, além do mal que fez Hadade. Rezom, que infligiu essas derrotas aos israelitas, reinava sobre a Síria.» (1 Reis 11:23-25) Esse Rezom, rei da Síria, que causou tanto pesar a Salomão durante todo o curso do seu reinado na Judeia, demonstra, claro como três vezes um fazem três: 1º que o monarca tão sábio e a princípio tão devoto para com Jeová foi punido, enquanto era inocente, dos pecados de que havia de se tornar culpado no tempo da sua velhice; 2º que o autor sagrado se contradiz singularmente, quando diz mais acima (1 Reis 4:20-21) que Salomão reinou desde o Eufrates até o Mediterrâneo. Além disso, o genro do rei do Egito e de seiscentos e noventa e nove outros reis da terra teve uma mealha a partir (fr. “avoir maille à partir avec quelqu’un”, locução: ter uma contenda a resolver; a mealha, “maille”, era a menor moeda e não se podia partir) com os seus próprios súditos. «Jeroboão, filho de Nebate e de Zerua, que era criado de Salomão, foi também sublevado contra ele pelo Eterno. Ora, Jeroboão era um homem corajoso e forte, que o rei tinha notado entre os seus servos, quando fazia edificar Milo, e a quem desde então tinha encarregado da cobrança dos impostos nas famílias da descendência de José. E aconteceu que Jeroboão, saindo de Jerusalém, encontrou no seu caminho Aías, o profeta, que tinha naquele dia um belo manto todo novo. Estavam ambos sós no campo. Então Aías rasgou de repente o seu manto em doze pedaços logo que viu Jeroboão, e lhe disse: Toma para ti dez pedaços do meu manto; porque o Eterno me falou ontem de manhã nestes termos: Rasgarei o reino de Salomão, e darei dez tribos dele a um dos seus criados; não obstante, deixarei uma tribo a seu filho, por causa do meu fiel Davi e da cidade de Jerusalém, que escolhi dentre todas as tribos de Israel.» (1 Reis 11:26-32) [585] Já vimos um levita que cortou a sua concubina em doze pedaços, porque ela tinha morrido por ter sido violada em Gibeá, numa só noite, por setecentos maus marotos; e agora, eis um profeta que rasga o seu manto (felizmente, é só o seu manto) em doze partes, para significar a Jeroboão que Deus o autorizava a levantar um motim e que das doze tribos de Israel ele teria dez. Esse profeta Aías, observa Voltaire, poderia ter conspirado contra Salomão com o rebelde sem que isso lhe custasse um bom manto todo novo; tanto mais que o deus de Israel não dava muitos mantos aos seus profetas, pois sabe-se que o guarda-roupa deles era mal provido: pelo visto, Jeroboão, agradecido, pagou-lhe o valor do seu manto! Outra observação que não deixarão de fazer: dos três inimigos que Deus suscitou a Salomão, Jeroboão é o único que se levantou contra ele depois da sua apostasia; ora, é precisamente o único que fez fiasco. Os outros dois maltrataram bastante rudemente o filho de Davi e humilharam-no assim, dando-lhe xeque; o motim de Jeroboão, pelo contrário, não teve êxito algum. «Tendo Salomão dado ordens para matar Jeroboão, que acabava de se revoltar, este pôs-se logo em fuga e refugiou-se no Egito, onde permaneceu até a morte de Salomão.» (v. 40)
279. O amotinador Jeroboão refugia-se no Egito. Este capítulo 11 termina mencionando o falecimento do monarca das setecentas esposas e das trezentas concubinas, sem dizer se, nos seus últimos dias, ele voltou a ter bons sentimentos para com Sabaote; de sorte que os teólogos discutiram muito a questão de saber se ele está condenado ou não; as opiniões estão divididas.
280. Salomão adormece enfim para sempre. Outra lacuna muito lamentável, e que salta aos olhos, é a que resulta do silêncio guardado pelo autor sagrado sobre as numerosas bodas do glorioso rei judeu. Porque, enfim, é muito bonito dizer-nos que Salomão teve por esposas legítimas setecentas princesas estrangeiras, pertencentes às diversas famílias reais da terra, e que praticavam todas as más religiões; mas teríamos ficado contentes de ter algumas descrições dessas cerimônias nupciais e das festas que as acompanharam. Se a apostasia de Salomão durou dez anos (o que seria enorme), essas setecentas princesas, mulheres [586] legítimas, representam quarenta e seis bodas régias por ano (sic: setecentas em dez anos são setenta por ano, mais de uma por semana; o argumento só sai ganhando), isto é, aproximadamente uma por semana. Vedes daqui esse reino passando dez anos consecutivos em regozijos públicos, recepções dos soberanos sogros! e como é lamentável que o Almanaque de Gotha (fr. “Almanach de Gotha”: o anuário das casas soberanas e nobres da Europa) não tenha existido naquela época, para nos dar a nomenclatura das famílias reinantes, que então se contavam às centenas! Não se pode, por fim, encerrar a história de Salomão sem falar [587] dos quatro livros que lhe são atribuídos e que fazem parte da Bíblia: os Provérbios, o Livro da Sabedoria, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. A primeira dessas obras é uma coletânea de máximas que parecem aos nossos espíritos refinados às vezes triviais, baixas, incoerentes, sem gosto, sem escolha e sem desígnio. Eles não podem persuadir-se de que um rei esclarecido tenha composto uma coletânea de sentenças nas quais não se encontra uma só que [588] diga respeito à maneira de governar, à política, aos costumes dos cortesãos, aos usos de uma corte. Espantam-se de ver capítulos inteiros onde só se fala de vadias que vão convidar os transeuntes nas ruas a deitar-se com elas. — Revoltam-se contra as sentenças deste gosto: «Há três coisas insaciáveis, e uma quarta que nunca diz Basta: o sepulcro, a vulva da mulher (fr. “la vulve de la femme”: Voltaire, a quem Taxil cita aqui, escreve “la matrice”, a matriz, e a Bíblia de Ostervald “la femme stérile”, a mulher estéril; a palavra é de Taxil, como no Gênesis), a terra que nunca se farta de água; e o fogo, que é a quarta, nunca diz Basta.» (Provérbios 30:15-16) «Há três coisas difíceis de reencontrar, e ignoro inteiramente a quarta: o rastro da águia no ar, o rastro da serpente sobre a pedra, o rastro de um navio no mar, e o rastro de um homem numa mulher.» (v. 18-19) «Há quatro coisas que são as menores da terra, e que são mais sábias que os sábios: as formigas, pequeno povo que prepara para si o alimento durante a ceifa; a lebre, povo fraco que se deita sobre pedras; o gafanhoto, que, não tendo rei, viaja em bandos; o lagarto, que trabalha com as suas mãos e que habita no palácio dos reis.» (v. 24-28) — É a um grande rei, dizem eles, ao mais sábio dos mortais, que se ousa imputar semelhantes bobagens? (Voltaire, Dicionário filosófico.) Os Provérbios foram atribuídos também a Isaías, a Elzia, a Sebna, a Eliaquim, a Joá, e a vários outros. O Livro da Sabedoria é de um gosto mais sério. Atribuem-no a Salomão, mas também a Jesus, filho de Sirac, e a Fílon de Biblos; mas, seja qual for o autor, acreditou-se que no seu tempo ainda não se tinha o Pentateuco; porque ele diz, no capítulo 10, que Abraão quis imolar Isaque no tempo do dilúvio, e em outro lugar fala do patriarca José como de um rei do Egito. O pior é que o autor, no mesmo capítulo, afirma que se vê no seu tempo a estátua de sal em que a mulher de Ló foi mudada. O que os críticos acham pior ainda é que esse livro lhes parece um amontoado muito enfadonho de lugares-comuns; mas eles devem considerar que tais obras não são feitas para seguir as vãs regras da eloquência. São escritas para edificar, e não para agradar; é preciso até lutar contra a própria repugnância para lê-las. (Voltaire, Dicionário filosófico.) [589] O Eclesiastes, que também se põe na conta de Salomão, é de uma ordem e de um gosto totalmente diferentes. Aquele que fala nessa obra parece estar desenganado das ilusões da grandeza, cansado dos prazeres e enfastiado da ciência. Tomaram-no por um epicurista que repete a cada página que o justo e o ímpio estão sujeitos aos mesmos acidentes, que o homem não tem nada mais que o animal, que mais vale não ter nascido do que existir, que não há outra vida, e que não há nada de bom e de razoável senão gozar em paz do fruto dos seus trabalhos com a mulher que se ama. — Poderia dar-se que Salomão tivesse feito tais discursos a algumas das suas mulheres: alega-se que são objeções que ele faz a si mesmo; mas essas máximas, que têm um ar um pouco libertino, não se parecem nada com objeções, e é zombar do mundo entender num autor o contrário do que ele diz. (Voltaire, Dicionário filosófico.) Quanto ao Cântico dos Cânticos, em oito capítulos, vale a pena reproduzi-lo por inteiro. «Cap. 1. — 1. Este é o Cântico dos Cânticos, que é de Salomão. — 2. Beija-me com um beijo da tua boca, porque os teus amores são mais agradáveis do que o vinho. — 3. Por causa do cheiro dos teus excelentes perfumes, o teu nome é como um perfume derramado, e por isso as moças te amaram. — 4. Puxa-me, que corramos após ti. Quando o rei te houver introduzido nos seus gabinetes, alegrar-nos-emos e gozaremos em ti: celebraremos os teus amores mais do que o vinho. — Os homens que estão sempre retos (fr. “toujours droits”: a Bíblia de Ostervald traz “Les hommes droits t’ont aimé”, “Os homens retos te amaram”; Taxil, que reescreve todo o Cântico dos Cânticos de Ostervald, acrescenta “toujours”, sempre, para jogar com o duplo sentido de “droits”, retos e eretos, e faz o mesmo em 5:10, onde Ostervald diz “il porte l’étendard au milieu de dix mille”, “leva o estandarte no meio de dez mil”) me amaram. — 5. Oh! filhas de Jerusalém, a minha pele é morena; mas sou formosa como as tendas de Quedar e como os pavilhões de Salomão. — 6. Não considereis que sou morena, porque o sol me olhou; os filhos de minha mãe se iraram contra mim; puseram-me a guardar as vinhas, e a minha própria vinha não guardei. — 7. Dize-me, ó tu a quem ama a minha alma, onde pasta o teu rebanho e onde o fazes repousar ao meio-dia; pois por que seria eu como uma mulher errante em torno dos rebanhos dos teus companheiros? — 8. Se tu não o sabes, ó tu, a mais formosa de todas as mulheres, sai, segue [590] os rastros do rebanho, e apascenta as tuas cabrinhas junto às cabanas dos pastores. — 9. Minha grande amiga, eu te comparo aos meus cavalos que estão atrelados aos carros do Faraó. — 10. As tuas faces têm boa graça com os teus enfeites, e o teu pescoço com os colares. — 11. Far-te-emos enfeites de ouro com botões de prata. — 12. Enquanto o rei esteve sentado à minha mesa, o meu nardo deu o seu cheiro. — 13. O meu amado está sobre mim (fr. “sur moi”: a Bíblia de Ostervald traz “avec moi… entre mes mamelles”, “comigo… entre os meus peitos”; Taxil põe também a palavra familiar “tétons”, aqui “tetas”, onde Ostervald diz “mamelles”, neste versículo e nos capítulos 4, 7 e 8; Voltaire já usa essa palavra quando cita o Cântico no artigo “Salomão” do seu Dicionário filosófico) como um saquinho de mirra; passará a noite [591] entre as minhas tetas. — 14. O meu amado é como um cacho de alfena nas vinhas de En-Gedi; eu o introduzirei na minha vinha. — 15. Eis que és formosa, minha grande amiga, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas. — 16. Eis que és formoso, meu amado; oh! quantos gozos me dás! Por isso o nosso leito é verdejante! — 17. As traves das nossas casas são de cedro, e os nossos barrotes são de abeto. [592] Cap. 2. — 1. Eu sou a rosa de Sarom e o lírio dos vales. — 2. Qual é o lírio-do-vale entre os espinhos, tal é a minha grande amiga entre as moças. — 3. Qual é a macieira entre as árvores da floresta, tal é o meu amado entre os jovens. Desejei ser coberta por ele (fr. “être couverte par lui”: a Bíblia de Ostervald traz “j’ai désiré son ombrage, et m’y suis assise”, “desejei a sua sombra, e nela me assentei”; “couvrir”, cobrir, se diz do macho que se acasala, e Taxil troca também “assise”, sentada, por “couchée”, deitada) e deitei-me sob a sua sombra; e o seu fruto foi doce à minha boca. — 4. Levou-me à sala do banquete e estendeu-se sobre mim (fr. “s’est étendu sur moi”: a Bíblia de Ostervald traz “et son étendard sur moi c’est AMOUR”, “e o seu estandarte sobre mim é AMOR”; Taxil joga com a própria palavra de Ostervald e faz de “étendard”, estandarte, “s’est étendu”, estendeu-se); é o amor! — 5. Fazei-me recobrar forças com bom vinho, fazei-me um leito de maçãs; porque morro de amor. — 6. Que a sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e que a sua mão direita me acaricie ao longo de todo o corpo. — 7. Filhas de Jerusalém, conjuro-vos, pelos corços e pelas cervas dos nossos campos, que não acordeis nem desperteis aquela que amo, até que ela o queira. — 8. Ah! ouço a voz do meu amado; ei-lo que vem saltando sobre as montanhas e pulando sobre os outeiros. — 9. O meu amado é semelhante ao corço ou ao cervato das cervas; ei-lo que está detrás das nossas muralhas; olha pelas janelas, avança pelas treliças. — 10. O meu amado tomou a palavra e me disse: Levanta-te, minha grande amiga, minha toda formosa, e vem. — 11. Porque eis que o inverno passou, a chuva passou e se foi. — 12. As flores aparecem na terra, o tempo das canções chegou, e a voz da rola já foi ouvida na nossa região. — 13. A figueira lançou os seus primeiros figos, e as vinhas têm cachos e dão cheiro. Levanta-te, minha grande amiga, minha toda formosa, e vem. — 14. Pomba minha, que estás nas fendas do rochedo, nos esconderijos dos lugares escarpados, faze-me ver o teu olhar e faze-me ouvir a tua voz; porque a tua voz é doce e o teu olhar é gracioso. — 15. Apanhai-nos as raposas e as raposinhas que fazem estragos nas vinhas, desde que as vinhas têm cachos. — 16. O meu amado é meu, e eu sou toda dele; ele apascenta o seu rebanho no meio dos meus lírios-do-vale. — 17. Antes que sopre o vento do dia e que as sombras fujam, volta, meu amado, como o corço ou o cervato das cervas, sobre as montanhas entrecortadas. Cap. 3. — 1. Busquei durante a noite, no meu leito, [593] aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, mas já não o achei! — 2. Levantar-me-ei agora e rodearei a cidade, pelas encruzilhadas e pelas praças, e buscarei aquele a quem ama a minha alma. Busquei-o, mas não o achei! — 3. A guarda, que fazia a ronda durante a noite, achou-me. Não vistes, disse-lhes eu, aquele a quem ama a minha alma? — 4. Mal os havia passado, achei aquele a quem ama a minha alma; tomei-o, e não o soltarei até que o tenha levado à casa de minha mãe e à câmara daquela que me concebeu. — 5. Filhas de Jerusalém, conjuro-vos, pelos corços e pelas cervas dos nossos campos, que não acordeis nem desperteis aquela que eu amo, até que ela o queira. — 6. Quem é esta, que sobe do deserto como colunas de fumaça, em forma de palmas, perfumada de mirra e de incenso, e de toda a sorte de pós de perfumista? — 7. Eis o leito de Salomão, ao redor do qual há sessenta homens valentes, dos mais valentes de Israel. — 8. Todos manejando a espada e muito bem adestrados para a guerra, tendo cada um a sua espada sobre a coxa, por causa dos pavores da noite. — 9. O rei Salomão fez para si um leito de madeira do Líbano. — 10. Fez os seus pilares de prata e o seu leito de ouro, o seu dossel de escarlata e o interior guarnecido de amor pelas filhas de Jerusalém. — 11. Saí, filhas de Sião, e olhai o rei Salomão com a coroa com que sua mãe o coroou no dia do seu casamento e no dia da alegria do seu coração. Cap. 4. — 1. Eis que és formosa, minha grande amiga! Os teus olhos são como os das pombas, e as tranças dos teus cabelos são como um rebanho de cabras das montanhas de Gileade, que foram tosquiadas. — 2. Todos os teus dentes são como brancas ovelhas tosquiadas que sobem do lavadouro, duas a duas, e das quais não há uma que seja estéril. — 3. Os teus lábios são como um fio tingido de escarlata; o teu falar é gracioso. A tua têmpora é como uma romã debaixo das tuas tranças. — 4. O teu pescoço é como a torre de Davi, edificada com ameias, e da qual pendem mil escudos e todos os broquéis dos homens valentes. — 5. As tuas duas tetas são como os cervatos gêmeos de uma cerva, que pastam entre os lírios-do-vale. — 6. Antes que [594] o vento do dia sopre e que as sombras fujam, ir-me-ei à montanha de mirra e ao outeiro de incenso. — 7. Tu és toda formosa, minha grande amiga, e não há mancha em ti. — 8. Vem do Líbano comigo, minha esposa, vem do Líbano comigo; olha do cume de Amana, do cume de Senir e de Hermom, dos covis dos leões e das montanhas dos leopardos. — 9. Arrebataste-me o coração, minha irmã; arrebataste-me o coração com um dos teus olhos e com um dos colares [595] do teu pescoço. — 10. Quão voluptuosos são os teus amores, minha irmã, minha esposa! quão melhores são os teus amores do que o melhor vinho, e o cheiro dos teus perfumes do que nenhuma planta aromática! — 11. Os teus lábios, minha esposa, destilam favos de mel; quando passo a minha língua em volta da tua, acho-lhe um gosto de leite e de mel: e o cheiro das tuas vestes é como o cheiro do Líbano. — 12. Minha irmã, minha mulher, tu és um jardim fechado, uma nascente cerrada, uma fonte selada. — 13. [596] Os pelos que crescem em ti rescendem como um pomar plantado de romãzeiras, como um jardim onde há frutos deliciosos de alfena e o nardo de doce perfume. — 14. O nardo e o açafrão, o caniço odorante e o cinamomo, com toda a sorte de árvores de incenso, a mirra e o aloés, com as principais plantas aromáticas. — 15. Ó fonte dos jardins! ó poço de água viva e regatos que fluem do Líbano! — 16. Levanta-te, vento norte, e tu, vento do sul, sopra através do meu jardim, a fim de que o cheiro voluptuoso que dele se exala embriague o meu amado. Que o meu amado pouse nele os seus lábios, e que coma do meu fruto! Cap. 5. — 1. Vim ao meu jardim, minha irmã, minha esposa; colhi a minha mirra e as minhas plantas aromáticas; comi os meus favos com o meu mel; bebi o meu vinho com o meu leite. Amigos, regozijai-vos comigo; comei, bebei, banqueteai-vos, meus amados. — 2. Eu estava adormecida, mas o meu coração velava; e eis que ouvi a voz do meu amado, que dizia, de fora: Abre-me, minha irmã, minha grande amiga, minha pomba, minha perfeita; porque a minha cabeça está cheia de orvalho, e os meus cabelos estão molhados das gotas da noite. — 3. Estou toda nua, respondi eu; será preciso, pois, que eu torne a vestir a minha túnica? Lavei os meus pés, como os sujaria? — 4. O meu amado, então, meteu-me a mão no buraco (fr. “m’a mis la main au trou”: a Bíblia de Ostervald traz “Mon bien-aimé a avancé sa main par le trou de la porte”, “O meu amado meteu a sua mão pelo buraco da porta”; Taxil conserva a própria palavra de Ostervald e suprime a porta), através de uma fenda da minha tenda, e o meu ventre estremeceu de prazer ao seu toque. — 5. Levantei-me para abrir ao meu amado; e os meus dedos ainda todos úmidos molharam as guarnições do ferrolho. — 6. Abri ao meu amado; mas o meu amado já se tinha retirado e tinha passado adiante; busquei-o, mas não o achei; chamei-o, mas não me respondeu. — 7. A guarda, que fazia a ronda pela cidade, achou-me; bateram-me, feriram-me; os guardas das muralhas arrancaram-me o véu. — 8. Filhas de Jerusalém, conjuro-vos, se encontrardes o meu amado, que lhe direis? Dizei-lhe que morro de amor. — 9. Que é o teu amado mais que outro, ó a mais formosa dentre as mulheres? Que é o teu amado mais que outro, para que assim nos tenhas conjurado? — 10. O meu amado é branco e rubicundo; é sempre o mais reto, mesmo no meio de dez mil. — 11. A sua cabeça é como [597] ouro muito fino; os seus cabelos são crespos, pretos como um corvo. — 12. Os seus olhos são como os das pombas sobre os regatos de água corrente, lavados em leite e como engastados nos chatões de anéis. — 13. As suas faces são como um canteiro de plantas aromáticas e como vasos de cheiro; os seus lábios são como lírios-do-vale; destilam a mirra pura. — 14. As suas mãos têm anéis de ouro, com crisólitos engastados; o seu ventre é semelhante a marfim bem polido, coberto de safiras. — 15. As suas pernas são como pilares de mármore, fundados sobre embasamentos de ouro fino; o seu porte é como o Líbano, é primoroso como os cedros. — 16. O interior da sua boca é tudo o que há de mais suave; tudo nele, de resto, me torna ébria de desejos. Tal é o meu amado, tal é o meu amigo, filhas de Jerusalém. Cap. 6. — 1. Para onde foi o teu amado, ó a mais formosa das mulheres? Dize-nos para que lado se dirigiu o teu amado, e nós o buscaremos contigo. — 2. O meu amado desceu ao seu pomar, ao canteiro das plantas aromáticas para apascentar o seu rebanho nos pomares e colher lírios-do-vale. — 3. Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios-do-vale. — 4. Minha grande amiga, tu és formosa como Tirza, agradável como Jerusalém, temível como os exércitos que marcham com estandartes desfraldados. — 5. Desvia os teus olhos e não me olhes, porque os teus olhos me forçam; os teus cabelos são como um rebanho de cabras de Gileade, que foram tosquiadas. — 6. Os teus dentes são como um rebanho de brancas ovelhas que sobem do lavadouro, duas a duas, e das quais não há uma que seja estéril. — 7. A tua têmpora é como um pedaço de romã debaixo das tuas tranças. — 8. Tu tens sessenta mulheres, oitenta concubinas, e virgens sem número. — 9. A minha pomba, a minha perfeita, é única; é a única de sua mãe e particularmente amada daquela que a deu à luz; as moças viram-na e chamaram-lhe bem-aventurada; as rainhas e as concubinas louvaram-na, dizendo: — 10. Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, de escol como o sol, temível como os exércitos que marcham de estandartes desfraldados? — 11. Desci ao pomar das nogueiras, [598] para ver os frutos que amadurecem no vale, para ver se a videira se adianta e se as romãzeiras deitaram a sua flor. — 12. Volta, volta, ó Sulamita, e que te contemplemos! Cap. 7. — 1. Filha de príncipe, quão formoso é o teu andar! O contorno das tuas ancas é como colares trabalhados pela mão de um excelente artífice. — 2. O teu umbigo é como uma taça redonda, toda cheia de bebida; o teu ventre é como um monte de trigo cercado de lírios-do-vale. — 3. [599] As tuas duas tetas são como dois cervatos gêmeos de uma cerva. — 4. O teu pescoço é como uma torre de marfim; os teus olhos são como os viveiros que estão em Hesbom, junto à porta de Bate-Rabim; o teu rosto é como a torre do Líbano, que olha para Damasco. — 5. A tua cabeça está sobre ti como carmesim, e os cabelos mais finos da tua cabeça são como escarlata. O rei permanece preso na sua galeria para te olhar. — 6. Quão formosa és! quão agradável és! meu amor, minhas delícias! — [600] 7. Essa estatura que tens tem a majestade de uma palmeira, e as tuas tetas me fazem pensar em dois cachos de uva. — 8. Eu disse: Subirei à palmeira e a estreitarei nos meus braços; e as tuas tetas me serão agora como cachos de uva, e o cheiro do teu rosto será para mim como o cheiro das maçãs. — 9. E o teu paladar destilará para mim o seu doce mel, e verterás o melhor vinho ao teu amado, o vinho do amor que faz falar os lábios dos que dormem. — 10. Eu sou do meu amado; porque ele não tem senão um desejo: gozar de mim. — 11. Vem, pois, meu amado; saiamos ao campo, passemos a noite nos campos. — 12. Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, e vejamos se a videira está adiantada, se o cacho está formado, e se as romãzeiras estão em flor; ali te entregarei todos os meus amores. — 13. As mandrágoras espalham o seu cheiro, e, à nossa porta, encontra-se toda a sorte de frutos primorosos, novos e velhos que te guardei, ó meu amado! Cap. 8. — 1. Prouvera a Deus que fosses como meu irmão, que mamou os peitos de minha mãe; iria ter contigo lá fora, e te beijaria, e não me desprezariam. — 2. Levar-te-ia e introduzir-te-ia na casa de minha mãe; e tu me instruirias, e eu te daria a beber do meu melhor vinho misturado com aromas e do mosto da minha romãzeira. — 3. Eia, meu amado, que a tua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e que a tua mão direita me acaricie de novo por todo o corpo! — 4. Conjuro-vos, filhas de Jerusalém, que não acordeis nem desperteis aquela que eu amo, até que ela o queira. — 5. Quem é esta que sobe do deserto, e que se apoia docemente no seu amado? Despertei-te debaixo de uma macieira, ali onde tua mãe te concebeu, ali onde te concebeu aquela que te deu à luz. — 6. Põe-me como um selo sobre o teu coração, como um selo sobre o teu braço. O amor é forte como a morte, e o ciúme é duro como o sepulcro; os seus abraços são abraços de fogo e a sua chama é das mais veementes. — 7. Muita água não poderia apagar o nosso amor, meu amado, e nem mesmo os rios poderiam afogá-lo; se alguém desse todos os bens da sua casa para nos tirar esse amor, [601] certamente desprezaríamos a sua oferta. — 8. Temos também uma irmãzinha que ainda não tem tetas; que faremos à nossa irmã, no dia em que se falar dela? — 9. Se ela for como uma muralha, edificaremos sobre ela um palácio de prata; e, se for como uma porta, reforçá-la-emos com um entablamento de cedro. — 10. Quanto a mim, sou forte como um baluarte, e as minhas tetas são firmes como torres; pelo que tive os favores do meu amado, e o seu amor me deu a paz. — 11. Salomão tinha uma vinha, em Baal-Hamom, que vendeu aos seus guardas; cada um deles, pela sua parte do fruto, deve trazer mil peças de prata. — 12. A minha vinha, que é minha, está à tua disposição, ó Salomão! Se ela vale mil peças de prata, que as mil peças de prata sejam tuas, mas dá duzentas delas para os guardas do meu fruto. — 13. Tu que habitas nos jardins, os amigos estão atentos à tua voz; faze que eu a ouça! — 14. E agora, meu amado, foge tão depressa como um corço ou como um cervato de cerva, sobre as montanhas cheias de plantas aromáticas. Tal é, em toda a sua beleza, o famoso Schir-Haschidim (Cântico dos Cânticos) (o título hebraico é “Shir ha-Shirim”) do Antigo Testamento, sobre o qual tanto se disputou. Aos espíritos livres da superstição, parece bastante claro que essa licenciosa rapsódia, evidentemente composta para excitar a carne, não é outra coisa senão uma romança de harém oriental, ao gosto da época. Mas os teólogos, tanto os judeus como os católicos, não o entendem assim! Os primeiros sustentam mordicus (palavra latina que o francês usa como sua, literalmente “mordendo”: obstinadamente, sem largar a presa) que o amado posto em cena pelo poeta é a personificação de Jeová, e que a esposa, a grande amiga, representa a nação de Israel. Essa explicação foi longamente desenvolvida pelos comentadores no Targum, coletânea de tradições caldaicas, onde o Cântico dos Cânticos é interpretado como uma história alegórica do povo judeu desde a saída do Egito até o dia em que se manifestará o Messias e em que se construirá o terceiro templo. Para justificar essa interpretação, recorreu-se a todas as complicações que o sistema exegético do Talmude pode fornecer: a redução das palavras [602] ao seu valor numérico, a substituição dos termos homófonos, etc. Os judeus da Idade Média trabalharam consideravelmente esses primeiros ensaios, sem contudo se afastarem do dado primitivo; chegaram mesmo a atribuir a essa interpretação um valor canônico e litúrgico, dando-lhe um lugar no seu ritual. As numerosas e terríveis perseguições de que foram tantas vezes vítimas não contribuíram pouco para imprimir a essa crença um caráter de nacionalidade e [603] de individualidade muito acentuado; o poema de Salomão tornou-se, para os perseguidos, quase o paládio intelectual em torno do qual agruparam as suas esperanças e os seus votos. Contudo, ao lado dessa interpretação alegórica puramente religiosa, encontramos, entre os judeus, outra, metafísica e filosófica. Assim, no século treze, o Cântico dos Cânticos era, para Ibn Caspi, a representação alegórica da união entre o intelecto ativo, intellectus agens, [604] e o intelecto passivo ou material, intellectus materialis. Por fim, no século dezoito, Mendelssohn inaugurou uma nova escola judaica de interpretação, que, sem rejeitar inteiramente a interpretação alegórica, leva contudo em grande conta a interpretação literal; com ele, a alegoria permanecia nacional e perdia o seu sentido religioso. Quanto aos teólogos católicos, modificam de alto a baixo a explicação dos doutores judeus, e afirmam com a maior seriedade que esse poema erótico é o fruto de uma inspiração sacrossanta, um livro profético, onde o amor de Jesus Cristo pela sua Igreja e da Igreja pelo seu divino fundador, que ela considera como seu esposo, é pintado sob figuras ousadas, mas cuja obscenidade, purificada pelo seu sentido místico, só pode escandalizar os espíritos malévolos dos incrédulos. A primeira interpretação mística, nesse sentido, remonta a Orígenes, que escreveu sobre isso um volumoso comentário; por isso, é divertido constatar que a honra desse belo achado cabe a um Padre da Igreja cuja castração é quase tão célebre como a de Abelardo. Na esteira do eunuco Orígenes embarcaram todos os exegetas cristãos, toda a santa padralhada, feliz — o admirável farsante Bossuet à frente — de ter um meio pouco banal de fazer os ingênuos fiéis engolirem o mais formidável sapo bíblico (fr. “avaler… le plus formidable crapaud biblique”, da locução “avaler un crapaud”, como em português “engolir sapo”: aceitar algo que repugna). E eis, graças a esse truque engenhoso, o Cântico dos Cânticos dado, nos conventos, como meditação às religiosas contemplativas; compreende-se o efeito produzido sobre essas infelizes mulheres enclausuradas, cujo misticismo mais ou menos histérico se deleita com o pensamento de que são as esposas de Jesus Cristo, cada uma em particular, como a Igreja é a sua esposa em geral. Na sua meditação, as pobres loucas só têm de tomar o lugar da Igreja, grande amiga do amado. A fim de fixar melhor nos espíritos das crédulas ovelhas a sua interpretação de alta fantasia, os sacerdotes puseram títulos aos oito capítulos do Cântico dos Cânticos. Agora que o leitor leu o texto, apreciará o valor dos títulos acrescentados desde Orígenes pela matreirice sacerdotal. É de se torcer de riso! [605] Eis esses títulos: — Cap. 1. A esposa exprime aqui o seu amor pelo seu esposo, e o esposo o seu amor pela sua esposa. — Cap. 2. Discurso da Igreja com relação a Jesus Cristo. — Cap. 3. A busca que a Igreja faz de Jesus Cristo, e a sua alegria por tê-lo encontrado. — Cap. 4. Beleza da esposa, descrita misticamente e por expressões todas figuradas. — Cap. 5. Pesares da esposa por não ter correspondido como devia à busca do seu esposo; ela descreve a beleza do esposo. — Cap. 6. Diálogo entre Jesus Cristo e a Igreja. — Cap. 7. Outra descrição misteriosa da beleza da esposa; amor fiel da Igreja por Jesus Cristo. — Cap. 8. Amor recíproco da Igreja por Jesus Cristo, e de Jesus Cristo pela Igreja. Depois disso, puxemos a escada (fr. “tirons l’échelle”, locução: não acrescentemos mais nada, ninguém fará melhor; segundo Littré, quem subiu fez a tarefa, e ninguém mais precisa de subir depois dele), e concluamos sobre este ponto com esta apreciação de Voltaire: «Já que se considera o Cântico dos Cânticos como uma alegoria perpétua do casamento de Jesus Cristo com a sua Igreja, é preciso confessar que a alegoria é um pouco forte, e que mal se vê o que a Igreja poderia entender quando o autor diz que a sua irmãzinha não tem tetas.» (Cântico dos Cânticos 8:8) CAPÍTULO 14
O herdeiro do trono era Roboão. À primeira vista, parece que tudo devia andar como sobre rodinhas (fr. “marcher comme sur des roulettes”, locução: correr perfeitamente bem; as rodinhas são as que se põem nos móveis), já que o autor sagrado acaba de nos dizer há pouco que nunca os israelitas foram tão felizes como no reinado de Salomão, que o ouro circulava em profusão, que a prosperidade pública era tal que se andava sobre a prata nas ruas, tanta era a sua abundância... Mas o divino pombo tem a memória curta; ou então se diverte com a credulidade dos fiéis; pois nos mostra agora o povo judeu reunido em Siquém e falando nestes termos ao filho de Salomão: «Teu pai nos havia imposto cargas muito duras, que nos tornavam miseráveis; mas tu, alivia este jugo demasiado [606] pesado para nós, e nós te serviremos.» (1 Reis 12:4) Roboão consultou os anciãos que tinham sido os conselheiros de seu pai. Estes reconheceram que os impostos eram verdadeiramente esmagadores demais e foram de parecer que seria sensato diminuí-los, a fim de que a nação permanecesse ligada à família de Davi; mas o novo rei consultou também os jovens que tinham sido criados com ele: foram de um parecer inteiramente contrário. (1 Reis 12:6-10) [607] Ora, pois, quando os delegados do povo, à frente dos quais se achava Jeroboão, de volta do Egito, vieram buscar a resposta de Roboão, eis o que ele lhes respondeu: «O menor dos meus dedos é mais grosso que as costas de meu pai; se meu pai vos impôs cargas pesadas, eu tornarei o vosso jugo mais pesado ainda; meu pai vos açoitou com varas, e eu vos açoitarei com escorpiões.» (v. 10-11) [608] Esse discurso era pouco próprio para ganhar para Roboão o coração do seu povo; mas a Bíblia tem o cuidado de nos dizer que «Jeová tinha regulado tudo assim, a fim de que se cumprissem as palavras que ele havia pronunciado a Jeroboão pela boca do profeta Aías, de Siló» (v. 15). Assim, foi o próprio Deus quem inspirou aos jovens amigos do novo rei os seus maus conselhos e quem cegou Roboão a ponto de lhe fazer desfiar tais tolices! — O povo ficou, pois, muito descontente e retirou-se para as suas tendas, murmurando (v. 15). E, quando Roboão enviou o intendente dos seus tributos, chamado Adorão, para cobrar os impostos, todo o Israel abateu a pedradas o coletor régio; não foi preciso mais para pespegar um sobressalto a Roboão, que, subindo às pressas num carro, fugiu para Jerusalém (v. 18).
281. Demasiada popularidade, ou a fuga de Roboão. «E todo o Israel, sabendo que Jeroboão tinha voltado, o constituiu rei; e ninguém seguiu a casa de Davi, exceto as tribos de Judá e de Benjamim. Roboão, tendo reunido essas duas tribos, formou com elas um exército composto de cento e oitenta mil soldados de escol, prontos a combater contra a casa de Israel e a reduzi-la à obediência de Roboão, filho de Salomão» (1 Reis 12:20-21). Sempre exageros ridículos! Um miserável régulo da décima parte de uma pequena nação bárbara podia ter um exército de cento e oitenta mil homens?
282. Jeroboão é proclamado rei de Israel. «Então Deus falou a Semaías, homem de Deus, e o enviou a Roboão e às tribos de Judá e de Benjamim, para lhes dizer: O Senhor vos proíbe de vos levantardes contra vossos irmãos, os filhos de Israel; tornai, cada um para a sua casa. E obedeceram à palavra do Eterno, e tornaram pacificamente» (1 Reis 12:22-24). Eis, pois, o reino judeu dividido em dois reinos, que desde então tomaram os nomes de Israel, com Jeroboão, e de Judá, com Roboão. É de crer que Siquém, onde a nação se havia reunido para manifestar as suas queixas ao filho de Salomão, não existia como cidade; pois está dito que «o primeiro trabalho de Jeroboão foi edificar Siquém, nas montanhas de Efraim; e habitou ali; depois, saiu dali e edificou Penuel» (v. 25). Credes provavelmente que Jeroboão foi grato, ele, o ex-criado, para com Jeová, que acabava de presenteá-lo [609] com um reino? Nada disso. Apressou-se a mandar fabricar dois bezerros de ouro, e colocou um em Betel e o outro em Dã, e disse ao povo de Israel: «Dar-vos-ia demasiado trabalho ir até Jerusalém para adorar o Eterno; de resto, podeis prostrar-vos diante dos bezerros de ouro, pois são eles que vos tiraram do Egito.» E o povo de Israel não pediu mais do que isso. Jeroboão mandou construir outros templos a diversos ídolos; estabeleceu sacrificadores, que não eram tomados dentre os descendentes de Levi, e sacrificou ele mesmo (1 Reis 12:26-33).
283. O povo ajoelha-se diante dos bezerros de ouro. Se esse relato é verdadeiro, fornece uma nova prova de que a religião judaica ainda não estava fixada. Essa minúscula nação judia, como se vê, muda de culto a todo momento, desde a sua singular evasão do Egito até o tempo de Esdras. Notai, de passagem, o seu bizarro gosto pelos bezerros, como representação da divindade!... Não esquecemos que o bezerro de ouro de Arão custou vinte e três mil homens; o senhor Adonai, ou Jeová, ou Shadai, ou Sabaote, ou Jhao, devia naturalmente degolar quarenta e seis mil israelitas pelos dois bezerros de Jeroboão. Mas vamos ver outra coisa, desta vez! «Então um homem de Deus, um vidente (Flávio Josefo o chama Addo, o profeta), veio de Judá a Betel, enquanto Jeroboão tinha subido ao altar e lançava incenso; e clamou contra o altar no verbo de Deus, dizendo: Altar! altar! o Senhor declara que nascerá um dia na casa de Davi um filho que se chamará Josias e que imolará sobre ti os sacerdotes dos lugares altos que agora queimam incenso sobre ti, e queimará sobre ti os ossos dos homens. E, para provar a verdade do que anuncio, fenda-se o altar neste instante! E logo Jeroboão estendeu a sua mão para o profeta e ordenou que o prendessem; mas a mão que estendera secou-se, e ele não a pôde retirar, e ao mesmo tempo o altar se fendeu e a cinza que estava em cima se derramou por terra. Então o rei suplicou ao profeta que rogasse a Jeová que lhe restituísse o uso da sua mão; e, a rogo do homem de Deus, a mão do rei tornou a ficar viva como dantes. Então o rei disse ao profeta: Vem jantar comigo em minha casa, e dar-te-ei um belo presente» [610] (1 Reis 13:1-7). Mas o vidente Addo, que tinha instruções muito precisas de Jeová, recusou o jantar e qualquer mimo, e foi-se embora para voltar ao reino de Judá, «mas tomando outro caminho que não aquele por onde tinha vindo» (v. 10). O milagre dessa mão seca é bem pouca coisa ao lado dos que nos foram contados até agora; felizmente, vamos tirar a desforra daqui a pouco com o profeta [611] Elias. Quanto à proibição feita à gente de Judá de comer nas terras de Jeroboão, prova que esse reino de Israel não era muito extenso. Um bom andarilho podia facilmente almoçar em Samaria e cear em Jerusalém; com maior razão, um profeta, habitualmente um eremita acostumado a uma vida sóbria, podia passar sem almoçar em Betel, que ficava ainda mais perto de Jerusalém do que Samaria. «Ora, havia um velho adivinho que morava em Betel, e [612] seus filhos lhe contaram os milagres que o homem de Deus acabava de operar. Então o velho adivinho mandou que lhe mostrassem o caminho que o profeta de Judá tomara; seus filhos cilharam-lhe o jumento, e ele montou nele. E, quando alcançou Addo, que achou assentado debaixo de um terebinto, disse-lhe: És tu o homem de Deus que veio de Judá? E Addo respondeu: Sou eu. O velho adivinho tornou: Pois bem, vem então comer pão em minha casa. Mas Addo lhe respondeu: Não posso ir contigo, nem comer pão, nem beber água nesta terra; porque o Senhor mo proibiu. Então o velho adivinho lhe disse ainda: Escuta, eu sou profeta como tu, e o anjo do Senhor me trouxe a palavra de Jeová, dizendo-me que te fizesse voltar comigo a minha casa, para que comas do meu pão e bebas da minha água. Mas o velho adivinho de Betel mentia. Addo voltou, pois, com ele, e comeu pão e bebeu água em sua casa.» (1 Reis 13:11-19) Note-se que, assim que um homem se dizia profeta em Israel ou em Judá, acreditava-se na sua palavra. Vimos que havia, no tempo de Saul, profetas aos bandos. Logo que o bom velho de Betel declara a Addo que é seu colega como profeta, Addo o reconhece por tal e põe-se a comer com ele. «E aconteceu que, estando eles à mesa, uma voz se fez ouvir ao profeta de Judá, e era a voz de Jeová, que lhe gritou: Porquanto desobedeceste à ordem de Deus, que te tinha proibido de comer nesta terra, o teu corpo não será enterrado no sepulcro de teus pais. Então o velho adivinho de Betel mandou selar um jumento para o profeta de Judá, que ele fizera voltar; e Addo foi-se. Mas eis que, no seu caminho, encontrou um leão, que se lançou sobre ele e o matou.» É evidente que esse leão tinha sido enviado por Jeová; as ordens que papai Bom Deus dera à terrível fera são bastante cômicas. «E eis que o cadáver de Addo ficou estendido por terra no caminho, e o jumento estava junto dele, de um lado, e o leão também, do outro lado. E alguns passantes, tendo vindo por ali, ficaram muito espantados diante daquele espetáculo.» Não era para menos! «Voltaram a Betel e contaram o caso ao velho adivinho, e este disse: Este cadáver é o do profeta de Judá a quem menti e que desobedeceu [613] às ordens de Jeová; eis por que Jeová o entregou ao leão.» Agora, amigo leitor, que teríeis feito, se vos tivésseis achado no lugar do velho adivinho de Betel? Ter-vos-íeis bem guardado de ir disputar ao leão o cadáver do confrade profeta, não é? Addo só era culpado de ter crido na história de aparição que o velho adivinho lhe narrara, e, se tinha sido tão cruelmente punido, era verossímil que o seu enganador fosse castigado de modo mais terrível ainda. «O velho adivinho mandou os filhos selarem o seu jumento, e foi em busca do corpo do profeta de Judá; achou o cadáver estendido no caminho, com o leão e o jumento que dera a Addo, e os dois animais estavam ali de sentinela, guardando o corpo; o leão não tinha comido o corpo do profeta, nem despedaçado o jumento. Então o velho adivinho levantou o corpo de Addo e o levou de volta a Betel. Sepultou-o no túmulo da sua família, e chorou sobre ele, dizendo: Ai! meu irmão! E recomendou a seus filhos que o enterrassem, quando morresse, no mesmo sepulcro, tendo o cuidado de pôr o seu cadáver sobre as ossadas do profeta Addo.» (1 Reis 13:20-31) Tal é a desoladora história desse infeliz Addo, a quem mal se pode censurar outra coisa senão ter tido fome e ter almoçado fora de propósito num lugar em vez de noutro, fiando-se num colega em profecia que lhe contara uma patranha sacrílega e que se saiu dessa sem estorvo, ele, o felizardo! O pobre Addo, como se vê, não fez grande figura no mundo; não fosse a aventura do leão e do jumento de plantão, a posteridade o ignoraria de todo. E Jeroboão, em tudo isso?... O incidente da sua mão ressequida, depois revivida, devia bastar, ao que parece, para curá-lo da idolatria dos bezerros de ouro; além disso, que há de mais aterrador que a lastimável morte de Addo, cuja notícia ele recebeu?... Pois bem, será crível? esse imbecil do Jeroboão «não se desviou do seu mau caminho e continuou os seus sacrifícios aos falsos deuses; e todo aquele que em Israel queria ser sacerdote dos ídolos consagrava-se a isso com o favor do rei» (v. 33). É claro que tal endurecimento merecia um castigo exemplar. Quem foi atingido pela vingança divina?... Jeroboão?... [614] Não. Foi um filhinho que ele tinha, o pequeno Abias. Subitamente, o bebê adoeceu.
284. O pequeno Abias, filho de Jeroboão, está doente. Jeroboão teve uma ideia: era a ocasião, pensou ele, de consultar o profeta Aías, aquele que lhe dera dez pedaços do seu manto, para lhe predizer a sua ascensão ao trono. Aqui, a falta de lógica do rei de Israel é fantástica. Ele sabe muito bem o que esperar da onipotência de Jeová e do poder que este delega aos seus profetas; pois bem, mesmo recorrendo a Aías para [615] obter dele a cura do pirralho, planeja enganar o santo homem infalível. Jeroboão envia a rainha, sua esposa, a Siló, depois de lhe ter feito vestir um disfarce que impedirá Aías de reconhecê-la; imagina que ela só terá de falar de uma criança qualquer que está doente.
285. Jeroboão envia a rainha a consultar Aías. Eis, pois, madame Jeroboão, disfarçada, chegando a Siló; por cima do negócio, a Bíblia nos informa (1 Reis 14:4) que «o velho Aías não podia ver, pois os seus olhos se tinham tornado [616] de todo escurecidos, tanto a sua velhice era avançada». Sob todos os aspectos, o disfarce era, pois, absolutamente inútil. «E o Eterno disse a Aías: A mulher de Jeroboão vai chegar para se informar contigo acerca de seu filho, porque ele está doente. Tu lhe dirás tais e tais coisas (sic). Quando ela entrar, fingirá ser alguma outra. Logo, pois, que Aías ouviu o ruído dos sapatos da rainha, estando ela à porta, disse: Entra, entra, mulher de Jeroboão; por que te disfarçaste? Ora, já que vieste, vais ouvir as coisas muito duras que tenho para te anunciar.» (v. 5-6)
286. A rainha, disfarçada, consulta Aías, o profeta. (a tabuleta diz “Ahias prophète breveté S.G.D.G. médaillé aux expositions”: Aías, profeta patenteado sem garantia do governo, como toda patente francesa, premiado nas Exposições) Nisso, grandes discursos, amargos reproches endereçados a Jeroboão e aos seus dois bezerros de ouro, predições sinistras relativas à família real, que será despojada do trono, sem esquecer o bebê doente, objeto da consulta. «Agora, concluiu Aías, volta para tua casa; logo que os teus pés calcarem o solo da cidade, o menino morrerá.» (v. 12) A infortunada rainha voltou desconsolada para Tirza, onde então estava a corte; «e, ao pôr ela o seu pé no limiar da casa real, o menininho morreu» (v. 17). E pensar que com um pouco de presença de espírito madame Jeroboão podia ter evitado essa catástrofe! bastava-lhe fazer a sua reentrada montada em pernas de pau, e assim não teria calcado com os pés o solo da cidade, por azul! Mas o amor materno não pensa em tudo... Aqui o livro dos Reis nos remete ao livro das Crônicas, e ali ficamos sabendo (2 Crônicas 13) que Abias, rei de Judá, filho de Roboão, esteve em guerra com Jeroboão. «Abias tinha quatrocentos mil combatentes, bem escolhidos e muito valentes. E Jeroboão tinha oitocentos mil combatentes, bem escolhidos também e muito valentes. E houve quinhentos mil homens dos mais valentes mortos na batalha, do lado de Israel.» Brrrou! que carnificina! Por fim, Jeroboão, depois de ter exercido durante vinte e dois anos o ofício de monarca, «dormiu com seus pais», e papai Bom Deus, que lhe tinha suprimido, por meio de uma doença, o pequeno Abias, esqueceu o seu outro filho, chamado Nadabe, o qual lhe sucedeu (1 Reis 14:20).
287. Jeroboão repousa com seus pais. [617] Quanto a Roboão, não se tinha comportado melhor que Jeroboão para com Sabaote. «O reino de Judá também tinha feito o que é mau diante do Eterno; porque edificaram para si lugares altos para adorar os ídolos; e os súditos de Roboão tiveram bosques sobre todos os outeiros e debaixo de todas as árvores verdes. Havia até, nesse reino, gente que se prostituía à maneira dos sodomitas, e cometeram todas as abominações.» (1 Reis 14:22-24) «Mas, no quinto ano do reinado de Roboão, o rei do Egito, Sisaque (é a primeira vez que a Bíblia nomeia um faraó), apoderou-se de Jerusalém, e levou todos os tesouros da casa do Senhor e os tesouros do rei; saqueou tudo, até os escudos de ouro que Salomão tinha feito» (v. 25-26). Eis as observações de Voltaire a esse respeito: «O leão de Judá, cuja verga nunca devia sair de entre as suas pernas até que viesse o Siló, sente desta vez as unhas aparadas bem rente, e a sua verga (fr. “verge”: o cetro de Gênesis 49:10, que não sairia de Judá, e também o membro viril; Voltaire joga com os dois sentidos) não tem grande poder. Graves sábios provam que esse Sisaque era o grande Sesóstris; outros graves sábios provam que Sesóstris nasceu mil anos antes de Sisaque; e sábios ainda mais graves provam que nunca houve Sesóstris. Uma razão que faria crer que não foi Sesóstris quem saqueou Jerusalém é que ele não saqueou Siquém, Jericó, Samaria, nem os dois bezerros de ouro heréticos; porque Heródoto diz que esse grande Sesóstris saqueou toda a terra.»
288. Por seu lado, Roboão rende a sua alma a Deus. Roboão teve por sucessor seu filho Abias, que reinou apenas três anos, mas que não perdeu o seu tempo, visto que, segundo o livro das Crônicas, matou, numa só batalha, quinhentos mil soldados do exército do rei de Israel. «E Jeroboão não teve mais forças durante o reinado de Abias. E, quando Abias viu o seu reino firmado, tomou catorze mulheres, e teve delas vinte e dois filhos e dezesseis filhas.» (2 Crônicas 13:20-21) Façamos as contas! Três anos de reinado, diz o livro dos Reis (1 Reis 15:2); vitórias sobre Jeroboão, durante o primeiro ano; que dizeis, pois, amigo leitor, dos vinte e dois filhos desse Abias e das suas dezesseis filhas, ou seja, trinta e oito crianças, que essas catorze mulheres dão à luz no espaço de dois anos?... Ah! eis uma época maravilhosa, decididamente! [618] No livro dos Reis, temos dois versículos contraditórios no capítulo 15. «Abias, que reinou três anos, tinha a sua mãe, que se chamava Maaca e que era filha de Absalão» (v. 2). Dos vinte e dois filhos que Abias teve, foi Asa quem lhe sucedeu. «Asa reinou quarenta e um anos; sua mãe se chamava Maaca, e era filha de Absalão» (v. 10). Seria preciso, no entanto, que nos entendêssemos: a rainha Maaca não podia ser ao mesmo tempo mãe e avó do jovem rei Asa. [619] Seja como for, sendo Asa menor, Maaca teve a regência. Ah! agora sim, que limpeza! Não somente essa filha de Absalão se entregava à bebida de maneira deplorável; mas ainda se tinha regalado com um magnífico Príapo, à guisa de divindade. O bezerro de ouro estava ultrapassado. Mas, felizmente, «por amor de Davi, Deus tinha acendido uma lâmpada em Jerusalém»; e essa lâmpada era o jovem rei Asa. «E Asa, neto de Roboão, andou direito diante [620] do Eterno, como seu antepassado Davi o tinha feito; porque expulsou da terra todos os que se prostituíam; e até depôs sua mãe Maaca, para que ela não fosse mais regente; impediu-a de sacrificar dali em diante a Príapo, e quebrou o simulacro vergonhoso de Príapo, que ela mandara fazer, e o queimou na torrente de Cedrom. Todavia, não destruiu os lugares altos; não obstante, o coração de Asa foi perfeito diante do Senhor, durante todo o tempo da sua vida.» (Reis 15:11-14)
289. Asa, rei de Judá, depõe a rainha-mãe Maaca. Se Asa foi recompensado?... Ides ver isso... Primeiro, esmagou uma invasão, a crer no livro das Crônicas, capítulo 14, e que invasão!... «Asa tinha no seu exército trezentos mil homens da tribo de Judá, que traziam escudos e piques, e duzentos e oitenta mil homens da tribo de Benjamim, que traziam escudos e aljavas. E eis que Zerá, rei da Etiópia, saiu da sua terra e veio combater na Judeia com um exército de um milhão de soldados, forte de trezentos carros de guerra, e avançou até Maressa. Asa ordenou as suas tropas em batalha diante dele, no vale de Zefatá.» (v. 8-10) «E os etíopes foram inteiramente derrotados, porque era Jeová quem os feria; Asa e o povo de Judá e de Benjamim perseguiram-nos até Gerar e os exterminaram.» (v. 12-13) Esse episódio é tanto mais admirável quanto é muito grande a distância da Etiópia a Jerusalém. Esse exército de quinhentos e oitenta mil soldados, fornecidos por duas tribos apenas, não é menos maravilhoso que o de um milhão de invasores; mas pergunta-se como o rei do Egito, Sisaque ou Sesóstris, deixou passar pelo seu território essa onda de bárbaros... A menos que os etíopes tenham feito a viagem em balões!... Outra recompensa foi concedida por papai Bom Deus ao seu excelente amigo Asa: «No tempo da sua velhice, Asa esteve doente dos pés.» (Reis 15:23) Aqui o autor sagrado é parco em explicações; essa doença dos pés não tinha por fim, evidentemente, senão aumentar os méritos do bom Asa. No fim do quadragésimo primeiro ano do seu reinado, adormeceu no seio de seus pais e deixou o seu lugar a seu filho Josafá (v. 25).
290. O virtuoso Asa é provado por Deus na sua velhice. Mas vejamos um pouco o que se passava, por outro lado, no reino de Israel. — Nadabe, filho de Jeroboão, «seguiu os passos [621] de seu pai e cometeu os mesmos pecados» (v. 26); o seu reinado só durou dois anos. Uma conspiração de um certo Baasa, da tribo de Issacar, custou-lhe o trono e a vida (1 Reis 15:27-28); naturalmente, Baasa proclamou-se rei; reinou vinte e quatro anos, durante os quais se comportou, em relação a Sabaote, tão mal como Jeroboão e Nadabe (1 Reis 15:33-34). Foi então que papai Bom Deus, achando que essa impiedade durava demais, falou a Jeú e lhe fez saber que acabava de decretar a ruína da família Baasa.
291. Deus anuncia a Jeú que vai proceder com rigor contra o rei de Israel. Este, segundo o costume, morreu tranquilamente no seu leito, e o seu filho Elá é que, depois de um reinado de dois anos, foi assassinado pelo chamado Zinri (1 Reis 16:10).
292. Zinri extermina o rei Elá e a sua família. Zinri tomou o lugar da sua vítima, massacrou toda a família Baasa, «e não deixou viver um só, nem homem, nem besta, de seus parentes ou de seus amigos» (v. 11).
293. O massacre estende-se até os animais de Elá. — O reinado de Zinri foi curto: sete dias ao todo (1 Reis 16:15); Onri pôs-se à frente de um motim, e Zinri, cujo papel de flagelo de Deus estava terminado, suicidou-se (1 Reis 16:18).
294. Fim trágico de Zinri, o exterminador. Onri reinou doze anos (v. 23). «No sétimo ano do seu reinado, Onri comprou uma montanha a um hebreu, de nome Semer, mediante o preço de dois talentos de prata; edificou uma cidade sobre essa montanha e chamou-a Samaria, em memória de Semer» (v. 24). Também por esse tempo Hiel, natural de Betel, reedificou a cidade de Jericó (v. 34). Observação: esses grandes reis de Israel, que tinham tão formidáveis exércitos, não possuíam uma cidade passável antes que se edificassem Samaria, Jericó e Siquém. Jericó foi uma praça importante contra as irrupções dos árabes e dos sírios; assim, Josué tinha agido como muito mau político, quando a destruiu inteiramente, e, além disso, vê-se que o anátema pronunciado contra Jericó era nulo, visto que fora predito que nunca essa cidade seria levantada das suas ruínas. Ah! eis-nos chegados a Acabe, o ímpio Acabe, filho de Onri; com esse príncipe, cujo nome as crianças que soletram a história sagrada aprendem a amaldiçoar, a Bíblia vai tornar a ser interessante. Agora vamos ter de nos ocupar também do impagável profeta Elias, esse homem único que não tinha pão para comer na terra, e que subiu ao céu num carro de fogo puxado por cavalos igualmente de fogo. «Acabe reinou sobre Israel em Samaria, durante vinte e dois [622] anos, e fez tudo o que é mau diante do Eterno, mais ainda que todos os que o tinham precedido; e, como se lhe fosse pouca coisa continuar, agravando-os, os pecados de Jeroboão, tomou ainda por mulher a Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios.» (v. 29-31) Deus tinha perdoado a Davi o seu casamento com Bate-Seba, cujo esposo ele tinha assassinado: não tinha visto com maus olhos o casamento de Salomão com a filha do rei do Egito; mas que Acabe ousasse [623] desposar Jezabel, filha do rei dos sidônios, eis o que constituía um crime irremissível! Compreende-se facilmente que um rei tão ímpio não ia contentar-se com simples bezerros de ouro para fazer as suas devoções sacrílegas. Com efeito, «Acabe levantou um altar a Baal, num templo de Baal, que fez edificar em Samaria; e serviu a Baal, e prostrava-se diante dele.» (v. 32) Isto não é tudo, preparai-vos para estremecer de novo: «Acabe fez um bosque! e [624] assim Acabe fez ainda pior que todos os reis de Israel seus predecessores para irritar a Jeová.» (v. 33) Depois disso, está fora de dúvida que o régio esposo de Jezabel agia por pura malícia e que se deleitava em provocar a ira de papai Bom Deus.
295. Acabe, rei de Israel, presta homenagem a Baal. Um profeta fora do comum tornava-se, pois, necessário, indispensável; o senhor Sabaote decretou opor Elias, o tisbita, ao arqui-ímpio Acabe. «Elias, o tisbita, era um dos que tinham fixado a sua residência em Gileade. Foi ter com o rei Acabe, e lhe disse: Tão certo como o deus de Israel é o eterno vivente, não cairá do céu uma gota de orvalho nem uma gota de chuva, se eu não o ordenar em nome do todo-poderoso Deus.» (1 Reis 17:1) Depois disso, Elias, majestoso, virou os calcanhares; mas a Bíblia não diz como Acabe recebeu esse anúncio. «Em seguida, o senhor Adonai dirigiu a palavra a Elias, e lhe disse: Vai-te daqui, retira-te para o oriente, esconde-te na torrente de Querite, que está defronte do Jordão; beberás a água da torrente, e, quanto ao resto do teu alimento, ali será provido por corvos a quem dei ordem. Elias, muito obediente ao Senhor, partiu, pois, e estabeleceu a sua morada nas ravinas da torrente de Querite. Cada manhã, assim como cada tarde, uns corvos lhe traziam pão e carne; e bebia a água da torrente.» (v. 2-6)
296. O profeta Elias é alimentado pelos corvos. Esta ideia de alimentar os santos por meio de corvos foi imitada depois na história dos Padres do deserto. Um corvo alimentou durante sessenta anos o eremita Paulo numa caverna da Tebaida, trazia-lhe cada dia a metade de um pão no bico. Paulo tinha apenas cento e treze anos quando o eremita Antão, com noventa, veio fazer-lhe uma visita. Então o corvo trouxe um pão inteiro para o almoço dos dois santos; e isto é bem verdade, visto que São Jerônimo dá a sua palavra de honra. Voltemos a Elias. «Mas aconteceu, ao cabo de alguns dias, que a torrente secou, porque já não chovia em parte alguma. Então a voz de Adonai se fez ouvir de novo ao profeta e lhe disse: Agora, vai a Sarepta, que está perto de Sidom, e ali habitarás; há ali uma viúva, a quem [625] ordenei que te sustente. Foi, pois, logo a Sarepta; e, quando chegava à porta da cidade, avistou uma mulher que apanhava lenha; Elias bem viu que ela era viúva: pelo que a chamou e lhe disse: Peço-te, tira água num pote, e dá-me de beber. A mulher ia buscar-lhe água; mas ele a chamou de novo e acrescentou: Peço-te, traze-me também um bocado de pão. Então ela lhe respondeu: O Eterno, teu Deus, que é vivo, me é testemunha de que não tenho o menor bolo; possuo ao todo, num vaso, um pouco de farinha, apenas o bastante para encher a minha mão, e um pouco de azeite no fundo de uma botija. Vim, pois, buscar uns gravetos, que acendo para cozer este resto de farinha; meu filho e eu o comeremos, e depois só nos restará morrer. Elias lhe disse: Tem confiança e faze o que te disse; prepara primeiro para mim um pãozinho cozido debaixo da cinza, que me trarás; depois farás para ti e para teu filho quanto quiseres; porque o Eterno, deus de Israel, decretou que a farinha que está no teu vaso não diminuirá, nem o azeite na tua botija, até que ele tenha feito chover sobre a terra. Foi-se, pois, a viúva, fez o que Elias lhe dissera, e depois o hospedou em sua casa, e comeu com o filho e com ele vários dias, sem que a farinha nem o azeite viessem a faltar, conforme a palavra que Jeová pronunciara pela boca de Elias.» (v. 7-16)
297. Milagres de Elias em casa da viúva de Sarepta. «E, depois destas coisas, aconteceu que o filho da viúva adoeceu; e a doença foi tão forte que ele expirou. Então esta mulher disse a Elias: Que há entre ti e mim, homem de Deus? Vieste a minha casa para despertar diante de Deus a lembrança dos meus velhos pecados e fazer assim morrer o meu filho? Elias lhe respondeu: Dá-me o teu filho. Tomou-o da viúva, que o segurava apertado contra o seio; depois o levou ao quarto onde se hospedava e o deitou sobre a sua cama. Após o que, clamou muito alto ao Eterno: Eterno, meu Deus, afligiste a tal ponto esta viúva que lhe fizeste morrer o filho? E, tendo assim clamado, sentou-se sobre o menino (fr. “il s’assit sur l’enfant”: a Bíblia de Ostervald traz apenas “Et il s’étendit tout de son long sur l’enfant par trois fois”, “E estendeu-se ao comprido sobre o menino por três vezes”; o sentar-se é acréscimo de Taxil, e a gravura 298 se baseia nele) e estendeu-se ao comprido sobre o cadáver, por três vezes, clamando de novo: Eterno, meu Deus, peço-te que faças voltar a alma deste menino ao seu corpo! Então o Eterno ouviu a voz de Elias e atendeu a sua oração; a alma do menino voltou ao cadáver, e o corpo [626] tornou a viver. E Elias tomou o menino pela mão e disse à sua mãe: Olha, teu filho vive. E a viúva respondeu a Elias: Agora conheço que tu és um homem de Deus e que na tua boca a palavra do Eterno é verdadeira.» (v. 17-24)
298. Elias ressuscita o filho da viúva sentando-se em cima dele. Pareceria, segundo este último versículo, que a viúva se converteu, pois, sendo sidônia, praticava evidentemente a religião dos fenícios, e acabamos de ver que Deus, que primeiro colocara o seu profeta entre os hereges [627] do reino de Israel, retirou-o dali momentaneamente para enviá-lo aos infiéis. Esse profeta era cheio de sagacidade, já que adivinhara, à primeira vista, que a mulher que apanhava lenha era viúva. Talvez o leitor tenha achado espantoso que ele começasse por pedir para si o único pedaço de pão que restava a essa mulher, e parece que a viúva, embora crente nos falsos deuses da Fenícia, teve mais confiança na palavra de um desconhecido que lhe falava [628] em nome do Deus de Israel do que o próprio profeta tinha confiança no seu Jeová; mas isso não passa de uma aparência, vos dirão os teólogos: Elias punha essa mulher à prova, e o milagre cumpriu-se em seu favor precisamente porque ela não hesitou em crer no profeta. Se ela tivesse recusado dar a Elias o seu último pedaço de pão, não teria havido milagre, por conseguinte; mas então o que Deus anunciara ao seu profeta não se teria realizado, afinal? Inútil aprofundar; a especialidade do sobrenatural é justamente ser incompreensível. O que mais merece exame é o fato de Jeová realizar milagres entre os povos que não praticavam o seu culto e que não o adotavam depois de terem sido testemunhas dessas maravilhas. Com efeito, não se diz expressamente que a viúva de Sarepta abraçou a religião judaica. Essa observação permitiu aos críticos lembrar que todos os povos da antiguidade reconheciam um Deus supremo que comunicava uma parte do seu poder àqueles a quem queria favorecer, ora a magos do Egito, ora a magos da Pérsia ou da Babilônia, ora a hereges samaritanos, até a idólatras, como Balaão; esses críticos acrescentam que cada um conservava os seus ritos, o seu culto, os seus deuses secundários, adorando o Deus universal sob um nome que variava conforme os países. Isso explicaria que o faraó que viu os milagres de Moisés reconhecesse o poderio de Deus e não mudasse de culto, e que a viúva de Sarepta pudesse reconhecer o poder do Eterno invocado por Elias sem se tornar judia por isso. Fica bem entendido que, com essas observações, os críticos não pretendem de modo algum admitir a autenticidade dessas diversas histórias de milagres; mas dão as explicações que acabamos de reproduzir, a fim de que se compreendam as condições em que essas maravilhosas histórias puderam ser inventadas. «No terceiro ano daquele tempo, Jeová dirigiu de novo a palavra a Elias e lhe disse: Chegou o momento de te mostrares a Acabe; porque vou dar chuva à terra.» (1 Reis 18:1) A terra ficara, pois, durante três anos sem uma gota de chuva! «Foi-se, pois, Elias para se mostrar ao rei de Israel; e havia [629] uma grande fome em Samaria.» (v. 2) Depois de três anos de seca, isso se concebe; mas por que a fome grassava em Samaria mais que em outra parte? «E Acabe tinha chamado Obadias, o seu mordomo. Esse Obadias tinha grande temor de Jeová; pelo que, numa época em que Jezabel mandava exterminar os profetas de Jeová, escondeu cem deles, que sustentava com pão e água, cinquenta numa caverna e cinquenta numa cisterna seca. E Acabe tinha dito a Obadias: Seria preciso ao menos salvar os nossos cavalos e os nossos mulos, e, já que a chuva não cai mais, vamos a todas as fontes e a todas as torrentes, e apanhemos a erva que acharmos à beira das águas que correm, para que o país não fique despovoado de bestas. E repartiram entre si o reino para o explorar, indo cada um para o seu lado; Acabe tomou por um caminho, e Obadias ia por outro caminho.» (1 Reis 18:3-6) Mal se imagina esse rei deixando o seu palácio para ir apanhar erva e voltar depois a abastecer as manjedouras das suas cavalariças; parece que deveria ter encarregado os seus criados dessa tarefa. Mas poderão responder que fica subentendido que, diante da pavorosa miséria que fora fatalmente o resultado de três anos sem uma gota de chuva, o rei Acabe tinha despedido todo o seu pessoal e só conservara o mordomo. O mais extraordinário era que ainda houvesse fontes, torrentes, rios: os prados já não existiam, é claro, por falta de chuva; mas, na ausência de toda água do céu, como se alimentavam as nascentes? É bem divertido pensar que os devotos, que leem a Bíblia e que nela têm fé, não se fazem nenhuma dessas perguntas. Passemos. Obadias, procurando erva, encontra Elias, diante de quem se prostra e que lhe diz para anunciar a Acabe a sua próxima visita. Essa proposta perturba singularmente Obadias, que faz consigo o seguinte raciocínio: «Quê! Elias, tu me convidas a ir dizer ao rei meu amo: Eis que Elias vai chegar. Mas acontecerá que, mal eu me tenha apartado de ti, o Eterno te transportará para algum lugar escondido que eu ignorarei; então eu terei anunciado a tua visita a Acabe, e, como não te acharão mais em parte alguma, Acabe crerá [630] que zombei dele, e me matará.» (v. 12) Vê-se que o velho Obadias temia Jeová a ponto de desconfiar até de uma farsa. Felizmente, Elias o tranquilizou e se comprometeu, em nome do Eterno, a mostrar-se dentro de vinte e quatro horas ao rei Acabe. (1 Reis 18:15) «Acabe, tendo sido informado por Obadias, veio ao encontro de Elias, e, logo que o viu, lhe disse: Não és tu aquele que perturba Israel? Mas Elias lhe respondeu: Não sou eu que [631] perturbo Israel; és tu e a casa de teu pai, desde que abandonastes Adonai para adorar Baal. Mas faze o que te vou dizer: ordena a todo o povo de Israel que se ajunte diante de mim nas montanhas do Carmelo, e faze vir para lá também os quatrocentos e cinquenta sacerdotes de Baal, e os quatrocentos profetas dos bosques que comem à mesa de tua mulher Jezabel. Acabe reuniu, pois, no Carmelo todos os filhos de Israel e todos os profetas. Depois Elias disse [632] em alta voz ao povo: Até quando coxeareis dos dois lados? Se Jeová é deus, adorai-o; mas, se é Baal, a ele deveis as vossas adorações. E o povo não respondeu uma só palavra.» (1 Reis 18:16-21) «Então Elias disse ainda: Eu fiquei o único profeta de Jeová, ao passo que os profetas de Baal são aqui quatrocentos e cinquenta. Pois bem, tragam-se dois bois. Os profetas de Baal escolherão um; que o façam em pedaços, que o ponham em cima de um monte de lenha, mas sem lhe pôr fogo; e eu farei o mesmo com o outro boi. Invocai todos o nome dos vossos deuses, e eu invocarei o nome do meu. Que o deus que atender pelo fogo seja doravante o vosso deus. Todos lhe responderam: Excelente proposta! E Elias convidou os sacerdotes de Baal a sacrificar, à sua escolha, um dos bois que se trouxeram; disse expressamente: Sobretudo não ponhais fogo ao vosso monte de lenha.» (1 Reis 18:22-25) «Os profetas de Acabe prepararam, pois, o seu boi como estava combinado, e invocaram Baal desde a manhã até o meio-dia, exclamando: Baal, atende-nos! Mas não houve de Baal nem voz nem resposta. E esses profetas saltavam por cima do seu monte de lenha. Quando foi meio-dia, Elias zombou deles nestes termos: Gritai mais alto, já que Baal é deus; mas talvez tenha algum outro negócio que o ocupa, ou então está na taberna (fr. “il est au cabaret”: a Bíblia de Ostervald traz “il pense à quelque chose, ou il est après quelque affaire, ou il est en voyage”, “ele pensa em alguma coisa, ou está ocupado em algum negócio, ou está em viagem”; a Bíblia católica de Sacy diz “dans une hôtellerie”, numa estalagem, segundo o “in diversorio” da Vulgata; é Voltaire quem faz dela uma taberna, em La Bible enfin expliquée, e Taxil o segue), ou ainda está em viagem; talvez também, pode ser que durma neste momento; não temais, pois, gritar demais para tirá-lo do seu sono. Pelo que esses profetas gritavam com todas as suas forças; fizeram-se também nas carnes incisões segundo o seu rito com facas e lancetas, até que ficassem cobertos de sangue.» (1 Reis 18:26-28)
299. Os sacerdotes de Baal desafiados a fazer um milagre. Os críticos fazem notar que o monte Carmelo ficava no território dos sidônios, e que o reino de Sidom era distinto do de Israel, já que se diz mais acima que Jezabel era filha de Etbaal, rei dos sidônios. Não é admissível que os súditos de Acabe tenham ido reunir-se num ponto situado em outro reino para assistir à experiência pedida por Elias. O monte Carmelo só figura, pois, neste relato por efeito de um erro geográfico do divino pombo. Os críticos dizem ainda que, caso se queira crer [633] na realidade desse episódio e tomá-lo tal como é narrado, fica evidente, pelo modo unânime e súbito como os israelitas aceitam a oferta de Elias, que eles estavam de boa-fé; não é menos evidente que os seus sacerdotes, reputados falsos profetas segundo a Bíblia, tinham tanta confiança no seu deus Baal quanto Elias em Jeová, já que se davam facadas e faziam correr o seu sangue para obter o fogo do céu. Mas é melhor reter de tais relatos, tão ridiculamente fantasiosos, apenas certas constatações, interessantes para a história do povo judeu, e essas constatações são as que restam, uma vez despojadas as anedotas bíblicas da sua moldura de milagres mais ou menos maravilhosos. Disto resulta, pois, muito simplesmente, que o povo de Israel e o povo de Judá adoravam o mesmo deus sob nomes diferentes. Israel tinha bezerros de ouro; mas Judá tinha os seus bois de ouro, postos por Salomão no santuário antes que Sisaque viesse saquear Jerusalém e o templo. É claro, pelo texto, que Israel não adorava na realidade os seus bezerros, já que só adorava Baal. Ora, essa palavra Bal, Bel, Baal significava «o Senhor», como Adonai, Eloa, Sabaote, Shadai, Jeová. Os ritos, os sacrifícios eram inteiramente os mesmos; só os interesses eram diferentes. A heresia de Israel consistia, pois, apenas em que os israelitas não queriam levar o seu dinheiro a Jerusalém, de que a tribo de Judá estava de posse. «Quando o meio-dia passou e os profetas de Baal se esgotaram em vãos esforços, então Elias restabeleceu o altar de Adonai, tomando doze pedras, conforme o número das tribos dos filhos de Jacó; depois fez um rego em redor, arrumou a sua lenha sobre as pedras, abateu o seu boi e o cortou em pedaços, que dispôs em cima da sua lenha, sem o menor fogo. E fez derramar sobre a sua lenha doze cântaros de água, de sorte que não só a lenha ficou molhada, mas também a água corria no rego e o enchia de todo. Então Elias exclamou: Adonai! deus de Abraão, de Isaque e de Jacó! eis o dia em que é preciso que se conheça que tu és o deus de Israel, e que eu sou teu servo, e que por tua ordem fiz tudo isto! Atende-me, Eterno, [634] atende-me! Mal tinha ele acabado a sua invocação, quando o fogo de Adonai desceu do céu e devorou de uma só vez os pedaços de boi, a lenha, as pedras do altar, e até toda a água que estava nos regos. À vista disso, a gente do povo estendeu-se por terra, com o rosto contra o chão, gritando: Sim, Adonai é deus! sim, Adonai é deus!
300. Jeová executa para Elias o milagre em que Baal fracassou. Então Elias, tendo-os feito levantar, disse-lhes: Agora, prendei os profetas de Baal e os profetas dos bosques (fr. “les prophètes des bocages”: o nome que a Bíblia de Ostervald dá aos profetas da deusa Aserá), e que não escape [635] nem um só! E, tendo-os o povo prendido, Elias os conduziu à torrente de Quisom, onde ordenou a sua morte, e todos sem exceção pereceram ali.» (v. 29-40)
301. Os sacerdotes de Baal lançados na torrente de Quisom. Alguns sábios afirmam que Elias não passa de um personagem alegórico, que nunca houve nenhum Elias. Mas, se Elias existiu, os críticos dizem que nunca judeu algum foi mais bárbaro, visto que, segundo o próprio texto, os sacerdotes de Baal eram tão devotos do seu deus quanto ele do seu, e que [636] a fé deles era tão grande quanto a sua. Eram fiéis ao seu deus e ao seu rei: havia, pois, uma injustiça horrível em infligir-lhes a morte. E como tolerou o rei de Israel a execução deles? Era condenar-se a si mesmo!... Além disso, Elias devia, em boa lógica, esperar que o milagre inaudito do raio que veio, em tempo sereno, queimar instantaneamente o seu boi, a sua lenha, as suas pedras e a água dos seus regos, daria que refletir a esses sacerdotes hereges e os converteria infalivelmente. Devia, pois, levar aos ombros as ovelhas desgarradas; devia querer o arrependimento dos pecadores e não a sua morte. Depois do afogamento dos sacerdotes de Baal na torrente de Quisom, «Elias disse a Acabe: Sobe, come e bebe, porque se ouve o ruído de uma grande chuva.» (v. 41) Não esquecemos que, havia três anos, todas as nações da terra, e a de Israel em particular, esperavam com vivos desejos o benefício de uma chuva. Elias anunciava, pois, uma feliz notícia a Acabe; mas contava uma patranha ao dizer que se ouvia o ruído de um aguaceiro, porque não se ouvia absolutamente nada, como consta dos versículos seguintes. «Acabe subiu, pois, ao cume da montanha, para comer e para beber, e Elias galgava também o cume do Carmelo. Então Elias se prostrou tão profundamente que tinha o rosto entre os joelhos.» (v. 42) Talvez o profeta tivesse sido palhaço na sua juventude. «Depois Elias disse: Olha agora para o lado do mar. O outro olhou e respondeu: Não vejo nada. Elias tornou: Pois bem! volta-te até sete vezes para olhar o mar que está além. À sétima vez, o outro disse: Avisto ao longe uma pequena nuvem, que não é maior que o punho de um homem, e essa nuvem sobe do mar. Elias disse a Acabe: Neste instante, salta prontamente para um carro, e desce a montanha a toda a velocidade, para que a chuva torrencial que chega não te surpreenda. Depois os céus escureceram, tanto as nuvens se amontoaram de todos os lados; a tempestade começou, e pôs-se a chover em quantidades de água extraordinárias. Acabe subiu num carro, e Elias, tendo cingido os lombos com um cinto bem apertado, corria diante do carro de Acabe; correu assim até Jezreel, onde o rei pôs pé em terra.» (1 Reis 18:43-46) O espetáculo desse profeta, [637] sem guarda-chuva, correndo diante do carro régio com toda a velocidade das suas pernas, não devia carecer de pitoresco. «Mas eis que Acabe contou a Jezabel como Elias mandara matar todos os sacerdotes de Baal; e, depois disso, Elias recebeu uma mensagem da rainha, que lhe declarava isto: Que os meus deuses me tratem com o último rigor, se amanhã, a esta mesma hora, eu não te tiver posto no mesmo estado em que tu puseste os sacerdotes! Ao receber essa mensagem, Elias teve o coração transtornado, e fugiu a toda a pressa até Berseba; e embrenhou-se muito adiante no deserto. Depois de todo um dia de corrida, parou, muito cansado; sentou-se debaixo de uma giesta, e ali pediu a Deus que lhe retirasse a alma; disse: Já basta, ó meu Senhor! toma a minha alma, suplico-te.» (1 Reis 19:1-4)
302. Jezabel envia a Elias uma mensagem cheia de ameaças. Aqui, duas coisas causam grande espanto: primeiramente, que a rainha Jezabel tenha sido tola o bastante para avisar Elias, por mensagem, de que tinha decretado mandá-lo assassinar no dia seguinte, o que lhe dava vinte e quatro horas para tomar o pó de escapada; em segundo lugar, nada é mais singular que a poltronaria súbita desse rapagão que, tendo o poder de ressuscitar os mortos e dispondo à sua vontade das nuvens e do raio, teve uma tão bela tremedeira diante das ameaças de uma mulher. «E Elias, depois da sua oração, deitou-se e adormeceu debaixo da giesta. Então um anjo o sacudiu, gritando-lhe: Desperta, pois, e come! Elias levantou-se e não viu ninguém; mas, ao lado dele, havia um bolo, saído bem quente do forno, e uma garrafa de água. Comeu dele e bebeu, e tornou a deitar-se. Mas o anjo o sacudiu de novo, gritando-lhe: Come todo o bolo, e bebe toda a garrafa! E Elias despertou. O anjo disse-lhe então: Tens um longo caminho a fazer; não o poderás cumprir, se não recobrares forças. Levantou-se, pois, e acabou o bolo e a garrafa; e, com as forças que lhe deu essa refeição, caminhou sem se deter durante quarenta dias e quarenta noites até o monte Horebe, a montanha de Deus.» (1 Reis 19:5-8)
303. Elias, no deserto, é socorrido por um anjo. Ao ditar ao escritor sagrado esta regozijante história, o divino pombo parece ter esquecido totalmente que, quando ditava o relato das aventuras de Moisés, nos mostrou os hebreus caminhando trinta e oito anos para irem do monte [638] Horebe aos arredores de Berseba. Parece-nos ver uma boa devota que, impressionada com essa contradição, mas não ousando duvidar, interrogasse o seu diretor de consciência. Credes, por acaso, que o confessor ficaria embaraçado? Oh! qual nada! Um tonsurado sabe sempre o que responder à ovelha crédula. «Do monte Horebe a Berseba, pronunciaria ele com gravidade, há trezentas e quarenta e sete vezes mais distância do que de Berseba ao monte Horebe; eis [639] por que Moisés caminhou trinta e oito anos, e Elias quarenta dias, segundo a palavra divina, que não pode nem enganar-se nem enganar-nos.» E a fiel ovelha, sem pedir mais, admirará tanto mais a Bíblia quanto menos compreensível a achar. Seja como for quanto ao comprimento do caminho, convém lamentar que o anjo de Berseba não tenha escrito em alguma parte a receita do bolo que basta para a nutrição [640] de um turista durante quarenta dias; e, se não a revelou a Elias, ao menos deveria tê-la revelado a Tartarin, que, com toda a certeza, teria comido dessa broa antes de se pôr em marcha para as suas miríficas excursões.
304. O profeta Elias põe-se a caminho do monte Horebe. Uma viagem que começava de modo tão maravilhoso reservava evidentemente a Elias muitas outras surpresas. «Chegado ao monte Horebe, o profeta de Deus entrou numa caverna e ali passou a noite. A voz de Jeová o despertou, ao amanhecer, dizendo-lhe: Elias, que fazes aqui?» (v. 9) Elias não tinha recebido do anjo nenhuma instrução exata; sabia que devia dirigir-se ao monte Horebe, mas isso era tudo. Com que fim essa viagem? ignorava-o absolutamente. A pergunta de papai Bom Deus era, pois, bizarra. Não obstante, Elias respondeu, desculpando-se pela sua fuga: «Senhor, os filhos de Israel abandonaram a tua aliança, derribaram os teus altares, mataram os teus profetas, e fiquei eu só, e buscam a minha vida para ma tirarem!» (v. 10) Observemos, de passagem, que Elias conta uma patranha ao senhor Jeová: não é dos filhos de Israel que ele tem medo, é de Mme Jezabel, de quem não fala. Os filhos de Israel acabam de lançar, para lhe agradar, todos os sacerdotes de Baal na torrente de Quisom; pouco tem a temer deles! A apostasia que ele recorda, mas isso é história antiga! O povo, testemunha do milagre operado no Carmelo, gritou: Viva Adonai! Jeová conhece, tão bem quanto Elias, a reviravolta que se manifestou em seu favor. Realmente, Elias fala para não dizer nada. Jeová não se preocupa com essa resposta. Prossegue: «Sai, disse Jeová a Elias, e põe-te em pé na montanha; porque vou passar. Então se levantou um vento muito impetuoso, que desarraigava as árvores e fendia os rochedos, e o monte Horebe alçou-se em violentos abalos, de tal modo que as pedras se arrancavam e se quebravam umas contra as outras; mas Jeová não estava nesse tremor de terra.» (v. 11) Figurai-vos Elias sobre essa montanha que se põe em dança; haveria quem pagasse caro para ver isso de longe com um óculo de alcance.
305. O monte Horebe entra em dança à aproximação de Deus. E não tinha acabado! «Depois do tremor, a montanha sobre a qual Elias se achava pegou fogo por todos os lados; mas Jeová não estava nas chamas. Depois do fogo, houve o sibilo de um ventinho (fr. “le sifflement d’un petit vent”: a Bíblia de Ostervald traz “un son doux et subtil”, “um som doce e sutil”; as palavras são de Voltaire, em La Bible enfin expliquée, e Voltaire já zomba, numa nota, de um Deus que está num ventinho), doce e sutil.» (v. 12)
306. Continuação das emoções de Elias: a montanha pega fogo. [641] Não riais: Deus estava no ventinho. «Logo, Elias envolveu o rosto no seu manto, e Jeová lhe disse, com voz trovejante: Elias, que fazes aqui?» (v. 13) O profeta repete a resposta que deu há pouco, palavra por palavra. «Mas o Eterno lhe disse: Refaze todo o caminho que fizeste, volta e vai-te a Damasco. Ali ungirás a Hazael por rei sobre a Síria. Ungirás também a Jeú, neto de Ninsi, para ser rei sobre Israel; enfim, verás o boieiro Eliseu, filho de Safate, e o ungirás profeta em teu lugar. E acontecerá que todo aquele que escapar da espada de Hazael será morto por Jeú, e que Eliseu dará a morte a todo aquele que escapar da espada de Jeú.» (v. 15-17) Nunca se pôde explicar essa passagem da Bíblia, visto que em parte alguma se diz que Eliseu foi ungido nem que tenha degolado os que escaparam da espada de Jeú. «Partiu, pois, Elias do monte Horebe, e mais tarde encontrou um homem que lavrava com doze juntas de bois. Era Eliseu. Então Elias passou junto dele sem lhe falar e lançou-lhe o seu manto sobre os ombros.
307. Elias toma Eliseu como servidor. Eliseu deixou logo os seus bois, correu atrás de Elias, e ofereceu-se para o seguir, assim que se tivesse despedido de seu pai e de sua mãe.» (v. 19-20) Foi assim que Eliseu se tornou o servidor de Elias, sem ter sido ungido nem um pouco.
308. Continuação das peregrinações do profeta Elias. O capítulo 20 do primeiro livro dos Reis relata uma guerra que o rei da Síria, Ben-Hadade — mais um desconhecido —, declarou ao rei de Israel sob um pretexto pouco comum. Esse Ben-Hadade, numa bela manhã, enviou um mensageiro a Acabe para lhe dizer: Quero ser o marido das tuas mulheres e o pai dos teus filhos; dá-me, pois, imediatamente as tuas mulheres, os teus filhos, e, ao mesmo tempo, dá-me muita prata e muito ouro (1 Reis 20:5). Acabe reuniu os anciãos de Israel e lhes disse: Creio que esse príncipe zomba de mim. Os anciãos responderam-lhe: Meu senhor, não escutes a Ben-Hadade, e não consintas no seu pedido. Ben-Hadade, vendo a sua petição repelida, entrou em grande cólera e jurou que toda a terra da capital de Israel não caberia na sua mão. Declaração de guerra; terrível batalha; triunfo de Acabe, de repente protegido por Jeová, não se sabe por quê.
309. Acabe derrota o exército de Ben-Hadade, rei da Síria. Ben-Hadade refugia-se na cidade de Afeca e esconde-se «no fundo do gabinete (fr. “cabinet”: a Bíblia de Ostervald traz “se cacha dans le cabinet d’une chambre”, “escondeu-se no gabinete de uma câmara”; Taxil conserva a palavra de Ostervald, e a gravura 310 mostra de que gabinete se trata: a privada, em francês “cabinet d’aisances”) [642] mais retirado de uma casa». Não obstante, cai finalmente nas mãos de Acabe, que, julgando provavelmente que tratava com um louco, o poupa. Deus se arrepende de ter dado a vitória a Acabe. Não é mais interessante do que isso!
310. Ben-Hadade salva a vida escondendo-se num gabinete. Aqui se situa a história bem conhecida de Nabote, proprietário de uma vinha em Jezreel, a qual vinha era vizinha do palácio de Acabe. O rei faz ao velho Nabote propostas que teriam seduzido qualquer um dos nossos contemporâneos. [643] Acabe gostaria de comprar essa vinha para transformá-la em jardim; oferece a Nabote pagá-la pelo que ele desejar, sem regatear, ou, se Nabote preferir, dar-lhe outra vinha de valor muito superior.
311. Acabe propõe a Nabote comprar-lhe a sua vinha. Nabote repele as ofertas do rei. Recebeu essa vinha de seu pai, e pretende guardá-la, nem que o diabo lá estivesse! Acabe, diante dessa teimosia de camponês, fica tão mortificado com o seu insucesso, que perde por isso o beber e o comer (fr. “il en perd le boire et le manger”, locução: fica tão abalado que se esquece de comer e de beber). Então Jezabel [644] mandou apedrejar Nabote por uns velhacos a quem havia untado a pata (fr. “graisser la patte”, locução familiar: subornar; em português se diz “untar as mãos”), aconselhou em seguida a Acabe que entrasse na posse da vinha cobiçada. Esses acontecimentos provocaram a intervenção de Elias, intérprete de Jeová. Acabe, ao ouvir as ameaças proferidas contra ele, rasgou as suas vestes e não passeou mais, durante algum tempo, pela sua capital, sem estar revestido de um saco. (1 Reis 21)
312. Nabote, tendo recusado, é morto por ordem de Jezabel. As circunstâncias que precederam a morte de Acabe valem a pena ser relatadas por extenso, segundo o texto sagrado: e, aliás, ninguém se entedia lendo o capítulo 22 do primeiro livro dos Reis, que expõe o que se passou não só na terra, mas também no céu, a esse respeito. Temos aí um certo Micaías, profeta de ofício, que assiste ao grande conselho reunido por Jeová no reino eterno, e que dele faz o relatório, na sua qualidade de testemunha ocular; não se pode ser mais preciso, ides ver! «Passaram-se três anos, sem que houvesse guerra entre a Síria e Israel. Depois, Josafá, rei de Judá, veio fazer uma visita ao rei de Israel.» (1 Reis 22:1-2) É bom saber que Josafá, filho do virtuoso Asa, era ele mesmo de uma piedade exemplar para com Jeová; no período do reino de Judá, o próprio Josafá e o rei Ezequias, de quem se falará mais adiante, são citados pelos padres como os dois monarcas modelos. Nem por isso deixa de ser verdade que o piedoso Josafá mantinha com o ímpio Acabe as melhores relações de amizade; a idolatria de Acabe e de Jezabel assustava-o tão pouco, que lhes tinha pedido e obtido a mão da filha deles, Atalia, para o seu filho Jorão. Notemos, de passagem, que a rainha Jezabel foi muito prolífica, e sabemos, pelas palavras de Jeová a Abraão e a Jacó, que uma família numerosa é uma das melhores bênçãos divinas; portanto, Acabe e Jezabel, embora idólatras, foram abençoados por Jeová, já que tiveram (como se verá mais adiante) setenta e dois filhos, sem contar as filhas, das quais Atalia era a mais velha. Eis, pois, o piedoso Josafá de visita em casa do seu co-sogro (fr. “co-beau-père”, formado sobre “beau-père”, sogro: Jorão, filho de Josafá, tinha desposado Atalia, filha de Acabe) Acabe. «O rei de Israel disse aos seus oficiais: Lembro-me agora de que a cidade de Ramote-Gileade nos pertence; por que não nos dispomos a retirá-la das mãos do rei da Síria?» (v. 3) Com efeito, três anos [645] antes, por ocasião da guerra que tivera com Ben-Hadade, rei da Síria, Acabe tinha exterminado os seus inimigos, e, depois desse extermínio, não tinha pensado em deitar de novo a mão a Ramote-Gileade, cidade israelita! Não se pode ser mais negligente. «E Acabe, voltando-se também para Josafá, disse-lhe: Não virás comigo à guerra para me ajudar a retomar Ramote-Gileade? Josafá respondeu ao rei de Israel: Dispõe de mim como de ti, e do meu povo como do teu povo, e dos meus cavalos como dos teus cavalos.» (v. 4) Hein! não era ele bem gentil para com o ímpio Acabe, o nosso piedoso rei de Judá?... Todavia, na sua qualidade de devoto, Josafá aconselhou que se consultasse Jeová, para saber se ele veria com bons olhos essa expedição. «Josafá acrescentou: Não obstante, peço-te, informa-te da palavra de Jeová. Então o rei de Israel mandou chamar cerca de quatrocentos profetas, e fez-lhes esta pergunta: Irei à guerra contra Ramote-Gileade, ou devo renunciar a retomar essa cidade? Os profetas responderam: Vai; porque Jeová entregará a cidade nas tuas mãos.» (v. 5-6) Como se vê, os profetas não faltavam entre os judeus; oitocentos e cinquenta profetas de Baal e dos bosques tinham sido mortos na torrente de Quisom; ao cabo de três anos, quatrocentos profetas de Jeová os substituíam. Josafá achava que não era bastante; teria desejado que nem um só profeta faltasse à consulta. Por isso «Josafá perguntou: Não haveria ainda algum outro profeta de Jeová a quem se pudesse interrogar? Acabe respondeu: Sim, resta ainda um; mas eu odeio esse homem, porque nunca profetiza nada de bom, quando se fala de mim. É Micaías, filho de Inlá. Josafá disse ao rei de Israel: Peço-te, não fales assim; é preciso respeitar todos os profetas de Jeová. Então Acabe chamou um dos seus oficiais e lhe disse: Faze vir Micaías a toda a pressa.» (v. 7-9) «Ora, o rei de Israel e Josafá, rei de Judá, estavam assentados cada um no seu trono, revestidos das suas mais belas vestes, na grande praça que ficava junto à porta de Samaria; e todos os profetas profetizavam na presença deles. Então o profeta Zedequias, filho de Quenaana, pôs uns chifres de ferro [646] na cabeça e disse: Estes chifres ferirão a Síria até que seja destruída; é a própria palavra de Jeová. E todos os profetas profetizavam do mesmo modo, dizendo aos dois reis: Subi contra Ramote-Gileade, e sereis vitoriosos; porque Jeová vos entregará a cidade.» (v. 10-12) Observa-se que o profeta Zedequias podia predizer aos dois reis coisas agradáveis, sem pôr dois chifres de ferro na cabeça. Teria sido um belo espetáculo, se [647] todos os outros profetas e todos os oficiais do exército tivessem posto chifres para opinar! O mensageiro que fora enviado a Micaías achou esse profeta disposto a vir e prometendo dizer exatamente a palavra de Jeová. Chegado diante dos dois reis, começou por dizer como os outros: Subi contra Ramote-Gileade, e sereis vencedores, a cidade vos será entregue por Jeová (v. 13-14). Essa profecia agradável espantou muito Acabe, [648] uma vez que vinha de Micaías; por isso ele insistiu. «O rei de Israel disse-lhe: Fala-me com verdade, conjuro-te; quantas vezes será preciso que to peça? Eia, dize-me a palavra de Jeová. E Micaías respondeu-lhe, desta vez: Pois bem, vi Israel todo disperso pelas montanhas, como um rebanho de ovelhas que perdeu o seu pastor, e Jeová, que estava ali, dizia: Agora que já não têm o seu amo, que voltem em paz, cada um para a sua casa. Então o rei de Israel disse a Josafá: Não te tinha eu prevenido de que esse nunca prediz nada de bom, quando se trata de mim?» (v. 16-18) Restava esclarecer por que os outros profetas tinham feito profecias favoráveis; pois os quatrocentos tinham razão contra Micaías, ou Micaías contra os quatrocentos? Micaías retomou, pois, a palavra, e é aqui que o seu relato é sobretudo admirável. «Escuta, disse ele a Acabe, o que vi com os meus próprios olhos, e saberás por que foste enganado pelos outros profetas. Jeová admitiu-me a vê-lo, quando estava assentado no seu trono, e assisti ao conselho que ele reunia, tendo todo o exército dos céus diante de si, assim como à sua direita e à sua esquerda. E Jeová dizia: Quem quer encarregar-se de persuadir Acabe a ir combater contra Ramote-Gileade? quem lhe fará crer que será vitorioso? porque, enganando-o assim, a sua morte será certa. Um anjo dizia de uma maneira, e outro anjo dizia de outra maneira. Então um anjo adiantou-se até diante do trono de Jeová, e, estando em pé, disse a Deus: Eu me encarrego de seduzir o rei de Israel. Jeová lhe disse: Como, pois, o farás? O anjo respondeu ao Altíssimo: Sairei daqui e descerei à terra; ali, entrarei em todos os profetas, e direi mentiras pela boca deles; assim, Acabe crerá nos profetas. E Jeová disse: Esse projeto está habilmente combinado para enganar Acabe; vai, e terás pleno êxito. Depois desse relato, Micaías acrescentou: Ó rei, aprende por isto que Jeová pôs um espírito mentiroso na boca de todos os outros profetas; mas isto te prova também que Jeová pronunciou um decreto de mal contra ti.» (1 Reis 22:19-23) Pois bem, que achais da anedota? Como é [649] bem conseguido, esse Jeová que manobra com os seus anjos para enganar os homens! Lorde Bolingbroke, ao comentar essa passagem da Bíblia, diz que é uma má imitação de um episódio da Ilíada (livro 2), em que Júpiter, em busca de expedientes para realçar a glória de Aquiles à custa de Agamêmnon, faz que este seja enganado por um sonho mentiroso. «Pode ser, escreve o filósofo inglês, que, como os livros judeus foram escritos muito tarde, o sacerdote que compilou os devaneios hebraicos tenha imitado esse devaneio de Homero. Porque, em toda a Bíblia, o deus dos judeus é muito inferior ao deus dos gregos: é quase sempre batido, só pensa em obter oferendas, e o seu povo morre sempre de fome. Por mais que esteja continuamente presente e fale ele mesmo, não se faz nada do que ele quer. Se lhe edificam um templo, vem um Sisaque, rei do Egito, que o pilha e que leva tudo. Se dá em sonho a sabedoria a Salomão, esse Salomão zomba dele e o abandona por outros deuses. Se dá a terra prometida ao seu povo, esse povo é nela escravo desde a morte de Josué até o reinado de Saul. Não há Deus nem povo mais desgraçado. Por mais que os compiladores das fábulas hebraicas digam que os hebreus só foram sempre miseráveis porque eram sempre infiéis, os nossos sacerdotes anglicanos poderiam dizer outro tanto dos nossos irlandeses e dos nossos montanheses da Escócia, que são, no entanto, muito devotos, embora miseráveis. Nada é mais fácil do que dizer: Se foste batido, se estás na adversidade, é porque não foste bastante religioso; se desses mais dinheiro à Igreja, serias vencedor, prosperarias. Essa infame superstição é antiga; deu a volta à terra; foi a palavra de ordem dos sacerdotes de todas as religiões e serviu-lhes para se enriquecerem entre todos os povos à custa da asneira humana.» Mas os profetas que Micaías tinha desmentido se abespinharam; Zedequias, o homem dos chifres de ferro, esbofeteou Micaías (1 Reis 22:24), e este, de mais a mais, foi posto na prisão (22:27). Depois disso, Acabe partiu em guerra para retomar Ramote-Gileade aos sírios, e o rei de Judá juntou-se a ele (1 Reis 22:29); o que nos permite constatar que o piedoso Josafá acreditou nos quatrocentos profetas de preferência ao extraordinário Micaías. [650] Contudo, segundo o relato bíblico, pareceria que o rei de Israel não estava muito tranquilo. «Acabe, tendo declarado a guerra, disse a Josafá: Vou disfarçar-me para ir ao combate; mas tu, não deixes de vestir as tuas vestes régias. E assim se fez.» (v. 30) O objetivo de Acabe era fácil de compreender, e pergunta-se que dose de ingenuidade tinha o excelente Josafá, depois da linguagem do seu co-sogro. «Ora, o rei dos sírios tinha feito as recomendações [651] seguintes aos trinta e dois capitães dos seus carros: Não combatereis contra quem quer que seja, nem pequeno nem grande, senão só contra o rei de Israel. Aconteceu, pois, que, assim que esses capitães viram Josafá, correram logo contra ele, tomando-o por Acabe; mas ele exclamou: Não sou o rei de Israel! Então os capitães se desviaram dele. E eis que uma flecha, partida do arco de algum dos sírios, atingiu Acabe com força e o feriu entre as junturas da sua couraça.» (v. 31-34) Assim pereceu o esposo de Jezabel; «ele [652] morreu ao cair da tarde, e o sangue da sua ferida correu mui abundantemente.» (v. 35) O autor sagrado informa-nos que ele tinha construído «uma casa toda de marfim» (v. 39), mas sem nos dar outros pormenores.
313. Morte do ímpio Acabe. Acabe teve por sucessor seu filho mais velho Acazias, cuja curta história é narrada no capítulo 1º do segundo livro dos Reis. Este começa por um acidente: «um dia, caiu pela janela do seu quarto alto, em Samaria, e ficou muito doente com isso.» (v. 2) Dada a ausência total de explicações, vemo-nos reduzidos a supor que esse monarca devia ser propenso à embriaguez e que habitava, não se sabe por quê, o andar mais alto do seu palácio; provavelmente, na noite do acidente, estava mais bêbado que de costume, e, se passou pela janela, é de presumir que a tivesse aberto tomando-a por um armário.
314. Lamentável acidente ocorrido a Acazias. O deus dos beberrões (fr. “Le dieu des pochards”, do dito “il y a un dieu pour les ivrognes”, há um deus para os bêbados: o bêbado que cai não se machuca) impedira Acazias de se matar no ato; não obstante, o rei, inquieto, queria saber se sararia da sua doença. Foi a Baal-Zebube (do qual se fez Belzebu), divindade adorada em Ecrom, que ele se dirigiu nessa ocasião; o que escandalizou Elias no mais alto grau. «Um anjo falou ao profeta e encarregou-o de dizer aos oficiais do rei: Não há, pois, um deus em Israel? por que ir consultar o deus de Ecrom? Elias repetiu estas palavras e acrescentou: Dizei ao rei que não descerá do seu leito, mas que morrerá, visto que recorreu a Baal-Zebube.» (2 Reis 1:3-4)
315. Acazias vai consultar Baal-Zebube. Os oficiais repetiram a Acazias os dizeres de Elias, sem poderem informá-lo exatamente sobre a identidade desse profeta de desgraça. «Disse-lhes, pois, Acazias: De que feitio era esse homem que vos veio ao encontro e que vos pronunciou tais palavras? E eles lhe responderam: É um homem muito peludo, com um cinto de couro sobre os lombos. Então o rei exclamou: É Elias! E logo lhe enviou um capitão e cinquenta soldados; e, como o profeta se tinha estabelecido no cume de uma montanha, o capitão dos cinquenta homens lhe disse: Homem de Deus, desce da tua montanha; vimos buscar-te da parte do rei, que te quer ver. Elias respondeu ao capitão: Se eu sou homem de Deus, que o fogo do céu te consuma, a ti e aos teus cinquenta soldados! Logo estalou um trovão, e o raio devorou o capitão e os seus cinquenta homens.» (v. 7-10)
316. Elias fulmina os soldados de Acazias. [653] Um segundo capitão, igualmente escoltado por cinquenta soldados, foi enviado a Elias por Acazias; repetição exata da cena precedente (2 Reis 1:11-12). Terceiro envio de um capitão. «Veio, pois, este terceiro capitão de cinquenta homens a Elias, e pôs-se de joelhos diante dele, suplicando-lhe assim: Homem de Deus, o fogo do céu desceu à tua voz e consumiu os dois primeiros capitães e os seus cinquenta soldados; mas agora seja a minha vida preciosa para ti, peço-te! Então um anjo de Jeová disse a Elias: Desce com este capitão e não tenhas medo. Foi, pois, Elias ter com o rei, e disse-lhe: Porquanto quiseste consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom, como se não houvesse Deus em Israel para consultar a sua palavra, não descerás do teu leito, e certamente morrerás. Morreu, pois, Acazias, e, como não tinha filho, seu irmão Jorão lhe sucedeu; e Jorão subiu ao trono de Israel no segundo ano do reinado de Jorão, rei de Judá, filho de Josafá.» (2 Reis 1:13-17) Lorde Bolingbroke, comentando este episódio, exprime-se assim: «Este Elias, que faz descer duas vezes o raio sobre dois capitães, e sobre duas companhias de soldados enviados da parte do seu rei, não pode ser senão um personagem quimérico; porque, se podia assim bater-se a golpes de raio, teria infalivelmente conquistado toda a terra, só passeando com o seu criado. É o que se dizia todos os dias aos feiticeiros: Se estais seguros de que o diabo, com quem fizestes um pacto, fará tudo o que lhe ordenardes, por que não lhe ordenais que vos dê todos os impérios do mundo, todo o dinheiro e todas as mulheres? Podia-se dizer do mesmo modo a Elias: Acabas de matar dois capitães e duas companhias de soldados a golpes de trovão, e foges como um covarde e como um tolo, assim que a rainha Jezabel te ameaça de te mandar enforcar! Não podias fulminar Jezabel, como fulminaste esses dois pobres capitães? Que disparatada contradição faz de ti ora um deus, ora um labrego? Que homem sensato pode suportar esses detestáveis contos que fazem rir de dó e estremecer de horror?» Não se vê, de mais a mais, o motivo desse duplo extermínio fulminante. Não se diz, em parte alguma, no texto sagrado, que Acazias quisesse mandar lançar Elias na prisão; quando [654] este se decide a vir ter com o rei que o chama, repete-lhe a sua profecia de mau agouro e vai-se embora muito tranquilamente. Além disso, se Acazias tinha realmente a intenção de lhe infligir a sorte de Micaías, não havia necessidade nenhuma de assassinar pelo fogo do céu cento e dois militares perfeitamente inocentes que não faziam mais que obedecer às suas ordens; bastava reduzi-los à impotência por uma paralisia súbita e efêmera, que teria sido tão maravilhosa como os golpes de raio. [655] Além do mais, a propósito de Acazias, de Josafá e dos dois Jorões, o livro divino contém uma contradição material que é bom assinalar; é flagrante. Diz-se no primeiro livro dos Reis, capítulo 22: «Josafá, filho de Asa, começara a reinar sobre Judá, no quarto ano do reinado de Acabe, rei de Israel. E Josafá era da idade de trinta e cinco anos quando começou a reinar, e reinou vinte e cinco anos em Jerusalém.» (v. 41-42) E mais adiante, [656] no mesmo capítulo: «Quando Josafá dormiu com seus pais e foi sepultado com eles, seu filho Jorão reinou em seu lugar.» (v. 51) Esse Jorão, rei de Judá, não é outro senão o esposo de Atalia, filha de Acabe. «E Acazias, filho de Acabe, começou a reinar sobre Israel em Samaria, no décimo sétimo ano do reinado de Josafá, rei de Judá; e reinou dois anos sobre Israel.» (v. 52). Não se poderia ser mais claro, mais preciso. Por conseguinte, visto que a Bíblia nos diz em seguida que Acazias não teve filho e teve por sucessor seu irmão Jorão, é matematicamente evidente que esse Jorão, rei de Israel, subiu ao trono no décimo nono ano do reinado de Josafá, isto é, quando Josafá ainda tinha seis anos de vida, ou seja, seis anos antes da ascensão ao trono do Jorão rei de Judá, filho de Josafá e esposo de Atalia. É, pois, impossível conciliar o capítulo 22 do primeiro livro dos Reis com o capítulo 1º do segundo livro, visto que aqui o versículo 17 acaba de nos dizer: «Jorão (irmão e sucessor de Acazias) subiu ao trono de Israel, no segundo ano do reinado de Jorão, rei de Judá, filho de Josafá.» Visto que Jorão de Judá sucedeu a seu pai Josafá oito anos depois da morte de Acabe (segundo os versículos 42, 51 e 52 do cap. 22), como poderia ter já dois anos de reinado, quando seu cunhado Jorão de Israel sucedeu a Acazias, igualmente seu cunhado? Eis já uma contradição assombrosa. Mas esperai!... Um pouco mais adiante, o capítulo 3 desse mesmo segundo livro dos Reis começa assim: «No décimo oitavo ano do reinado de Josafá, rei de Judá, Jorão, segundo filho de Acabe, começou a reinar sobre Israel em Samaria, e reinou doze anos.» (v. 1) Desta vez, é preciso puxar a escada! A contradição é tripla. Este novo versículo reduz a um ano o reinado de Acazias, que o versículo 52 do capítulo 22 (primeiro livro) fixava em dois anos; e a primeira contradição (2 Reis 1:17), pelo contrário, tinha alongado em oito anos esse reinado do monarca famoso pela sua queda inexplicada de uma alta janela! Que não nos censurem por nos determos em pôr em relevo esses desacertos tão grosseiros do escritor sagrado. Eles [657] mostram o pouco-me-importismo (fr. “j’m’en-fichisme”, palavra familiar: a indiferença completa; formada sobre “je m’en fiche”, “pouco me importa”, com a terminação das doutrinas, como se não se importar com nada fosse um sistema) dos sacerdotes que fabricaram esta estúpida, horrível e obscena Bíblia, e que nem sequer se davam ao trabalho de se reler! Contudo, um grande milagre estava no ar. «Naquele tempo, Jeová se preparava para arrebatar Elias num redemoinho; então Elias e Eliseu vinham de Gilgal. E Elias disse a Eliseu: Fica aqui, peço-te; porque Deus me envia até Betel. Mas Eliseu respondeu: Tão certo como Deus é vivo e como a tua alma não está morta, não te deixarei. Assim desceram a Betel. Havia ali filhos de profetas; vieram ter com Eliseu e lhe disseram: Não sabes que hoje Jeová vai arrebatar o teu amo? Ele respondeu: Sei-o tão bem como vós; mas não digais nada disso a ninguém. Então Elias lhe disse: Eliseu, peço-te, não vás mais longe; porque é preciso que eu me vá a Jericó, aonde Deus me envia. Eliseu respondeu de novo: Tão certo como Deus é vivo, etc. Foram, pois, a Jericó. Ali também havia filhos de profetas; vieram ter com Eliseu e lhe disseram: Não sabes que hoje (como acima; e a mesma resposta de Eliseu). Então Elias lhe disse: Concedei-me isto, ficar aqui; porque Deus me envia até o Jordão. Eliseu respondeu: Tão certo como Deus é vivo e como a tua alma não está morta, não, não te deixarei. Assim, foram mais longe, caminhando ambos juntos. E cinquenta homens dentre os filhos dos profetas vieram, e postaram-se defronte deles, ao longe; e eles se detiveram junto ao Jordão.» (2 Reis 2:1-7) «Então Elias tomou o seu manto e com ele feriu as águas do rio; elas se repartiram, e passaram a pé enxuto.
317. Elias separa as águas do Jordão a golpes de manto. Havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que quiseres, antes que eu seja arrebatado de junto de ti. Eliseu lhe respondeu: Pois bem! faze que eu tenha do teu espírito tanto quanto duas pessoas poderiam possuir. Elias tornou: Acabas de pedir uma coisa muito difícil; ora, pois, se me vires quando eu estiver no ar, é que o teu pedido terá sido satisfeito; mas, se não me vires, é que o teu pedido não terá sido acolhido.
318. Despedida de Elias do seu fiel Eliseu. E, enquanto seguiam o seu caminho, conversando, eis que apareceu um carro de fogo, com cavalos igualmente de fogo. Acharam-se então [658] separados um do outro. E Elias subiu ao céu num redemoinho.» (2 Reis 2:8-11) «E Eliseu, olhando-o subir, gritava: Meu pai! meu pai! carro de Israel e a sua cavalaria! Depois, não o viu mais; então, tomando as suas vestes, rasgou-as de alto a baixo em dois pedaços. Após o que, cobriu-se com o manto de Elias, que do céu caíra sobre ele, e voltou para o Jordão.
319. Elias, arrebatado ao céu, lança o seu manto a Eliseu. Chegado à margem do rio, deteve-se, e, [659] despojando-se do manto de Elias, pôs-se a ferir com ele as águas; mas elas não se dividiram. Então Eliseu disse: Pois bem, onde está então o deus de Elias, o próprio Eterno? E, tendo ferido pela segunda vez as águas, elas se dividiram para a direita e para a esquerda, e Eliseu passou a pé enxuto.» (2 Reis 2:12-14) Algumas perguntas se apresentam muito naturalmente: — Visto que Jeová resolvera levar Elias vivo para o céu, em carne e osso, como fizera outrora com Enoque, por que [660] lhe impor primeiro esse passeio, vazio de qualquer ação, de Gilgal a Betel, de Betel a Jericó, e de Jericó ao Jordão? por que, além disso, fazê-lo passar o Jordão? o carro de fogo, no qual Elias subiu, não podia arrebatá-lo tanto na margem direita como na margem esquerda do rio? — Que é essa dose do espírito de Elias (fr. “dose d’esprit d’Élie”: “esprit”, como “espírito”, é ao mesmo tempo o espírito e a inteligência, e Taxil o dosa como um remédio; na gravura 320, Eliseu leva o dedo à testa) que Eliseu pede? e, afinal, teve Eliseu o que pedia? porque o texto diz, é verdade, que Eliseu olhou primeiro para Elias no momento da sua partida para os ares, mas acrescenta, logo depois dos seus gritos bizarros, que não o viu mais; não se sabe, pois, ao certo. — Visto que os teólogos nos apresentam como o estado perfeito o dos puros espíritos que, segundo eles, povoam o reino celeste, visto que nada é mais admirável do que uma alma que vive no paraíso, livre de toda matéria, o duplo caso de Enoque e de Elias não contradiz terminantemente essa tese? e, aliás, para que lhes pode servir lá em cima o seu corpo material, a esse patriarca e a esse profeta, no domínio do infinito sobrenatural e imaterial? em que a glória de Enoque e de Elias é, por esse fato, maior que a dos outros eleitos, visto que os habitantes do outro mundo não ficariam melhor por isso, tenham ou não uma forma, um corpo humano? Assim, agora, quando Elias e Moisés conversam juntos no céu, é, pois, uma conversa entre uma alma sem corpo, que se exprime só pelo pensamento, e um corpo animado, que fala com a boca, emitindo sons, enquanto o seu interlocutor, puro espírito, não os emite? Por fim, esse carro de luz, esses cavalos de fogo, esse redemoinho nos ares, esse próprio nome de Elias (hélios, sol) levaram lorde Bolingbroke e Boulanger a pensar que a aventura de Elias não é mais que uma imitação da de Faetonte, que se sentou no carro do sol. Ora, a fábula de Faetonte foi originariamente egípcia, e é pelo menos uma fábula moral que mostra os perigos da ambição. Mas que significa o carro de Elias? Os escritores judeus, diz lorde Bolingbroke, nunca passam de plagiários grosseiros e desajeitados. Eis, pois, Eliseu herdeiro do manto de Elias e de uma parte do seu espírito, pelo menos, se não tem a dose dupla pedida. Os filhos dos profetas prostram-se diante dele (2 Reis 2:15); em Jericó, saneia para sempre as águas [661] da cidade, lançando nelas um punhado de sal (v. 19-22).
320. Eliseu torna-se profeta por sua vez. Eliseu havia de se distinguir ainda mais. «Dali foi a Betel, e, como galgava o caminho, que era de uma subida íngreme, uns meninos zombaram dele, gritando-lhe: Sobe, calvo! sobe, calvo!
321. Os garotos de Betel zombam de Eliseu. Eliseu, voltando-se, amaldiçoou-os, em nome de Jeová. Então dois ursos saíram de uma floresta e devoraram quarenta e dois daqueles meninos.» (v. 23-24)
322. Os ursos vingadores do profeta. «Se esta história fosse verdadeira, diz ainda lorde Bolingbroke, Eliseu pareceria um criado que acaba de fazer fortuna e que manda castigar quem quer que lhe ria no nariz. Quê! execrável criado de sacerdote, farias devorar por ursos quarenta e duas crianças inocentes, por te terem chamado calvo! Felizmente, não há floresta alguma nos arredores de Betel, e não há ursos na Palestina; esse país é quente demais. O absurdo deste conto faz-lhe desaparecer o horror.» Pode-se acrescentar que, para terem devorado vinte e um garotos em poucos bocados, esses dois ursos famintos saíam, provavelmente, se não de uma floresta, pelo menos de um bar hebreu onde acabavam de tragar um formidável aperitivo. O capítulo 3 do segundo livro dos Reis, depois de nos ter apresentado o bom rei Josafá ainda com vida, contrariamente ao que diz o capítulo 1º, conta-nos que o sr. Mesa (fr. “Mesçah” no texto de 1904; a Almeida chama Mesa a este rei de Moabe), rei dos moabitas, pagara a Israel, até a morte de Acabe, um tributo anual de cem mil cordeiros e cem mil carneiros «com a sua lã». Na ascensão de Acazias ao trono, o sr. Mesa julgou por bem deixar de saldar o seu tributo; mas Jorão, ao suceder a seu irmão no trono de Israel, apressou-se a reclamar os cordeiros e os carneiros moabitas. Recusa de Mesa, e eis Jorão abrindo a campanha, apoiado por dois aliados, Josafá, rei de Judá, e o rei da Idumeia. «Mas, depois de terem caminhado durante sete dias, não tiveram mais água nem para o seu exército nem para as suas bestas. Então o rei de Israel, Jorão, disse: Ai! ai! o Senhor nos reuniu aqui, três reis juntos, para nos entregar nas mãos de Moabe. Mas o rei Josafá disse por sua vez: Não haveria por aqui algum profeta de Adonai, para que consultemos a Adonai por ele? Um dos servos de Jorão respondeu: Sim, está aqui o boieiro Eliseu, filho de Safate, [662] o qual era criado de Elias. E Josafá disse: Esse possui a palavra de Jeová. Então Jorão, rei de Samaria, Josafá, de Jerusalém, e o rei da Idumeia foram ter com Eliseu.» (v. 9-12) Notemos que o filho de Acabe e o rei da Idumeia não professavam o culto de Jeová; o que leva lorde Bolingbroke a dizer: «Se se vissem três reis, um papista e os outros dois protestantes, ir juntos à casa de um capuchinho para obter chuva, que se diria de semelhante imbecilidade? [663] E se um frade capuchinho escrevesse semelhante conto nos anais da sua ordem, não se reconheceria a verdade do provérbio: Orgulhoso como um capuchinho?» «Eliseu disse ao rei de Israel: Que há entre mim e ti? e por que não vais consultar os profetas de tua mãe Jezabel? Jorão respondeu: Não, é de ti que preciso saber se Jeová, teu deus, nos reuniu, a nós três reis, para nos entregar nas mãos dos moabitas. Então Eliseu [664] lhe disse: Vive Adonai-Sabaote! se eu não tivesse grande respeito pela face do rei Josafá, nem sequer te teria escutado, e não me teria dignado olhar para ti. Agora, que me tragam um músico com os seus instrumentos de música. E, tendo o músico feito a sua música, um espírito de profecia, enviado por Jeová, entrou em Eliseu.» (v. 13-15) É lamentável que o autor sagrado não nos diga quais eram esses instrumentos cuja música foi necessária para permitir ao sucessor de Elias profetizar. «Então Eliseu disse: Da parte de Jeová, vos anuncio que é preciso cavar de imediato covas neste vale; não vereis nem vento nem chuva, e, não obstante, este vale se encherá de águas, das quais bebereis, vós e as vossas bestas. Este prodígio custará pouca coisa a Jeová; mas ele fará ainda mais por vós: entregar-vos-á os moabitas. E Jeová vos ordena, pela minha boca, que destruais depois da vitória todas as suas cidades fortes e todas as suas cidades principais; derrubareis todas as suas árvores frutíferas, tapareis todas as suas fontes, e cobrireis de pedregulhos todos os seus campos.» (v. 16-19) Nessas condições, especificadas por papai Bom Deus, já não se vê, por conseguinte, para que podia servir a vitória; porque os israelitas tinham declarado guerra aos moabitas unicamente para obrigá-los a dar-lhes cada ano cem mil cordeiros e cem mil carneiros, como no passado. Seguido de uma devastação completa, o triunfo deixava-os, pois, para sempre privados do tributo cobiçado. «No dia seguinte a esta profecia, aconteceu, pela manhã, que se viram vir águas correndo pelo caminho da Idumeia, de sorte que todas as covas que se tinham cavado ficaram cheias de águas.» (v. 20) A segunda parte da profecia realizou-se como a primeira: os moabitas, tendo dado o assalto ao acampamento de Israel, foram batidos vergonhosamente. «Os moabitas fugiram, e os israelitas, perseguindo-os, entraram na sua terra e os mataram. E destruíram as suas cidades; e cada um trazia pedras e as lançava nos melhores campos, de sorte que já não se viam senão pedregulhos; e taparam todas as fontes e derrubaram todas as árvores frutíferas, até não deixarem senão as pedras em Quir-Haresete, que os atiradores de funda cercaram e venceram. O rei [665] dos moabitas viu então que não era o mais forte; pelo que escolheu os setecentos dos seus soldados que melhor manejavam a espada, e, pondo-se à frente deles, quis chegar até o rei da Idumeia; mas não pôde avançar até lá. Então disse a seu filho mais velho que subisse ao cimo de uma muralha; esse filho mais velho era o que havia de reinar em seu lugar; e o rei Mesa subiu também à muralha, e ali se lançou sobre o filho e o degolou. Esta ação causou tal horror aos israelitas, que eles se retiraram logo da terra que tinham invadido e voltaram, uns a Jerusalém, outros a Samaria.» (2 Reis 3:24-27) Como história idiota, creio que esta pode ser posta em primeiro lugar; não necessita de comentário algum. Eliseu nos é mostrado em seguida, reeditando os milagres de Elias, com ligeiras variantes. Assim, encontra (a Bíblia não diz onde) a viúva de um filho de profeta, que está desolada porque o seu defunto marido lhe deixou dívidas, e, como ela não as pode pagar, os credores querem tomar-lhe os seus dois filhos e vendê-los como escravos (2 Reis 4:1). Eliseu pede à viúva que lhe declare o que possui. A viúva responde: A tua serva não tem nada senão um pote de azeite em toda a sua casa (2 Reis 4:2). É tudo de que Eliseu precisa, ordena, pois, à viúva que vá pedir emprestados a todos os seus vizinhos os potes vazios deles, quaisquer que sejam; depois, que se encerre em casa com os filhos e que verta o azeite do seu pote nos outros vasos. Adivinha-se o milagre: o pote da viúva torna-se inesgotável. A boa mulher, maravilhada, vai ter com Eliseu, agradecer-lhe, e «o homem de Deus lhe disse: Faze-te mercadora de azeite; porque tens agora azeite cuja venda te servirá para pagar a tua dívida, e até tu e os teus filhos vivereis do resto desse azeite até o fim dos vossos dias.» O que há de mais notável neste milagre não é a sua semelhança com o de Elias em favor da viúva de Sarepta; é que Eliseu já não tenha precisado de música para operá-lo. «Certo dia, Eliseu, passando pela aldeia de Suném, notou ali uma mulher, proprietária muito rica e mui atenciosa; esta mulher o convidou, com as mais vivas instâncias, a jantar em sua casa; pelo que, cada vez que Eliseu [666] vinha a Suném, parava em casa dessa mulher para ali tomar a sua refeição.
323. Eliseu convidado a jantar pela sunamita. Ora, a rica sunamita era casada, e disse ao seu esposo: Estou certa de que este homem, que aceita comer em nossa casa, é um santo homem de Deus. Demos-lhe, peço-te, um quarto na casa, no andar de cima; pôr-lhe-emos uma cama, uma mesa, um assento e um candeeiro, a fim de que possa dormir debaixo do nosso teto quando doravante vier visitar-nos.
324. A sunamita decide o marido a dar um quarto a Eliseu. Aconteceu, pois, que no primeiro dia [667] em que Eliseu voltou a Suném, esta mulher lhe ofereceu o quarto que tinha preparado, e Eliseu repousou ali (o texto de 1904 traz “Élie”, Elias). Depois, disse a Geazi, o seu servo: Faze subir até mim esta sunamita. E ela veio. Então, Eliseu disse a Geazi: Pergunta a esta mulher, que tem tantos cuidados conosco, o que quer que eu faça por ela; por exemplo, se tem algum negócio pelo qual eu pudesse falar em seu favor ao chefe do exército ou mesmo ao rei em pessoa. Ela respondeu: Não preciso de [668] nenhuma proteção, porque habito no meio dos sunamitas, que me são todos muito dedicados. Eliseu tornou, dirigindo-se a Geazi: Devemos, no entanto, recompensá-la de todos os seus cuidados para conosco; que seria, pois, preciso fazer-lhe que lhe fosse agradável? Geazi lhe respondeu: Isso é coisa que se pergunte? não vês que ela não tem filho e que o seu marido é velho? (Sic.) Eliseu fê-la, pois, voltar ao quarto. Depois, disse-lhe: No ano que vem, nesta mesma estação, abraçarás um filho.
325. Eliseu anuncia à sunamita que terá um filho. Então, ela lhe respondeu: Ó bom senhor, homem de Deus, queira o céu que não tenhas mentido à tua serva! Aquela mulher concebeu, pois, e deu à luz um filho ao cabo do ano.» (2 Reis 4:8-17) Uma particularidade impressiona desde logo neste relato: Eliseu, assim que é alojado e alimentado por uma devota, já não se dá ares de estar em maus termos com o rei (Suném, ao pé do monte Gilboa, na tribo de Issacar, fazia parte do reino de Israel); no seu afã de se fazer amável, Eliseu oferece os seus serviços junto de Jorão, como se fosse um dos seus favoritos, e é a esse mesmo rei Jorão que ele declarava insolentemente há pouco que não se dignava olhar para ele nem falar-lhe!... O leitor terá notado também que o texto não diz expressamente que foi o profeta quem fez um filho a essa devota; mas o autor deixa-o suspeitar. Nada indica que o velho marido tenha recobrado as forças necessárias. Contudo, na sequência da história, o velho é qualificado de «pai»; mas era ele pai à moda de São José (fr. “père à la mode de saint Joseph”: pai só de nome, como José o foi de Jesus)?... «A criança, tendo crescido, ia brincar entre os segadores. E, numa manhã em que fora ter com o pai nos campos de trigo, essa criança disse de repente: A minha cabeça! a minha cabeça! O pai fê-la logo levar à mãe por um criado. A mãe tomou a criança sobre os joelhos e ali a teve até o meio-dia; nesse momento, morreu. Então, esta mulher subiu ao quarto de cima, depôs a criança sobre a cama do profeta, e saiu, depois de ter fechado bem a porta. Em seguida gritou ao marido: Manda-me um dos teus criados e uma jumenta, e irei ao homem de Deus; depois, voltarei. O marido lhe disse: Por que vais a ele hoje? Não é nem a lua nova, nem o sábado. Ela respondeu: Tudo vai bem. Mandou, pois, selar a jumenta e pôs-se a caminho com [669] o servo. Assim, veio ter com o homem de Deus, na montanha do Carmelo; e, logo que Eliseu a avistou ao longe, disse a Geazi: Eis a sunamita. E acrescentou: Vai a toda a pressa ao seu encontro, e pergunta-lhe se ela, o marido e o filho passam bem. E ela respondeu: Bem. Depois, veio ter com o homem de Deus na montanha e abraçou-lhe os pés. Geazi aproximou-se para a repelir; mas Eliseu lhe disse: Deixa-a, porque tem o coração transido; e Jeová mo ocultou. Então, a sunamita disse: Meu bom senhor, eu não te pedi um filho, e, quando mo anunciaste, desejei não ser enganada por ti. Eliseu disse a Geazi: Põe o teu cinto, toma o meu cajado na tua mão e vai-te; se encontrares alguém no teu caminho, não o saúdes, e, se alguém te saudar, não lhe respondas; em seguida porás o meu cajado sobre o rosto do menino, para o ressuscitar. A mãe disse a Eliseu: Não te deixarei aqui; quero levar-te comigo. E ele se levantou e a seguiu. Ora, Geazi, tendo ido adiante deles e caminhando muito depressa, chegou primeiro a Suném; pôs o cajado sobre o rosto do menino, mas a criança não se mexeu de modo algum, e a fala e o sentido não lhe voltaram. Voltou, pois, sobre os seus passos, ao encontro de Eliseu, a quem disse: Fiz o que me ordenaste; mas a criança não despertou, ainda está morta.» (2 Reis 4:18-31) Pergunta-se aqui por que Eliseu mandou o seu criado ressuscitar a criança com o seu cajado, visto que sabia bem, na sua qualidade de profeta, que Geazi não a ressuscitaria. Pergunta-se por que lhe ordenou que não saudasse ninguém no seu caminho: é claro que era para ir mais depressa; mas por que correr tão depressa para não fazer nada? Eis aí muitas momices inúteis! «Eliseu entrou, pois, por sua vez na casa; e eis que o menino estava morto e deitado na sua cama. Fechou sobre si a porta do quarto, e orou a Jeová. Depois, subiu à cama, deitou-se sobre a criança, pôs a sua boca sobre a da criança, os seus olhos sobre os seus olhos, as suas mãos sobre as suas mãos, e estendeu-se sobre ela; então, a carne do menino começou a aquecer. Mas Eliseu não ficou constantemente sobre o corpo da criança: deixava o quarto e andava pela casa, ora aqui, ora ali; depois, tornava a subir de tempos em [670] tempos e estendia-se de novo sobre a criança. Por fim, o menino espirrou sete vezes e abriu os olhos. Então, Eliseu chamou Geazi e disse-lhe: Faze subir a mãe. E, tendo esta vindo, entregou-lhe o seu filho em muito boa saúde. A sunamita lançou-se aos pés do profeta, prostrou-se com a face contra o chão; depois, tomou o seu filho e foi-se.» (v. 32-37) Os críticos zombam desse milagre de Eliseu, que só se distingue do de Elias pela superabundância de [671] contorções. Mas os teólogos dizem que há nisso um sentido místico; a saber, que é preciso pôr-se ao nível dos pequenos para lhes fazer bem. Há mesmo Padres da Igreja que aprofundaram ainda mais esse episódio; segundo eles, nada é mais importante que o incidente do cajado que, nas mãos de Geazi, não pôde operar o milagre, cujo êxito estava reservado a Eliseu somente: Geazi e o cajado representam a Sinagoga, a quem Deus não permite [672] ressuscitar a humanidade; Eliseu, ao contrário, figura a Igreja romana, a quem tudo sai bem para fazer a felicidade dos povos, como todos sabem. Com Eliseu, ainda não acabamos de rir. «O profeta voltou de Suném a Gilgal e achou a fome na terra.» Ainda e sempre a fome! e prova, sempre, de que essa bela terra de Canaã, com essas montanhas peladas, as suas cavernas, os seus precipícios, o seu lago de Sodoma, e o seu deserto de areia e de pedregulhos não era de todo tão fértil como papai Bom Deus o mandara anunciar ao seu povo pela voz de Moisés! «Eliseu viu os filhos dos profetas, sentados em roda no chão e não tendo nada que comer. Então, disse a Geazi: Põe aí uma grande panela; porque vamos fazer um bom guisado para os filhos dos profetas. Após o que, enviou o seu criado aos campos para ali colher o que achasse. Geazi foi e trouxe coloquíntidas silvestres em grande quantidade; e ninguém sabia o que era aquilo. E Eliseu mandou pôr todas essas coloquíntidas, cortadas em pedaços, na panela que estava ao fogo, no meio dos filhos dos profetas.» A coloquíntida é uma espécie de pequena abóbora, extremamente amarga, que se empregou outrora em medicina como purgante, mas à qual se renunciou, porque tinha um sabor por demais ruim. Por aí se vê o belo guisado que Eliseu estava mandando confeccionar para os seus amigos de Gilgal. «Serviu-se, pois, esse guisado, e alguns dos filhos dos profetas puseram-se a comer dele; mas, logo aos primeiros bocados, cuspiram e gritaram a Eliseu: Homem de Deus, puseste a morte nesta panela! E todos se recusaram a comer dele. Então, Eliseu disse: Que me deem um pouco de farinha. Deitou três pitadas de farinha na panela, e disse: O povo comerá deste guisado; que lho distribuam. E os homens do povo comeram de bom grado; porque o que saía da panela de Eliseu se tornara muito bom.» (2 Reis 4:38-41) «E veio um homem de Baal-Salisa que trouxe ao profeta as primícias da sua colheita, a saber, vinte pães de cevada e grão em espiga com a sua palha. Eliseu disse: que se distribua isso a este povo, a fim de que todos comam à vontade. Mas Geazi lhe respondeu: Como queres que se distribua isto? mesmo repartindo-o muito miúdo: não há [673] com que dar a cem pessoas. Eliseu tornou: Dá, digo-te, dá a este povo, e que comam; porque o Eterno me faz saber que comerão e que sobejará. Distribuiu-se, pois, o pão ao povo, e cada um tirava do monte, e havia sempre pão para os que se apresentavam depois; comeram todos à vontade, e deixaram muito.» (2 Reis 4:42-44)
326. Primeira edição do milagre da multiplicação dos pães. O que há de mais notável neste milagre é que mais tarde foi imitado pelo Cristo; mas então, Eliseu, morto e enterrado havia muito tempo, não pôde intentar contra o filho de Maria um processo por contrafação. O capítulo 5 é consagrado à história de Naamã, mais um desses personagens supostamente muito conhecidos, no dizer da Bíblia, mas de quem nenhum historiador falou. «Naquele tempo, vivia Naamã, general em chefe dos exércitos da Síria, homem muito poderoso junto do seu rei, e que era muito honrado na sua terra, porque os sírios lhe deviam o seu livramento; assim o quisera Jeová; mas este homem muito valente era leproso. Ora, a sua mulher tinha ao seu serviço uma moça judia, que fora capturada por ladrões sírios numa incursão nas terras do rei de Israel. Esta moça disse, pois, à sua senhora: Muito desejaria eu que o meu senhor Naamã se apresentasse diante do profeta que mora em Samaria; esse depressa o teria sarado da sua lepra.» (v. 1-3)
327. O bom general Naamã, homem valente, mas leproso. Quando essas palavras foram repetidas ao general, este pediu ao seu rei uma licença, que lhe foi concedida; o rei da Síria prometeu-lhe, além disso, enviar ao rei de Israel uma carta de amizade, a fim de que ele tivesse bom acolhimento no país. Naamã partiu, levando dez talentos de prata, seis mil peças de ouro e dez túnicas de muda (v. 4-5). Mas eis que o rei da Síria cometera um quiproquó. Quando o rei de Israel, Jorão, abriu a carta, leu nela isto: «Logo que esta carta te chegar, saberás que te enviei o meu general Naamã, a fim de que o sares da lepra.» (v. 6). Compreende-se a estupefação de Jorão diante dessa leitura; mas compreende-se menos a maneira como ele tomou a coisa, no dizer da Bíblia: «Logo que o rei de Israel leu a carta, rasgou as suas vestes exclamando: Sou eu um deus com o poder de fazer morrer e de restituir a vida, para [674] que esse rei me envie um homem para sarar da lepra? Vamos, o rei da Síria procura uma contenda comigo.» (v. 7) Felizmente, Eliseu teve conhecimento do que se passava, e mandou dizer a Jorão que só tinha de lhe enviar Naamã. Sete banhos no Jordão, segundo a receita de Eliseu, desembaraçaram completamente o bom general da sua lepra: «ao sétimo banho, a sua carne voltou-lhe semelhante à carne de uma criancinha». A bem dizer, Naamã tinha ficado [675] de início surpreendido com a receita do profeta: não pensava ter vindo de tão longe para ter de se banhar pura e simplesmente; havia, pensou ele, belos rios em Damasco que poderiam tê-lo curado; mas fizeram-lhe compreender que esses rios não tinham a virtude do Jordão, purificante pela virtude de Eliseu.
328. Naamã é curado pela água do Jordão. Logo que ficou curado, veio agradecer ao profeta: «Agora conheço, disse-lhe ele, que não há, em toda a terra, outro deus verdadeiro senão o que está em Israel. Pelo [676] que, peço-te, aceita os presentes do teu servo.» Eliseu recusou esses presentes, apesar das instâncias de Naamã (v. 8-16).
329. Eliseu recusa os presentes do general agradecido. «Naamã disse ainda ao profeta: Não farei mais holocaustos a outros deuses; mas peço-te que rogues ao teu deus que me perdoe isto: quando o rei meu amo entrar no templo de Rimom para ali se prostrar diante do deus dos sírios, será preciso que eu me prostre com ele; queira, pois, Jeová perdoar-me, cada vez que eu me prostrar com o meu rei diante de Rimom. Eliseu lhe respondeu: Que a tua alma esteja em paz.» (v. 17-19) Mas o desinteresse de Eliseu nessas circunstâncias não convinha a Geazi, o seu criado. Quando Naamã partiu, Geazi correu atrás dele, alcançou-o no campo e disse-lhe: Eliseu, meu amo, nada quis para si; mas dois jovens filhos de profetas muito pobres acabam de lhe chegar de Efraim; por isso Eliseu te pede que me entregues, para esses moços, um talento de prata e duas túnicas de muda. Naamã, todo alegre, deu a Geazi, não um, mas dois talentos, e as duas túnicas. De volta a casa, Geazi foi punido pela sua improbidade: a lepra, de que o general fora desembaraçado, passara para ele. (2 Reis 5:20-27)
330. Geazi, tendo tomado o dinheiro, apanha a lepra. Eliseu realizou ainda numerosos milagres. Um desses personagens que o autor sagrado designa sob esse nome vago de «filhos de profetas», achando-se nas margens do Jordão, cortava lenha, um belo dia. «Mas aconteceu que, enquanto derrubava uma viga, o ferro do seu machado caiu na água; ele exclamou: Ai!... Eliseu lhe disse: Onde caiu o teu ferro? O outro mostrou-lhe o lugar. Então Eliseu cortou um pedaço de madeira, lançou-o ali, e logo o ferro veio a nadar à superfície da água.» O filho de profeta só teve de apanhá-lo e reajustá-lo ao cabo (2 Reis 6:1-7). O milagre teria sido ainda mais belo se o ferro tivesse vindo reajustar-se por si mesmo.
331. Milagre pasmoso do machado. Outro milagre, que mostra a que ponto Jeová protegia Eliseu: «Ora, o rei da Síria, durante a guerra que fazia a Israel, reunia conselho com os seus oficiais, e decidia-se que o acampamento seria estabelecido em tal lugar. Mas Eliseu mandava [677] avisar logo o rei de Israel; e Jorão tomava medidas em consequência, segundo o que lhe revelara o homem de Deus; estava assim sempre de sobreaviso, e isto se produziu mais de uma e duas vezes. O coração do rei da Síria ficou com isso perturbado; reuniu os seus oficiais e disse-lhes: É preciso descobrir qual dos nossos avisa o rei de Israel de tudo o que resolvemos fazer. Um dos oficiais respondeu-lhe: Meu senhor, não há traidor entre nós; mas Eliseu, o profeta, que está em Israel, sabe tudo o que dizemos e revela ao rei Jorão as próprias palavras que dizes de noite no quarto onde dormes. O rei da Síria disse então: Se assim é, é preciso saber onde está esse Eliseu, a fim de que nos apoderemos dele; é a coisa mais importante para o êxito da nossa guerra. Vieram informar o rei de que Eliseu estava em Dotã, e ele enviou para lá cavalos e carros, e tropas numerosas, que, a favor da noite, rodearam a cidade. E eis que o servo do profeta, tendo-se levantado de madrugada e tendo visto a cidade cercada pelo exército sírio, veio relatá-lo a Eliseu, dizendo-lhe: Ai! como nos livraremos disto? Eliseu lhe respondeu: Não tenhas medo; porque os que estão conosco são em maior número do que os que estão com eles. E o profeta fez esta oração ao Eterno: Ó Jeová, abre os olhos do meu servo, a fim de que veja. Então, o servo, tendo-lhe Deus aberto os olhos, olhou e viu que a montanha estava coberta de cavalos de fogo e de carros de fogo em toda a volta de Eliseu. Em seguida, as tropas sírias desceram para prender o profeta, e Eliseu disse a Jeová: Ó Eterno, meu Deus, peço-te, fere estes soldados inimigos de cegueira. Logo os soldados sírios ficaram cegos.» (v. 8-18)
332. Sírios feridos de cegueira. Aqui, a aventura descamba na comédia mais bufa que se possa sonhar. Imaginem-se esses infortunados militares, tanto os oficiais como os soldados, feridos de repente de cegueira, e não se esqueça, sobretudo, que se trata de um exército muito numeroso, visto que a cidade onde se acha o profeta está inteiramente cercada e que há ali infantaria, cavalaria e carros de guerra. Pois bem, se um tal milagre pudesse produzir-se, parece que esses milhares de homens, [678] na sua desolação por terem perdido a vista, já não teriam pensado senão em levantar o cerco, em implorar a piedade dos israelitas, cujo território tinham invadido, e teriam suplicado que os reconduzissem a casa, felizes até de se livrarem a tão bom preço. Nada disso! Segundo a Bíblia, essas tropas cegas continuaram, apesar disso, a ter a pretensão de se apoderar de Eliseu. E então o autor sagrado faz os fiéis engolirem uma das mais monumentais farsas que tenham sido escritas por um sacerdote [679] que caçoava das crédulas ovelhas: Eliseu oferece-se para conduzir oficiais e soldados sírios em busca de Eliseu; esses cegos idiotas aceitam, e o profeta arrasta-os assim atrás de si até dentro da capital do reino, e ei-los ali prisioneiros. Essa patranha é tão insensata, que é necessário reproduzir mais uma vez o texto divino. «Eliseu veio então ter com os sírios, que tinham ficado cegos, e disse-lhes: Não é aqui a cidade onde achareis o homem que buscais; vinde após [680] mim, e eu vos levarei a esse homem. E levou-os a Samaria.» (2 Reis 6:19). Figurai-vos, em pensamento, essas tropas seguindo o profeta um atrás do outro, como os lobos; figurai-vos todos esses cegos caminhando de Dotã a Samaria, cada um segurando a aba da veste daquele que anda diante dele, e o primeiro desses milhares de homens segurando por uma ponta da sua túnica o guia Eliseu. Depois disso, dizei se é possível a uma religião zombar mais alegremente da fé dos seus fiéis! «E aconteceu que, logo que os sírios entraram em Samaria, Eliseu, tendo mandado fechar de novo as portas, disse: Ó Eterno, abre-lhes os olhos, para que agora vejam. E Jeová abriu-lhes os olhos; e eles se viram prisioneiros no meio de Samaria.» (v. 20). Mas tudo está bem quando acaba bem, e vamos constatar que Eliseu, magnânimo naquele dia, não abusou do seu triunfo. «Logo que o rei de Israel viu as tropas sírias à sua mercê, disse a Eliseu: Meu pai, ferirei? ferirei? E ele respondeu: Não os ferirás. Feririas tu com a tua espada e com o teu arco aqueles que tu mesmo tivesses tomado prisioneiros? Pelo contrário, põe pão e água diante deles, e que comam e bebam, e que tornem para o rei, seu senhor. E mandou dar-lhes um grande banquete; depois, deixou-os ir; e tornaram para a sua terra. Desde aquele tempo, as tropas sírias não voltaram mais à terra de Israel.» (v. 21-23) O que se acaba de ler vai agora, imediatamente, ser contradito pelo que se segue. Assim é a Sagrada Escritura! O versículo 23 nos afirma que, por efeito da generosidade de Eliseu, o reino de Israel ficou para sempre em paz com o reino da Síria. Lede, pois, o versículo 24: «Mas aconteceu, depois destas coisas, que Ben-Hadade, rei da Síria, ajuntou todo o seu exército, e partiu em guerra e sitiou Samaria.» Os padres, para não terem de se explicar sobre essas contradições por demais estúpidas, só falam, nos seus manuais de história sagrada, do milagre da cegueira dos sírios. Eis, pois, Ben-Hadade de novo em cena; é aquele Ben-Hadade que o rei Acabe deixara escapar, como o leitor talvez se lembre. «E houve uma grande fome em Samaria; [681] a cabeça de um jumento vendia-se ali por oitenta peças de prata, e um quarto de alqueire de esterco de pombas por cinco peças de prata.» Pronto! está ali com todas as letras, é o versículo 25. «E, passando um dia o rei de Israel ao longo das muralhas, uma mulher lhe gritou: Ó rei, meu senhor, salva-me! E o rei lhe respondeu: Como posso salvar-te, visto que Jeová não vem em nosso auxílio? Não tenho nem pão nem vinho; e tu, que tens? E a mulher tornou: Eis aqui a minha vizinha, que me disse: Dá-me o teu filho, para que o comamos hoje, e amanhã comeremos o meu. Fizemos, pois, cozer o meu filho e o comemos. Eu lhe disse no dia seguinte: Façamos cozer o teu filho, para que o comamos. Mas ela não quer fazer nada disso, e escondeu o seu menino. O rei, tendo ouvido isso, rasgou as suas vestes, e então o povo viu que ele tinha um saco sobre a carne por dentro (?). E o rei disse ainda: Que Deus me extermine, se a cabeça de Eliseu permanecer hoje sobre os seus ombros! porque é ele quem nos acarreta esta fome.» (2 Reis 6:26-31). «Ora, Eliseu estava em sua casa, e uns velhos se achavam com ele. O rei lhe enviou, pois, um homem; mas, bem antes que ele chegasse, o profeta disse aos seus amigos: Tomai cuidado; quando vier um mensageiro do rei, fechai bem a porta; porque esse homem vem para me cortar o pescoço. Enquanto ele falava, o carrasco chegou e disse: O mal de que sofremos saiu da mão do Eterno; que mais poderemos esperar de Jeová?» (2 Reis 6:32-33) Felizmente, se Eliseu era causa da fome, ia em breve mudar a face das coisas; saboreai. «Então, Eliseu disse: Ouvi o Eterno, que fala pela minha boca: amanhã, a esta mesma hora, o saco de flor de farinha se venderá por um siclo (trinta e dois sous), e por um siclo também se terão dois sacos de cevada.» (2 Reis 7:1) «Durante esse tempo, o Senhor fez ouvir no acampamento dos sírios um grande ruído de carros, e de cavalos, e de um grande exército, de sorte que Ben-Hadade creu que o rei de Israel tinha pagado ao rei dos heteus e ao rei do Egito para virem em seu auxílio. E todos os sírios, apavorados, fugiram durante a noite, abandonando as suas tendas, os seus cavalos, os seus jumentos, e não pensando senão em salvar a vida (v. 6-7)... Todo [682] o povo saiu logo de Samaria e saqueou o acampamento dos sírios, de sorte que se vendeu o saco de flor de farinha por um siclo e os dois sacos de cevada por um siclo também.» (v. 16) O capítulo 8, depois de nos ter informado de que a sunamita, cujo filho Eliseu ressuscitara, foi passar sete anos entre os filisteus para não ter de sofrer a fome, conta-nos a história do capitão Hazael. Para compreender, é preciso recordar que, quando Elias (não Eliseu, se vos apraz) estava [683] no monte Horebe, Jeová, que o fizera vir até lá, disse-lhe, depois de tremor de terra e incêndio dos rochedos: «Recomeça todo o caminho que fizeste (quarenta dias e quarenta noites de marcha), torna e vai-te a Damasco; ali, ungirás a Hazael por rei sobre a Síria; ungirás também a Jeú, filho de Ninsi, para ser rei sobre Israel, etc.» (1 Reis 19:15-16) A Bíblia não se dá ao trabalho de explicar por que Elias nunca ungiu nem Hazael nem Jeú; [684] depois que papai Bom Deus pronunciou as palavras que acabam de ser postas de novo sob os olhos do leitor, não se falou mais disso, eis tudo. Agora, chegamos a Eliseu; o escritor sagrado pensa de repente em Hazael e em Jeú, e bem ou mal vai reparar o seu esquecimento, já que tem Eliseu à mão. Enfim! vamos saber o que é esse Hazael! «Eliseu dirigiu-se a Damasco, e, no tempo dessa viagem, Ben-Hadade, rei da Síria, estava doente. A sua gente veio às pressas dizer-lhe: O homem de Deus acaba de chegar. Então, o rei disse a Hazael: Vá alguém depressa ao encontro do profeta de Jeová com muitos presentes, e consulte-o para saber se sararei. Foi, pois, Hazael ter com Eliseu, com quarenta camelos carregados de dádivas magníficas, e, quando esteve diante de Eliseu, comunicou-lhe a sua missão, a saber, se o rei Ben-Hadade sararia da sua doença. Eliseu lhe respondeu: Vai-te, e dize-lhe que certamente sarará; mas, quanto a ti, sabe que Jeová me disse, pelo contrário, que certamente o teu rei morrerá.» (2 Reis 8:7-10) Quem lê semelhantes burradas pergunta a si mesmo se não está sonhando. Por que Eliseu, sabendo por Deus que Ben-Hadade vai morrer, diz a Hazael que anuncie ao seu amo a sua cura? e por que ele, profeta, se mostra a Hazael sob a luz pouco favorável de um mentiroso, consciente da sua mentira? A Bíblia não o explica. Tanta asneira desconcerta. E eis o livro fundamental de uma religião!... «Após o que, o homem de Deus, fixando a vista em Hazael, olhou-o longamente; depois, chorou. Hazael lhe disse: Por que chora o meu senhor? Eliseu lhe respondeu: É que sei que farás grande mal aos filhos de Israel; queimarás as suas cidades, matarás à espada os jovens, esmagarás a cabeça das criancinhas; fenderás o ventre das mulheres grávidas.» (v. 11-12) Suponho que, se um cavalheiro vos falasse assim e se estivésseis convencido da veracidade dos profetas, recuaríeis, tomado de horror, ao ouvir essa linguagem; que pensareis, pois, da resposta do capitão Hazael? «E Hazael lhe disse: Como queres que eu faça tão grandes coisas (sic), eu que não sou senão um cão? E Eliseu acrescentou: Jeová me revelou tudo isso, e sei por ele que serás rei da Síria. Então, Hazael deixou [685] Eliseu e voltou para Ben-Hadade, seu amo, que lhe perguntou: Que disse o profeta? Hazael lhe respondeu: Disse-me que sararás da tua doença. Mas, no dia seguinte, Hazael tomou uma pele de cabra, embebeu-a na água e aplicou-a toda molhada sobre o rosto de Ben-Hadade, de sorte que este foi sufocado; e Hazael reinou em seu lugar.» (v. 13-15) Essa maneira de se apoderar de uma coroa é excessivamente pouco complicada; como se vê, nenhum dos herdeiros de Ben-Hadade reclamou. Graças ao fim deste capítulo, sabemos que, nos seus últimos anos, o velho Josafá associou ao trono o seu filho Jorão, o esposo de Atalia; o que está um tanto em contradição com o que lemos anteriormente, visto que foi dito (1 Reis 22:51) que esse Jorão de Judá, filho de Josafá, subiu ao trono depois da morte de seu pai. Mas, se tivéssemos de nos deter em todas as contradições da Bíblia, não acabaríamos mais! — Jorão de Judá andou num mau caminho; tal como o seu cunhado Jorão de Israel, fez tudo o que podia desagradar a Jeová. Por isso foi punido com a revolta dos idumeus, que deixaram de lhe pagar um tributo. Jorão de Judá tinha trinta e dois anos, por ocasião da sua ascensão ao trono, diz-se ainda, e reinou oito anos. Quando morreu, Jorão de Israel estava no duodécimo ano do seu reinado. A Jorão de Judá sucedeu Acazias, seu filho, portanto filho de Atalia. Acazias teve a coroa paterna aos vinte e dois anos, não adorou a Jeová e só durou um ano. Aliou-se a seu tio Jorão de Israel, para fazer guerra a Hazael, rei da Síria; mas Hazael derrotou Jorão e Acazias. «E Jorão, rei de Israel, tornou para Jezreel para fazer tratar as feridas que recebera dos sírios em Ramá, quando pelejava contra Hazael; e Acazias, filho de Jorão, rei de Judá, desceu para visitar Jorão, filho de Acabe, em Jezreel, porque estava doente.» (v. 29) Leitor, não tardareis a estremecer; porque terríveis massacres estão em preparação pela vontade divina. «Naquele tempo, o profeta Eliseu chamou um dos filhos dos profetas e lhe disse: Põe um cinto bem apertado em volta dos teus lombos, toma esta pequena botija de azeite, e vai-te a Ramote de Gileade; quando lá estiveres, verás Jeú, filho de [686] Josafá, filho de Ninsi, e, tendo-o feito entrar numa câmara secreta, lhe derramarás sobre a cabeça todo o conteúdo da tua botija, dizendo-lhe: Eis como fala Adonai: Eu te unjo rei de Israel. Após o que, abrirás a porta, e fugirás a mais correr.» (2 Reis 9:1-3) O jovem profeta, que substituíra Geazi junto de Eliseu, foi, pois, a Ramote e executou fielmente essas instruções, para grande embasbacamento do capitão Jeú. Não obstante, uma vez [687] recebido o seu azeite, disse consigo que essa unção era coisa das mais sérias, e contou aos outros oficiais da guarnição o que acabava de lhe acontecer. «Então, os oficiais tomaram cada um as suas vestes e as puseram debaixo dele, de modo a elevá-lo muito alto, e tocaram a trombeta, e exclamaram: Viva Jeú, que foi feito rei! Assim, Jeú, filho de Josafá, filho de Ninsi, fez uma conjuração contra Jorão, rei de Israel.» (v. 13-14)
333. O capitão Jeú se proclama rei de Israel. [688] Eis-nos agora recaídos num horrendo labirinto de assassinatos de nunca acabar. Vimos a horrível missão dada a Hazael da parte de Deus, missão que começa pelo homicídio de Ben-Hadade e que há de prosseguir com as carnificinas mais medonhas: o novo rei da Síria deverá esmagar a cabeça das criancinhas e fender o ventre das mulheres grávidas. Também Jeú tem ordem de chafurdar no sangue. O crime dos Jorões, Acazias e outros príncipes era adorar Baal em vez de Adonai. Eis como a Bíblia ensina a tolerância. Proclamado rei pela guarnição revoltosa de Ramote-Gileade, «Jeú montou a cavalo e se foi a Jezreel; porque Jorão, rei de Israel, estava ali doente, e Acazias, rei de Judá, seu sobrinho, também lá estava, tendo vindo visitá-lo. E uma sentinela, posta sobre uma torre em Jezreel, viu a tropa de Jeú que vinha e a assinalou. E Jorão enviou um mensageiro para dizer: Que significa esse movimento de tropas? não estamos em paz?» (v. 16-17). Como esse mensageiro não voltasse, Jorão enviou outro, que também não voltou. «Então, Jorão mandou atrelar o seu carro, subiu nele, Acazias subiu por seu lado no seu carro, e, tendo saído de Jezreel, foram ao encontro de Jeú. E, logo que Jorão o avistou, disse-lhe: Trazes a paz, Jeú? Mas Jeú respondeu: Que paz seria, pois, possível, enquanto tua mãe Jezabel se entrega à prostituição e multiplica todos os dias o número dos seus encantamentos?» (v. 21-22) Para degustar em todo o seu sabor essa censura de Jeú a respeito da desvergonha da rainha Jezabel, é necessário entregar-se a um pequeno cálculo cronológico, baseando-se nos textos sagrados. Que idade tinha, pois, então a viúva de Acabe? Era a mãe de Atalia, e esta tinha cerca de cem anos!... Não se diz com que idade uma e outra se casaram; mas suponhamos que a filha de Acabe tivesse apenas quinze anos quando foi unida ao Jorão de Judá, filho de Josafá. Já sabemos que esse Jorão não foi devoto de Jeová; o livro segundo das Crônicas (ch. 21) nos dá a conhecer o seu castigo: «O Eterno despertou contra Jorão o espírito dos filisteus e dos árabes, vizinhos dos cuxitas; os quais subiram contra Judá e saquearam [689] tudo, até a casa do rei; e depois disso o Eterno o feriu nas entranhas com uma doença incurável. Ao cabo de dois anos, a doença era tão forte que as entranhas lhe saíam do corpo, e morreu com grandes dores.» (v. 16-19). E o capítulo 22 começa com estas preciosas informações: «Então, os habitantes de Jerusalém estabeleceram por rei em seu lugar Acazias, o mais novo dos seus filhos, porque as tropas árabes que tinham vindo haviam matado todos os que eram mais velhos do que ele. Ora, Acazias, filho de Jorão, rei de Judá, tinha quarenta e dois anos quando começou a reinar, e reinou um ano em Jerusalém e sua mãe era Atalia.» (v. 1-2). O número dos irmãos de Acazias nos é dado no versículo 14 do capítulo 10 do segundo livro dos Reis: eram «quarenta e dois». Agora, recapitulemos. Atalia, casada, o mais cedo, aos quinze anos, pôde ter o seu primeiro filho um ano depois. Admitamos que ela nunca tenha tido senão meninos, visto que a Bíblia não fala de filhas desta rainha: como Acazias foi o quadragésimo terceiro a nascer, Atalia tinha, portanto, cinquenta e oito anos quando o pôs no mundo; e, por conseguinte, tinha exatamente cem anos quando Acazias, com quarenta e dois anos, subiu ao trono. Donde resulta que Jezabel, mãe de Atalia, tinha pelo menos cento e vinte anos quando se entregava à prostituição, reinando o seu filho Jorão sobre Israel e o seu neto Acazias sobre Judá. Compreende-se sem custo que, para ainda tentar amantes, a velha Jezabel precisava multiplicar o número dos seus encantamentos! A resposta de Jeú não era própria para tranquilizar o filho de Jezabel. «Então, Jorão voltou as rédeas e fugiu, dizendo a Acazias: Estamos traídos. E Jeú tomou o seu arco com a mão cheia, e feriu Jorão entre as espáduas, de sorte que a flecha lhe atravessou o coração, e ele caiu de joelhos no seu carro.» (2 Reis 9:23-24) Acazias, rei de Judá, também tinha fugido. «Mas Jeú o perseguira e dissera: Matai-o igualmente no seu carro. Na subida de Gur, perto de Ibleão, foi ele ferido; depois, fugiu para Megido, e morreu ali.» (v. 27) Eis, agora, a vez de Jezabel. «Jeú veio, pois, a Jezreel; e Jezabel, tendo-o ouvido, pintou o rosto, enfeitou [690] a cabeça, e mostrou-se a Jeú pela janela.» (v. 30) Essa velha de cento e vinte anos contava ainda com os seus encantos para seduzir o usurpador! «E, quando Jeú transpunha o limiar da porta, ela lhe disse: Trouxe isso sorte a Zinri, ter matado o seu rei?» (v. 31) Recorde-se que Zinri, tendo massacrado o rei Baasa (na verdade o rei Elá, filho de Baasa: 1 Reis 16:8-11) e toda a sua família, só reinou sete dias e se suicidou quando o motim de Onri triunfou.
335. Coqueteria da velha rainha Jezabel. «Então, Jeú levantou a cabeça para a janela, [691] e disse: Quem quer vir aqui, da minha gente? quem? Dois ou três oficiais olharam para ele. Jeú lhes disse: Lançai essa mulher pela janela. E lançaram-na, e o seu sangue espirrou contra a parede e contra os cavalos; e ele a calcou aos pés. Depois, entrou na casa real, e comeu e bebeu. Após o que, disse: Ide ver agora essa maldita mulher, e sepultai-a; porque é filha de rei. Foram-se, pois, para a sepultar; mas não acharam nada [692] senão o crânio, os pés e os punhos. E, tendo tornado, lho referiram; e Jeú disse: Assim se cumpriu a palavra de Jeová, que, pela boca de Elias, anunciou que no campo de Jezreel os cães comeriam a carne de Jezabel e que o seu cadáver seria como estrume, de modo que ninguém poderá dizer: Esta é Jezabel.» (v. 32-37)
336. Jezabel é devorada pelos cães. Mas sabemos que Jezabel fora prolífica; Jorão deixava irmãos aptos a sucedê-lo. «Ora, Acabe tivera ainda setenta filhos; e Jeú escreveu cartas e as enviou a Samaria, aos principais de Jezreel, aos anciãos, a todos aqueles em cuja casa se alojavam esses filhos de Acabe.» (2 Reis 10:1). Essas cartas ordenavam o extermínio de todos esses príncipes. «Logo, pois, que as ordens de Jeú chegaram aos anciãos, estes tomaram os filhos de Acabe e os degolaram; depois, enviaram a Jeú as setenta cabeças em cestos.» (v. 7) Jeú fez ainda morrer todos os amigos e todos os oficiais ligados à casa de Acabe (v. 11). «Depois disso, Jeú, indo a Samaria, encontrou no caminho os irmãos de Acazias, rei de Judá. Eles responderam: Somos os quarenta e dois irmãos de Acazias. Então, Jeú disse à sua gente: Pois bem, que os prendam vivos! E, tendo-os assim capturado, fê-los degolar todos os quarenta e dois, junto ao poço de uma casa de pastores; e nenhum sobreviveu a esse massacre.» (v. 12-14) Não é mau recordar que esses quarenta e dois filhos de Atalia já tinham sido mortos pelos árabes, visto que Acazias, quadragésimo terceiro e o mais novo da família, só sucedera a seu pai, o Jorão de Judá, por causa desse primeiro extermínio dos seus irmãos mais velhos... Ah! o cruel Jeú! assassinava até as almas do outro mundo!... Se credes que desta vez está terminado, enganais-vos muito. Jeú anunciou que ia dar grandes festas em honra de Baal. «E convocou todos os sacerdotes de Baal, dizendo: Que não falte nenhum, porque quero fazer um grande sacrifício a Baal, e os que não vierem serão mortos. Mas Jeú era muito astuto, e agia assim para fazer perecer todo aquele que servia a Baal. E fez publicar em todo o Israel o anúncio dessa festa solene. E todos os servos de Baal vieram, sem que faltasse um só; o templo [693] de Baal, naquele dia, ficou cheio de uma ponta até a outra.» (2 Reis 10:19-21) Enquanto se faziam sacrifícios ao deus rival de Jeová, o templo foi cercado pelas tropas de Jeú. «E, logo que acabaram o holocausto, Jeú disse aos arqueiros e aos capitães: Entrai, matai-os, que não escape nenhum! Os arqueiros, pois, e os capitães os passaram ao fio da espada, e os lançaram ali. Depois, tiraram as estátuas para fora do templo e as queimaram. E demoliram a estátua de Baal, e demoliram de alto a baixo o templo de Baal. Assim, Jeú exterminou Baal do meio de Israel.» (v. 23-28) Agora, leitor, escorai-vos bem contra um muro, para não cairdes de costas. Eis o versículo 29: «Todavia, Jeú andou constantemente no caminho do pecado; porque adorava os bezerros de ouro que estavam em Betel e em Dã.» Incompreensível, não é verdade, o senhor Jeú?... Oh! sim, e como! Mais uma citação: «E Jeová apareceu a Jeú e lhe disse: Porquanto executaste muito bem as minhas ordens, vingando-me da casa de Acabe, a tua descendência reinará sobre Israel até a quarta geração. Mas Jeú persistiu em andar fora dos caminhos de Jeová, e se maculou com todos os pecados de idolatria de Jeroboão.» (v. 30-31) Enfim, seja como for, o usurpador Jeú reinou vinte e oito anos; ao morrer, deixou a coroa a seu filho Jeoacaz (v. 35-36). O escritor sagrado, todo entregue às façanhas de Jeú, deixou de se ocupar de Atalia. Felizmente, desforra-se no capítulo 11. Em consequência da ascensão do usurpador ao trono, a filha de Acabe tivera, pois, de tomar numerosos lutos; em poucos dias, tinham degolado a sua mãe Jezabel, o seu irmão Jorão de Israel e os seus outros setenta irmãos, o seu filho Acazias e os seus outros quarenta e dois filhos.
334. Jorão e Acazias, primeiras vítimas de Jeú. Só restavam à rainha de Jerusalém os seus netos, os filhos de Acazias. Que fez ela, para preservá-los do furor de Jeú? Degolou-os ela mesma. «Atalia, mãe de Acazias, tendo visto que tinham matado o seu filho, levantou-se por sua vez e exterminou toda a linhagem real.» (v. 1)
337. Atalia extermina a linhagem real de Judá. Só na Bíblia se encontram vinganças desse número (fr. “de ce numéro-là”, locução familiar: dessa espécie)! O que faz Voltaire dizer «Atalia, avó do pequeno Joás, assassina todos os seus netos em Jerusalém, segundo o que diz a história sagrada, à exceção do pequeno Joás, que escapa; tinha perto de cem anos, [694] e não tinha, aliás, nenhum interesse em degolá-los: só comete todos esses pretensos assassinatos pelo prazer de os cometer, e para dar ao sumo sacerdote Joiada um pretexto para a assassinar por sua vez. Temos aí, nesse período dos reis de Israel e de Judá, cenas de homicídio e de carnificina, de que não se poderia encontrar exemplo senão na história das fuinhas, se algum galo de terreiro tivesse feito a história delas.» [695] De mais a mais, as inverossimilhanças são sempre o que domina na Bíblia. Como é salvo do massacre geral o mais novo dos filhos de Acazias? É salvo por sua tia Jeoseba, que o esconde. Ora, quem é essa Jeoseba? É irmã de Acazias e filha de Atalia (2 Reis 11:2); é também a esposa do sumo sacerdote Joiada (2 Crônicas 22:11). Assim, a rainha Atalia, famosa pela sua impiedade, Atalia, que não [696] reconhecia senão Baal por Deus, tinha casado a filha com o sumo sacerdote de Jeová! E o pequeno Joás foi criado em segredo no templo.
338. Joás criado em segredo pelo sumo sacerdote Joiada. Durante seis anos, Atalia reinou sozinha (2 Reis 11:3), e ignorou por completo essa conspiração permanente de seu genro. No sétimo ano, Joiada reuniu uns capitães fiéis a Jeová, mostrou-lhes o jovem filho de Acazias, proclamou-o rei, e Atalia, que acorrera para ver o que se passava, foi degolada «na rua que conduzia às cavalariças do palácio de Davi» (v. 16). Na mesma ocasião, massacraram Matã, o sumo sacerdote de Baal, isto é, o concorrente de Joiada (v. 18).
339. Morte de Atalia, aos cento e seis anos. O capítulo 12 do segundo livro dos Reis é consagrado ao reinado de Joás, que não é dos mais brilhantes. Tudo o que nele se encontra de interessante é a gloriosa invenção do cofrinho pelo sumo sacerdote Joiada. Como o templo precisava de reparações, Joás dissera que os sacerdotes se encarregariam delas, e que, para isso, receberiam diversas quantias, quer do imposto do recenseamento, quer da generosidade dos fiéis. No vigésimo terceiro ano do reinado de Joás, nenhuma reparação fora ainda feita; mas os sacerdotes nem por isso tinham deixado de embolsar durante todo esse tempo (v. 6). O rei, decidindo-se a pôr ordem nesse estado de coisas, decretou que os sacerdotes não receberiam mais diretamente o dinheiro, e, por conseguinte, que não teriam a seu cargo as reparações. «Então, o sumo sacerdote Joiada tomou um cofre bem fechado, fez uma fenda na sua tampa, e o pôs perto do altar, à mão direita, no lugar por onde se entrava na casa do Eterno; e todo o dinheiro que se trazia ao templo era posto nesse cofre. Logo que se via que o cofre estava cheio, o secretário do rei e o sumo sacerdote o abriam juntos, contavam o dinheiro e o metiam em sacos; depois, entregavam esse dinheiro bem contado nas mãos dos que tinham o encargo de mandar fazer as reparações pelos pedreiros e pelos carpinteiros.» (v. 9-10) Como se vê, sem a invenção do cofrinho, o templo nunca teria sido reparado. Consta do livro dos Reis que Joás foi um piedoso monarca; mas, segundo o livro das Crônicas, acabou por se desencaminhar (livro 2, ch. 24): restaurou o culto dos ídolos dos bosques e de outros falsos deuses, para grande escândalo de [697] Zacarias, que, com a morte de Joiada, seu pai, se tornara sumo sacerdote de Jeová. Joás, irado com os reproches de Zacarias, mandou-o abater a pedradas, no próprio átrio do templo (2 Crônicas 24:21). Por sua vez, Joás foi degolado por dois dos seus criados, os srs. Zabade e Jozabade (2 Crônicas 24:26). Esse rei reinara quarenta anos. Seu filho Amazias sucedeu-lhe. Retomando o livro dos Reis, sabemos que em Israel o terrível Jeú teve por sucessor seu filho Jeoacaz, o qual não fez mais caso de Jeová do que de uma cereja (fr. “se moqua de Jéhovah comme d’une guigne”, locução familiar, literalmente “zombou de Jeová como de uma cereja”; a “guigne” é uma pequena cereja doce), durante os dezessete anos do seu reinado; por isso, durante dezessete anos, o seu reino foi devastado pelos reis da Síria, Hazael, primeiro, e Ben-Hadade, filho de Hazael, depois. Se os israelitas foram reduzidos a picadinho (fr. “mis en capilotade”, locução, literalmente “postos em capilotade”; a “capilotade” é um guisado de sobras de carne picada), dizê-lo não é nada! Julgue-se por este versículo: «De todo o povo de Jeoacaz não ficaram senão cinquenta cavaleiros e dez mil infantes, tanto o rei da Síria os destruiu e os tornou miúdos como o pó que se calca na eira.» (2 Reis 13:7) A Jeoacaz sucedeu seu filho Joás, que não se deve confundir com o Joás, rei de Judá. O Joás de Israel, neto de Jeú, fez guerra a Amazias, filho do Joás de Judá, bateu-o à costura chata em Bete-Semes, abriu nas muralhas de Jerusalém uma brecha de quatrocentos côvados, e saqueou todos os tesouros do templo e da casa real. Sob o reinado do Joás de Israel morreu o profeta Eliseu. «Ora, Eliseu estivera doente; e Joás, rei de Israel, tendo vindo vê-lo, não pôde reter as suas lágrimas, que correram dos seus olhos sobre o rosto do profeta. E Joás exclamou: Meu pai! meu pai! carro de Israel e a sua cavalaria!» (2 Reis 13:14) Eis a segunda vez que encontramos na Bíblia esta bizarra exclamação; o autor sagrado não a explica de modo algum; mas pouco importa. Continuemos. «Eliseu disse ao rei Joás: Toma um arco e flechas... Depois, disse-lhe: Abre a janela para o oriente; atira uma flecha pela janela. E Joás atirou. Então Eliseu exclamou: É a flecha do livramento do Eterno, e a flecha do livramento contra os sírios. Ferirás, pois, os sírios em Afeca, até os consumir. Disse-lhe mais: Toma de novo flechas, e agora, em vez de atirar para o ar, atira contra a terra. E [698] Joás atirou assim três flechas; depois, deteve-se. Então, Eliseu encolerizou-se, e disse-lhe: Rei imbecil (fr. “Roi imbécile”: a Bíblia de Ostervald traz apenas “Et l’homme de Dieu s’irrita contre lui ; et il lui dit : Il fallait frapper cinq ou six fois”, “E o homem de Deus se indignou contra ele, e disse: Era preciso ferir cinco ou seis vezes”; o insulto é de Taxil), era preciso atirar ao menos cinco ou seis flechas; assim terias ferido os sírios até os destruir; mas agora só os baterás três vezes. Depois de ter dito isto, Eliseu morreu, e o sepultaram.» (v. 15-20) Em vão se procurará compreender, cremos, por que o rei de Israel — cujos súditos varões tinham sido [699] reduzidos a dez mil e cinquenta, no reinado precedente — teria exterminado os sírios, se tivesse atirado seis flechas contra a terra, em vez de três. Eliseu sabia, pois, não só o que havia de acontecer, mas também o que não havia de acontecer. É belo! «No ano seguinte, deu-se um fato maravilhoso: umas pessoas transportavam um homem morto para o sepultar. E eis que essas pessoas se assustaram ao ver vir um bando [700] de ladrões, e lançaram à pressa o seu cadáver num sepulcro que ali estava, e fugiram; era o túmulo de Eliseu. Então, o cadáver, tendo rolado sobre os ossos do profeta, estremeceu ao tocá-los, voltou à vida, e, tendo-se levantado sobre os seus pés, pôs-se a correr (fr. “se mit à courir”: a Bíblia de Ostervald para em “il se leva sur ses pieds”, “levantou-se sobre os seus pés”, e Voltaire também; a corrida é de Taxil, mas os ladrões são de Voltaire, onde Ostervald diz “une troupe de soldats”, “uma tropa de soldados”).» (v. 21)
340. Milagre póstumo de Eliseu. Evidentemente, os ladrões tiveram a tremedeira, e puseram-se a correr também. — Os críticos, nunca contentes, tornam a fazer objeções. Perguntam por que Jeová não ressuscitou o próprio Eliseu, em vez de ressuscitar um paisano qualquer, um personagem perfeitamente desconhecido e nada interessante, lançado por acaso na cova do profeta. Perguntam como essa cova se achava ali aberta, tão a propósito, ao cabo de um ano. Perguntam o que foi feito desse ressuscitado e espantam-se de que, na sua segunda vida, depois de um acontecimento tão extraordinário, ele não tenha julgado útil dar-se a conhecer. Por fim, visto que tal virtude secreta estava ligada aos ossos de Eliseu, perguntam como não se cogitou mais de tirar proveito dela; e pensar que, graças a esse esqueleto, se a operação se tivesse generalizado, seríamos todos imortais! Da morte de Eliseu ao fim dos reinos de Israel e de Judá, temos tamanha mixórdia política que é difícil orientar-se nela sem a precaução de pôr, antes de tudo, sob os olhos do leitor um quadro da sucessão dos reis. Em Israel: a Joás sucede Jeroboão II, seu filho, que reina quarenta e um anos (2 Reis 14:23); Jeroboão II tem por sucessor seu filho Zacarias (14:29), último descendente de Jeú, o qual reina apenas seis meses (15:8); é assassinado por um tal Salum (15:10), que se apodera do trono e o ocupa somente um mês (15:13); este, por sua vez, é assassinado por Menaém (15:14), outro capitão, mais afortunado, que reina dez anos (15:17), durante os quais paga tributo a Pul, rei de Nínive (15:19-20); Menaém morre tranquilamente no seu leito, e tem por sucessor seu filho Pecaías (15:22), que reina dois anos (15:23); Pecaías é assassinado pelo capitão Peca (15:25), que sobe ao trono e nele se mantém vinte anos (15:27), no decurso dos quais uma guerra com Tiglate-Pileser, rei da Assíria, lhe faz perder toda a Galileia e a tribo de Naftali, cujos habitantes são levados para a servidão [701] (v. 29); por fim, o capitão Oseias destrona Peca, mata-o (15:30), reina nove anos (17:1) e é finalmente feito prisioneiro por Salmaneser, rei da Assíria, que se apodera de Samaria depois de um cerco de três anos (17:5) e destrói o reino de Israel. Oseias e os seus ex-súditos são levados cativos e disseminados em Hala, em Habor e nas cidades dos medos (2 Reis 17:6). Em Judá: Amazias, depois de um reinado de vinte e nove anos (2 Reis 14:2), é assassinado em Laquis por conspiradores (14:19), e o povo mantém a coroa para seu filho Azarias, de dezesseis anos de idade (14:21), que reina cinquenta e dois anos em Jerusalém (15:2); Azarias tem por sucessor seu filho Jotão ou Jônatas (15:7), que reina dezesseis anos (15:33); a esse rei, que era piedoso, sucedeu seu filho Acaz (16:1), que reinou também dezesseis anos, mas que foi ímpio (16:2) e se distinguiu pela sua aliança com o rei assírio Tiglate-Pileser contra o rei de Israel, Peca, e contra o rei da Síria, Rezim (16:5-9); Acaz tem por sucessor seu filho Ezequias (16:20), rei de uma piedade exemplar, de quem teremos de dizer algumas palavras, e que reina vinte e nove anos (18:2); durante o seu reinado é destruído o reino de Israel; seu filho Manassés sucede-lhe (21:1) e reina cinquenta e cinco anos, durante os quais comete todas as abominações que desconsolam Jeová (21:2); Amom, filho de Manassés, reina por sua vez (21:19), segue os maus exemplos de seu pai (21:20), e, ao cabo de dois anos, é assassinado pelos seus criados; a Amom sucede Josias, seu filho (21:26), que reina trinta e um anos (22:1) com piedade; morto numa batalha pelo rei do Egito Neco, o piedoso mas azarado Josias tem por sucessor um dos seus filhos, Joacaz, ungido pelo povo (23:29-30); mas Joacaz reina apenas três meses (23:31); feito prisioneiro por Neco, morre no Egito (23:34), e Neco põe no trono Jeoaquim, outro filho de Josias, o qual reina onze anos (23:36); esse Jeoaquim tem por sucessor outro Jeoaquim, seu filho, a quem a Bíblia chama também Jeconias, cujo reinado foi apenas de três meses (24:8); Nabucodonosor, rei de Babilônia, tendo então invadido o reino de Judá, saqueou o templo, levou numerosos prisioneiros, entre os quais Jeoaquim-Jeconias (v. 10-16), e pôs no trono em [702] seu lugar um terceiro filho de Josias (24:17). Este, conhecido pelo nome de Zedequias, foi o último rei de Judá; porque, no undécimo ano do seu reinado (25:2), Jerusalém foi tomada pelos exércitos de Nabucodonosor, depois de dezoito meses de cerco (25:4), os príncipes régios foram massacrados, e Zedequias, com os olhos furados e os braços carregados de duplas cadeias de bronze, foi levado em cativeiro para Babilônia, com tudo o que restava do povo (v. 7); Nabucodonosor, [703] tendo incendiado o templo de Salomão e o palácio, deixava Jerusalém em ruínas (2 Reis 25:9-10).
341. Fim do reino de Israel. «Enfim, diz Voltaire, eis o desenlace da maior parte da história hebraica. Primeiro é a destruição das dez tribos do reino de Israel, e logo depois o cativeiro das outras duas tribos; eis em que terminam tantos milagres feitos em seu favor. Os cristãos sábios veem, com dor, o desastre de seus pais, que lhes abriram o caminho [704] da salvação. Os céticos veem, com uma secreta alegria, o aniquilamento de quase todo um povo que eles consideram um vil amontoado de supersticiosos inclinados à idolatria, devassos, bandoleiros, sanguinários, imbecis e impiedosos. Esta revolução oferece-nos um quadro novo, e novos personagens. Quem eram esses povos e esses reis da Assíria, que vêm de tão longe cair sobre o pequeno povo que habitara perto da Celessíria, de Dã até Berseba, num terreno de cerca de cinquenta léguas de comprimento por quinze de largura, e que esperou dominar sobre o Eufrates, sobre o Mediterrâneo e sobre o mar Vermelho?» Entre os episódios que vêm lançar um pouco de jovialidade nos anais dessa época em que irrompe a desolação dos judeus, é preciso citar, em primeiro lugar, a história de Tobias, que se refere ao cativeiro dos hebreus do reino de Israel. Esta história não se encontra nem no livro dos Reis nem no livro das Crônicas; figura, à parte, na categoria das obras que os judeus, embora as respeitem, declaram não terem sido diretamente inspiradas por Deus. Em contrapartida, os católicos admitem o livro de Tobias, e o Concílio de Trento declarou-o canônico; isso basta para que lhe demos lugar — em resumo, pelo menos — neste exame geral do Antigo Testamento. «Tobias, da tribo de Naftali, foi, no tempo de Salmaneser, rei dos assírios, levado cativo para Nínive.» Este é o começo do livro de Tobias. Lamenta-se vivamente, ao ler isto, que o dito Salmaneser não tenha mandado levantar bons mapas geográficos dos seus Estados; porque custa muito deslindar como, sendo rei de Nínive, sobre o Tigre, pudera passar por cima do reino de Babilônia para ir acorrentar os habitantes das margens do Jordão, e conquistar até os vizinhos do mar da Hircânia. É absolutamente como se o Grão-Turco, que reina em Constantinopla, fosse, saltando a Áustria a pés juntos, ele e os seus bachi-bouzoucks (nome francês dos soldados irregulares do exército otomano), fazer prisioneira e levar para o seu império a população do reino da Prússia. Mas passemos. «Ora, Tobias, deixando um dia Nínive, foi fazer uma viagem a Ragés, cidade da Média; e ali, tendo visto que Gabelo, da sua tribo, estava em necessidade, deu-lhe, contra uma promessa [705] escrita de reembolso, dez talentos de prata, tirados dos dons que recebera do rei.» (Tobias 1:15-17) É de espantar que um cativo tenha obtido tais quantias das liberalidades do soberano que mantinha a sua nação na escravidão; porque dez talentos de prata não representam menos de quarenta e cinco a cinquenta mil francos da nossa moeda. É muito, seguramente, para o marido de uma lavadeira; Ana, mulher de Tobias, branqueava o linho e fazia remendos (Tobias 2:13). Nunca será demais admirar, verdadeiramente, esse Tobias, que vai até Ragés, a quatrocentas léguas de Nínive, para emprestar esses cinquenta mil francos ao judeu Gabelo, que era extremamente pobre, e que, com toda a probabilidade, estaria impossibilitado de jamais restituí-los a ele! Isso é muito belo. «De volta a Nínive, num dia em que empregara o seu tempo a sepultar mortos, adormeceu ao pé de um muro;» um homem bastante rico para emprestar cinquenta mil francos em Ragés bem deveria ter pelo menos um quarto de dormir em Nínive. «Mas Tobias não percebeu que havia pardais pousados na muralha, os quais estercaram bem quente nos seus olhos, e com isso ficou cego.» (Tobias 2:9-10) Os críticos naturalistas dizem que a merda de pardal não pode cegar ninguém, e que basta lavar-se imediatamente para ficar livre dela.
342. O velho Tobias fica cego. «Nesse mesmo dia, Sara, filha de Raguel, que habitava em Ecbátana, cidade da Média, foi ultrajada pelas servas de seu pai. Sara tinha sido dada em casamento a sete maridos; mas um espírito maligno (aqui os tradutores católicos põem: um diabo), chamado Asmodeu, matara-os de cada vez, no momento em que iam ter coito (fr. “coïter”: o texto grego de Tobias, que Taxil segue aqui, diz “antes que tivessem estado com ela como com uma esposa”, e Voltaire “dès qu’ils étaient entrés en elle”, “logo que entravam nela”; o termo clínico é de Taxil) com ela. As servas diziam-lhe, pois: Tu sufocaste os teus sete maridos, um após o outro, e não levaste o nome de nenhum. E agora bates-nos. Vai reunir-te aos teus maridos!... Tendo ouvido isto, Sara ficou muito contristada, a ponto de querer estrangular-se. Mas orou a Jeová, clamando-lhe pela janela: Senhor, retira-me da terra, para que eu não ouça mais tais reproches! Tu sabes que sou pura e que não maculei o meu nome nem o nome de meu pai, na terra onde estou cativa. Sou filha única, e não há nenhum dos nossos parentes próximos a quem eu me reserve por mulher; já me morreram sete; de que me serve ainda [706] viver? Mas, se não julgas bom fazer-me morrer, tem piedade de mim e ordena que eu não tenha mais opróbrio.» (Tobias 3:7-15)
344. Sara, filha de Raguel, sete vezes viúva. Nunca os judeus, até então, observam os críticos, tinham ouvido falar de diabo algum nem de espécie alguma de demônios; os bons e os maus gênios tinham sido imaginados na Pérsia, na religião de Zoroastro, que ensina a existência de dois deuses iguais em poder, um, Ormuzd, [707] princípio do bem; o outro, Arimã, princípio do mal, tendo cada um sob as suas ordens um exército de espíritos, uns benfazejos, outros malfazejos. Da Pérsia, esses gênios passaram à Caldeia e estabeleceram-se por fim na Grécia, onde Platão deu liberalmente a cada homem o seu bom e o seu mau demônio. Schamaddaï, que se traduz por Asmodeu, era um dos principais diabos. O beneditino Dom Calmet, no seu comentário sobre Asmodeu, diz «que se sabe que há várias [708] categorias de diabos, uns príncipes e demônios mestres, outros subalternos e submetidos». Tudo concorre, pois, para provar, nos diversos livros que compõem a Bíblia, que os judeus nunca foram senão imitadores, que tomaram todos os seus ritos, uns após outros, dos seus vizinhos e dos seus amos, e não só os seus ritos, mas todos os seus contos. Assim, ao voltarem do seu cativeiro entre os medos e os assírios, trouxeram as crenças persas e caldeias e acrescentaram-nas aos seus dogmas. Os termos de que se serve o autor do livro de Tobias insinuam que Asmodeu estava enamorado e ciumento de Sara. Esta ideia é conforme à antiga doutrina dos gênios, dos silfos, dos anjos, dos deuses da antiguidade; todos estiveram enamorados das nossas filhas. Já vimos, no Gênesis, os filhos ou anjos de Deus enamorados das filhas dos homens e fazendo-lhes filhos gigantes (páginas 76 e seguintes). A fábula dominou em toda parte. — Não é aqui o lugar de repetir o que os teólogos disseram dos demônios íncubos e súcubos; dos homens miraculosos, nascidos dessas cópulas quiméricas; de todos os diferentes diabos que entram nos corpos dos rapazes e das moças de cem maneiras diversas; dos meios de fazê-los vir e de expulsá-los; por fim, de todas as superstições desta espécie de que a velhacaria se serviu em todos os tempos para enganar a imbecilidade. Isso nos levaria longe demais. Este estudo fica reservado para a obra que preparo sob o título as Comicidades da Fé (fr. “les Cocasseries de la Foi”; ao que parece, a obra nunca foi publicada). «Ora, a oração de Tobias e a de Sara foram ouvidas diante da glória do grande Deus; e Rafael foi enviado para sarar Tobias das belidas que tinha nos olhos e para dar Sara em casamento a Tobias filho, atando Asmodeu, o espírito maligno, porque Deus decidira que o direito de a possuir como mulher pertenceria a Tobias filho.» (Tobias 3:16-17) É a primeira vez que um anjo é nomeado na Sagrada Escritura. Todos os comentadores confessam que esses nomes são de origem caldeia: Rafael, médico de Deus; Uriel, fogo de Deus; Jesrael, raça de Deus; Miguel, semelhante a Deus, Gabriel, o homem de Deus. Os anjos persas tinham nomes muito diferentes: Mah, Kur, Dubadur, Bahman, etc. Os judeus, sendo escravos entre os caldeus, e não entre os persas, [709] apropriaram-se, pois, dos anjos e dos diabos dos caldeus, e fizeram para si uma teurgia inteiramente nova, em que ainda não tinham pensado. Assim, vê-se que tudo muda nesse povo, conforme ele muda de amos. Quando estão subjugados pelos cananeus, tomam os seus deuses; quando estão cativos entre os reis a que se chama assírios, tomam os seus anjos benfazejos e malfazejos. «Um dia, pois, Tobias lembrou-se do dinheiro que tinha entregado a Gabelo, e disse consigo mesmo: Por que não chamarei Tobias, meu filho, antes que eu morra, para lho declarar? E chamou-o e disse-lhe: Meu filho, se eu morrer, sepulta-me, e não desprezes tua mãe.» (Tobias 4:1-3) Segue-se um longo discurso, que termina assim: «Agora te declaro que emprestei dez talentos de prata a Gabelo sobre a sua promessa, em Ragés, cidade da Média.» (v. 21) Depois, Tobias entrega ao filho a nota promissória que Gabelo lhe subscreveu (Tobias 5:3) e recomenda-lhe que procure para si um companheiro de viagem (v. 4). «Então Tobias filho encontrou um moço muito formoso, cuja túnica estava arregaçada na cintura; era Rafael; mas ele não sabia que tratava com um anjo de Deus. Saudou-o e disse-lhe: Poderia eu ir contigo à Média? conheces essa terra? Respondeu-lhe o anjo: Irei contigo, conheço o caminho, e até pousei em Ragés, em casa de Gabelo, nosso irmão.» (v. 5-8) Como aquilo vinha a propósito! Tobias filho, encantado, apresentou logo a seu pai o moço da túnica arregaçada. Este declarou que se chamava Azarias, da raça do grande Ananias (v. 15); justamente o velho Tobias tinha conhecido Ananias, que era um tanto seu parente. Nisso, discussão sobre o salário a conceder ao viajante-protetor: «Bastará uma dracma por dia, perguntou Tobias, com as coisas necessárias, como para o meu filho? Acrescentarei alguma coisa ao salário, se voltardes com pleno êxito. E puseram-se de acordo assim.» (v. 20) É bastante bizarro que Tobias, que era judeu e morava então em Nínive, não conte nesse relato nem em moeda judaica nem em moeda meda; porque a dracma é uma moeda essencialmente grega. — Tobias filho pôs-se, pois, a caminho com o falso Azarias, «e o cão da casa partiu com eles». Bem se pode imaginar que essa viagem não havia de passar-se sem [710] aventura. «Como chegaram à tarde às margens do Tigre, pousaram ali. E o jovem Tobias desceu para lavar os pés no rio; mas eis que um peixe enorme saltou fora da água para devorá-lo. Então o anjo lhe disse: Agarra esse peixe pelas guelras. Tobias tomou-o, pois, e puxou-o para fora, sobre a terra.» (Tobias 6:1-3)
343. Tobias filho e o anjo Rafael à pesca. Pergunta-se aqui como um peixe tão monstruoso, capaz de devorar um homem, podia deixar-se agarrar tão facilmente pelas guelras, como [711] um simples coelho que se pendura pelas orelhas. Mas os teólogos não ficam embaraçados por tão pouco. É evidente que não existem tais peixes de água doce; por isso, esse peixe terrível tinha sido posto ali excepcionalmente por Jeová; tinha sido criado de propósito para as necessidades da causa; era uma encenação divina, e é, pois, inútil procurar a espécie a que pertencia esse monstro aquático. — O anjo disse depois ao jovem Tobias que fendesse [712] o peixe e pusesse à parte o coração, o fígado e o fel. Feita essa operação, o peixe foi assado e os dois companheiros alimentaram-se dele até Ecbátana. «Então Tobias disse ao anjo: Azarias, meu irmão, que faremos do coração, do fígado e do fel deste peixe que apanhei outro dia? Rafael respondeu-lhe: O coração e o fígado, quando são postos a grelhar sobre carvões, produzem uma fumaça que afugenta o diabo ou todo espírito maligno que perturba um homem ou uma mulher; quanto ao fel, se com ele se untam os olhos de um homem que ficou cego por belidas, esse homem fica logo sarado.» (v. 6-8) Rafael aconselhou depois ao jovem Tobias que pedisse hospitalidade ao seu parente Raguel e que tomasse a sua filha Sara por esposa. Tobias ficou muito hesitante quanto a esse segundo ponto. «Disse ao anjo: Azarias, meu irmão, ouvi dizer que essa moça já se casou sete vezes e que todos os seus maridos foram achados mortos na câmara nupcial. Ora, meu pai não tem outro filho senão eu, e temo, se eu desposar Sara, morrer como os outros; porque há um espírito maligno que a ama e que ataca todo aquele que quer deitar-se com ela. Respondeu-lhe o anjo: Não te lembras de que teu pai te recomendou que desposasses uma mulher da tua parentela? Portanto, ouve-me, e não hesites em tomar Sara por mulher. Quanto ao espírito maligno, não tenhas nenhuma preocupação. Quando for chegado o momento de te meteres no leito, porás a grelhar o coração e o fígado do peixe sobre um braseiro de perfumes, e dele sairá uma fumaça muito fedorenta; e o espírito maligno, sentindo esse cheiro, fugirá e nunca mais voltará. Tendo ouvido estas palavras, Tobias ganhou confiança, e ficou muito enamorado de Sara, e o seu coração se apegou extremamente a ela.» (Tobias 6:13-17) Notai que o filho Tobias ainda não tinha visto a sua jovem parenta. «Chegaram depois a Ecbátana e foram à casa de Raguel. Sara veio-lhes ao encontro, saudou-os, e eles a saudaram; depois ela os fez entrar. E Raguel disse a Edna, sua mulher: Oh! quanto este moço se parece com Tobias, meu parente!» (Tobias 7:1-2) O filho Tobias diz o seu nome; abraçam-se; prepara-se um grande festim, mas Tobias recusa-se a tocar em qualquer iguaria se Raguel não lhe conceder ali mesmo a sua filha em casamento. Raguel responde que consente de bom grado; todavia, faz questão de contar ao moço a horrível história [713] dos sete maridos estrangulados na própria noite das suas bodas. Tobias insistiu, afirmando que, quanto a ele, nada temia. «Então Raguel chamou Sara, sua filha, tomou-a pela mão e deu-a a Tobias, dizendo: Ei-la, eu ta dou por mulher; entra nela, segundo o teu direito, e depois a conduzirás à casa de teu pai. Após o que, abençoou-os; depois tomou umas tabuinhas, fez o contrato e selou-o.» (Tobias 7:15-16) Levai o bife! (fr. “Enlevez le bifteck !”, grito de restaurante que virou bordão da época: assunto resolvido, passemos a outra coisa) «Edna preparou a câmara nupcial e conduziu para lá Sara, que chorava; e enxugou-lhe as lágrimas, dizendo-lhe: Tem bom ânimo, minha filha. (v. 19-20) E, quando acabaram de cear, Raguel e Edna levaram Tobias até Sara. Então Tobias, lembrando-se das palavras do seu companheiro Azarias, tomou brasas, pôs sobre elas o coração e o fígado do peixe, e logo se desprendeu delas uma espessa fumaça. E o espírito maligno Asmodeu, tendo sentido esse cheiro, fugiu até o fim do alto Egito; mas o anjo perseguiu-o até lá ao mesmo tempo, agarrou-o e acorrentou-o muito solidamente.» (Tobias 8:1-4)
346. Tobias filho desposa Sara e afugenta o diabo Asmodeu. Alguns teólogos indagaram se o diabo Asmodeu ainda está acorrentado e em que lugar exato: grave questão! Correram ondas de tinta para resolvê-la. Os mais espertalhões são os monges de um convento egípcio, que mostram aos peregrinos um poço muito profundo, onde, dizem eles, Rafael amarrou o seu inimigo, o qual ainda lá está; mediante uma oferenda aos bons religiosos, atira-se uma pedra ao poço, ou algumas gotas de água benta, a fim de aumentar o suplício do mau demônio, reduzido à impotência. «Não estando já o espírito maligno na câmara, Tobias pôs-se de joelhos sobre o leito (v. 5), e disse: Senhor, tu és testemunha de que não tomo esta mulher por luxúria, mas tomo-a em retidão; faze-nos, pois, envelhecer juntos. E Sara, orando também, dizia: Amém! Então deitaram-se e passaram essa primeira noite a dormir.» (v. 9-10) Durante esse tempo, Raguel, convencido de que Tobias não se livraria daquilo, cavava uma cova no jardim (v. 11). Mas quando, na manhã seguinte, soube que o seu genro estava são e salvo, ficou numa alegria indescritível. Ordenou aos seus servidores que entulhassem a cova e decidiu que as bodas durariam catorze dias. «E disse a Tobias: Tomarás a metade de tudo [714] o que possuo, e assim te irás para a casa de teu pai; quanto ao resto, tê-lo-ás quando estivermos mortos, eu e minha mulher.» (v. 22) Durante as bodas, o anjo Rafael, que tinha voltado do alto Egito, fez a viagem a Ragés, sob as feições de Azarias; o mutuário Gabelo tinha sido bem-sucedido nos seus negócios, e restituiu sem dificuldade os dez talentos de Tobias pai (Tobias 9). Por fim, o filho Tobias, a sua mulher, o angélico companheiro e [715] o cão voltaram a Nínive, onde o velho cego começava a desesperar. «Tobias esfregou com o fel do peixe os olhos de seu pai, dizendo-lhe: Tem bom ânimo, meu pai. E, como os olhos lhe comicharam, caiu deles uma pele albuminosa como clara de ovo; e então, vendo o seu filho, Tobias lançou-se-lhe ao pescoço e chorou.» (Tobias 11:10-11)
345. Tobias filho cura a cegueira de seu velho pai. Só faltava pagar o salário prometido a Azarias; este recusou as dracmas, deu-se a conhecer como Rafael, um dos sete [716] anjos mais importantes na hierarquia celeste, e desapareceu (ch. 12). Enquanto os hebreus do reino de Israel estavam em cativeiro em Nínive, Ragés, Ecbátana e outras cidades medas — cativeiro que permitia a prisioneiros, como Raguel, ter criados, rebanhos e manter casa com grande aparato, e a outros, como Tobias, emprestar cinquenta mil francos a um camarada sem se incomodar —, o reino de Judá continuava a subsistir, primeiro sob o piedoso governo de Ezequias, que não admitia gracejos na questão religiosa. «Suprimiu os lugares altos, fez em pedaços as estátuas dos deuses estranhos, cortou os bosques onde se rendia culto aos príapos, e quebrou até a serpente de bronze, obra de Moisés, porque os judeus lhe queimavam incenso.» (2 Reis 18:4)
347. Piedade exemplar de Ezequias, rei de Jerusalém. Por isso, papai Bom Deus deu-lhe a vitória sobre os filisteus. Não obstante, Jeová não lhe deu, em certas circunstâncias, senão uma meia proteção: foi assim que, no décimo quarto ano do seu reinado, Ezequias teve o seu território invadido por Senaqueribe, filho de Salmaneser, e só obteve a cessação da ocupação pagando a esse rei de Nínive trezentos talentos de prata e trinta talentos de ouro (2 Reis 18:14). «E Ezequias deu toda a prata que se achou na casa do Eterno e nos tesouros da casa real; despojou até as portas do templo e os lintéis que ele mesmo tinha coberto de lâminas de ouro, e deu todas essas riquezas a Senaqueribe.» (v. 15-16) Depois dessa rapina, Senaqueribe poderia ter deixado Ezequias em paz. Nada disso. Voltou logo à carga, enviando-lhe um tal Rabsaqué encarregado de lhe fazer uma pergunta, enquanto fazia cercar Jerusalém pelo seu exército. A pergunta era esta: Qual é a confiança em que te apoias? Se é a tua confiança em Jeová, ela não te salvará. Ezequias tinha delegado três parlamentários junto de Rabsaqué, e estes, ouvindo tal linguagem, disseram-lhe: «Pedimos-te que nos fales em língua siríaca, porque a entendemos; mas não fales em língua judaica, por causa do povo que está ali sobre as muralhas e que escuta.» (v. 26) Mas Rabsaqué foi ainda mais insolente. «Meu amo, disse ele, enviou-me para que todos ouçam o que [717] tenho a dizer; e é preciso que os habitantes de Jerusalém saibam que lhes faremos comer os seus próprios excrementos e que beberão a sua urina convosco.» (v. 27) Ezequias não tinha tido muita confiança em Jeová, visto que logo de início se deixara despojar sem resistência. Contudo, o profeta Isaías, que vivia então, levantou-lhe o moral, e, o que era mais importante, papai Bom Deus veio em seu auxílio. «Aconteceu, numa noite, que um anjo de Jeová desceu do céu e matou cento e oitenta e cinco mil homens no acampamento dos assírios em redor de Jerusalém; e, ao romper do dia, quando o rei Senaqueribe viu todos aqueles corpos mortos, ordenou aos sobreviventes que recolhessem a bagagem e voltou para Nínive.» (2 Reis 19:35-36)
348. Ezequias sitiado é socorrido pelo anjo exterminador. A Bíblia diz em seguida que Senaqueribe foi morto por seus filhos Adrameleque e Sarezer, os quais, depois desse homicídio, se refugiaram na Armênia, e que outro filho de Senaqueribe, chamado Esar-Hadom, subiu ao trono (2 Reis 19:37); depois, no capítulo seguinte, o autor sagrado diz que Ezequias, nos últimos anos do seu reinado, fez aliança com Merodaque-Baladã, rei de Babilônia (2 Reis 20:12). Essas afirmações mal concordam com as descobertas dos arqueólogos relativas à história dos reinos assírios; porque consta das inscrições do famoso palácio de Khorsabad, descoberto em 1842 por M. Botta, cônsul da França em Mossul, que Merodaque-Baladã foi expulso da Caldeia pelo próprio Salmaneser, pai de Senaqueribe, seu vencedor na batalha de Betlakin (709 a.C.), e Salmaneser, depois dessa vitória, apoderou-se de Babilônia e uniu esse reino ao de Nínive. Como, pois, podia Ezequias ser o aliado de Merodaque-Baladã, sob o reinado de Esar-Hadom, filho de Senaqueribe, visto que esse rei de Babilônia tinha perdido os seus estados na sua guerra contra o rei de Nínive, avô de Esar-Hadom, e visto que Esar-Hadom, que reinava nos últimos anos de Ezequias, era ao mesmo tempo rei de Nínive e de Babilônia? Mas, se não quisermos levar em conta as descobertas dos sábios e se preferirmos reportar-nos exclusivamente à Bíblia, não podemos, não obstante, deixar de fazer esta observação: é que Jeová, que tinha dito a Ezequias pela boca do profeta Isaías: «Livrarei Jerusalém, e, se [718] quero que esta cidade seja resguardada contra os inimigos, é por causa de mim e por causa das boas obras de Davi» (2 Reis 19:34), bem poderia não ter esperado a segunda invasão de Senaqueribe; porque, visto que na sua qualidade de Todo-Poderoso tinha decretado que Jerusalém estava sob a sua proteção, mais valia protegê-la imediatamente, em vez de permitir a Senaqueribe levar todas as riquezas do país e todos os tesouros do templo, morada divina. Também não se compreende [719] por que o senhor Sabaote, que se declarava solenemente o protetor da tribo de Judá, e que, pelo braço do seu anjo exterminador, matava numa só noite cento e oitenta e cinco mil assírios, abandonou alguns anos mais tarde essa tribo cuja verga devia dominar sempre, deixou destruir o seu santuário sacrossanto por outro exército de assírios, e viu muito tranquilamente essa tribo e a de Benjamim, com tantos levitas, lançadas a ferros. [720] Eis, a propósito de Ezequias, mais um fato cujos pormenores não deixam de ser curiosos. Esse príncipe tinha subido ao trono com a idade de vinte e cinco anos, e Deus tinha escrito, no livro do seu destino, que ele morreria no seu trigésimo nono ano; mas, em consequência de circunstâncias que merecem ser mencionadas, Jeová passou a raspadeira por essa página do grande livro eterno e inscreveu de novo que Ezequias viveria até a idade de cinquenta e quatro anos. Pois bem, no décimo quarto ano do seu reinado, Ezequias caiu doente, em virtude do que estava escrito lá em cima antes do golpe de raspadeira. O rei de Judá não mandou chamar um médico; o que era bem inútil, visto que tinha à mão o profeta Isaías, santo homem inteiramente ao corrente do que Deus tinha decidido. Isaías, ao saber por que motivo o régio enfermo pedia para consultá-lo, apressou-se a vir. «E Isaías disse a Ezequias: Eis que Adonai te manda dizer pela minha voz que ponhas imediatamente em ordem os teus negócios, visto que a hora da tua morte se aproxima e que vais deixar de viver muito certamente. Então Ezequias virou o rosto para a parede e orou ao Eterno. Lembra-te, Senhor, disse ele, de quão retamente andei diante de ti com um coração puro e de como fiz tudo o que te é agradável. E derramou lágrimas em abundância. Enquanto isso, Isaías se retirara; mas ainda não tinha saído da antecâmara, quando Deus lhe falou assim: Volta sobre os teus passos e dize a Ezequias que, estando comovido pelas suas lágrimas, vou sará-lo; e dentro de três dias estará de pé e virá ao templo; anuncia-lhe também que lhe acrescento, a partir de hoje, quinze anos de existência.» (2 Reis 20:1-6) Lorde Bolingbroke graceja sobre a instabilidade dos decretos do deus judeu e pergunta sob que forma estava ele quando, no meio da antecâmara, declarou a Isaías a sua mudança de vontade. Isaías, sem se pasmar, desincumbiu-se da sua nova comissão. Mas parece que, em presença dessas duas profecias contraditórias, o moribundo não estava muito tranquilizado: «Ezequias perguntou a Isaías: Por que sinal me mostrará Jeová que serei sarado e que dentro de três dias poderei ir ao templo? Isaías respondeu-lhe: Eis o sinal que o Eterno te dá a escolher para te assegurar de que é a minha segunda profecia [721] que se cumprirá, e não a primeira: queres que a sombra do relógio de sol avance de uma só vez dez graus, ou preferes que retrograde dez graus? Ezequias disse-lhe: É fácil que a sombra da vareta de ferro se ponha a avançar dez graus no quadrante; não é, pois, isso o que quero, mas peço que ela recue dez graus para trás. O profeta Isaías lançou um clamor ao Eterno, e Adonai fez retrogradar a sombra pelos graus que já tinha percorrido no relógio de sol de Acaz, até o décimo grau para trás. Depois disso, Isaías mandou pôr uma marmelada de figos sobre a úlcera de Ezequias, e o rei foi sarado.» (v. 7-11) Uma nuvem de incrédulos abate-se sobre essa marmelada de figos e sobre esse relógio de sol em pândega. Ou o mal de Ezequias, dizem eles, era bem pouca coisa, visto que foi curado por um simples emplastro de figos; ou então foi só a virtude do poder divino que operou a cura do rei a dois dedos da morte, e nesse caso essa marmelada é de uma inutilidade absoluta que fura os olhos. Quanto à história do relógio de sol, Ezequias dá a todos os críticos a impressão de um perfeito imbecil quando diz que é mais fácil para a sombra avançar do que recuar; num e noutro caso, as leis da natureza são igualmente violadas, e toda a ordem do céu é igualmente interrompida. Além disso, a retrogradação da sombra no relógio de sol de Acaz não parece senão uma cópia reforçada do milagre de Josué. Em contrapartida, os teólogos não hesitam em crer que o sol se deteve para Josué e recuou para Ezequias. O próprio Isaías, no cap. 38 do seu livro de profecias, volta a esse fato e diz muito nitidamente: «O sol retrogradou dez graus»; mas é claro que Isaías, embora profeta, mete o dedo no olho; porque a sombra é sempre oposta ao sol, e, se o sol está no oriente, a sombra está no ocidente. Para que a sombra, no relógio de sol de Acaz, retrogradasse dez graus para a manhã, teria sido preciso que o sol tivesse avançado dez graus para a tarde. O fato material do movimento da sombra no quadrante, tal como o indica o autor sagrado, seria, pois, impossível, ainda que o milagre fosse possível. Enfim, considerando tudo, teria havido um dia duplo na natureza, e uma noite totalmente suprimida! [722] Mas o mais curioso de todos os fatos estranhos que assinalam essa época é o passamento de Isaías: esse homem, que era o milagre encarnado, não pôde fazer milagre nenhum no dia em que a sua vida esteve em perigo. Manassés, filho e sucessor de Ezequias, que o golpe do relógio de sol tinha deixado muito cético, foi tão ímpio quanto o seu pai tinha sido beato. Querendo ver se Isaías tinha, para a sua preservação pessoal, alguma marmelada de figos, mandou prender o profeta e ordenou que [723] o serrassem em dois. O infortunado Isaías foi serrado como se fosse uma simples tábua; nem Rafael nem nenhum outro anjo vieram em seu socorro. Talvez Jeová, durante o suplício do seu fiel servidor, estivesse ocupado com os negócios de algum outro planeta.
349. Desagradável fim do profeta Isaías. Enquanto estamos neste período tão emaranhado do fim do reino de Judá, convém falar de Judite, cuja única façanha é para sempre célebre e se acha narrada [724] num livro à parte. O episódio é tão conhecido que bastará recordá-lo em poucas linhas. Numa época que a Bíblia não especifica, mas que pouco antecede a destruição do reino de Judá, a cidade de Betúlia, completamente desconhecida dos historiadores e dos geógrafos, foi posta em estado de bloqueio por um exército de Nabucodonosor, comandado pelo general Holofernes, personagem de quem não se fala em parte alguma nos documentos assírios. Holofernes cortou os canais que abasteciam Betúlia, de sorte que os sitiados, privados de água, punham a língua de fora como caniches no verão.
350. A cidade de Betúlia privada de água. A situação tornava-se intolerável. Foi então que uma linda viúva betuliana, Judite, cujo marido morrera de uma insolação, no tempo da sega das cevadas, resolveu salvar a sua pátria. Para isso, pôs o seu mais belo vestido, perfumou-se com os odores mais excitantes e, seguida de uma velha negra, dirigiu-se ao acampamento dos sitiantes. Holofernes, galante ao extremo, segundo o costume dos pioupious (palavra familiar francesa: o jovem soldado de infantaria, nome tirado por gracejo do piar dos pintinhos), convidou Judite a jantar a sós com ele na sua tenda.
351. A viúva Judite se apresenta em casa de Holofernes. Banquetearam-se, esvaziaram-se numerosas taças, disseram-se até coisas amáveis à sobremesa. Mas, depois do festim, enquanto Holofernes, muito contente com a sua noitada, se refestelava no seu leito de repouso, Judite agarrou prestamente um instrumento cortante e, de um golpe seco, decapitou o general. Que digam depois disso que o amor não faz às vezes perder a cabeça!
352. Holofernes é imolado por Judite. Depois, Judite, sem ser vista por ninguém, voltou para a cidade; a negra, sua aia, tinha metido a cabeça de Holofernes num saco. Penduraram nos muros de Betúlia a fuça (fr. “la binette”, palavra familiar: a cara) do generalíssimo dos exércitos de Nabucodonosor. Por isso, quando os sitiantes a avistaram, fugiram a mais correr, sem sequer pensar em pôr-se sob as ordens de outro cabeça.
353. Alegre libertação de Betúlia. Nós nos limitaremos a reproduzir o comentário de Voltaire sobre este episódio bíblico: «Um geógrafo ficaria bem atrapalhado para situar Betúlia: ora a põem a quarenta léguas ao norte de Jerusalém, ora a algumas milhas ao sul; mas uma mulher honesta ficaria ainda mais embaraçada para justificar a conduta da bela Judite. Ir deitar-se com um general de exército para lhe cortar a cabeça, isso não é modesto. Meter essa cabeça toda [725] ensanguentada, com as mãos ensanguentadas, num saquinho, e voltar sossegadamente com a sua criada através de um exército de cinquenta mil homens, sem ser detida por nenhuma sentinela, isso não é comum. Uma coisa ainda mais rara é ter morado cento e cinco anos depois dessa bela façanha na casa do seu falecido marido, como se diz no capítulo 16, v. 28. Se supusermos que ela tinha trinta anos quando deu esse golpe vigoroso, teria, portanto, vivido cento e trinta e cinco anos. Dom Calmet tira-nos do embaraço dizendo-nos que ela tinha sessenta e cinco anos quando Holofernes se enamorou da sua extrema beleza: é a bela idade para virar e cortar cabeças. Mas o texto torna a mergulhar-nos em outra dificuldade: diz que ninguém perturbou Israel enquanto ela viveu; e infelizmente, foi o tempo dos seus maiores desastres.» Eis aqui, aliás, o texto, traduzido palavra por palavra: «E durante todo o tempo que Judite viveu, não houve ninguém que atemorizasse a Israel, até muito tempo depois da sua morte.» (Judite 16:30, que termina o livro) Este texto vai servir-nos para mostrar, uma vez mais, com que descaramento o divino inspirador da Bíblia zomba dos fiéis. Caso se admita a interpretação do beneditino Calmet e dos teólogos católicos, isto é, que Judite tinha sessenta e cinco anos (o que não se diz em parte alguma) quando matou Holofernes, e que o versículo 28 significa que ela viveu cento e cinco anos ao todo, e não outros cento e cinco anos depois da sua façanha, nem por isso deixa de haver quarenta anos entre a dita façanha e a morte da heroína. Ora, confrontando o livro bíblico dos Reis (capítulos consagrados aos últimos reis de Judá) com o que se sabe da história dos impérios da Assíria, encontra-se aí a prova flagrante da mentira da história de Judite. Esar-Hadom, de quem se falou há pouco, segundo filho de Senaqueribe, reinou ao mesmo tempo sobre Nínive e sobre Babilônia, pois o seu avô Salmaneser, chefe da dinastia dos Sargônidas, expulsara de Babilônia o rei Merodaque-Baladã, último descendente de Nabonassar. Esar-Hadom conservou Nínive como capital, mas estabeleceu em Babilônia [726] um sátrapa, Saosducheus; este, com a morte de Esar-Hadom (668 a.C.), proclamou-se independente e reinou em Babilônia, apesar de Tiglate-Pileser V, terceiro filho de Senaqueribe e sucessor de Esar-Hadom, e apesar de Sardanapalo VI, rei de Nínive (de 660 a 647). Por fim, Assurdanil II (o Kiniladan dos gregos), sucedendo a seu pai Sardanapalo VI, apoderou-se de Babilônia logo no primeiro ano do seu reinado, isto é, em 647, e ali estabeleceu de novo sátrapas. Durante [727] o reinado de Assurdanil II, situa-se a invasão do faraó Neco, que, atravessando a Judeia para ir combater os assírios, feriu mortalmente, na batalha de Megido, o piedoso Josias, neto de Manassés e bisneto de Ezequias, rei de Judá. Além disso, nessa mesma época, Ciáxares I, cuja história está em Heródoto, reinava na Média (635-595) e exterminava o que restava dos citas na Ásia. Sob o reinado de Sardanapalo VII, último do nome e último [728] rei de Nínive, filho de Assurdanil II, o sátrapa de Babilônia, Nabopolassar, declara-se independente, faz aliança com o rei dos medos, Ciáxares, cuja filha se casa com o seu filho Nebukadnezzar (Nabucodonosor, na Bíblia); em 606, Nabopolassar apodera-se de Nínive com o auxílio de Ciáxares; Sardanapalo VII (o texto de 1904 traz “Sardanapale V”) morre, Nínive é destruída, é o fim do segundo império assírio conhecido. Nabopolassar, cuja esposa, célebre na história, é a egípcia Nitócris, funda o terceiro império da Assíria, chamado império caldeo-babilônico; Nitócris prodigaliza os embelezamentos a Babilônia, capital do novo império, e o príncipe herdeiro Nabucodonosor, tendo vencido o faraó Neco em Carquemis, junto ao Eufrates, é associado à coroa. Foi nesse tempo que Nabucodonosor invadiu pela primeira vez a Judeia, a fim de castigar o rei Jeoaquim, filho de Josias, que tomara partido por Neco contra os assírios; Jerusalém resgata-se, mas uma parte do povo é levada para Babilônia; é o começo dos setenta anos de cativeiro, e desde então a realeza de Judá já não durará mais de dezenove anos. Assim, os fatos dessa primeira invasão de Nabucodonosor na Judeia, fatos reconhecidos pelo segundo livro dos Reis (2 Reis 24), não concordam de modo algum com o que a Bíblia nos conta noutra parte a respeito de Judite. Se o episódio de Holofernes se situasse nessa época, está fora de dúvida que Nabucodonosor teria tirado vingança disso, por ocasião dessa primeira invasão vitoriosa. Os fatos históricos que se seguem não concordam melhor. Em 601, apesar das advertências de Jeremias, que sentia que o reino de Judá ia em breve acabar lastimosamente como o de Israel, Jeoaquim deixa de pagar tributo a Nabucodonosor; é uma revolta do régulo judeu.
354. O profeta Jeremias, monologuista lamentativo. É então que se deve situar a expedição de Holofernes? Não; pois as armas israelitas pouco brilham nesses anos! Depois de quatro anos de devastação do território judeu pelos assírios, Nabucodonosor entra em Jerusalém (é a segunda tomada da cidade santa pelos exércitos de Babilônia), faz morrer Jeoaquim e substitui-o por seu filho, chamado igualmente Jeoaquim, dito Jeconias. Mas, ao cabo de três meses, Nabucodonosor reconsidera; Jeoaquim-Jeconias é posto entre os cativos que os assírios levam para Babilônia, depois de [729] terem saqueado o templo; é Matanias, tio materno de Jeconias, que o vencedor estabelece rei de Judá em substituição do jovem príncipe destronado e prisioneiro, e Nabucodonosor muda o nome do novo rei para o de Zedequias (597). Ainda não é nessa época que convém situar o glorioso episódio de Judite, não é verdade? Impossível também situá-lo nos nove anos que se seguem, anos de desolação na Judeia, anos durante os quais o jugo assírio pesa mais duramente do que nunca sobre os restos da população israelita, deixados em Jerusalém e noutras cidades das duas tribos de Judá e Benjamim. Por fim, em 588, o faraó Apriés, depois de uma guerra bem-sucedida contra os tírios, instiga Zedequias a sacudir o jugo de Babilônia; Apriés é vencido no próprio Egito e, na volta da sua expedição triunfante, Nabucodonosor vai pôr cerco a Jerusalém pela terceira vez. A façanha de Judite evidentemente não se realizou nesse momento, visto que a vitória coube de novo aos inimigos de Israel. É esse o cerco de dezoito meses que terminou com a tomada de Jerusalém e o fim do reino de Judá (587), quando os assírios entraram pela brecha na cidade de Davi, na noite de 9 para 10 de julho; o templo e o palácio são destruídos, os edifícios públicos e as casas dos particulares são incendiados, as muralhas são demolidas; toda a família real é massacrada, exceto Zedequias, que, acorrentado e com os olhos furados, é levado em cativeiro para Babilônia com os últimos judeus.
355. Nabucodonosor destrói o templo de Jerusalém. (a carroça diz “Déménagements”, mudanças: Nabucodonosor esvazia o templo como uma firma de mudanças) Assim, de 606 a 587, Nabucodonosor não deixou de ser o flagelo da Judeia; foi unicamente durante esse período de tempo que os seus exércitos vieram ao território hebreu, e sempre foram vitoriosos, quer sob as ordens dos seus generais, quer ele os tenha comandado em pessoa; isso é expressamente reconhecido no livro bíblico dos Reis. Portanto, dado que o livro de Judite expõe a pretensa façanha da heroína afirmando que foi realizada contra um general de Nabucodonosor, dado que a Assíria não teve outro rei com o nome de Nebukadnezzar (Nabucodonosor), o livro de Judite, desde a sua primeira linha até a última, é uma audaciosa mentira; e Voltaire teve razão em dizer que a época atribuída pelos teólogos à existência de [730] Judite é precisamente a época dos maiores desastres da nação judia. «Alguns partidários de Judite, continua Voltaire, sustentaram que havia alguma coisa de verdadeiro na sua aventura, visto que os judeus celebravam todos os anos a festa dessa prodigiosa mulher. Responderam-lhes que, ainda que os judeus tivessem instituído doze festas por ano em honra de Santa Judite, isso nada provaria. [731] Por mais que os gregos tivessem celebrado a festa do cavalo de Troia, nem por isso seria menos falso nem menos ridículo que Troia tivesse sido tomada por esse grande cavalo de madeira. Quase todas as festas dos gregos e dos antigos romanos celebravam aventuras fabulosas. Castor e Pólux certamente não tinham vindo do céu e dos infernos para se pôr à frente de um exército romano, e contudo festejava-se esse belo milagre. Festejava-se a vestal Sílvia, a quem o deus Marte fez dois filhos [732] (Rômulo e Remo) durante o seu sono, quando os latinos ainda não conheciam nem o deus Marte nem as vestais. Cada fábula tinha a sua festa em Roma como em Atenas. Cada monumento fora edificado para consagrar uma impostura. Quanto mais sagrados eram, mais certo é que eram ridículos. E, sem procurar exemplos muito longe, não temos ainda, na Igreja grega, a fábula dos Sete Dormentes, e, na Igreja romana, a fábula das Onze mil Virgens? Haverá coisa mais célebre no nosso Ocidente do que a Epifania e esses três reis Gaspar, Melchior e Baltasar, que vêm a pé dos confins do Oriente até a aldeia de Belém, conduzidos por uma estrela? Pode-se dizer outro tanto de Judite e de Holofernes. Mas há uma resposta ainda melhor a dar: é falso que os judeus tenham jamais tido a festa de Judite. Foi um falsário, um monge dominicano chamado Giovanni Nanni, conhecido pelo nome de Ânio de Viterbo, que fez imprimir, no século XVI, pretensas obras de Fílon e de Beroso, nas quais essa pretensa festa é forjada. Foi assim que se estabeleceram mil opiniões: quanto mais ridículas eram, mais voga tiveram. As Mil e uma Noites reinam no mundo.» CAPÍTULO 15
Os livros de profecias — Isaías e Jeremias, por exemplo — não oferecem interesse algum no exame que nos ocupa. Se forem considerados do ponto de vista dos fatos anunciados, observa-se que os acontecimentos, sempre que são indicados com precisão, são exclusivamente dos que puderam ser relatados depois do fato; essas narrações, supostamente escritas de antemão, duplicam outras passagens da Bíblia. Quanto à generalidade dessas profecias, são sobretudo o mais vagas possível; o que permite aos sacerdotes interpretá-las à sua vontade, e até variar as suas interpretações ao sabor [733] dos seus interesses e segundo a marcha dos acontecimentos. Não nos deteremos nessas divagações; seria fazer o leitor perder o seu tempo, exatamente como se nos propuséssemos a comentar os Salmos de Davi, que também fazem parte da Bíblia. Terminaremos, pois, esta obra agrupando num último capítulo todos os episódios, afirmados como verídicos pela Igreja, que constituem mais ou menos dogmaticamente a história do povo hebreu desde a destruição do templo por Nabucodonosor até o nascimento de Jesus Cristo; pois tal é, para os cristãos, o fim do Antigo Testamento. O leitor terá assim uma escolha dos trechos mais curiosos e mais singulares, começando por Daniel, cujas aventuras são do tempo de Nabucodonosor e dos seus sucessores. O livro de Daniel começa informando-nos de que o rei Nabucodonosor mandou educar em Babilônia, entre os seus eunucos, quatro jovens judeus de nobre raça, escolhidos entre os mais belos de rosto. Aspenaz, chefe dos eunucos, confiou a Melzar, subchefe eunuco, esses quatro adolescentes: Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Não se diz expressamente que os castraram; mas isso se depreende bastante bem do texto. Seja como for, essa educação foi admiravelmente proveitosa aos jovens, e Nabucodonosor, depois de submetê-los a um exame, reconheceu que eram dez vezes mais inteligentes e sábios que todos os adivinhos e astrólogos do seu reino (Daniel 1). Um dia, ou melhor, uma noite, Nabucodonosor teve um sonho, com o qual ficou tão perturbado que não pôde recordá-lo ao despertar. Mandou vir à sua presença todos os seus magos caldeus e intimou-os: 1º a dizer-lhe o que ele tinha sonhado, e 2º a dar-lhe a explicação do sonho. Estes responderam que a primeira parte desse problema era insolúvel; mas que, se o rei conseguisse recordar o sonho, explicá-lo seria para eles a coisa mais fácil do mundo. Nabucodonosor replicou condenando à morte todos os magos. A execução estava em curso e os quatro jovens hebreus iam passar por ela (fr. “y passer”, locução familiar: deixar ali a vida) também, embora não tivessem sido chamados à consulta régia, quando Daniel declarou que se encarregava de recordar a Nabucodonosor o seu sonho e de lhe dar uma interpretação [734] exata. Lembrou, pois, ao rei que ele tinha visto uma grande estátua cuja cabeça era de ouro, o peito e os braços de prata, o ventre e as ancas de bronze, as pernas de ferro e os pés em parte de ferro e em parte de barro; e eis que uma pedrinha, desprendendo-se de uma montanha vizinha, veio ferir a estátua nos pés e os quebrou, de sorte que toda a estátua desabou, enquanto a pedrinha se tornou uma grande montanha que encheu toda a terra. Quanto à explicação, Daniel [735] deu-a assim: a cabeça de ouro é Nabucodonosor em pessoa; e depois de Nabucodonosor se levantará um reino de prata, isto é, menor; em seguida, um terceiro reino de bronze, que dominará o mundo; e em quarto lugar haverá outro imenso reino, metade ferro e metade barro, isto é, metade forte e metade fraco; então Deus suscitará um quinto reino que quebrará e consumirá todos os outros e será estabelecido eternamente. Nabucodonosor, [736] pasmado de tanta ciência, prostrou-se diante do jovem Daniel, deu-lhe grandes presentes e nomeou-o governador da província de Babilônia; pelo menos, é a Bíblia que o diz (Daniel 2), pois os arqueólogos nunca descobriram nada de semelhante nas inscrições assírias.
357. Sonho de Nabucodonosor explicado por Daniel. Algum tempo depois, Nabucodonosor mandou erguer em pleno campo, em Dura, na província de Babilônia, uma estátua toda de ouro, de sessenta côvados de altura e seis de largura, e reuniu, para o dia da inauguração, todos os sátrapas, magistrados, oficiais, intendentes, recebedores, conselheiros, governadores das províncias, etc. A alguma distância da estátua, tinha-se construído um imenso forno, todo flamejante. Então, um arauto anunciou, da parte do rei, que qualquer que não se prostrasse diante da estátua de ouro seria lançado na fornalha. Como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego não quisessem prostrar-se, Nabucodonosor entrou em grande cólera, ordenou que se enchesse a fornalha com sete vezes mais combustível do que de costume, e mandou lançar nela os três jovens hebreus. Ora, o forno flamejava tão forte que os homens que nele precipitaram as vítimas foram eles mesmos queimados vivos só de se aproximarem do fogo. E Nabucodonosor ficou no cúmulo da surpresa ao ver quatro homens passearem muito tranquilamente na fornalha, sem serem de modo algum incomodados pelas chamas; um desses quatro homens era semelhante a um filho de Deus. Nabucodonosor convidou então Sadraque, Mesaque e Abede-Nego a sair da fornalha; o que eles fizeram. Todos os sátrapas, magistrados, governadores, conselheiros, etc., e o próprio rei estavam maravilhados ao contemplar aqueles homens «dos quais nem um cabelo estava chamuscado, cujas ceroulas nem sequer tinham o cheiro do fogo.» Ali mesmo, Nabucodonosor promulgou um decreto, em virtude do qual qualquer que dissesse alguma coisa de inconveniente contra o deus dos judeus seria feito em pedaços e teria a sua casa demolida. (Daniel 3)
356. Milagre dos três jovens hebreus na fornalha. O capítulo 4 é uma obra-prima de besteira (fr. “bêtise”, formado sobre “bête”, besta, como “besteira” sobre “besta”: jogo de palavras, pois é o capítulo em que o rei é mudado em besta). Os sacerdotes contam que Nabucodonosor foi mudado em besta durante sete anos da sua vida; mas é na Bíblia que se deve ler esse episódio! No seu livro, Daniel passa a pena ao rei da Assíria, e é o próprio Nabucodonosor quem conta [737] o que lhe aconteceu. «Eu, Nabucodonosor, rei dos assírios, dirijo-me a todos os povos e às nações de todas as línguas que habitam em toda a terra; que a paz seja com todos! Pareceu-me bem fazer-vos conhecer os sinais e as maravilhas que o Deus soberano fez para comigo.» (Daniel 4:1-2) E assim por diante: trinta e sete versículos! Todo um capítulo da Bíblia redigido por Nabucodonosor! Isso é que é um achado; a farsa do Espírito Santo não recua diante de nenhuma balela para fazer os fiéis engolirem... Pois bem, Nabucodonosor conta que viu em sonho uma árvore imensa, cujo cimo tocava os céus e em cujos ramos pousavam todas as aves da terra; de repente, um santo desceu de uma nuvem e mandou abater essa árvore, deixar dela apenas o tronco e as raízes, atar esses restos com cadeias de ferro, regar esse tronco e essas raízes com orvalho, e dar a esse tronco e a essas raízes um coração de besta durante sete tempos. Nabucodonosor diz que consultou Daniel sobre isso e que o profeta lhe revelou antes de tudo que essa árvore era a sua régia pessoa; o resto do sonho indicava que ele seria deposto do trono e mudado em besta durante sete anos. Prosseguindo o seu relato, Nabucodonosor narra que, com efeito, um dia em que passeava pelo terraço do seu palácio e se comprazia em admirar os esplendores de Babilônia, ouviu uma voz que lhe gritou a sua queda, e que logo foi expulso do seu palácio, que todos os homens o vilipendiaram e que foi reduzido a refugiar-se nos campos; que ali se pôs a pastar erva, não tendo outro alimento durante sete anos; que lhe cresceram por todo o corpo pelos de boi e penas de águia, e que as suas unhas se tornaram semelhantes às garras das aves de rapina.
358. O rei Nabucodonosor, precursor dos vegetarianos. Mas, ao fim do sétimo ano, «levantei os meus olhos para o céu, relata Nabucodonosor, e tornaram-me a vir os meus sentidos de homem; então, louvei o Deus soberano, e voltei para Babilônia; todos os meus antigos conselheiros me fizeram festa, os grandes do reino me pediram de volta, fui restabelecido no trono, e o meu reinado terminou com mais magnificência ainda do que no começo». É lamentável que Nabucodonosor não tenha dado a conhecer quem reinara em seu lugar. Nem é preciso dizer que os sábios [738] nunca descobriram nada que se referisse a essa pretensa queda do filho de Nabopolassar e ao seu pretenso restabelecimento no trono ao cabo de sete anos. No capítulo 5, Daniel, retomando a pena, desfia-nos a sua mirabolante aventura, conhecida pelo nome de festim de Belsazar. Por várias vezes, o autor declara-nos que esse Belsazar era filho de Nabucodonosor. Pois bem, esse rei da Assíria deu uma ceia extraordinária a mil [739] dos seus principais senhores, e, à sobremesa, teve o capricho de fazer os seus convivas beberem nos vasos sagrados que seu pai tomara ao templo de Jerusalém. Então, de repente, apareceu uma mão e pôs-se a traçar na muralha letras de uma língua desconhecida. Belsazar, assustado, mandou chamar os astrólogos, os adivinhos, os mais sábios dos caldeus, prometendo dar um colar de ouro, uma túnica de escarlata e um terço do seu reino ao primeiro que decifrasse essa escritura [740] misteriosa e a explicasse; mas nenhum pôde satisfazê-lo. Felizmente, a rainha lembrou-se de Daniel. O profeta chega e, sem franzir a sobrancelha, lê na parede as palavras: Mene, Tequel, Peres.
360. O festim de Belsazar. Depois, sem dizer a que língua pertencem, tradu-las assim, para grande estupefação da assembleia: «A palavra Mene significa: Deus calculou o teu reinado, e pôs-lhe fim. A palavra Tequel significa: Foste pesado na balança, e foste achado leve demais. A palavra Peres significa: O teu reino foi dividido e dado aos medos e aos persas.» Belsazar, como homem que só tem uma palavra (fr. “n’avoir qu’une parole”, locução: nunca voltar atrás no que se disse), mandou logo vestir Daniel com uma túnica de escarlata, passou-lhe ao pescoço um colar de ouro, e, por um arauto, mandou proclamar ali mesmo que a terceira parte do reino ficaria daí em diante sob o domínio do profeta. O capítulo termina imediatamente com estes dois versículos (30-31): «Nessa mesma noite, Belsazar, rei da Caldeia, foi morto. E Dario, o medo, tomou posse do reino, sendo da idade de sessenta e dois anos.» Essa historieta do festim de Belsazar não é mal imaginada; sabe-se o sucesso que teve; o assunto, aliás, é cheio de atrativo para os pintores, que não deixaram de tirar partido dele; por isso, quanta boa gente crê que isso aconteceu! Infelizmente, aí está a história, que contradiz terminantemente a Bíblia. Primeiramente, nenhum Belsazar é mencionado em parte alguma como tendo reinado em Babilônia. Nebukadnezzar (Nabucodonosor) morreu em 561 (a.C.), deixando um filho, Evil-Merodaque, que lhe sucedeu, de 561 a 556, e uma filha, casada com Nergalsarassar (Neriglissar), o qual assassinou o cunhado, usurpou o trono, e pereceu um ano depois (555) num combate contra Ciro, então rei da Pérsia. A coroa ainda não sairia da família de Nabucodonosor: passou, em primeiro lugar, ao seu neto Laborosoarcod, filho de Evil-Merodaque, que só reinou alguns meses, e em segundo lugar a Nabonido, filho do irmão mais novo de Nabucodonosor, que alguns autores dão como descendente de Semíramis, confundindo essa rainha com Nitócris, a ilustre mãe de Nabucodonosor. Mas Nabonido, que reinou de 555 a 538 e foi o último rei de Babilônia da dinastia de Nabopolassar, evidentemente não é o príncipe que a Bíblia chama Belsazar, visto que o livro [741] de Daniel dá expressamente esse Belsazar como filho de Nabucodonosor, e visto que o faz morrer na noite da tomada de Babilônia por Dario. Ora, Ciro, que como rei da Pérsia sucedera em 560 a seu pai Cambises I, e cuja mãe, Mandane, filha de Astíages, rei dos medos, era neta daquele Ciáxares I que teve por genro Nabucodonosor, Ciro, dizíamos, reuniu a coroa da Média à da Pérsia em 536, isto é, com a morte de Ciáxares II, irmão de sua mãe e seu sogro, cuja filha única, Bardane, ele desposara. E foi mesmo Ciro, e não Dario, quem tomou Babilônia em 538, pondo fim ao reinado de Nabonido, o qual evidentemente não é Belsazar. É verdade que Babilônia foi tomada de novo, vinte e dois anos mais tarde, e desta vez por Dario I. Por isso, alguns teólogos espertalhões insinuam que o rei de Babilônia dessa outra época é o Belsazar da Bíblia. Mas essa tese não para em pé, logo que é examinada de perto. Com efeito, é conhecido, arquiconhecido, que Ciro, tendo reunido na sua cabeça as coroas da Pérsia, da Lídia (544, destronando Creso), da Média e da Assíria, fundou a grande monarquia persa pela reunião de todos esses estados e estabeleceu o domínio ariano sobre toda a Ásia ocidental. Seu filho Cambises II sucedeu-lhe, acrescentou ao império o Egito, que conquistou em 525, e morreu em 522. Sabe-se que, não tendo Cambises filhos e cabendo a coroa a seu irmão Esmérdis, este fora secretamente assassinado pelos magos da Média, que tinham posto em seu lugar um dos seus, o qual reinou sete meses; mas, descoberto o embuste, uns senhores persas formaram uma conjura, massacraram os magos e o falso Esmérdis (521) e deram a coroa a Dario, duas vezes genro de Ciro (desposara as suas filhas Atossa e Aristone), conhecido pelo nome de Dario I, filho de Histaspes. Isto, sim, é a história! E Dario, que reinou de 521 a 486, dividiu o seu império em vinte satrapias. É verdade que por um momento os sátrapas de Babilônia, Nabu-Imtuk e seu filho Belsarussur, se tornaram independentes; Dario teve de retomar Babilônia (516). Mas como sustentar que Belsarussur possa ser Belsazar, visto que esse rei não passava de um sátrapa revoltoso, e não o próprio filho de Nabucodonosor, qualificação [742] terminantemente dada pela Bíblia ao seu Belsazar e repetida várias vezes? Entre Nabucodonosor e Belsarussur, nove reis tinham reinado sobre Babilônia. Além disso, os capítulos seguintes do livro de Daniel nos mostram esse profeta mantido nas mais altas funções por Dario e por Ciro, dando esses dois reis como reinando simultaneamente, um sobre os medos, o outro sobre os persas. Ora, eles foram, um depois do outro, ao mesmo tempo reis dos medos e dos persas, e entre o reinado [743] de Ciro e o de seu genro Dario, houve Cambises, o conquistador, e o falso Esmérdis. Por fim, como é indiscutível que a tomada de Babilônia que pôs fim ao império caldeo-babilônico (dinastia de Nabopolassar, família de Nabucodonosor) é a de 538, isto é, a tomada de Babilônia por Ciro, outros teólogos supõem que Dario, comandando os exércitos de Ciro, de quem era genro, tomou posse do reino em nome de [744] seu sogro, e dizem que isso está subentendido no versículo 31 do capítulo 5 citado mais acima. Acrescentam, sempre por hipótese, que evidentemente Ciro permaneceu o alto soberano de todo o novo império persa, mas que deve ter delegado poderes especiais a seu genro Dario, estabelecendo-o particularmente rei sobre a Caldeia, isto é, sobre os estados de Belsazar, cuja capital era Babilônia. Querem justificar essa suposição, baseando-a no versículo 28 do capítulo 6 e no versículo 1 do capítulo 9. Esses versículos dizem assim: «Daniel prosperou no reinado de Dario e no reinado de Ciro, rei da Pérsia (Daniel 6:28). Dario, filho de Assuero, da raça dos medos, fora estabelecido rei sobre o reino dos caldeus (Daniel 9:1).» Assim, dizem eles, o relato de Daniel se conciliaria com a história. Compreende-se que os sacerdotes, que proclamam Daniel um dos maiores profetas a quem Deus se tenha revelado, façam tanta questão de inocentá-lo de toda jactância mentirosa; é evidente que, se esse escritor judeu mentiu ao contar acontecimentos passados de que teria sido a testemunha e um dos principais atores, não se pode ter, com maior razão, confiança alguma nos anúncios que faz de acontecimentos futuros: ora, como essas profecias, que visam o Messias e a sua Igreja, são da maior importância para o cristianismo, que se declara a religião assim anunciada, é preciso que Daniel não seja, por preço nenhum, apanhado em flagrante delito de impostura. Eis por que os sacerdotes se dão um trabalho de todos os diabos (fr. “un mal de tous les diables”, locução: um esforço enorme) querendo provar que, no último dia do reinado de um Belsazar qualquer, filho de Nabucodonosor, Babilônia foi tomada por Dario, o medo, agindo em nome de Ciro e investido logo em seguida da realeza caldeia. Mas é fatal: Daniel, gabarola e tagarela irrefletido, julgava escrever só para a classe baixa do povo judeu, para os seus compatriotas ignorantes, incapazes de discutir com os levitas um ponto de história; assim foram inventadas essas lendas de Holofernes, de Belsazar, e outros episódios do mesmo gênero, muito lisonjeiros para o amor-próprio desses pobres hebreus que, na realidade, tinham sido tratados muito duramente pelos seus diversos vencedores: com essas patranhas do heroísmo das Judite e da elevação dos Daniel e das Ester, [745] titilava-se agradavelmente a fibra nacional, dava-se uma ficha de consolação (fr. “fiche de consolation”, locução: uma magra compensação por uma perda; vem dos jogos de cartas), depois do cativeiro, aos vencidos enfim livrados da servidão, e escreviam-se esses livros de uma fantasia insensata, sem suspeitar que um dia todo esse andaime de mentiras desabaria e mostraria a cínica má-fé dos sacerdotes de todos os tempos. Com efeito, a última argumentação dos teólogos, para salvar o seu Daniel da acusação de impostura no que diz respeito a Dario e a Ciro, não é mais sólida que as suas outras hipóteses. Dario não era filho de rei, mas filho de um senhor persa, chamado Histaspes; não era, pois, filho de Assuero, e Assuero é mais um rei imaginário inventado pela Bíblia, um suposto rei da Pérsia e da Média que teria desposado a judia Ester. Dario não era da raça dos medos; muito pelo contrário, com a morte de Ciro, que fizera dominar a influência persa no novo império, os magos da Média aproveitaram a expedição de Cambises ao Egito para tentar apoderar-se do poder, e conseguiram-no por algum tempo pondo no trono o falso Esmérdis: ora, foi precisamente para eliminar a influência da raça meda que os senhores persas fizeram uma revolução, massacraram os magos e os seus partidários, e deram a coroa a Dario, filho de Histaspes, de sangue persa. Por fim, Dario nunca teve uma realeza particular em Babilônia: quando recebeu a coroa, foi para reinar como sucessor legítimo de Ciro e de Cambises, foi para ser chefe do grande império persa, rei ao mesmo tempo da Pérsia propriamente dita, da Média, da Lídia, da Caldeia, da Bactriana e do Egito. Depois da boa história de Belsazar, Daniel conta (Daniel 6) que Dario, tendo dividido o seu reino da Caldeia em cento e vinte satrapias, pôs acima dos cento e vinte sátrapas três governadores, e que ele, Daniel, era o mais importante dos três; os outros governadores e os cento e vinte sátrapas, invejosos dessa imensa autoridade dada a um judeu, conspiraram desde então a sua perda. Para isso, tiveram a ideia de fazer Dario decretar que, durante trinta dias, a pessoa régia seria adorada e invocada, com exclusão de todo deus. Naturalmente, Daniel não fez caso desse decreto, e [746] continuou a dirigir as suas preces a Jeová. Ora, quando Dario recebeu a denúncia contra o seu primeiro-ministro, por quem tinha uma grande afeição, compreendeu que os seus conselheiros o tinham feito cair numa armadilha; mas, estando empenhada a sua palavra régia, deu ordem de descer Daniel a uma cova cheia de leões. Todavia, Dario, embora a princípio devoto dos deuses do seu país, teve uma certa confiança em Jeová, «Tendo Dario ordenado que lançassem Daniel [747] na cova dos leões, disse-lhe: O teu Deus, a quem serves sem cessar, é o que te livrará. E trouxeram uma pedra, que foi posta sobre a abertura da cova, e o rei a selou com o seu anel e com o anel dos principais senhores. Depois, Dario foi-se para o seu palácio; passou o serão sem cear, não fez vir os seus músicos, e nem sequer pôde dormir em toda a noite. No dia seguinte, ao romper do dia, o rei levantou-se e foi a toda a pressa à cova dos leões; chegado ali, [748] chamou Daniel com voz triste, nestes termos: Daniel, servo do Deus vivo, ter-te-á o teu Deus livrado dos leões? Então, Daniel disse ao rei: Ó rei, vive para sempre! O meu Deus enviou o seu anjo, que fechou a boca dos leões, e não me fizeram mal algum. Dario ficou transportado de alegria ao ouvir estas palavras; mandou tirar Daniel da cova, e todos viram bem que não tinha ferida alguma. Por ordem do rei, todos os que tinham acusado Daniel foram logo lançados na cova dos leões, assim como as suas mulheres e os seus filhos, e foram devorados pelos leões antes mesmo de terem tocado o pavimento da cova. Então, o rei Dario escreveu uma carta que enviou a todos os reis da terra, e essa carta estava assim redigida: A todos os povos e nações de todas as línguas que habitam sobre a terra. Que a paz seja convosco! Escrevo-vos para vos fazer saber que acabo de publicar, em toda a extensão do meu reino, um édito que ordena que doravante todos os meus súditos honrem e temam o Deus de Daniel, porque ele é o Deus vivo e o único eterno, e a sua onipotência dominará o céu e a terra até o fim dos tempos.» (Daniel 6:16-26)
359. Daniel na cova dos leões. É preciso realmente que o povo judeu tenha sido mantido pelos seus chefes na ignorância mais completa do que se passava entre os outros povos, é preciso também que os levitas que escreviam para ele esses livros sagrados tenham tido um topete fenomenal, para que se encontrem na Bíblia afirmações de tal audácia, em contradição tão flagrante com a história. A conversão de Dario a Jeová! o judaísmo proclamado religião de estado por édito de Dario! e esse acontecimento político-religioso da maior importância, levado por cartas régias ao conhecimento de todos os povos! quem poderia ter sonhado uma mentira tão impudente? quem acreditaria que tivesse sido possível, se a Bíblia não tivesse sido conservada?... Dario, adorador de Sabaote-Jeová-Adonai, ele, que participou, com as suas riquezas, da ereção do templo de Diana em Éfeso; pois esse famoso santuário pagão, começado por volta do ano 620 antes da era cristã e terminado duzentos e vinte anos depois, foi erguido à custa comum de todos os estados da Ásia ocidental (Plínio)... Em compensação, Daniel, esse pretenso primeiro-ministro de Dario, não diz, nos seus catorze capítulos, uma só palavra da guerra que [749] Dario fez aos gregos; dessa guerra formidável, Daniel nunca ouviu falar! ignora até a batalha de Maratona!... Os capítulos 7 a 12 do livro de Daniel são consagrados a sonhos que o escritor afirma ter tido e a profecias. Mesmo escritos por um autor sincero, esses devaneios não teriam valor algum; sob a pena do farsante que contou imperturbavelmente que fora governador da província de Babilônia sob Nabucodonosor e, mais tarde, primeiro-ministro de Dario, essas pretensas profecias e visões não têm sequer o atrativo da curiosidade que às vezes pode prender-se às visões extravagantes de um louco. Que nos pode importar que Daniel tenha visto ou não em sonho um leão com asas de águia, um urso cuja boca era notável por três imensas presas, um leopardo de quatro cabeças que tinha no dorso quatro asas de ave, um animal de uma forma indescritível com dez chifres e dentes de ferro? Que nos pode importar que esse descarado patranheiro anuncie uma ressurreição geral, que se dará, diz ele, num tempo, mais tempos, mais a metade de um tempo? Tudo isso tem o mesmo alcance que as lérias desfiadas pela primeira cartomante que apareça. Não se pode, ao ler essas páginas idiotas, senão tomar aversão aos sacerdotes que recorrem a elas para embrutecer os fiéis, e ter compaixão daqueles cuja asneira incomensurável aceita como inspirações maravilhosas essas ridículas estupidezes. O capítulo 13 expõe como Daniel salvou a vida de uma virtuosa mulher que dois velhos velhacos tinham feito condenar à morte, e como a calúnia dos acusadores foi demonstrada e os fez executar no lugar da sua vítima. A cena passa-se em Babilônia, no tempo do cativeiro. A heroína é uma certa Susana, mulher de um judeu chamado Joaquim. Essa Susana era muito bela e não menos fiel ao marido. Dois velhos magistrados, que vinham às vezes dar bom-dia ao seu marido, conceberam por ela uma viva paixão. «Tinham vergonha de declarar um ao outro a vontade que tinham de se deitar com Susana; mas buscavam com cuidado, todos os dias, os meios de a surpreender.» (Daniel 13:11-12) [750] Um acaso obrigou-os, um dia, a fazer a confidência mútua do seu culpado amor; resolveram, desde então, manobrar de comum acordo para constranger Susana a ceder-lhes. Foi assim que se esconderam no jardim onde ela vinha algumas vezes banhar-se; esperaram que ela estivesse nua, depois de ter despedido as suas servas; então, mostrando-se de súbito, exigiram a sua submissão aos seus impuros desejos, ameaçando-a de dizer que a tinham encontrado com um amante, se ela [751] lhes resistisse. Susana chorou, mas resistiu. Os dois velhos juízes gritaram, alvoroçaram a gente da casa, os vizinhos, e agitaram-se a tal ponto que uma assembleia do povo foi convocada para se reunir no dia seguinte diante da casa de Joaquim.
361. A casta Susana, surpreendida no banho. Que esquisito cativeiro, apesar de tudo! Eis os judeus, prisioneiros de guerra, internados em Babilônia, que a autoridade deixa reunir-se em assembleia deliberante, em tribunal de alta [752] justiça, absolutamente como se estivessem em casa, em Jerusalém! Seria de crer, em vez disso, que Susana, acusada de adultério por dois magistrados babilônios, ia ser levada aos juízes comuns de Babilônia, aos juízes caldeus instituídos por Nabucodonosor; pois o episódio é do tempo da juventude de Daniel. Todos os judeus cativos em Babilônia reuniram-se, pois, à hora marcada, com toda a liberdade. Susana compareceu perante a assembleia popular. Os dois velhos juízes babilônios mantiveram a sua acusação. Pondo cada um a mão sobre a cabeça da mulher do Joaquim, juraram que a tinham surpreendido no jardim, toda nua a pretexto de banho, e fazendo amor com um rapaz; este, diziam eles, tinha sido mais forte do que eles, não tinham podido retê-lo; eis como o cúmplice do adultério conseguira escapar-se. Susana negou, sem dizer, todavia, por que os dois velhos velhacos davam falso testemunho contra ela; mas dirigiu, em alta voz, uma prece a Jeová, atestando que era injustamente condenada; pois o povo acreditara nos seus caluniadores e deliberara que ela devia perecer.
362. Os dois velhos fazem condenar Susana. Iam, pois, dar execução à sentença, quando o jovem Daniel, do meio da multidão, pediu a palavra, obteve-a, e comprometeu-se a provar a inocência dessa Susana, que via pela primeira vez. Por sua iniciativa, os dois acusadores foram separados. Então, um deles foi chamado de novo, e Daniel começou a sua descompostura nestes termos: «Ó tu que envelheceste numa longa maldade, agora chegaram ao seu cúmulo os pecados que cometias antes, proferindo sentenças injustas, condenando os inocentes e absolvendo os culpados! Agora, pois, se viste esta mulher em falta, dize debaixo de que árvore a surpreendeste com o seu amante? Ele respondeu: Debaixo de um lentisco. E Daniel lhe disse: Verdadeiramente mentiste contra a tua própria cabeça; porque, eis o mensageiro de Deus que, tendo recebido dele o decreto, te cortará pelo meio!» (Daniel 13:52-55) Haverá talvez quem ache que Daniel, antes de tratar de mentirosa a primeira falsa testemunha, deveria ter esperado a resposta contraditória da segunda, visto que só essa contradição devia provar a calúnia dos acusadores. [753] Mas um moço que devia mais tarde ler numa parede e traduzir palavras que não pertenciam a nenhuma língua humana evidentemente não era como os outros homens. «E Daniel, depois de ter feito retirar à parte o primeiro velho, ordenou que trouxessem o outro, e disse-lhe: Ó velho esperma de Canaã (fr. “sperme”: a Bíblia católica de Sacy traz “Race de Chanaan”, segundo o latim “semen” e o grego “sperma”, semente, descendência, que Taxil toma no sentido próprio; mais adiante, onde ele escreve “que entrásseis nelas”, o grego diz “por medo, cediam aos vossos desejos”)! a beleza de Judá acendeu as tuas concupiscências. Eis como abusastes das filhas de Israel, e, por medo de vós, elas sofreram que entrásseis nelas; mas a filha de Judá, mais valente que as filhas de Israel, não sofreu a vossa iniquidade! Agora, pois, dize debaixo de que árvore surpreendeste esta mulher com o seu amante. Ele respondeu: Debaixo de uma azinheira.» (Daniel 13:56-58).
363. Daniel convence de calúnia os dois velhos. A causa estava decidida, o falso testemunho era evidente. É claro que os dois velhos magistrados babilônios mereciam um castigo exemplar. Mas quem, então, ia julgá-los? A Bíblia afirma que a sua condenação foi pronunciada e executada pela assembleia popular dos judeus cativos! «Então, toda a assembleia bendisse a Jeová em alta voz; e todos se levantaram contra os dois velhos juízes, porque Daniel os tinha convencido de falso testemunho pela sua própria boca. E, aplicando-lhes a lei de Moisés, trataram-nos do mesmo modo que eles maldosamente tinham querido fazer tratar Susana; mataram-nos, pois, e assim o sangue inocente foi salvo naquele dia.» (Daniel 13:60-62)
364. Execução dos dois velhos caluniadores. Supondo verdadeira esta história, inclusive a execução, é certo que os dois velhos velhacos não a tinham roubado (fr. “ne l’avaient pas volée”, locução familiar: tinham-na bem merecido); mas, por indignos de piedade que fossem, não é menos certo que o julgamento do seu caso pertencia aos tribunais babilônios; por isso esta conclusão basta, por si só, para provar a mentira do relato bíblico. É inadmissível que os magistrados de Nabucodonosor tenham deixado que dois dos seus, mesmo indiscutivelmente culpados, fossem julgados e supliciados por uma reunião de prisioneiros de guerra, mantidos em servidão; é impossível que judeus, em estado de escravidão em Babilônia, tenham podido livre e publicamente aplicar a lei de Moisés a dois funcionários do estado babilônio, a dois personagens oficiais que se contavam entre os seus amos e opressores. E a história de Susana e dos dois velhos é uma das que mais facilmente se admitem! A arte apoderou-se dela para [754] popularizá-la; é uma tradição respeitada, na qual a multidão crê. Verdadeiramente, diremos, não se lê bastante a Bíblia; pois lê-la é desprezá-la e deixar de crer nela, tão desastradas são, à força de cinismo, as imposturas que a compõem! No capítulo 14 e último do livro de Daniel, temos de início uma mentira histórica flagrante: «Tendo morrido o rei Astíages, Ciro da Pérsia foi posto na posse [755] do seu reino; e Daniel comia à mesa do rei, que lhe concedeu honras mais do que a todos os seus melhores amigos.» (v. 1) O levita que escreveu este livro nem sequer sabe que Astíages, rei da Média, morto em 559, cuja filha Mandane foi mãe de Ciro, deixou um filho, Ciáxares II, que lhe sucedeu e reinou vinte e três anos; esse levita ignora que foi somente com a morte de Ciáxares (536) que Ciro, que era ao mesmo tempo seu sobrinho e seu genro, recebeu em herança essa coroa da Média [756] que reuniu à coroa da Pérsia, pois Ciáxares II não deixara nenhum filho varão. Começando, pois, por uma patranha tão forte, este capítulo promete. Ali ficamos sabendo que Ciro adorava em Babilônia um ídolo, chamado Bel; numerosos comentadores veem nele, mais uma vez, Baal. Ora, os sacerdotes de Bel ou Baal afirmavam que o seu ídolo devorava durante a noite todas as iguarias que os fiéis depositavam sobre o seu altar durante o dia. A Bíblia quer fazer-nos crer que Ciro tinha a ingenuidade de engolir uma balela desse calibre, e que tentava até convencer Daniel: «Ainda que o ídolo Bel seja de barro recoberto de cobre, dizia ele, é um deus perfeitamente vivo, pois come e bebe todos os dias.» (v. 5). Daniel, tendo pena da palermice de Ciro, persuadiu-o a tentar uma prova. Carnes e vinho foram trazidos como de costume ao altar de Bel, e fizeram sair os sacrificadores; depois, Daniel, a sós com o rei, espalhou cinza no chão; depois disso, o rei e ele foram-se embora, e Ciro teve o cuidado de pôr o seu selo em todas as portas. Mas os sacerdotes tinham um alçapão debaixo do altar; vieram, pois, de noite por essa entrada secreta e levaram todos os víveres para papá-los em família. No dia seguinte, a fraude foi facilmente demonstrada pelas pegadas na cinza. Ciro entrou numa cólera azul (fr. “colère bleue”, locução: um violento acesso de cólera, dos que deixam o rosto azul), ao ver que por tanto tempo tinha sido ludibriado; mandou massacrar todos os sacrificadores de Bel, as suas mulheres e os seus filhos, e deu o ídolo a Daniel, que o destruiu com o seu templo.
365. Daniel demonstra a impostura dos sacerdotes de Bel. «Ora, havia também em Babilônia um grande dragão, e os babilônios o adoravam.» (v. 22) Ciro disse a Daniel: Este monstro não é um ídolo de matéria; ele, sim, está bem vivo; por conseguinte, é deus. Daniel pediu ao rei que lhe concedesse simplesmente a permissão de combater esse dragão sem espada e sem bastão. Depois que Ciro consentiu nisso, «Daniel tomou pez, gordura e pelos, que fez cozer juntamente, e fez com isso bolos que lançou na boca do dragão, e o dragão rebentou.» (v. 26)
366. Daniel envenena o dragão dos babilônios. Como o povo se mostrasse descontente com a morte do dragão, Ciro, para apaziguar o motim que já rugia, mandou lançar Daniel na famosa cova dos leões. Ciro e os babilônios [757] deveriam ter sabido que Daniel não seria devorado, pois a aventura já tinha tido uma primeira edição; mas o autor sagrado enreda-se aqui nas suas mentiras da maneira mais cômica. A primeira vez que ele põe Daniel na cova dos leões é no tempo de Dario, e esse rei só o deixa ali uma noite. Desta vez, Daniel passa seis dias e seis noites no meio das feras; pois é preciso que o segundo milagre seja mais brilhante ainda que o primeiro. «E havia na cova sete leões, e todos os dias, antes, davam-lhes dois cadáveres e duas ovelhas; mas então não se lhes deu nada, a fim de que devorassem Daniel.» (v. 31). Desta feita, vai ser preciso, pois, não só que Deus preserve o seu profeta das garras e dos dentes dos leões, mas também que o alimente. Deste modo, o milagre não deixará nada a desejar. A continuação do episódio é, pois, mais admirável que tudo o que se leu até agora. «Ora, um profeta chamado Habacuque tinha ficado na Judeia; e, um dia em que se preparava para ir levar a uns segadores nos campos uma sopa de pão que tinha cozido e que segurava num vaso, apareceu-lhe um anjo e lhe disse: Habacuque, vai levar a Babilônia este jantar a Daniel, que está na cova dos leões. Habacuque respondeu: Senhor, nunca vi Babilônia, e ignoro onde está essa cova. Então o anjo tomou Habacuque pelo alto da cabeça, e, segurando-o pelos cabelos, transportou-o até Babilônia, por cima da cova. Ali, Habacuque gritou: Daniel, Daniel, eis o jantar que Deus te envia. Assim, Daniel comeu. Depois, o anjo do Senhor retransportou de novo Habacuque ao lugar onde o tinha tomado. E ao sétimo dia o rei Ciro veio para chorar Daniel; veio à cova e olhou para dentro, e viu que Daniel estava bem vivo, tranquilamente sentado no meio dos leões.» (Daniel 14:32-39).
367. Habacuque, levado pelos cabelos, dá a sopa a Daniel. Naturalmente, Ciro, imitando Dario, mandou tirar Daniel da cova e ordenou que nela precipitassem os seus inimigos, os quais foram imediatamente devorados. O milagre da cova dos leões de Ciro afunda, pois, no sexto porão (fr. “enfoncer dans le sixième dessous”, locução: superar de muito longe; no teatro, os “dessous” são os porões debaixo do palco) o milagre da cova dos leões de Dario; mas há uma pequena dificuldade que os críticos levantam: é que Dario subiu ao trono nove anos depois da morte de Ciro; ao ditar as suas patranhas ao escritor levita, o Espírito Santo esqueceu a sua cronologia, emaranhou-se nela, e, como um verdadeiro besouro (fr. “comme un vrai hanneton”, locução: como um verdadeiro estouvado; diz-se “étourdi comme un hanneton” pelo voo pesado do besouro, que vai batendo em tudo), inverteu [758] simplesmente a ordem de sucessão desses dois reis! Ezequiel é, com Isaías, Jeremias e Daniel, um dos quatro profetas maiores; escreve as suas profecias às margens do rio Quebar (?), onde estava cativo. Se Daniel é um farsante, em contrapartida, Ezequiel dá a impressão de um louco; o seu livro, em quarenta e oito capítulos, é uma longa série de divagações. Conta, notadamente, que viu (não em sonho) quatro animais [759] que tinham cada qual um corpo de homem, quatro asas, pés de bezerro, e quatro faces, de homem, de boi, de leão e de águia; o seu aspecto era o de um animal todo em fogo; iam e vinham; ao lado deles, corriam rodas de uma altura imensa e cheias de olhos (Ezequiel 1). Esta descrição dá uma ideia do desarranjo cerebral do personagem. Este profeta conta o que fez, por ordem de Deus. Um dia, comeu um livro no qual estavam escritas [760] lamentações e maldições (ch. 2). Algum tempo depois, deitou-se durante trezentos e noventa dias sobre o lado esquerdo, em expiação das iniquidades do reino de Israel, e depois durante quarenta dias sobre o lado direito, em expiação dos pecados do reino de Judá (Ezequiel 4). Além disso, todo o tempo que durou essa dupla expiação, Ezequiel comeu caca passada no pão, no seu café da manhã. Foi Jeová em pessoa quem lhe tinha ordenado essa mortificação: «Na presença dos filhos de Israel, vendo-o eles, comerás cada manhã excrementos de homem estendidos sobre bolos de cevada (na Bíblia de Ostervald os bolos são cozidos “avec des excréments d’hommes”: combustível, não alimento; é Voltaire, em La Bible enfin expliquée, quem cobre com eles o pão, “couvert de merde d’homme”, e Taxil o segue; “cada manhã” é dele), que terás feito cozer.» (v. 12).
368. A caca passada no pão, café da manhã do profeta Ezequiel. Contudo, como esse alimento enojasse o profeta, Deus consentiu numa alteração: «Permito-te o esterco de boi, em lugar da merda de homem, e cozerás o teu pão com esse esterco.» (v. 15). Noutra ocasião, estando numa casa e querendo ir-se embora, Ezequiel, em vez de passar pela porta, como todo o mundo, fez um buraco na parede e mudou-se por esse buraco com as suas vestes e as suas provisões (Ezequiel 12:7).
369. Ezequiel inventa um novo modo de mudança. No capítulo 37, Ezequiel narra que, passeando por um campo cheio de ossadas ressequidas, as animou fazendo-lhes um discurso.
370. O profeta Ezequiel inventa a polca dos ossos de mortos. Mas, de todas as passagens de Ezequiel, a que mais murmúrios suscitou entre os críticos, e a que mais embaraçou os teólogos, é o apólogo de Oolá e Oolibá, as duas irmãs prostitutas. Sob pretexto de estigmatizar a falta de fé de Israel e a indiferença religiosa de Judá em certas épocas, Ezequiel faz Jeová falar nos termos da mais nojenta obscenidade: «O meu coração desprendeu-se de Oolibá, como se tinha desprendido da sua irmã Oolá; pois ela multiplicou os seus adultérios, até evocar a lembrança da sua mocidade, em que se prostituía no Egito; e apegou-se de preferência aos devassos cujo membro é grosso como o dos jumentos e cuja ejaculação é poderosa como a dos cavalos (a Bíblia de Ostervald vela o versículo com “chair”, carne, e “force”, força; Voltaire já o diz às claras no artigo “Ezequiel” do seu Dicionário filosófico, e Taxil o segue: é esse, de fato, o sentido do hebraico).» (Ezequiel 23:18-20). Eis as vergonhosas comparações que se encontram na Bíblia, sob pretexto de apólogo, cujo sentido místico, no dizer dos sacerdotes, é preciso admirar. Misticismo? Que zombaria! Para exprimir que os dois reinos de Israel e de Judá tinham sido faltos de piedade para com [761] Jeová, era, pois, necessário escrever tais porcarias?... Outro profeta que se deleita nas imundícies é Oseias, cujos relatos se referem a fatos vividos, e que, embora afirme ter visões de Jeová, as completa com atos bastante repugnantes. Esse Oseias, nascido entre os samaritanos, apegou-se, não obstante, ao culto de Jerusalém. A Bíblia cita-o como um modelo de obediência a Deus; mas que estranhas ordens Deus lhe dá!... «Quando o Eterno começou a falar a Oseias, disse-lhe: Toma por mulher uma prostituta, e fornica com ela (a Bíblia de Ostervald traz “prends-toi une femme débauchée, et aie d’elle des enfants de prostitution”, e Voltaire “prends une femme de fornication”: a ordem expressa de fornicar é de Taxil), de maneira a ter dela filhos de prostituta.» (Oseias 1:2) Assim se justifica o nosso homem por ter desposado uma mulher de má vida. A crer neste profeta, Deus mandou-lhe mais tarde deitar-se com a mulher de um dos seus amigos, mas com a condição, todavia, de que ela já tivesse enganado o marido: «O Eterno me disse: Vai outra vez amar uma mulher amada do seu esposo, mas que se entregou ao adultério; pois assim ama Jeová os filhos de Israel, os quais, no entanto, honram outros deuses e se regozijam em beber frascos de vinho. Para obedecer a Deus, entrei, pois, nessa mulher (a Bíblia de Ostervald traz “Je m’acquis donc cette femme-là”, “Adquiri, pois, para mim aquela mulher”; Voltaire, em La Bible enfin expliquée, escreve, segundo a Vulgata, “Il la creusa”, cavou-a; Taxil diz às claras o que a palavra dá a entender, e “Para obedecer a Deus” é dele), depois de lhe ter dado quinze peças de prata e um alqueire e meio de cevada. E disse a essa mulher: Habitaremos juntos durante vários dias; não te deitarás com nenhum outro senão comigo; e prometo-te ser-te fiel.» (Oseias 3:1-3). Mas que conclusão tirar das passagens deste gênero, tão multiplicadas na Bíblia, senão que o povo de Deus foi um povo de luxuriosos, que não recuava diante de nenhuma impudicícia, e ao mesmo tempo um povo de esplêndidos ébrios, se devemos crer nestas palavras de Joel, outro profeta sagrado: «Ébrios, despertai e chorai, e vós todos que bebeis o vinho, uivai por causa desse licor que sai da vindima; pois vou doravante privar dele a vossa boca.» (Joel 1:5) O livro de Ester entra na categoria das obras escritas indubitavelmente para tratar as feridas do amor-próprio judeu. Vimos que Daniel teve o descaramento de escrever que tinha sido o primeiro-ministro de Dario, a quem dava [762] por pai um pretenso Assuero; algum outro levita, de um topete não menos formidável, teve o descaramento de escrever a história desse Assuero, desse mito, de fazer dele um monarca, cujo reino, tendo por capital Susã, compreendia cento e vinte e sete províncias e se estendia da Índia à Etiópia, e de fazê-lo desposar uma judia. Segundo a Bíblia, pois, no terceiro ano do seu reinado, esse Assuero, desconhecido dos historiadores, deu um incomparável festim, que durou cento e oitenta dias [763] (Ester 1:4). Pelo fim da refeição, o monarca convidou todo o povo de Susã durante sete dias, desde o mais rico até o mais pobre (Ester 1:5). Ora, no sétimo dia do banquete popular, o rei, estando mais alegre que de costume, por causa do vinho que tinha bebido, ordenou aos seus eunucos «que trouxessem Vasti, a rainha, diante dele, toda nua (a Bíblia de Ostervald traz apenas “avec la couronne royale”, “com a coroa régia”; a nudez vem de uma glosa de Voltaire em La Bible enfin expliquée, “toute nue suivant le texte chaldéen”, nua segundo o texto caldeu, e Taxil a faz entrar na citação), com a coroa régia, para fazer ver a sua formosura aos senhores e ao povo; pois era formosa.» (v. 11) Mas a rainha Vasti recusou. O rei, transportado de furor, consultou sete sábios; em consequência disso, Vasti foi [764] repudiada, e por um édito o seu diadema foi prometido à mais bonita donzela que agradasse ao rei. Sob a guarda de Hegai, eunuco-chefe, reuniram assim um grande número de moças; cada uma, na sua vez, devia passar uma noite à experiência no leito de Sua Majestade. «Ora, havia em Susã um judeu chamado Mardoqueu, filho de Jair, da tribo de Benjamim, que tinha sido transportado de Jerusalém com os prisioneiros que Nabucodonosor levou, quando capturou Jeconias. Mardoqueu criava a sua jovem sobrinha Hadassa, órfã de pai e de mãe; tratava-a como sua própria filha, e chamou-a Ester. Com esse nome a fez entrar no serralho de Assuero; pois era muito formosa. Ester, seguindo a recomendação do seu tio, não declarou que era judia. E ela foi das que agradaram ao rei, logo à primeira vista; pelo que o rei lhe mandou fazer tudo o que era preciso para a preparar, até que chegasse a sua vez de se deitar no leito régio. Toda moça destinada a entrar no leito de Assuero devia, durante seis meses, esfregar-se com óleo de mirra, e, durante outros seis meses, com plantas aromáticas. Então, era entregue nas mãos do rei, depois de ter recebido tudo o que pedia. Entrava no palácio à tarde, e, pela manhã, voltava para o segundo serralho, a sua nova morada, sob a condução do príncipe eunuco Saasgaz, guarda das concubinas; mas, desde então, não voltava mais ao palácio de Assuero, a menos que o rei desejasse de novo deitar-se com ela e que ela fosse chamada pelo nome. Quando chegou a vez de Ester, ela não pediu senão o que Hegai lhe aconselhou pedir. Assim, foi definitivamente levada a Assuero, ao seu palácio régio, no décimo mês do sétimo ano do seu reinado. E o rei amou Ester mais do que todas as outras donzelas que tinha experimentado antes (a Bíblia de Ostervald traz “plus que toutes les autres femmes… plus que toutes les autres vierges”, “mais do que todas as outras mulheres… mais do que todas as outras virgens”; o experimentar é de Taxil, como a “noite à experiência” de mais acima); ela ganhou as suas boas graças e soube ser mais agradável do que todas; pôs-lhe, pois, o diadema na cabeça e proclamou-a rainha em lugar de Vasti.» (Ester 2:5-17).
371. Assuero repudia Vasti e desposa Ester. Algum tempo depois, Assuero teve por primeiro-ministro Hamã, filho de Hamedata, da raça de Agague. Ora, Hamã, muito orgulhoso, queria que todo o mundo se ajoelhasse diante dele; só Mardoqueu ousou resistir a essa ordem. Furioso, [765] o ministro obteve do rei um édito que ordenava o massacre de todos os judeus; apesar de todo o seu espírito sutil, Hamã não tinha encontrado outro meio de atingir Mardoqueu. Mas, enquanto se expedia o édito de morte a todos os governos das províncias, Mardoqueu avisou Ester, e esta foi ter com o rei, sem esperar ser chamada; o que era muito grave. Quem quer que se aproximasse do rei, sem ter sido convocado, estava por esse fato condenado à morte, a menos que o rei lhe estendesse o seu cetro de ouro em sinal de perdão da sua temeridade. Ester arriscou o lance; Assuero, espantado, mas logo encantado, estendeu o seu cetro à amável rainha, e perguntou-lhe o que ela desejava, oferecendo-lhe até a metade do seu reino. Ester pediu ao rei que tivesse a bondade de vir jantar em casa dela, fazendo-se acompanhar de Hamã.
372. Orgulho de Hamã, e bela atitude de Mardoqueu. O jantar realizou-se, e Assuero, muito intrigado, reiterou, à sobremesa, a sua oferta de partilha do reino. Ester declinou-a, mas pediu ao seu régio esposo que lhe fizesse de novo a honra de jantar em casa dela, no dia seguinte, ainda com Hamã. Este ficou tão ufano de ser honrado a esse ponto pela rainha, que se vangloriou disso diante de Zeres, sua mulher, e de todos os seus amigos; mas, como a independência de Mardoqueu, não obstante, o mortificava mais do que nunca, mandou fazer uma forca de cinquenta côvados de altura, prometendo firmemente a si mesmo que nela pendurariam o detestado judeu, cujo parentesco com a rainha ignorava (Ester 3, 4, 5). Enquanto isso, Assuero, não podendo dormir nessa noite, mandou que lhe lessem, para se distrair, os anais do seu reinado; teve assim ocasião de saber que dois dos seus eunucos, chamados Bigtã e Teres, tinham formado, num tempo já bastante distante, o projeto de assassiná-lo, mas que essa conjura tinha sido revelada às autoridades por um certo Mardoqueu, que assim tinha preservado a sua régia existência. Assuero perguntou que recompensa esse Mardoqueu tinha recebido. Nenhuma, responderam-lhe. Por isso, logo de manhã, quando Hamã se apresentou em casa do soberano, este lhe disse: Hamã, aconselha-me; que se deveria fazer a um homem que o rei quisesse honrar de uma maneira inteiramente extraordinária? Hamã, imaginando que se tratava dele, respondeu: Rei, é preciso revestir esse homem do vosso manto régio, pôr-lhe a vossa coroa, fazê-lo montar no vosso cavalo; [766] é preciso em seguida que esse homem seja passeado assim pelas ruas da vossa capital, sendo o cavalo seguro pela rédea por um dos maiores senhores do reino, o qual gritará ao povo: Eis o homem que o rei quer que se honre para sempre no seu reino! Então o rei lhe disse: Tens razão; ora, pois, vai ter com um certo Mardoqueu, e passeia-o por toda a cidade como acabas de dizer. Hamã teve de obedecer. Imagine-se se o fez a contragosto! (Ester 6). [767] À noite, a rainha Ester deu o seu segundo jantar a Assuero, acompanhado de Hamã; mas o ministro já não estava tão garboso como na véspera. Pela terceira vez, Assuero ofereceu a Ester conceder-lhe tudo o que ela desejasse, ainda que fosse a metade do seu reino. A rainha respondeu-lhe: Ó rei, concede-me que eu viva e que os da minha raça não sejam exterminados!
373. Ester pede a Assuero que venha jantar em casa dela com Hamã. Assuero, que tinha desposado Ester sem saber de que raça ela era, ficou então muito perplexo. Que significa isto? [768] pensou ele. E quando a rainha lhe afirmou que um inimigo da sua raça tinha maquinado um extermínio geral e que por isso ela implorava a soberana clemência, Assuero, não entendendo nada, exclamou: Quem é e onde está esse homem que teve a audácia de maquinar o extermínio da raça à qual pertence a rainha Ester, que me é tão querida? Ester respondeu: Esse inimigo, o opressor da minha raça, é este mau Hamã, aqui presente.
375. Hamã é acusado pela rainha de ter querido a sua morte. Turbação de Hamã, grande cólera do rei; entrada de um eunuco, que vem dizer que uma alta forca destinada a Mardoqueu foi levantada por ordem do ministro.
374. Mardoqueu é conduzido em triunfo pelo próprio Hamã. Conclusão: Assuero ordena que Hamã seja enforcado na sua forca; a ordem régia é logo executada, e Mardoqueu é nomeado primeiro-ministro. (Ester 7, 8)
376. Enforcamento de Hamã na forca que ele destinava a Mardoqueu. Com o consentimento do rei, Ester e Mardoqueu fizeram publicar que os judeus, cujo massacre tinha sido anunciado por Hamã para o décimo terceiro dia do mês de Adar, teriam o direito, nesse dia e no seguinte, de massacrar quem quer que os tivesse maltratado desde o começo do seu cativeiro. Oitocentas pessoas foram assim degoladas em Susã, e setenta e cinco mil nas outras cidades do reino. No décimo quinto dia de Adar, os israelitas banquetearam alegremente por toda parte. Ester fez um édito que declarava que para o futuro os judeus celebrariam cada ano a memória desses acontecimentos (Ester 9). São as festas de Purim, que ainda hoje são observadas pelos israelitas: um dia de jejum, em lembrança dos transes e das orações do mito Ester, e dois dias de festejos, em lembrança dos pretensos massacres. Tal é o conto de Ester, do qual os sacerdotes fizeram uma história sagrada, na qual é preciso ter fé, apesar das suas gritantes inverossimilhanças. Uma santa lenda começa sempre por uma impudicícia: se a rainha Vasti foi repudiada por não ter querido aparecer toda nua diante dos senhores e dos súditos de Assuero, fica subentendido que a bela Ester, ao pôr-se no número das candidatas à sucessão de Vasti, estava disposta a dobrar-se ao capricho do rei. Os críticos dizem também que jamais o sultão dos turcos, nem o de Marrocos, nem o xá da Pérsia, nem o Grão-Mogol, nem o imperador da China recebe uma moça no seu serralho sem que lhe tragam a genealogia e certificados do lugar de onde ela foi [769] tomada; não há um cavalo árabe nas cavalariças do Grão-Senhor (fr. “le Grand Seigneur”, título: o sultão otomano, assim chamado na Europa) cuja genealogia não esteja nas mãos do estribeiro-mor: como, pois, Assuero não teria sido informado da pátria, da família e da religião de uma moça que desposava solenemente e proclamava rainha?... Quanto a esse Hamã, que quer mandar massacrar toda uma nação porque um quidam dessa nação se recusa a prostrar-se diante dele, ao passo que os outros judeus que ele vota a essa degola lhe prestam essa honra que ele deseja, é preciso confessar que jamais uma loucura tão ridícula e tão horrível entrou na cabeça de ninguém. Além disso, caso se admita, segundo a Bíblia, que Ester conseguiu tornar-se rainha e guardar a coroa escondendo que era judia, a glória dessa elevação fica com isso singularmente diminuída do ponto de vista do amor-próprio nacional; e, de mais a mais, não se vê como Assuero pode julgar Hamã culpado de ter querido mandar degolar a sua querida Ester na qualidade de judia, já que precisamente ninguém sabe a que raça ela pertence!... Por fim, a crueldade execrável da doce Ester, ao terminar o conto, acrescenta o odioso ao ridículo. «Não ignoramos, diz Voltaire, que a fábula de Ester tem um lado sedutor: uma cativa feita rainha, e que salva da morte todos os seus compatriotas, é um assunto de romance e de tragédia. Mas como ele é estragado pelas contradições e pelos absurdos de que transborda! como é desonrado pela barbárie de Ester, tão contrária aos costumes do seu sexo como à verossimilhança!» Com Esdras e Neemias, chegamos à libertação do povo de Deus. Segundo a cronologia fantasiosa da Bíblia, os judeus tiveram, pois, um grande abrandamento da sua desgraça sob o reinado de Assuero, pai de Dario — e não esqueçamos que Dario foi filho de Histaspes, senhor persa, que nunca reinou em parte alguma — e sob o reinado de Dario, que tomou por primeiro-ministro o judeu Daniel, como Assuero tinha tomado o judeu Mardoqueu. Ora, a Bíblia, já o vimos, coloca o reinado de Ciro depois do de Dario, quando se consulta o livro do profeta Daniel; mas, logo que se abre o livro do profeta Esdras, Ciro é seguido por Assuero, depois por Artaxerxes, depois por Dario (Esdras 7:5-7). Esta nova ordem de sucessão não é mais conforme [770] à história do que a outra; que galimatias! que trapalhada! Por cima do negócio, Esdras e Neemias, que são os dois profetas em que os sacerdotes se apoiam para fixar as circunstâncias do regresso a Jerusalém, nem sequer concordam entre si. Segundo Esdras, foi Ciro quem, logo no primeiro ano do seu reinado, autorizou os filhos de Israel a voltar livremente à Judeia, e declarou num édito que Jeová lhe tinha ordenado mandar reconstruir o seu templo em Jerusalém; [771] os judeus voltam, pois, à sua pátria, sob a condução de Zorobabel; infelizmente, a construção é interrompida durante os reinados de Assuero e de Artaxerxes, por causa de dificuldades levantadas pelos diversos povos que se tinham estabelecido na sua terra durante a sua ausência; enfim essas hostilidades cessaram pouco depois da ascensão de Dario ao trono e o templo foi acabado no sexto ano do seu reinado. Segundo Neemias, não foi sob Ciro, mas sob Artaxerxes, no vigésimo ano [772] do seu reinado, que os judeus foram autorizados a voltar a Jerusalém e a reerguer a cidade das suas ruínas, estando Zorobabel à frente do povo enfim libertado; as dificuldades levantadas pelos povos que ocupam o seu território são superadas vitoriosamente pelos judeus, que trabalham com a colher de pedreiro numa mão e a espada na outra; por fim, esse autor sagrado fala de uma viagem que fez a Babilônia, no momento em que se acabava a reconstrução do templo, no trigésimo segundo ano do reinado de Artaxerxes (Neemias 13:6). Ora, Esdras atesta no seu livro que Neemias acompanhava Zorobabel por ocasião do regresso à Judeia, sob o reinado de Ciro, e alega que houve um segundo repatriamento dos judeus sob Artaxerxes, mas no sétimo ano do seu reinado, e não no vigésimo, e afirma que foi ele, Esdras, quem conduzia desta vez os seus compatriotas. Deslindai, pois, a verdade no meio destas contradições flagrantes!... Depois dos livros de Esdras, de Neemias e de Ester, os sacerdotes colocam na Bíblia um livro de Jó, que conta uma história cuja data não é indicada em parte alguma. Essa história pode resumir-se assim: — Na terra de Uz (fr. “Huts”, nome: a forma da Bíblia de Ostervald; a Almeida diz “Uz”) (?), vivia um homem imensamente rico, fiel servidor de Deus. Ora, aconteceu um dia, no reino eterno onde estão os anjos, que Deus disse a Satanás, que estava entre eles: Donde vens tu? E Satanás respondeu a Jeová: Acabo de passear pela terra, corri por ela aqui e ali. Então Deus tornou: Se assim é, decerto encontraste o meu servo Jó, que não tem igual no mundo em piedade.
377. Jó, imensamente rico, é o mais feliz dos homens. E Satanás replicou: Se ele é piedoso, é porque tu o cumulaste de bens; mas tira-lhe as suas riquezas, e verás que maldições ele proferirá! Jeová não quis causar pessoalmente aflição alguma ao seu fiel servidor; por outro lado, autorizou Satanás a persegui-lo tanto quanto lhe aprouvesse. Podes fazer-lhe sofrer tudo, exceto a morte, disse ele ao anjo malicioso. Messire Satanás não deixou de usar da permissão. Primeiro, uma tribo de árabes rouba a Jó as suas 500 juntas de bois e as suas 500 jumentas; o raio cai sobre os seus rebanhos (7.000 ovelhas) e os aniquila, juntamente com os seus pastores; uns cavaleiros caldeus tomam-lhe os seus 3.000 camelos e [773] passam os seus guardas ao fio da espada; por fim, um vento furioso, que soprava do deserto, derruba a casa onde os seus sete filhos e as suas três filhas estavam bebendo, e os sepulta sob as ruínas. Jó fica sabendo de todas essas desgraças de enfiada; mas, como tem bom gênio, põe-se de joelhos e exclama: «Nu saí do ventre de minha mãe; que importa que eu já não tenha nada? Deus tudo me tinha dado, Deus tudo me retomou; seja bendito o seu santo nome!»
378. Jó torna-se de repente o homem mais pobre do mundo. Mas Satanás não se tem por vencido. O infeliz Jó vê-se em breve coberto de uma chaga hedionda, que se espalha desde a cabeça até a planta dos pés. Sentado sobre um monturo, tira com os cacos de um pote quebrado o humor fétido que escorre das suas úlceras. A sua própria mulher vem invectivá-lo; mas Jó responde ainda com voz resignada: «De Deus temos tudo; se dele recebemos os bens, por que não receberíamos dele os males?» Três dos seus amigos, Elifaz, Bildade e Zofar, informados dos seus infortúnios, vieram vê-lo; «e assentaram-se na terra com ele durante sete dias e sete noites, sem lhe dizer palavra alguma; porque viam que a sua dor era muito grande».
379. Paciência inalterável de Jó no meio das dores. De repente, Jó rompe em queixas violentas sobre as suas aflições; amaldiçoa o dia do seu nascimento. «Por que não morri eu ao sair do ventre de minha mãe! ou por que não fui como um aborto?» E chama a morte a grandes gritos. Essas queixas formam os 26 versículos do capítulo 3; mas, como estão em contradição com o assunto principal do livro, nunca se fala delas nos manuais de história sagrada. Com efeito, bastaria que o livro parasse aí; Satanás, que é representado como tendo feito uma espécie de aposta com Jeová, é o ganhador, logo que Jó perde a paciência e censura a Deus por tê-lo feito vir ao mundo e por não o retirar dele agora. Elifaz, Bildade e Zofar metem-se então a sermonear Jó; humilham-no declarando-lhe que as adversidades só caem sobre os maus. Jó toma Deus por testemunha da sua inocência e protesta que é injustamente oprimido. Este diálogo entre Jó e os seus amigos dura vinte e nove capítulos. De repente, no capítulo 32, surge um novo interlocutor, chamado Eliú, mais jovem que os outros, o qual toma a palavra não para acusar Jó de ter merecido [774] pelos seus crimes os castigos severos que Jeová lhe infligiu, mas para lhe fazer notar que mostrou orgulho demais ao protestar a sua inocência, porque, diz ele, nenhum mortal pode gabar-se de penetrar nos juízos de Deus e de ter permanecido sempre perfeitamente puro aos seus olhos. Depois, o próprio Jeová chega num redemoinho e, após ter reprovado a presunção do jovem Eliú, recorda alguns dos prodígios que mostram o seu poderio. Então, [775] Jó reconhece que saiu dos limites que lhe deviam impor a sua fraqueza e a sua ignorância, e Deus, satisfeito com a sua submissão, cura-o dos seus males e restitui-lhe em dobro os bens que ele tinha perdido.
380. Deus recompensa Jó restituindo-lhe os seus bens. No seu discurso, Jeová cita, em testemunho do seu poder, dois animais extraordinários, o Beemote e o Leviatã, cuja descrição fantástica ocupa dois capítulos. Quanto a Satanás, já não se fala dele. O último capítulo (42) informa-nos que Jó teve mais [776] sete filhos e três filhas e que viveu cento e quarenta anos depois dessa terrível provação da sua vida. Como se vê, esse livro de Jó não oferece um interesse muito palpitante. Os críticos apontam nele esta singularidade: Satanás, de quem se fala pela primeira vez, indo e vindo no céu entre os anjos bons e apostando que o velho Jó cometerá o grande pecado de proferir maldições, se for acabrunhado de miséria e de doença; e Deus aceitando a aposta, na esperança de que o seu fiel servidor seja paciente até o fim. Eis, pois, Jeová que ignora o futuro e que até se engana nas suas previsões, já que Jó se deixa levar a amaldiçoar. Vimos que a Bíblia conta quatro profetas maiores, pretensos autores de livros; dá também alguns livros supostamente escritos por profetas menores, em número de doze. Chamam-se: Oseias (de quem reproduzimos um curto extrato), Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias. Sem contradita, Jonas é o único que merece ser citado; «a história dos doze profetas menores, diz o beneditino Calmet, não nos fornece nada que se aproxime tanto do maravilhoso como a vida de Jonas». Era um galileu, da tribo de Zebulom. Os comentadores situam-no sob o reinado de Jeroboão II, rei de Israel; por conseguinte, tinha nascido entre os hereges. Um dia, recebeu de Jeová a ordem de ir pregar aos idólatras habitantes de Nínive. É o único, aliás, que teve uma tal missão. Em que língua pregou ele? pergunta Voltaire, que faz observar ainda que havia quatrocentas léguas da sua pátria a Nínive. — É de crer que Jonas não entreviu, para a sua pregação, senão um sucesso de maçãs cozidas (fr. “un succès de pommes cuites”, locução: um fracasso completo; outrora atiravam-se maçãs cozidas aos maus atores); porque, em vez de ir a Nínive, safou-se prestamente para o lado oposto, desceu a Jope, porto de mar, e ali embarcou, depois de ter pago a sua passagem, num navio que levantava âncora para Társis.
381. Jonas, enviado por Deus a Nínive, safa-se para Társis. Uma vez no mar, sobrevém uma tempestade horrível; coisa estranha, essa tempestade adormece Jonas. Os marinheiros, tomados de pavor, começam por lançar toda a carga à água; mas o navio, embora aliviado, é sacudido com mais força ainda. Então, o mestre-piloto desperta Jonas e o adjura a invocar [777] o seu Deus para aplacar a tormenta; Jonas não faz nada disso. Agitando-se o mar cada vez mais, os marinheiros tiram à sorte, para saber qual dos passageiros ou dos homens da tripulação é causa dessa tempestade; a sorte cai sobre Jonas; lançam-no ao mar, e a tempestade cessa no mesmo instante.
382. Tempestade no mar sobre o navio em que está Jonas. O profeta recalcitrante estava bebendo um trago, quando uma baleia do polo Norte, que flanava por acaso pelo Mediterrâneo, se apresentou a ele, abriu a goela e o engoliu.
383. Jonas, lançado à água, é engolido por uma baleia. Jonas não contava com essa nova aventura; todavia, como não havia meio de fazer de outro modo, resolveu esperar os acontecimentos, no seu estranho domicílio. A Bíblia o representa durante três dias e três noites no ventre da baleia, cantando ali um cântico bastante longo a Jeová.
384. Tristes reflexões de Jonas no interior da baleia. Este, que só quisera dar uma lição ao seu profeta, intimou ao monstruoso peixe a ordem de evacuar Jonas; o peixe obedeceu, e eis Jonas depositado numa praia. Mostra-se, nos nossos dias, o lugar onde o profeta foi cuspido fora pela baleia; mas os teólogos não estão de acordo quanto a especificar se Jonas foi vomitado ou se foi evacuado pelo lado da cauda.
385. Jonas é rejeitado pela baleia. Os críticos incrédulos dizem que este relato é uma fábula imitada das fábulas gregas. Homero, no seu livro 20, fala do monstro marinho que se lançou sobre Hércules. Lícofron conta que Hércules ficou três dias e três noites no seu ventre, que se alimentou do seu fígado depois de tê-lo posto na grelha, e que ao cabo de três dias saiu da sua prisão vitorioso. Vê-se que o conto de Hércules não é inferior ao de Jonas. Temos também, na mitologia pagã, a história de Aríon, que, lançado ao mar por marinheiros, foi salvo por uma toninha, a qual o levou no dorso até Lesbos; mas essa aventura não vale as de Jonas e de Hércules. Jonas, ao sair da baleia, dirigiu-se, pois, a Nínive, e anunciou aos habitantes, da parte de Deus, a ruína próxima da sua cidade. Segundo a Bíblia, passeou pelas ruas, gritando: «Ainda quarenta dias, e Nínive será destruída!»
386. Pregação de Jonas em Nínive. Essas simples palavras tiveram um efeito prodigioso: «Os habitantes creram logo em Jeová e vestiram-se de sacos; o rei também se levantou de sobre o seu trono, tirou a sua veste magnífica, cobriu-se de um saco e assentou-se sobre um monte de cinzas. E fez [778] publicar um édito régio que ordenava um grande jejum, não somente aos homens, mas também às bestas; e esse édito dizia: Que as bestas, bois e ovelhas, assim como os homens, sejam cobertos de sacos, e que todos clamem a Jeová, e que cada um se converta das suas iniquidades.» Convertidos, pois, todos os habitantes, Deus foi tocado pelo arrependimento deles; de sorte que a predição de Jonas não se realizou. Só muito tempo depois Nínive foi saqueada e arruinada. [779] Melindrado com a ideia de que o podiam tomar por um patranheiro, Jonas afastou-se de Nínive e refugiou-se num deserto. Fazia um calor atroz, e não havia o menor arbusto no horizonte. «E Jeová fez brotar de repente um kikajon (palavra hebraica que a Bíblia de Ostervald deixa sem tradução; a Almeida diz “aboboreira”, outras Bíblias “rícino”), que subiu por cima de Jonas e fez sombra à sua cabeça; e Jonas se alegrou com grande alegria por causa desse kikajon. Mas no dia seguinte, ao romper da alva, Jeová pôs um verme no kikajon, esse verme comeu toda a seiva, e o kikajon secou. [780] Então, ao despertar, Jonas, não estando mais protegido contra o vento abrasador do deserto, desesperou-se e queixou-se amargamente, pedindo a Deus que o fizesse morrer e dizendo: A morte me é melhor que a vida.
387. O milagre do kikajon no deserto. E Jeová apareceu e disse a Jonas: Como podes tu afligir-te assim por esse kikajon? Jonas respondeu: Sim, Senhor, tenho razão de me afligir assim, até mesmo à morte. E Jeová lhe disse ainda: Quererias que o verme tivesse poupado o kikajon, e no entanto não foste tu que o plantaste nem que o fizeste crescer; porque veio numa noite, e numa noite pereceu. E eu, por que não pouparia Nínive, esta grande cidade, na qual há mais de cento e vinte mil criaturas humanas, que não sabem discernir a sua mão direita da sua mão esquerda, e, além disso, muitas bestas?» Com este espirituoso dito divino termina o livro de Jonas (em quatro capítulos). É um pobre fim, pois o milagre do kikajon é bem pouca coisa ao lado do milagre da baleia.
388. Lição dada por Deus a Jonas. Eis-nos chegados aos últimos tempos da história do povo hebreu, antes de Cristo. O Antigo Testamento tem, como conclusão, os quatro livros dos Macabeus. Os oito primeiros versículos são consagrados a registrar a vitória de Alexandre, o Grande, sobre Dario III Codomano e a dizer que o monarca macedônio, tendo reinado sobre vários países, morreu de doença e repartiu o seu imenso reino entre os seus generais. Além disso, sabe-se que, segundo uma lenda judaica (Josefo, livro 11, cap. 8), o sumo sacerdote dos judeus, chamado Jadua, veio ao encontro do conquistador, quando este se aproximou de Jerusalém, e lhe mostrou umas pretensas predições, segundo as quais o mundo inteiro devia pertencer a Alexandre. Sensível a essa lisonja, Alexandre teria poupado Jerusalém.
389. Alexandre e o sumo sacerdote Jadua. A Judeia foi então submetida ao governo teocrático: a nação vivia numa espécie de independência, não sendo inquietada pelos reinos vizinhos e não tendo ela própria rei. Os sacerdotes governavam o povo e o administravam; o altar era simultaneamente o trono. No fundo, era absolutamente como se os judeus tivessem tido um rei, visto que pagavam ao sumo sacerdote ao mesmo tempo o dízimo e o imposto.
390. Instauração do governo teocrático. Mal se sabe quanto tempo durou esse estado [781] de independência relativa; mas consta dos livros dos Macabeus, cujo autor é desconhecido, que os judeus não tiveram por que se felicitar das suas relações com os sucessores de Alexandre. Eis em que termos amargos a Bíblia menciona essa mudança de situação: «Tendo morrido Alexandre, os seus generais guardaram o reino deles, cada um na sua região; e coroaram-se depois da sua morte, e os seus filhos depois deles, durante muitos anos, e os males foram multiplicados sobre a terra. Deles saiu uma raça muito má, a de Antíoco, o Ilustre.» (1 Macabeus 1:9-11) Com os selêucidas, dinastia grega que reinou na Síria, é certo, com efeito, que os israelitas viram reluzir os dias nefastos, ainda que o escritor sagrado se esforce por realçar, pelo relato de alguns milagres, o prestígio do povo de Deus, de novo tratado como vassalo e duramente tratado. Como todo o resto do Antigo Testamento, os livros dos Macabeus fervilham de contradições e de grosseiros erros históricos. De mais a mais, os acontecimentos são ali relatados com tal desordem que é impossível separar o verdadeiro do falso, sobretudo se alguém se propõe a seguir esses relatos, capítulo por capítulo. Voltaire teve a paciência de reunir os argumentos que os críticos apresentam contra a autenticidade e a veracidade desses últimos livros da Bíblia; por isso, para terminar, o melhor que podemos fazer é reproduzir o resumo das suas observações: «1. — Nega-se antes de tudo, escreve Voltaire, o suplício dos sete irmãos Macabeus e de sua mãe (mortos sob tortura por se terem recusado a comer carne de porco), porque dele não se faz menção no primeiro livro, que vai muito além do reinado de Antíoco Epifânio, ou o Ilustre.
394. Suplício dos sete Macabeus e de sua mãe. Matatias, pai dos Macabeus, tinha apenas cinco filhos, que se distinguiram todos na defesa da pátria. O autor do segundo livro, que conta o suplício dos Macabeus (2 Macabeus 7), não diz em que cidade Antíoco ordenou essa execução bárbara; e o teria dito, se ela tivesse sido verdadeira. Aliás, Antíoco parece inteiramente incapaz de uma ação tão cruel, tão covarde e tão inútil. Era um grandíssimo príncipe, que tinha sido educado em Roma. Foi digno da sua educação, valoroso e polido, clemente na vitória e o mais [782] afável: só se lhe censura uma familiaridade exagerada, que lhe vinha da maior parte dos grandes de Roma, cujo costume era ganhar os sufrágios do povo rebaixando-se até ele. O título de Ilustre que a Ásia lhe deu, e que a posteridade lhe conserva, é uma resposta bastante boa às injúrias que os judeus prodigalizaram à sua memória. Jerusalém estava encravada nos seus vastos estados da Síria. Os judeus revoltaram-se contra ele. Esse príncipe, vencedor [783] do Egito, voltou para puni-los; e, como a religião era o eterno pretexto de todas as sedições e das crueldades desse povo, Antíoco, cansado da sua tolerância, que os afoitava, ordenou enfim que não houvesse mais que um só culto nos seus estados, o dos deuses da Síria. Privou os rebeldes da sua religião e do seu dinheiro, duas coisas que lhes eram igualmente caras. Antíoco não tinha procedido assim no Egito, conquistado pelas suas armas; pelo contrário, tinha restituído esse [784] reino ao seu rei com uma generosidade que só tinha exemplo na grandeza de alma com que se diz que Poro foi tratado por Alexandre. Se, pois, foi mais severo com os judeus, é que eles o forçaram a isso. Os samaritanos obedeceram-lhe; mas Jerusalém desafiou-o, e daí nasceu essa guerra sangrenta, na qual Judas Macabeu e os seus quatro irmãos fizeram (no dizer da Bíblia) tão belas coisas com exércitos muito pequenos. Portanto, a história do suplício dos pretensos sete Macabeus e de sua mãe não passa de um romance. 2. — O romanesco autor começa as suas mentiras dizendo que Alexandre repartiu os seus Estados entre os seus generais em vida. Esse erro, que não precisa ser refutado, permite julgar a ciência do escritor. 3. — Quase todas as particularidades referidas no primeiro livro dos Macabeus são igualmente quiméricas. Diz que Judas Macabeu, quando fazia a guerra de caverna em caverna num canto da Judeia, quis ser o aliado dos romanos (ch. 8): «tendo sabido que havia muito longe um povo romano, o qual tinha subjugado os gálatas». Ora, essa nação dos gálatas ainda não estava sujeitada; só o foi por Cornélio Cipião. 4. — Continua, e diz que Antíoco, o Grande, de quem Antíoco Epifânio era filho, «tinha sido cativo dos romanos». É um erro evidente: foi vencido por Lúcio Cipião, cognominado o Asiático; mas não foi prisioneiro; fez a paz, retirou-se para os seus estados da Pérsia, e pagou as despesas da guerra. Vê-se aqui um autor judeu mal informado do que se passa no resto do mundo e que fala a esmo do que não sabe. 5. — O escritor dos Macabeus acrescenta que esse Antíoco, o Grande, «cedeu aos romanos as Índias, a Média e a Lídia». Isto já é forte demais. Um tal disparate é inconcebível. É pena que o autor judeu não tenha acrescentado a China e o Japão! 6. — Depois, querendo parecer informado do governo de Roma, diz «que ali se elege todos os anos um magistrado soberano, o único a quem se obedece» O ignorante nem sequer sabia que Roma tinha dois cônsules. 7. — Judas Macabeu e os seus irmãos, a crer [785] no autor, enviam uma embaixada ao senado romano; e os embaixadores, por toda arenga, falam assim: «Judas Macabeu, e os seus irmãos, e os judeus, nos enviaram a vós para fazer convosco sociedade e paz.» É mais ou menos como se um chefe de partido da república de San Marino enviasse embaixadores ao Grão-Turco para fazer aliança com ele. A resposta dos romanos, segundo a Bíblia, não é menos extraordinária. Se tivesse havido, com efeito, uma embaixada a Roma de uma república palestina bem reconhecida, se Roma tivesse feito um tratado solene com Jerusalém, Tito Lívio e os outros historiadores teriam falado disso. O orgulho judeu sempre exagerou; mas nunca foi mais ridículo. 8. — Vê-se logo depois outra fanfarronada; é o pretenso parentesco entre os judeus e os lacedemônios. O autor supõe que um rei da Lacedemônia, chamado Ário, tinha escrito ao sumo sacerdote judeu Onias terceiro, nestes termos (ch. 12): «Foi achado nas Escrituras, tocante aos espartanos e aos judeus, que são irmãos, sendo uns e outros da raça de Abraão; e, agora que o conhecemos, fazeis bem em nos escrever que estais em paz; e eis o que respondemos: As nossas vacas e os nossos carneiros, assim como os nossos campos, são vossos; ordenamos que se vos fizesse saber isto.» Não se podem tratar seriamente inépcias tão fora do senso comum. Isso lembra Arlequim, que se diz padre de Domfront; e, quando o juiz lhe prova que mentiu: «Senhor, replica Arlequim, eu julgava sê-lo.» (fr. “je croyais l’être”: a desculpa de Arlequim, impostor desmascarado, em “Arlequin empereur dans la lune”, comédia de Fatouville representada pela Comédie-Italienne, em Paris, em 1684) Não vale a pena mostrar que nunca houve rei de Esparta chamado Ário, e que, no tempo do sumo sacerdote Onias terceiro, a Lacedemônia já não tinha reis. Seria perder tempo demais mostrar que Abraão foi tão desconhecido em Esparta e em Atenas como em Roma. 9. — Ousamos acrescentar a essas puerilidades tão desprezíveis a aventura maravilhosa de Heliodoro, contada no segundo livro, no capítulo 3. Seleuco Filopátor, irmão mais velho e predecessor de Antíoco Epifânio, rei da Síria, da Pérsia, da Fenícia e da Palestina, é avisado por um judeu, intendente do templo, de que há nessa fortaleza um tesouro imenso. Seleuco, que precisava de dinheiro para as suas guerras, envia [786] Heliodoro, um dos seus oficiais, pedir esse dinheiro, como o rei da França Francisco I pediu mais tarde a grade de prata de Saint-Martin (a grade do túmulo de São Martinho, em Tours, que Francisco I mandou fundir em 1522 para pagar as suas guerras). Heliodoro vem executar a sua comissão, e entende-se com o sumo sacerdote Onias.
391. Heliodoro vem pedir dinheiro ao sumo sacerdote Onias. Enquanto conversavam no templo, vê-se descer do céu um grande cavalo que trazia um cavaleiro brilhante de ouro. O cavalo dá primeiro coices (fr. “ruades”: o coice dá-se com as patas traseiras, o que torna absurdos os pés dianteiros) «com os pés dianteiros» em Heliodoro; e dois anjos que serviam de palafreneiros ao cavalo, armados [787] cada um de um punhado de varas, açoitam Heliodoro com toda a força dos braços.
392. Terrível sova no traseiro administrada a Heliodoro por dois anjos. Onias, o sumo sacerdote, teve a caridade de rogar a Deus por ele. Os dois anjos palafreneiros cessaram de açoitar. Disseram ao oficial: Rende graças a Onias; sem as suas orações, ter-te-íamos sovado o traseiro até a morte. Depois disso, desapareceram.
393. O sumo sacerdote Onias intercede por Heliodoro. Não se diz se, depois dessa flagelação, o sumo sacerdote Onias chegou a um acordo com o seu rei Seleuco e lhe emprestou alguns deniers (antiga moeda francesa de valor ínfimo). [788] Esse milagre pareceu tanto mais disparatado aos críticos quanto nem o rei do Egito Sisaque, nem o rei da Ásia Nabucodonosor, nem Antíoco Epifânio, nem Ptolomeu Sóter, nem o grande Pompeu, nem Crasso, nem a rainha Cleópatra, nem o imperador Tito, os quais levaram todos algum dinheiro do templo judeu, foram contudo açoitados pelos anjos. É verdade que um santo monge viu a alma de Carlos Martel, que uns diabos conduziam ao inferno num barco, e que açoitavam para punir o vencedor dos sarracenos por se ter apropriado de alguma coisa do tesouro de Saint-Denis (a abadia perto de Paris onde eram sepultados os reis da França); mas esses casos acontecem raramente. 10. — Passamos por alto uma multidão de anacronismos, de enganos, de transposições, de ignorâncias, e de fábulas, que pululam nos livros dos Macabeus, para chegar à morte de Antíoco, o Ilustre, descrita no capítulo 9 do livro segundo. É um amontoado de falsidades, de absurdos e de injúrias, que dão pena. Segundo o autor, Antíoco entra em Persépolis para saquear a cidade e o templo. Sabe-se bem que essa capital, chamada Persépolis pelos gregos, tinha sido destruída por Alexandre. Os judeus, sempre isolados entre as nações, sempre ocupados apenas com os seus interesses e apenas com o seu país, bem podiam ignorar as revoluções da China e das Índias; mas podiam eles não saber que essa cidade, chamada Persépolis só pelos gregos, já não existia havia cento e sessenta anos? O seu verdadeiro nome era Sestekar. Se um judeu de Jerusalém, isto é, um asiático, tivesse escrito os Macabeus, não teria dado à morada dos reis da Pérsia um nome que figura unicamente nos livros gregos. Daí se conclui que esses últimos livros do Antigo Testamento só puderam ser escritos por um desses judeus helenistas de Alexandria, que começava a querer tornar-se orador. Mas eis outra razão para duvidar. No primeiro livro, diz-se que Antíoco Epifânio quis apoderar-se dos escudos de ouro deixados por Alexandre, o Grande, na cidade de Elimaida, no caminho de Ecbátana, que é a mesma que Ragés, e que morreu de desgosto naquela região ao saber que os Macabeus tinham resistido às suas tropas na Judeia. No segundo livro, diz-se, pelo contrário, que esse rei caiu do seu carro; que ficou tão contundido [789] na queda que a gangrena lhe tomou o corpo; que as suas carnes fervilhavam de vermes; e que então pediu perdão ao deus dos judeus. Ali está esse versículo tão conhecido, e do qual se fez tanto uso: «O celerado implorava a misericórdia do Senhor, que não havia de obter». O autor acrescenta que Antíoco prometeu a Jeová fazer-se judeu. Esse último traço basta: é como se Carlos V tivesse prometido fazer-se turco. Não diremos senão uma palavra do terceiro livro dos Macabeus, e nada do quarto, unanimemente tidos por apócrifos. Eis uma historieta do terceiro; a cena se passa no Egito. O rei Ptolomeu Filopátor está zangado com os judeus, que comerciavam em grande número nos seus estados; ordena o recenseamento deles, e, segundo Fílon, compunham um milhão de cabeças. Encurrala-se esse milhão de homens no hipódromo de Alexandria. O rei promulga um édito, pelo qual serão todos entregues aos seus elefantes para serem esmagados sob os pés deles. Marcada a hora para dar esse espetáculo, Deus, que vela pelo seu povo, adormece profundamente o rei. Ptolomeu, ao despertar, adia o jogo para o dia seguinte; mas Deus tira-lhe então a memória: Ptolomeu já não se lembra de nada. Enfim, no terceiro dia, Ptolomeu, bem acordado, manda preparar os seus judeus e os seus elefantes. A peça ia ser representada, quando de repente as portas do céu se abrem: dois anjos descem por elas; dirigem os elefantes contra os soldados que os deviam conduzir; os soldados são esmagados, os judeus salvos, o rei convertido... Escrevia-se a história de um modo engraçado naquele país!» Em suma, se tomarmos nas suas grandes linhas a história bíblica dos Macabeus, ela se resume a isto: — O sacrificador Matatias, sob o reinado de Antíoco Epifânio, dá o sinal da revolta degolando um judeu que sacrificava aos deuses da Síria; os seus cinco filhos, João, Simão, Judas, Eleazar e Jônatas, também se distinguem.
395. O levita Matatias dá o sinal da revolta. A Judeia se subleva; faz-se arma de qualquer coisa. Judas Macabeu, o mais ilustre dos filhos de Matatias, põe-se à frente da insurreição e faz em pedaços os exércitos régios: mas não se contenta em ser general; sucede como sumo sacerdote a Menelau, descendente do famoso Jadua, o bajulador [790] de Alexandre. Citam-se as suas vitórias contra Apolônio nos arredores de Samaria, contra Seron em Bete-Horom, e contra três outros generais de Antíoco: Ptolomeu, Nicanor, e Górgias.
396. Grande vitória de Judas Macabeu, seu filho. Sob o reinado de Antíoco Eupátor, filho de Epifânio, Eleazar Macabeu tem menos sorte que o seu irmão Judas: no mais forte de uma batalha, ao ver nas fileiras inimigas um elefante coberto das insígnias régias, mons (palavra familiar francesa: “monsieur”, senhor, cortado ao meio; dar a um homem só metade do título é não concedê-lo por inteiro) Eleazar arremete contra o animal, imaginando que o rei está em cima dele; mas o elefante agarra [791] o nosso judeu com a tromba e o quebra em dois como se se tratasse de um simples cachimbo de quatro sous (fr. “le casse en deux comme… une simple pipe”, da locução familiar “casser sa pipe”, quebrar o cachimbo: morrer; assim Eleazar morre quebrado como um cachimbo).
397. Como um elefante foi fatal a Eleazar Macabeu. Sob Demétrio Sóter, tio e sucessor de Antíoco Eupátor, Judas Macabeu triunfa de novo sobre o exército sírio, comandado por Báquides, e, por duas vezes, sobre o que comandava Nicanor, o qual pereceu na derrota. Mas, como uma nova expedição dirigida por Báquides põe os 3.000 homens de Judas em presença de 22.000 homens, e Jeová não pensa desta vez em [792] enviar um anjo exterminador em socorro do seu povo, os macabeus apavorados debandam e deixam o seu general ser esmagado pelo inimigo. Assim acabou o célebre Judas Macabeu. Os seus dois irmãos, Jônatas e Simão, sucederam-lhe um após o outro nas suas duplas funções de sumo sacerdote e de general. Convém observar, com Voltaire, que esses Macabeus eram da raça de Levi, e que, simples sacrificadores numa pequena aldeia chamada Modin, para os lados do mar Morto, obtiveram, por uma revolução, o poderio sacerdotal, depois o régio. Não se pode, pois, deixar de constatar que esse acontecimento confundia todas essas vãs profecias que a tribo de Judá tinha sempre feito em seu favor pela boca dos seus profetas, e desmentia essa eterna supremacia da casa de Davi tantas vezes predita e tão falsa. Não havia mais ninguém da raça de Davi; pelo menos, nenhum livro judeu assinala descendente algum desse príncipe desde o cativeiro. Se os filhos do levita Matatias, chamados primeiro Macabeus e depois Asmoneus, tiveram o incensário e o cetro, foi para sua desgraça. Os seus netos macularam de crimes o altar e o trono, e não tiveram senão uma política bárbara que causou a ruína completa da sua pátria. Se tiveram no começo a autoridade pontifical, nem por isso deixaram de ser tributários dos reis da Síria. Antíoco Eupátor transigiu com eles, mas foram sempre considerados súditos. Além disso, esses santos heróis massacraram-se entre si. Simão, o último irmão de Judas Macabeu, foi assassinado, com dois dos seus filhos, pelo seu genro Ptolomeu, governador de Jericó, que queria apoderar-se do poder.
398. Simão Macabeu é assassinado pelo seu genro Ptolomeu. Hircano, filho desse sumo sacerdote Simão, e ele próprio sumo sacerdote, tentou revoltar-se contra Antíoco Sidetes. O rei da Síria sitiou-o em Jerusalém, e Jeová não o socorreu, já que se diz que Hircano aplacou o rei com dinheiro. Mas onde foi o sumo sacerdote Hircano buscar esse dinheiro? É uma dificuldade que detém a cada passo todo leitor razoável. De onde podiam vir todos esses pretensos tesouros que se reencontram sem cessar nesse templo de Jerusalém saqueado tantas vezes? Josefo tem o descaramento de dizer que Hircano mandou abrir o túmulo de Davi, e que nele achou três mil talentos. [793] Foi assim que se imaginaram tesouros nos sepulcros de Ciro, de Rustam, de Alexandre, de Carlos Magno; não faz muito tempo, um ingênuo ministro da República francesa, confiando na varinha divinatória de uma feiticeira farsante ou louca, esperava descobrir alguns nos túmulos dos nossos reis, em Saint-Denis. Seja como for, Hircano submeteu-se e obteve o perdão. Esse Hircano, aproveitando os distúrbios da Síria, tomou enfim Samaria, a eterna inimiga de Jerusalém, reconstruída depois por Herodes e chamada Sebaste. Os samaritanos retiraram-se para Siquém, que é a Nablus dos nossos dias; ficaram ainda mais perto de Jerusalém, e o ódio das duas frações do povo de Deus tornou-se por isso mais implacável. Jerusalém, Siquém, Jericó, Samaria, que fizeram tanto barulho entre nós, e que tão pouco barulho fizeram no Oriente, foram sempre pequenas cidades vizinhas, bastante pobres, cujos habitantes iam procurar fortuna longe, como os armênios, os parses, os baneanes. Flávio Josefo, ébrio de chauvinismo, não deixa de dizer que esse Hircano Macabeu foi um conquistador e um profeta, e que Deus lhe falava muitas vezes face a face. A crer em Josefo, uma prova incontestável de que esse Hircano era profeta é que, tendo dois filhos que amava, e que eram monstros de perfídia, de avareza e de crueldade, lhes predisse que, caso se empedernissem na sua perversidade, poderiam ter um mau fim. Desses dois sacripantas, um era Aristóbulo, o outro Antígono. Os judeus já tinham a vaidade de tomar nomes gregos. Deus veio ver Hircano uma noite e mostrou-lhe o retrato de outro dos seus filhos, que a princípio se chamava apenas Janeu, diminutivo de João (o que equivale a Jeannot) (diminutivo francês de Jean, João, e também o nome do bobo das farsas de feira; o batismo é de Voltaire, em La Bible enfin expliquée, e assim o futuro sumo sacerdote que tomará o grande nome de Alexandre começa como Joãozinho, o bobo), e que depois teve a presunção de acrescentar ao próprio nome o de Alexandre. «Esse, disse Jeová, terá um dia o teu lugar de sumo sacerdote.» Hircano, esse bom pai, entrevendo nessa palavra divina o anúncio de uma usurpação, apressou-se a fazer morrer o seu filho Jeannot, «com medo de que esse oráculo se cumprisse», segundo diz o historiador. Mas, aparentemente, Jeannot ou Janeu não morreu de todo, ou Deus o ressuscitou, porque logo o veremos sumo sacerdote e dono de Jerusalém. [794] Enquanto isso, é preciso ver o que aconteceu aos dois irmãos bem-amados, Aristóbulo e Antígono, filhos de Hircano, depois da morte de Hircano, seu pai. O sacerdote Aristóbulo manda assassinar o sacerdote Antígono, seu irmão, no templo, e manda estrangular a sua própria mãe numa masmorra. Desse mesmo Aristóbulo — o primeiro Macabeu que tomou o título de rei dos judeus — diz Josefo que era um príncipe muito brando. Nessa época, a Judeia estava perturbada pelas rivalidades de [795] duas seitas religiosas, que em breve se tornariam facções políticas: os fariseus, cujo nome vem de uma palavra hebraica que quer dizer «separados», porque afetavam distinguir-se do povo, e os saduceus, que tiravam o nome de Zadoque, o seu chefe; estes eram de certo modo os epicuristas judeus, atendo-se escrupulosamente à letra do Pentateuco, não admitindo a imortalidade da alma, por conseguinte nem inferno nem paraíso, e menos ainda a ressurreição, ao passo que [796] os fariseus acrescentavam à lei de Moisés a tradição oral, sobre a qual admitiam a metempsicose, e sobre essa doutrina da metempsicose enxertavam ainda toda sorte de crenças; foi assim que estabeleceram que os espíritos malignos podiam entrar nos corpos dos homens; viam possessões de demônios em todas as doenças desconhecidas. Foram os fariseus que inventaram os diabos e os exorcismos; foi um deles que fabricou o livro intitulado A Clavícula de Salomão, livro sagrado do ocultismo. Eram reverenciados como os sábios intérpretes da lei; todos se apressavam a iniciar-se nos seus mistérios; ensinavam a ressurreição e o reino dos céus. Havia uma terceira seita, a dos essênios, que viviam em comum, se aplicavam, fora do mundo, às virtudes práticas, a temperança e o trabalho, e que se acomodavam bastante bem a diversas crenças persas. Os Macabeus favoreceram primeiro os saduceus contra os fariseus; mas isso se devia sobretudo ao fato de estes últimos formarem a escola mais poderosa no Estado e procurarem intervir em todos os assuntos. Morto Aristóbulo I, seu irmão Jeannot-Alexandre ressuscita e lhe sucede; provavelmente o tinham guardado na prisão, em vez de matá-lo. Janeu desposa Salomé, isto é, a viúva de Aristóbulo, e lhe muda o nome para o de Alexandra. Sobretudo nesse tempo, os Ptolomeus, reis do Egito, e os selêucidas, reis da Síria, disputavam entre si a Palestina. Essa querela, ora violenta, ora comedida, durava desde a morte de Alexandre, o Grande. O povo judeu fortalecia-se um pouco com os desastres dos seus senhores; os sacerdotes, que governavam essa pequena nação, mudavam de partido todos os anos e vendiam-se ao mais forte. Esse Janeu Alexandre começou o seu sacerdócio pelo assassinato do irmão que ainda lhe restava, e que não ressuscitou como ele. Josefo não nos diz o nome desse irmão, e pouco importa esse nome no catálogo de tantos crimes. Janeu manteve-se no seu governo graças às perturbações da Ásia. Esse governo era ao mesmo tempo sacerdotal, democrático, aristocrático: uma anarquia completa. Josefo relata que um dia o povo, no templo, atirou maçãs e limões à cabeça do seu sumo sacerdote Janeu, [797] que se erigia em soberano, e que esse Alexandre mandou degolar seis mil homens do seu povo. Esse massacre foi seguido de dez anos de massacres. A quem pagavam os judeus tributo naquele tempo? Que soberano contava essa província entre os seus estados? Josefo nem sequer aflora essa questão: parece que quer fazer crer que a Judeia era uma província livre e soberana. Contudo, é certo que os reis do Egito e os da Síria a disputaram entre si, até que os romanos vieram tragá-la. Após esse Janeu, tão indigno do grande nome de Alexandre, a sua viúva Salomé, chamada Alexandra, conservou, durante nove anos, a autoridade em nome dos seus jovens filhos, ao mesmo tempo que abandonava o governo aos fariseus e tolerava as violências que eles cometiam contra os seus adversários, os saduceus. Depois, como a morte de Alexandra deixasse livre curso às rivalidades políticas e religiosas dessas duas seitas, esse reino, que não media dez léguas de extensão em sentido algum, foi dilacerado pela guerra civil, com Hircano II, o mais velho dos filhos do sumo sacerdote Janeu, à frente dos fariseus, e Aristóbulo II, o mais novo, como chefe dos saduceus; e a Judeia teve assim dois reis, em vez de um. Esses dois irmãos inimigos travaram batalha perto da vila de Jericó, não com exércitos de trezentos, de quatrocentos, de quinhentos e de seiscentos mil homens; já não se ousava então escrever tais patranhas, e até o exagerador Josefo teria tido vergonha delas; os exércitos judeus eram então de três a quatro mil soldados. Hircano foi batido, e Aristóbulo II ficou sendo o senhor. Nessa época, os romanos, sem se preocuparem muito com a sua pretensa sociedade amistosa com os Macabeus, levavam as suas armas vitoriosas à Ásia Menor, à Síria e até o monte Cáucaso. Os selêucidas já não existiam; Tigranes, rei da Armênia, sogro de Mitrídates, tinha conquistado uma parte dos seus estados. O grande Pompeu tinha vencido Tigranes; acabava de reduzir Mitrídates a dar-se a morte; fazia da Síria uma província romana. Os livros dos Macabeus não falam nem desse grande homem, nem de Lúculo, nem de Sila. Ninguém se espantará com isso. — Hircano, expulso por seu irmão Aristóbulo, tinha-se refugiado junto de um chefe de árabes, chamado Aretas. Jerusalém sempre tinha sido tão pouca coisa [798] que esse capitão de ladrões veio sitiar Aristóbulo nessa cidade. Pompeu passava então pela baixa Síria. Aristóbulo obteve a proteção de Escauro, um dos seus lugares-tenentes. Escauro ordena ao beduíno que levante o cerco e não cometa mais hostilidades nas terras dos romanos; pois, estando a Síria incorporada ao império, a Palestina também o estava. Tal é o único pacto de sociedade que a república romana tinha podido fazer com a Judeia. [799] Josefo escreve que Aristóbulo, para obter a proteção de Pompeu, lhe enviou um presente magnífico; Estrabão fala desse presente, que teria sido uma videira de ouro, mas o atribui a Alexandre Janeu, e não a Aristóbulo. Seja como for, os dois irmãos Aristóbulo e Hircano, que disputavam entre si o cargo de sumo sacerdote, vieram pleitear a sua causa diante de Pompeu durante a sua marcha. Ele ia pronunciar-se, quando Aristóbulo fugiu; o que levaria a crer que a dádiva [800] da videira de ouro não conseguira influenciar o árbitro e que o filho mais novo de Jeannot tinha desde então mais confiança nas muralhas da capital de Davi.
399. Arbitragem de Pompeu entre os últimos Macabeus. Com efeito, Pompeu foi, por sua vez, pôr cerco a Jerusalém. Sabe-se que essa cidade está numa excelente situação do ponto de vista da defesa; poderia ser uma das melhores praças do Oriente nas mãos de um engenheiro hábil; pelo menos o templo, que era a verdadeira cidadela, poderia tornar-se inexpugnável, estando edificado no cume de uma montanha escarpada, cercada de precipícios. Pompeu foi obrigado a perder quase três meses em preparar e pôr em movimento as suas máquinas de guerra; mas, logo que elas puderam manobrar, abriu brecha na fortaleza e entrou. Um filho do ditador Sila foi o primeiro a escalá-la, e o que torna esse dia ainda mais memorável é que a tomada de Jerusalém pelos romanos se deu sob o consulado de Cícero (63 a.C.). Josefo diz que foram mortos doze mil judeus no templo; nós o creríamos, se ele não tivesse sempre exagerado. Não podemos crê-lo quando acrescenta que se encontraram ali dois mil talentos de prata e que o vencedor tirou dez mil da cidade: pois, enfim, como esse templo fora tomado tantas vezes tão facilmente, tantas vezes pilhado e saqueado, era impossível que ali se guardassem dois mil talentos de prata, que fariam perto de doze milhões de francos da nossa moeda; e seria ainda mais extravagante crer que se pudesse taxar um país tão pequeno, tão esgotado e tão pobre, em dez mil talentos, perto de sessenta milhões!... Nisso não pensam os que leem sem exame e reproduzem levianamente essas fábulas imaginadas pelo orgulho hebreu. Um homem sensato encolhe os ombros quando vê que Alexandre só pôde juntar na Judeia trinta talentos para ir combater Dario, e quando vê doze mil talentos nos cofres dos judeus, além dos três mil supostamente achados no túmulo de Davi. É certo que Pompeu nada tomou para si, e que se limitou a fazer os judeus pagarem as despesas da sua expedição, que fora um acessório da sua campanha principal na Ásia Menor. Cícero louva esse desinteresse; mas Rollin (Charles Rollin, 1661-1741, historiador francês, autor de uma História romana) (História Romana, livro 16) diz que daí em diante nada saiu bem a Pompeu, por causa da curiosidade sacrílega que tivera de [801] penetrar no santuário do templo judeu. Voltaire replica a Rollin que Pompeu mal podia saber se era proibido entrar ali; que a proibição podia ser para os judeus, e não para Pompeu; que os carpinteiros, os marceneiros, os outros obreiros entravam ali quando havia algum conserto a fazer. Poder-se-ia acrescentar que outrora a presença da arca tornava sagrado esse lugar, e que essa arca divina estava perdida desde Nabucodonosor. César teria entrado, tal como Pompeu, nesse recinto de trinta pés de comprimento e teria certamente tido a mesma curiosidade de olhar lá dentro. Se, pois, Pompeu foi vencido por César na batalha de Farsália, pode ser que tenha sido por ter sido curioso em Jerusalém; mas houve sem dúvida outras razões também para essa derrota, e o gênio de César contribuiu muito para ela. Poder-se-ia ainda observar que é um sacrilégio muito maior degolar doze mil homens num templo do que entrar numa sacristia onde não havia absolutamente nada. (Voltaire, Sumário da história judaica.) De mais a mais, Pompeu, tendo capturado Aristóbulo, enviou-o cativo a Roma. Além disso, no decorrer do ano 49 (a.C.), ordenou a um descendente dos Cipiões, seu lugar-tenente na Síria, que mandasse cortar o pescoço ao filho mais velho de Aristóbulo, que tinha tomado o nome de Alexandre e o título de rei. Esse acontecimento mostra cabalmente qual era a aliança de coroa a coroa que os judeus se gabavam de ter com os romanos, e que confiança se pode depositar nos relatos dos historiadores dessa nação. Por fim, para dar a última mão a esse quadro, e para mostrar de que respeito o império romano estava penetrado para com os judeus, bastará dizer que, alguns anos depois (38), o triúnviro Marco Antônio condenou em Antioquia outro rei judeu, o segundo filho de Aristóbulo, chamado Antígono, a morrer pelo suplício dos escravos; mandou açoitá-lo e crucificá-lo. Foi então que o Senado concedeu o título de rei ao idumeu Herodes, filho de Antípatro, procurador da Judeia, que desposou Mariamne, filha de Hircano II, e reinou cerca de quarenta anos, sob a proteção de Roma, mantendo os seus súditos hebreus curvados sob o seu cetro de ferro.
400. Fim da teocracia: reinado de Herodes, o Grande. Assim acaba o Antigo Testamento. A nossa tarefa de hoje [802] está cumprida. Dentro de algum tempo, publicaremos uma nova edição da Vida de Jesus, que saiu há dezesseis anos; a nossa antiga Bíblia Divertida, que precedeu então essa crítica humorística do Novo Testamento, era um simples jogo, uma série de gracejos que acompanhavam os desopilantes desenhos do nosso amigo Frid’Rick. Naquele tempo, o clericalismo parecia definitivamente reduzido à impotência, e só nos restava ir explorar o campo dos vencidos, para saber por nós mesmos e poder dizer um dia que parte convém dar à boa-fé dos últimos defensores do dogma; queríamos ver de perto se o altar que cai em ruínas conta realmente com sacerdotes que creiam no que a sua Igreja ensina. Graças a uma mistificação levada aos limites extremos (a falsa conversão de Taxil, sustentada de 1885 a 1897, e o “paladismo”, maçonaria luciferiana que ele inventou inteiramente e cujo embuste ele próprio revelou em abril de 1897), conseguimos fazer essa curiosa experiência. Mas, antes de publicar os seus resultados, pareceu-nos necessário — com o partido clerical reerguendo a cabeça — retomar nas mãos esse álbum de desenhos cômicos do nosso antigo colaborador e refazer uma crítica geral, completa desta vez, desse monumento de asneira embrutecedora que se chama a Bíblia. Ao terminar, digamos uma palavra, que muito espantará os nossos leitores livres-pensadores, mas que é a expressão da verdade comprovada pela nossa investigação pessoal de onze anos: por mais idiota que seja a Bíblia, há sacerdotes, e até sacerdotes inteligentes, que, de boa-fé, a creem verdadeira, autêntica, e cujo espírito não é desconcertado por nenhum dos relatos mais fantásticos dos farsantes autores da Sagrada Escritura; não só esses extraordinários ingênuos creem que a baleia engoliu Jonas, mas ainda creriam que Jonas engoliu a baleia — se o divino pombo o tivesse ditado a algum suposto profeta. Conclusão: a fé religiosa é uma variedade da loucura. [803] TABELA DA CONCORDÂNCIA
CAPÍTULO 1. A criação e o paraíso terrestre. 4. Criação dos continentes e dos mares. 5. Criação das árvores e das plantas. 9. O homem passa em revista os animais. 15. Eva tentada pela serpente. 16. Desobediência de Adão e Eva. 17. Adão e Eva têm consciência da sua nudez. 18. Adão e Eva se escondem ao chamado de Deus. 19. Deus repreende Adão e Eva pelo seu pecado. 20. Adão e Eva expulsos do paraíso [804] terrestre. CAPÍTULO 2. Breve história dos primeiros homens. 23. Homicídio de Abel por Caim. 24. «Caim, que fizeste de teu irmão?». 25. O sangue da vítima ergue-se contra o assassino. 26. Caim é marcado com um sinal de reprovação. 27. Enoque, velho patriarca, é arrebatado ao céu. 28. Metusalém é pai aos cento e oitenta e sete anos. CAPÍTULO 3. Os anjos em concubinato na terra. 29. Jeová cria anjos para se distrair. 30. Lúcifer, anjo orgulhoso, quer tomar o lugar de Jeová. 31. O anjo Miguel expulsa Lúcifer do paraíso. CAPÍTULO 4. Afogamento geral da humanidade. 34. Projeto de um dilúvio e de uma arca. 36. Noé faz entrar na arca um casal de animais de cada espécie. 37. As eclusas do céu são abertas. 38. A pomba. Inquietação dos habitantes da arca. 39. A arca se detém no cume do monte Ararate. 41. Noé planta a vinha e inventa o vinho. 42. Embriaguez do patriarca Noé. 43. Cam e Canaã são amaldiçoados. 44. Os efeitos de uma maldição. 46. Construção da torre de Babel. 47. A confusão das [805] línguas. CAPÍTULO 5. Feliz vida de um patriarca bem-amado. 48. Abraão procura a terra de Canaã. 49. Sacrifício de Abraão no deserto. 50. Abraão apresenta a sua mulher ao rei do Egito. 51. O rei do Egito cumula Abraão de presentes. 52. Separação de Abraão e de Ló. 53. Abraão liberta Ló prisioneiro. 54. Rivalidade de Sara e de Agar. 55. Agar e o jovem Ismael expulsos por Sara. 56. Deus institui a circuncisão. 57. Os anjos anunciam a Sara que terá um filho. 58. Ló protege os anjos contra os habitantes de Sodoma. 60. A mulher de Ló é mudada em estátua de sal. 62. Deus ordena a Abraão que lhe sacrifique o seu filho. CAPÍTULO 6. Uma família votada à multiplicação. 65. Eliézer em casa de Betuel e Labão. 66. Eliézer traz Rebeca ao jovem Isaque. 67. Infância de Esaú e de Jacó. 68. Esaú cede a Jacó o seu direito de primogenitura. 69. Jacó se faz abençoar por Isaque. 72. Jacó pede a Labão a mão de sua filha Raquel. 73. Jacó entra ao serviço de Labão. 74. Primeiro casamento de Jacó. 75. Jacó percebe que é Leia quem lhe foi dada em casamento. 76. Jacó volta uma segunda vez ao serviço de Labão. 77. Jacó desposa enfim Raquel. 78. Partida de Jacó; pesares de Labão. 79. Reconciliação de Esaú e de Jacó. 80. Jacó, abençoado por Deus, tem uma numerosa família. 81. [806] José, desde a juventude, tem o dom da adivinhação. 82. José é posto num poço pelos seus irmãos. 83. Mercadores ismaelitas propõem comprar José. 84. José, tirado do poço, é vendido. 85. Fazem Jacó crer que José está morto. 86. Jacó desesperado rasga as suas vestes. 87. José comprado como escravo por Potifar. 89. José acusado de atentado ao pudor de Mme Potifar. 91. José explica os sonhos dos prisioneiros. 93. José prediz o futuro ao Faraó. 94. José, primeiro-ministro, impede a fome. 95. José faz bom acolhimento aos seus irmãos, por causa de Benjamim. 96. A taça escondida na mala de Benjamim. 97. Benjamim e os seus irmãos são presos por roubo. 98. José se dá a conhecer aos seus irmãos. 100. Magníficas exéquias de Jacó. CAPÍTULO 7. Moisés e a viagem de quarenta anos. 101. Trabalhos penosos dos israelitas. 102. Édito que ordena a morte dos filhos varões. 104. O berço de Moisés encontrado pela filha do rei. 105. Infância de Moisés na corte do Faraó. 107. O cajado de Moisés mudado em serpente. 108. Pragas do Egito: a chuva de rãs. 110. Os israelitas obtêm o direito de deixar o Egito. 111. Os israelitas passam o mar Vermelho a pé enxuto. 112. O exército egípcio é tragado. 113. Marcha dos israelitas no deserto. 114. O céu alimenta o povo de Deus. 115. Moisés obtém do céu grandes vitórias. 116. Invenção do sacerdócio: Arão primeiro sacerdote. 119. Os frutos da terra prometida. 120. Moisés institui Josué por seu sucessor. CAPÍTULO 8. As façanhas de Josué e de Gideão. 121. Josué proclamado chefe dos hebreus. 122. Dois espiões são enviados a Jericó. 123. A polícia de Jericó em casa de Raabe. 124. Raabe faz um pacto com os dois espiões. 126. Primeira volta dos hebreus ao redor de Jericó. 127. Segundo passeio com música ao redor de Jericó. 128. Os hebreus desesperam de tomar a cidade. 129. As muralhas de Jericó desabam enfim. 130. Massacre dos habitantes de Jericó, exceto Raabe. 131. Cinco reis conspiram contra os hebreus. 132. Deus combate pelo seu povo fazendo chover pedras sobre o exército inimigo. 134. Partilha da terra de Canaã entre as doze tribos. 136. Os israelitas põem-se a adorar os ídolos. 137. Os israelitas, subjugados, levam o tributo ao rei Eglom. 139. A profetisa Débora chama os hebreus à liberdade. 140. Jael, inspirada por Deus, mata o general Sísera. 141. Os maus midianitas perseguem os filhos de Israel. 142. O jovem Gideão faz-se notar pela sua fraqueza muscular. 143. Um anjo transforma Gideão em homem forte. 144. Deus explica a Gideão que tem desígnios sobre ele. 146. Gideão derruba os ídolos. 148. Gideão reúne os israelitas e lhes explica o seu plano. 149. Os midianitas são surpreendidos no seu acampamento. 151. Abimeleque degola sessenta e nove dos seus irmãos. 152. Incêndio da torre de Siquém. 153. Morte [808] de Abimeleque. CAPÍTULO 9. Os juízes Jefté e Sansão. 156. Jefté tem uma imensa afeição por sua filha. 157. Jefté, partindo para a guerra, faz um voto. 158. Esborrachada completa dos amonitas. 159. A filha de Jefté vem ao encontro de seu pai vitorioso. 160. Jefté sacrifica sua filha ao Eterno. 161. Sansão, menino, mata um leão. 162. Sansão espeta trinta filisteus. 164. Os israelitas bloqueados pelos filisteus recriminam contra Sansão. 165. Sansão faz-se entregar aos filisteus. 168. Sansão leva as portas de Gaza. 169. Dalila e Sansão travam conhecimento. 170. Os filisteus rapam Sansão durante o seu sono. 173. Sansão morre vingando-se. CAPÍTULO 10. Suave idílio da bela Rute. 176. Miséria de Rute respigando no campo do velho Boaz. 177. Bondades de Boaz para com Rute. 178. Conselhos de Noemi à sua nora. 180. Boaz desposa Rute com grande solenidade. CAPÍTULO 11. História de Samuel antes da realeza 182. A estéril Ana consulta o eremita de Efraim. 183. [809] Partida de Elcana para Siló. 184. Ana, a Estéril, implora o Eterno. 185. O sumo sacerdote Eli admite Ana a ver de perto o Santo dos Santos. 186. Ana é reconduzida ao seu esposo pelos dois filhos de Eli. 187. Afeição do sumo sacerdote pelo filho de Ana. 188. O menino Samuel é consagrado ao Senhor. 189. Impiedade dos dois filhos do sumo sacerdote. 190. O jovem Samuel acordado à noite por uma voz misteriosa. 191. Samuel vai despertar o sumo sacerdote. 193. Morte dos filhos de Eli e tomada da arca. 194. Eli cai da sua cadeira à notícia da morte de seus filhos. 195. O ídolo de Dagom é derrubado. 196. Retorno maravilhoso da arca. 197. Numerosos benefícios de Samuel. CAPÍTULO 12. Saul, primeiro rei, e seu rival Davi 198. Samuel oferece a coroa a Saul. 199. O espírito de Deus se apodera de Saul. 201. Os israelitas choram pela sorte dos habitantes de Jabes. 202. Saul nomeia Samuel seu primeiro-ministro. 203. Jabes é livrada por Saul. 204. Samuel dá a sua demissão. 205. Sinais de desgraças iminentes. 206. Saul usurpa as funções sacerdotais. 207. Jônatas cai de improviso sobre os filisteus. 208. Jônatas, faminto, encontra uma colmeia. 210. Saul condena o seu filho à morte. 212. Saul traz de volta os amalequitas prisioneiros. 215. Samuel faz em pedaços o rei Agague. 216. Samuel declara Saul deposto. 217. Davi, menino, é coroado por Samuel. 218. Davi toca harpa para distrair Saul. 219. Combate de Golias e de Davi. 223. Jônatas tenta reconciliar Saul com Davi. 225. Davi foge da casa de Mical. 226. Mical põe um boneco na cama do seu esposo. 227. Terrível vingança de Saul. 229. Davi no meio dos profetas. 230. Os arqueiros de Saul tornam-se profetas. 231. Saul põe-se ele próprio a profetizar. 232. Triste fim do sumo sacerdote Aimeleque. 233. Saul adormecido é surpreendido por Davi. 234. Saul verifica que Davi o poupou. 235. Reconciliação de Saul e de Davi. 236. Nabal recusa deixar-se requisitar por Davi. 237. Deus fulmina Nabal; Davi desposa a sua viúva. 238. Santa morte do profeta Samuel. 239. A sombra de Samuel aparece a Saul. 241. Davi chora Saul e Jônatas. 242. O mais novo dos filhos de Saul se proclama rei. 243. Morte trágica de Isbosete. 244. Davi dança diante da arca. 245. Davi presa do demônio do adultério. 246. Projetos criminosos do rei. 247. O bom capitão Urias é sacrificado. 248. Davi consola Bate-Seba, viúva de Urias. 249. Ferocidade de Davi para com os amonitas. 250. Amnom, filho do rei, desonra sua irmã Tamar. 251. Absalão, outro filho de Davi, fica sabendo do crime de Amnom. 252. Absalão vinga a honra de Tamar. 255. Adonias e Salomão disputam a coroa. 258. Davi obtém o perdão de Deus. 259. Abisague serve de edredom ao rei. [811] CAPÍTULO 13. Glorioso reinado de S. M. Salomão. 260. Salomão se apodera da herança paterna. 261. Adonias, o filho mais velho, inclina-se diante do irmão mais novo coroado. 262. Fim muito próximo de Adonias. 266. Jeová concede a sabedoria ao filho de Davi. 267. Célebre julgamento de Salomão. 268. Salomão edifica um templo a Jeová. 269. Salomão sacrifica em pessoa. 270. Grandes festas dadas ao povo. 271. Deus recompensa o grande construtor Salomão. 272. Poderio marítimo do rei judeu: a frota de Israel. 273. A rainha de Sabá propõe enigmas a Salomão. 274. Troca de presentes régios. 275. Salomão começa a decair: más companhias. 276. Continuação da decadência régia: mulheres demais. 277. O cúmulo da decadência: o rei adora os ídolos. 278. Deus fala pela última vez a Salomão. 279. O amotinador Jeroboão refugia-se no Egito. 280. Salomão adormece enfim para sempre. CAPÍTULO 14. Os dois reinos: Israel e Judá. 281. Demasiada popularidade, ou a fuga de Roboão. 282. Jeroboão é proclamado rei de Israel. 283. O povo ajoelha-se diante dos bezerros de ouro. 284. O pequeno Abias, filho de Jeroboão, está doente. 285. Jeroboão envia a rainha a consultar Aías. 286. A rainha, disfarçada, consulta Aías, o profeta. 287. Jeroboão repousa com seus pais. 288. Por seu lado, Roboão rende a sua alma a Deus. 289. Asa, rei de Judá, depõe a rainha-mãe Maaca. 290. O virtuoso Asa é provado por Deus na sua velhice. 291. Deus anuncia a Jeú que vai proceder com rigor contra o rei de Israel. 292. Zinri extermina o rei Elá e a sua família. 293. [812] O massacre estende-se até os animais de Elá. 294. Fim trágico de Zinri, o exterminador. 295. Acabe, rei de Israel, presta homenagem a Baal. 296. O profeta Elias é alimentado pelos corvos. 297. Milagres de Elias em casa da viúva de Sarepta. 298. Elias ressuscita o filho da viúva sentando-se em cima dele. 299. Os sacerdotes de Baal desafiados a fazer um milagre. 300. Jeová executa para Elias o milagre em que Baal fracassou. 301. Os sacerdotes de Baal lançados na torrente de Quisom. 302. Elias recebe de Jezabel uma mensagem cheia de ameaças. 303. Elias, no deserto, é socorrido por um anjo. 304. O profeta Elias põe-se a caminho do monte Horebe. 305. O monte Horebe entra em dança à aproximação de Deus. 306. Continuação das emoções de Elias: a montanha pega fogo. 307. Elias toma Eliseu como servidor. 308. Continuação das peregrinações do profeta Elias. 309. Acabe derrota o exército de Ben-Hadade, rei da Síria. 310. Ben-Hadade salva a vida escondendo-se num gabinete. 311. Acabe propõe a Nabote comprar-lhe a sua vinha. 312. Nabote, tendo recusado, é morto por ordem de Jezabel. 314. Lamentável acidente ocorrido a Acazias. 315. Acazias vai consultar Baal-Zebube. 316. Elias fulmina os soldados de Acazias. 317. Elias separa as águas do Jordão a golpes de manto. 318. Despedida de Elias do seu fiel Eliseu. 319. Elias, arrebatado ao céu, lança o seu manto a Eliseu. 320. Eliseu torna-se profeta por sua vez. 321. Os garotos de Betel zombam de Eliseu. 322. Os ursos vingadores do profeta. 323. Eliseu convidado a jantar pela sunamita. 324. A sunamita decide o marido a dar um quarto a Eliseu. 325. Eliseu anuncia à sunamita que terá um filho. 326. Primeira edição do milagre da multiplicação dos pães. 327. O bom general Naamã, homem valente, mas leproso. 328. Naamã é curado pela água do Jordão. 329. Eliseu recusa os presentes do general agradecido. 330. Geazi, tendo tomado o dinheiro, apanha a lepra. 331. Milagre pasmoso do machado. 332. Sírios feridos de cegueira. 333. [813] O capitão Jeú se proclama rei de Israel. 334. Jorão e Acazias, primeiras vítimas de Jeú. 335. Coqueteria da velha rainha Jezabel. 336. Jezabel é devorada pelos cães. 337. Atalia extermina a linhagem real de Judá. 338. Joás é criado em segredo pelo sumo sacerdote Joiada. 339. Morte de Atalia, aos cento e seis anos. 340. Milagre póstumo de Eliseu. 342. O velho Tobias fica cego. 343. Tobias filho e o anjo Rafael à pesca. 344. Sara, filha de Raguel, sete vezes viúva. 345. Tobias filho cura a cegueira de seu velho pai. 346. Tobias filho desposa Sara e afugenta o diabo Asmodeu. 347. Piedade exemplar de Ezequias, rei de Jerusalém. 348. Ezequias sitiado é socorrido pelo anjo exterminador. 349. Desagradável fim do profeta Isaías. 350. A cidade de Betúlia privada de água. 351. A viúva Judite se apresenta em casa de Holofernes. 352. Holofernes é imolado por Judite. 353. Alegre libertação de Betúlia. 354. O profeta Jeremias, monologuista lamentativo. 355. Nabucodonosor destrói o templo de Jerusalém. CAPÍTULO 15. Durante e depois do cativeiro. 356. Milagre dos três jovens hebreus na fornalha. 357. Sonho de Nabucodonosor explicado por Daniel. 358. O rei Nabucodonosor, precursor dos vegetarianos. 359. Daniel na cova dos leões. 361. A casta Susana, surpreendida no banho. 362. Os dois velhos fazem condenar Susana. 363. Daniel convence de calúnia os dois velhos. 364. Execução dos dois velhos caluniadores. 365. Daniel demonstra a impostura dos sacerdotes de Bel. 366. Daniel envenena o dragão dos babilônios. 367. Habacuque, levado pelos cabelos, dá a sopa a Daniel. 368. A caca passada no pão, café da manhã do profeta Ezequiel. 369. Ezequiel inventa um novo modo de mudança. 370. O profeta Ezequiel inventa a polca dos ossos de mortos. 371. [814] Assuero repudia Vasti e desposa Ester. 372. Orgulho de Hamã, e bela atitude de Mardoqueu. 373. Ester pede a Assuero que venha jantar em casa dela com Hamã. 374. Mardoqueu é conduzido em triunfo pelo próprio Hamã. 375. Hamã é acusado pela rainha de ter querido a sua morte. 376. Enforcamento de Hamã na forca que ele destinava a Mardoqueu. 377. Jó, imensamente rico, é o mais feliz dos homens. 378. Jó torna-se de repente o homem mais pobre do mundo. 379. Paciência inalterável de Jó no meio das dores. 380. Deus recompensa Jó restituindo-lhe os seus bens. 381. Jonas, enviado por Deus a Nínive, safa-se para Társis. 382. Tempestade no mar sobre o navio em que está Jonas. 383. Jonas, lançado à água, é engolido por uma baleia. 384. Tristes reflexões de Jonas no interior da baleia. 385. Jonas é rejeitado pela baleia. 386. Pregação de Jonas em Nínive. 387. O milagre do kikajon no deserto. 388. Lição dada por Deus a Jonas. 389. Alexandre e o sumo sacerdote Jadua. 390. Instauração do governo teocrático. 391. Heliodoro vem pedir dinheiro ao sumo sacerdote Onias. 392. Terrível sova no traseiro administrada a Heliodoro por dois anjos. 393. O sumo sacerdote Onias intercede por Heliodoro. 394. Suplício dos sete Macabeus e de sua mãe. 395. O levita Matatias dá o sinal da revolta. 396. Grande vitória de Judas Macabeu, seu filho. 397. Como um elefante foi fatal a Eleazar Macabeu. 398. Simão Macabeu é assassinado pelo seu genro Ptolomeu. 399. Arbitragem de Pompeu entre os últimos Macabeus. 400. Fim da teocracia: reinado de Herodes, o Grande. Pequeno glossário das palavras de TaxilEstas palavras de Taxil reaparecem de ponta a ponta do livro. A maior parte vem traduzida para o português, e todas estão reunidas aqui para que o leitor veja o francês que está por trás delas; no texto, uma nota explica cada uma onde aparece pela primeira vez, e de novo só onde tem um sentido particular. papa Bon Dieu — O nome que Taxil dá a Jeová de ponta a ponta do livro, no texto “papai Bom Deus” (“papa”, em português, seria o Papa): um pai bonachão com quem se fala familiarmente, não o Deus dos teólogos. le divin pigeon, le pigeon-canard — O Espírito Santo, que a arte cristã representa como pomba; Taxil faz dele um “pigeon”, o pombo comum do pombal e da rua, e não a “colombe” das imagens de igreja: no texto “o divino pombo”; e um pombo-pato, pois “canard”, pato, designa também em francês uma notícia falsa; esse segundo nome fica em francês, “pigeon-canard”, para que os dois sentidos permaneçam. fumiste, fumisterie — O “fumiste” é o fumista, que instala os fogões e lhes limpa a fuligem. No vaudeville “La Famille du fumiste” (1840), um fumista enriquecido mistifica todo mundo repetindo “c’est une farce de fumiste”, “é uma peça de fumista”; desde então, a palavra designa também o mistificador que mantém a cara séria, no texto “farsante”. Uma “fumisterie” é uma tal mistificação, no texto “farsa”. Taxil dá esse nome a si mesmo, a Jeová, ao Espírito Santo e aos autores da Bíblia. Alphonse — Um homem sustentado por uma mulher, um rufião; a palavra, já registrada por Delvau em 1866, foi popularizada por “Monsieur Alphonse”, comédia de Dumas filho encenada em 1873, cujo herói vive do dinheiro da amante. É o título que Taxil dá habitualmente a Abraão; no texto “Alphonse”, sem mudança. avoir la berlue — Familiar: ver o que não existe, ver as coisas tortas; a “berlue” é, originalmente, uma perturbação da vista que faz ver objetos ausentes. No texto “ter a vista turva”. battre à plate couture — Vencer completamente; no sentido próprio, o alfaiate rebate as costuras e as achata batendo nelas. No texto “batidos à costura chata”. blague, blagueur — Uma “blague” é uma história inventada e contada com toda a seriedade, no texto “patranha”; o “blagueur” é quem conta tais histórias, no texto “patranheiro”. bocage, les prophètes des bocages — Um “bocage” é um pequeno bosque. É a palavra da Bíblia de Ostervald onde se trata do culto da deusa Aserá; “les prophètes des bocages” são os seus profetas. No texto “bosque”, como na Almeida (“Também Acabe fez um bosque”), e “os profetas dos bosques”. boulotter — Familiar: comer; no texto “papar”, e o substantivo “boulottage”, “papança”. le bout de l’oreille — “Montrer le bout de l’oreille”, mostrar a ponta da orelha, é trair-se sem querer, como o asno de La Fontaine vestido com a pele do leão, reconhecido por uma ponta de orelha; Taxil tira daí “la bévue du bout de l’oreille”, no texto “o disparate da ponta da orelha”: o erro grosseiro que denuncia o autor. caboche — Familiar: a cabeça; no texto “cachola”. casser sa pipe — Familiar: morrer; no texto palavra por palavra, “quebrar o cachimbo”. ce n’est rien de le dire — Fórmula familiar de insistência: é dizer muito pouco, a coisa vai muito além. No texto “dizê-lo não é nada”. Charenton — O asilo de alienados de Charenton, perto de Paris, cujo nome servia correntemente, em francês, para designar a casa de loucos; no texto “Charenton”, sem mudança. chiper — Familiar: furtar coisas pequenas; no texto “surripiar”. co-beau-père — Formado sobre “beau-père”, sogro: Jorão, filho de Josafá, tinha desposado Atalia, filha de Acabe, de modo que cada um dos dois reis era sogro de um dos filhos do outro. No texto “co-sogro”, formado do mesmo modo sobre “sogro”. cocu, cocufier — Familiar: o “cocu” é o marido enganado pela mulher, e “cocufier” um homem é fazê-lo “cocu”; em francês antigo, “cocu” designava também o cuco. No texto “corno” e “cornear”. cornichon — O pepino pequeno em conserva de vinagre, no texto “pepininho”, e, por zombaria, o tolo. craque — De “craquer”, estalar, que queria dizer também gabar-se, mentir: uma mentira ousada contada como verdade; no texto “peta” (a “bourde” é “balela”). crever les yeux — Familiar: saltar aos olhos, ser de todo evidente; Taxil o emprega pela primeira vez logo depois dos olhos furados de Sansão. No texto palavra por palavra, “furar os olhos”. dame — Exclamação que reforça uma resposta: claro! A Academia Francesa vê nela a abreviação de “Notre-Dame”, Nossa Senhora; Littré, o antigo “dame Dieu”, Senhor Deus; no tempo de Taxil, provavelmente já não era uma praga. No texto “Pois claro!”. dans les grands prix — Locução familiar da época, que os dicionários de gíria citam sem defini-la; a julgar pelos exemplos que dão (“il est plumé dans les grands prix”, está depenado nos grandes preços), quer dizer: em grande, no mais alto grau; “prix” é aí o preço que se paga, não o prêmio. No texto “nos grandes preços”. dos-vert — O rufião, em gíria, no texto “costas-verdes”: o rufião chamava-se “maquereau”, cavala, e a cavala tem o dorso verde. écoper — Esgotar a água de um barco com o vertedouro, a tarefa mais molhada de bordo: daí, provavelmente, ser quem recebe o castigo; no texto “pagar”. écrabouillade — Substantivo formado sobre “écrabouiller”, familiar: esmagar, reduzir a papa; os dicionários não o registram. Em Taxil: uma derrota em que tudo é esmagado. No texto “esborrachada”. épater — Familiar, literalmente “quebrar a pata”, derrubar: deixar estupefato; no texto “pasmar”, “pasmado”, e “épatant”, “pasmoso”, “épatamment”, “pasmosamente”. excusez du peu — Exclamação irônica diante do que é excessivo, como quem pede desculpa por ser tão pouco. No texto “Desculpai o pouco!”. ficelle — Gíria: homem astuto, matreiro, que conhece todos os cordéis (os meios ocultos, por alusão aos cordéis que fazem mover as marionetes); “avoir l’air ficelle”, ter ar de esperto. No texto “cordel”. gaga — O velho que voltou à infância; a palavra imita o seu balbucio, “ga-ga”. No texto “gagá”, a mesma palavra, que o português tomou ao francês. gober, se gober — “Gober” é engolir de uma vez, sem mastigar; familiarmente, “gober quelqu’un” é enrabichar-se por alguém, no texto “babar-se por”, e “se gober”, ter alta opinião de si mesmo, no texto palavra por palavra, “engolir-se”. hommesse — A palavra da Bíblia de Ostervald em Gênesis 2:23: um feminino tirado de “homme”, homem, como o texto hebraico tira “ishshah”, mulher, de “ish”, homem. No texto “varoa”, a palavra da Almeida no mesmo versículo, tirada de “varão” do mesmo modo. je t’en fiche — Exclamação familiar: de modo nenhum, nem pensar, dita como uma oferta zombeteira; “ficher” é o substituto atenuado do grosseiro “foutre”. No texto “eu te dou disso!”. kikajon — Palavra hebraica que a Bíblia de Ostervald deixa tal qual em Jonas 4:6-10: a planta que Deus faz crescer para dar sombra a Jonas; outras Bíblias traduzem “rícino” ou “aboboreira”. No texto “kikajon”, sem mudança. parbleu, palsambleu, jarnidieu, sapristi — Jurar por Deus era punido como blasfêmia; mudou-se a palavra e conservou-se a praga: “bleu”, azul, ocupa o lugar de “Dieu”, Deus (“parbleu”, por Deus; “palsambleu”, pelo sangue de Deus), “jarni” engole “je renie”, renego, e “sapristi”, como “sacristi”, é “sacré”, sagrado, deformado. No texto, as três primeiras vão palavra por palavra, para que se veja como cada praga é feita: “por azul!”, “pelo sangue de azul!”, “renego de Deus!”; “Sapristi!” fica em francês. loufoc, maboulisme — “Loufoc”, que habitualmente se escreve “loufoque”, no texto “maluco”, é “fou”, louco, disfarçado em largonji, gíria parisiense que joga para o fim a primeira letra da palavra e põe um l no seu lugar — “fou” dá “louf” — e depois acrescenta a terminação que soa melhor. “Maboulisme”, no texto “doidice”, é formado sobre “maboul”, louco, gíria militar trazida da Argélia, do árabe “mahbûl”, desmiolado. marmouset — Uma figurinha grotesca: a palavra da Bíblia de Ostervald em 1 Samuel 19:13 para os “terafim” que Mical deita na cama de Davi. No texto “boneco”. mazette — Primeiro um cavalo ruim, depois um jogador desastrado; como exclamação, no texto “Puxa!”: o espanto diante do que sai do comum. messire — Antigo título de honra dos senhores e das pessoas de qualidade; Taxil o dá por zombaria a Adão, a Jeová e a Satanás. No texto “messire”, sem mudança. mettre en capilotade — A “capilotade”, palavra tomada ao espanhol “capirotada”, é um guisado de sobras de carne bem picadas; “mettre en capilotade” é fazer em pedaços, moer de pancadas. No texto “reduzir a picadinho”. moutard — Familiar: uma criança pequena, nome dado com uma rudeza afetuosa; no texto “pirralho”. muid — Antiga medida de capacidade, que variava conforme a região e a mercadoria: em Paris, 268 litros para o vinho, perto de 1.900 para o trigo. No texto “muid”, sem mudança. n, i, ni, fini — Fórmula familiar, habitualmente “n, i, ni, c’est fini”: acabou-se, não se fala mais nisso; soletra-se “ni” para rimar com “fini”, acabado. No texto fica em francês, sem mudança. nom d’une pipe — Praga familiar: “Nom de Dieu !”, “Nome de Deus!”, abrandado com um cachimbo posto no lugar de Deus, para não blasfemar. No texto palavra por palavra, “Nome de um cachimbo!”. normand — Em sentido figurado: astuto e evasivo, que não responde nem sim nem não, segundo a fama dada aos normandos (“une réponse de Normand”, uma resposta de normando). No texto “normando”. palladiste — Adepto do paladismo, a maçonaria luciferiana que o próprio Taxil tinha inventado; no texto “paladista”. pékin — Gíria militar: o civil, quem não veste farda, nome dado com o desprezo do soldado; no texto “paisano”. perdre la carte — Familiar: perturbar-se, perder a cabeça, já não saber o que se diz nem o que se faz. No texto “perder o mapa”. pied de nez — Literalmente “pé de nariz”: o gesto zombeteiro que figura um nariz alongado, a mão estendida, o polegar na ponta do nariz. No texto “nariz comprido”. piquer dans la marmite — Segundo 1 Samuel 2:12-17: os filhos de Eli, sacrificadores, tomavam para si tudo o que o garfo tirava da marmita do sacrifício; Taxil volta a isso a propósito dos sacerdotes que se servem das ofertas. No texto “espetar na marmita”; “marmita” é também a palavra da Almeida nesse passo. Polichinelle — O bufão corcunda vindo da farsa napolitana, e a marionete que o representa. “Le secret de Polichinelle” é um segredo que todo mundo conhece; “avoir un polichinelle dans le tiroir”, ter um polichinelo na gaveta, é estar grávida. No texto “Polichinelo”. pour le quart d’heure — Locução antiquada: por ora. No texto “pelo quarto de hora”. prendre la poudre d’escampette — Familiar: pôr-se em fuga; “escampette” é um diminutivo de “escampe”, a fuga, tirado de “escamper”, escapulir-se. No texto “tomar o pó de escapada”. à la queue-leu-leu — Um atrás do outro, em fila, como andam os lobos, segundo Littré; “leu” é a forma picarda de “loup”, lobo. A locução dá nome também a uma brincadeira de crianças em que cada uma segura a aba da veste da que vai à frente, como os sírios cegos que Eliseu leva a Samaria. No texto “um atrás do outro, como os lobos”. ramolli — Familiar: diz-se do velho cujo cérebro amoleceu, que perde o juízo; no texto, literalmente, “amolecido”, e “ramollissement”, “amolecimento”. rendre des points — Mostrar-se muito superior a alguém; nos jogos, o mais forte dá pontos ao mais fraco, isto é, lhe concede uma vantagem. No texto “dar pontos a”. rigoler, rigolo — Familiar: rir, divertir-se; é um verbo antigo, que já na Idade Média queria dizer folgar. Taxil emprega o verbo uma só vez, em “rigolait comme une tourte”, no texto “ria como uma torta”; “rigolo”, no feminino “rigolotte”, diz-se do que faz rir, e aparece três vezes, no texto “engraçado”. sacré — Posto depois do nome, “sacré” quer dizer santo; posto antes, é também uma praga familiar, “maldito”. Taxil joga com os dois sentidos: “un sacré Jéhovah”, “la sacrée Bible”, “la sacrée boîte”, a arca. No texto “sagrado” depois do nome e, antes dele, onde se ouve a praga, “bendito”, que tem os mesmos dois sentidos (“um bendito Jeová”, “a bendita caixa”). saint-frusquin — O “frusquin” era a bagagem e o dinheiro do pobre; “saint”, santo, lhe foi acrescentado por zombaria, como se esses trapos fossem relíquias: tudo o que se possui. No texto “santo farnel”. se mettre le doigt dans l’œil — Familiar: enganar-se redondamente; Taxil põe também o Messias no lugar do dedo: “se sont fourré… leur Messie dans l’œil”, “têm o seu Messias enfiado no próprio olho”. No texto “meter o dedo no olho”. se payer la tête de quelqu’un — Familiar: zombar de alguém, divertir-se à custa dele. No texto palavra por palavra, “regalar-se com a cabeça de alguém”. sieur — Título antigo, que ficou sendo o dos atos jurídicos e dos tribunais (“le sieur X”); Taxil o dá por zombaria aos homens da Bíblia, como dá “Mme” às mulheres deles. No texto “sr.” (no plural “srs.”), com minúscula, como nos jornais: “o sr. Azazel”. sou, pour deux sous — O “sou”, moeda miúda, valia cinco cêntimos, a vigésima parte do franco; “pas méchant pour deux sous” quer dizer: nem um pouco mau. No texto “sou”, sem mudança: “não era mau por dois sous”. tailler une bavette — Familiar: conversar longamente; a “bavette” é o babador das criancinhas, e a palavra é da mesma família de “baver”, babar, que no francês antigo queria dizer também tagarelar. No texto “cortar um babador”. taper dans l’œil — Familiar: agradar vivamente, e logo ao primeiro olhar. No texto “bater no olho”. Tartarin, Tarascon — Tartarin é o herói fanfarrão do romance de Alphonse Daudet de 1872, e Tarascon a sua cidade: na França, ser de Tarascon é exagerar sem medida. No texto os dois nomes ficam como estão. tirer l’échelle — Familiar: “après cela, il faut tirer l’échelle”, depois disso é preciso puxar a escada: não acrescentemos mais nada, ninguém fará melhor; segundo Littré, quem subiu fez o trabalho, e ninguém mais precisa subir depois dele; diz-se também por ironia. No texto “puxemos a escada” e “puxar a escada”. tirer l’échelle — Não acrescentemos mais nada, ninguém fará melhor; segundo Littré, quem subiu fez o trabalho, e ninguém mais precisa subir depois dele. No texto “puxemos a escada”. tohu-bohu — O hebraico “tohu wa-bohu” de Gênesis 1:2, “sem forma e vazia”: o caos de antes da criação e, familiarmente, uma grande desordem. No texto “tohu-bohu”, sem mudança. toupet — A mecha de cabelo sobre a testa e, em sentido figurado, o atrevimento descarado: “avoir du toupet” é ousar sem corar. No texto “topete”, que em português tem os mesmos dois sentidos, a mecha e o atrevimento. trac — Familiar: o medo súbito diante do que se receia, e em particular o que se apodera do ator no momento de entrar em cena; no texto “tremedeira”. As duas outras palavras de Taxil para o medo, ambas de gíria, “frousse” e “venette”, são no texto “susto” e “sobressalto”. trou-de-balle — Chulo: o ânus; no texto “olho do cu”. truc — Familiar: uma astúcia; no teatro e entre os saltimbancos, o artifício oculto que produz o efeito. No texto “truque”. tuile — A telha do telhado e, em sentido figurado, familiar: uma desgraça súbita e imprevista. No texto “telha”. veine, veinard — A “veine” é o veio do mineiro e, daí, uma sequência de acasos felizes, no texto “sorte” (e “en veine de”, “em veia de”); o “veinard” é o homem que tem sorte, dito com um pouco de inveja, no texto “felizardo”. verge — A varinha, o bastão (a vara de Arão) e, em anatomia, o membro viril; Voltaire, que Taxil cita, joga com os dois sentidos a propósito do cetro de Judá (Gênesis 49:10). No texto “vara”, como na Almeida, e “verga” para o membro e no jogo de Voltaire. zut — Exclamação de irritação ou de recusa, dita em lugar de uma praga grosseira; não nomeia nada de sagrado. No texto “bolas” (“bolas para…”). Sobre esta ediçãoAs passagens bíblicas citadas neste livro nem sempre coincidirão palavra por palavra com a Bíblia do leitor. Taxil citava sobretudo a Bíblia de Ostervald, a Bíblia protestante francesa de Genebra revista por Jean-Frédéric Ostervald (1744), e retocava aqui e ali a sua redação para obter um efeito cômico; em outros trechos, seguia, em vez dela, a tradução que Voltaire dá em La Bible enfin expliquée (1776). Esta tradução segue o francês dele tal como ele o escreveu, na linguagem da Almeida Revista e Corrigida, em vez de substituí-lo pelo texto de uma Bíblia em português. O capítulo e o versículo levarão o leitor à passagem certa, mas as palavras muitas vezes diferirão das da Almeida ou de qualquer outra Bíblia em português, e com frequência a graça está justamente nessa diferença. Onde ela importa, uma nota do editor a assinala. Alguns dos livros que ele cita não constam das Bíblias protestantes, como a Almeida, mas sim das católicas: Tobias, Judite, a Sabedoria, os dois livros dos Macabeus, e ainda os capítulos 13 e 14 de Daniel, as histórias de Susana e de Bel e o Dragão. As Bíblias protestantes, incluída a de Ostervald, omitem esses livros ou os relegam para os apócrifos; quanto a esses livros, Taxil segue a numeração das Bíblias católicas, mas cita Tobias nas próprias palavras dos apócrifos de Ostervald. Convenções desta edição: as citações da Bíblia vêm em itálico entre aspas angulares « » (a edição de 1904 as imprime em redondo); as palavras que Taxil põe em itálico vêm sublinhadas, para que se distingam das citações; as notas do editor, em cor e entre parênteses, são acréscimos de 2026 e, como o capítulo Sobre Léo Taxil, o glossário e o presente capítulo, não fazem parte do texto de 1904; as palavras que uma nota explica ficam sobre um leve sombreado, para que o texto de Taxil conserve a sua própria tinta. Numa nota, “fr.” significa “francês” e introduz as palavras francesas do próprio Taxil. A tabela da concordância, antes do glossário, remete a cada ilustração. A obra de Léo Taxil (1854-1907) e os desenhos de Frid’Rick estão em domínio público. Fontes do capítulo Sobre Léo Taxil. Documentos da época: as Confessions d’un ex-libre-penseur de Taxil (1887) e o seu prefácio a La France maçonnique (1888); Le Diable au XIXe siècle (1892-1895); a encíclica Humanum Genus (1884) no texto do Vaticano; a sua confissão de 19 de abril de 1897 tal como a imprimiu Le Frondeur de 25 de abril de 1897, na tradução inglesa integral de Alain Bernheim, A. William Samii e Eric Serejski (Heredom, vol. 5, 1997), reproduzida pela Grande Loja da Colúmbia Britânica e Yukon; Arthur Edward Waite, Devil-Worship in France (1896); William Vogt, La Grande Duperie du siècle (1904); e as confissões de Taxil citadas pela National Magazine (Boston, 1906). Estudos: Robert Rossi, Léo Taxil (1854-1907), du journalisme anticlérical à la mystification transcendante (Marselha, 2015), a biografia de referência; Eugen Weber, Satan franc-maçon. La mystification de Léo Taxil (Paris, 1964); Massimo Introvigne, Enquête sur le satanisme (Paris, 1997); Élisabeth Ripoll, “Léo Taxil ou le feuilleton de l’anticléricalisme” (1997); Fabrice Hervieu, “Catholiques contre francs-maçons: l’affaire Léo Taxil”, L’Histoire nº 145 (1991); e Michel Petheram, “Diana Unveiled: A Hoax against the Church” (Free Inquiry, 2025). As edições soviéticas estão registradas no Dicionário do ateísmo (Moscou, 1985) e no catálogo da biblioteca nacional de Moscou. A maior parte dessas fontes é citada nos artigos da Wikipédia sobre Taxil, em francês e em inglês, e no artigo em russo sobre La Bible amusante, que registra as edições soviéticas. As notas sobre palavras e locuções seguem os dicionários do século de Taxil: Littré, o Grand dictionnaire universel de Larousse e, para a gíria parisiense, o Dictionnaire de la langue verte de Delvau. Quando a origem de uma palavra é controversa, a nota o diz, em vez de tomar partido. Os números entre colchetes, como [5], são os números de página da edição de 1904: cada um marca o lugar onde a página começa e, nesta tradução, fica, tanto quanto possível, no mesmo lugar da frase. |